domingo, 9 de junho de 2019

558 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da cozinheira da herdade do Seixo e, os cães lava loiça
A herdade do Seixo situa-se na Freguesia de Capelins, tinha o seu Monte que, já consta nos Registos Paroquiais desta Freguesia, nos finais do ano de 1600, sempre conhecida na posse da mesma Família, até aos fins do século XIX, com o apelido de "Jorge"!
Em Outubro de 1900, durante as sementeiras, trabalhavam na herdade do Seixo, mais de trinta homens e mulheres, na agricultura, guardadores de gado, nos trabalhos do Monte, criadas de casa, cozinheiras, lavadeiras e outras! Muitos trabalhadores e trabalhadoras eram afilhados e afilhadas da casa, dos lavradores ou dos seus filhos, entre elas, uma cozinheira chamada Maria Joana, filha de um casal de Cabeça de Carneiro que, ali tinham sido criados, a qual, era afilhada do Manoel Jorge, o filho mais velho dos lavradores!
A Maria Joana, era uma rapariga muito arisca, de nariz empinado, tinha metido na cabeça que também era lavradora, devido à proteção que tinha por parte do padrinho, por isso, já tinha vinte e oito anos e, ainda estava solteira, porque, quem ela queria para casar, não a queria e, aqueles que a queriam, ela não os queria, porque eram pobres, era muito difícil de aturar, queria mandar nas outras criadas e criados e, de verdade, fazia só o que queria!
A Maria Joana, era cozinheira por gosto, não queria outros trabalhos e, tinha muito jeito para a cozinha, sendo ela a cozinheira da casa, mas metia-se em todos os assuntos, relacionados com os trabalhos internos do Monte, só não se metia com a lavradora velha que, impunha muito respeito!
Nos trabalhos da sementeira andavam cerca de doze homens que, nessa altura trabalhavam nas terras perto do Monte, então, de madrugada deixavam as panelas de barro com as sopas de grão, feijão, ou couve para a Maria Joana cozinhar ao lume, tinha de olhar por elas, se ferviam, se tinham caldo para não secar ou queimar e, temperar de sal e de azeite se fosse o caso e, arredar do lume quando estivessem cozidas!
Ao meio dia, os homens chegavam à casa dos ganhões, uns andavam a de comer, outros não, migavam pão para uma tigela de barro, deitavam as sopas por cima do pão, comiam tudo e deixavam a tigela e as panelas para a Maria Joana lavar, para servirem à noite ou no dia seguinte, era sempre a mesma rotina!
Quando a sementeira estava a meio, a Maria Joana desapareceu do Monte do Seixo, mas depressa se soube do seu paradeiro, tinha ido à Aldeia de Cabeça de Carneiro, visitar a mãe, já idosa, porque tinham vindo dizer-lhe que, ela estava nas abaladas! Era verdade que, a ti Maria Rosa estava muito doente mas, longe das abaladas, no entanto, a Maria Joana ficou com a mãe mais tempo do que esperava!
Os jornaleiros da herdade do Seixo continuaram a ir jantar (almoçar) e alguns a cear (jantar) ao Monte, as sopas que, na ausência da Maria Joana, eram cozinhadas pela ti Apolónia, uma mulher de Montes Juntos que, também cozinhava bem, mas não tão bem como a Maria Joana com a mão mais pesada para o sal, dando mais sabor às sopinhas! Alguns homens, enquanto comiam, iam fazendo os seus comentários, diziam que, as sopas faziam diferença e desejavam que a Maria Joana voltasse depressa, porque tudo estava pior, até a lavagem da loiça fazia diferença, oh se fazia, alguns estavam desconfiados que a tigela deles, não era lavada por esta cozinheira!
Um dia, a conversa ficou acesa até que, o escamel do Monte, não se conteve e saiu em defesa da ti Apolónia, dizendo que, a loiça agora era bem lavada, a Maria Joana é que nunca a lavava! Alguns jornaleiros não gostaram do que ouviam, troçaram dele e comentaram: Então não se vê a loiça bem lavadinha, pela Maria Joana, até brilha! Porém, o escamel continuou: É como lhe digo, a Maria Joana não lava a loiça, assim que vocês viram as costas põe as tigelas todas no chão, dá um assobio dobrado, chama os cães e são eles que lambem as tigelas, ficam tão bem lambidas que até brilham, deve ser da baba deles, do piloto é de certeza! Depois, é só guardá-las e vocês comem nelas, não avistam a água!
Não sejas mentiroso Miguel! Gaiato dum cabresto, olha do que havia de se lembrar, para meter nojo à gente! Deixa que, quando ela voltar de Cabeça de Carneiro e souber disso, arranca-te as orelhas e põe-te na rua! Oh se põe!
Ah não acreditam em mim? Então, quando ela voltar, depois do jantar (almoço) fingem que se vão embora para o trabalho, mas ficam aí atrás do cabanão, assim que ela assobiar aos cães, vocês vão ver com o seus olhos os cães a lavar a loiça!
Os homens voltaram ao trabalho e, o tema da conversa nessa tarde foi a lavagem da loiça pela Maria Joana, não acreditavam no Miguel, mas ao mesmo tempo tinham dúvidas, assim, pelo sim pelo não, combinaram que iam tirar isso a limpo!
Passados dois dias, a Maria Joana já estava no seu posto de trabalho, os jornaleiros, ao meio dia, lá estavam a jantar (almoçar), quando acabaram, fingiram que iam embora, mas ficaram atrás de um cabanão de onde viam a porta da casa dos ganhões e, viram logo a Maria Joana a colocar as tigelas na rua, em fila, quando acabou, meteu dois dedos na boca e deu um assobio dobrado! Apareceram logo os cães do Monte que, começaram a lamber as tigelas com sofreguidão até ficarem a brilhar! A Maria Joana, veio apanhá-las, para as guardar, mas já o ganhão, o ti Bento estava na sua frente a questioná-la:
Ti Bento: Olha lá, Maria Joana, tu não tens vergonha? Isto é coisa que se faça?
Maria Joana: Oh ti Bento, que conversa é essa? Veja lá como fala comigo! O que é que eu fiz de mal?
Ti Bento: Ainda perguntas? Assistimos todos à lambedura dos cães e sabemos que fazes sempre isto! Ou não te lembras que nunca lavas a loiça, são os cães que a lavam!
Maria Joana: Ah é isso? Então e qual é o mal? Quantas vezes eu já comi em tigelas lambidas por cães e gatos, nunca me fez mal nenhum! Olha se estão finos!
Ti Bento: Pois olha, se tu comes nas tigelas lambidas pelos cães e gatos, a gente não! Ficas a saber que vou fazer queixa ao lavrador!
Maria Joana: Oh ti Bento, vá, vá, mas já vai tarde, ele já sabe há muito tempo! Deixe-se disso e vão mas é trabalhar, senão, eu é que vou contar ao meu padrinho que me ofendeu e, me faltou ao respeito!
Ti Bento: Quem nos faltou ao respeito foste tu, mas deixa lá, Deus não se vai esquecer disto!
A Maria Joana já não respondeu, deu uma gargalhada e seguiu para casa!
O ti Bento e os outros jornaleiros foram para o trabalho, comentando o sucedido e jurando que faziam uma pirraça (partida), para lhe servir de lição!
Uns diziam: Oh ti Bento e se lhe pusermos um lacrau na cama?
Ti Bento: Não, isso é de mais, mas merecia e que ele lhe picasse no tal sítio!
Oh ti Bento, e se lhe enchermos a cama de formigas rabitas?
Ti Bento: Não, mas era isso que ela merecia e que lhe picassem no tal sítio!
Oh ti Bento, e se lhe enchermos a cama de escravelhos mal cheirosos, ou de gafanhotos, ou então um rato, um rato é que era bom! Diziam outros!
Ti Bento: Não, mas ela merecia e que o rato lhe roesse no tal sítio!
Deixem lá isso comigo, a parir de agora, bico calado!
Então, o que lhe fazemos ti Bento? Diga lá! Perguntaram todos!
Já lhe disse que acabou a conversa, bico calado, um dia vão saber! Disse o ti Bento!
A partir dali, mais ninguém falou no assunto!
A pirraça à Maria Joana, parecia estar esquecida, porque, devido às circunstâncias só no ano seguinte se concretizou!
Como o ti Bento, tinha uma irmã, a ti Antónia do Seixo que, era criada lá no Monte e conhecia o caso da lavagem da loiça pelos cães, ele pediu-lhe para o ajudar a fazer a pirraça à Maria Joana , mas tinha de ser em grande segredo, porque se os lavradores soubessem, podiam ser despedidos!
A irmã do ti Bento fazia tudo pelo irmão e, prontificou-se a ajudá-lo, combinaram que ela ia pôr na cama da Maria Joana, debaixo da roupa, um saco da ração cheio de favas secas, quando elas tivessem na maior força de brotoeja (alergia), ela abafava o saco e ia batendo a roupa da cama para sair o pó que causava a brotoeja e deixava-o estar lá o máximo de tempo possível, sem ninguém desconfiar de nada, muito menos a Maria Joana e os lavradores!
A ti Antónia do Seixo, nem hesitou, disse-lhe logo que fazia isso, era só saber o dia que a Maria Joana estivesse algumas horas fora do Monte e, assim foi!
Na dia em que as favas estiveram abafadas na cama da Maria Joana, à noite mal se deitou e começou logo a sentir uma comichão infernal, não demorou e teve de se levantar, começou a coçar, coçar, coçar, até arranhar a barriga e ficar em sangue! Ainda pensou ser brotoeja, mas tinha a certeza que nesse dia, não tinha estado em nenhum lugar onde havia favas ou cevada, por isso, veio-lhe à ideia que seria alguma moléstia não identificada que se tinha pregado no sangue! Passou a noite em pé a coçar a barriga e, de manhã, não estava melhor, já tinha a barriga inchada! Uma criada foi dizer à lavradora velha o que se passava com a Maria Joana! A lavradora deu ordens para a levarem até ela, olhou as manchas vermelhas, os arranhões da coçadeira e disse: É brotoeja, podes ir!
A Maria Joana, foi tratada com vinagre e outras mesinhas e, começou logo a melhorar, deu voltas e mais voltas à cabeça a tentar lembrar-se onde tinha estado para apanhar a brotoeja, mas não conseguiu encontrar nenhuma explicação, nem desconfiou de nada!
Passaram uns dias e, na noite do baile em Montes Juntos, como sempre, o casão estava cheio e, também lá estavam os criados e criadas do Monte do Seixo, incluindo a Maria Joana! Nesse tempo, nos intervalos das danças quem tinha jeito ia ao centro do casão a cantar ou declamar poemas, geralmente quadras, era um momento muito apreciado e aguardado por toda a gente!
O ti Bento, era um dos poetas populares cujos versos eram muito apreciados, cantava e declamava quadras em todos os bailes, também, nessa noite, lá estava ele a declamar e a cantar várias quadras, por fim, fixou os olhos na Maria Joana que, estava sentada na fila da frente e cantou a seguinte quadra:
Viva a nossa cozinheira!
Pela loiça bem lavada!
Apanhou uma coçadeira!
Que ficou de barriga inchada.
Quando o ti Bento terminou, ouviu-se, imediatamente, uma gargalhada geral e, um grande burburinho no casão do baile, eram as pessoas que, ainda não sabiam o caso da loiça da Maria Joana lambida pelos cães a inteirarem-se da situação, toda a gente ficou a saber e, começaram a surgir tantos comentários que, as Maria Joana teve de se ir embora mais cedo do baile, sobre grande chacota!
O ti Bento fez justiça, a Maria Joana, sofreu grande humilhação, deixou de frequentar os bailes durante algum tempo, perdendo a oportunidade de se mostrar a eventuais pretendentes! Ainda foi fazer queixas do ti Bento ao padrinho, mas este, sabendo como ela era, não lhe deu ouvidos!
A Maria Joana, nunca soube como apanhou a brotoeja e acabou por casar dois anos mais tarde, já com trinta anos, mas com um homem viúvo, pai de dois filhos e, não era rico, aconteceu tudo ao contrário do que ela tanto procurava,mas de forma errada! Depois, ainda foi mãe de dois filhos, mas parece que, nunca foi muito feliz devido à sua maneira de ser que, nunca mudou, até ao fim dos seus dias.
Fim
Era aqui o Monte do Seixo - Capelins  



segunda-feira, 3 de junho de 2019


557 - Terras de Capelins 
A lenda da reconquista da vizinha Villa Medieval de Monsaraz em 1384
A lenda da Reconquista do Castelo de Monsaraz com a Ajuda de Seis Vacas 
Após o falecimento do rei D. Fernando, em 22 de Outubro de 1383, a herdeira direta do trono de portugal era a sua legítima filha Dª Beatriz que, estava casada com D. João I de Castela, logo a Nobreza portuguesa ficou alarmada com o perigo do Reino de Portugal ser anexado ao reino de Castela, surgindo a chamada crise política de 1383-1385! 
Algumas Praças portuguesas apressaram-se a aclamar Dª Beatriz, colocando-se a seu lado, entre essas Praças foi a de Monsaraz, cujo Alcaide era D. Gonçalo Rodrigues de Sousa! 
Como sabemos, a situação política levou outro rumo, com a aclamação do Mestre de Avis que, veio ser o rei D. João I, assim, as Praças que estavam ao lado de Dª Beatriz desistiram e aclamaram, imediatamente D. João I, mas D. Gonçalo Rodrigues de Sousa, sabia que, os castelhanos mais cedo ou mais tarde, entrariam em Portugal e, pensou que, facilmente tomavam este Reino, por isso, tentou resistir e, não entregou o Castelo de Monsaraz ao nosso rei D. João I! 
O rei de Portugal, em 1384, chamou D. Nuno Álvares Pereira à sua presença, em Évora e, disse-lhe que fosse reconquistar Monsaraz e passar um corretivo ao seu Alcaide, pelo seu desrespeito ao Reino de Portugal. 
D. Nuno Alvares Pereira, saiu de Évora com um pequeno exército e dirigiu-se a Monsaraz, pediu para o Alcaide lhe abrir as portas do Castelo e entregar a Praça, a qual, era do Reino de Portugal! O Alcaide negou-se a cumprir a ordem, mandando fazer algumas manobras de intimidação que, fizeram arredar o exército do futuro Condestável até ao Telheiro, onde se instalaram para organizar uma estratégia de ataque ao Castelo de Monsaraz, mas a primeira medida foi cercá-lo, para não deixar entrar água, comida, armas, nem ninguém! 
D. Nuno Álvares Pereira, reuniu-se com os mestres de guerra para ouvir as suas ideias, mas nenhuma tinha lógica na conquista de uma das Praças mais difíceis de conquistar, só encontravam uma maneira, era cercar Monsaraz até à sua rendição, mas isso, podia levar muitos meses e não existia exército disponível para isso, porque sabiam que a invasão das tropas castelhanas estava para muito breve, mas não podiam deixar Monsaraz entregue ao Alcaide, porque esta Praça podia tornar-se uma base operacional dos castelhanos! 
D. Nuno Álvares Pereira, tinha a sua tenda instalada no Telheiro, onde fazia as reuniões, comia e dormia, era aqui, que dava voltas à cabeça sobre a maneira de entrar o mais rapidamente possível no Castelo de Monsaraz, mas não conseguia encontrar uma solução! 
A população e lavradores das redondezas, davam apoio incondicional às tropas de D. Nuno Álvares Pereira, empenharam-se a fornecer informações sobre os mantimentos que podiam existir dentro do Castelo, sendo opinião geral que, teriam água e comida para cerca de um mês, mas para D. Nuno Alvares Pereira era tempo de mais para o exército ali permanecer! 
Os dias iam passando, D. Nuno Álvares Pereira estava cada vez mais impaciente, todos os dias mandava mensageiros ao Alcaide com promessas que, no caso de se render, não seria molestado, ainda seria recompensado, porque prestaria um bom serviço ao rei, mas a resposta era sempre a mesma, não se rendia, porque a Praça era de Dª Beatriz! 
Numa noite, estava D. Nuno Alvares Pereira, na sua tenda, depois de passar pelas brasas, surgiu-lhe uma ideia que, correndo bem, podia ser a solução para tomar o Castelo de Monsaraz! De madrugada mandou chamar um lavrador do Termo de Monsaraz que, tinha grande manada de vacas, contou-lhe o que estava a pensar fazer, pedindo-lhe a sua ajuda, disse-lhe que bastava emprestar-lhe seis vacas, com aparência de mansinhas, mas na realidade, tinham de ser loucas, que não se deixassem apanhar de maneira nenhuma, depois, durante uma noite bem escura, levariam-nas, esfaimadas, a pastar para as portas do Castelo, onde havia muito boa pastagem, como o Alcaide, decerto, já tinha poucos mantimentos, ambicioso como era, para resistir, até à chegada dos castelhanos, não hesitaria em as tentar recolher, mas para isso, tinha de mandar abrir as portas do Castelo, seria nesse momento que, um grupo dos melhores homens de D. Nuno, antes bem escondidos no meio das ervas e mato, entravam, não deixando fechar as portas, até à chegada do exército que, já teria preparados os melhores ginetes e cavaleiros que voavam do Telheiro a Monsaraz! 
O lavrador, achou a ideia muito boa e, foi logo escolher as vacas malucas da sua manada, depois, estudaram as fases da lua, para escolher a noite mais escura em que deviam levar as vacas sem serem vistos, fizeram passar muita fome às vacas, para as mesmas, se deitarem à erva sem abalar das portas do Castelo! 
Os homens bem armados e bem escondidos, ficaram à espera do que podia acontecer, quando de manhã, o Alcaide descobrisse as vacas! Não foi necessário esperar muito, ao raiar da aurora já havia burburinho, os homens do Alcaide andavam em volta do Castelo a observar se existiam movimentos estranhos, sendo o aparecimento das vacas, logo transmitido ao Alcaide, o qual, tal como, D. Nuno Alvares Pereira pensou, reuniu-se com os seus homens e decidiram consultar os seus cúmplices avistados no lado de Castela, no Castelo de Cuncos, os quais, recolhiam informações na retaguarda das tropas portuguesas e, transmitiam para Monsaraz, através de sinais de bandeiras! 
Quando a visibilidade o permitiu, os homens do Alcaide, pediram informações através das bandeiras, perguntaram como estava a situação, quanto ao cerco? Os cúmplices, responderam logo, que tinha havido mudança, quase não havia homens no cerco, tinham recolhido ao Telheiro, estavam a levantar as tendas, dando sinais que, pelo menos parte do exército devia abandonar aquele lugar, porque, os exércitos castelhanos já estavam perto do reino de Portugal! 
Esta informação, foi logo transmitida ao Alcaide, o qual, mandou que perguntassem, quanto tempo levaria o exército castelhano a entrar no reino de Portugal! 
A resposta foi rápida, mas não agradou ao Alcaide, os cúmplices, responderam que, nunca menos de um a dois meses, porque, ainda havia muita logística a preparar! O homem ficou aterrado, mandou reunir os seus homens e disse-lhe que abrissem bem os olhos, porque estava muito desconfiado que, as vacas era um isco do inimigo, para lhe abrir as portas do Castelo, mas se de verdade, o exército estava no Telheiro e uma parte em marcha para norte, se alguma coisa corresse mal, nunca chegariam a tempo de impedir o fecho das portas, mas continuava desconfiado e a dizer para abrirem bem os olhos não estivessem alguns homens mais próximos! 
Os homens do Alcaide, passaram toda a manhã a observar metro a metro, as imediações do Castelo! As vacas encheram bem a barriga de boa erva e, nem a propósito, deitaram-se mesmo encostadas à porta do Castelo, os homens do Alcaide não queriam acreditar, até pulavam de contentes, alguns já estavam a comer bifes e outros a molhar sopinhas no petisco, diziam ao Alcaide que era só abrir a porta e elas caiam lá dentro, não havia nenhum perigo, não podia desperdiçar aquela dádiva, era a única forma de aguentar a Praça até à chegada das tropas castelhanas! Tanto insistiram que, o Alcaide convencido que não havia perigo, mandou abrir as portas do Castelo de par em par para a entrada triunfal das vaquinhas, as quais, como sabemos, não batiam bem, pareceu-lhe tão mal, serem incomodadas na ruminação que, quando as mandaram levantar, começaram a soprar e a esgravatar, levantaram o rabo e pareciam que tinham asas, correndo pelo outeiro de Monsaraz abaixo! Os homens do Alcaide, desiludidos por ver o petisco, já certo, a fugir-lhe, começaram todos a correr atrás delas e, nem quiseram mais saber das portas do Castelo! Quando se aperceberam do engano, já era tarde, tinham os cavaleiros do exército de D. Nuno Alvares Pereira, junto deles, nem reagiram e, os homens que estavam escondidos, entraram sem pressa, prenderam o Alcaide D. Gonçalo Rodrigues de Sousa e, estavam a ser aplaudidos pela população de Monsaraz. 
As vacas do lavrador Manoel Souto que, ajudaram a libertar Monsaraz, foram direitinhas à manada, de barriga cheia e com a sua missão cumprida. 
O Alcaide Gonçalo Rodrigues de Sousa é, exatamente do mesmo tempo do Alcaide Pêro Rodrigues (O encerra bodes) do Alandroal e, do Alcaide Álvaro Gonçalves (O coitado) de Vila Viçosa que, ao contrário do citado na lenda, prestaram bons serviços ao Reino de Portugal. 

Fim 


terça-feira, 21 de maio de 2019

556 - Terras de Capelins
História e tradições das terras de Capelins
O jogo do Xito nas terras de Capelins
Este jogo, é conhecido nas terras de Capelins e, em todo o Concelho de Alandroal, desde há mais de dois séculos, mas não encontramos provas sobre a sua origem, no entanto, parece ter vindo da vizinha Espanha, uma vez que, é semelhante a um jogo com cartas, mas com algumas regras comuns, entre elas, o "envidar"!
Um dos elementos fundamentais, para se poder jogar ao xito, é um cartuxo metálico de um projétil, mas existem outros cartuxos como os das espingardas de caça, feito em cartão ou plástico com maiores dimensões do que o cartuxo metálico de projétil, o qual, em espanhol é "El cartuxito", pequeno cartuxo, por isso, é nossa convicção que, com o passar dos séculos, acabou por derivar de jogo do "cartuxito" para jogo do "xito"!
O jogo do xito, pode ser jogado de mão a mão, entre apenas dois jogadores, ou por equipas, sendo uma equipa formada por dois elementos, com objetivo comum, a qual, joga com outra, ou mais equipas, o máximo três, por causa da confusão!
Este jogo, joga-se usando uma laje de xisto retangular lisa, com cerca de vinte e cinco centímetros de largura e trinta de comprimento, ou até menor, ou seja, a que se puder arranjar!
Como antigamente, o piso de algumas casas era de xisto, então, podia jogar-se no próprio chão, sendo marcado na pedra de xisto, ou no chão, um sinal, geralmente uma cruz com uma covinha no cruzamento que, se designa "cama" do xito ou "ponto"!
Como antes referimos, o xito, é um cartuxo metálico de projétil, com cerca de seis centímetros de comprimento!
O vintém é, normalmente uma moeda de vinte réis com a esfinge de D. Carlos ou D. Luís, não deve ser leve, nem muito pesada!
A pontuação do jogo do xito é a seguinte:
1 - Derrubar o xito, chama-se "data" vale sempre 2 pontos!
2 - Derrubar o xito e tirar o ponto, que consiste em deixar o vintém mais próximo da "cama" do xito de entre todos os jogadores, ou seja, data + o ponto, vale 3 pontos!
3 - Envidado + uma data + o ponto, vale 6 pontos!
4 - Envidado + Revidado + uma data + o ponto, vale 9 pontos
5 - O jogo termina, sendo ganho pelo jogador ou equipa que, primeiro fizer 24 pontos!
6 - É vencedor quem ganhar a "partida", ou seja, quem primeiro ganhar dois jogos!
Cada jogador, por sua vez, coloca-se a cerca de dois metros e meio de distância do xito, chama-se "calha" e, se o jogo for de mão a mão, são dois jogadores, em duas equipas, ou até três, sendo assim, quatro ou seis jogadores!
Duas Equipas:
1 - O primeiro jogador, cuja vez, é antes disputada entre, apenas um elemento de cada equipa que, apontam e atiram o vintém ao xito e, o vintém que ficar mais próximo da cama, será essa a equipa a sair com o primeiro jogador da primeira equipa que, atira o vintém ao xito, com intenção de o derrubar e, ao mesmo tempo, tentar que, o vintém fique sobre a cama do xito ou, o mais próximo possível, se o derrubar ganha, imediatamente dois pontos para a sua equipa, esses dois pontos já ficam cativos até ao fim da jogada que, é quando todos os pontos são somados e atribuídos às respetivas equipas que os ganharam!
2 - A seguir, joga o primeiro jogador da segunda equipa que, também tem como objetivo derrubar o xito e, ao mesmo tempo deixar o seu vintém o mais próximo possível da cama, se derrubar o xito ganha dois pontos para a sua equipa e, se deixar o seu vintém melhor posicionado, mais perto da "cama", do que o do jogador que jogou antes, pode "envidar" a jogada, convencido que o jogador seguinte, da equipa adversária, não consegue tirar-lhe o ponto!
3 - Depois, joga o último dos dois jogadores da primeira equipa, a jogada pode estar "envidada", por isso, ele vai fazer o melhor que puder para derrubar o xito e tirar o ponto, tentando picar o vintém do outro jogador e, deixar lá o seu! Se conseguir ganhar o ponto, também ganha o "envidado"! Assim, se este jogador, conseguiu derrubar o xito e tirar o ponto, então, na esperança de que o último jogador da segunda equipa não lhe consegue tirar o ponto, pode "revidar" a jogada!
4 - Por fim, joga o último jogador da segunda equipa, a jogada pode estar "envidada" e "revidada", este jogador, vai tentar derrubar o xito e tirar o ponto, se o conseguir, a sua equipa ganha no total onze pontos, incluindo a "data" do seu colega de equipa, se não conseguir, esses pontos ficam para a equipa adversária!
5 - Todas as situações descritas, quase sempre envolvem grande ritual, algazarra e discussão, muitas vezes, têm de ser chamados outros jogadores respeitados, alheios ao jogo para servirem de árbitro e, dizer de quem é o ponto, são feitas medições com os mais estranhos instrumentos, sendo, antigamente, muito usada a mortalha de papel onde enrolavam o tabaco para cigarros que, pela sua sensibilidade não empurrava os vinténs do seu lugar, no momento das medições! No caso de, se concluir que, os vinténs estão ambos à mesma distância da "cama", os donos desses vinténs têm que ir, novamente, disputar o ponto, depois o que ficar mais próximo da "cama" do xito, ganha os pontos em causa nessa jogada, só não ganha os pontos das "datas" dos jogadores adversários!
A seguir, inicia-se outra jogada, começa a jogar o jogador que tirou o ponto na jogada anterior e, continua tudo igual até uma das equipas chegar primeiro a vinte e quatro pontos, ganhando o jogo, mas só vence quem ganhar a partida, que são dois jogos, portanto, continuam a jogar até uma das equipas ganhar dois jogos, como dissemos a partida!
Só no fim de cada jogada se levantam da pedra, todos os vinténs, se for por equipas, um de cada jogador!
Quando terminar a partida, a equipa que perder tem de pagar as bebidas!

De mão a mão
Se o jogo do Xito, for de mão a mão, significa que, é apenas entre dois jogadores, em cada jogada, os jogadores jogam duas vezes, com dois vinténs cada um e, só no fim da jogada se levantam da pedra, os quatro vinténs! O jogo é completamente igual, como foi descrito entre equipas!
As bebidas, em meados do século XX, eram copos de três tostões, ou seja, trinta centavos de escudo!
O jogo do xito, pode durar uma hora, ou menos, mas também pode durar uma tarde e toda a noite!
Nas terras de Capelins e vizinhas, existiam torneios ou campeonatos do jogo do xito, sendo noutros tempos, um dos jogos mais populares que se jogava nas tabernas, sempre acompanhado com um copo de três.

Fim


Xito

domingo, 12 de maio de 2019

555 - Terras de Capelins 
História do Património da Freguesia de Capelins 
Os Moinhos Hidráulicos da Freguesia de Capelins 
22 - Moinho do Coronheiro de Baixo 
O Moinho do Coronheiro de Baixo, situa-se na margem esquerda da Ribeira de Azevel, junto à herdade do Roncanito, no final do curso desta Ribeira, já muito próximo da sua foz, no saudoso rio Guadiana! 
O Moinho do Corunheiro de Baixo é de rodízio ou roda horizontal, com um aferido, um casal de mós e uma roda motriz! 
Este Moinho, por se encontrar já muito baixo no curso da Ribeira, estava sujeito a maior impacto das cheias, por isso, tem uma estrutura mais robusta e, cobertura com abóbada em pedra! Tem porta de acesso oposta à ribeira, rasgada num dos lados! A sua planta é simples, retangular, disposta paralelamente ao curso de água da Ribeira e, o açude não tem caneiro ou pesqueira fixa! 
O proprietário do Moinho do Corunheiro de Baixo, era o mesmo do Moinho do Gato, estando situados muito próximos um do outro, sem mais nenhum entre ambos, na Freguesia de Capelins!
O Moinho do Corunheiro de Baixo, tal como a maioria dos Moinhos desta região, deixou de funcionar na década de 1960.


O Moinho do Corunheiro de Baixo fica por aqui 


554 - Terras de Capelins
História do Património da Freguesia de Capelins
Os Moinhos Hidráulicos da Freguesia de Capelins
21 - Moinho do Catacuz
O Moinho do Catacuz, situa-se na margem esquerda da Ribeira de Azevel, junto à herdade do Roncanito, no final de mais uma curva no curso desta Ribeira, já próximo da sua foz, no saudoso rio Guadiana!
O Moinho do Catacuz é de rodízio ou roda horizontal, decerto, com apenas um aferido, de submersão parcial ou total durante o inverno, com um casal de mós e uma roda motriz!
Este Moinho, por se encontrar já muito baixo no curso da Ribeira, estava sujeito a maior impacto das cheias, por isso, tem uma estrutura mais robusta e, cobertura com abóbada em pedra! Tem porta de acesso oposta à ribeira, rasgada num dos lados! A sua planta é retangular disposta paralelamente ao curso de água da Ribeira, o açude não tem caneiro ou pesqueira fixa!
O Moinho do Catacuz, tal como a maioria dos Moinhos desta região, deixou de funcionar na década de 1960.

O Moinho do Catacuz fica por aqui



sábado, 11 de maio de 2019

553 - Terras de Capelins
História do património da Freguesia de Capelins

Os Moinhos de água da Freguesia de Capelins

20 - Moinho das Piteiras

O Moinho das Piteiras, situa-se na margem esquerda da Ribeira de Azevel, junto à herdade do Roncanito, dentro de uma curva bastante acentuada do leito desta Ribeira, no seu curso em direção ao saudoso rio Guadiana!
O Moinho das Piteiras é de rodízio ou roda horizontal, decerto com um aferido de submersão parcial ou total durante o inverno, um casal de mós e uma roda motriz!
Este Moinho, como quase todos, senão todos na Freguesia de Capelins, tem estrutura robusta, cobertura com abóbada em pedra e, porta de acesso oposta à ribeira, rasgada num dos lados! A sua planta é retangular disposta paralelamente ao curso de água da Ribeira, o açude não tem caneiro ou pesqueira fixa!
O Moinho das Piteiras era do mesmo proprietário do Moinho de Calvinos, tendo a missão de substituir este, durante os meses em que o rio Guadiana o submergia e impedia o seu funcionamento!
Este Moinho, à semelhança da maioria dos Moinhos desta região, deixou de funcionar na década de 1960 ou, neste caso, mais tarde.

Fim

552 - Terras de Capelins
História do Património da freguesia de Capelins
Os Moinhos de água da Freguesia de Capelins
19 - Moinho do Major
O Moinho do Major situa-se na margem esquerda da Ribeira de Azevel, junto à herdade do Roncanito, numa das várias curvas descritas por esta Ribeira, no seu curso no limite desta herdade e, da Freguesia de Capelins!
A designação deste Moinho indica-nos que, devia ser propriedade de um Major, o mesmo que mandou construir o Moinho da Volta no saudoso rio Guadiana, sendo a sua alternativa quando as grandes cheias submergiam o Moinho da Volta, durante vários meses de inverno, impedido o seu funcionamento!
O Moinho do Major é de rodízio ou roda horizontal, decerto pequeno, com um aferido ou casal de mós e só uma roda motriz, o açude não tinha caneiro ou pesqueira fixa!
O Moinho do Major, como tantos outros nesta região, deixou de funcionar na década de 1960.


O Moinho do Major fica por aqui - Azevel



584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...