quarta-feira, 1 de maio de 2019

537 - Terras de Capelins 

História do património da Freguesia de Capelins 
Os Moinhos de água de Capelins 
4 - Moinho do Roncão ou Roncanito 
Este Moinho, está submerso e, situa-se na margem direita da Ribeira de Lucefécit, acima da foz do Ribeiro do Carrão, junto à herdade do Roncão que lhe deu a sua designação! 
É um Moinho de rodízio, ou roda horizontal, com um açude que atravessava a Ribeira e, ligava as margens entre as herdades do Roncão e a herdade do Aguilhão, o qual, canalizava a água até à sua engrenagem que, através da mó, transformava os cereais em farinha! 
Este Moinho, deve ter sido construído há cerca de trezentos anos, nas primeiras décadas de 1700, talvez pelo Conde da Torre, ou D. João de Mascarenhas, ou D. Fernando de Mascarenhas, também Marquês de Fronteira, nessa época, rendeiro da herdade do Roncão que, nos parece era propriedade da Casa da Rainha! 
O Moinho do Roncão, encontra-se mencionado em alguns Registos Paroquiais da Paróquia de Santo António, devido a algumas tragédias, em várias datas, entre as quais, o falecimento do filho do Moleiro João Roíz de Goes, de Santiago Maior, no dia 31 de Agosto de 1742 e, da sua esposa Esperança Maria, no dia 7 de Setembro de 1742, cuja tragédia se repetiu com o mesmo Moleiro em 1748! 
O Moinho do Roncão, sempre assim registado em todos os documentos antigos e, não do "Roncanito", tinha duas casas de apoio, também para habitação do Moleiro e família e outras famílias, afastadas da área de inundação das grandes cheias da Ribeira.



Moinho de água 

A fotografia não é o Moinho do Roncão

(Abóboda?) 


segunda-feira, 29 de abril de 2019

536 - Terras de Capelins 
Moinhos de água da Freguesia de Capelins 
3 - Moinho do Bufo
Este Moinho situa-se na margem direita da Ribeira de Lucefécit, junto a terras da Torre, não muito distante do Monte do Escrivão e do Monte da Talaveirinha, por esse motivo, nos primeiros decénios de 1800, consta pelo menos num Registo Paroquial da Paróquia de Santo António de Capelins, com a designação de Moinho do Escrivão! Porém, logo a seguir aparece em alguns documentos com a designação de Moinho do Bufo, devido ao apelido do seu proprietário, um lavrador da herdade de Santa Luzia, com esse apelido, que residia no Alandroal! 
É um Moinho de rodízios, ou roda horizontal, provido de um açude que atravessava a Ribeira e ligava as margens do lado da Torre à herdade de Santa Luzia, canalizando a água até à sua engrenagem que fazia funcionar a mó, a qual transformava os cereais em farinha! 
No decénio de 1960, foi construído neste lugar, um passadiço pedestre pelo rendeiro da herdade de Santa Luzia senhor Martins que, esteve ativo até à construção da barragem de alqueva, sobre o açude com início no Moinho até à margem do lado daquela herdade que, permitia a passagem, mesmo no caso das grandes cheias da Ribeira! 
Como todos os Moinhos, tinha a casa de apoio um pouco afastada da área de eventual inundação, para onde eram carregados os sacos de cereais e de farinha, quando havia grandes cheias, sendo, também, a habitação do Moleiro e da família. 
Este Moinho, parece ter sido construído no início de 1800, estando em atividade até à década de 1960.


Moinho de água
Não é Moinho do Bufo 


domingo, 28 de abril de 2019

535 - Terras de Capelins 
Moinhos de Capelins 
São vinte e dois Moinhos de água, construídos desde a época romana até ao século XX, ao longo dos percursos das Ribeiras de Luceféit, do Azevel e, do rio Guadiana, na Freguesia de Capelins.
Moinhos na Ribeira de Lucefécit:
1 - Moinho do Velho ou Azenha do Velho

Situa-se na Ribeira de Lucefécit, junto à herdade da Defesa de Ferreira de Cima, em frente aos limites da herdade de Santa Luzia com as Águas Frias!
Este Moinho, foi sempre misterioso, parece que, não tem história em termos de desempenho, mas existe a lenda do velho, transmitida de geração em geração, sobre um pobre velho que lá viveu! Não se sabe nada do seu passado, apenas que, é muito, muito velho, tão velho que não é igual a mais nenhum desta região e, nunca se ouviu contar como funcionava a sua engrenagem, uma vez que, não tem açude para canalizar a água para a mesma! 
Perante essas características, parece ser de construção romana, com cerca de 2.000 anos e, sendo assim, seria uma Azenha de roda vertical, porque as Azenhas surgiram com os Romanos e os Moinhos com os Árabes! 
O Moinho ou Azenha do Velho é de pequena dimensão, atarracado, com a porta virada para Norte, desafiando o caudal da Ribeira que, em caso de cheias, só não seria, imediatamente inundado, por se encontrar afastado do leito! Assim, estando afastado do leito da Ribeira, ao contrário dos outros Moinhos, falta saber como recebia a água para o seu funcionamento! Talvez a água seguisse por um canal a partir da Ribeira, voltando à mesma, abaixo do Moinho, fazendo girar uma roda vertical no exterior, cujo eixo estaria ligado à engrenagem no interior do Moinho, fazendo girar a mó! 
Com base nas pesquisas que fizemos, parece-nos que, nunca foi Moinho de pilão e, como não tem açude, também nos parece que, nunca foi Moinho de rodízios ou de roda horizontal. 
Se este Moinho, não era de pilão, então, não era para triturar/separar os minerais extraídos nas redondezas, não fazia sentido carregar terras e pedras impregnadas de minério para dentro desta estrutura! Para reforçar a nossa negação, foi-nos afiançado por quem frequentou o lugar durante muitos anos que, nunca foram encontrados nenhuns resíduos de minerais, nem dentro, nem fora do Moinho, pelo que, sem certeza, seria uma Azenha para fins moageiros e de roda vertical.

Esta fotografia não é do Moinho Velho, é apenas para exemplificar com eram as Azenhas de roda vertical. 



sábado, 27 de abril de 2019

534 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Os Moinhos de água da Freguesia de Capelins
Desde a pré-história que o homem descobriu que os grãos de sementes eram bons para comer, mas, havia uma dificuldade, muitos deles são tão duros e não se podem engolir a seco! 
Para resolver este problema a humanidade começou a desenvolver técnicas para triturar os grãos, assim, surgiram as farinhas. 
Por muito tempo, uma parte dos alimentos eram feitos de farinha, feita nos Moinhos de “pilão” (Objeto feito a partir de um tronco de madeira, com uma abertura, utilizado para triturar ou descascar cereais, muito semelhante à cegonha ou picota)! 
Depois, surgiram os Moinhos de pedra movidos a água, através de uma roda que fazia girar um eixo na posição horizontal e, este movimento por sua vez, fazia girar engrenagens aumentando a rotação!
Mais tarde, o homem aperfeiçoou e desenvolveu as turbinas, que tinham palhetas na ponta de um eixo na posição vertical dentro de uma caixa que recebia água corrente, ou seja, em movimento por gravidade! 
O Moinho era composto por duas pedras, as quais, sendo em 360 graus: uma inferior que permanecia fixa, a outra superior, girava assentada na inferior através do eixo!
O mecanismo funcionava assim: Os grãos de cereais estavam depositados numa caixa de madeira acima das pedras, a qual, tinha uma palheta flexível entre a caixa e a pedra superior, com o movimento da pedra ela fazia um leve atrito, fazendo com que os grãos lentamente caíssem nas pedras por uma regulação de volume! 
O que fazia moer era o atrito entre as duas pedras, e fendas faziam escoar a farinha! Havia um espaço entre as rodas (pedras), que manualmente, se regulava a espessura que se queria da moagem! 
Na Freguesia de Capelins, não se conhece nenhum Moinho de Pilão, mas existiram pelo menos vinte e dois Moinhos de água de rodízios.

Veja como funcionava um Moinho de pilão: 
Como referimos era semelhante à cegonha ou picota, ou a um baloiço com uma pessoa de cada lado e eixo ao meio, quando uma baixa faz pressão, a outra sobe! Na parte de trás do tronco central era escavada uma cavidade para onde escorria a água, a qual enchia essa cavidade, com o peso da água o pilão subia, mas como a cavidade cheia de água baixava, esta despejava, logo o tronco central com o pilão mais pesado, caía sobre a dentro da cavidade onde se encontravam os cereais, tipo almofariz, fazendo os mesmos em farinha, este movimento era repetitivo, porque a cavidade da água estava sempre a encher e a despejar, fazendo com que o pilão estivesse sempre a triturar os cereais, caindo sobre eles, fazendo farinha.


Moinho de Pilão muito simples 


sexta-feira, 26 de abril de 2019

533 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

O Jogo do XITO

O xito é constituído por um cartuxo metálico de uma munição com cerca de cinco/seis centímetros de altura, que é colocado sobre uma laje de xisto com as dimensões aproximadas de 30X30 cm!

A finalidade do jogo é derrubar o XITO com antigas moedas de vinte reis de D. Luís ou de D. Carlos, quando derrubam o xito chama-se "data" e vale dois pontos, mesmo, se nenhum jogador o derrubar, o jogador cujo "vintém" moeda ficar mais próximo da "cama" lugar na pedra onde se situa (empina) o Xito, ganha o ponto! 
Quando um jogador é dono do ponto, antes do jogador seguinte da outra equipa jogar pode "envidar", ou seja, fazer uma aposta em como o outro não lhe vai tirar o ponto, se isso acontecer pode somar seis pontos, mas se o outro conseguir tirar o ponto, esses pontos serão para ele! No caso de, ainda faltar jogar um elemento da equipa adversária, o jogador, agora, dono do ponto pode apostar que o jogador adversário não consegue tirar o ponto e, então pode "revidar", se o jogador que vai jogar não tirar o ponto o que "revidou" ganha 9 pontos, mas se o outro tirar o ponto, esses nove pontos ficam para ele!
O jogo acaba quando um jogador ou a sua equipa atingir os 24 pontos, mas para ganhar a partida tem de ganhar dois jogos, primeiro do que o outro jogador ou do que a outra equipa! Quando ganham uma partida, começa de novo o jogo, é necessário ganhar a partida! 
A povoação de maior relevo no concelho de Alandroal para este jogo era Cabeça de Carneiro (Freguesia de Santiago Maior), mas em todas as Aldeias este jogo era de eleição nas tabernas que, podia durar toda a noite em grandes disputas.


O necessário ao Jogo do Xito: Laje de xisto, cartuxo metálico de bala e vintém (Moeda de cobre de vinte réis, D. Luís ou D. Carlos).  

Xito

quinta-feira, 25 de abril de 2019

532 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Moinhos de água do Rio Guadiana nas terras de Capelins 
Os Moinhos de água situados nas Ribeira de Azevel, Lucefécit e no Rio Guadiana na Freguesia de Capelins estão todos submersos, alguns a grande profundidade! A única forma de os trazer à superfície é escrever sobre eles, sobre os moleiros, e sobre a sua importância na época aurea em termos sociais e económicos desta região! 
Os fregueses que se deslocavam ao Moinho, trocar os cereais por farinha e resolvia aguardar, entretinha-se em diversas atividades, bebiam alguns copos de vinho, comiam pão com queijo de cabra ou de ovelha, linguiça, toucinho, azeitonas, peixe frito e caldetas de peixe do rio e conviviam com outros fregueses. 
Os Moinhos, eram espaços de convívio social de eleição, onde os fregueses acorriam em grupos, pela paródia, dormiam na rua ou na casa do moinho ou, dentro do mesmo, conforme a disponibilidade do espaço e/ou as condições climatéricas. 
Os Moinhos eram também importantes locais para se juntarem as gentes que trabalhavam ou residiam nas redondezas, uma vez que, aqui se encontravam os moleiros e a família, fregueses, pescadores, ociosos, transeuntes e guardas fiscais.

Moinho do rio Guadiana  
Miguéns

segunda-feira, 22 de abril de 2019

531 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do Achado dos Santos da Igreja de Cheles num Pego do Rio Guadiana 
Em meados da década de mil novecentos e setenta, começou a ouvir-se nas terras de Capelins que tinham roubado os Santos da Igreja da vizinha de além Guadiana, Villa de Cheles! 
Foi um acontecimento que, não dizendo diretamente respeito às gentes das terras de aquém Guadiana, não podia deixar de ser repudiado pelo ato maldoso e inqualificável, sentido como se fosse nas terras de Capelins! 
Passou-se algum tempo, mas o caso nunca esteve esquecido, a todo o momento o assunto era falado, ouvia-se, constantemente, a pergunta, se os Santinhos da Igreja da Vila de Cheles já tinham aparecido? 
Cada pessoa comentava conforme o seu pensamento e, eventual entendimento da matéria! 
Muitas pessoas, estavam convencidas que tinha sido obra de alguma rede de ladrões de Arte Sacra e, decerto já estavam muito longe, mas estavam enganados, porque estavam mais perto do que pensavam! 
Nas terras de Capelins existiam muitos pescadores, talvez devido à proximidade com o Rio Guadiana e com a Ribeira de Lucefécit, desde que tivesse algum gosto pela pesca, alguns apetrechos e tempo, podia apanhar peixes, entre eles estavam o ti Fura e o ti Miguel Aninho que, de quando em quando se juntavam para, a partir do barco que o ti Fura tinha na foz da Ribeira de Lucefécit no Rio Guadiana, lançar os tresmalhos (método de pesca que utiliza uma rede de forma retangular com um, dois, ou três panos mantidas em posição vertical por cabos de flutuação), os quais, quase atravessavam o rio e, apanhavam peixes muito graúdos! 
O ti Fura, tinha muita prática em remar e ao mesmo tempo lançar os tresmalhos, mas era mais fácil se esse trabalho fosse feito por duas pessoas, por isso, por vezes convidava pessoas que gostavam de pesca para o acompanhar e ajudar naquela tarefa, entre os quais o ti Miguel Aninho que, também era pescador, mas usava uma atarrafa (rede), armadilhas artesanais ou à lapa, apanhando, geralmente peixes mais pequenos, mas dava para vender alguns a clientes certos e para abastecimento da sua casa, onde viva com a sua mãe a ti Aninhas! 
Quando o ti Miguel tinha encomendas de peixes para caldetas, maiores do que o peixe para fritar, estava combinado com o ti Fura em ir ter com ele ao lugar onde tinha o barco, ajudava-o a lançar e a recolher os tresmalhos, depois dividiam o peixe, como cada um tinha os seus clientes, não existia concorrência entre eles! 
Um dia, quando o ti Fura chegou junto ao seu barco, nas Azenhas D' El-Rei, já lá estava sentado, à sua espera, o ti Miguel Aninho, cumprimentaram-se e o ti Fura ficou muito contente por nesse dia ter companhia na faina! 
Comeram uma bucha, colocaram dois tresmalhos dentro do barco e o ti Miguel pegou logo nos remos, saíram da margem direita da Ribeira de Lucefécit, junto às Azenhas D' El-Rei, passaram ao lado direito do grande pego de Santa Catarina, o ti Fura fez-lhe alto e pediu-lhe para encostar o barco a um arbusto, pegou na ponta da corda do início do tresmalho, escolheu um ramo forte e atou a corda, fez sinal ao ti Miguel para seguir, devagarinho, e foi deixando cair o tresmalho na água, quando o mesmo chegou ao fim, fez sinal para parar, atou a corda do segundo tresmalho ao que já estava lançado e fez sinal para seguir, continuando a lançar o segundo à água, quando verificou que já restavam poucos metros de tresmalho, pediu ao ti Miguel para seguir na direção de outro arbusto e encostar, amarrou bem a corda e ficou o trabalho do lançamento dos tresmalhos completo, deixando a parte central do rio Guadiana barrado aos peixes! 
Esta, era a primeira parte do trabalho, agora, tinham de esperar pelo menos duas a três horas, para poderem começar a recolher para dentro do barco, os tresmalhos e o peixe que, eventualmente ficasse preso no emaranhado das redes! 
Quando terminaram, estavam mais próximo da margem esquerda do rio Guadiana do que da oposta, como tinham levado a atarrafa no barco o ti Fura perguntou ao ti Miguel: 
Ti Fura: Olha lá Miguel, como sabes, o peixe que apanharmos nos tresmalhos é quase todo grande, vê lá se queres levar alguns mais miúdos para fritar? 
Ti Miguel: Quero sim, Fura, tu já sabes como isto é, se levo peixes grandes, querem pequenos e, se levo pequenos, querem dos grandes, assim levo dos dois pode ser que acerte! 
Ti Fura: Então, olha, como temos de esperar, vamos além ao lado espanhol, há lá uma cascalheira onde há muitas bogas, lançamos a atarrafa duas ou três vezes e apanham-se quatro ou cinco quilos! 
Ti Miguel: Vamos embora!
O ti Miguel, era o remador de serviço, foi remando com calma, porque tinham muito tempo! 
Quando chegaram perto da margem esquerda do rio Guadiana, prepararam a tarrafa e como dois rapazes desafiaram-se sobre qual, apanhava mais peixes em cada lançamento! 
Lançaram a tarrafa meia dúzia de vezes e já tinham peixe em abundância, ficando, parcialmente empatados naquela disputa! Como já não tinham nada para fazer e sendo ainda cedo para recolher os tresmalhos, ficaram um pouco à conversa sentados dentro do barco, até que o ti Miguel decidiu dar uns mergulhos para ver se o tempo passava mais depressa e o ti Fura encostou-se no barco com intenção de passar pelas brasas! 
O ti Miguel por ali andou mergulhando e quando o ti Fura estava a pegar no sono apareceu ele à tona de água muito aflito, agarrou-se ao barco e disse-lhe: 
Ti Miguel: Eh Fura! O pego está cheio de pessoas mortas lá no fundo! 
Ti Fura: Cala-te Miguel! Bateste com a cabeça em alguma pedra e ficaste taralhoco! Ou estás a brincar?
Ti Miguel: Oh Fura, não estou a brincar, eu vi bem as pessoas, até estão de olhos abertos! 
Ti Fura: Oh Miguel, isso pode lá ser, então as pessoas não vinham acima? 
Ti Miguel: Podem não vir acima! Então, se estiverem presas a pedras com arames? Até podem estar! 
Ti Fura: Mau, mau! Não estou a gostar nada disto! Então, fazes-me mergulhar sem me apetecer nada! Vê lá se estás a brincar Miguel!
Ti Miguel: Então mergulha lá tu, Fura! Eu juro que estou a falar verdade! 
O ti Fura, não estava convencido, pensava que era brincadeira do ti Miguel para não o deixar dormir, mas pela cara dele, aterrorizado, pressentia que alguma coisa de anormal se passava, então saltou do barco e mergulhou no pego, mas como não sabia o que podia encontrar, abordou o fundo pelas laterais, foi-se aproximando cada vez mais até verificar que não eram pessoas, mas se não eram pessoas, pensou que eram bonecos, porque a cara e os olhos eram como os das pessoas, andou em volta até que lhe mexeu e ficou com a certeza que eram Santos e, se eram Santos só podiam ser os que tinham desaparecido da Igreja de Cheles! 
Depois de confirmar bem que eram Santos, o ti Fura subiu rapidamente na direção do seu barco, onde o ti Miguel estava aconchegado, à espera de notícias e disse-lhe: 
Ti Fura: Eh Miguel, tu nem imaginas o que nós achamos! 
Ti Miguel: Então, não são pessoas mortas? 
Ti Fura: Não, Miguel, não são pessoas, quando eu te disser, tu nem acreditas! 
Ti Miguel: Ai valha-me Deus, Fura! Diz lá, se não são pessoas, o que são? 
Ti Fura: Olha, são Santos! Se são Santos, só podem ser os que roubaram da Igreja de Cheles! 
Ti Miguel: Eh Fura! E agora o que fazemos? 
Ti Fura: Agora não sei! Se vamos dizer à Guarda Civil que achamos os Santos, ainda nos podemos meter em trabalhos! Até nos podem prender para averiguações! Mas não podemos deixar aí os Santinhos e para os tirarmos e deixar aí fora de água, podemos estar metidos em trabalhos, na mesma! 
Ti Miguel: Pois, estou a ver que estamos metidos num grande sarilho! Pensa lá bem, o que devemos fazer! 
Ti Fura: Olha Miguel, quem não deve, não teme! Fazemos assim, deitamos esse peixe à água, ainda está vivo, porque não sabemos o tempo que podemos levar nisto, depois se correr bem, apanhamos mais! Tu vais com o barco para águas portuguesas e eu vou lá a Cheles contar à Guarda Civil o que na verdade se passou, não tenho medo, porque conheço lá muita gente e sabem bem que não somos pessoas para roubar os Santos, depois, só vens com o barco se eu te chamar, é sinal que está tudo bem! 
O ti Fura partiu logo para a Vila de Cheles, dirigiu-se ao quartel da Guarda Civil e contou aos guardas de serviço, que lhe parecia ter achado os Santos da Igreja de Cheles e tudo o que ele e o ti Miguel Aninho tinham feito até ao momento do achado! Os Guardas ouviram com atenção, registaram a participação e não duvidaram de uma palavra, depois deslocaram-se com o ti Fura em dois carros ao lugar onde estavam os Santos! 
Quando chegaram, o ti Fura, chamou o ti Miguel para falar com os Guardas, o qual repetiu tudo igual ao que o ti Fura tinha declarado e depois tiraram os Santos do fundo do pego, colocaram-nos nos carros da Guarda, agradeceram e seguiram para a Vila de Cheles! 
O ti Fura e o ti Miguel, não atrasaram a faina, lançaram a tarrafa quatro ou cinco vezes e ainda apanharam mais peixe do que tinham antes! A seguir, foram recolher os tresmalhos e tinham tanto peixe como nunca tinha acontecido!
A notícia do aparecimento dos Santos, depressa se espalhou na Vila de Cheles, toda a gente queria saber, onde estavam e como os tinham encontrado!
Os Guardas foram contando que, tinham sido dois pescadores de Capelins, por coincidência, quando mergulharam os tinham encontrado no fundo de um pego no Rio Guadiana e divulgaram os seus nomes, bem conhecidos em Cheles! Todos os Cheleiros lhe prestaram o seu agradecimento e, sempre que lá se deslocavam eram recebidos como heróis! 
Bem Hajam! Ti Fura e ti Miguel Aninho!

Fim
Igreja da Vila de Cheles 



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