sábado, 27 de abril de 2019

534 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Os Moinhos de água da Freguesia de Capelins
Desde a pré-história que o homem descobriu que os grãos de sementes eram bons para comer, mas, havia uma dificuldade, muitos deles são tão duros e não se podem engolir a seco! 
Para resolver este problema a humanidade começou a desenvolver técnicas para triturar os grãos, assim, surgiram as farinhas. 
Por muito tempo, uma parte dos alimentos eram feitos de farinha, feita nos Moinhos de “pilão” (Objeto feito a partir de um tronco de madeira, com uma abertura, utilizado para triturar ou descascar cereais, muito semelhante à cegonha ou picota)! 
Depois, surgiram os Moinhos de pedra movidos a água, através de uma roda que fazia girar um eixo na posição horizontal e, este movimento por sua vez, fazia girar engrenagens aumentando a rotação!
Mais tarde, o homem aperfeiçoou e desenvolveu as turbinas, que tinham palhetas na ponta de um eixo na posição vertical dentro de uma caixa que recebia água corrente, ou seja, em movimento por gravidade! 
O Moinho era composto por duas pedras, as quais, sendo em 360 graus: uma inferior que permanecia fixa, a outra superior, girava assentada na inferior através do eixo!
O mecanismo funcionava assim: Os grãos de cereais estavam depositados numa caixa de madeira acima das pedras, a qual, tinha uma palheta flexível entre a caixa e a pedra superior, com o movimento da pedra ela fazia um leve atrito, fazendo com que os grãos lentamente caíssem nas pedras por uma regulação de volume! 
O que fazia moer era o atrito entre as duas pedras, e fendas faziam escoar a farinha! Havia um espaço entre as rodas (pedras), que manualmente, se regulava a espessura que se queria da moagem! 
Na Freguesia de Capelins, não se conhece nenhum Moinho de Pilão, mas existiram pelo menos vinte e dois Moinhos de água de rodízios.

Veja como funcionava um Moinho de pilão: 
Como referimos era semelhante à cegonha ou picota, ou a um baloiço com uma pessoa de cada lado e eixo ao meio, quando uma baixa faz pressão, a outra sobe! Na parte de trás do tronco central era escavada uma cavidade para onde escorria a água, a qual enchia essa cavidade, com o peso da água o pilão subia, mas como a cavidade cheia de água baixava, esta despejava, logo o tronco central com o pilão mais pesado, caía sobre a dentro da cavidade onde se encontravam os cereais, tipo almofariz, fazendo os mesmos em farinha, este movimento era repetitivo, porque a cavidade da água estava sempre a encher e a despejar, fazendo com que o pilão estivesse sempre a triturar os cereais, caindo sobre eles, fazendo farinha.


Moinho de Pilão muito simples 


sexta-feira, 26 de abril de 2019

533 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

O Jogo do XITO

O xito é constituído por um cartuxo metálico de uma munição com cerca de cinco/seis centímetros de altura, que é colocado sobre uma laje de xisto com as dimensões aproximadas de 30X30 cm!

A finalidade do jogo é derrubar o XITO com antigas moedas de vinte reis de D. Luís ou de D. Carlos, quando derrubam o xito chama-se "data" e vale dois pontos, mesmo, se nenhum jogador o derrubar, o jogador cujo "vintém" moeda ficar mais próximo da "cama" lugar na pedra onde se situa (empina) o Xito, ganha o ponto! 
Quando um jogador é dono do ponto, antes do jogador seguinte da outra equipa jogar pode "envidar", ou seja, fazer uma aposta em como o outro não lhe vai tirar o ponto, se isso acontecer pode somar seis pontos, mas se o outro conseguir tirar o ponto, esses pontos serão para ele! No caso de, ainda faltar jogar um elemento da equipa adversária, o jogador, agora, dono do ponto pode apostar que o jogador adversário não consegue tirar o ponto e, então pode "revidar", se o jogador que vai jogar não tirar o ponto o que "revidou" ganha 9 pontos, mas se o outro tirar o ponto, esses nove pontos ficam para ele!
O jogo acaba quando um jogador ou a sua equipa atingir os 24 pontos, mas para ganhar a partida tem de ganhar dois jogos, primeiro do que o outro jogador ou do que a outra equipa! Quando ganham uma partida, começa de novo o jogo, é necessário ganhar a partida! 
A povoação de maior relevo no concelho de Alandroal para este jogo era Cabeça de Carneiro (Freguesia de Santiago Maior), mas em todas as Aldeias este jogo era de eleição nas tabernas que, podia durar toda a noite em grandes disputas.


O necessário ao Jogo do Xito: Laje de xisto, cartuxo metálico de bala e vintém (Moeda de cobre de vinte réis, D. Luís ou D. Carlos).  

Xito

quinta-feira, 25 de abril de 2019

532 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Moinhos de água do Rio Guadiana nas terras de Capelins 
Os Moinhos de água situados nas Ribeira de Azevel, Lucefécit e no Rio Guadiana na Freguesia de Capelins estão todos submersos, alguns a grande profundidade! A única forma de os trazer à superfície é escrever sobre eles, sobre os moleiros, e sobre a sua importância na época aurea em termos sociais e económicos desta região! 
Os fregueses que se deslocavam ao Moinho, trocar os cereais por farinha e resolvia aguardar, entretinha-se em diversas atividades, bebiam alguns copos de vinho, comiam pão com queijo de cabra ou de ovelha, linguiça, toucinho, azeitonas, peixe frito e caldetas de peixe do rio e conviviam com outros fregueses. 
Os Moinhos, eram espaços de convívio social de eleição, onde os fregueses acorriam em grupos, pela paródia, dormiam na rua ou na casa do moinho ou, dentro do mesmo, conforme a disponibilidade do espaço e/ou as condições climatéricas. 
Os Moinhos eram também importantes locais para se juntarem as gentes que trabalhavam ou residiam nas redondezas, uma vez que, aqui se encontravam os moleiros e a família, fregueses, pescadores, ociosos, transeuntes e guardas fiscais.

Moinho do rio Guadiana  
Miguéns

segunda-feira, 22 de abril de 2019

531 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do Achado dos Santos da Igreja de Cheles num Pego do Rio Guadiana 
Em meados da década de mil novecentos e setenta, começou a ouvir-se nas terras de Capelins que tinham roubado os Santos da Igreja da vizinha de além Guadiana, Villa de Cheles! 
Foi um acontecimento que, não dizendo diretamente respeito às gentes das terras de aquém Guadiana, não podia deixar de ser repudiado pelo ato maldoso e inqualificável, sentido como se fosse nas terras de Capelins! 
Passou-se algum tempo, mas o caso nunca esteve esquecido, a todo o momento o assunto era falado, ouvia-se, constantemente, a pergunta, se os Santinhos da Igreja da Vila de Cheles já tinham aparecido? 
Cada pessoa comentava conforme o seu pensamento e, eventual entendimento da matéria! 
Muitas pessoas, estavam convencidas que tinha sido obra de alguma rede de ladrões de Arte Sacra e, decerto já estavam muito longe, mas estavam enganados, porque estavam mais perto do que pensavam! 
Nas terras de Capelins existiam muitos pescadores, talvez devido à proximidade com o Rio Guadiana e com a Ribeira de Lucefécit, desde que tivesse algum gosto pela pesca, alguns apetrechos e tempo, podia apanhar peixes, entre eles estavam o ti Fura e o ti Miguel Aninho que, de quando em quando se juntavam para, a partir do barco que o ti Fura tinha na foz da Ribeira de Lucefécit no Rio Guadiana, lançar os tresmalhos (método de pesca que utiliza uma rede de forma retangular com um, dois, ou três panos mantidas em posição vertical por cabos de flutuação), os quais, quase atravessavam o rio e, apanhavam peixes muito graúdos! 
O ti Fura, tinha muita prática em remar e ao mesmo tempo lançar os tresmalhos, mas era mais fácil se esse trabalho fosse feito por duas pessoas, por isso, por vezes convidava pessoas que gostavam de pesca para o acompanhar e ajudar naquela tarefa, entre os quais o ti Miguel Aninho que, também era pescador, mas usava uma atarrafa (rede), armadilhas artesanais ou à lapa, apanhando, geralmente peixes mais pequenos, mas dava para vender alguns a clientes certos e para abastecimento da sua casa, onde viva com a sua mãe a ti Aninhas! 
Quando o ti Miguel tinha encomendas de peixes para caldetas, maiores do que o peixe para fritar, estava combinado com o ti Fura em ir ter com ele ao lugar onde tinha o barco, ajudava-o a lançar e a recolher os tresmalhos, depois dividiam o peixe, como cada um tinha os seus clientes, não existia concorrência entre eles! 
Um dia, quando o ti Fura chegou junto ao seu barco, nas Azenhas D' El-Rei, já lá estava sentado, à sua espera, o ti Miguel Aninho, cumprimentaram-se e o ti Fura ficou muito contente por nesse dia ter companhia na faina! 
Comeram uma bucha, colocaram dois tresmalhos dentro do barco e o ti Miguel pegou logo nos remos, saíram da margem direita da Ribeira de Lucefécit, junto às Azenhas D' El-Rei, passaram ao lado direito do grande pego de Santa Catarina, o ti Fura fez-lhe alto e pediu-lhe para encostar o barco a um arbusto, pegou na ponta da corda do início do tresmalho, escolheu um ramo forte e atou a corda, fez sinal ao ti Miguel para seguir, devagarinho, e foi deixando cair o tresmalho na água, quando o mesmo chegou ao fim, fez sinal para parar, atou a corda do segundo tresmalho ao que já estava lançado e fez sinal para seguir, continuando a lançar o segundo à água, quando verificou que já restavam poucos metros de tresmalho, pediu ao ti Miguel para seguir na direção de outro arbusto e encostar, amarrou bem a corda e ficou o trabalho do lançamento dos tresmalhos completo, deixando a parte central do rio Guadiana barrado aos peixes! 
Esta, era a primeira parte do trabalho, agora, tinham de esperar pelo menos duas a três horas, para poderem começar a recolher para dentro do barco, os tresmalhos e o peixe que, eventualmente ficasse preso no emaranhado das redes! 
Quando terminaram, estavam mais próximo da margem esquerda do rio Guadiana do que da oposta, como tinham levado a atarrafa no barco o ti Fura perguntou ao ti Miguel: 
Ti Fura: Olha lá Miguel, como sabes, o peixe que apanharmos nos tresmalhos é quase todo grande, vê lá se queres levar alguns mais miúdos para fritar? 
Ti Miguel: Quero sim, Fura, tu já sabes como isto é, se levo peixes grandes, querem pequenos e, se levo pequenos, querem dos grandes, assim levo dos dois pode ser que acerte! 
Ti Fura: Então, olha, como temos de esperar, vamos além ao lado espanhol, há lá uma cascalheira onde há muitas bogas, lançamos a atarrafa duas ou três vezes e apanham-se quatro ou cinco quilos! 
Ti Miguel: Vamos embora!
O ti Miguel, era o remador de serviço, foi remando com calma, porque tinham muito tempo! 
Quando chegaram perto da margem esquerda do rio Guadiana, prepararam a tarrafa e como dois rapazes desafiaram-se sobre qual, apanhava mais peixes em cada lançamento! 
Lançaram a tarrafa meia dúzia de vezes e já tinham peixe em abundância, ficando, parcialmente empatados naquela disputa! Como já não tinham nada para fazer e sendo ainda cedo para recolher os tresmalhos, ficaram um pouco à conversa sentados dentro do barco, até que o ti Miguel decidiu dar uns mergulhos para ver se o tempo passava mais depressa e o ti Fura encostou-se no barco com intenção de passar pelas brasas! 
O ti Miguel por ali andou mergulhando e quando o ti Fura estava a pegar no sono apareceu ele à tona de água muito aflito, agarrou-se ao barco e disse-lhe: 
Ti Miguel: Eh Fura! O pego está cheio de pessoas mortas lá no fundo! 
Ti Fura: Cala-te Miguel! Bateste com a cabeça em alguma pedra e ficaste taralhoco! Ou estás a brincar?
Ti Miguel: Oh Fura, não estou a brincar, eu vi bem as pessoas, até estão de olhos abertos! 
Ti Fura: Oh Miguel, isso pode lá ser, então as pessoas não vinham acima? 
Ti Miguel: Podem não vir acima! Então, se estiverem presas a pedras com arames? Até podem estar! 
Ti Fura: Mau, mau! Não estou a gostar nada disto! Então, fazes-me mergulhar sem me apetecer nada! Vê lá se estás a brincar Miguel!
Ti Miguel: Então mergulha lá tu, Fura! Eu juro que estou a falar verdade! 
O ti Fura, não estava convencido, pensava que era brincadeira do ti Miguel para não o deixar dormir, mas pela cara dele, aterrorizado, pressentia que alguma coisa de anormal se passava, então saltou do barco e mergulhou no pego, mas como não sabia o que podia encontrar, abordou o fundo pelas laterais, foi-se aproximando cada vez mais até verificar que não eram pessoas, mas se não eram pessoas, pensou que eram bonecos, porque a cara e os olhos eram como os das pessoas, andou em volta até que lhe mexeu e ficou com a certeza que eram Santos e, se eram Santos só podiam ser os que tinham desaparecido da Igreja de Cheles! 
Depois de confirmar bem que eram Santos, o ti Fura subiu rapidamente na direção do seu barco, onde o ti Miguel estava aconchegado, à espera de notícias e disse-lhe: 
Ti Fura: Eh Miguel, tu nem imaginas o que nós achamos! 
Ti Miguel: Então, não são pessoas mortas? 
Ti Fura: Não, Miguel, não são pessoas, quando eu te disser, tu nem acreditas! 
Ti Miguel: Ai valha-me Deus, Fura! Diz lá, se não são pessoas, o que são? 
Ti Fura: Olha, são Santos! Se são Santos, só podem ser os que roubaram da Igreja de Cheles! 
Ti Miguel: Eh Fura! E agora o que fazemos? 
Ti Fura: Agora não sei! Se vamos dizer à Guarda Civil que achamos os Santos, ainda nos podemos meter em trabalhos! Até nos podem prender para averiguações! Mas não podemos deixar aí os Santinhos e para os tirarmos e deixar aí fora de água, podemos estar metidos em trabalhos, na mesma! 
Ti Miguel: Pois, estou a ver que estamos metidos num grande sarilho! Pensa lá bem, o que devemos fazer! 
Ti Fura: Olha Miguel, quem não deve, não teme! Fazemos assim, deitamos esse peixe à água, ainda está vivo, porque não sabemos o tempo que podemos levar nisto, depois se correr bem, apanhamos mais! Tu vais com o barco para águas portuguesas e eu vou lá a Cheles contar à Guarda Civil o que na verdade se passou, não tenho medo, porque conheço lá muita gente e sabem bem que não somos pessoas para roubar os Santos, depois, só vens com o barco se eu te chamar, é sinal que está tudo bem! 
O ti Fura partiu logo para a Vila de Cheles, dirigiu-se ao quartel da Guarda Civil e contou aos guardas de serviço, que lhe parecia ter achado os Santos da Igreja de Cheles e tudo o que ele e o ti Miguel Aninho tinham feito até ao momento do achado! Os Guardas ouviram com atenção, registaram a participação e não duvidaram de uma palavra, depois deslocaram-se com o ti Fura em dois carros ao lugar onde estavam os Santos! 
Quando chegaram, o ti Fura, chamou o ti Miguel para falar com os Guardas, o qual repetiu tudo igual ao que o ti Fura tinha declarado e depois tiraram os Santos do fundo do pego, colocaram-nos nos carros da Guarda, agradeceram e seguiram para a Vila de Cheles! 
O ti Fura e o ti Miguel, não atrasaram a faina, lançaram a tarrafa quatro ou cinco vezes e ainda apanharam mais peixe do que tinham antes! A seguir, foram recolher os tresmalhos e tinham tanto peixe como nunca tinha acontecido!
A notícia do aparecimento dos Santos, depressa se espalhou na Vila de Cheles, toda a gente queria saber, onde estavam e como os tinham encontrado!
Os Guardas foram contando que, tinham sido dois pescadores de Capelins, por coincidência, quando mergulharam os tinham encontrado no fundo de um pego no Rio Guadiana e divulgaram os seus nomes, bem conhecidos em Cheles! Todos os Cheleiros lhe prestaram o seu agradecimento e, sempre que lá se deslocavam eram recebidos como heróis! 
Bem Hajam! Ti Fura e ti Miguel Aninho!

Fim
Igreja da Vila de Cheles 



domingo, 21 de abril de 2019

530 - Terras de Capelins 
A lenda da moura Talanna que fundou a Villa de Terena
As terras de Terena, desde a pré história foram povoadas por vários povos, mas devem-se aos romanos a maior quantidade de testemunhos da sua presença, existindo atualmente ruínas de várias Vilas (Vilae Romanas) e da ponte na região envolvente da Villa de Terena, no entanto, parece que, a fundação da mesma, foi junto à foz do Ribeiro do Alcaide com a Ribeira de Lucefécit, Vila Velha, transmitindo a sua toponímia à atual, e foi fundada pelos árabes, não se encontrando nenhuma toponímia da época dos Celtas nem dos Romanos referentes a esta Vila de Terena.

No final do verão do ano de mil cento e vinte, chegou junto à foz do atual Ribeiro do Alcaide e a Ribeira de Lucefécit, um jovem com um rebanho de cabras vindo pela Ribeira acima, desde o Odiana (Guadiana)! 
O jovem admirou tanto a beleza do lugar, os mantos verdes da vegetação, o azul transparente do céu, o amarelo cintilante do sol, o chilrear das aves que, sublimava as maravilhas da natureza, pelo que, não resistiu em ficar por ali! 
Enquanto as suas cabras pastavam nas margens da Ribeira, começou a cortar ramos de árvores e arbustos para construir um abrigo para ele e para os seus animais! 
Quando andava nesse trabalho, ouviu o ladrar aguerrido do seu cão, sinal que, alguém estava chegando! Olhou, e na sua frente estava um rapaz, aparentemente da sua idade, com cerca de vinte anos que, esboçou um sorriso e levantou o braço em sinal de cumprimento, sendo correspondido com o mesmo sinal, mas sem sorriso! O dono do cão que ladrava, olhou para o animal e o mesmo ficou, imediatamente em silêncio! 
O rapaz que chegava aproximou-se, apresentou-se, disse que se chamava Joam e que, também guardava cabras, começou a fazer perguntas, como se chamava o recém chegado, de onde vinha, quantas cabras tinha e, ofereceu-se para o ajudar a fazer um abrigo, mas não obteve nenhuma resposta verbal, o outro, respondia através de linguagem gestual dando a entender que não percebia a sua língua e afastava sempre o olhar na tentativa de esconder a sua fisionomia! 
Como no Reino de Badajoz, onde estas terras pertenciam, falavam-se três línguas, o árabe, moçárabe e ladino, então o Joam ainda tentou algumas palavras que sabia, nas outras línguas, mas sem sucesso! 
O Joam, um pouco agastado, porque achava que ele o percebia e não queria conversa, acabou por desistir, despediu-se com um aceno e seguiu pelo Ribeiro de Alcaide acima, mas ia desconfiado que estava perante um mistério! 
No dia seguinte, o Joam, assim que soltou as suas cabras, foi descendo o Ribeiro do Alcaide com ideia de ir desvendar o eventual mistério que o atormentava! 
Quando chegou à Ribeira, avistou as cabras do rapaz misterioso, com receio do cão, foi indo muito devagarinho, no entanto, o cão que guardava as cabras e o seu dono, há muito que tinha dado pela sua presença, mas ignorou-o, porque já o conhecia do dia anterior e sabia que vinha por bem! 
Quando o Joam desceu a margem, para dentro da Ribeira, ouviu chapinhar na água, pensou logo que era o rapaz a tomar banho, mas ao virar-se para o lugar de onde ouvia os movimentos na água, ficou pasmado, atirou-se para dentro de uma moita de buínho e com cautela abriu uma fresta para observar sem ser observado, uma linda rapariga a tomar banho de cabelos negros compridos e completamente nua! 
A rapariga, vestiu rapidamente a roupa lavada que tinha ao lado, atou o cabelo com uma fita, pôs um lenço na cabeça e enfiou um gorro! 
O Joam nem respirava, com receio que ela o descobrisse, ficou escondido dentro da moita até ela se afastar pela Ribeira acima e, só depois se esgueirou pelo Ribeiro do Alcaide, deu a volta pela direita para fingir que estava chegando e foi aparecer em frente dela que, não deu logo pela sua presença, por andar atarefada a cortar ramos de árvores para as cabras, só quando o Joam a cumprimentou, se apercebeu da sua presença! 
O Joam, continuou a fazer as mesmas perguntas do dia anterior, mas não obtinha respostas, a rapariga disfarçada de rapaz, apenas fazia gestos indicando que não o percebia! 
O Joam, não arredou pé, pediu-lhe o machado para a ajudar, mas foi recusado com um gesto brusco que o fez perder a cabeça e, não se conteve em lhe dizer que já conhecia o seu segredo, já sabia que não era nenhum rapaz, era uma rapariga!
Ela ficou muito assustada, mas o Joam disse-lhe que, sem querer, a tinha visto a tomar banho, lá em baixo, mas podia estar descansada, ele nunca lhe faria mal, nem deixaria que alguém o fizesse estava ali para a ajudar em tudo e, era capaz de dar a vida por ela! 
A rapariga, ficou mais calma, um pouco emocionada, com a certeza que podia confiar no Joam! Então, começou a falar, porque na verdade, falavam a mesma língua, ela pediu-lhe desculpa e disse-lhe que andava disfarçada de rapaz como defesa, porque tinha receio que lhe fizessem mal, se soubessem que era rapariga! O Joam, compreendeu e continuou a fazer perguntas: 
Joam: Bem! Então, já sabes o meu nome, agora, gostava de saber o teu!
Rapariga: O meu nome é Talanna! 
Joam: Talanna, Talanna? Gosto muito! E o que significa? 
Talanna: O meu nome significa rapariga do rio Ana, do Odiana, porque a minha aldeia chama-se Odieayan, ou seja Ribeira de Olivença que entrega as suas águas ao Odiana! 
Joam: Olha, és de perto daqui! E que idade tens? 
Talanna: Tenho vinte e dois anos! E tu? 
Joam: Eu também tenho vinte e dois anos! E tens namorado lá na tua aldeia? 
Talanna: Não, não tenho! Nunca tive tempo para isso! A minha vida e da minha família era toda dedicada às nossa cabras! E tu tens namorada?
Joam: Não, não tenho! Então, e agora a tua família já não se dedica às cabras? Ficaram para ti? 
Talanna: Sim, as cabras ficaram para mim, porque os meus pais e os meus cinco irmãos, partiram todos, foram chamados por Alá, só fiquei eu, dois tios e oito primos e primas, mas não sei se ainda cá estão todos, porque há quase dois anos que ando com as minhas cabras nas margens do Odiana e nunca mais voltei à minha aldeia! 
Joam: Sinto muito! E porque motivo partiu a tua família? Alguma doença? 
Talanna: Sim, foi a moléstia! Levou quase toda a gente da minha aldeia e os que não levou, como eu, fugiram de lá! 
O Joam mostrou muita consternação pelo que tinha sucedido à família de Talanna e, mais uma vez, a Talanna ficou emocionada, aumentando a simpatia para com ele! 
O Joam ajudou-a a cortar ramos de árvores e arbustos para fazer um abrigo mais afastado da Ribeira, porque durante o inverno, não podia ficar naquele lugar que, decerto era inundado pelas águas da Ribeira e do Ribeiro do Alcaide! 
À noitinha, o Joam despediu-se da Talanna, porque teve de regressar a casa com as suas cabras, mas ia tão contente, assobiando e cantando que, foi logo notado pelos pais e irmãos que, existia alguma novidade, então foi obrigado a contar-lhe o que se passava! 
Ele contou tudo e a família ficou com a certeza que o Joam estava perdido de amor pela cabreira do Odiana e, disseram-lhe que, tinha de a convidar para ir a sua casa, porque queriam conhecê-la! 
O Joam disse-lhe que, ainda mal a conhecia, mas se ela por ali ficasse, decerto que a convidava para ir lá a casa! 
Nessa noite, o Joam não conseguia adormecer, não lhe saía da cabeça a figura da Talanna, completamente nua a tomar banho! Nunca tinha visto uma mulher nua, nem imaginava tanta perfeição! Então, começou a fazer planos do casamento com ela e a morar num casebre no lugar onde a conheceu! 
Nessa noite, a Talanna, também não conseguia adormecer, imaginando o seu enlace com o Joam e a morar ali naquele maravilhoso lugar! 
Na manhã seguinte, ainda cedo, já o Joam estava junto da Talanna, levou comida para repartir com ela e começou logo a trabalhar a seu lado!
A partir daquele dia, o Joam e a Talanna estavam sempre juntos, guardavam as cabras, tiravam-lhe o leite, faziam queijos e sempre que tinham tempo, reforçavam o curral e construíam choças resistentes ao frio, às chuvas e a eventuais ataques de animais selvagens, afastadas da Ribeira, mas à noite, contra a sua vontade, o Joam tinha de regressar com as suas cabras para casa, onde chegava sempre muito triste, por deixar a Talanna sozinha na sua choupana! 
Os pais e irmãos do Joam reparavam na sua tristeza e sabiam a sua causa, então, a pedido da mãe e dos irmãos, o pai teve uma conversa com ele:
Pai: Oh Joam, vamos lá conversar! O que se passa contigo filho? Andas doente, ou o teu mal tem a ver com a tua amiga cabreira? 
Joam: Oh pai, não vou mentir, a verdade é que quanto mais conheço a Talanna, mais perdido de amor estou por ela! Parece que a conheço de toda a minha vida e não tenho dúvida que a amo ao ponto de dar a minha vida por ela!
Pai: Oh Joam, estou a ver que é um caso muito sério! Então, já lhe disseste o que sentias por ela? 
Joam: Ainda não pai! Eu acho que ela também gosta de mim, mas posso estar enganado e depois ela pode ficar zangada e não me querer lá perto dela! 
Pai: Pois é filho, mas tens de correr esse risco, não podes continuar a sofrer assim, tens de falar com ela e se estiveres enganado dás outro rumo à tua vida! Foi sempre assim, filho!
Joam: Está bem pai, de amanhã não passa sem dizer à Talanna o que sinto por ela e de saber o que ela sente por mim! 
Pai: Então, faz isso filho, faz isso! Já sabes que estamos todos a teu lado! 
O Joam, depois da conversa com o pai, ficou mais aliviado, após a ceia deitou-se, adormeceu e passou a noite a sonhar que estava casado com a Talanna, era pai de muitos filhos, a morar numa linda Aldeia no lugar onde existiam os currais e as choças dela, eram donos de muitas cabras e viviam todos muito felizes! 
Acordou de madrugada, levantou-se, fez as rotinas habituais, com os irmãos tiraram o leite às cabras e depois de tudo tratado soltou-as, foi descendo o Ribeiro do Alcaide e depressa se juntou à Talanna! 
Cumprimentou-a e reparou que ainda estava mais linda! Ela respondeu ao Joam com um sorriso que ele desconhecia e o arrepiou, mas ao mesmo tempo o despertou para o que vinha pronto a fazer e estava no momento certo para lhe dizer o que sentia por ela: 
Joam: Talanna, quero ter uma conversa contigo, mas tens de me prometer que não te zangas comigo! Prometes? 
Talanna: Sim, prometo, seja a conversa que for, prometo que nunca me vou zangar contigo! Nunca seria mal agradecida, pelo que tens feito por mim! 
Joam: Pois, é esse o problema! Quero que me respondas o que tiveres de responder e que não te sintas obrigada a responder o que não sentes, por achares que tens alguma dívida para comigo! 
Talanna: Oh Joam, deixa-te dessa conversa e diz lá o que tens a dizer, juro que vou ser sincera na resposta! 
Joam: Talanna, quero dizer-te que, estou perdido de amor por ti! Nunca conheci uma rapariga com tanta beleza, o teu olhar tem o brilho das estrelas e a tua doçura o reflexo do luar, eu quero ficar contigo para sempre! 
Talanna: Oh Joam, não fico zangada, não! Mas devem se os teus olhos que me vêem assim! Eu não mereço tanta admiração! O que queres que eu responda?
Joam: Então, já sabes o que sinto por ti, só quero que me digas se também gostas de mim!
Talanna: Sim, Joam! Desde o primeiro momento que te vi, que gosto de ti, mas não tinha a certeza se gostavas de mim! 
Joam: Então, agora já tens a certeza que te amo e quero casar contigo! Assim que tivermos as coisas aqui organizadas vamos a minha casa para conheceres a minha família e para eles te conhecerem! 
Talanna: Sim, está bem, mas não tenho roupa para me apresentar na casa da tua família, antes tenho de ir comprar roupa a uma feira! 
Joam: Olha, daqui a quinze dias há uma feira em al-Julumaniya (Juromenha), os meus irmãos ficam aqui a guardar as cabras e nós vamos comprar a tua roupa e outras coisas, depois no fim do mês que vem há uma grande feira em al-Bash (Elvas), também vamos! 
Talanna: Está bem Joam, tenho alguns dirrãs guardados, posso comprar a roupa e mais algumas cabras! 
Joam: Então, está combinado! E a partir de hoje somos namorados? 
Talanna: Sim, Joam, somos namorados, mas ficas a saber que, enquanto não casarmos não ficas aqui na choça, nem vai haver nada entre nós! 
Joam: Sim, não pensei numa coisa dessas! Continuamos como até agora, mas temos de tratar do nosso casamento e depressa! 
O Joam, nessa noite entrou em casa tão contente que todos perceberam qual tinha sido a resposta da Talanna! Mas ele confirmou que, a partir daquele dia eram namorados!
No final do verão de mil cento e vinte e um, o Joam e a Talanna casaram-se, foi um casamento muito simples, no entanto, teve boda! Ele recebeu algumas cabras dadas pelos pais que juntou às dela, formando uma grande cabrada, guardadas pelos dois, mas ela começou a dedicar-se aos trabalhos junto e dentro das choças, como tirar o leite às cabras, fazer e cuidar dos queijos e tratar de outros animais que compraram nas feiras e alguns foram oferecidos pelos pais do Joam, como, galinhas, patos, perus e outros! 
A sua vida estava muito bem organizada e, naturalmente, a família começou a crescer com o nascimento dos filhos! 
O rebanho de cabras também crescia dia a dia e os currais e casebres aumentavam constantemente! 
Os irmãos e irmãs do Joam, foram casando e construindo os seus casebres junto ao seu, sendo, muito rapidamente constituída uma aldeia que, por ter sido iniciada por Talanna ficou com a designação do seu nome, ou seja, Aldeia de Talanna!
A Aldeia de Odieayan, terra natal de Talanna, não ficava longe dali, mas desde a sua triste partida, ela nunca mais lá tinha voltado, até que um dia bateu-lhe a saudade do sitio e da família e disse ao Joam que sentia muita vontade de lá voltar, não só, por uma questão de sentimento, mas para saber se os tios e primos tinham sobrevivido à moléstia e se tinham voltado para os seus casebres! 
O Joam nem hesitou e disse-lhe que iam lá mais depressa do que ela imaginava, ele sabia que existia um lugar de fácil passagem do Odiana, junto ao Castelo dos Mocissos, por isso, seria já na semana seguinte a sua visita a Odieayan na Ribeira de Olivença! 
No fim do mês de Setembro trataram dos mantimentos para a viagem e no último dia desse mês meteram-se a caminho, montados numa burra e num burro, partiram cedo e, antes do meio dia já estavam à porta do casebre que tinha sido da família da Talanna! 
Bateram à porta e apareceu uma prima que tratava do casebre e lá residia, caíram nos braços uma da outra, depois entraram e num instante a prima contou-lhe como tinham passado desde a saída dali e disse-lhe estavam todos vivos!
O Joam e a Talanna foram visitar toda a família, passaram o resto do dia a ouvir e a contar o que se tinha passado nas suas vidas durante os últimos oito anos e confirmaram que os tios e primos vivam com muitas dificuldades, então deixaram-lhe tudo o que podiam dispensar, pão, queijos e roupa! 
Antes de partirem, disseram à família que, podiam mudar-se para a sua nova aldeia, onde havia trabalho para todos! Os tios agradeceram, mas responderam que, aquela era a sua terra e não conseguiam mudar-se dali, porém, três primos e duas primas aceitaram e voltaram com eles, ainda nesse dia, para a Aldeia de Talanna! 
No dia seguinte, começaram todos a trabalhar, os primos a tirar o leite às cabras e a fazer trabalhos agrícolas! As primas a recolher o leite, prepará-lo, fazer queijos, tratar os queijos em cura, uma autentica fábrica da época! 
Em meados do mês de Outubro o Joam e a Talanna, voltaram à Ribeira de Olivença, levaram mantimentos, roupas, duas cabras e um cabrito para deixar lá por tempo indeterminado, porque, assim, não lhe faltaria leite e queijos e, depois os cabritos que as cabras tivessem, seriam para eles! 
No ano seguinte, voltaram a visitar a sua família da Ribeira de Olivença e, além de outras coisas, levaram-lhe mais uma cabrita e um cabrito, ficaram com cinco fêmeas e o cabrito e, quando voltaram trouxeram o bode que tinham levado no ano anterior, em cabrito, de volta! 
A vida económica do Joam e da Talanna, estava cada vez mais próspera, era a casa agrícola mais rica da região, tinham quatro rebanhos de cabras e muitas terras para sul por sua conta, então, quando voltaram à Ribeira de Olivença, levaram mantimentos e mais duas cabras! 
A Talanna, juntou a família e disse-lhe que, as cabras que ali tinham emprestadas e as que levavam naquele dia, passavam a ser deles e o casebre e outros bens que pertenciam aos seus pais, também seriam deles!
Os tios e os primos, agradeceram-lhe muito e como forma de reconhecimento decidiram que, aquele lugar, passava a designar-se Aldeia de Talanna e, foi assim que surgiu a Talana ou Telena além Odiana na Ribeira de Olivença! 
A atividade agro pecuária do Joam e da Talanna continuava a crescer, tinham muitas dezenas de trabalhadores por sua conta, entre os quais, muitos familiares! 
Como a ameaça dos cristãos na região era cada vez maior, falava-se num temido bando comandado por um Geraldo (Geraldo Sem Pavor) que roubava e matava sem piedade, o que obrigou à concentração dos mouros desta região neste lugar, o qual, foi crescendo dia a dia, passando a designar-se At - Talanna, o mesmo que, veio ser a Villa de Terena dos cristãos, situada no Lugar da foz do Ribeiro do Alcaide com a Ribeira de Lucefécit.

E foi assim que, a linda Villa de Terena nasceu, da história de um grande amor entre Joam e Talanna.

Fim 



segunda-feira, 15 de abril de 2019

529 - Terras de Capelins 
Villa de Terena Árabe - At - Talanna
Se havia alguma dúvida sobre a existência da Villa de Terena na época dos árabes, podemos confirmar como a mesma se designava, justificando, desse modo, o descrito na nossa lenda sobre a sua fundação pela moura "Talana" guardadora de cabras, no ano de mil cento e vinte! 
Os árabes deixaram um legado enorme na toponímia, ou seja, no nome das localidades. Muitos dos nomes que ainda hoje usamos para nos referir a algumas localidades do Alentejo têm origem na época dos mouros:

Alcácer do Sal: al-Qasr-al-Baja ou al-Qasr abu Danis (قصر أبي دانس)
Alcáçovas: al-Qasba (fortificação)
Aljustrel: al-Lustr
Almodôvar: al-Mudawwar (المدوّر)
Beja: al-Bajah az-Zayt (باجة الزيت)
Caia: al-Qaya
Elvas: al-Bash
Évora: al-Yabura (يابرة)
Juromenha: al-Julumaniya
Marvão: Marwan (مروان), de Ibn Marwan
Mértola: al-Martulah (مارتلة)
Messejana: al-Masjana (cárcere, prisão)
Moura: al-Manijah ou al-Maura
Odemira: al-Uadhra
Oriola: Uryūlâ (أريولة), Ūryūlâ (أوريولة)
Serpa: Shirba
Terena: at-Talanna

At - Talanna = Terena na Villa Velha
Villa de Terena 


quinta-feira, 11 de abril de 2019

528 - História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A lenda dos dois teimosos que ficaram presos no passadiço do Bufo 

No decénio de mil novecentos e sessenta, o lavrador das herdades da Defesa de Bobadela nas terras de Capelins e de Santa Luzia para lá da Ribeira de Lucefécit,  mandou construir um passadiço pedonal junto ao Moinho do Bufo, por ser o lugar mais adequado para os seus trabalhadores que residiam nas terras de Capelins poderem passar a dita Ribeira quando levava cheia, a caminho da herdade de Santa Luzia! Este passadiço, era a única alternativa de passagem entre as duas margens  nesta região, sendo usado por toda a gente que precisasse de passar para qualquer das margens!  
Nessa época, nas ditas herdades trabalhavam homens de Montes Juntos e alguns da aldeia de Ferreira de Capelins, entre eles, o ti Manoel da Rosa, morador em Capelins de Cima e  o ti António Ramos, morador em Capelins de Baixo! Como houve redução no trabalho na herdade da Defesa, o feitor disse-lhe para se apresentarem no Monte de Santa Luzia, onde ficariam a trabalhar durante algum tempo! 
A mudança, não foi do seu agrado, porque, o caminho era muito mau e tinham de atravessar a Ribeira duas vezes por dia que, no mês de Março e Abril, levava grandes cheias, logo, a sua travessia era perigosa, mas não tinham escolha, era pegar ou largar, mas não aceitar, significava desemprego, por isso, não tinham alternativa! 
No dia anterior, ao da apresentação em Santa Luzia, o ti Manoel e o ti António combinaram a hora da partida e o lugar onde se deviam encontrar, assim, o encontro seria junto ao poço da estrada, às seis horas da manhã, seguiam pelo malhão, talaveirinha e bufo, mesmo devagar nas suas bicicletas pasteleiras, estariam no Monte de Santa Luzia antes das sete horas! 
Nos primeiros dias, chegaram ao poço da estrada à hora combinada, depois, começaram quase sempre a ter de esperar um pelo outro, até que decidiram deixar de esperar ali parados, então, seguiam e logo se juntavam!  
Na sexta feira, dia três de Março de mil novecentos e sessenta e seis, quando o ti António Ramos chegou ao poço da estrada, não havia sinal do ti Manoel da Rosa, até podia estar para a frente, então, foi pedalando devagar, também porque, tinha de subir a chapada até quase ao alto do malhão ao lado da bicicleta!
 Depois de fazer esta parte do caminho, depressa chegou ao Ribeiro da Negra, o qual, tinha grande corrente, passou nas  passadeiras, com muito cuidado, porque ainda estava muito escuro, quando chegou ao alto da talaveirinha olhou para trás na esperança de ver sinais do companheiro e, avistou uma luz lá no alto do malhão, logo, ficou mais descansado, o ti Manoel estava para trás, mas continuou na direção do Monte da Talaveirinha e do Bufo! 
Quando chegou junto ao Moinho do Bufo, meteu a cabeça por dentro do quadro da bicicleta, colocou-a apoiada atrás do pescoço, porque ali tinha de ficar à frente, encostou-se à parede do Moinho e lá foi indo muito devagar até entrar no passadiço, continuou a andar com muito cuidado agarrado ao arame lateral de apoio e, quando deu por si já tinha os pés assentes em terras de Santa Luzia! 
Ainda pensou em esperar pelo companheiro, mas para não arrefecer ali parado, decidiu continuar devagar, podia ser que ele o apanhasse até lá ao Monte! 
O ti Manoel da Rosa já vinha perto do ti António e, quando chegou ao Bufo, fez o mesmo que ele, meteu a cabeça por dentro do quadro da bicicleta, ajeitou a alcofa do almoço, encostou-se à parede do Moinho e começou a andar devagarinho, porque aquele espaço era muito estreito e perigoso, entrou no passadiço que ficava todo ocupado em largura, com ele, com a bicicleta e a alcofa, por isso, não era fácil o cruzamento com outro transeunte que, eventualmente viesse a passar com a mesma carga às costas e, foi o que aconteceu! 
Quando o ti Manoel estava quase a meio do passadiço e da Ribeira, deparou com outro homem que vinha, exatamente com a mesma carga, era o ti Xico Bandarra  que morava no Monte do Aguilhão e naquele dia ia trabalhar para a herdade da Amadoreira, situada nas terras de Capelins, para cá da Ribeira de Lucefécit!
O ti Manoel assim que o avistou a entrar no passadiço sem esperar que ele chegasse à margem, começou a gritar: 
Ti Manoel: Oh homem espere aí, não vê que já vou a meio do passadiço e não posso ir para trás! 
Ti Xico: Então, acha que não cabemos os dois? Eu tenho a certeza que consigo passar, não tenho nenhum problema, passo bem em todo o lado! 
Ti Manoel: Mau, mau, você quer é tourada! Então é tourada que vai ter! Juro pela minha honra que aqui não passa, para não ser malcriado! 
Ti Xico: Oh homem, estou a brincar, eu não quero tourada nenhuma! Que conversa é essa? Chegue-se lá para o lado que passamos bem os dois! 
Ti Manoel: Já lhe disse que não chego para lado nenhum, aqui não passa e pronto, arrede, arrede! 
Ti Xico: Qual arrede! Vá, vire-se para lá, passamos as bicicletas pelo lado de fora e passamos costas com costas! 
Ti Manoel: Mas nem pensar, era o que faltava, você quer é pregar comigo na água! Vá arrede, arrede e depressa, que eu não tenho tempo para estar aqui! 
Ti Xico: Oh homem, já lhe disse, se passamos bem, nenhum precisa de arredar! 
Ti Manoel: E eu já lhe disse que não me viro para lado nenhum, ainda por cima aqui no sítio mais perigoso, se caísse à água, era morte certa! Arrede, arrede! 
Ti Xico: Eu não arredo nada, nem um metro, por isso, ou faz com eu digo ou arreda você! 
Ti Manoel: Mau, mau, pois fique a saber que daqui não arredo nem encosto para lado nenhum! 
Ti Xico: Eh que homem tão teimoso! Pois fique a saber, que eu também não arredo e não me encosto para lado nenhum! Também tenho a minha honra! 
Ti Manoel: Você sabe que eu tenho razão, viu-me aqui no passadiço, se tivesse alguma honra, tinha esperado um bocadinho para eu chegar aquele lado e logo se metia no passadiço! 
Ti Xico: Oh homem, quantas vezes já aqui me cruzei com outras pessoas e com jeito passamos bem, isto é tudo teimosia sua! 
Ti Manoel: Não é teimosia nenhuma, eu é que não me vou rebaixar e sei lá se me manda água abaixo! 
Ti Xico: Oh homem, mas qual água abaixo? Teimoso como você é, se caísse, decerto ia água acima! 
Ti Manoel: Mau, mau, isso já é ofender, olhe que isto ainda acaba mal! Vá, arrede que já estou atrasado para o trabalho! 
Ti Xico: Está você e estou eu, por isso, se quer passar já lhe disse como é! 
Ti Manoel: Mas ouça lá, você sabe de quem é este passadiço? Pensa que manda aqui alguma coisa? Que pessoa tão teimosa! Pois olhe, fique a saber que daqui não saio, nem que passe aqui o dia! 
Ti Xico: O passadiço, é de quem aqui passar e olhe, fique sabendo que eu também não saio daqui, nem que passe o dia todo e até uma semana ou duas neste lugar!  

Entretanto, o ti António Ramos chegava ao Monte de Santa Luzia, foi sempre com o ouvido à escuta, esperando ouvir a aproximação do companheiro, mas nada! 
Quando chegou, arrumou a bicicleta no alpendre, pegou na alcofa e foi-se chegando para junto dos outros trabalhadores, deu os bons dias, começaram a falar da meteorologia, passou algum tempo e nada da chegada do ti Manoel, alguns homens estranharam eles não terem chegado juntos e perguntaram-lhe por ele!
O ti António, disse-lhe que já estava a ficar preocupado, não tivesse ele caído da bicicleta e ficado mal, ou ainda pior, se tivesse caído à água na passagem da Ribeira! Naquele momento, chegou o feitor e depois de os cumprimentar verificou que faltava o ti Manoel da Rosa e perguntou: 
Feitor: Então o ti Manoel da Rosa, hoje não veio trabalhar? 
Ti António: Olhe ti Zé, eu não o vi, porque vim sempre à frente, mas quando cheguei ao alto da talaveirinha olhei para trás e vi a luz da bicicleta dele no alto do malhão, por isso, estou  preocupado por ele ainda não estar aqui! 
Feitor: Oh ti António, como é que sabe que era a luz da bicicleta dele? Tantas luzes de bicicletas que há por aí, elas são todas iguais! 
Ti António: Não, não, ti Zé! As luzes das bicicletas não são todas iguais! Umas dão a luz branca, outras amarela, umas mais baixas, outras mais altas, umas mais fortes, outras mais fracas! São muito diferentes e, também depende da cor da lâmpada! A do ti Manoel, conheço-a muito bem e aquela que vi era a dele! 
Feitor: Oh ti António, não sabia que era especialista em luzes de bicicletas, mas se era o ti Manoel, logo virá cá ter! Ou foi à casa de banho, ou furou a bicicleta ou qualquer outra coisa! Podem ir lá para baixo podar os freixeiros e depois o ti Manoel fica aqui no Monte que há aí muito para ele fazer! Vá, podem subir para o reboque, eu logo dou lá a volta a ver o seu trabalho!  
Os homens foram para as margens do rio Guadiana podar os freixeiros, esgalhar a lenha, separando a mais grossa dos ramos para as vacas comerem as folhas, que tinham efeitos medicinais e, já perto do meio dia, apareceu o feitor, foi logo ter com o ti António e disse-lhe: 
Feitor: Olhe, ti António, o nosso homem, afinal não apareceu! 
Ti António: Ai valha-me Deus, ti Zé! Tenho a certeza que ele não está por bem, o mais certo foi ter caído na Ribeira e marchou água abaixo! 
Feitor: Oh ti António, não podemos pensar no pior! Pode estar doente, ou ter algum filho doente ou a mulher ou até se pode ter deixado dormir! Se lhe tivesse acontecido alguma coisa de mal no caminho, já o tinham achado, essa estrada tem muito movimento!
Ti António: Tenho a certeza que ele vinha atrás e mim, a luz da bicicleta era a dele e se não caiu no caminho é porque caiu na Ribeira, esta hora, já vai  Guadiana abaixo, só se ficou agarrado a algumas silvas ou a algum freixeiro!
Feitor: Olhe ti António, para ficar mais descansado, agora depois do jantar (almoço), carregam a lenha no reboque e vão levá-la ao Monte, vocemecê vai com o tratorista, pega na sua bicicleta e pode ir ver se sabe alguma coisa do ti Manoel! 
Ti António: Está bem, ti Zé, eu não estou descansado! Não estou, não estou!
Feitor: Então fica assim! Vai ver que ele ficou em casa na boa vida e vocemecê aí cheio de preocupações, a pensar que ele já vai Guadiana abaixo! Até logo!   
Ti António: Até logo, ti Zé! Deus queira que eu não tenha razão! 
O feitor ainda lhe disse: Vai ver que não tem razão, vai ver! 
Depois do meio dia, os trabalhadores carregaram o reboque com lenha grossa dos freixeiros e, o ti António seguiu com o tratorista para o Monte de Santa Luzia! 
O ti António não se empatou, pegou na bicicleta e partiu rapidamente pelo caminho do Bufo, assim que chegou ao passadiço, ficou abismado com o que viu! Dois homens sentados mesmo ao meio, com as bicicletas enfiadas na cabeça em grande discussão, como não conseguia perceber o que se estava a passar, encostou a sua bicicleta a um freixeiro e meteu-se pelo passadiço na sua direção! 
Quando se aproximou deles teve a certeza que não estavam feridos, mas o que estavam a fazer naquele lugar? 
O ti António, deu-lhe a boa tarde e perguntou-lhe: 
Ti António: Ai valha-me Deus! O que estão vocês a fazer aqui no meio do passadiço? Houve algum azar? 
Os dois homens, responderam ao mesmo tempo: Boa tarde, houve um grande azar, lá isso houve! 
Ti António:  Mas não estão feridos, o passadiço não caiu e está livre! O que raio se passa? 
Os dois homens falando ao mesmo tempo e culpando-se um ao outro contaram ao ti António, qual era o motivo que os obrigava a estar ali!   
Ti António: Eu não acredito no que estou a ver e a ouvir! Então vocês por teimosia, perderam o dia de trabalho? Vá, vamos lá levantar e falar ali para a margem da Ribeira! 
Os dois homens responderam em uníssono: Não é por teimosia, é pela minha honra! Eu não saio daqui! Ele é que tem de arredar! 
Ti António: Mau, mau! Temos aqui duas crianças? Vá, ti Xico, venha lá, já depois o ti Manoel pode sair daí! 
Ti Xico: Essa agora! Eu não me rebaixo a esse teimoso! Sou um homem honrado! Ele que arrede e vamos para aquela margem! 
Ti Manoel: Mas nem pensar, porquê eu? Pensa que não tenho a minha honra? Não senhor, não arredo um passo que seja! Eu já vinha quase a meio do passadiço quando você teimou em entrar nele desse lado!
O ti António tentou tudo, mas foi obrigado a desistir! Voltou ao Monte de Santa Luzia a informar o feitor do que se estava a passar e a pedir ajuda, porque não tinha dúvidas que, eles estavam de pedra e cal, sentados  ao meio do passadiço do Bufo! 
O ti António chegou ao Monte, perto das três horas da tarde, foi direito à casa do feitor e perguntou à mulher: 
Ti António: Ora, boa tarde, ti Anna! Sabe dizer-me onde posso encontrar o ti Zé? 
Ti Anna: Boa tarde ti António, olhe ele quase nunca me diz para onde vai, mas hoje por acaso disse-me que ia primeiro tratar de um assunto com o pastor além para os lados das Neves e depois vinha pela malhada para falar com o ti Margarido! 
Ti António: Nesse caso, vou até ali abaixo à malhada e espero ali por ele! Então, até amanhã! 
Ti Anna: Até amanhã ti António! 
O ti António seguiu para a malhada de Santa Luzia para ali esperar a chegada do feitor! Cumprimentou o ti Margarido, contou-lhe o que se estava a passar com os dois teimosos e, disse-lhe que esperava o feitor para lhe pedir se ele podia ir lá ao Bufo, porque só ele podia resolver aquela questão! 
O feitor ainda se demorou e o ti António não esteve parado, andou ajudando o ti Margarido a afilhar as porcas e a limpar as pocilgas! 
Quando o feitor chegou à mallhada ficou surpreendido por o ver o ti António ali e a fazer aquele trabalho, mas nem teve tempo de fazer perguntas, porque o ti António disse-lhe logo:
Ti António: Boa tarde ti Zé, já achei o ti Manoel! 
Feitor: Ah já? E está vivo? Ou está afogado? Onde é que ele está homem?
Ti António: Está vivo! Até está vivo de mais! Olhe, até está mesmo ao meio do passadiço do Bufo desde esta madrugada!
Feitor: Ora essa! Não me diga que o passadiço foi água abaixo e o homem ficou encurralado lá no meio? 
Ti António: Está lá encurralado está! E bem encurralado! Mas o passadiço não foi água abaixo, está lá bem firme! 
Feitor: Essa agora! Então se o passadiço está lá bem firme, o que está o homem a fazer um dia inteiro, lá empoleirado?
O ti António contou ao feitor tudo o que se tinha passado e pediu-lhe para ir lá, porque só ele podia resolver aquela questão! 
O feitor, ficou irritado e revoltado com aquela palhaçada e, não hesitou em ir com o ti António até ao Bufo! 
Quando chegaram, estava tudo na mesma, o feitor avançou até ao meio do passadiço, mal os cumprimentou e disse-lhe: 
Feitor: Vamos lá acabar com esta palhaçada, levantem-se já daí e venham atrás de mim, vamos lá falar além para a margem! 
Os dois homens responderam ao mesmo tempo: Eu não me mexo daqui! É a minha honra que está em causa! Eu não me rebaixo a este teimoso! 
O feitor já irritado disse-lhe: 
Feitor: Mas qual honra nem honra, desde quando é que a teimosia é honra? Vocês sabem quem mandou fazer este passadiço? Sabem, sabem! Então, ponham-se fora dele imediatamente! Quando eu chegar além à margem, se não forem atrás de mim, o ti Manoel está despedido e o ti Xico vai ser despedido, porque ainda vou hoje à Amadoreira contar esta palhaçada ao seu patrão e pedir-lhe para o despedir e nunca mais passam por este passadiço, porque como sabem, ele tem dono! 
O feitor seguiu e não olhou mais para trás, quando chegou à margem esquerda da Ribeira, estavam os dois junto dele com as bicicletas enfiadas na cabeça! 
O feitor ao ver que tinha resolvido o caso, não falou muito, apenas disse: 
Feitor: Bem, por hoje isto fica por aqui, depois logo falamos! Podem ir para casa! Até amanhã! 
Os dois trabalhadores, envergonhados, despediram-se e, cada um seguiu para suas casas! O feitor voltou para a malhada do Monte de Santa Luzia, o ti Xico foi para o Monte do Aguilhão e o ti António e o ti Manoel, para Ferreira de Capelins! 
O ti Manoel e o ti António, durante o caminho, pouco falaram, quando chegaram ao poço da estrada, seguiram caminhos diferentes um para Capelins de Cima e, o outro para Capelins de Baixo! 
Quando o ti Manoel chegou a casa, um pouco mais cedo, a mulher, a ti Maria Joaquina, ainda não tinha a ceia (jantar) pronta, ficou admirada e perguntou-lhe: 
Ti Maria: Então Manoel, hoje deram-te a solta mais cedo? 
Ti Manoel: Mais cedo? Hoje nem me chegaram a dar a solta! 
Ti Manoel: Não te chegaram a dar a solta? E como é que soltaste? 
Ti Manoel: Olha mulher, soltei, soltando! 
Ti Maria: Olha como tu vens! Assim, não te entendo! 
Ti Manuel: Então e o que é que tens que entender? Mas se queres saber a verdade, hoje não fui trabalhar! 
Ti Maria: Ai valha-me Deus! Tu não me digas uma coisa dessas! Olha que eu estou já a dever muito ali na mercearia e ainda hoje disse ao ti Miguel que assim que recebesses ia lá pagar, agora uma coisa destas! 
Ti Manoel: E agora o que queres? Sempre é melhor do que eu ter morrido, não? 
Ti Maria: Pois, mas não morreste e perdeste o dia de trabalho! Mas, então diz-me lá o que te aconteceu? 
Nesse momento, o ti Manoel esteve quase a mentir e a dizer-lhe que esteve muito doente, mas de repente lembrou-se que, tinha comido tudo o que levava na alcofa! Ora, uma pessoa doente mão comia assim e depois não demorava muito tempo em toda a gente saber o que se tinha passado e ainda ia ser muito pior, então decidiu contar tudo à ti Maria! 
A ti Maria ia ouvindo e levando as mãos à cabeça, mas não podia dizer muita coisa porque o ti Manoel estava muito irritado e ainda podia sobrar para ela, então só lhe disse: 
Ti Maria: Oh Manoel,  um homem da tua idade a fazer essas figuras! E ainda dizes que foi tudo pela tua honra? Tanta falta que nos faz o dinheiro da jorna! Então e se és despedido? Olha que ando a comprar fiado!
Ti Manoel: Oh mulher cala-te com essas lamúrias! Tu sabes lá o que é a honra de um homem! Não há dinheiro que pague isso! 
Ti Maria: Sim, Manoel, a honra tem muito valor, de verdade tem, mas não paga as contas na mercearia! 
Ti Manoel: Olha Maria, acabou a conversa, traz lá a ceia para a mesa que estou cheio de fome e deixa lá que tudo se resolve
Ti Maria: Está quase pronta, mas olha, se não foste trabalhar ao menos podias ter deixado o jantar para a ceia, era isso que ainda ganhavas! 
Ti Manoel: Cala-te mulher, ainda comi mais do que os outros dias e se mais tivesse mais comia! Não te esqueças que estive com a bicicleta enfiada na cabeça o dia todo em cima do passadiço do Bufo! Dói-me o corpo todo! Assim que comer vou-me logo deitar! Vê lá se despachas isso! 
A ti Maria acabou de prepara as sopas de grãos, disse ao ti Manoel que já podia migar o pão para a tigela! Cearam e não demorou muito tempo já estava esticado na cama, porque como tinha estado com as pernas encolhidas o dia todo, nem as sentia com tanto cansaço!
No dia seguinte, já toda a gente sabia nas terras de Capelins e arredores, fizeram-lhe cantigas, décimas e, foi motivo de muita chacota, mas os dois teimosos não se importaram, porque para eles, não foi teimosia, mas uma questão de honra, como nenhum cedeu, para eles, foram os dois vencedores.

Fim 

Bufo - Capelins 


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...