quinta-feira, 11 de abril de 2019

528 - História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A lenda dos dois teimosos que ficaram presos no passadiço do Bufo 

No decénio de mil novecentos e sessenta, o lavrador das herdades da Defesa de Bobadela nas terras de Capelins e de Santa Luzia para lá da Ribeira de Lucefécit,  mandou construir um passadiço pedonal junto ao Moinho do Bufo, por ser o lugar mais adequado para os seus trabalhadores que residiam nas terras de Capelins poderem passar a dita Ribeira quando levava cheia, a caminho da herdade de Santa Luzia! Este passadiço, era a única alternativa de passagem entre as duas margens  nesta região, sendo usado por toda a gente que precisasse de passar para qualquer das margens!  
Nessa época, nas ditas herdades trabalhavam homens de Montes Juntos e alguns da aldeia de Ferreira de Capelins, entre eles, o ti Manoel da Rosa, morador em Capelins de Cima e  o ti António Ramos, morador em Capelins de Baixo! Como houve redução no trabalho na herdade da Defesa, o feitor disse-lhe para se apresentarem no Monte de Santa Luzia, onde ficariam a trabalhar durante algum tempo! 
A mudança, não foi do seu agrado, porque, o caminho era muito mau e tinham de atravessar a Ribeira duas vezes por dia que, no mês de Março e Abril, levava grandes cheias, logo, a sua travessia era perigosa, mas não tinham escolha, era pegar ou largar, mas não aceitar, significava desemprego, por isso, não tinham alternativa! 
No dia anterior, ao da apresentação em Santa Luzia, o ti Manoel e o ti António combinaram a hora da partida e o lugar onde se deviam encontrar, assim, o encontro seria junto ao poço da estrada, às seis horas da manhã, seguiam pelo malhão, talaveirinha e bufo, mesmo devagar nas suas bicicletas pasteleiras, estariam no Monte de Santa Luzia antes das sete horas! 
Nos primeiros dias, chegaram ao poço da estrada à hora combinada, depois, começaram quase sempre a ter de esperar um pelo outro, até que decidiram deixar de esperar ali parados, então, seguiam e logo se juntavam!  
Na sexta feira, dia três de Março de mil novecentos e sessenta e seis, quando o ti António Ramos chegou ao poço da estrada, não havia sinal do ti Manoel da Rosa, até podia estar para a frente, então, foi pedalando devagar, também porque, tinha de subir a chapada até quase ao alto do malhão ao lado da bicicleta!
 Depois de fazer esta parte do caminho, depressa chegou ao Ribeiro da Negra, o qual, tinha grande corrente, passou nas  passadeiras, com muito cuidado, porque ainda estava muito escuro, quando chegou ao alto da talaveirinha olhou para trás na esperança de ver sinais do companheiro e, avistou uma luz lá no alto do malhão, logo, ficou mais descansado, o ti Manoel estava para trás, mas continuou na direção do Monte da Talaveirinha e do Bufo! 
Quando chegou junto ao Moinho do Bufo, meteu a cabeça por dentro do quadro da bicicleta, colocou-a apoiada atrás do pescoço, porque ali tinha de ficar à frente, encostou-se à parede do Moinho e lá foi indo muito devagar até entrar no passadiço, continuou a andar com muito cuidado agarrado ao arame lateral de apoio e, quando deu por si já tinha os pés assentes em terras de Santa Luzia! 
Ainda pensou em esperar pelo companheiro, mas para não arrefecer ali parado, decidiu continuar devagar, podia ser que ele o apanhasse até lá ao Monte! 
O ti Manoel da Rosa já vinha perto do ti António e, quando chegou ao Bufo, fez o mesmo que ele, meteu a cabeça por dentro do quadro da bicicleta, ajeitou a alcofa do almoço, encostou-se à parede do Moinho e começou a andar devagarinho, porque aquele espaço era muito estreito e perigoso, entrou no passadiço que ficava todo ocupado em largura, com ele, com a bicicleta e a alcofa, por isso, não era fácil o cruzamento com outro transeunte que, eventualmente viesse a passar com a mesma carga às costas e, foi o que aconteceu! 
Quando o ti Manoel estava quase a meio do passadiço e da Ribeira, deparou com outro homem que vinha, exatamente com a mesma carga, era o ti Xico Bandarra  que morava no Monte do Aguilhão e naquele dia ia trabalhar para a herdade da Amadoreira, situada nas terras de Capelins, para cá da Ribeira de Lucefécit!
O ti Manoel assim que o avistou a entrar no passadiço sem esperar que ele chegasse à margem, começou a gritar: 
Ti Manoel: Oh homem espere aí, não vê que já vou a meio do passadiço e não posso ir para trás! 
Ti Xico: Então, acha que não cabemos os dois? Eu tenho a certeza que consigo passar, não tenho nenhum problema, passo bem em todo o lado! 
Ti Manoel: Mau, mau, você quer é tourada! Então é tourada que vai ter! Juro pela minha honra que aqui não passa, para não ser malcriado! 
Ti Xico: Oh homem, estou a brincar, eu não quero tourada nenhuma! Que conversa é essa? Chegue-se lá para o lado que passamos bem os dois! 
Ti Manoel: Já lhe disse que não chego para lado nenhum, aqui não passa e pronto, arrede, arrede! 
Ti Xico: Qual arrede! Vá, vire-se para lá, passamos as bicicletas pelo lado de fora e passamos costas com costas! 
Ti Manoel: Mas nem pensar, era o que faltava, você quer é pregar comigo na água! Vá arrede, arrede e depressa, que eu não tenho tempo para estar aqui! 
Ti Xico: Oh homem, já lhe disse, se passamos bem, nenhum precisa de arredar! 
Ti Manoel: E eu já lhe disse que não me viro para lado nenhum, ainda por cima aqui no sítio mais perigoso, se caísse à água, era morte certa! Arrede, arrede! 
Ti Xico: Eu não arredo nada, nem um metro, por isso, ou faz com eu digo ou arreda você! 
Ti Manoel: Mau, mau, pois fique a saber que daqui não arredo nem encosto para lado nenhum! 
Ti Xico: Eh que homem tão teimoso! Pois fique a saber, que eu também não arredo e não me encosto para lado nenhum! Também tenho a minha honra! 
Ti Manoel: Você sabe que eu tenho razão, viu-me aqui no passadiço, se tivesse alguma honra, tinha esperado um bocadinho para eu chegar aquele lado e logo se metia no passadiço! 
Ti Xico: Oh homem, quantas vezes já aqui me cruzei com outras pessoas e com jeito passamos bem, isto é tudo teimosia sua! 
Ti Manoel: Não é teimosia nenhuma, eu é que não me vou rebaixar e sei lá se me manda água abaixo! 
Ti Xico: Oh homem, mas qual água abaixo? Teimoso como você é, se caísse, decerto ia água acima! 
Ti Manoel: Mau, mau, isso já é ofender, olhe que isto ainda acaba mal! Vá, arrede que já estou atrasado para o trabalho! 
Ti Xico: Está você e estou eu, por isso, se quer passar já lhe disse como é! 
Ti Manoel: Mas ouça lá, você sabe de quem é este passadiço? Pensa que manda aqui alguma coisa? Que pessoa tão teimosa! Pois olhe, fique a saber que daqui não saio, nem que passe aqui o dia! 
Ti Xico: O passadiço, é de quem aqui passar e olhe, fique sabendo que eu também não saio daqui, nem que passe o dia todo e até uma semana ou duas neste lugar!  

Entretanto, o ti António Ramos chegava ao Monte de Santa Luzia, foi sempre com o ouvido à escuta, esperando ouvir a aproximação do companheiro, mas nada! 
Quando chegou, arrumou a bicicleta no alpendre, pegou na alcofa e foi-se chegando para junto dos outros trabalhadores, deu os bons dias, começaram a falar da meteorologia, passou algum tempo e nada da chegada do ti Manoel, alguns homens estranharam eles não terem chegado juntos e perguntaram-lhe por ele!
O ti António, disse-lhe que já estava a ficar preocupado, não tivesse ele caído da bicicleta e ficado mal, ou ainda pior, se tivesse caído à água na passagem da Ribeira! Naquele momento, chegou o feitor e depois de os cumprimentar verificou que faltava o ti Manoel da Rosa e perguntou: 
Feitor: Então o ti Manoel da Rosa, hoje não veio trabalhar? 
Ti António: Olhe ti Zé, eu não o vi, porque vim sempre à frente, mas quando cheguei ao alto da talaveirinha olhei para trás e vi a luz da bicicleta dele no alto do malhão, por isso, estou  preocupado por ele ainda não estar aqui! 
Feitor: Oh ti António, como é que sabe que era a luz da bicicleta dele? Tantas luzes de bicicletas que há por aí, elas são todas iguais! 
Ti António: Não, não, ti Zé! As luzes das bicicletas não são todas iguais! Umas dão a luz branca, outras amarela, umas mais baixas, outras mais altas, umas mais fortes, outras mais fracas! São muito diferentes e, também depende da cor da lâmpada! A do ti Manoel, conheço-a muito bem e aquela que vi era a dele! 
Feitor: Oh ti António, não sabia que era especialista em luzes de bicicletas, mas se era o ti Manoel, logo virá cá ter! Ou foi à casa de banho, ou furou a bicicleta ou qualquer outra coisa! Podem ir lá para baixo podar os freixeiros e depois o ti Manoel fica aqui no Monte que há aí muito para ele fazer! Vá, podem subir para o reboque, eu logo dou lá a volta a ver o seu trabalho!  
Os homens foram para as margens do rio Guadiana podar os freixeiros, esgalhar a lenha, separando a mais grossa dos ramos para as vacas comerem as folhas, que tinham efeitos medicinais e, já perto do meio dia, apareceu o feitor, foi logo ter com o ti António e disse-lhe: 
Feitor: Olhe, ti António, o nosso homem, afinal não apareceu! 
Ti António: Ai valha-me Deus, ti Zé! Tenho a certeza que ele não está por bem, o mais certo foi ter caído na Ribeira e marchou água abaixo! 
Feitor: Oh ti António, não podemos pensar no pior! Pode estar doente, ou ter algum filho doente ou a mulher ou até se pode ter deixado dormir! Se lhe tivesse acontecido alguma coisa de mal no caminho, já o tinham achado, essa estrada tem muito movimento!
Ti António: Tenho a certeza que ele vinha atrás e mim, a luz da bicicleta era a dele e se não caiu no caminho é porque caiu na Ribeira, esta hora, já vai  Guadiana abaixo, só se ficou agarrado a algumas silvas ou a algum freixeiro!
Feitor: Olhe ti António, para ficar mais descansado, agora depois do jantar (almoço), carregam a lenha no reboque e vão levá-la ao Monte, vocemecê vai com o tratorista, pega na sua bicicleta e pode ir ver se sabe alguma coisa do ti Manoel! 
Ti António: Está bem, ti Zé, eu não estou descansado! Não estou, não estou!
Feitor: Então fica assim! Vai ver que ele ficou em casa na boa vida e vocemecê aí cheio de preocupações, a pensar que ele já vai Guadiana abaixo! Até logo!   
Ti António: Até logo, ti Zé! Deus queira que eu não tenha razão! 
O feitor ainda lhe disse: Vai ver que não tem razão, vai ver! 
Depois do meio dia, os trabalhadores carregaram o reboque com lenha grossa dos freixeiros e, o ti António seguiu com o tratorista para o Monte de Santa Luzia! 
O ti António não se empatou, pegou na bicicleta e partiu rapidamente pelo caminho do Bufo, assim que chegou ao passadiço, ficou abismado com o que viu! Dois homens sentados mesmo ao meio, com as bicicletas enfiadas na cabeça em grande discussão, como não conseguia perceber o que se estava a passar, encostou a sua bicicleta a um freixeiro e meteu-se pelo passadiço na sua direção! 
Quando se aproximou deles teve a certeza que não estavam feridos, mas o que estavam a fazer naquele lugar? 
O ti António, deu-lhe a boa tarde e perguntou-lhe: 
Ti António: Ai valha-me Deus! O que estão vocês a fazer aqui no meio do passadiço? Houve algum azar? 
Os dois homens, responderam ao mesmo tempo: Boa tarde, houve um grande azar, lá isso houve! 
Ti António:  Mas não estão feridos, o passadiço não caiu e está livre! O que raio se passa? 
Os dois homens falando ao mesmo tempo e culpando-se um ao outro contaram ao ti António, qual era o motivo que os obrigava a estar ali!   
Ti António: Eu não acredito no que estou a ver e a ouvir! Então vocês por teimosia, perderam o dia de trabalho? Vá, vamos lá levantar e falar ali para a margem da Ribeira! 
Os dois homens responderam em uníssono: Não é por teimosia, é pela minha honra! Eu não saio daqui! Ele é que tem de arredar! 
Ti António: Mau, mau! Temos aqui duas crianças? Vá, ti Xico, venha lá, já depois o ti Manoel pode sair daí! 
Ti Xico: Essa agora! Eu não me rebaixo a esse teimoso! Sou um homem honrado! Ele que arrede e vamos para aquela margem! 
Ti Manoel: Mas nem pensar, porquê eu? Pensa que não tenho a minha honra? Não senhor, não arredo um passo que seja! Eu já vinha quase a meio do passadiço quando você teimou em entrar nele desse lado!
O ti António tentou tudo, mas foi obrigado a desistir! Voltou ao Monte de Santa Luzia a informar o feitor do que se estava a passar e a pedir ajuda, porque não tinha dúvidas que, eles estavam de pedra e cal, sentados  ao meio do passadiço do Bufo! 
O ti António chegou ao Monte, perto das três horas da tarde, foi direito à casa do feitor e perguntou à mulher: 
Ti António: Ora, boa tarde, ti Anna! Sabe dizer-me onde posso encontrar o ti Zé? 
Ti Anna: Boa tarde ti António, olhe ele quase nunca me diz para onde vai, mas hoje por acaso disse-me que ia primeiro tratar de um assunto com o pastor além para os lados das Neves e depois vinha pela malhada para falar com o ti Margarido! 
Ti António: Nesse caso, vou até ali abaixo à malhada e espero ali por ele! Então, até amanhã! 
Ti Anna: Até amanhã ti António! 
O ti António seguiu para a malhada de Santa Luzia para ali esperar a chegada do feitor! Cumprimentou o ti Margarido, contou-lhe o que se estava a passar com os dois teimosos e, disse-lhe que esperava o feitor para lhe pedir se ele podia ir lá ao Bufo, porque só ele podia resolver aquela questão! 
O feitor ainda se demorou e o ti António não esteve parado, andou ajudando o ti Margarido a afilhar as porcas e a limpar as pocilgas! 
Quando o feitor chegou à mallhada ficou surpreendido por o ver o ti António ali e a fazer aquele trabalho, mas nem teve tempo de fazer perguntas, porque o ti António disse-lhe logo:
Ti António: Boa tarde ti Zé, já achei o ti Manoel! 
Feitor: Ah já? E está vivo? Ou está afogado? Onde é que ele está homem?
Ti António: Está vivo! Até está vivo de mais! Olhe, até está mesmo ao meio do passadiço do Bufo desde esta madrugada!
Feitor: Ora essa! Não me diga que o passadiço foi água abaixo e o homem ficou encurralado lá no meio? 
Ti António: Está lá encurralado está! E bem encurralado! Mas o passadiço não foi água abaixo, está lá bem firme! 
Feitor: Essa agora! Então se o passadiço está lá bem firme, o que está o homem a fazer um dia inteiro, lá empoleirado?
O ti António contou ao feitor tudo o que se tinha passado e pediu-lhe para ir lá, porque só ele podia resolver aquela questão! 
O feitor, ficou irritado e revoltado com aquela palhaçada e, não hesitou em ir com o ti António até ao Bufo! 
Quando chegaram, estava tudo na mesma, o feitor avançou até ao meio do passadiço, mal os cumprimentou e disse-lhe: 
Feitor: Vamos lá acabar com esta palhaçada, levantem-se já daí e venham atrás de mim, vamos lá falar além para a margem! 
Os dois homens responderam ao mesmo tempo: Eu não me mexo daqui! É a minha honra que está em causa! Eu não me rebaixo a este teimoso! 
O feitor já irritado disse-lhe: 
Feitor: Mas qual honra nem honra, desde quando é que a teimosia é honra? Vocês sabem quem mandou fazer este passadiço? Sabem, sabem! Então, ponham-se fora dele imediatamente! Quando eu chegar além à margem, se não forem atrás de mim, o ti Manoel está despedido e o ti Xico vai ser despedido, porque ainda vou hoje à Amadoreira contar esta palhaçada ao seu patrão e pedir-lhe para o despedir e nunca mais passam por este passadiço, porque como sabem, ele tem dono! 
O feitor seguiu e não olhou mais para trás, quando chegou à margem esquerda da Ribeira, estavam os dois junto dele com as bicicletas enfiadas na cabeça! 
O feitor ao ver que tinha resolvido o caso, não falou muito, apenas disse: 
Feitor: Bem, por hoje isto fica por aqui, depois logo falamos! Podem ir para casa! Até amanhã! 
Os dois trabalhadores, envergonhados, despediram-se e, cada um seguiu para suas casas! O feitor voltou para a malhada do Monte de Santa Luzia, o ti Xico foi para o Monte do Aguilhão e o ti António e o ti Manoel, para Ferreira de Capelins! 
O ti Manoel e o ti António, durante o caminho, pouco falaram, quando chegaram ao poço da estrada, seguiram caminhos diferentes um para Capelins de Cima e, o outro para Capelins de Baixo! 
Quando o ti Manoel chegou a casa, um pouco mais cedo, a mulher, a ti Maria Joaquina, ainda não tinha a ceia (jantar) pronta, ficou admirada e perguntou-lhe: 
Ti Maria: Então Manoel, hoje deram-te a solta mais cedo? 
Ti Manoel: Mais cedo? Hoje nem me chegaram a dar a solta! 
Ti Manoel: Não te chegaram a dar a solta? E como é que soltaste? 
Ti Manoel: Olha mulher, soltei, soltando! 
Ti Maria: Olha como tu vens! Assim, não te entendo! 
Ti Manuel: Então e o que é que tens que entender? Mas se queres saber a verdade, hoje não fui trabalhar! 
Ti Maria: Ai valha-me Deus! Tu não me digas uma coisa dessas! Olha que eu estou já a dever muito ali na mercearia e ainda hoje disse ao ti Miguel que assim que recebesses ia lá pagar, agora uma coisa destas! 
Ti Manoel: E agora o que queres? Sempre é melhor do que eu ter morrido, não? 
Ti Maria: Pois, mas não morreste e perdeste o dia de trabalho! Mas, então diz-me lá o que te aconteceu? 
Nesse momento, o ti Manoel esteve quase a mentir e a dizer-lhe que esteve muito doente, mas de repente lembrou-se que, tinha comido tudo o que levava na alcofa! Ora, uma pessoa doente mão comia assim e depois não demorava muito tempo em toda a gente saber o que se tinha passado e ainda ia ser muito pior, então decidiu contar tudo à ti Maria! 
A ti Maria ia ouvindo e levando as mãos à cabeça, mas não podia dizer muita coisa porque o ti Manoel estava muito irritado e ainda podia sobrar para ela, então só lhe disse: 
Ti Maria: Oh Manoel,  um homem da tua idade a fazer essas figuras! E ainda dizes que foi tudo pela tua honra? Tanta falta que nos faz o dinheiro da jorna! Então e se és despedido? Olha que ando a comprar fiado!
Ti Manoel: Oh mulher cala-te com essas lamúrias! Tu sabes lá o que é a honra de um homem! Não há dinheiro que pague isso! 
Ti Maria: Sim, Manoel, a honra tem muito valor, de verdade tem, mas não paga as contas na mercearia! 
Ti Manoel: Olha Maria, acabou a conversa, traz lá a ceia para a mesa que estou cheio de fome e deixa lá que tudo se resolve
Ti Maria: Está quase pronta, mas olha, se não foste trabalhar ao menos podias ter deixado o jantar para a ceia, era isso que ainda ganhavas! 
Ti Manoel: Cala-te mulher, ainda comi mais do que os outros dias e se mais tivesse mais comia! Não te esqueças que estive com a bicicleta enfiada na cabeça o dia todo em cima do passadiço do Bufo! Dói-me o corpo todo! Assim que comer vou-me logo deitar! Vê lá se despachas isso! 
A ti Maria acabou de prepara as sopas de grãos, disse ao ti Manoel que já podia migar o pão para a tigela! Cearam e não demorou muito tempo já estava esticado na cama, porque como tinha estado com as pernas encolhidas o dia todo, nem as sentia com tanto cansaço!
No dia seguinte, já toda a gente sabia nas terras de Capelins e arredores, fizeram-lhe cantigas, décimas e, foi motivo de muita chacota, mas os dois teimosos não se importaram, porque para eles, não foi teimosia, mas uma questão de honra, como nenhum cedeu, para eles, foram os dois vencedores.

Fim 

Bufo - Capelins 


sábado, 6 de abril de 2019

527 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda da vida de António Marques que Casou no Leito da Morte 

Aos dezanove dias do mês de Fevereiro de mil seis centos e noventa e oito anos, nasceu no Monte de Capelins um individuo do sexo masculino a quem foi dado o nome de António, filho legítimo de Domingos Marques e de sua legítima mulher Margarida de Matos, naturais da freguesia de Santo António do Termo da Villa de Terena! 
Em Abril desse mesmo ano, o António ainda não estava batizado, porque, o seu pai o ti Domingos Marques, guarda campestre na herdade da Defesa de Ferreira, não encontrava nenhum dia conveniente para ir a Santo António, com os padrinhos, registar e batizar o inocente! 
A ti Margarida já tinha vergonha, porque não encontrava palavras para explicar às vizinhas a razão do inocente ainda ser mouro! 
A todo o momento, lhe faziam a mesma pergunta:
- Ti Margarida, o inocente ainda é mouro? Ela respondia que sim, mas já era por pouco tempo, assim que o ti Domingos tivesse vagar ia logo fazer o registo e o batismo,  mas essa desculpa já estava gasta e ela andava cada vez mais nervosa devido à situação! 
O ti Domingos saía de casa de madrugada e só voltava pela noite dentro e, ela todos os dias insistia para ele ir registar e batizar o inocente, mas ele nem lhe dava resposta, até que uma noite, quando ele chegou a casa, a ti Margarida, não se conteve mais e disse-lhe: 
Ti Margarida: Oh Domingos, eu já não posso sair de casa, porque não sei que desculpa hei-de dar às pessoas que me perguntam se o nosso menino já foi batizado ou se ainda é mouro, até chegam aqui à porta só a perguntar-me isso! Olha que já não aguento mais isto! 
Ti Domingos: Oh mulher, o que queres que eu faça? Ainda não tive vagar, não posso deixar a herdade um bocadinho, porque aparecem aí  ranchos de gente que se eu por ali não estiver levam-me tudo! Amanhã ou no outro dia ou no outro se tiver vagar vou lá falar com o padre Manoel Marques! 
Ti Margarida: Mas olha lá Domingos, quando lá fores dizes ao nosso compadre António se pode ir contigo e resolvem logo tudo! Então, se ele é o padrinho tem de lá ir! 
Ti Domingos: Oh mulher, está descansada que eu já falei com o compadre António e com o feitor, para o deixar ir comigo, está tudo combinado para um dia destes , mas não levemos o inocente, tratamos da escrita e depois vamos lá no Domingo a fazer o batismo! 
Ti Margarida: Oh Domingos, um dia destes? Que dia? Quando ele já for moço? Isto é uma vergonha e podemos ter algum azar com isso!  
Ti Domingos: Cala-te Margarida! Qual azar nem azar, então podemos ter um azar porquê? 
Ti Margarida: Olha Domingos, a comadre Maria contou-me que já falam por aí  que a gente não queremos batizar o inocente, é por isso que andam aqui de roda da nossa porta, para saberem se é verdade, mas eu tenho dito a toda a gente que já o fomos mostrar a Nossa Senhora, já é da Igreja! 
Ti Domingos: Mas andam a falar de quê? Há alguns inocentes aí nesses matos que já nasceram há quase um ano e ainda não os batizaram, o nosso, há um mês ou dois e é preciso isso tudo? 
Ti Margarida: Olha, a comadre Maria também me contou-me que apareceram uns homens da Santa Inquisição a fazer perguntas por esses Montes, e perguntaram se conheciam alguém que não batizava os filhos! E sabes o que pode acontecer a quem não os batizar? Podem ser queimados vivos numa fogueira e parece que tem para aí ardido muita gente! 
Ti Domingos: Oh valha-me Deus, Margarida, isso não é assim, já ouvi isso de queimarem pessoas vivas, mas é outra gente! O Padre Manoel Marques conhece bem a gente e sabe que não temos nada contra a Igreja, casamos lá e batizamos os nossos filhos! 
Ti Margarida: Pois, olha, fia-te nessa! A comadre Maria também anda com muito medo, diz que basta haver quem nos queira mal e faça queixa de nós, que não batizamos o inocente e podem vir aqui buscar a gente todos e queimam-nos vivos numa fogueira! Eu ando cheia de nervos por causa disso, olha que eu já nem tenho leite para dar ao inocente e tu não resolves nada! 
Ti Domingos: Pronto mulher, de amanhã já não passa sem falar com o compadre António, para irmos lá, então e quem é a madrinha do inocente?  
Ti Margarida: Ora, podia ser a comadre Maria, ou então a minha irmã Jacinta! 
Ti Domingos: Então, trata tu da madrinha e dá-me o nome, senão, peço lá à mulher do sacristão, que ela não se importa, mais um afilhado, menos um afilhado! Então, vamos lá depois de amanhã, logo de manhãzinha! 
A conversa sobre o registo e batismo do inocente ficou por ali, cearam, (jantaram), deitaram-se e no dia seguinte o ti Domingos cumpriu o que tinha prometido, foi falar com o compadre António e combinaram  que, no dia seguinte iam falar com o Padre Manoel Marques e tratar de tudo o que tinha de ser tratado! A comadre Maria e a ti Jacinta andavam a trabalhar e não puderam ir, logo, ficou por madrinha a ti Apolónia, mulher do sacristão de Santo António! 
Na quinta feira dia 10 de Abril de mil seiscentos e noventa e oito, pelas 7 horas da manhã, já o ti Domingos e o compadre António, estavam à porta da Casa Paroquial de Santo António, não foi preciso bater, porque o sacristão já andava por ali e encarregou-se de tomar conta do recado para o Padre Manoel Marques que, conforme o sacristão confirmou, estava acabando as migas do almoço (pequeno almoço)! 
Começaram a falar sobre o tempo que fazia e, o padre não demorou em aparecer à porta a dar os bons dias a todos! Depois, chamou-os, madou-os entrar e começaram imediatamente a tratar do assunto que ali os levava! O Padre, perguntou pela madrinha e, o ti Domingos aproveitou para pedir ao sacristão se podia ser a sua mulher a ti Apelónia! O sacristão nem consultou a mulher, respondeu logo que sim! Era mais um afilhado para juntar a tantos que já tinha, mas ficava certo que era ela! 
O Padre Manoel Marques, abriu o livro de Registos de batismos, fez alguns riscos de separação, escreveu o númer 8, pegou num papel a vulso onde escreveu também o número 8 e perguntou ao ti Domingos: 
Padre: Então, diga lá, em que dia nasceu o inocente? 
Ti Domingos: Bem! Já nesceu há muito tempo, mas não tive vagar nenhum de cá vir, até hoje! Tenho andado metido em grandes "fezes", por causa dos ranchos de gente que por aí tem aparecido, se lá não estou levam-me tudo, não escapa nada! 
Padre: Espere lá! Não foi isso que eu perguntei! Em que dia, mês e, a que horas nasceu o inocente? 
Ti Domingos: Bem! Eu já nem sei, mas foi em meados do mês de Fevereiro, a doze, a doze, aí pelas seis da manhã! Foi o que a minha Margarida me disse! Eu já não estava em casa! Aqueles ranchos de gente, não me deixam parar em casa! Se eu não estiver lá, levam-me tudo! 
Padre: Espere lá! Que nome damos ao inocente? 
Ti Domingos. Bem! Então, se está aqui o meu compadre António, que é o padrinho, que nome lhe haviamos de dar? Desde que ele nasceu que lhe chamamos António! Ora, agora, também é António! Eu, nem sabia, a minha Margarida é que tratou disso com a minha comadre Maria, porque eu nem disso tive vagar de tratar, aqueles ranchos de gente não me dão sossego, nem um bocadinho, se eu não estiver lá, levam-me tudo!
Padre: Espere lá! Diga-me lá o seu nome completo, o da sua legítima mulher, de que Freguesia são naturais, e o nome completos do padrinho, da madrinha sei eu! 
O ti Domingos foi ditando tudo o que o padre lhe pediu e. por fim perguntou-lhe:
Ti Domingos: Então, o meu compadre não sabe assinar, como é que fazemos isso? Mete o dedo?
Padre: Oh homem, esteja descansado que tudo se resolve, aqui ninguém mete o dedo, nem mete nada! Pronto, não é preciso mais nada! Mas isto não acaba aqui, no Domingo que vem, têm que trazer o inocente e vêm todos para fazermos o batismo! 
Ti Domingos: Está bem! Então, sendo assim, no Domingo estamos cá todos! 
O ti Domingos e o seu compadre António despdiram-se e, ainda foram fazer o dia de trabalho!
No Domingo seguinte, voltaram todos à Igreja de Santo António, com o inocente e, foi realizada a cerimónia do seu batismo, deixando, nesse mesmo dia 13 de Abril de mil seiscentos e noventa e oito de ser mouro, ficando, oficialmente a chamar-se António Marques! 
Como todas as crianças nessa época, a infância do António Marques foi muito curta, aos seis anos, já era obrigado a acompanhar o pai na vigilância da herdade e, esteve quase a ingressar em ajuda de porcos, porém, foi salvo pelo feitor do Monte Grande que, engraçava com ele e deu-lhe emprego como ajuda do "Escamel" para fazer recados, tratar das galinhas, limpar os galinheiros, recolher os ovos das galinhas, varrer a rua do Monte, ir com o "Escamel" levar o jantar (almoço) aos homens que andavam a trabalhar na herdade e, outros serviços mais leves, mas era uma vida muito dura para uma criança! 
Toda a gente que trabalhava no Monte Grande, gostava do António Marques, diziam que, era muito esperto, trabalhador e sempre com desejo de aprender tudo, assim foi crescendo junto das pessoas mais importantes do Monte Grande, mas o seu grande entusiasmo era ser Escrivão, queria aprender tudo sobre aquela profissão, por isso, aproveitava todos os bocadinhos que estava dispensado das suas tarefas e corria para junto do Escrivão para aprender a ler, escrever e contar! 
O Escrivão, gostava muito dele e queria ensinar-lhe tudo o que sabia, mas não o podia fazer por sua iniciativa, então, foi falar com o feitor e pedir-lhe a sua autorização: 
Escrivão: Bom dia, ti Zé! Precisava de falar consigo, pode ser agora? 
Feitor: Pode ser sempre, não? Então se tens algum assunto importante a tratar sobre as contas da casa, não havias de poder falar comigo! 
Escrivão: Pois, aí é que está! Não é assunto de contas e, também não é bem da casa!  
Feitor: Mau, mau! Se não é sobre assuntos aqui da casa, como é que eu estou metido nisso? Diz lá de uma vez o que queres de mim, homem!
Escrivão: Bem, é um pedido que lhe quero fazer, se me deixa ensinar o António Marques, a ler, escrever e contar, sem prejudicar o trabalho dele e, é claro, o meu! 
Feitor: Oh Manoel, então não havia de deixar! Tu sabes, que eu gosto do rapaz, por isso, até te agradeço se o quiseres fazer! 
Escrivão: Quero, quero! Ele não me larga q querer aprender e tem boa cabeça! 
Feitor: Pronto, está bem, então ensina lá o rapaz! 
Assim, com a autorização do feitor, a situação era muito diferente, o escrivão já podia ensinar o António, a ler, escrever e contar sem receio de ouvir alguma repreensão! Então, quando teve oportunidade, chamou-o ao escritório e contou-lhe a conversa que tinha tido com o feitor!  
O António, ficou muito contente, como já sabia contar até perto de cem, porque, foi obrigado a aprender a contar os ovos das galinhas, para prestar contas à ti Maria, já estava bem encaminhado e, também já conhecia algumas letras! 
A partir daquele dia, ainda foi maior o entusisamo e começou a dedica diariamente algumas horas aos estudos mostrando bons progressos no dia a dia! O feitor ia acompanhando a sua evolução e de vez em quando fazia-lhe algumas perguntas para se inteirar em que ponto ele estava e ficava sempre surpreendido por ele aprender tão rapidamente! 
Quando o António já dominava a escrita, as contas e a leitura, estava com cerca de dezasseis anos, na idade de ir aprender os trabalhos agrícolas, mas estava em desvantagem porque tinha seguido outro caminho, então, o feitor disse-lhe que ficava no Monte Grande, para ajudar o escrivão e  a ele, preparando-se para seguir uma destas profissões! 
O António, estava nos vinte anos, com a vida orientada, então, os outros trabalhadores começaram a dizer-lhe que tinha de arranjar namorada, mas ele, não apreciava a conversa e respondia que ainda era muito cedo para isso! Mas a verdade é que andavam muitas raparigas com o olho nele, porque parecia o dono do Monte Grande, uma vez que, cada vez tinha mais poder de decisão sobre os assuntos da administração da herdade! 
Nessa época, todos os dias aparecia gente a pedir trabalho na herdade mas, embora fosse necessária muita mão de obra, a maioria eram vadios e ociosos, por isso, tinham de ser escolhidos e, o António era sempre chamado pelo feitor para participar nessa escolha e, a maioria das vezes era a sua decisão que prevalecia!   
Um dia, chegou ao Monte Grande um grupo de seis pessoas, alguns, eram casais ainda novos, que vinham prontos a trabalhar em qualquer serviço, porque, conforme diziam, queriam fixar-se na Vila de Ferreira (Capelins)! 
Quando o feitor chegou ao Monte Grande, apresentaram-se e disseram-lhe ao que vinham, ele fez algumas perguntas, de onde eram, se tinham sido recomendados por alguém conhecido, porque escolheram a sua herdade para trabalhar e eles foram respondendo como puderam! 
O feitor chamou o António, para procederem à seleção, então,  perguntaram-lhe o que gostavam e o que sabiam fazer, o que cada jornaleiro, ganadeiro ou "ajuda" ganhava na herdade e outras conversas sobre a conduta que deviam ter!  
Enquanto durou a entrevista, uma das mulheres do grupo não tirou os olhos do António! Ele não podia deixar de reparar nisso, olhava de soslaio porque naõ se atrevia a fixá-la, ainda mais, depois de saber que era casada com um dos homens que a acompanhava, porém, deu para sentir uma sensação que até ali desconhecia! 
Quando o feitor lhe bateu nas costas a perguntar o que tinha a dizer, estava tão distante que, um pouco atarantado, respondeu: Todos! Todos o quê? Perguntou o feitor! Ficam todos, estamos a precisar de muita gente, por isso ficam com todos! 
O feitor, ficou surpreendido por ver o António naquele estado e desconfiou que, alguma das mulheres do grupo lhe tinha conquistado o coração, mas quem? Só podia ser uma, alta, bonita, com uns olhos deslumbrantes, mas essa era casada! Adivinhou logo, que se aproximavam problemas graves para o António! Com tantas raparigas solteiras que há aí interessadas nele e, onde ele se está a meter!
O António, voltou ao escritório, mas não se conseguia concentrar no trabalho, porque, aquela mulher não lhe saía da cabeça! Foi um verdadeiro amor à primeira vista! Tentava esquecê-la, porque sendo casada, nunca podia ser sua, mas quanto mais lutava contra o malvado sentimento, mais perdido de amor ficava! 
Nesse dia, já pouco fez e pensou que, com uma boa noite de sono ficava curado do desvario, mas enganou-se, durante toda a noite pouco dormiu, sempre com a mulher na cabeça!
O António, já sabia que a origem das pessoas do grupo era de São Marcos do Campo, Termo (Concelho) de Monsaraz, e a mulher que não lhe saía da cabeça era casada, mas desejava saber mais sobre ela, então, começou a magicar a maneira de o conseguir! 
Não podia aproximar-se dela, mas depois de muito pensar, encontrou uma maneira de poder saber o que mais desejava e, isso seria através de uma das suas irmãs, uma vez que, sabiam tudo um sobre o outro, tinham segredos entre eles! 
Logo que teve oportunidade de falar a sós com a irmã, contou-lhe tudo, ela não queria acreditar, tantas raparigas imaculadas que o queriam e o interesse dele era por uma mulher casada? E o perigo que corria, se o marido soubesse, podia matá-lo! Não, não o podia ajudar! Mas ele era muito persistente e disse-lhe que era só para saber da vida dela, não era mais nada e, mais isto e mais aquilo, até que a irmã cedeu! Ele deu-lhe as instruções e abriu-lhe bem os olhos para ter cuidado, porque ninguém podia desconfiar de nada! 
A irmã do António, não perdeu tempo e, foi dali diretamente apresentar-se à recém chegada, como o marido estava no trabalho não havia perigo, disse-lhe que era irmã do António, o administrador do Monte Grande e não foi preciso dizer mais nada para ser acolhida de braços abertos, porque também ela estava cheia de vontade de saber tudo sobre o António!
 Assim, no primeiro encontro entre elas, ficou tudo esclarecido, chamava-se Helena, tinha 24 anos, era de São Marcos do Campo e era casada com o Manoel Gliz (Gonçalves), conhecido pelo Ruivo, tinham casado havia poucos meses e tiveram de fugir, devido a ele ter-se metido numas desavenças!  
A partir daquele dia, a amizade entre elas foi crescendo, assim, o António foi sabendo tudo sobre a sua vida e tudo fazia para a esquecer, mas ao mesmo tempo alimentava a esperança de a ter por perto, mas quando se lembrava do Ruivo, desistia, sabia que tinha de a esquecer, mas não a esquecia! 
Uma noite, quando saía do escritório viu o Ruivo a falar com o feitor, o qual, assim que o viu, chamou-o e meteu-o ao corrente da conversa que estavam a ter, ou seja, que o Ruivo estava a pedir-lhe trabalho para a mulher ali no Monte, porque ela estava habituada a esse trabalho, uma vez que, era isso que fazia lá em São Marcos e perguntou ao António o que achava? 
António: Bem, parece que a Maria dá bem conta do recado nos trabalhos do Monte, mas podemos falar com ela sobre o assunto para ouvirmos o que ela  nos diz!  
Feitor: Está bem! Então ficamos por aqui e daqui a um dia ou dois dizemos alguma coisa!
 O Ruivo despediu-se e seguiu para casa, o feitor pediu ao António para voltarem ao escritório para falar com ele!
Feitor: António, desde o primeiro momento que me apercebi que ficaste caídinho pela mulher deste e ela por ti! Agora, se a metemos aqui no Monte, podemos arranjar uma grande desgraça! Pensa bem no assunto! 
António: Oh ti Zé, isso é verdade e só eu sei o que tenho lutado para a esquecer, mas não consigo! Não sei o que fazer à minha vida! 
Feitor: Oh rapaz, até parece mentira, tantas raparigas solteiras e bonitas, interessadas em ti e olha para o que havia de dar! A gente precisava aqui dela, mas não, não podemos fazer uma coisa dessas!
António: Oh ti Zé, espere lá mais uns dias para eu estudar melhor o assunto e depois logo decidimos! Não tenho direito a estragar a vida à Helena!
Feitor: Ah, até já sabes o nome dela! Não sei António, não sei! Mas se tu queres esperar, daqui a dois ou três dias falamos!
O António, ficou num grande dilema, tinha no máximo três dias para se colocar à prova, ou seja, conseguir eliminar a ideia de ter algum envolvimento com a Helena e trabalhar junto dela sem sentir nenhum sentimento de amor ou desejo por ela, ou então, teria de prejudicá-la, não a admitindo a trabalhar no Monte Grande! 
Durante a noite, o António acordou várias vezes, sempre com a Helena no pensamento, mas jurou, jurou que a sua paixão por ela morria naquela noite, o dia seguinte, seria outro dia, a Helena tinha um legítimo marido e não era ele, por isso, não podia continuar a desejá-la! Assim, logo de manhã, foi falar com a ti Maria:
António: Bom dia ti Maria, precisava de falar consigo, mas estou a ver que está muito atarefada, por isso, se não se importar eu vou falando e pode ir fazendo o que está a fazer!   
Ti Maria: Bom dia menino António, pode falar que não me empata nada! 
António: Eu, e o ti Zé, ontem estivemos a falar e achamos que faz falta outra mulher aqui no Monte, sabemos que a ti Maria dá conta do recado, mas é muito trabalho de dia e de noite, por isso, se estiver de acordo vamos empregar uma ajudante que já conhece este trabalho, mas a responsável continua a ser a ti Maria! A mulher que aí vem, é à experiência e só aqui fica se vocês se entenderem bem!
Ti Maria: Está bem menino António! Como bem disse, eu dou conta do trabalho, mas se acham que é precisa outra mulher, quem sou eu para dizer que não! 
António: Como lhe disse, não se vai alterar nada, a não ser na distribuição do trabalho, é a ti Maria que vai dizer o que a ajudante tem de fazer!
Ti Maria: Está bem, então e é mulher que já trabalha cá na casa? 
António: Ainda não trabalha na casa, mas o marido dela trabalha e veio pedir por ela! 
Ti Maria: Então, por mim, pode começar  a trabalhar quando quiser! 
António: Está bem ti Maria! Isso agora é com o feitor, com o ti Zé!
O António despediu-se, voltou para o escritório e quando o feitor chegou da volta à herdade disse-lhe que, já tinha pensado no assunto da Helena e também já tinha falado com a ti Maria, estava tudo resolvido, por isso, podia dizer ao Ruivo para quando a mulher quisesse, para se apresentar à ti Maria!  O feitor já não esteve com muita conversa com o António, apenas lhe disse: Espero que saibas o que estás a fazer!
No dia seguinte, já a Helena estava a trabalhar no Monte Grande com a ti Maria que, ainda nesse dia, disse-lhe que devia agradecer ao menino António, o escrivão, por estar ali a trabalhar debaixo de telha, porque se não fosse ele, não entrava ali, nem ela nem nenhuma, porque não precisava de ajuda, só a aceitava por ele! A Helena apenas abanou a cabeça em sinal afirmativo e não disse nada!
O sentimento do António pela Helena não se alterou, via-a várias vezes ao dia, mas sempre que podia, fingia não a ver, sentia o seu olhar fulminante, mas mantinha-se fiel ao seu juramento e, como homem honrado que prezava ser, não cedia ao seu desejo! 
Um dia, o António precisou de falar com a ti Maria sobre umas compras que precisavam de fazer para o Monte, entrou casa dentro, sem se aperceber que a ti Maria não estava e ficou frente a frente com a Helena que, o recebeu com um sorriso de simpatia e com um brilho muito especial nos seus lindos olhos! 
O António, ficou paralisado e, sem conseguir dizer uma palavra! Por fim, quando se orientou, com a voz atabalhoada, perguntou pela ti Maria! A Helena, muito calma, disse-lhe que estava na casa ao lado, mas estava ali ela! O António, não respondeu, deu meia volta, saiu de casa muito rapidamente e foi ter com a ti Maria. 
O António, já com vinte e cinco anos, não procurava raparigas, essa situação, passou a preocupar os pais, irmãs, irmãos e amigos! Até que, um dia o pai foi ter uma conversa com ele:
Ti Domingos: Ouve lá filho, então tu, já com a idade que tens e não pensas em arranjar uma mulher para arrumares a tua vida? 
António: Oh pai, as raparigas que conheço por aqui, não me dizem nada!
Ti Domingos: Oh António, mas tu queres que sejam as raparigas a dizer-te alguma coisa? Então, não és tu que tens de lhe dizer a elas? 
António: Não é isso pai! O que eu quero dizer é que não sinto nada, por nenhuma rapariga daqui, nem dos arredores! 
Ti Domingos: Mau, mau, António! Como é que tu queres sentir alguma coisa pelas raparigas, se nem as procuras! 
António: Oh pai, eu não as procuro, porque não gosto de nenhuma! Não posso casar com uma qualquer, sem gostar dela!
Ti Domingos: Não sei, não sei! Tanta rapariga que há por aí e tu não gostas de nenhuma? Até te digo, com a tua posição aqui no Monte Grande, podias escolher! 
António: Oh pai, mas escolher como? Então se não gosto de nenhuma, como é que vou escolher o que não gosto? 
Ti Domingos: Não entendo isso! Tantas raparigas bonitas e, algumas filhas de lavradores que, sei decerto não te rejeitam! Afinal, és das pessoas mais importantes aqui do Monte Grande, os lavradores todos te respeitam, como se fosses o dono disto tudo! 
António: Não sei pai, não sei! Não se esqueça que lavrador é sempre lavrador e eu não passo de um criado do Monte Grande!
Ti Domingos: Olha, criado? És escrivão, és feitor, mandas em tudo e és criado?  Estás é a desconversar! Não vejas a tua vida, não! As raparigas de jeito, vão abalando todas! Até logo!
O pai do António, também abalou, sem desconfiar que, ele amava muito uma mulher, mas era casada e só um milagre lhe podia valer, para que ela um dia pudesse ser sua legítima mulher!
O António, todos os dias via a Helena ali no Monte Grande, talvez, também por isso, em vez de a esquecer, estava cada vez mais apaixonado por ela e vice versa! Estava metido num grande sarilho, passava-lhe tudo pela cabeça mas, de tudo o que pensava, a solução mais viável, era fugir com ela, mas ficava-lhe mal e à família, um homem tão honrado, como podia roubar uma legítima mulher ao marido? Não podia e, além disso, fugiam para onde? Conhecia muito bem todos os trabalhos na agro pecuária, mas nunca os tinha feito, como iam viver? Porque, não era fácil chegar a uma herdade e, ser logo admitido como escrivão ou feitor! 
Mas, eis que, infelizmente um dia se fez luz! 
No início do mês de Agosto de mil setecentos e vinte e cinco, o feitor entrou no escritório do Monte Grande e perguntou: 
Feitor: Oh António, tu sabes o que se passa com o Ruivo? 
António: Não sei de nada! Mas passa-se alguma coisa?
Feitor: Parece que passa! Há dois dias que não aparece ao trabalho e disseram-me que estava muito doente!
António: Muito doente? Com o quê? Não ouvi nada! Mas não vi aí a Helena!
Feitor: Não sei o que tem! Disseram-me que tinha muita febre, não sei mais nada! Por isso, vinha saber se tu sabias alguma coisa! 
António: Não, não! Não sei de nada! Não ouvi nada a ninguém!
Feitor: O que for será, logo se ouve dizer o que se passa! Pode não ser nada de grave! Até logo!
 O feitor saiu e o António, ficou a pensar na forma de saber o que se estava passando com o Ruivo, lembrou-se da irmã, mas só podia ser à noite, então foi falar com a ti Maria, mas ela pouco mais adiantou, apenas sabia que, o Ruivo estava muito doente, com febre alta até variava, e a Helena não podia sair da cabeceira dele, a por-lhe panos molhados na testa e outras mesinhas para tentar baixar a febre! 
O António, voltou para o escritório, sem conseguir adiantar mais sobre o que de verdade se passava com o Ruivo e com a Helena, tinha de esperar por notícias obtidas pela irmã!
Nos dias seguintes, as notícias que chegavam aos ouvidos do António, pela irmã e por outras pessoas, sobre o estado de saúde do Ruivo, eram cada vez piores, diziam que tinha apanhado uma molestia e não estava melhor, o Doutor Sardinha da Vila de Terena tinha sido chamado e disse à Helena que não podia fazer nada por ele! 
O António pensava que, se o Ruivo fosse prestar contas a Deus, teria a oportunidade que esperava, em ficar com a Helena, mas sentia-se triste com pena do Ruivo e ao mesmo tempo, lembrava-se que, ficava com o caminho livre para casar com a Helena!
Passaram mais uns dias e o Ruivo entrou em agonia, a Helena mandou chamar o Pároco de Santo António, padre Miguel Galego para lhe ministrar os Sacramentos, o Ruivo ainda esteve vivo cerca de quinze dias, lutou muito para viver mas, por fim, faleceu da vida presente com todos os Sacramentos no dia 18 de Agosto desse mesmo ano! Em todo o tempo em que esteve em agonia, a Helena não saiu da sua cabeceira e, mostrou ser uma estremosa esposa!
A Helena, ficou muito sentida com o falecimento do Ruivo mas, por necessidade, ao fim de três dias, já estava de volta ao trabalho e livre para o António, porém, ainda existia um problema, era o tempo do luto que, para não ser falada, devia ser de, pelo menos dois anos! 
No primeiro mês do luto, tanto a Helena como o António, tentavam não se encontrar, talvez sentissem algum sentimento de culpa pelo falecimento do Ruivo, porque a sua morte já lhe tinha passado pelas cabeças, mas passado esse tempo, a situação começou a mudar, não falavam muito, porque ela estava fazendo o luto e o António respeitava, por isso, esperavam pacientemente pela passagem do tempo minimamente aceite, para depois formalizar o pedido de casamento com a viúva Helena. 
O tempo passava muito lentamente, o António e a Helena estavam cada vez mais apaixonados mas, sem nenhum contacto físico, isso, conforme desejo do António, só podia acontecer depois do casamento! 
Pelas terras de Capelins , já toda a gente sabia que existia uma grande paixão entre eles, mas o luto da Helena tinha de ser respeitado! 
Um dia, a Helena foi ter com o António ao escritório e disse-lhe:
Helena: Bom dia António! Posso falar contigo, agora? 
António: Podes, podes! Diz lá o que queres?
Helena: Bem, o que eu quero, é dizer-te que tenho andado a pensar que já vou quase com um ano de luto, por isso, se tu quiseres já podíamos ir falando! 
António: Não sei, não sei! Ainda não há um ano, olha que vai haver falatório! 
Helena: Vai haver, não! Já há, por isso, seja como for, vai sempre haver falatório, quanto mais tempo esperarmos pior será! 
António: Oh Helena, mas quanto menos falatório houver, melhor! Eu sou um homem muito honrado e muito respeitado, não quero andar aí na boca do povo!
Helena: Como sabes,  já andas na boca do povo, por me escolheres a mim e não procurares uma rapariga solteira! 
António: Sim, isso é verdade, mas tantos rapazes solteiros que casam com mulheres viúvas e ninguém diz nada! Só se viram para mim! Deixa lá, hão-de esquecer!
Helena: António, a diferença é que esses rapazes não têm a tua posição e, com tantas pretendentes solteiras que tu tens, não admira que as pessoas achem isso estranho! 
António: Sim, mas a verdade é que tudo isso esquece, depois de casarmos o falatório vai acabar!
Helena: Então, estás a dar-me razão, quanto mais depressa casarmos, mais depressa acaba o falatório! 
António: Sim, talvez! Então, se tu não te importas, podemos ir pensando em casar, lá para o fim do verão! Depois acertamos o dia com o padre Miguel Galego! 
Helena: Oh António, sendo assim, temos de arranjar um sítio discreto para podermos falar e, se quiseres mais alguma coisa, por mim, posso dar-te algo mais!
António: Sim, estou de acordo, mas ainda tenho de falar com a minha família, mas é só para falarmos, porque algo mais, nem pensar, eu sou muito respeitador e quero respeitar-te, por isso, o algo mais, é só depois do casamento! 
Helena: Oh António, mas porquê? Tu não vês que eu não quero ser respeitada? Ninguém precisa de saber o que fazemos! 
António. Eu sou um homem honrado, não vou por esse caminho, por isso, está dito, está dito, não quero mais conversa para esse lado!
Helena: Então, quando acertares isso com a tua irmão, ou tu, ou ela digam-me onde e quando nos podemos encontrar!  
António: Está bem, eu falo com a minha irmã e ela trata de tudo! Depois ela fala contigo!
A Helena, ainda se aproximou do António antes de se despedir mas, ele deu um salto na cadeira e disse-lhe que estava tudo falado! 
Nessa noite, o António, contou à família que estava a pensar em casar com a Helena no fim do verão, não causando  nenhuma surpresa, porque já todos sabiam da paixão que existia entre eles! 
Os pais do António, ainda o alertaram sobre o tempo do luto da Helena, por causa de falatório, mas ele disse-lhe que, falatório havia sempre, então, quanto mais depressa casasse com a Helena mais depressa acabava! 
Ficou combinado que, a Helena podia ir a casa dos pais do António, em companhia das irmãs e, ali podiam falar para acertar algumas coisas! 
Não era preciso serem guardados, porque o António não pisava o risco, já a Helena, bem tentava, mas sem sucesso!  
No início do mês de Setembro de mil setecentos e vinte e seis o António começou a sentir-se mal, muito cansado, suores frios, dores de cabeça, alguma febre e sem apetite, não demorou a cair na cama!
O António, começou com febres altas, por isso, chamaram o médico da Vila de Terena, o Doutor Sardinha que, confirmou ser molestia não identificada e disse que, não podia fazer nada! 
A notícia da desgraça do António, depressa se espalhou pelas terras de Capelins e, muitas pessoas começaram a rezar por ele! 
A Helena passava o tempo sentada à cabeceira da cama e, num dos momentos em que ele estava mais aliviado da febre, pediu-lhe para casar! A Helena, nem hesitou e aceitou imediatamente! 
O António, chamou a família e participou-lhe que ia casar com a Helena e pediu ajuda para tratarem, imediatamente de todos os papéis, para o casamento se realizar ali no quarto, com ele acamado, dentro de uma semana. 
Os pais do António não lhe podiam negar o seu pedido, todos sabiam que, ele estava no fim da sua vida e, se também era esse o desejo da Helena, então, foram falar com o Pároco de Santo António, padre Miguel Galego, o qual, ouviu com muita atenção o que lhe disseram! 
O padre respondeu que, não podia realizar um matrimónio fora da Igreja, a não ser com um comprovativo do médico, atestando que o António corria risco de vida ao deslocar-se à Igreja, por isso, deviam trazer-lhe uma declaração do médico da Vila de Terena, confirmada pelo Tabelião do Cartório da mesma Vila e, os mesmos tinham de estar presentes como testemunhas, na casa do António no dia do casamento, depois de tratarem disso, podiam casar imediatamente!
Foi tudo tratado em dois dias e, ao terceiro dia, o Pároco de Santo António, o Padre Miguel Gliz Galego, em 17 de Setembro de mil setecentos e vinte e seis, realizou o matrimónio do António Marques com Helena Alvares em casa, sendo padrinhos o médico da Villa de Terena Doutor João Alvares Sardinha e o Tabelião do Cartório Notarial da mesma Villa, Domingos Dias Banazol! 
Foi o casamento mais triste que, alguma vez se realizou nas terras de Capelins, porque, todos sabiam, incluindo o António que, o funeral já estava marcado!  
Após o matrimónio, não houve núpcias, porque o António entrou em coma, deixou de comer e de beber e, adivinhava-se que o seu fim estava por horas, a Helena, não saiu mais da sua cabeceira de dia e de noite, ninguém a conseguia demover dali, ela percebia que, o António a sentia junto de si, mas no dia 23 desse mesmo mês do matrimónio, cinco dias depois, pelas 22 horas, o António deu o último suspiro e faleceu da vida presente com todos os Sacramentos já ministrados pelo padre Miguel Galego e, no dia seguinte, foi sepultado na Igreja de Santo António na quinta sepultura da quarta carreira a contar da mão direita! 
A Helena teve grande desgosto, chorava dia e noite, quase não comia e, esteve em casa mais de um mês, depois, teve de voltar ao trabalho, por necessidade, uma vez que, o marido pouco tinha de seu, porque vivia em casa dos pais, por isso, tinha de entregar-lhe, tudo o que ganhava!  
O tempo foi passando, a Helena, continuava muito bonita, então com vinte e sete anos, com uma longa vida à sua frente, por isso, não demorou a ser cobiçada por viúvos e solteiros das terras de Capelins e arredores, mas quando era contatada por encomendadoras, respondia que não estava disponível, rejeitando todas as proposta de casamento, algumas, de lavradores viúvos e, nunca mais casou, continuando a trabalhar no Monte Grande, até quase ao fim da sua vida!  
Quando já não tinha condições para trabalhar, foi para casa de uma sobrinha e, por coincidência, ou talvez não, a Helena faleceu com todos os Sacramentos ministrados pelo padre Manoel Martins Phelippe no dia 23 de Setembro de mil setecentos e sessenta e cinco e, no dia seguinte foi sepultada na Igreja de Santo António na quinta sepultura da quarta carreira a contar da mão direita, a mesma, onde tinha sido sepultado o António Marques. 
Fim  

Registo do casamento de António Marques com Helena Alvares


domingo, 17 de março de 2019


526 - Terras de Capelins 
Breve história da Alfândega da Villa de Terena, que incluía as terras de Capelins 
A Alfândega de Terena pertencia à Diretoria de Elvas, a qual, em 1828 abrangia as Alfândegas dos Portos Secos de Elvas, Campo Maior, Terena e Mourão, porém em 1842 houve mais uma reforma das Alfândegas, passando a Alfândega de Mourão para a Diretoria de Mértola e submeteu-se a Alfândega de Arronches à Diretoria de Elvas. 
Em 1866 assistiu-se a mais uma reforma, através da qual, algumas Alfândegas passaram à categoria de 1ª classe, mas a de Terena ficou classificada em 2ª classe, por isso, tinha o Sub Diretor. 
Assim, os limites da Diretoria de Elvas passaram a ser desde Ouguella até ao Moinho do Gato (Capelins), estando dividida em 4 Secções: 
A 1ª Secção tinha a sede em Campo Maior e abrangia a raia entre Degolados e o Moinho do Bufo! 
A 2ª secção tinha a sede em Elvas e abrangia desde o Moinho do Bufo até aos Três Moinhos (Capelins)!
A 3ª Secção tinha a sede em Juromenha e abrangia desde os Três Moinhos (Capelins) até ao Moinho dos Clérigos! 
A 4ª secção tinha a sede em Terena e abrangia desde o Moinho dos Clérigos até ao Moinho do Gato (Capelins). 
Deixando os Guardas Barreiras, em 1885 surge a Guarda Fiscal, passando aquela fiscalização a ser exercida pela 1 ª Companhia do Batalhão 4, que tinha a seu cargo a vigilância da raia desde a Esperança no Concelho de Arronches até Montes Juntos no Concelho de Alandroal, assim constituída: 
A 1ª secção tinha a sede em Arronches e abrangia os Postos de: Esperança, Tagarraes e de Barradas na 1 ª linha! E os Postos de Monforte, Veiros e Arronches na 2 ª linha! 
A 2 ª secção com sede em Campo Maior, abrangia os Postos de: Azeiteiros, Ouguella, Casarão da Misericordia, Retiro e Casêta do Caminho de Ferro, todos de 1 ª linha! 
A 3 ª Secção tinha a sede em Elvas e abrangia os Postos de: Caia, D. João, Venda, Juromenha e Caminho de Ferro de Elvas, na 1 ª linha e, Elvas, e Estremoz na 2 ª linha! 
A 4 ª Secção com a sede em Vila Viçosa abrangia os Postos de: Foz de Pardais, Mocissos, e Montes Juntos, na 1 ª linha e, Redondo, Borba e Vila Viçosa na 2 ª Linha. 
Como se pode verificar, após esta reforma, a 4 ª Secção que antes tinha a sede em Terena, quando foi criada a Guarda Fiscal, em 1885, passou para Vila Viçosa, sendo o fim, da Alfândega de Terena. 

Lugar dos Três Moinhos 


sábado, 16 de março de 2019

525 - Terras de Capelins 
História da Villa de Terena
Primitivamente designada por Odialuiciuez, a vila que hoje conhecemos como “Terena”, passaria a ser conhecida por “Sancta Maria de Terena” após o foral que daria origem ao povoamento em 1262. A designação primitiva será provavelmente de origem árabe e talvez se tratasse do nome muçulmano da ribeira de Lucefécit, uma vez que o radical "Odi" está ligado ao conceito de “curso de água”.

Em 1259, a pedido de D. Afonso III, a vila de Odialuiciuez é doada a Gil Martins de Riba de Vizela que a recebe das mãos dos juízes e homens-bons do concelho de Évora. Três anos mais tarde, em 1262, Gil Martins e a sua mulher Maria Anes outorgam carta de foral aos moradores de Odialuiciuez, designando-a por Sancta Maria de Terena (uma carta de foral é um documento concedido por um rei ou por um senhorio a uma povoação onde se estabelecem as normas de relacionamento dos seus habitantes, entre si e com o senhor que lhes concedeu o documento). A nova designação estaria possivelmente ligada à recente edificação, por Gil Martins, de uma igreja dedicada a Santa Maria em Odialuiciuez. Esta igreja, cuja construção deverá ter começado logo em 1259, estará na base da actual Igreja da Boa Nova, designada como Santa Maria de Terena até ao século XVIII, época em que se viria a difundir a lenda que está na origem da invocação “Boa Nova”.
A vila primitiva não se localizava onde hoje se encontra a povoação actual mas sim nas imediações da igreja de Santa Maria de Terena, num espaço hoje designado como “Vila Velha”, próximo à confluência das ribeiras do Alcaide e do Lucefécit. A vila de Santa Maria de Terena ficaria na posse dos descendentes de Gil Martins até 1314, ano em que D. Dinis doa ao Infante D. Afonso as Vilas de Terena e Viana do Alentejo.

IMAGENS: Carta de confirmação da doação de Odialuiciuez a D. Gil Martins e sua esposa Maria Anes da Maia, promulgada por D. Afonso III a 13 de Dezembro de 1261 em Santarém. (Chancelaria de D. Afonso III (c.1248-1279), Livro Primeiro de Doações, Mercês e Forais, Arquivo Nacional da Torre do Tombo) 


524 - Terras de Capelins 
História da Alfândega da Villa de Terena, incluindo as terras de Capelins 
Em 1842 deu-se uma reforma nas Alfãndegas de Portos Secos, como a de Terena, com alteração nos quadros do pessoal, quanto à sua designação, ao seu vencimento e às áreas de responsabilidade, surgindo então, alguns Postos Fiscais, como um, perto de Montes Juntos. 
Assim, a Alfândega de Terena passou a ter o seguinte pessoal e respetivos vencimentos: 
1 Sub-Diretor - 100.000 réis/ano;
1 Escrivão - 72.000 réis/ano;
1 Porteiro - 57.600 réis/ano;
1 Chefe de guardas - 100.000 réis/ano; 
2 guardas de cavalo - 120.000 réis/ano cada um; 
2 guardas a pé - 60.000 réis/ano cada um.

Posto Fiscal de Montes Juntos (Cheles)
1 Chefe de guardas - 60.000 réis/ano; 
1 guarda a pé - 58.400 réis/ano.

Veja-se as contradições: 
O chefe de guardas em Terena ganhava 100.000 réis/ano e o chefe de guardas em Montes Juntos ganhava apenas 60.000 réis! Que injustiça! 
É verdade que, enquanto o chefe dos guardas em Terena era chefe de 4 guardas, dois a cavalo e dois a pé, o chefe dos guardas de Montes Juntos era chefe apenas de um guarda a pé, não devia ter trabalheira nenhuma, porque quando o guarda a pé, estivesse de folga, não tinha ninguém para chefiar, ou chefiava-se a ele próprio! 
Os guardas a pé em Terena ganhavam 60.000 réis/ano! O guarda a pé em Montes Juntos ganhava somente 58.400 réis/ano! Devia andar menos a pé! Que injustiça! 
Esta informação foi publicada no Modelo 2 a que se refere a Portaria do Ministério da Fazenda de 31 de Agosto de 1848. 



523 - Terras de Capelins 
História da Villa de Terena, o nosso Concelho entre 1262 e 1836 
A Alfândega do Porto Seco de Terena 
Existia distinção entre as Alfândegas de Porto de Mar e Alfândegas de Portos Secos, entre as quais a de Terena, cujo Porto ficava no rio Guadiana na defesa de Bobadela à atual "Sisa".
As Alfândegas de Portos Secos, como a já referida, estavam instaladas na Raia com a Espanha e tinham por missão fiscalizar a entrada dos géneros, permitidos pelo Reino, e cobravam os direitos sobre esses géneros ou emitiam guias para a Alfândega de Lisboa cuja entrada era afiançada por fiadores. Estes, só não eram obrigados quando as certidões mostravam o verdadeiro destino das mercadorias e o pagamento na mesa dos Portos Secos. 
Na Provincia do Alentejo existiam 12 Alfândegas de Portos Secos, a de Terena, Elvas, Mourão, Olivença, Serpa e Moura e outras!
O quadro de oficiais de uma Alfândega de Porto Seco, como a de Terena, era assim constituído:
1 Juiz; 
1 Feitor ou Recebedor;
1 Escrivão de Receita e Despesa, que escrevia também as guias e despachos. 
Do apuro efetuado pagava-se aos oficiais e aos guardas, só o restante ia para a Coroa.

Como sabemos o Porto Seco de Terena, acabou por ficar com a designação de "Porto da Sisa", embora em capelinense fosse da "Cinza", porque era aqui cobrada a Sisa para a Câmara da Vila de Terena. 
Sisa da Câmara 
Os artigos que não pagavam Sisa régia (para a Coroa) estavam sujeitos à Sisa para a Câmara, em alguns casos podia chegar à dízima (podia ser de 3 %, 6 % ou como referimos, até 10 %). 
No Porto Seco de Terena, passavam muitos machos galegos, mas todas as cavalgaduras que lá passavam, pagavam Sisa à Câmara! 



522 - Terras de Capelins 

História da Villa de Terena, o nosso Concelho entre 1262 e 1836 
A Alfândega da Villa de Terena em 1835, tinha os seguinte funcionários: 
1 Juiz, ganhava 20.000 réis/ano;
1 Feitor ou recebedor, ganhava 25.000 réis/ano; 
1 guarda da porta, ganhava 12.000 réis/ano; 
2 guardas a cavalo, ganhavam 30.000 réis/ano, cada um; 
1 escrivão, ganhava 7.680 réis/ano. 
Os cavalos faziam a despesa de 48.000 réis/ano. 
A renda da casa em Terena e expediente: 15.200 réis/ano. 
O senhor Juiz ganhava menos do que ganhava o feitor ou Recebedor e menos do que os guardas a cavalo! Talvez tivesse outras alcavalas! Parece que, existia muita corrupção! 
Estes funcionários, tinham de dar resposta ao movimento do Porto Seco de Terena, situado nas terras de Capelins! 
Um pouco mais tarde, verificam-se algumas alterações, mesmo nas categorias, sendo criado um Posto avançado, que veio ser o de Montes Juntos, com dois funcionários. 



584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...