História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da mendiga que mudou a vida do ti Manoel Lopes
O ti Manoel Lopes, era um homem muito pobre, como a maioria dos moradores da Vila de Ferreira nessa época, era casado com a ti Anna Maria e pai de quatro filhos de tenra idade, moravam em Capelins de Baixo e, trabalhava como jornaleiro na herdade da Zorra, onde mal ganhava para sustentar a família, embora a mulher ajudasse, sazonalmente, na monda e nas ceifas, muitas noites, tinham de enganar o estômago, com umas papas de farinha de trigo, torrada no forno comunitário da Aldeia, quando faziam a cozedura do pão.
Esta família, faziam uma pequena amassadura de oito em oito dias, dividindo o forno com a comadre Maria Domingas, davam duas feixas de lenha cada uma para o aquecerem, mas o pão era muito à conta, não se podiam alargar senão, já não chegava até à próxima cozedura, logo tinha de pedir algum emprestado!
O ti Manoel Lopes, não aceitava andar a "de comer", porque nesse caso, a jorna ainda era mais pequena, pelo que, recebia mais alguns réis no fim da semana, mas era obrigado a levar o jantar (almoço) para o trabalho, porém, à noite voltava mais cedo para casa, porque não tinha de esperar pela ceia (jantar) no Monte da Zorra!
Quando entrava em casa já os filhos dormiam e quando saia de madrugada ainda ficavam a dormir mas, ao menos, dormia com a ti Anna na sua cama, com enxargão de palha de centeio e um colchão de lã em cima, era melhor do que as tarimbas que tinham dois sacos de serapilheira meios de palha, que existiam nas cabanas dos animais, onde dormiam outros trabalhadores!
A vida do ti Manoel Lopes e da ti Anna, era muito dura, como a de toda a gente, ele trabalhava de sol a sol, mas ao raiar da aurora, já tinha de estar a prepara os animais para começar a trabalhar e, depois do pôr do sol ainda tinha de arrumar as alfaias, entregar as mulas ou os bois ao maioral, nas cabanas e, só depois podia seguir para sua casa em Capelins de Baixo!
Na madrugada do dia 1 de Abril de 1802, quinta-feira, o ti Manoel Lopes, como sempre, seguia o caminho do Monte da Zorra e, quando chegou ao alto do malhão, ainda pouco se via, mas vislumbrou um vulto à sua frente que se dirigia na sua direção, não ficou assustado mas preparou-se em defesa com o pau ferrado, o vulto continuava a mover-se muito lentamente, era uma pessoa arrastando os pés!
O ti Manoel, já muito próximo, reparou que era inofensiva e, antes de proferir qualquer palavra ouviu uma voz:
Vulto: Bom dia! Não tenha medo, eu não faço mal a ninguém!
Ti Manoel: Bom dia! Ah, é uma vagabunda, a uma hora destas!
Vulto: Sou uma mendiga, sua criada! Ajude-me, por Deus, ajude-me!
Ti Manoel: Criada de Deus! Oh mulher, eu vou para o trabalho e não me posso atrasar senão o lavrador despede-me e não posso ficar desempregado! Tenho quatro filhos lá em casa e a mulher para dar de comer! Vá, mas diga lá o que quer?
Mulher: Dê-me um bocadinho de pão! Estou cheia de fome, desde ontem que não como nada!
Ti Manoel: Olhe, eu também pouco comi! O pão que tenho aqui na alcofa ficou a fazer falta lá em casa aos meus filhos e mal dá para uma bucha e para o meu jantar (almoço)! Não posso, não posso!
Mulher: Dê-me só uma dentadinha, por amor a Deus! Se não comer uma dentadinha de pão, não chego a Capelins de Baixo! Estou muito fraquinha!
Ti Manoel: Mau, mau, se lhe dou um bocadinho de pão, como é que eu passo o dia de trabalho? Não posso, não, não posso!
Mas naquele momento, alguma força sobrenatural abanou o ti Manoel, e pensou: tenho o dia todo à minha frente para resolver a situação, agora, é agora, tenho de acudir à desgraçada", então, abriu a alcofa, cortou metade do pão, tirou metade das azeitonas, duas passas de figo e entregou à mendiga, dizendo:
Ti Manoel: Tome lá, como vê, é metade do que levo para comer em todo o dia e o trabalho vai ser muito duro, mas ainda tenho o dia todo para resolver isso! Sente-se e coma descansadinha para ganhar forças!Tenho de ir já a correr até ali ao Monte da Zorra!
A mulher agradeceu, desejou-lhe um bom dia e ainda murmorou: "Fica descansado, que não te vai faltar comida e pela boa ação a tau vida vai mudar, ai vai, vai"! O ti Manoel ainda ouviu, mas não percebeu tudo, porque já ia a correr para recuperar o tempo que esteve ali parado com a mendiga!
O ti Manoel, deu uma corrida e chegou a horas ao Monte da Zorra, recebeu as ordens do feitor, sobre o trabalho que ia fazer, preparou a parelha de mulas e seguiu para o lugar que ele lhe indicou!
Assim que lá chegou, pendurou a alcofa num chaparro e, até à hora da bucha, não se lembrou mais do encontro com a mendiga e da partilha da comida que tinha feito! Como estava com muita fome, partiu metade do pão que restava e comeu-o com duas passas de figos, ficando na alcofa uma fatia de pão, duas passas de figos, umas azeitonas e um bocadinho de toucinho para o jantar (almoço) e tinha de restar alguma coisa para merenda a meio da tarde! Era pouco, para quem tinha de despender tanta energia até ao pôr do sol, mas não havia mais nada!
Chegou o meio dia, o ti Manoel pegou na alcofa e ficou surpreendido, porque estava muito pesada, ficou desconfiado que estava trocada com a de outro trabalhador, mirou-a bem e ficou sem dúvida que era a dele, abriu-a com cuidado e o que viu aumentou a surpresa, porque tinha lá dentro um tarro e um pão inteiro, então dirigiu-se aos outros trabalhadores e perguntou:
Ti Manoel: Olhem lá! Algum de vocês tem a alcofa trocada?
Os trabalhadores que não andavam a "de comer" eram poucos, já estavam a comer e responderam todos que não! Cada um, tinha a sua alcofa!
Ti Manoel: Então, viram alguém mexer na minha alcofa?
Os companheiros, um pouco impacientes, responderam todos que não!
Ti Manoel: Ora essa! Mas alguém mexeu na minha alcofa! Não seria o Escamel? (Era o criado do lavrador que fazia serviços da casa e levava o jantar "almoço" aos trabalhadores que andavam a "de comer")!
Os companheiros ainda mais impacientes, responderam que não! O Escamel tinha subido ao lado do Ribeiro do Carrão e não tinha passado dali para cima, para o lugar onde estavam as alcofas! E quiseram saber o que lhe faltava na sua alcofa!
Ti Manoel: Não me falta cá nada na alcofa! Tenho é cá coisas a mais! Um pão e um tarro que não são meus!
Os companheiros riram e tiveram todos a mesma opinião: "decerto tinha sido a ti Anna que tinha aviado a alcofa sem ele saber o que lá vinha"! O ti Manoel ia negar, mas lembrou-se da mendiga e a conversa acabou ali!
O ti Manoel abriu o tarro e ficou assustado, estava cheio de lombo, entrecosto, torresmos e toucinho, ainda quentes, emanando um aroma que se espalhou em redor, originando alguns comentários dos companheiros! O ti Manoel ficou na dúvida em lhe tocar, começou por comer o resto do pão, as passas de figos, as azeitonas e o toucinho, depois não se conteve e cortou um bocado do pão mole, comeu um torresmo e um bocadinho de entrecosto, estavam deliciosos!
Quando merendaram, comeu um torresmo com um bocadinho de pão e guardou tudo na alcofa, pensando na mulher e nos filhos!
O ti Manoel Lopes, logo que soltou do trabalho, arrumou tudo e foi a correr para casa com a alcofa às costas, onde levava o pão e o tarro cheio de boa comida, na esperança de ainda apanhar os filhos levantados!
Quando entrou em casa, chamou por eles, deixando a ti Anna surpreendida, porque ele sabia que já eram horas de eles estarem a dormir e perguntou-lhe:
Ti Anna: Oh Manoel, o que se passa contigo homem? Então, não sabes que os gaiatos a esta hora já estão sempre a dormir?
Ti Manoel: Sei, sei, mas podia ser que hoje ainda estivessem acordados, trazia-lhe aqui uma surpresa!
Ti Anna: Olha, eu é que tenho uma surpresa para ti, esteve aqui uma mendiga a pedir-me um bocadinho de pão e disse-me que te conhecia!
Ti Manoel: O quê? Uma mendiga que me conhece? Como é que ela era?
Ti Anna: Era como as outras mendigas, mas muito fraquinha, estava cheia de fome, até arrastava os pés! Olha, disse-me para comermos com satisfação o que estava dentro do tarro que tu lá tinhas e para te dizer que a nossa vida ia mudar para melhor!
Ti Manoel: Oh Anna, se não fosse aparecer-me o tarro e um pão na alcofa, não acreditava em nada mas, assim acredito! Agora já sei que foi ela!
Ti Anna: Foi ela o quê, homem? Que coisa mais estranha!
O ti Manoel, contou à ti Anna o que se tinha passado no encontro com a mendiga de madrugada no alto do malhão e ambos concordaram que tinha sido ela a colocar o tarro e o pão na alcofa do ti Manoel!
A seguir, abriram o tarro e a ti Anna ficou sem palavras, no entanto, cearam (jantaram) as sopas de grãos que já estavam prontas e em cima comeram um torresmo cada um e um bocadinho de entrecosto com pão ainda mole!
No dia seguinte, a ti Anna aviou uns torresmos e um bocadinho de entrecosto para o jantar (almoço) do ti Manoel e o restante ficou guardado para os filhos!
O dia de trabalho decorria normal, mas à hora do jantar (almoço) o feitor foi falar com o ti Manoel!
Feitor: Boa tarde ti Manoel, venho dar-lhe um recado do lavrador!
Ti Manoel: Boa tarde, ti Silvestre! Sim, está tudo bem! Então, o que é que o lavrador me quer?
Feitor: Olhe, o lavrador mandou-me perguntar-lhe se quer vir morar com a sua gente cá para o Monte? Mas não precisa de dar já a resposta, pode falar com a sua mulher e amanhã diz-me!
Ti Manoel: Eu não preciso de falar com a minha Anna! Diga lá ao lavrador que sim! Quero, quero!
Feitor: Pronto! Se está decidido, eu digo a sua resposta ao lavrador! Assim, vou andando! Até logo, ti Manoel!
Ti Manoel: Até logo ti Silvestre! Vá com Deus!
O ti Manoel Lopes, passou a tarde a pensar que havia ali a mão da mendiga, isto era um sinal que a sua vida ia mudar para melhor, mas não percebia porque motivo foi escolhido, uma vez que, qualquer pessoa ajudava os mendigos, não tinha feito nada para merecer aquilo!
O ti Manoel não reparava que, a boa ação foi ter repartido o pouco que tinha e tanta falta lhe fazia, com quem nada tinha!
O ti Manoel ficou tão contente que, a tarde parecia nunca mais acabar, estava cheio de vontade de ir contar à ti Anna! Porque, quem morava num Monte de lavradores, não passava mal, havia sempre alguma coisa para comer!
Quando soltou do trabalho foi em passo de corrida até Capelins de Baixo, nem sentia o cansaço! Assim que chegou, contou logo à ti Anna, deixando-a muito surpreendida e comentou:
Ti Anna: Ai homem! Não sei o que isto me parece! Achas que tem a ver com a mendiga? Não será feitiçaria?
Ti Manoel: Oh Anna, então se fosse feitiçaria não era para nos fazer mal?
Ti Anna: Sim, sim! Mas isto tem tudo a ver com aquela mulher! Seja como for, não podemos desperdiçar uma coisa destas!
Ti Manoel: Pois não, Anna! Nem eu tinha maneira de dizer que não! Não podia fazer essa desfeita ao lavrador!
Ti Anna: Então e quando mudamos os trastes? Eles são tão poucos que depressa os levamos!
Ti Manoel: O dia não sei! O feitor ainda não sabia, o lavrador é que vai dizer! Ainda temos de amanhar o cabanão para onde vamos morar!
O ti Manoel e a ti Anna ficaram muito contentes, mas apreensivos, porque não esqueciam a profecia da mendiga, no entanto, a conversa sobre a mudança da família para o Monte da Zorra ficou por ali!
No dia seguinte, o ti Manoel Lopes confirmou, novamente ao feitor que aceitava a oferta do lavrador!
O feitor, foi logo dar a resposta ao lavrador e, recebeu ordens para mandar amanhar o melhor cabanão, que tinha as paredes mais altas com chão de laje e para o ti Manoel no Domingo levar um carro de parelhas e fazer a mudança dos trastes e da família para esse cabanão!
No Domingo à tardinha, já estavam instalados junto ao Monte da Zorra, muito felizes com a mudança! Passados alguns dias, o feitor foi falar com o ti Manoel e disse-lhe que, a partir daquele dia passava a ser o maioral das parelhas e por isso, ia ter um aumento da jorna! Foi mais uma grande melhoria na sua vida!
A ti Anna começou a trabalhar nos diversos serviços domésticos no Monte, dava-se muito bem com a lavradora e com os filhos que, nunca a dispensavam!
Os anos foram passando, os filhos mais velhos começaram a trabalhar como ajudas de gado, mas as bocas para dar comer, pouco diminuiam, porque a ti Anna ainda teve mais dois filhos, mas tinham uma vida muito desafogada!
Já moravam no Monte da Zorra há cerca de cinco anos, até que, um dia, inesperadamente o feitor foi prestar contas a Deus, sendo sepultado na Igreja de Santo António! No dia seguinte, o lavrador chamou o ti Manoel e disse-lhe que seria ele o feitor da herdade da Zorra, ficando a ganhar o dobro do que ganhava e com direito a amassadura, à matança de um porco anual e a outras mordomias!
O ti Manoel e a ti Anna, ficarm muito contentes e não esqueciam que deviam tudo à misteriosa mendiga, a sua fada madrinha, falavam muitas vezes sobre ela, diziam que gostavam de lhe agradecer, mas nunca mais a viram.
Era certo que, deviam tudo à mendiga, mas era merecido, devido à boa ação praticada pelo ti Manoel Ramos, porque, apesar de não ter quase nada, dividiu o pouco que tinha com uma desconhecida, ficando em risco de passar fome.
O ti Manoel e a ti Anna da Zorra, apelido pelo qual era conhecida, passaram o resto da sua vida a residir no Monte da Zorra, até partirem para Santo António, mas os seus descendentes continuaram neste Monte, durante muitas gerações.
É caso para dizer: "Faça o bem sem olhar a quem"
Fim
Herdade da Zorra


