terça-feira, 27 de novembro de 2018


466 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Povoação da Cinza - proto - história - Idade do Ferro - 2.700 anos

Moinho da Cinza - Capelins 


Paisagem: Implanta-se sobre uma pequena elevação adjacente ao Guadiana, encaixada entre relevos mais destacados que limitam bastante o controlo visual, dominando, todavia, um vau que lhe fica fronteiro. Toda a envolvente apresenta um escasso potencial agrícola.

Estruturas: Foram unicamente detectadas estruturas negativas, nomeadamente um buraco de poste, uma lareira e um silo, todos escavados no substrato rochoso. Este, de
planta ovalada e cerca de 1 m de profundidade, constitui a única estrutura de armazenagem subterrânea registada. Foram, no entanto, observadas concentrações de lajes
de xisto que devem corresponder a embasamentos de muros desmantelados.

Artefactos: O conjunto é dominado pela presença de formas de produção manual, de perfil em “S”, de que se destaca uma forma afim dos vasos “à chardon”. Foi registada a presença de decoração “cepillada”, aplicada sobre recipientes de grande dimensão. As formas a torno estão representadas, igualmente, e entre outras, por formas de perfil em “S”; de realçar é a presença de um pithos claramente de importação,
com asa bífida, associável, nos contextos do Sul peninsular, a cronologias do séc. VII a.C. (Fig. 15).

Cronologia: Séc. VII a.C
Arqueólogos:
Manuel Calado*
Rui Mataloto**
Artur Rocha**

Povoado do Moinho da Cinza - Capelins 


465 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Povoações da Proto História (Idade do Ferro) nas terras de Capelins 
Casa da Moinhola - Capelins - 2.500 anos

Paisagem: Localiza-se na extremidade nascente de um pequeno cabeço alongado, de vertentes declivosas, sobranceiro ao Guadiana. O ligeiro destaque na paisagem

confere-lhe algum controlo visual sobre vários quilómetros do curso do rio, tanto para montante como para jusante. Insere-se numa área de fraco potencial agrícola.

Estruturas: Registou-se um conjunto edificado, disperso pelo topo e encosta Sul do cerro. As estruturas, de planta ortogonal, fizeram uso da matéria-prima disponível
no local, maioritariamente grandes blocos de quartzo, utilizando-se, para regularizar o muro, lajes de xisto de médio e grande calibre. Foi possível detectar a presença de
um grande compartimento rectangular, com cerca de dezasseis metros quadrados, adjacente ao qual se desenvolviam vários compartimentos quadrangulares, que não foi possível delimitar por completo. O facto de algumas das estruturas serem instaladas numa encosta declivosa implicou o reforço das construções e a edificação de possíveis muros de contenção de terras.

Artefactos: O conjunto artefactual é composto exclusivamente por cerâmica, 55%, da qual produzida a torno, estando representadas as taças de bordo simples ou espessado,
por vezes com carena, e os potes de bordo extrovertido; as produções manuais são essencialmente formas fechadas para preparação/confecção de alimentos: É sobre estas que surgem os escassos motivos decorativos, como pequenas incisões sobre o lábio ou sobre a parede, estando também presentes duas estampilhas, circulares com motivos raiados; estão igualmente atestados diversos elementos de preensão como as asas cegas ou de ferradura. Foram ainda recolhidos artefactos relacionados com a tecelagem: cossoiros e pesos de tear.

Cronologia: Séc. VI-IV a.C.
Arqueólogos:
Manuel Calado*
Rui Mataloto**
Artur Rocha*** 



464 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Povoação da Proto História - Idade do Ferro - 2.800 anos. 
Povoado de Miguéns - Capelins 
Miguéns 

Paisagem: Localiza-se sobre uma pequena elevação sobranceira ao Guadiana, de solos esqueléticos, com reduzida capacidade agrícola. Apesar de pouco destacado,

controlava visualmente vários quilómetros do curso do rio.

Estruturas: A intervenção permitiu verificar a presença de dois compartimentos, de planta quadrangular, contíguos, um com mais de dez metros quadrados e outro de dimensões bastante menores, tendo sido apenas parcialmente delimitados. Em termos técnicos, os muros encontravam-se construídos quase exclusivamente em blocos de quartzo de médio e grande calibre, bastante irregulares.

Artefactos: O conjunto artefactual é escasso e exclusivamente de produção manual; as formas de perfil em “S” dominam, estando atestadas as decorações incisas aplicadas sobre a parede dos recipientes. Será de realçar a presença de um número relativamente elevado de cossoiros ou contas de colar em cerâmica; na realidade, a separação entre ambos não resulta fácil nem linear, não sendo o perfil ou a largura
da perfuração elementos determinantes, pelo que no conjunto recolhido poderemos ter ambos os artefactos representados.

Cronologia: Finais do séc. VIII e parte do séc. VII a.C
Arqueólogos:
Manuel Calado*
Rui Mataloto**
Artur Rocha***


Miguéns 





463 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Povoação da Proto história - Idade do Ferro - 2.500 anos

Espinhaço de Cão - Defesa de Bobadela - Capelins

Paisagem: Implanta-se sobre o topo e encosta Sul de um destacado esporão, sobranceiro ao Guadiana, apresentando grande controlo visual sobre o curso do rio, a jusante. Integra-se numa área particularmente pobre, em termos agrícolas.
Estruturas: O conjunto arquitectónico apresenta-se bastante amplo e complexo, contando com várias centenas de metros quadrados de área edificada e mais de uma dezena de compartimentos de planta ortogonal, distribuídos aparentemente em torno de dois pátios interiores. O edificado apresenta um complexo faseamento interno, com destruição e aproveitamento parcial das estruturas mais antigas. Todavia, o processo aditivo das construções parece denunciar a sua consolidação e expansão ao longo da diacronia de ocupação. Identificaram-se grandes compartimentos rectangulares, com mais de uma dezena de metros quadrados, abertos a nascente, a par de outros de planta quadrada, nos quais surgem claros indícios de diferenciação arquitectónica. Um destes compartimentos possui uma caleira central e pavimento em grandes lajes de xisto; no outro caso, o edifício quadrado apresenta uma primeira fase um amplo vão virado a nascente, com um piso de argila vermelha e uma pequena estrutura de fogo de planta quadrangular, em adobe, sobrelevada em relação ao piso, adjacente a um banco igualmente em adobe, adossado ao muro do edifício; num segundo momento, estas estruturas foram amortizadas, tendo sido alteado o piso e construída, no exterior, uma escadaria de acesso, com pelo menos três degraus. Foi registado apenas um compartimento de planta subcircular.
Identificaram-se diversos equipamentos construídos no interior e exterior dos compartimentos, como bancos/poiais, escadarias, caleiras de escoamento de água, lareiras, entre outras funcionalmente indefinidas. A par destas, surgiu, no interior de um com­partimento, aparentemente aberto do lado nascente, uma estrutura de planta subcircular, com cerca de 2,5 m de diâmetro, maciça, constituída por blocos de média e grande dimensão, sobreposta por um piso em seixos de quartzito e uma cobertura em barro cozido.

Cronologia: Finais do séc. VII a.C.-inícios do séc. V a.C.
Manuel Calado*
Rui Mataloto**
Artur Rocha***

Povoação de Espinhaço de Cão - Capelins 



domingo, 25 de novembro de 2018

462 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do Moleiro da Moinhola (Minhola) e o Milagre de Nossa Senhora das Neves
Sábado 31 de Maio de 1862, amanheceu sem sinais de chuva ou trovoada, pelo contrário, esperava-se um dia quente, como outros que o antecederam!  
O ti Manoel Farinha e a ti Loreta de Jesus, eram Moleiros no Moinho da Moinhola, o qual, como todos os outros, estava cheio de sacos de trigo e moia dia e noite para dar resposta às encomendas! Naquele sábado, este Moinho, tinha lá dentro cerca de trinta sacos de trigo e outros cereais! 
Pelas quatro horas da tarde, surgiu uma trovoada por cima da Vila de Chelles, cobria o céu até onde a vista alcançava, para os lados de Olivença! O ti Manoel saiu do Moinho, olhou, olhou, coçou a cabeça e comentou com o pastor da herdade da Defesa de Bobadela que ia passando por ali: 
Ti Manoel: Oh Zé, não estou a gostar nada do que estou a ver! O que é que dizes daquilo? 
Pastor: Oh Manoel, digo-te que aquilo é uma grande trovoada, um caso sério, e se queres que te diga mais, não me lembro de ver uma bicha daquelas! Olha lá, os relâmpagos seguidos de trovões tão fortes e nem despegam! E as cordas de água! Cá por mim, vais ter aqui fezes!
Ti Manoel: Não sei, não sei, de verdade não me lembro de uma coisa assim! A água que vai caindo além, vem cá parar toda! Não sei o que faça à vida! Mas num tempo destes há-de encher o Moinho? 
Pastor: Não sei, Manoel, não sei! A trovoada não vai chegar aqui, não vês o vento a empurrá-la para lá? Ela vai carregar bem, aí para Juromenha e Elvas, mas tens razão, a água vem cá ter toda! 
Ti Manoel: Ora aí está! Se a água vem cá ter toda, então tenho de me amanhar, porque o Moinho está cheio de sacos! Eu não os vou tirar, mas vou pôr aí os taipases (tábuas) para se vier alguma grande cheia, não deixam passar a água aqui para a frente do Moinho e, se for preciso reforço a porta! 
Pastor: Olha que 
era melhor tirar alguns sacos ali para a casa ou para o cabanão! Vê lá se queres  ajuda? 
Ti Manoel: Não, eu não tiro os sacos de trigo, desde gaiato que ando nisto e nunca me enganei! Olha, ajuda-me aqui a levar as tábuas que estão ali no cabanão!
O ti Manoel e o pastor, colocaram as tábuas encostadas à parede do muro, entre a frente do Moinho e a margem do rio, ficaram bem firmes com grandes pedras a pressionar e, ambos acharam que a água por ali não passava, era preciso galgar mais de dois metros de   altura! 
As ovelhas já seguiam para a choça, o pastor despediu-se e foi no seu encalço! O ti Manoel continuou a vigiar as mós do Moinho e ao mesmo tempo a trovoada que não amainava, mas já tinha a certeza que não chegava ali, tinha mesmo enrolado para cima! 
O leito do rio Guadiana estava a subir,  e já estava a anoitecer, mas a água ainda estava distante das tábuas, por isso, o ti Manoel baixou a guarda! A ti Loreta desceu ao Moinho com as cinco filhas e com a ceia, cearam (jantaram)  todos, depois arrumaram a tralha e voltaram para a casa da Moinhola, porque não podiam demorar em ir para a cama, uma vez que, pelas três ou quatro da madrugada a ti Loreta tinha de se levantar para substitui o ti Manoel no trabalho do Moinho, era uma vida de muito sacrifício! 
O ti Manoel continuou a trabalhar, mas vinha constantemente à rua verificar a cheia do rio Guadiana que, estava a atingir as tábuas e subindo a olhos vistos, por isso, foi a correr travar as mós e apanhar a farinha para dentro dos sacos, começou a carregá-los para casa e acordou a ti Loreta para o ajudar a carregar os restantes sacos de farinha e alguns de trigo para a casa e para o cabanão e chamou logo a ti Loreta: 
Ti Manoel: Loreta, oh Loreta! Levanta-te lá depressa, mulher! Anda lá ajudar-me a pôr os sacos às costas, tenho de tirar de lá a farinha e alguns sacos de trigo, porque, parece-me que vamos ter borrasca! 
Ti Loreta: Oh Manoel, só tu me fazes isto, estava a dormir tão bem! Mas olha que estava a sonhar que vinha aí uma grande cheia e estavamos numa grande aflição! Não gostei nada deste sonho! 
Ti Manoel: Eh lá Loreta! Tanto, também não! Vá, deixa lá o sonho e anda daí depressa! 
Ti Loreta: Oh Manoel, mas que pressa é essa agora? Não disseste que tinhas a certeza que não era preciso tirar nada do Moinho? 
Ti Manoel: Disse, pois disse, mas devia estar enganado, a água não pára de subir, não sei se não passa por cima das tábuas, ou se até rebenta com elas! 
Ti Loreta: Olha lá, então porque não levemos a burra? Como é que vais carregar aqueles sacos todos às costas? 
Ti Manoel: Deixa lá a burra, porque levemos mais tempo, vamos tirar a farinha que não é muita, e depois, tiramos alguns sacos de trigo, mais nada!
O ti Manoel e a ti Loreta, correram até ao Moinho, mas antes, ainda foram ver em que estado estavam as tábuas que seguravam a água e ficaram assustados, porque podiam ceder a qualquer momento, mas tinham de continuar! 
Entre os dois, começaram a carregar a farinha para casa e, logo a seguir, o trigo para o cabanão, embora a água já lhe desse quase aos joelhos continuaram o seu trabalho que estava a correr muito bem, a força da água era tanta que as tábuas, repentinamente cederam, só já tinham meia dúzia de sacos de trigo dentro do Moinho, mas foi no momento que estavam ambos lá dentro e, não deu tempo a fechar a porta com as tábuas que o ti Manoel tinha preparado, a água entrou tão rapidamente que o Moinho ficou logo com água até às meias paredes, eles ainda tentaram sair, mas era impossível, a água impelia-os para trás, subiram, então, para uma das mós e começaram a gritar por socorro, mas àquela hora não andava ninguém por ali, só estavam as filhas a dormir na casa da Moinhola! 
A filha mais velha, a Maria, acordou, devido ao barulho da água, foi à rua, chamou, chamou e como não tinha resposta, apercebeu-se que os pais estavam encurralados dentro do Moinho, o qual, estava quase submerso, foi acordar as irmãs e disse-lhe que os pais se estavam a afogar, começaram todas a chorar e a gritar por socorro, podia algum pastor ouvir, mas às duas da manhã, ninguém as ouvia.
O ti Manoel e a ti Loreta estavam quase afogados, com a água pelo pescoço, e ainda ouviam a água a entrar no Moinho, viram que estavam perdidos, foi então que, o ti Manoel, desesperado gritou: "Nossa Senhora das Neves, nos acuda"! Naquele momento, as águas serenaram e, a cheia começou a baixar, a força da enxurrada diminuiu! 
Como as filhas não pararam de gritar a pedir ajuda, alguns pastores ouviram-nas e vieram ver o que se passava, mas só quase às cinco horas da manhã os conseguiram tirar do Moinho, sem nenhuma mazela.
O ti Manoel, não se esqueceu da ajuda que tiveram, sabia que tinham sido salvos por um milagre de Nossa Senhora das Neves, por isso, na tarde do dia seguinte, Domingo, deixou o Moinho parado e com a ti Loreta e as filhas, foram agradecer o milagre a Nossa Senhora das Neves. 
Depois da enxurrada passar, que tinha sido provocada pela grande trovoada, o curso do rio Guadiana, depressa voltou ao normal, continuando o ti Manoel, a ti Loreta e as cinco filhas a viver na Moinhola (Minhola) muitos felizes e, sempre devotos de Nossa Senhora das Neves, onde iam todos os meses renovar o seu agradecimento. 
Foram muitos os milagres de Nossa Senhora das Neves nas terras de Capelins que, continuam em segredo!

Fim 


Nossa Senhora das Neves - Capelins 




segunda-feira, 19 de novembro de 2018

461 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do sonho do moleiro do Moinho da Cinza, com um tesouro na Serra da Sina 

O ano de 1880, ficou registado como o mais seco de que há memória,  nas terras de Capelins, secaram as nascentes, as Ribeiras do Lucefécit e do Azevel e, no rio Guadiana foram poucos os pegos que não ficaram sem água. As searas produziram pouco e, para agravar a situação surgiu uma praga de gafanhotos que atravessaram a Espanha, vindos de Marrocos e quase dizimaram o que restava. 
As fracas colheitas, o rio Guadiana quase seco, logo os seus moinhos não trabalhavam, não moiam, alguns moleiros tiveram de ir fazer outros trabalhos, ou abalaram para outras terras, mas o ti José Maruta que era o moleiro do Moinho da Cinza, teimou em não abandonar a casa do dito moinho, onde morava com a sua mulher a ti Anna Patusca e cinco filhos com idades entre os três e os doze anos, três raparigas e dois rapazes! Como, ainda tinha guardados quatro sacos de farinha, das maquias de antes do verão, fez as contas e, davam amassaduras para fazer pão e papas de farinha torrada, até ao fim do ano, com a ajuda de alguma caça e contrabando de alguns burros para Espanha, decerto que se aguentavam até a situação melhorar! O tempo foi passando, com algumas dificuldades, o ti Maruta, não tinha nada para fazer no Moinho, mas tinha de arranjar a estrada, por onde passavam os fregueses, por isso, passava o tempo por ali, dando voltas e mais voltas à cabeça a tentar encontrar uma maneira de melhorar a vida, mas não descobria o caminho que o conduzisse a uma vida melhor! De tanto pensar, já tinha visões, sonhava acordado, até que, um dia, chamou a ti Anna Patusca para lhe contar o que lhe andava a dar cabo da cabeça: 
Ti Maruta: Oh Anna, tenho de te contar o que me anda a acontecer há  mais de um mês, todas as noites sonho com um tesouro, uma panela cheia de moedas de ouro e de prata, enterrada num sítio lá na serra da sina! 
Ti Anna: Oh homem, cá para mim, andas é doido da cabeça! Tu acreditas nessas conversas que te trazem aí ao Moinho? 
Ti Maruta: Eu não, Anna! Sei que muitas são mentiras, mas há outras, que não sei, não sei!  
Ti Anna: Oh José Maruta, há por aí muitos mentirosos, quando aqui chegam, já trazem as mentiras preparadas e, depois metem-te essas coisas na cabeça! Em cabeças como a tua! Eu, não acredito nesses sonhos de tesouros enterrados por aí!  
Ti Maruta: Cala-te mulher! Não se pode falar contigo, és sempre do contra! Eu sei que ali para os lados de Monsaraz, de Montoito, de Elvas e, outros sítios, têm achado muitos tesouros e, quem os achou, antes sonhou com eles! Por isso, quem te disse a ti, que o meu sonho não é desses?  
Ti Anna: Ninguém me disse! Mas como já te disse, eu não acredito nesses sonhos! Tu faz o que quiseres, vai lá ver do teu tesouro à serra da sina! 
Ti Maruta: Hoje ainda não vou, mas se continuar a sonhar com ele, podes crer que vou!  
Ti Anna: Tu lá sabes! Mas para andares fazendo essa figura, o melhor é agarrares o caminho para lá e logo te desmaginas!  
Ti Maruta: Acabou a conversa, mulher! Não se pode falar contigo! Já disse que vou, e vou! 
O ti José Maruta, passou por ali o resto do dia arranjando o caminho e a andar de um lado para o outro, a pensar como fazia para desenterrar o tesouro e trazê-lo para casa no Moinho da Cinza e, assim, se passou o dia! À noite, assim que cearam (jantaram) deitaram-se logo, o ti Maruta adormeceu e, começou logo a sonhar com o tesouro, foi a noite toda, de madrugada acordou, levantou-se e subiu o rio Guadiana para desanuviar a cabeça! Ao nascer do sol, entrou em casa, já a ti Anna estava acabando de fazer as migas para o almoço (pequeno almoço), o ti José Maruta sentou-se à mesa, comeu as migas, sem dizer uma palavra! 
A ti Anna notou logo que, ele não estava bom e iniciou a conversa:
Ti Anna: Então, José Maruta, o que tens hoje? Já vi que não estás bom! Foi o sonho, não?
Ti Maruta: Não tenho nada! O que queres que eu tenha? 
Ti Anna: Não quero que tenhas nada, já vi tudo! É o raio desse sonho do tesouro que anda a dar cabo de ti, homem! 
Ti Maruta: Não sei, se é o sonho, se não é, só sei que ele não me larga! Esta noite, foi a noite toda a sonhar com o tesouro! O que faço eu à minha vida, Anna? 
Ti Anna: Oh homem, se isso te anda a moer, tens bom remédio, agarra na burra e vai lá à serra da sina a ver do tesouro! 
Ti Maruta: Então, e é só ir buscá-lo, não? Não te disse que está enterrado? 
Ti Anna. Então e o queres fazer? Olha, leva a enxada, desenterra-o e trá-lo para casa! 
Ti Maruta: Tu estás é a desconversar, Anna, mas isto é um caso sério! Se esta noite continuar a ter o sonho, então, não tenho outro remédio, senão ir de madrugada a ver dele! 
Ti Anna: Vai, sim vai, José Maruta, pelo menos a ver se te desmaginas, senão ainda dás em doido, se é que não estás já, homem! Prepara a enxada a pá e uma saca de serapilheira para o trazeres, vai bem cedo para ninguém te ver nessa figura, senão ainda fazem pouco de ti! 
O ti José Maruta, nem a ouvia, só pensava no tesouro! Andou arranjando o caminho e vagueando pela Cinza, sempre pensando no que havia de fazer à sua vida e planos para depois de trazer o tesouro! 
Após a ceia (jantar), foi deitar-se na tarimba e assim que adormeceu o sonho entrou em ação, mostrava-lhe o tesouro sempre no mesmo sitio, não podia haver engano! De madrugada, o ti Maruta levantou-se, comeu um bocado de pão com toucinho, albardou a burra, pegou na enxada, numa pá, num saco de serapilheira e partiu para a serra da sina! Como conhecia razoavelmente a dita serra, foi direitinho ao sítio que via no sonho e, começou logo a cavar,  mas a enxada batia na terra e saltava, porque a mesma era de barro vermelho e estava tão dura que parecia cavar em cima de pedras, mas a vontade de chegar ao tesouro era tanta que, com muito esforço foi cavando, cavando, sem aparecer nada! Então, começou a pensar que, podia estar enganado no sítio, porque aquela parte da serra da sina era toda igual e, começou a ficar desorientado! Olhou, olhou e mudou-se para outro lado, cavou, cavou e nada! Já de cabeça perdida e a cair de cansaço, tornou a mudar de lugar, fazendo isso várias vezes! Estava tão cansado e já tonto que nem viu chegar o feitor da herdade da Sina junto dele, que lhe gritou: 
Feitor: Oh homem, o que anda vocemecê fazendo aqui? 
Ti Maruta: Eu? Eu, nada! 
Feitor: Nada como? Então, vocemecê tem aqui a serra toda esfuracada e diz-me que não anda a fazer nada? 
Ti Maruta: Então, quem é que vocemecê é?
Feitor: Eu sou o feitor da herdade! Porquê? 
Ti Maruta: Por nada, por nada, senhor feitor! 
Feitor: Estou à espera que me diga que trabalho é este? Ou tenho de o levar para o Monte e chamar cá a ordenança de Terena? 
Ti Maruta: Oh senhor feitor, eu não quero arranjar fezes! Eu conto-lhe tudo! 
Feitor: Então, é melhor contar, eu estou à espera! 
O ti Maruta, não teve outra remédio, senão, contar tudo ao feitor, que o ouviu com muita atenção, sem troçar dele, parecia acreditar em tudo o que estava a ouvir e. só depois do ti Maruta acabar se pronunciou: 
Feitor: Vocemecê é o Moleiro do Moinho da Cinza, o ti Maruta, não é? 
Ti Maruta: Sou, sim, senhor feitor, mas por favor não conte isto a ninguém, senão ainda vão fazer para aí pouco de mim! 
Feitor: Fique descansado, dou-lhe a minha palavra de honra que de mim, ninguém vai saber de nada! Mas, agora diga-me lá, vocemecê acredita nesses sonhos com tesouros enterrados aqui ou ali? 
Ti Maruta: Ora! Tenho ouvido contar tanta coisa lá no Moinho! A gente, não pode acreditar em tudo o que ouve, mas sabemos que os antigos tinham de enterrar o dinheiro e o ouro para não o roubarem e ficaram por aí muitos tesouros! 
Feitor: Sim, acredito que os antigos tinham de enterrar alguns haveres para não serem roubados! Eu refiro-me à parte dos sonhos! Eu não acredito nisso! Olhe, vou contar-lhe uma coisa que nunca contei a ninguém! Sabe que também já estive de cabeça quase perdida por causa de um sonho desses? Começou lá na minha terra em S. Miguel do Adaval, ainda eu era gaiato! 
Ti Maruta: Ah sim? Não está a fazer pouco de mim? 
Feitor: Qual pouco, não ti Maruta, é a verdade! Eu conto-lhe como era esse meu sonho, via sempre o mesmo outeiro, muito alto na margem do rio Guadiana, lá em cima tinha os restos de um pequeno castelo e, o meu tesouro estava dentro desse outeiro, entrava num buraco do lado do rio a seguir estavam umas paredes em pedra, no lado esquerdo estava uma casa com uma grande lage e debaixo dela, estava o tesouro dentro de um saco de couro e sabe o que era esse tesouro? 
Ti Maruta: Não sei, não, senhor feitor, algumas moedas de ouro? 
Feitor: Não, ti Maruta! Eram quatro barras de ouro! Ainda andei convencido que podia ser verdade! Mas, olhe, ainda bem que me curei e deixei de sonhar com o tesouro, porque isso são coisas criadas pelas nossas cabeças, de tanto pensarmos nelas convencemo-nos que são verdade! Veja lá se não foi o que aconteceu consigo? Vá para casa ti Maruta e descanse a sua cabeça! Passe bem, tenho de ir até ao Monte, estão à minha espera para o jantar (almoço)! 
Ti Maruta: Passe bem, senhor feitor! 
O ti Maruta ainda ficou algum tempo sentado no chão e até chorou, com pena dele prórpio, depois levantou-se e montado na sua burra voltou à sua casa na Cinza! 
A ti Anna Patusca assistiu à sua chegada e, pela cara dele, viu logo que a viagem não tinha corrido bem, ia para lhe perguntar pelo tesouro, mas não o fez com receio de ouvir o que não queria! Estava na hora do jantar (almoço), ela pôs a mesa, o ti Maruta migou as sopas de pão para dentro do barrenhão sem dizer nada, comeram as sopas de grãos e logo a seguir o ti Maruta deitou-se e dormiu quase toda a tarde, quando acordou, ficou surpreendido, porque pela primeira vez desde há vários meses, não tinha sonhado com o tesouro da serra da sina e nem parecia o mesmo, começou a falar com a ti Anna com boa disposição, como se não se tivesse passado nada, até deu para a ti Anna desconfiar se ele não teria achado alguma coisa, mas não, já tinha visto o saco vazio!  Nos dias seguintes, o ti Maruta começou a trabalhar como jornaleiro na herdade da Defesa de Bobadela e, naquela casa, nunca mais se ouviu falar do tesouro da serra da sina, até que um dia o ti Maruta estava tão bem disposto que puxou a conversa:
Ti Maruta: Oh Anna, então nunca mais me falaste do tesouro da serra da sina, nem do meu sonho, porquê? 
Ti Anna: Eu? Deus me livre! Cruzes! Ainda bem que estás curado! Eu até já tinha uma promessa a Nossa Senhora das Neves! tenho de a ir pagar!
Ti Maruta: Ah pois! Se fizeste alguma promessa tens de a pagar! Isso é uma coisa muito séria! Estou curado, mulher, lá isso estou! Mas eu vou-te contar o que me aconteceu naquele dia que fui lá à serra da sina a ver do tesouro! 
Ti Anna: Eu ficava melhor se não me contasses nada! Mas está bem, como isso já passou, então, conta lá! 
O ti Maruta, com calma, contou à ti Anna Patusca, o que lhe tinha acontecido naquele dia, que se ia matando a cavar a terra muito dura e a conversa com o feitor da herdade da sina que, o tinha apanhado em flagrante a esfuracar a dita serra e por pouco era preso pelas ordenanças de Terena! 
Ti Anna: Ai valha-me Deus, homem! O que tu ias arranjando com essa maldita doença! 
A ti Anna ficou abismada com o que o ti Maruta lhe contou, principalmente, sobre a parte do sonho do feitor com o tesouro dentro de um outeiro muito alto dentro do rio Guadiana e, logo identificou que era o outeiro do Pombo, ali por cima deles e não se conteve: 
Ti Anna: Oh José Maruta, tu sabes que esse sítio é aqui mesmo ao pé da gente! 
Ti Maruta: Então, mulher, o que é que isso quer dizer? Não me digas que agora já acreditas nos sonhos com tesouros? 
Ti Anna: Eu, não, não José! Mas um dia que tivessemos vagar passavamos por ali, nem é preciso cavar, nem nada, é só ver se está lá a lage e depois tirar o tesouro! Sim, se ele lá estiver! 
Ti Maruta: Mau, mau Anna Patusca! Assim, não te percebo, não acreditas nos sonhos com tesouros e agora queres ir ver do tesouro do feitor? 
Ti Anna: Oh José, já te disse que não acredito, mas não perdemos nada, é aqui mesmo ao pé da gente! 
Ti Maruta: Está bem, mulher, fica descansada que um dia vamos lá, já lá fomos a dentro do outeiro tantas vezes, mais uma, não faz mal nenhum! Um dia vamos lá!
Depois daquela conversa, a vida dos Marutas, continuou a decorrer normalmente, com as dificuldades existentes nesses tempos! Quando o rio Guadiana tomou água, o Moinho da Cinza começou a moer e, só parou alguns dias em pleno inverno, quando o rio ganhou grandes cheias, que submergiram o Moinho, mas na Primavera de 1881 já estava cheio de sacos de cereais para moer, porém, nos finais do mês de Maio, com grande surpresa dos fregueses e conhecidos, de um dia para o outro, os Maruta desapareceram da Cinza, mas disseram a alguns fregueses e ganadeiros que por ali guardavam gado, que se iam embora para a terra da família, na Serra da Estrela, porque tinham herdado lá umas courelas e iam tratra delas! Uma coisa tão normal, que todos acreditaram ser verdade.
Passados cerca de cinco anos, os Maruta começaram a aparecer nas feiras da região a comprar e vender grandes rebanhos de gado, bem apresentados, trajados à grandes lavradores, causando grande surpresa a quem os conhecia que, começaram logo a indagar junto de outros amigos lavradores que os conheciam, como é que eles tinham chegado aquele estado? Mas ninguém conseguia adiantar grande coisa, apenas que, eram os donos de duas grandes herdades na Freguesia de Ventosa, em Elvas! A notícia foi-se espalhando pelas terras de Capelins e, quem os conhecia e sabia das dificuldades que passavam na Cinza, não acreditavam, nem encontravam explicação plausível para aquela situação! Toda a gente perguntava: Como é que eles tinham chegado a lavradores? E davam a sua opinião, mas os que sabiam da herança lá na Serra da Estrêla diziam que, talvez ela tivesse sido maior do que eles pensavam, depois venderam tudo e vieram comprar as herdades na Ventosa, era o mais certo e, assim ficou certo! Alguns conhecidos, quando os encontravam nas feiras, não se continham em lhe perguntar como tinham conseguido comprar as herdades? Foi com a herança? Eles respondiam que sim, foi a herança, mas também foi, porque acreditámos nos sonhos! Ninguém percebia o que tinha a ver os sonhos com aquela fortuna, mas os Maruta repetiam, o mesmo:  "Acreditámos nos sonhos"! 
O feitor da herdade da Sina, não acreditou nos sonhos, por isso, lá ficou em feitor, até ao fim da sua vida, acabou por contar a algumas pessoas o que tinha falado com o ti Maruta, naquele dia na serra da sina, mas ninguém associou a fortuna dos Maruta ao tesouro do outeiro do Pombo e nem o feitor se apercebeu que o seu sonho com aquele tesouro era verdadeiro.
Sabemos de fonte segura que, o tesouro da serra da Sina, uma panela cheia de moedas, o mesmo que aparecia no sonho do ti Maruta, foi encontrado na década de 1950, no lugar que ele via no sonho, quando alguns jornaleiros, lavravam aquelas terras, por isso, o sonho estava certo, o ti Maruta é que perdeu a orientação. 
É caso para dizer: "Devemos acreditar nos nossos sonhos e, não perder a orientação". 

Fim 




segunda-feira, 12 de novembro de 2018


460 - Terras de Capelins 

Os Moinhos do rio Guadiana nas Terras de Capelins 

Em Montes Juntos, aldeia que serviu de residência a diversos moleiros, os moinhos do Guadiana são o motivo central de um memorial erguido junto ao antigo posto da Guarda Fiscal, mas também de quadras feitas por residentes recentemente colocadas nas paredes do casario em redor do edifício.



Azenhas D' El-Rei

A Azenha dEl Rei de fora teve um aferido com uma cobertura temporária, de mato, que, no século XX, foi substituída por uma cobertura de cimento.
Já a Azenha d’El Rei de dentro dispunha de uma abertura ou janela na sua parede divisória interior, correspon-dente à linha de fronteira entre Portugal e Espanha, que, segundo um antigo moleiro de Cabeça de Carneiro, José Glórias, foi encerrada por ocasião da Guerra Civil de Espanha (1936-1939).



Os acarretadores dos Moinhos 

Alguns moinhos do Guadiana tinham acarretadores e até mais de um, da casa, mas outros não tinham, na medida em que, como disse um antigo moleiro de Montes Juntos, Venâncio Silva, no contexto de uma conversa informal em 1997-1998, «a maioria [dos moleiros] não tinham carroças» ou qualquer outro meio de transporte de cargas de certo volume.



As guias no Posto da Guarda Fiscal de Montejuntos 

Os fregueses dos Moinhos das terras de Capelins, eram obrigados a fazer-se acompanhar de uma guia de transporte emitida pela Guarda Fiscal, de modo a que o transporta-do não fosse considerado contrabando. Da mesma maneira que os moleiros tinham que declarar às autoridades aduaneiras as existências – animais e bens – que possuíam junto ao moinho:
«Cinco quilómetros desviado da Guadiana para lá não se podia ter nada sem uma guia do posto da Guarda Fiscal. Fossem gali-nhas ou porcos. À saída, tinha que se vir dar baixa; se morresse algum animal, tinha que vir dar baixa. Era uma guia passada ali no posto de Montes Juntos. Mesmo esses que andavam carre-gando para lá, os maquilões, tinham que ir ao posto tirar uma guia. Até 300 quilos, pagavam-se 15 tostões; em passando os 300 quilos, eram
25 tostões. Houve um homem que levava 400 quilos e foi ao posto e disse que só levava 250; mas um guarda desconfiou e foi lá ao carro, fê-lo pesar. Mamou 500 mil reis de multa porque levava mais. Esse homem era de Ferreira [de Ca-pelins]. Isso há já quase 50 anos. Quinhentos mil reis que pagou e depois teve que levar a guia. Ele ia com a parelha do pai, ia para os Moinhos Novos de Cima» (José Glórias, antigo moleiro de Cabeça de Carneiro, entrevistado em 1994-1995.



Apesar do isolamento, os moinhos eram importantes locais de convergência, sendo usual o facto de neles ou nas suas imediações se encontrarem pessoas, incluindo fregueses, lavadeiras, pastores, maiorais de gado, pescadores e, nalgumas zonas, mendigos, sobretudo no Verão:

«A Guadiana, naquele tempo, andava muito mais acompanhada que anda hoje. Uma grande diferença. Hoje, se lá for, é raro encontrar uma pessoa e antes era a todo passo. Em todo o sítio aparecia família. Desconfio até que os maiorais diminuíram. Chegava-se ali a El Rei [ao moinho], em meu tempo, em vindo o Verão, estava sempre povoado de família. Ali no Bolas e na Cinza [era] igual. Ou família de maiorais ou mulheres de maiorais, a família que ia para ali a lavar [a roupa] ou a arranjar uma coisa de moitas ou buinho ou junça. Em vindo o Verão, havia sempre gente. (E do lado de Espanha também) Também havia quem fizesse isso, mas era menos; só ali à do Pijin [pescador de Cheles]. Havia muitos daqui que iam para lá só para ver banhar as espanholas, elas sabiam banhar bem» (Venâncio Silva, antigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em 1994--1995»). 


Durante e após a Guerra Civil de Espanha, parte destes moinhos foram ainda muito procurados por habitantes do outro lado da fronteira luso-espanhola para aquisição, não só de farinha, mas também de outros géneros alimentares que os moleiros tinham em depósito junto ao rio, como café, açúcar e arroz, e que podiam vender desde que tivessem o respetivo despacho emitido pela Guarda Fiscal. Nas palavras de um antigo moleiro de Montes Juntos, Venâncio Silva, proferidas numa conversa informal em 1997-1998:

«Os moinhos trabalhavam ali todos. Eu, na Moinhola, tinha lá sempre três mós a moer dia e noite; tinha alturas de nem ir à cama. E havia ali uma convivência muito grande com os espanhóis. Quando foi lá da miséria deles por causa da guerra, quem lhe valeu foi a gente. Vinham ali aqueles espanhóis e aquelas espanholas a comprar farinha, açúcar, café, arroz… bom, os artigos que a gente lá tinha no depósito; fazíamos um despacho e já podíamos vender aos espanhóis e eles vinham ali comprar».


Segundo Maria Olímpia da Rocha Gil (1965:184), em finais do século XV e durante o século XVI, havia moinhos dependentes da Coroa em diversos concelhos do Alentejo, nomeadamente, Alcácer do Sal, Monsaraz, Terena. 

Como já era do nosso conhecimento os Moinhos das Azenhas D' El-Rei em 1600 e parte de 1700 eram da Coroa, do Rei, mas nos finais de 1700 já os encontramos em mãos de particulares, porque, quando o Rei estava crivado de dívidas, tinha de vender estes bens.


Como já referimos, o nome dos Moinhos têm a ver com o nome dos seus proprietários, fosse em nome individual, fosse de uma Instituição, como a Misericórida, Ordem, Almoxarifado ou outros, veja-se estes, que não ficam nas terras de Capelins, mas vizinhos:
"O Moinho do Boi no Guadiana deverá o seu nome a Maximiano Gonçalves Boy, lavrador do termo de Monsaraz e tesoureiro do fisco real em 1738, que teria tomado o moinho por aforamento à Casa de Bragança, que, segundo apurámos, também era proprietária dos moinhos do Meirinho.


Tal como o Moinho do Bufo, foi do Lavrador de Santa Luzia senhor Bufo que morava no Alandroal.

Veja o que conta o ti José Glórias, Moleiro, da Aldeia de Cabeça de Carneiro: 
Houve casos em que o aproveitamento das águas do Guadiana durante o estio foi objeto de discórdia, como sucedeu entre o dono do Moinho Novo de Cima e o dono do Moinho Novo de Baixo no século XIX.:
«[Os donos] andaram em demanda e aquele de Baixo é que se matou pelas mãos dele. Porque o de Cima tem três aferidos e o de Baixo tem dois e, então, devia dar dois dias de água ao de Baixo e três ao de Cima. O juiz procurou qual a fazenda que tinha mais valor, lá lhe disse que era o de Cima e, então, deu 18 horas para o de Cima e 6 horas para o de Baixo, três dias para o de Cima e um para o de Baixo. Era na falta de água, o de Cima moía três dias e o de Baixo só um, foi decretado pelo tribunal. Isso não foi no meu tempo, foi no tempo de meus avós» (José Glórias, antigo moleiro de Cabeça de Carneiro, entrevistado em 1994-1995).


Como já tinhamos referido, devido à falta de água no Rio Guadiana o Moinho das Azenhas D' El-Rei de fora tinha um motor a diesel para poder moer durante o verão! 

"Mais recentemente, em meados do século XX
, para obviar à falta de água no Guadiana, alguns moinhos foram equipados com um motor de explosão adaptado a um casal de mós, como ocorreu no Moinho das Azenhas D' El-Rei e outros. Em alguns casos, como nos Moinhos do Caneiro e nas Azenhas de Fagundes, para não permanecerem inativos durante as invernadas, esse mesmo motor (a diesel) foi posteriormente colocado junto à casa do moleiro, situada a meia chapada, mimetizando aquilo que havia sido feito de início na Azenha d’El Rei de fora." 

Alguns proprietários dos Moinhos do rio Guadiana nas terras de Capelins 

- O proprietários do Moinho de Miguéns foi Francisco Martins Malato, nascido em São Marcos do Campo e residente no Outeiro, Monsaraz, que o herdou do sogro.
- José Glórias, antigo moleiro de Cabeça de Carneiro que adquiriu o Moinho do Bolas na década de 1950. 
- Domingos Pinto, antigo moleiro de Monsaraz, cujo pai, também moleiro, possuía o Moinho de Calvinos. 
- José Pires Gonçalves (1961-1962) faz saber que o Moinho do Gato «tomou o nome de Pedro Gato, almoxarife em Monsaraz, que, por morte do enfiteuta Manuel Fernandes, falecido sem herdeiros e crivado de dívidas, o tomou por aforamento de 2.500 reis anuais em 18 de Dezembro de
1715.


«Vinha o freguês e perguntava de caldeiradas. O Manuel, que era o mais velho, ou eu íamos a ver de peixe. Fazíamos uns cevadouros, eh, vinham aquelas tarrafadas cheias de peixe. Fazíamos a caldeirada e, depois, sentávamo-nos de roda de um alguidar grande, um barrenhão, que tínhamos e tudo de roda da mesa. Eu era o mais novo, era sempre o castigado. Eu ficava ao serviço e eles a comer e a beber. Até que cheguei aos 22 ou 23 anos, di-go-lhes aqui assim:

‘ó rapazes, isto não tem sentido nenhum, agora passa a ser de doutra maneira; em havendo aqui uma pân-dega de vinho, um dia eu, outro dia tu e outro dia o outro’ . Trabalhávamos lá os três. Bom, assim foi. Mas os meus irmãos não tinham sentido para aquilo, eu estava cá sentado:
‘Zé, vai lá a ver que a farinha não vai boa’» (José Ramalho, antigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em
1994-1995).


O ofício de moleiro

«Era um ofício como outro qualquer, conquanto era muito traba-lhoso [e] muito sujo. Tinha que se andar todo o dia carregando sacos de um lado para outro, uns mais pesados, outros mais leves, conforme quanto tinham. Ah, era a vida da gente» (José Rito, an-tigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em 1994-1995).

«No Inverno, não se podia trabalhar nos moinhos da Guadiana porque os moinhos estavam debaixo de água […] (O que fazia nessas alturas?) Ia moer para o moinho do Inchado no Lu-cefecit. (O que levava?) Só levava, num carro, numa carroça, de frete, algumas coisas para trabalhar, para poder joeirar os trigos e amanhar... Levava a roupa e uma panela, pronto. Era só quase abrir a porta. Estava tudo preparado. O que pertencia ali ficava lá tudo, cambeiros e isso. Eu ficava lá até que a Guadiana baixasse. Quando o Lucefecit enchia, ali meio dia, esperávamos ali que ela baixasse. A Guadiana levava meses. […] Dormíamos lá dentro do moinho, fazíamos lá o comer e tudo. Estava lá mais um companheiro, estava lá por minha conta, eu pagava-lhe dinheiro [de jornas] e dava-lhe de comer» (Venâncio Silva, antigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em 1994-1995).

Era necessária carta profissional para ser Moleiro?

Quando foi perguntado se para exercer o ofício de moleiro era preciso ter carta profissional ou de examinação, Venâncio Silva, antigo moleiro de Montes Juntos, declarou numa conversa informal junto à lareira da sua casa em 1997-1998:
: «Não, não havia lá cartas nenhumas. Era aquele que era capaz, fazia e pronto. Eu senti-me capaz com 17 anos, tomei conta daquilo tudo [o Moinho da Moinhola]».


Os fregueses dos Moinhos podiam ser de localidades muito distantes, havia a presença de fregueses do Redondo e de terras mais distantes nos Moinhos do Bolas e da Moinhola, perto de Montes Juntos.

Havia lavradores que recrutavam moleiros a troco das chamadas «comedorias», inclusive quando os moinhos moíam apenas cereais da respetiva casa de lavoura, o que chegou a suceder, por exemplo, no Moinho do Gato! As comedorias eram o vencimento quinzenal ou mensal dos trabalhadores concertados, isto é, dos trabalhadores rurais que eram anualmente contratados pelas casas de lavoura

– como os carreiros, os guardas das herdades, os feitores, os maiorais do gado, os pastores e os moleiros – a troco de géneros: trigo, azeite, grão, morcela, toucinho, vencimento esse que era complementado pelo designado «ensacado», vencido no fim do ano de trabalho, que normalmente coincidia com o dia de Santa Maria, 15 de agosto.


Com as publicações sobre os Moinhos do Rio Guadiana nas terras de Capelins, é intenção dos Amigos de Capelins, prestarem uma singela homenagem aos homens e mulheres que se dedicaram a esse ofício de "Moleiro" e, a ele ligados, mas foi graças aos seus testemunhos e à publicação do Livro de Luís Silva "Os Moinhos e os Moleiros do Rio Guadiana" que conhecemos e demos a conhecer algumas coisas sobre a referida atividade! Bem hajam! 

Moinho das Bolas











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