segunda-feira, 19 de novembro de 2018

461 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do sonho do moleiro do Moinho da Cinza, com um tesouro na Serra da Sina 

O ano de 1880, ficou registado como o mais seco de que há memória,  nas terras de Capelins, secaram as nascentes, as Ribeiras do Lucefécit e do Azevel e, no rio Guadiana foram poucos os pegos que não ficaram sem água. As searas produziram pouco e, para agravar a situação surgiu uma praga de gafanhotos que atravessaram a Espanha, vindos de Marrocos e quase dizimaram o que restava. 
As fracas colheitas, o rio Guadiana quase seco, logo os seus moinhos não trabalhavam, não moiam, alguns moleiros tiveram de ir fazer outros trabalhos, ou abalaram para outras terras, mas o ti José Maruta que era o moleiro do Moinho da Cinza, teimou em não abandonar a casa do dito moinho, onde morava com a sua mulher a ti Anna Patusca e cinco filhos com idades entre os três e os doze anos, três raparigas e dois rapazes! Como, ainda tinha guardados quatro sacos de farinha, das maquias de antes do verão, fez as contas e, davam amassaduras para fazer pão e papas de farinha torrada, até ao fim do ano, com a ajuda de alguma caça e contrabando de alguns burros para Espanha, decerto que se aguentavam até a situação melhorar! O tempo foi passando, com algumas dificuldades, o ti Maruta, não tinha nada para fazer no Moinho, mas tinha de arranjar a estrada, por onde passavam os fregueses, por isso, passava o tempo por ali, dando voltas e mais voltas à cabeça a tentar encontrar uma maneira de melhorar a vida, mas não descobria o caminho que o conduzisse a uma vida melhor! De tanto pensar, já tinha visões, sonhava acordado, até que, um dia, chamou a ti Anna Patusca para lhe contar o que lhe andava a dar cabo da cabeça: 
Ti Maruta: Oh Anna, tenho de te contar o que me anda a acontecer há  mais de um mês, todas as noites sonho com um tesouro, uma panela cheia de moedas de ouro e de prata, enterrada num sítio lá na serra da sina! 
Ti Anna: Oh homem, cá para mim, andas é doido da cabeça! Tu acreditas nessas conversas que te trazem aí ao Moinho? 
Ti Maruta: Eu não, Anna! Sei que muitas são mentiras, mas há outras, que não sei, não sei!  
Ti Anna: Oh José Maruta, há por aí muitos mentirosos, quando aqui chegam, já trazem as mentiras preparadas e, depois metem-te essas coisas na cabeça! Em cabeças como a tua! Eu, não acredito nesses sonhos de tesouros enterrados por aí!  
Ti Maruta: Cala-te mulher! Não se pode falar contigo, és sempre do contra! Eu sei que ali para os lados de Monsaraz, de Montoito, de Elvas e, outros sítios, têm achado muitos tesouros e, quem os achou, antes sonhou com eles! Por isso, quem te disse a ti, que o meu sonho não é desses?  
Ti Anna: Ninguém me disse! Mas como já te disse, eu não acredito nesses sonhos! Tu faz o que quiseres, vai lá ver do teu tesouro à serra da sina! 
Ti Maruta: Hoje ainda não vou, mas se continuar a sonhar com ele, podes crer que vou!  
Ti Anna: Tu lá sabes! Mas para andares fazendo essa figura, o melhor é agarrares o caminho para lá e logo te desmaginas!  
Ti Maruta: Acabou a conversa, mulher! Não se pode falar contigo! Já disse que vou, e vou! 
O ti José Maruta, passou por ali o resto do dia arranjando o caminho e a andar de um lado para o outro, a pensar como fazia para desenterrar o tesouro e trazê-lo para casa no Moinho da Cinza e, assim, se passou o dia! À noite, assim que cearam (jantaram) deitaram-se logo, o ti Maruta adormeceu e, começou logo a sonhar com o tesouro, foi a noite toda, de madrugada acordou, levantou-se e subiu o rio Guadiana para desanuviar a cabeça! Ao nascer do sol, entrou em casa, já a ti Anna estava acabando de fazer as migas para o almoço (pequeno almoço), o ti José Maruta sentou-se à mesa, comeu as migas, sem dizer uma palavra! 
A ti Anna notou logo que, ele não estava bom e iniciou a conversa:
Ti Anna: Então, José Maruta, o que tens hoje? Já vi que não estás bom! Foi o sonho, não?
Ti Maruta: Não tenho nada! O que queres que eu tenha? 
Ti Anna: Não quero que tenhas nada, já vi tudo! É o raio desse sonho do tesouro que anda a dar cabo de ti, homem! 
Ti Maruta: Não sei, se é o sonho, se não é, só sei que ele não me larga! Esta noite, foi a noite toda a sonhar com o tesouro! O que faço eu à minha vida, Anna? 
Ti Anna: Oh homem, se isso te anda a moer, tens bom remédio, agarra na burra e vai lá à serra da sina a ver do tesouro! 
Ti Maruta: Então, e é só ir buscá-lo, não? Não te disse que está enterrado? 
Ti Anna. Então e o queres fazer? Olha, leva a enxada, desenterra-o e trá-lo para casa! 
Ti Maruta: Tu estás é a desconversar, Anna, mas isto é um caso sério! Se esta noite continuar a ter o sonho, então, não tenho outro remédio, senão ir de madrugada a ver dele! 
Ti Anna: Vai, sim vai, José Maruta, pelo menos a ver se te desmaginas, senão ainda dás em doido, se é que não estás já, homem! Prepara a enxada a pá e uma saca de serapilheira para o trazeres, vai bem cedo para ninguém te ver nessa figura, senão ainda fazem pouco de ti! 
O ti José Maruta, nem a ouvia, só pensava no tesouro! Andou arranjando o caminho e vagueando pela Cinza, sempre pensando no que havia de fazer à sua vida e planos para depois de trazer o tesouro! 
Após a ceia (jantar), foi deitar-se na tarimba e assim que adormeceu o sonho entrou em ação, mostrava-lhe o tesouro sempre no mesmo sitio, não podia haver engano! De madrugada, o ti Maruta levantou-se, comeu um bocado de pão com toucinho, albardou a burra, pegou na enxada, numa pá, num saco de serapilheira e partiu para a serra da sina! Como conhecia razoavelmente a dita serra, foi direitinho ao sítio que via no sonho e, começou logo a cavar,  mas a enxada batia na terra e saltava, porque a mesma era de barro vermelho e estava tão dura que parecia cavar em cima de pedras, mas a vontade de chegar ao tesouro era tanta que, com muito esforço foi cavando, cavando, sem aparecer nada! Então, começou a pensar que, podia estar enganado no sítio, porque aquela parte da serra da sina era toda igual e, começou a ficar desorientado! Olhou, olhou e mudou-se para outro lado, cavou, cavou e nada! Já de cabeça perdida e a cair de cansaço, tornou a mudar de lugar, fazendo isso várias vezes! Estava tão cansado e já tonto que nem viu chegar o feitor da herdade da Sina junto dele, que lhe gritou: 
Feitor: Oh homem, o que anda vocemecê fazendo aqui? 
Ti Maruta: Eu? Eu, nada! 
Feitor: Nada como? Então, vocemecê tem aqui a serra toda esfuracada e diz-me que não anda a fazer nada? 
Ti Maruta: Então, quem é que vocemecê é?
Feitor: Eu sou o feitor da herdade! Porquê? 
Ti Maruta: Por nada, por nada, senhor feitor! 
Feitor: Estou à espera que me diga que trabalho é este? Ou tenho de o levar para o Monte e chamar cá a ordenança de Terena? 
Ti Maruta: Oh senhor feitor, eu não quero arranjar fezes! Eu conto-lhe tudo! 
Feitor: Então, é melhor contar, eu estou à espera! 
O ti Maruta, não teve outra remédio, senão, contar tudo ao feitor, que o ouviu com muita atenção, sem troçar dele, parecia acreditar em tudo o que estava a ouvir e. só depois do ti Maruta acabar se pronunciou: 
Feitor: Vocemecê é o Moleiro do Moinho da Cinza, o ti Maruta, não é? 
Ti Maruta: Sou, sim, senhor feitor, mas por favor não conte isto a ninguém, senão ainda vão fazer para aí pouco de mim! 
Feitor: Fique descansado, dou-lhe a minha palavra de honra que de mim, ninguém vai saber de nada! Mas, agora diga-me lá, vocemecê acredita nesses sonhos com tesouros enterrados aqui ou ali? 
Ti Maruta: Ora! Tenho ouvido contar tanta coisa lá no Moinho! A gente, não pode acreditar em tudo o que ouve, mas sabemos que os antigos tinham de enterrar o dinheiro e o ouro para não o roubarem e ficaram por aí muitos tesouros! 
Feitor: Sim, acredito que os antigos tinham de enterrar alguns haveres para não serem roubados! Eu refiro-me à parte dos sonhos! Eu não acredito nisso! Olhe, vou contar-lhe uma coisa que nunca contei a ninguém! Sabe que também já estive de cabeça quase perdida por causa de um sonho desses? Começou lá na minha terra em S. Miguel do Adaval, ainda eu era gaiato! 
Ti Maruta: Ah sim? Não está a fazer pouco de mim? 
Feitor: Qual pouco, não ti Maruta, é a verdade! Eu conto-lhe como era esse meu sonho, via sempre o mesmo outeiro, muito alto na margem do rio Guadiana, lá em cima tinha os restos de um pequeno castelo e, o meu tesouro estava dentro desse outeiro, entrava num buraco do lado do rio a seguir estavam umas paredes em pedra, no lado esquerdo estava uma casa com uma grande lage e debaixo dela, estava o tesouro dentro de um saco de couro e sabe o que era esse tesouro? 
Ti Maruta: Não sei, não, senhor feitor, algumas moedas de ouro? 
Feitor: Não, ti Maruta! Eram quatro barras de ouro! Ainda andei convencido que podia ser verdade! Mas, olhe, ainda bem que me curei e deixei de sonhar com o tesouro, porque isso são coisas criadas pelas nossas cabeças, de tanto pensarmos nelas convencemo-nos que são verdade! Veja lá se não foi o que aconteceu consigo? Vá para casa ti Maruta e descanse a sua cabeça! Passe bem, tenho de ir até ao Monte, estão à minha espera para o jantar (almoço)! 
Ti Maruta: Passe bem, senhor feitor! 
O ti Maruta ainda ficou algum tempo sentado no chão e até chorou, com pena dele prórpio, depois levantou-se e montado na sua burra voltou à sua casa na Cinza! 
A ti Anna Patusca assistiu à sua chegada e, pela cara dele, viu logo que a viagem não tinha corrido bem, ia para lhe perguntar pelo tesouro, mas não o fez com receio de ouvir o que não queria! Estava na hora do jantar (almoço), ela pôs a mesa, o ti Maruta migou as sopas de pão para dentro do barrenhão sem dizer nada, comeram as sopas de grãos e logo a seguir o ti Maruta deitou-se e dormiu quase toda a tarde, quando acordou, ficou surpreendido, porque pela primeira vez desde há vários meses, não tinha sonhado com o tesouro da serra da sina e nem parecia o mesmo, começou a falar com a ti Anna com boa disposição, como se não se tivesse passado nada, até deu para a ti Anna desconfiar se ele não teria achado alguma coisa, mas não, já tinha visto o saco vazio!  Nos dias seguintes, o ti Maruta começou a trabalhar como jornaleiro na herdade da Defesa de Bobadela e, naquela casa, nunca mais se ouviu falar do tesouro da serra da sina, até que um dia o ti Maruta estava tão bem disposto que puxou a conversa:
Ti Maruta: Oh Anna, então nunca mais me falaste do tesouro da serra da sina, nem do meu sonho, porquê? 
Ti Anna: Eu? Deus me livre! Cruzes! Ainda bem que estás curado! Eu até já tinha uma promessa a Nossa Senhora das Neves! tenho de a ir pagar!
Ti Maruta: Ah pois! Se fizeste alguma promessa tens de a pagar! Isso é uma coisa muito séria! Estou curado, mulher, lá isso estou! Mas eu vou-te contar o que me aconteceu naquele dia que fui lá à serra da sina a ver do tesouro! 
Ti Anna: Eu ficava melhor se não me contasses nada! Mas está bem, como isso já passou, então, conta lá! 
O ti Maruta, com calma, contou à ti Anna Patusca, o que lhe tinha acontecido naquele dia, que se ia matando a cavar a terra muito dura e a conversa com o feitor da herdade da sina que, o tinha apanhado em flagrante a esfuracar a dita serra e por pouco era preso pelas ordenanças de Terena! 
Ti Anna: Ai valha-me Deus, homem! O que tu ias arranjando com essa maldita doença! 
A ti Anna ficou abismada com o que o ti Maruta lhe contou, principalmente, sobre a parte do sonho do feitor com o tesouro dentro de um outeiro muito alto dentro do rio Guadiana e, logo identificou que era o outeiro do Pombo, ali por cima deles e não se conteve: 
Ti Anna: Oh José Maruta, tu sabes que esse sítio é aqui mesmo ao pé da gente! 
Ti Maruta: Então, mulher, o que é que isso quer dizer? Não me digas que agora já acreditas nos sonhos com tesouros? 
Ti Anna: Eu, não, não José! Mas um dia que tivessemos vagar passavamos por ali, nem é preciso cavar, nem nada, é só ver se está lá a lage e depois tirar o tesouro! Sim, se ele lá estiver! 
Ti Maruta: Mau, mau Anna Patusca! Assim, não te percebo, não acreditas nos sonhos com tesouros e agora queres ir ver do tesouro do feitor? 
Ti Anna: Oh José, já te disse que não acredito, mas não perdemos nada, é aqui mesmo ao pé da gente! 
Ti Maruta: Está bem, mulher, fica descansada que um dia vamos lá, já lá fomos a dentro do outeiro tantas vezes, mais uma, não faz mal nenhum! Um dia vamos lá!
Depois daquela conversa, a vida dos Marutas, continuou a decorrer normalmente, com as dificuldades existentes nesses tempos! Quando o rio Guadiana tomou água, o Moinho da Cinza começou a moer e, só parou alguns dias em pleno inverno, quando o rio ganhou grandes cheias, que submergiram o Moinho, mas na Primavera de 1881 já estava cheio de sacos de cereais para moer, porém, nos finais do mês de Maio, com grande surpresa dos fregueses e conhecidos, de um dia para o outro, os Maruta desapareceram da Cinza, mas disseram a alguns fregueses e ganadeiros que por ali guardavam gado, que se iam embora para a terra da família, na Serra da Estrela, porque tinham herdado lá umas courelas e iam tratra delas! Uma coisa tão normal, que todos acreditaram ser verdade.
Passados cerca de cinco anos, os Maruta começaram a aparecer nas feiras da região a comprar e vender grandes rebanhos de gado, bem apresentados, trajados à grandes lavradores, causando grande surpresa a quem os conhecia que, começaram logo a indagar junto de outros amigos lavradores que os conheciam, como é que eles tinham chegado aquele estado? Mas ninguém conseguia adiantar grande coisa, apenas que, eram os donos de duas grandes herdades na Freguesia de Ventosa, em Elvas! A notícia foi-se espalhando pelas terras de Capelins e, quem os conhecia e sabia das dificuldades que passavam na Cinza, não acreditavam, nem encontravam explicação plausível para aquela situação! Toda a gente perguntava: Como é que eles tinham chegado a lavradores? E davam a sua opinião, mas os que sabiam da herança lá na Serra da Estrêla diziam que, talvez ela tivesse sido maior do que eles pensavam, depois venderam tudo e vieram comprar as herdades na Ventosa, era o mais certo e, assim ficou certo! Alguns conhecidos, quando os encontravam nas feiras, não se continham em lhe perguntar como tinham conseguido comprar as herdades? Foi com a herança? Eles respondiam que sim, foi a herança, mas também foi, porque acreditámos nos sonhos! Ninguém percebia o que tinha a ver os sonhos com aquela fortuna, mas os Maruta repetiam, o mesmo:  "Acreditámos nos sonhos"! 
O feitor da herdade da Sina, não acreditou nos sonhos, por isso, lá ficou em feitor, até ao fim da sua vida, acabou por contar a algumas pessoas o que tinha falado com o ti Maruta, naquele dia na serra da sina, mas ninguém associou a fortuna dos Maruta ao tesouro do outeiro do Pombo e nem o feitor se apercebeu que o seu sonho com aquele tesouro era verdadeiro.
Sabemos de fonte segura que, o tesouro da serra da Sina, uma panela cheia de moedas, o mesmo que aparecia no sonho do ti Maruta, foi encontrado na década de 1950, no lugar que ele via no sonho, quando alguns jornaleiros, lavravam aquelas terras, por isso, o sonho estava certo, o ti Maruta é que perdeu a orientação. 
É caso para dizer: "Devemos acreditar nos nossos sonhos e, não perder a orientação". 

Fim 




segunda-feira, 12 de novembro de 2018


460 - Terras de Capelins 

Os Moinhos do rio Guadiana nas Terras de Capelins 

Em Montes Juntos, aldeia que serviu de residência a diversos moleiros, os moinhos do Guadiana são o motivo central de um memorial erguido junto ao antigo posto da Guarda Fiscal, mas também de quadras feitas por residentes recentemente colocadas nas paredes do casario em redor do edifício.



Azenhas D' El-Rei

A Azenha dEl Rei de fora teve um aferido com uma cobertura temporária, de mato, que, no século XX, foi substituída por uma cobertura de cimento.
Já a Azenha d’El Rei de dentro dispunha de uma abertura ou janela na sua parede divisória interior, correspon-dente à linha de fronteira entre Portugal e Espanha, que, segundo um antigo moleiro de Cabeça de Carneiro, José Glórias, foi encerrada por ocasião da Guerra Civil de Espanha (1936-1939).



Os acarretadores dos Moinhos 

Alguns moinhos do Guadiana tinham acarretadores e até mais de um, da casa, mas outros não tinham, na medida em que, como disse um antigo moleiro de Montes Juntos, Venâncio Silva, no contexto de uma conversa informal em 1997-1998, «a maioria [dos moleiros] não tinham carroças» ou qualquer outro meio de transporte de cargas de certo volume.



As guias no Posto da Guarda Fiscal de Montejuntos 

Os fregueses dos Moinhos das terras de Capelins, eram obrigados a fazer-se acompanhar de uma guia de transporte emitida pela Guarda Fiscal, de modo a que o transporta-do não fosse considerado contrabando. Da mesma maneira que os moleiros tinham que declarar às autoridades aduaneiras as existências – animais e bens – que possuíam junto ao moinho:
«Cinco quilómetros desviado da Guadiana para lá não se podia ter nada sem uma guia do posto da Guarda Fiscal. Fossem gali-nhas ou porcos. À saída, tinha que se vir dar baixa; se morresse algum animal, tinha que vir dar baixa. Era uma guia passada ali no posto de Montes Juntos. Mesmo esses que andavam carre-gando para lá, os maquilões, tinham que ir ao posto tirar uma guia. Até 300 quilos, pagavam-se 15 tostões; em passando os 300 quilos, eram
25 tostões. Houve um homem que levava 400 quilos e foi ao posto e disse que só levava 250; mas um guarda desconfiou e foi lá ao carro, fê-lo pesar. Mamou 500 mil reis de multa porque levava mais. Esse homem era de Ferreira [de Ca-pelins]. Isso há já quase 50 anos. Quinhentos mil reis que pagou e depois teve que levar a guia. Ele ia com a parelha do pai, ia para os Moinhos Novos de Cima» (José Glórias, antigo moleiro de Cabeça de Carneiro, entrevistado em 1994-1995.



Apesar do isolamento, os moinhos eram importantes locais de convergência, sendo usual o facto de neles ou nas suas imediações se encontrarem pessoas, incluindo fregueses, lavadeiras, pastores, maiorais de gado, pescadores e, nalgumas zonas, mendigos, sobretudo no Verão:

«A Guadiana, naquele tempo, andava muito mais acompanhada que anda hoje. Uma grande diferença. Hoje, se lá for, é raro encontrar uma pessoa e antes era a todo passo. Em todo o sítio aparecia família. Desconfio até que os maiorais diminuíram. Chegava-se ali a El Rei [ao moinho], em meu tempo, em vindo o Verão, estava sempre povoado de família. Ali no Bolas e na Cinza [era] igual. Ou família de maiorais ou mulheres de maiorais, a família que ia para ali a lavar [a roupa] ou a arranjar uma coisa de moitas ou buinho ou junça. Em vindo o Verão, havia sempre gente. (E do lado de Espanha também) Também havia quem fizesse isso, mas era menos; só ali à do Pijin [pescador de Cheles]. Havia muitos daqui que iam para lá só para ver banhar as espanholas, elas sabiam banhar bem» (Venâncio Silva, antigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em 1994--1995»). 


Durante e após a Guerra Civil de Espanha, parte destes moinhos foram ainda muito procurados por habitantes do outro lado da fronteira luso-espanhola para aquisição, não só de farinha, mas também de outros géneros alimentares que os moleiros tinham em depósito junto ao rio, como café, açúcar e arroz, e que podiam vender desde que tivessem o respetivo despacho emitido pela Guarda Fiscal. Nas palavras de um antigo moleiro de Montes Juntos, Venâncio Silva, proferidas numa conversa informal em 1997-1998:

«Os moinhos trabalhavam ali todos. Eu, na Moinhola, tinha lá sempre três mós a moer dia e noite; tinha alturas de nem ir à cama. E havia ali uma convivência muito grande com os espanhóis. Quando foi lá da miséria deles por causa da guerra, quem lhe valeu foi a gente. Vinham ali aqueles espanhóis e aquelas espanholas a comprar farinha, açúcar, café, arroz… bom, os artigos que a gente lá tinha no depósito; fazíamos um despacho e já podíamos vender aos espanhóis e eles vinham ali comprar».


Segundo Maria Olímpia da Rocha Gil (1965:184), em finais do século XV e durante o século XVI, havia moinhos dependentes da Coroa em diversos concelhos do Alentejo, nomeadamente, Alcácer do Sal, Monsaraz, Terena. 

Como já era do nosso conhecimento os Moinhos das Azenhas D' El-Rei em 1600 e parte de 1700 eram da Coroa, do Rei, mas nos finais de 1700 já os encontramos em mãos de particulares, porque, quando o Rei estava crivado de dívidas, tinha de vender estes bens.


Como já referimos, o nome dos Moinhos têm a ver com o nome dos seus proprietários, fosse em nome individual, fosse de uma Instituição, como a Misericórida, Ordem, Almoxarifado ou outros, veja-se estes, que não ficam nas terras de Capelins, mas vizinhos:
"O Moinho do Boi no Guadiana deverá o seu nome a Maximiano Gonçalves Boy, lavrador do termo de Monsaraz e tesoureiro do fisco real em 1738, que teria tomado o moinho por aforamento à Casa de Bragança, que, segundo apurámos, também era proprietária dos moinhos do Meirinho.


Tal como o Moinho do Bufo, foi do Lavrador de Santa Luzia senhor Bufo que morava no Alandroal.

Veja o que conta o ti José Glórias, Moleiro, da Aldeia de Cabeça de Carneiro: 
Houve casos em que o aproveitamento das águas do Guadiana durante o estio foi objeto de discórdia, como sucedeu entre o dono do Moinho Novo de Cima e o dono do Moinho Novo de Baixo no século XIX.:
«[Os donos] andaram em demanda e aquele de Baixo é que se matou pelas mãos dele. Porque o de Cima tem três aferidos e o de Baixo tem dois e, então, devia dar dois dias de água ao de Baixo e três ao de Cima. O juiz procurou qual a fazenda que tinha mais valor, lá lhe disse que era o de Cima e, então, deu 18 horas para o de Cima e 6 horas para o de Baixo, três dias para o de Cima e um para o de Baixo. Era na falta de água, o de Cima moía três dias e o de Baixo só um, foi decretado pelo tribunal. Isso não foi no meu tempo, foi no tempo de meus avós» (José Glórias, antigo moleiro de Cabeça de Carneiro, entrevistado em 1994-1995).


Como já tinhamos referido, devido à falta de água no Rio Guadiana o Moinho das Azenhas D' El-Rei de fora tinha um motor a diesel para poder moer durante o verão! 

"Mais recentemente, em meados do século XX
, para obviar à falta de água no Guadiana, alguns moinhos foram equipados com um motor de explosão adaptado a um casal de mós, como ocorreu no Moinho das Azenhas D' El-Rei e outros. Em alguns casos, como nos Moinhos do Caneiro e nas Azenhas de Fagundes, para não permanecerem inativos durante as invernadas, esse mesmo motor (a diesel) foi posteriormente colocado junto à casa do moleiro, situada a meia chapada, mimetizando aquilo que havia sido feito de início na Azenha d’El Rei de fora." 

Alguns proprietários dos Moinhos do rio Guadiana nas terras de Capelins 

- O proprietários do Moinho de Miguéns foi Francisco Martins Malato, nascido em São Marcos do Campo e residente no Outeiro, Monsaraz, que o herdou do sogro.
- José Glórias, antigo moleiro de Cabeça de Carneiro que adquiriu o Moinho do Bolas na década de 1950. 
- Domingos Pinto, antigo moleiro de Monsaraz, cujo pai, também moleiro, possuía o Moinho de Calvinos. 
- José Pires Gonçalves (1961-1962) faz saber que o Moinho do Gato «tomou o nome de Pedro Gato, almoxarife em Monsaraz, que, por morte do enfiteuta Manuel Fernandes, falecido sem herdeiros e crivado de dívidas, o tomou por aforamento de 2.500 reis anuais em 18 de Dezembro de
1715.


«Vinha o freguês e perguntava de caldeiradas. O Manuel, que era o mais velho, ou eu íamos a ver de peixe. Fazíamos uns cevadouros, eh, vinham aquelas tarrafadas cheias de peixe. Fazíamos a caldeirada e, depois, sentávamo-nos de roda de um alguidar grande, um barrenhão, que tínhamos e tudo de roda da mesa. Eu era o mais novo, era sempre o castigado. Eu ficava ao serviço e eles a comer e a beber. Até que cheguei aos 22 ou 23 anos, di-go-lhes aqui assim:

‘ó rapazes, isto não tem sentido nenhum, agora passa a ser de doutra maneira; em havendo aqui uma pân-dega de vinho, um dia eu, outro dia tu e outro dia o outro’ . Trabalhávamos lá os três. Bom, assim foi. Mas os meus irmãos não tinham sentido para aquilo, eu estava cá sentado:
‘Zé, vai lá a ver que a farinha não vai boa’» (José Ramalho, antigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em
1994-1995).


O ofício de moleiro

«Era um ofício como outro qualquer, conquanto era muito traba-lhoso [e] muito sujo. Tinha que se andar todo o dia carregando sacos de um lado para outro, uns mais pesados, outros mais leves, conforme quanto tinham. Ah, era a vida da gente» (José Rito, an-tigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em 1994-1995).

«No Inverno, não se podia trabalhar nos moinhos da Guadiana porque os moinhos estavam debaixo de água […] (O que fazia nessas alturas?) Ia moer para o moinho do Inchado no Lu-cefecit. (O que levava?) Só levava, num carro, numa carroça, de frete, algumas coisas para trabalhar, para poder joeirar os trigos e amanhar... Levava a roupa e uma panela, pronto. Era só quase abrir a porta. Estava tudo preparado. O que pertencia ali ficava lá tudo, cambeiros e isso. Eu ficava lá até que a Guadiana baixasse. Quando o Lucefecit enchia, ali meio dia, esperávamos ali que ela baixasse. A Guadiana levava meses. […] Dormíamos lá dentro do moinho, fazíamos lá o comer e tudo. Estava lá mais um companheiro, estava lá por minha conta, eu pagava-lhe dinheiro [de jornas] e dava-lhe de comer» (Venâncio Silva, antigo moleiro de Montes Juntos, entrevistado em 1994-1995).

Era necessária carta profissional para ser Moleiro?

Quando foi perguntado se para exercer o ofício de moleiro era preciso ter carta profissional ou de examinação, Venâncio Silva, antigo moleiro de Montes Juntos, declarou numa conversa informal junto à lareira da sua casa em 1997-1998:
: «Não, não havia lá cartas nenhumas. Era aquele que era capaz, fazia e pronto. Eu senti-me capaz com 17 anos, tomei conta daquilo tudo [o Moinho da Moinhola]».


Os fregueses dos Moinhos podiam ser de localidades muito distantes, havia a presença de fregueses do Redondo e de terras mais distantes nos Moinhos do Bolas e da Moinhola, perto de Montes Juntos.

Havia lavradores que recrutavam moleiros a troco das chamadas «comedorias», inclusive quando os moinhos moíam apenas cereais da respetiva casa de lavoura, o que chegou a suceder, por exemplo, no Moinho do Gato! As comedorias eram o vencimento quinzenal ou mensal dos trabalhadores concertados, isto é, dos trabalhadores rurais que eram anualmente contratados pelas casas de lavoura

– como os carreiros, os guardas das herdades, os feitores, os maiorais do gado, os pastores e os moleiros – a troco de géneros: trigo, azeite, grão, morcela, toucinho, vencimento esse que era complementado pelo designado «ensacado», vencido no fim do ano de trabalho, que normalmente coincidia com o dia de Santa Maria, 15 de agosto.


Com as publicações sobre os Moinhos do Rio Guadiana nas terras de Capelins, é intenção dos Amigos de Capelins, prestarem uma singela homenagem aos homens e mulheres que se dedicaram a esse ofício de "Moleiro" e, a ele ligados, mas foi graças aos seus testemunhos e à publicação do Livro de Luís Silva "Os Moinhos e os Moleiros do Rio Guadiana" que conhecemos e demos a conhecer algumas coisas sobre a referida atividade! Bem hajam! 

Moinho das Bolas











sábado, 10 de novembro de 2018

459 - Terras de Capelins 
História de Capelins e da Villa de Terena 
Os Almoxarifes e o Almoxarifado do Concelho de Terena 1325 
Entre outros Almoxarifes do Termo (Concelho) de Terena surgem Rodrigo Eanes e Afonso Martins. Em 1341, numa carta de arrematação feita ao Rei, não só obtemos informação sobre o então Almoxarife Rodrigo Eanes, mas também sobre os anteriores Almoxarifes de Terena, Estevão Domingues Panóias e João Anes. A carta apresenta-nos uma situação de licitação de bens organizada por Martim Domingues, sacador das dívidas do Rei, e por Afonso Corda, pregoeiro do Concelho, em que, feitas as arrematações por Martim Domingues, este devia entregá-los a Rodrigo Eanes. Em 1342, D. Afonso IV recebe conto e recado de Afonso Martins, Almoxarife de Terena entre 1 de Março de 1340 e 26 de Fevereiro de 1341. O monarca, tendo considerado que ele lhe deu "boom Conto e boom Recado de todo Assy como per partes he conteúdo en hua sa racadaçom, após o seu registo nos Contos e a sua escrituração no liuro (livro) que chamam terceiro d além Teio (Tejo ), deu-o por livre e quite, bem como an seus sucessores, para sempre". 

Foi assim que ficamos a saber quem foram ao Almoxarifes do Concelho de Terena durante o reinado de D. Afonso IV, assim como, a existenência do dito Almoxarifado. 
Está registado no terceiro livro d' Além Tejo - Chancelaria de D. Afonso IV. Arquivo Nacional da Torre do Tombo.


Almoxarifado era o "Serviço de Finanças do Reino"
Um almoxarifado era uma divisão administrativa fiscal, geralmente extensa, existente em Portugal na Idade Média. A maior parte dos almoxarifados tinham a sua sede numa cidade importante, como era o caso de Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Guimarães, etc., e todos estavam a cargo de um almoxarife, o qual era um funcionário real que era responsável pela cobrança e arrecadação de impostos.
Ao consultarmos o mapa dos Almoxarifados verificamos que, não existiam muitos no Reino, é por isso muito estranho, ter sido criado por D. Afonso IV um Almoxarifado na Villa de Terena, cerca de 1325! Segredos do nosso Concelho!
Carta de Criação de Almoxarifado - D. Afonso IV 


terça-feira, 6 de novembro de 2018

458 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do baile do diabo no Monte da herdade do Carrão

 O Monte da herdade do Carrão situava-se entre os atuais Montes do Carrão e o Monte do Roncão, no outeiro à esquerda, antes de chegar ao Monte do Ladrilho e, ao Ribeiro do Carrão, do qual, já não existe nenhum vestígio, mas sabemos o lugar exato, onde o mesmo estava erigido. 
No dito Monte, no ano de 1697,  morava o lavrador Manoel Roíz (Rodrigues) e sua Família, constituída pela mãe, Ti Apelónia Gliz (Gonçalves), a esposa Ti Maria Josefa, seis filhas e dois filhos, com idades entre os 10 e os 29 anos de idade. 
Como as filhas estavam todas em idade de casar e, ainda nenhuma namorava, a situação estava a tornar-se preocupante para os lavradores, até que, um dia o lavrador não se conteve mais e encetou uma conversa com a lavradora:
Lavrador: Oh mulher, já há algum tempo que ando cismando com uma coisa, tem a ver com as nossas filhas! Já têm a idade que têm e, não vejo rapazes interessados nelas! Não tens visto por aqui nenhum galhavano, filho de algum lavrador da região, claro, a arrastar-lhe a asa? 
Lavradora: Eh Manoel, até parece que adivinhaste que eu queria falar isso contigo! Pois, não sei o que isto me parece! Não, não vejo nenhum rapaz interessado nas nossas filhas, umas raparigas tão bonitas, sabem fazer tudo! Ninguém tem nada a apontar-lhe e, depois, uma coisa destas!
Lavrador: Pois é, Maria! Não é que a gente tenha pressa em as casar, mas as coisas são como são, quase todas as raparigas da idade delas, ou namoram, ou já casaram, não sei, não sei o que diga! 
Lavradora: Eu também não sei, mas tenho pensado muito nisso e não encontro explicação, mas parece-me cá a mim, que tem a ver, por elas aparecerem pouco e, como sabes, quem não aparece esquece! Há por aí muitas raparigas, logo, algumas vão ficando esquecidas e ficam solteironas! 
Lavrador: Oh Maria, então querias pôr as nossas filhas à amostra aonde? Aí à roda da estrada para os rapazes as verem? Não entendo essa tua ideia! 
Lavradora: Não, Manoel! O que eu quero dizer é que as nossas filhas saem pouco aqui do Monte, raramente vão às festas a Terena, Alandroal, Elvas, Montoito, Monsaraz, como vão as outras, por isso, aparecem pouco nos lugares onde vão os rapazes e raparigas filhos dos outros lavradores da região! 
Lavrador: Cala-te mulher! Então, assim não faziamos mais nada, senão andar a mostrá-las pelas festas, os rapazes sabem onde elas estão! 
Lavradora: Então, se não queres levar as nossas filhas às festas, como a outra gente, eu achava que, quando o trabalho estiver mais desafogado aqui na herdade, podíamos fazer um baile aqui no Monte e convidavamos os outros lavradores para trazerem os filhos e filhas! É assim que alguns estão a fazer! 
Parte 2 de 5
Lavrador: Eh mulher, não gosto nada disso, até parece que estamos desesperados a oferecer as nossas filhas, mas de verdade não estou a ver outra alternativa! E como é que fazíamos isso do baile?
Lavradora: Oh Manoel, fazemos como os outros! Se tu deixares fazer o baile aqui no Monte, eu e as nossas filhas tratamos de tudo, só precisamos das tuas ordem! 
Lavrador: O que hei-de fazer? Está bem, Maria! Sendo assim, as ordens estão dadas, mas muito tino nas cabeças! Já sabes que não quero falatório! Tomem muita atenção ao que vão fazer! 
Lavradora: Fica descansado, homem! Vamos fazer tudo igual à outra gente!
A lavradora foi a correr contar às filhas que, o pai tinha dado ordem para fazerem um baile para convidados ali no Monte, quando elas quisessem! As raparigas nem queriam acreditar, ficaram muito entusiasmadas e, começaram logo a ditar ideias sobre a preparação, quem convidavam, quem tocava e cantava no baile, a roupa que tinham de fazer, os penteados, os bolos, as bebidas que deviam ser, vinho, aguardente, licores e chá, era isso que as outras raparigas faziam para receber os convidados dos seus bailes, por isso, tinha de ser tudo igual!  
Os preparativos começaram ainda nesse dia, não podia falhar nada, porque a sua vida amorosa podia depender desse baile! 
Como o pai deu ordens para fazerem igual aos outros lavradores, ou ainda melhor, decidiram contratar a Lolita e seus muchachos, uma espanholita amigada com um português de Monsaraz e, com os filhos, andavam de Monte em Monte das herdade a abrilhantar os bailes, tocavam, cantavam e dançavam, eram do melhor que existia na região! 
O grande baile foi marcado para sábado dia 02 de Maio de 1699 e, começou, imediatamente a ser o principal tema das conversas nas terras de Capelins, diziam que era um acontecimento como nunca por ali se tinha assistido! 
Chegou o dia do baile e, no Monte do Carrão verificava-se um movimento anormal, as raparigas e, as criadas, andavam todas num virote para não faltar nada e não dar motivo a conversas maldosas! 
Ao cair da noite, começaram a chegar os convidados que, eram recebidos pelos lavradores, pelos filhos e filhas, todos muito bem apresentados! Os convidados já vinham ceados, (jantados) mas as mesas estavam cheias de comida e bebidas, enchendo o olho aos que iam chegando! 
Como a Lotlita já estava tocando e cantando, um pouco tímidos, os que se conheciam melhor e seus familiares começaram a dançar! As anfitriãs estavam a ficar para trás, porque os rapazes pensavam que elas não sabiam dançar, mas estavam muito enganados, elas tinham treinado com boas mestras, antes do baile! Os pais dos rapazes convidados, ao notarem que os filhos não estavam a dar atenção às filhas do lavrador, apressaram-se a fazer-lhe sinal para as pedirem para dançar e, pouco depois, já andavam todas a dançar! 
Com grande surpresa dos presentes, as raparigas dançavam tão bem, que nem as afamadas dançantes das terras de Capelins, as conseguiam acompanhar. 
O baile estava muito animado, porque com a Lolita era mesmo assim, repentinamente, ouviram-se três pancadas na porta, tão fortes que a mesma, quase saltava dos cachimbos, assustando os que se encontravam mais próximos dela! Os lavradores pensaram que, eram alguns convidados que vinham atrasados e tinham batido com tanta força para as pancadas se ouvirem além da música, mas ao mesmo tempo, ficaram apreensivos, porque pelas suas contas já ali estavam os convidados todos, no entanto, foram abrir a porta, levaram uma candeia nas mãos para dar luz e depararam-se com um rapaz alto, magro, bem vestido, de fato claro de bom corte e, com um chapéu dos que só eram usados por fidalgos da Corte! O rapaz pediu muita desculpa pela sua presença ali e, apresentou-se como sendo da família Freire de Andrade, sobrinho dos anteriores senhores da Vila de Ferreira! Contou que vinha da Vila de  Mourão e dirigia-se para Olivença, pensava ir dormir ao Monte do Aguilhão, por ser de pessoas amigas da família e logo cedo, passava o rio Guadiana na ponte da Ajuda e chegaria ao destino ainda na parte da manhã, onde o esperavam para tratar de negócios, mas ao passar por ali, ouviu a musica e como gostava muito de dançar não se conteve sem vir pedir se o deixavam dar um pézinho de dança! 
O lavrador olhou para ele e pensou que tinha um fidalgo na sua frente, como a conversa era bem consertada, disse-lhe que, não era nenhum baile da Corte, mas que a sua humilde casa estava à sua ordem, podia entrar, era seu convidado! 
Quando o estranho entrou no baile as raparigas começaram todas a cochichar, porque pensaram que o desconhecido era mesmo um fidalgo! A musica da Lolita e seus muchachos continuava animada, o estranho, assim que fizeram intervalo para trocar pares, não perdeu tempo e foi logo pedir a uma das filhas do lavrador para dançar e, não demorou nada a darem nas vistas, aquilo não era dançar, era levitar, a seguir foi dançando com todas, uma a uma, sempre igual, estava toda a gente abismada, enfeitiçada, com aquele espetáculo, por toda a casa ouviam-se comentários de grande admiração. 
O baile, foi planeado para acabar antes da meia noite, mas com tanta animação, ninguém reparava nas horas e, o mesmo continuou até à meia noite, acabando de forma estranha, o suposto fidalgo desapareceu sem ninguém dar por ele, a porta não se abriu, mas ele ali não estava, os lavradores pensaram que, devido ao entusiasmo, nem tinham dado pela sua saída, mas achavam estranho ele nem se ter despedido, nem agradecido o convite! O baile acabou logo, fizeram-se as despedidas e os agradecimentos e os convidados partiram para os seus Montes. 
As filhas do lavrador do Monte do Carrão, ficaram todas debaixo de olho dos filhos dos lavradores seus convidados, porque foi um baile, como nunca tinham assistido e, de verdade, as filhas do lavrador Manoel Roíz, foram as estrelas da noite, deixaram toda a gente surpreendida, também, devido à exibição nas danças com o desconhecido! Durante alguns meses, não se falava noutra coisa nas terras de Capelins, por isso, a cobiça pelas filhas do lavrador era enorme. 
As raparigas que, parecia estarem condenadas a ficar solteiras, graças ao grande baile e, ao que nele se passou, em poucos meses começaram todas a namorar e passados dois anos estavam todas bem casadas com filhos de lavradores da região. 
Em Setembro de 1699, a mãe do lavrador, a lavradora Apelónia Maria, adoeceu e sentindo que estava no final da sua vida, chamou o filho e a nora à cabeceira da cama e disse-lhe: 
Ti Apelónia: Filhos, chamei-os aqui porque sinto que não vou estar na vida presente por mais tempo e não posso abalar sem lhe contar o que se passou no grande baile, aqui no Monte há dois anos! 
Lavrador: Oh mãe, deixe-se disso, não abala, não! A Maria Josefa faz-lhe uns caldinhos de galinha e vai ficar boa! 
Ti Apelónia: Eu sei muito bem, o que estou a dizer! Por isso, continuando, não podia partir sem lhe contar um segredo que guardei estes dois anos e, não duvidem de nada do que lhe vou contar, porque estou nas abaladas, mas ainda estou boa da cabeça! 
Lavrador: Oh minha mãe, por quem é? Eu não duvido de nada do que nos contar! Vá conte lá!
A ti Apelónia Maria, já muito cansada e com dificuldades respiratórias, foi fazendo algumas pausas e contando o seu segredo, deixando os lavradores boquiabertos e assustados! 
Ti Apelónia: Lembram-se do sucesso que teve o baile que organizaram aqui no Monte, no dia 1 de Maio de há dois anos? 
Lavradores: Oh mãe, quem não se lembra, ainda hoje se fala disso, nunca houve nada igual por aqui! 
Ti Apelónia: Pois, filho, não houve, não! Sabem, que o mais certo, foi graças a esse baile que a suas filhas arranjaram os maridos que arranjaram, dos melhores que por aí há! 
Lavrador: Sim, mãe, não temos dúvida que foi ese baile que as deu a conhecer aos maridos que têm! Foi o destino que estava traçado  assim! 
Ti Apelónia: Sim, filho, acho que neste caso o destino foi riscado por a mão de alguém e, eu sei quem foi, por isso, é esse o segredo que lhe tenho de contar, não sei se isto fica por aqui! 
Lavrador: Mau, mau, mãe! Está a deixar-nos assustados, não me diga que isso foi alguma bruxaria, das boas? 
Ti Apelónia: Temo que sim, filho! 
Lavrador: Eh lá, mãe! Iso não me está a agradar nada! Então as nossas filhas, suas netas, casaram bem, por obra de bruxaria? Não, não! 
Ti Apelónia: Ouve bem isto, filho! Eu não sei se posso chamar-lhe bruxaria, mas que foi obra do diabo, isso foi! 
Lavrador: Ai valha-me Deus, mãe! Já não diz coisa com coisa! 
Ti Apelónia: Oh filho, deixa-me contar tudo e depois fazes o teu juízo! Decerto que se lembram do rapaz que bateu à porta naquela noite, aquele que dançava muito bem e deu a fama que deu ao baile e às tuas filhas! As danças dele deixaram toda a gente enfeitiçada, nem viam mais nada, mas eu passei toda a noite a caçar ratos (dormitar), não fiquei enfeitiçada, a musica dava-me muito sono, mas quando acordei vi bem por onde ele saiu e garanto-lhe que pela porta é que não foi! 
Lavrador: Ai mãe, ai mãe! Então, se não saiu pela porta, por onde podia sair? 
Ti Apelónia: Deixa-me lá acabar de contar, depois falas tu! Aquele rapaz era o diabo disfarçado de fidalgo! Ao fugir tão apressado, não teve tempo de abrir a porta e fugiu pela chaminé! 
Os lavradores olharam um para o outro e não conseguiram reter uma risada! A ti Apelónia, mesmo muito mal, apercebeu-se, mas fingiu não perceber e continuou! 
Ti Apelónia: Como estava a contar, quando acordei bati com os olhos nos pés do rapaz e sabem o que eu vi? As patas do mafarrico, cascos de bode! Ele apercebeu-se que eu o tinha descoberto, virou-me aquele olhos medonhos, que eu benzi-me e gritei pela ajuda de Jesus Cristo! Ele largou a rapariga com quem dançava e didrigu-se para a chaminé, mas como era muito alto, com a pressa de fugir, não deu pelo pau da chaminé, deu-lhe uma cabeçada tão grande, que a casa tremeu toda, ainda lá está o sinal da cornada, ao bater com a cabeça, o chapéu caiu no chão e ficou com os cornos à vista, ele não parou a apanhar o chapéu, subiu pela chaminé, ouvi os cornos e as unhas a riscar as paredes, ainda podem ver lá os riscos, eu apanhei o chapéu e guardei-o até hoje! Abre além a minha arca e, está lá o chapéu embrulhado num lençol, mira-o lá bem e diz-me se não era o chapéu do tal rapaz! 
Naquele momento, os lavradores ficaram assustados, porque confirmaram que já tinham visto os riscos na chaminé, que lhe davam voltas à cabeça por não saberem como tinha sido feitos! O lavrador seguiu as instruções da mãe, abriu a arca e tirou o dito chapéu, ficando sem dúvidas que, era o mesmo do desconhecido daquela noite do baile! Os lavradores ficaram algum tempo com os olhos postos no chapéu, sem soltar uma palavra, por fim lá reagiram! 
Lavrador: Isto bate tudo certo! Então, e agora? 
Ti Apelónia: Agora, não vamos fazer nada! Amanhã, logo de madrugada vão à bruxa da Villa de Montoito, porque segundo dizem, tem muitos poderes, contam-lhe tudo o que aqui se passou e depois fazem o que ela lhe disser, não encontro outra solução! 
Lavrador: Está bem mãe, também não vejo outra solução! É um caso muito sério! Agora descanse, mãe! 
No dia seguinte, de madrugada, os lavradores sairam do Monte do Carrão, sem contar nada a ninguém e chegaram muito cedo à Vila de Montoito! Bateram à porta da casa da bruxa e veio a criada abrir-lhe a porta, mandou-os entrar para a casa de fora e informou-os que a senhora ainda estava deitada, mas já ia dizer-lhe que estavam ali e, decerto não demorava em os atender. Passados alguns minutos, já os lavradores estavam em frente da bruxa a contar-lhe o que se tinha passado na noite do baile! A bruxa ficou surpreendida com o caso e, disse-lhe que receava não ter poderes para resolver a situação, no entanto, se estivessem de acordo, iam fazer as mesinhas, bem feitas, que ela lhe indicava, sem garantir que corria tudo bem, porque o mafarrico podia chegar a tempo de salvar o chapéu! No entanto, se ele não aparecesse, ficavam livres dele e do seu feitiço para sempre, mas o lavrador tinha de correr um grande risco! 
O lavrador, disse-lhe que estava pronto para tudo, não tinha medo, podia dizer-lhe o que ele tinham de fazer! 
A bruxa explicou-lhe como fazer as mesinhas durante nove dias e no fim, calhava num domingo, antes das sete horas da manhã fazia um grande lume, queimava pelo menos dez feixas de boa lenha e metia o chapéu do diabo no meio, quando batessem as sete horas o chapéu tinha de estar a arder e, se corresse bem, ouvia um grande estrondo, o chapéu ficava desfeito, o feitiço acabava e toda a área da herdade do Carrão ficava limpa de feitiços para sempre, mas se o diabo chegasse a tempo de salvar o chapéu, tinha de lhe mostrar um crucifixo para o afastar, mas ele podia não olhar e conseguir tirar o chapéu antes de arder, assim, estaria tudo perdido, mas não havia outra maneira de eliminar o feitiço! O lavrador, aceitou fazer tudo o que a bruxa lhe disse e, voltaram ao Monte do Carrão.
Os lavradores, assim que chegaram ao Monte do Carrão, começaram secretamente a fazer as mesinhas como a bruxa lhe explicou! Passados os nove dias, era sábado, à tardinha o lavrador carregou a lenha numa carroça e seguiu com ela para a margem direita do Ribeiro do Carrão, deixou-a amontoada e voltou para casa, de onde já não saiu, até se deitar, durante a noite, mal passou pelo sono, a imaginar como devia fazer se o diabo aparecesse a resgatar o chapéu das lavaredas!
Levantou-se de madrugada, como sempre, andou por ali, comeu pouco, porque tinha um nó na garganta que não deixava passar as sopas, por fim, foi encher três sacas de serapilheira com palha, para misturar com a lenha e dar força ao lume, porque tinha de arder o mais depressa possível, meteu o chapéu do diabo dentro de outro saco, guardou o crucifixo com Jesus, que era a sua defesa contra o mafarrico, pegou numa forquilha para atiçar o lume e, na carroça, pôs-se a caminho, sozinho, do lugar onde tinha de acender o lume! 
O lavrador estava muito nervoso, preparou a lenha e a palha, meteu o chapéu no meio com palha em volta e com um fósforo, acendeu o lume que, devido à ajuda da palha depressa se incendiou! O coração do lavrador batia com tanta força que se podia ouvir, olhava para todos os lados para tentar saber de onde o diabo ia aparecer, ao mesmo tempo fazia força para que o lume ardesse depressa, esperando ouvir o estrondo a todo o momento, mas nada acontecia! O lume já ardia com grande intensidade, envolvendo a lenha e a palha, parecia impossível o chapéu não estar já desfeito, ele era de material muito bom! 
O lavrador andava aos saltos em volta do lume, com o crucifixo na mão direita, pronto a mostrá-lo ao diabo que  podia aparecer a qualquer momento!
Quando o lume estava na máxima força, oo mafarrico apareceu enfurecido numa corrida louca, voou desde a margem esquerda do Ribeiro do Carrão ficando no meio do lume a procurar o chapéu! O lavrador começou a gritar com quanra força tinha na esperança de o obrigar a olhar no crucifixo, mas o diabo não queria saber do lavrador, queria era tirar o chapéu do fogo! 
Parecia que estava tudo perdido, mas não, não estava, naquele momento, fez um grande relâmpago e, ao mesmo tempo um trovão tão forte, sem haver nuvens, que a terra tremeu debaixo dos pés do lavrador atirando com ele ao chão, onde se deixou ficar quietinho de olhos fechados, quando os abriu estava cercado de criados e do feitor da herdade! O lavrador levantou-se com a ajuda do feitor e todos queriam saber o que se tinha passado ali! Naquele momento, chegou uma criada a correr a anunciar que a ti Apelónia Maria tinha partido para o outro mundo! O lavrador não ficou surpreendido, abanou a cabeça em sinal de negação e não disse uma palavra, porque percebeu que a sua mãe não quis partir sem ter a certeza que tinha corrido tudo bem e só quando ouviu o estrondo, que era o sinal que o chapéu tinha ardido, desfazendo o feitiço, deixou então a vida presente e foi prestar contas a Deus! 
Como a bruxa da Villa de Montoito lhe disse, a região da herdade do Carrão, ficou livre de feitiços diabólicos para sempre e, a família do lavrador do Monte do Carrão foram muito felizes! As suas filhas, estavam muito bem casadas, com os filhos dos lavradores, do Monte da Vinha, Monte da Amadoreira, Monte do Azinhal Redondo, Monte dos Canhões, Monte do Outeiro de Cima e Monte do Outeiro de Baixo.


Fim 


O Monte da herdade do Carrão situava-se aqui à esquerda!





segunda-feira, 5 de novembro de 2018

457 - Terras de Capelins 5.000 anos de história 
Termo de Terena e Concelho de Ferreira
Como referimos, esta Escritura de compra/venda de umas casas no Monte da Capeleira, foi feita no Cartório Notarial de Terena em 1795 e, nela, tal como em outras, feitas muito antes desta data, está batido e rebatido que o Monte da Capeleira fica situado no Termo (Concelho) de Terena, ou seja, na Vila de Ferreira, Termo da Vila de Terena, por ser este o Termo (Concelho) Régio, com as Instituições e Foral.

O Concelho de Ferreira, apenas permitia a participação da população no governo da Vila, através da Câmara, no sentido de proporcionar bem estar económico e social à comunidade, semelhante a uma Associação! 
Há muitos anos que temos conhecimento da sua existência, logo, seria impensável colocá-lo em causa, mas sim, as suas competências em relação ao Termo de Terena, ao qual a Vila de Ferreira sempre pertenceu.

Veja-se a diferença entre o Termo de Terena e o Concelho de Ferreira
O termo concelho, que aparece em documentos a partir do século XIII, começou por designar, na Idade Média, a assembleia deliberativa dos vizinhos de uma povoação, constituída em território de extensão muito variável. Tal assembleia exercia a sua autoridade resolvendo questões de economia local e elaborando normas gerais.
Apesar de a origem dos concelhos ser muito discutida, prevalece atualmente que terão surgido do próprio condicionalismo da sociedade da Reconquista, resultando de fatores de ordem económica, social, política e militar. Desta forma, é feita distinção entre os concelhos rurais e os concelhos urbanos. Os primeiros eram constituídos por pequenos grupos de povoadores, cuja autonomia é possível perceber nas cartas de povoação pela referência a magistrados que podiam ser eleitos pelos vizinhos. Os concelhos urbanos dividiam-se em burgos, ou seja, povoações constituídas junto de uma fortaleza onde viviam pessoas dependentes do poder senhorial e cuja carta de foral concedia aos seus moradores igualdade de direitos, e, por outro lado, em concelhos em que a figura dominante era o cavaleiro-vilão, tratando-se, na maior parte, de territórios fronteiriços.
A concessão das cartas de foral foi aumentando sempre, até que nos fins do século XIV o próprio regime municipal entrou em crise, o que foi causado, em grande parte, pelo desenvolvimento económico do país. Os antigos forais, adaptados a uma sociedade quase inteiramente dominada pelas necessidades da guerra, já não satisfaziam as populações concelhias, que eram agitadas pela formação de bandos ou partidos que disputavam o seu governo. Daí que o poder central passasse a exercer uma ação fiscalizadora mais intensa, promovendo a reforma da ordem interna dos concelhos e nomeando juízes estranhos à comunidade, chamados juízes de fora. Apareceram também, no quadro das magistraturas municipais, novos funcionários de carácter administrativo, os vereadores, que, ao poder tomar decisões sem reunir a assembleia de homens-bons, a controlava muito mais eficazmente. Desta forma, estavam lançadas as bases da reforma dos organismos municipais do país, que, ao longo de vários séculos, tendiam cada vez mais a uniformizar-se. De facto, durante todo o século XIX procurou-se revitalizar as instituições municipais, suprimindo-se concelhos pobres e remodelando-se circunscrições. 

Escritura da Capeleira


terça-feira, 30 de outubro de 2018

456 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Escrituras de compra e venda da courela junto à Sina
As escrituras de compra e venda de courelas, herdades, casas, moinhos, de empréstimos e outras, são documentos importantes que nos descrevem como era, nas respetivas épocas, a divisão administrativa das terras, ou seja, quem eram os proprietários ou rendeiros das courelas ou herdades, não só das terras transacionadas, mas também, das confinantes. 
Como já referimos, existiam várias courelas entre a herdade da Sina e a Vila de Ferreira, que se situava a sul das herdades de Nabais e da dita Sina. 

Apresentamos a escritura de mais uma courela, junto à Igreja de Santo António, da qual, era proprietário Ignácio José Pereira e sua mulher Dona Josefa Violante, moradores na Villa de Terena e, o comprador foi Silvestre José, morador na Aldeia de Faleiros, que pagou pela courela 33.600 Reais metálicos e mais 3.360 Reais de Siza. Esta Escritura foi feita no dia 23 de Maio de 1829 pelo Tabelião Feliciano José Cardoso do Cartório de Terena. Esta courela confinava, parte com a herdade da Sina e, dos dois lados com courelas do Coronel Azambuja, de Vila Viçosa. 

Reparamos que, o lavrador Ignácio José Pereira e sua mulher Dona Josefa Violante eram os mesmo proprietários da courela onde se situava a Igreja de Santo António, vendida a Joaquim Martins e que, durante vários anos foram vendendo várias courelas na Freguesia de Santo António de Capelins, assim como, na Freguesia de S. Pedro em Terena, incluindo casas nesta Villa. 
Quanto ao Coronel Azambuja, dono das referidas courelas, era natural de Vila Viçosa, onde residia no Palácio da família Matos Azambuja, também conhecido como Casa dos Arcos, que foi edificado cerca de 1599 e, decerto, com muitas propriedades pela região.

folha 1 de 6 da escritura feita em Terena em 1829, da courela de Silvestre José da Aldeia de Faleiros.


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...