sábado, 10 de novembro de 2018

459 - Terras de Capelins 
História de Capelins e da Villa de Terena 
Os Almoxarifes e o Almoxarifado do Concelho de Terena 1325 
Entre outros Almoxarifes do Termo (Concelho) de Terena surgem Rodrigo Eanes e Afonso Martins. Em 1341, numa carta de arrematação feita ao Rei, não só obtemos informação sobre o então Almoxarife Rodrigo Eanes, mas também sobre os anteriores Almoxarifes de Terena, Estevão Domingues Panóias e João Anes. A carta apresenta-nos uma situação de licitação de bens organizada por Martim Domingues, sacador das dívidas do Rei, e por Afonso Corda, pregoeiro do Concelho, em que, feitas as arrematações por Martim Domingues, este devia entregá-los a Rodrigo Eanes. Em 1342, D. Afonso IV recebe conto e recado de Afonso Martins, Almoxarife de Terena entre 1 de Março de 1340 e 26 de Fevereiro de 1341. O monarca, tendo considerado que ele lhe deu "boom Conto e boom Recado de todo Assy como per partes he conteúdo en hua sa racadaçom, após o seu registo nos Contos e a sua escrituração no liuro (livro) que chamam terceiro d além Teio (Tejo ), deu-o por livre e quite, bem como an seus sucessores, para sempre". 

Foi assim que ficamos a saber quem foram ao Almoxarifes do Concelho de Terena durante o reinado de D. Afonso IV, assim como, a existenência do dito Almoxarifado. 
Está registado no terceiro livro d' Além Tejo - Chancelaria de D. Afonso IV. Arquivo Nacional da Torre do Tombo.


Almoxarifado era o "Serviço de Finanças do Reino"
Um almoxarifado era uma divisão administrativa fiscal, geralmente extensa, existente em Portugal na Idade Média. A maior parte dos almoxarifados tinham a sua sede numa cidade importante, como era o caso de Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Guimarães, etc., e todos estavam a cargo de um almoxarife, o qual era um funcionário real que era responsável pela cobrança e arrecadação de impostos.
Ao consultarmos o mapa dos Almoxarifados verificamos que, não existiam muitos no Reino, é por isso muito estranho, ter sido criado por D. Afonso IV um Almoxarifado na Villa de Terena, cerca de 1325! Segredos do nosso Concelho!
Carta de Criação de Almoxarifado - D. Afonso IV 


terça-feira, 6 de novembro de 2018

458 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do baile do diabo no Monte da herdade do Carrão

 O Monte da herdade do Carrão situava-se entre os atuais Montes do Carrão e o Monte do Roncão, no outeiro à esquerda, antes de chegar ao Monte do Ladrilho e, ao Ribeiro do Carrão, do qual, já não existe nenhum vestígio, mas sabemos o lugar exato, onde o mesmo estava erigido. 
No dito Monte, no ano de 1697,  morava o lavrador Manoel Roíz (Rodrigues) e sua Família, constituída pela mãe, Ti Apelónia Gliz (Gonçalves), a esposa Ti Maria Josefa, seis filhas e dois filhos, com idades entre os 10 e os 29 anos de idade. 
Como as filhas estavam todas em idade de casar e, ainda nenhuma namorava, a situação estava a tornar-se preocupante para os lavradores, até que, um dia o lavrador não se conteve mais e encetou uma conversa com a lavradora:
Lavrador: Oh mulher, já há algum tempo que ando cismando com uma coisa, tem a ver com as nossas filhas! Já têm a idade que têm e, não vejo rapazes interessados nelas! Não tens visto por aqui nenhum galhavano, filho de algum lavrador da região, claro, a arrastar-lhe a asa? 
Lavradora: Eh Manoel, até parece que adivinhaste que eu queria falar isso contigo! Pois, não sei o que isto me parece! Não, não vejo nenhum rapaz interessado nas nossas filhas, umas raparigas tão bonitas, sabem fazer tudo! Ninguém tem nada a apontar-lhe e, depois, uma coisa destas!
Lavrador: Pois é, Maria! Não é que a gente tenha pressa em as casar, mas as coisas são como são, quase todas as raparigas da idade delas, ou namoram, ou já casaram, não sei, não sei o que diga! 
Lavradora: Eu também não sei, mas tenho pensado muito nisso e não encontro explicação, mas parece-me cá a mim, que tem a ver, por elas aparecerem pouco e, como sabes, quem não aparece esquece! Há por aí muitas raparigas, logo, algumas vão ficando esquecidas e ficam solteironas! 
Lavrador: Oh Maria, então querias pôr as nossas filhas à amostra aonde? Aí à roda da estrada para os rapazes as verem? Não entendo essa tua ideia! 
Lavradora: Não, Manoel! O que eu quero dizer é que as nossas filhas saem pouco aqui do Monte, raramente vão às festas a Terena, Alandroal, Elvas, Montoito, Monsaraz, como vão as outras, por isso, aparecem pouco nos lugares onde vão os rapazes e raparigas filhos dos outros lavradores da região! 
Lavrador: Cala-te mulher! Então, assim não faziamos mais nada, senão andar a mostrá-las pelas festas, os rapazes sabem onde elas estão! 
Lavradora: Então, se não queres levar as nossas filhas às festas, como a outra gente, eu achava que, quando o trabalho estiver mais desafogado aqui na herdade, podíamos fazer um baile aqui no Monte e convidavamos os outros lavradores para trazerem os filhos e filhas! É assim que alguns estão a fazer! 
Parte 2 de 5
Lavrador: Eh mulher, não gosto nada disso, até parece que estamos desesperados a oferecer as nossas filhas, mas de verdade não estou a ver outra alternativa! E como é que fazíamos isso do baile?
Lavradora: Oh Manoel, fazemos como os outros! Se tu deixares fazer o baile aqui no Monte, eu e as nossas filhas tratamos de tudo, só precisamos das tuas ordem! 
Lavrador: O que hei-de fazer? Está bem, Maria! Sendo assim, as ordens estão dadas, mas muito tino nas cabeças! Já sabes que não quero falatório! Tomem muita atenção ao que vão fazer! 
Lavradora: Fica descansado, homem! Vamos fazer tudo igual à outra gente!
A lavradora foi a correr contar às filhas que, o pai tinha dado ordem para fazerem um baile para convidados ali no Monte, quando elas quisessem! As raparigas nem queriam acreditar, ficaram muito entusiasmadas e, começaram logo a ditar ideias sobre a preparação, quem convidavam, quem tocava e cantava no baile, a roupa que tinham de fazer, os penteados, os bolos, as bebidas que deviam ser, vinho, aguardente, licores e chá, era isso que as outras raparigas faziam para receber os convidados dos seus bailes, por isso, tinha de ser tudo igual!  
Os preparativos começaram ainda nesse dia, não podia falhar nada, porque a sua vida amorosa podia depender desse baile! 
Como o pai deu ordens para fazerem igual aos outros lavradores, ou ainda melhor, decidiram contratar a Lolita e seus muchachos, uma espanholita amigada com um português de Monsaraz e, com os filhos, andavam de Monte em Monte das herdade a abrilhantar os bailes, tocavam, cantavam e dançavam, eram do melhor que existia na região! 
O grande baile foi marcado para sábado dia 02 de Maio de 1699 e, começou, imediatamente a ser o principal tema das conversas nas terras de Capelins, diziam que era um acontecimento como nunca por ali se tinha assistido! 
Chegou o dia do baile e, no Monte do Carrão verificava-se um movimento anormal, as raparigas e, as criadas, andavam todas num virote para não faltar nada e não dar motivo a conversas maldosas! 
Ao cair da noite, começaram a chegar os convidados que, eram recebidos pelos lavradores, pelos filhos e filhas, todos muito bem apresentados! Os convidados já vinham ceados, (jantados) mas as mesas estavam cheias de comida e bebidas, enchendo o olho aos que iam chegando! 
Como a Lotlita já estava tocando e cantando, um pouco tímidos, os que se conheciam melhor e seus familiares começaram a dançar! As anfitriãs estavam a ficar para trás, porque os rapazes pensavam que elas não sabiam dançar, mas estavam muito enganados, elas tinham treinado com boas mestras, antes do baile! Os pais dos rapazes convidados, ao notarem que os filhos não estavam a dar atenção às filhas do lavrador, apressaram-se a fazer-lhe sinal para as pedirem para dançar e, pouco depois, já andavam todas a dançar! 
Com grande surpresa dos presentes, as raparigas dançavam tão bem, que nem as afamadas dançantes das terras de Capelins, as conseguiam acompanhar. 
O baile estava muito animado, porque com a Lolita era mesmo assim, repentinamente, ouviram-se três pancadas na porta, tão fortes que a mesma, quase saltava dos cachimbos, assustando os que se encontravam mais próximos dela! Os lavradores pensaram que, eram alguns convidados que vinham atrasados e tinham batido com tanta força para as pancadas se ouvirem além da música, mas ao mesmo tempo, ficaram apreensivos, porque pelas suas contas já ali estavam os convidados todos, no entanto, foram abrir a porta, levaram uma candeia nas mãos para dar luz e depararam-se com um rapaz alto, magro, bem vestido, de fato claro de bom corte e, com um chapéu dos que só eram usados por fidalgos da Corte! O rapaz pediu muita desculpa pela sua presença ali e, apresentou-se como sendo da família Freire de Andrade, sobrinho dos anteriores senhores da Vila de Ferreira! Contou que vinha da Vila de  Mourão e dirigia-se para Olivença, pensava ir dormir ao Monte do Aguilhão, por ser de pessoas amigas da família e logo cedo, passava o rio Guadiana na ponte da Ajuda e chegaria ao destino ainda na parte da manhã, onde o esperavam para tratar de negócios, mas ao passar por ali, ouviu a musica e como gostava muito de dançar não se conteve sem vir pedir se o deixavam dar um pézinho de dança! 
O lavrador olhou para ele e pensou que tinha um fidalgo na sua frente, como a conversa era bem consertada, disse-lhe que, não era nenhum baile da Corte, mas que a sua humilde casa estava à sua ordem, podia entrar, era seu convidado! 
Quando o estranho entrou no baile as raparigas começaram todas a cochichar, porque pensaram que o desconhecido era mesmo um fidalgo! A musica da Lolita e seus muchachos continuava animada, o estranho, assim que fizeram intervalo para trocar pares, não perdeu tempo e foi logo pedir a uma das filhas do lavrador para dançar e, não demorou nada a darem nas vistas, aquilo não era dançar, era levitar, a seguir foi dançando com todas, uma a uma, sempre igual, estava toda a gente abismada, enfeitiçada, com aquele espetáculo, por toda a casa ouviam-se comentários de grande admiração. 
O baile, foi planeado para acabar antes da meia noite, mas com tanta animação, ninguém reparava nas horas e, o mesmo continuou até à meia noite, acabando de forma estranha, o suposto fidalgo desapareceu sem ninguém dar por ele, a porta não se abriu, mas ele ali não estava, os lavradores pensaram que, devido ao entusiasmo, nem tinham dado pela sua saída, mas achavam estranho ele nem se ter despedido, nem agradecido o convite! O baile acabou logo, fizeram-se as despedidas e os agradecimentos e os convidados partiram para os seus Montes. 
As filhas do lavrador do Monte do Carrão, ficaram todas debaixo de olho dos filhos dos lavradores seus convidados, porque foi um baile, como nunca tinham assistido e, de verdade, as filhas do lavrador Manoel Roíz, foram as estrelas da noite, deixaram toda a gente surpreendida, também, devido à exibição nas danças com o desconhecido! Durante alguns meses, não se falava noutra coisa nas terras de Capelins, por isso, a cobiça pelas filhas do lavrador era enorme. 
As raparigas que, parecia estarem condenadas a ficar solteiras, graças ao grande baile e, ao que nele se passou, em poucos meses começaram todas a namorar e passados dois anos estavam todas bem casadas com filhos de lavradores da região. 
Em Setembro de 1699, a mãe do lavrador, a lavradora Apelónia Maria, adoeceu e sentindo que estava no final da sua vida, chamou o filho e a nora à cabeceira da cama e disse-lhe: 
Ti Apelónia: Filhos, chamei-os aqui porque sinto que não vou estar na vida presente por mais tempo e não posso abalar sem lhe contar o que se passou no grande baile, aqui no Monte há dois anos! 
Lavrador: Oh mãe, deixe-se disso, não abala, não! A Maria Josefa faz-lhe uns caldinhos de galinha e vai ficar boa! 
Ti Apelónia: Eu sei muito bem, o que estou a dizer! Por isso, continuando, não podia partir sem lhe contar um segredo que guardei estes dois anos e, não duvidem de nada do que lhe vou contar, porque estou nas abaladas, mas ainda estou boa da cabeça! 
Lavrador: Oh minha mãe, por quem é? Eu não duvido de nada do que nos contar! Vá conte lá!
A ti Apelónia Maria, já muito cansada e com dificuldades respiratórias, foi fazendo algumas pausas e contando o seu segredo, deixando os lavradores boquiabertos e assustados! 
Ti Apelónia: Lembram-se do sucesso que teve o baile que organizaram aqui no Monte, no dia 1 de Maio de há dois anos? 
Lavradores: Oh mãe, quem não se lembra, ainda hoje se fala disso, nunca houve nada igual por aqui! 
Ti Apelónia: Pois, filho, não houve, não! Sabem, que o mais certo, foi graças a esse baile que a suas filhas arranjaram os maridos que arranjaram, dos melhores que por aí há! 
Lavrador: Sim, mãe, não temos dúvida que foi ese baile que as deu a conhecer aos maridos que têm! Foi o destino que estava traçado  assim! 
Ti Apelónia: Sim, filho, acho que neste caso o destino foi riscado por a mão de alguém e, eu sei quem foi, por isso, é esse o segredo que lhe tenho de contar, não sei se isto fica por aqui! 
Lavrador: Mau, mau, mãe! Está a deixar-nos assustados, não me diga que isso foi alguma bruxaria, das boas? 
Ti Apelónia: Temo que sim, filho! 
Lavrador: Eh lá, mãe! Iso não me está a agradar nada! Então as nossas filhas, suas netas, casaram bem, por obra de bruxaria? Não, não! 
Ti Apelónia: Ouve bem isto, filho! Eu não sei se posso chamar-lhe bruxaria, mas que foi obra do diabo, isso foi! 
Lavrador: Ai valha-me Deus, mãe! Já não diz coisa com coisa! 
Ti Apelónia: Oh filho, deixa-me contar tudo e depois fazes o teu juízo! Decerto que se lembram do rapaz que bateu à porta naquela noite, aquele que dançava muito bem e deu a fama que deu ao baile e às tuas filhas! As danças dele deixaram toda a gente enfeitiçada, nem viam mais nada, mas eu passei toda a noite a caçar ratos (dormitar), não fiquei enfeitiçada, a musica dava-me muito sono, mas quando acordei vi bem por onde ele saiu e garanto-lhe que pela porta é que não foi! 
Lavrador: Ai mãe, ai mãe! Então, se não saiu pela porta, por onde podia sair? 
Ti Apelónia: Deixa-me lá acabar de contar, depois falas tu! Aquele rapaz era o diabo disfarçado de fidalgo! Ao fugir tão apressado, não teve tempo de abrir a porta e fugiu pela chaminé! 
Os lavradores olharam um para o outro e não conseguiram reter uma risada! A ti Apelónia, mesmo muito mal, apercebeu-se, mas fingiu não perceber e continuou! 
Ti Apelónia: Como estava a contar, quando acordei bati com os olhos nos pés do rapaz e sabem o que eu vi? As patas do mafarrico, cascos de bode! Ele apercebeu-se que eu o tinha descoberto, virou-me aquele olhos medonhos, que eu benzi-me e gritei pela ajuda de Jesus Cristo! Ele largou a rapariga com quem dançava e didrigu-se para a chaminé, mas como era muito alto, com a pressa de fugir, não deu pelo pau da chaminé, deu-lhe uma cabeçada tão grande, que a casa tremeu toda, ainda lá está o sinal da cornada, ao bater com a cabeça, o chapéu caiu no chão e ficou com os cornos à vista, ele não parou a apanhar o chapéu, subiu pela chaminé, ouvi os cornos e as unhas a riscar as paredes, ainda podem ver lá os riscos, eu apanhei o chapéu e guardei-o até hoje! Abre além a minha arca e, está lá o chapéu embrulhado num lençol, mira-o lá bem e diz-me se não era o chapéu do tal rapaz! 
Naquele momento, os lavradores ficaram assustados, porque confirmaram que já tinham visto os riscos na chaminé, que lhe davam voltas à cabeça por não saberem como tinha sido feitos! O lavrador seguiu as instruções da mãe, abriu a arca e tirou o dito chapéu, ficando sem dúvidas que, era o mesmo do desconhecido daquela noite do baile! Os lavradores ficaram algum tempo com os olhos postos no chapéu, sem soltar uma palavra, por fim lá reagiram! 
Lavrador: Isto bate tudo certo! Então, e agora? 
Ti Apelónia: Agora, não vamos fazer nada! Amanhã, logo de madrugada vão à bruxa da Villa de Montoito, porque segundo dizem, tem muitos poderes, contam-lhe tudo o que aqui se passou e depois fazem o que ela lhe disser, não encontro outra solução! 
Lavrador: Está bem mãe, também não vejo outra solução! É um caso muito sério! Agora descanse, mãe! 
No dia seguinte, de madrugada, os lavradores sairam do Monte do Carrão, sem contar nada a ninguém e chegaram muito cedo à Vila de Montoito! Bateram à porta da casa da bruxa e veio a criada abrir-lhe a porta, mandou-os entrar para a casa de fora e informou-os que a senhora ainda estava deitada, mas já ia dizer-lhe que estavam ali e, decerto não demorava em os atender. Passados alguns minutos, já os lavradores estavam em frente da bruxa a contar-lhe o que se tinha passado na noite do baile! A bruxa ficou surpreendida com o caso e, disse-lhe que receava não ter poderes para resolver a situação, no entanto, se estivessem de acordo, iam fazer as mesinhas, bem feitas, que ela lhe indicava, sem garantir que corria tudo bem, porque o mafarrico podia chegar a tempo de salvar o chapéu! No entanto, se ele não aparecesse, ficavam livres dele e do seu feitiço para sempre, mas o lavrador tinha de correr um grande risco! 
O lavrador, disse-lhe que estava pronto para tudo, não tinha medo, podia dizer-lhe o que ele tinham de fazer! 
A bruxa explicou-lhe como fazer as mesinhas durante nove dias e no fim, calhava num domingo, antes das sete horas da manhã fazia um grande lume, queimava pelo menos dez feixas de boa lenha e metia o chapéu do diabo no meio, quando batessem as sete horas o chapéu tinha de estar a arder e, se corresse bem, ouvia um grande estrondo, o chapéu ficava desfeito, o feitiço acabava e toda a área da herdade do Carrão ficava limpa de feitiços para sempre, mas se o diabo chegasse a tempo de salvar o chapéu, tinha de lhe mostrar um crucifixo para o afastar, mas ele podia não olhar e conseguir tirar o chapéu antes de arder, assim, estaria tudo perdido, mas não havia outra maneira de eliminar o feitiço! O lavrador, aceitou fazer tudo o que a bruxa lhe disse e, voltaram ao Monte do Carrão.
Os lavradores, assim que chegaram ao Monte do Carrão, começaram secretamente a fazer as mesinhas como a bruxa lhe explicou! Passados os nove dias, era sábado, à tardinha o lavrador carregou a lenha numa carroça e seguiu com ela para a margem direita do Ribeiro do Carrão, deixou-a amontoada e voltou para casa, de onde já não saiu, até se deitar, durante a noite, mal passou pelo sono, a imaginar como devia fazer se o diabo aparecesse a resgatar o chapéu das lavaredas!
Levantou-se de madrugada, como sempre, andou por ali, comeu pouco, porque tinha um nó na garganta que não deixava passar as sopas, por fim, foi encher três sacas de serapilheira com palha, para misturar com a lenha e dar força ao lume, porque tinha de arder o mais depressa possível, meteu o chapéu do diabo dentro de outro saco, guardou o crucifixo com Jesus, que era a sua defesa contra o mafarrico, pegou numa forquilha para atiçar o lume e, na carroça, pôs-se a caminho, sozinho, do lugar onde tinha de acender o lume! 
O lavrador estava muito nervoso, preparou a lenha e a palha, meteu o chapéu no meio com palha em volta e com um fósforo, acendeu o lume que, devido à ajuda da palha depressa se incendiou! O coração do lavrador batia com tanta força que se podia ouvir, olhava para todos os lados para tentar saber de onde o diabo ia aparecer, ao mesmo tempo fazia força para que o lume ardesse depressa, esperando ouvir o estrondo a todo o momento, mas nada acontecia! O lume já ardia com grande intensidade, envolvendo a lenha e a palha, parecia impossível o chapéu não estar já desfeito, ele era de material muito bom! 
O lavrador andava aos saltos em volta do lume, com o crucifixo na mão direita, pronto a mostrá-lo ao diabo que  podia aparecer a qualquer momento!
Quando o lume estava na máxima força, oo mafarrico apareceu enfurecido numa corrida louca, voou desde a margem esquerda do Ribeiro do Carrão ficando no meio do lume a procurar o chapéu! O lavrador começou a gritar com quanra força tinha na esperança de o obrigar a olhar no crucifixo, mas o diabo não queria saber do lavrador, queria era tirar o chapéu do fogo! 
Parecia que estava tudo perdido, mas não, não estava, naquele momento, fez um grande relâmpago e, ao mesmo tempo um trovão tão forte, sem haver nuvens, que a terra tremeu debaixo dos pés do lavrador atirando com ele ao chão, onde se deixou ficar quietinho de olhos fechados, quando os abriu estava cercado de criados e do feitor da herdade! O lavrador levantou-se com a ajuda do feitor e todos queriam saber o que se tinha passado ali! Naquele momento, chegou uma criada a correr a anunciar que a ti Apelónia Maria tinha partido para o outro mundo! O lavrador não ficou surpreendido, abanou a cabeça em sinal de negação e não disse uma palavra, porque percebeu que a sua mãe não quis partir sem ter a certeza que tinha corrido tudo bem e só quando ouviu o estrondo, que era o sinal que o chapéu tinha ardido, desfazendo o feitiço, deixou então a vida presente e foi prestar contas a Deus! 
Como a bruxa da Villa de Montoito lhe disse, a região da herdade do Carrão, ficou livre de feitiços diabólicos para sempre e, a família do lavrador do Monte do Carrão foram muito felizes! As suas filhas, estavam muito bem casadas, com os filhos dos lavradores, do Monte da Vinha, Monte da Amadoreira, Monte do Azinhal Redondo, Monte dos Canhões, Monte do Outeiro de Cima e Monte do Outeiro de Baixo.


Fim 


O Monte da herdade do Carrão situava-se aqui à esquerda!





segunda-feira, 5 de novembro de 2018

457 - Terras de Capelins 5.000 anos de história 
Termo de Terena e Concelho de Ferreira
Como referimos, esta Escritura de compra/venda de umas casas no Monte da Capeleira, foi feita no Cartório Notarial de Terena em 1795 e, nela, tal como em outras, feitas muito antes desta data, está batido e rebatido que o Monte da Capeleira fica situado no Termo (Concelho) de Terena, ou seja, na Vila de Ferreira, Termo da Vila de Terena, por ser este o Termo (Concelho) Régio, com as Instituições e Foral.

O Concelho de Ferreira, apenas permitia a participação da população no governo da Vila, através da Câmara, no sentido de proporcionar bem estar económico e social à comunidade, semelhante a uma Associação! 
Há muitos anos que temos conhecimento da sua existência, logo, seria impensável colocá-lo em causa, mas sim, as suas competências em relação ao Termo de Terena, ao qual a Vila de Ferreira sempre pertenceu.

Veja-se a diferença entre o Termo de Terena e o Concelho de Ferreira
O termo concelho, que aparece em documentos a partir do século XIII, começou por designar, na Idade Média, a assembleia deliberativa dos vizinhos de uma povoação, constituída em território de extensão muito variável. Tal assembleia exercia a sua autoridade resolvendo questões de economia local e elaborando normas gerais.
Apesar de a origem dos concelhos ser muito discutida, prevalece atualmente que terão surgido do próprio condicionalismo da sociedade da Reconquista, resultando de fatores de ordem económica, social, política e militar. Desta forma, é feita distinção entre os concelhos rurais e os concelhos urbanos. Os primeiros eram constituídos por pequenos grupos de povoadores, cuja autonomia é possível perceber nas cartas de povoação pela referência a magistrados que podiam ser eleitos pelos vizinhos. Os concelhos urbanos dividiam-se em burgos, ou seja, povoações constituídas junto de uma fortaleza onde viviam pessoas dependentes do poder senhorial e cuja carta de foral concedia aos seus moradores igualdade de direitos, e, por outro lado, em concelhos em que a figura dominante era o cavaleiro-vilão, tratando-se, na maior parte, de territórios fronteiriços.
A concessão das cartas de foral foi aumentando sempre, até que nos fins do século XIV o próprio regime municipal entrou em crise, o que foi causado, em grande parte, pelo desenvolvimento económico do país. Os antigos forais, adaptados a uma sociedade quase inteiramente dominada pelas necessidades da guerra, já não satisfaziam as populações concelhias, que eram agitadas pela formação de bandos ou partidos que disputavam o seu governo. Daí que o poder central passasse a exercer uma ação fiscalizadora mais intensa, promovendo a reforma da ordem interna dos concelhos e nomeando juízes estranhos à comunidade, chamados juízes de fora. Apareceram também, no quadro das magistraturas municipais, novos funcionários de carácter administrativo, os vereadores, que, ao poder tomar decisões sem reunir a assembleia de homens-bons, a controlava muito mais eficazmente. Desta forma, estavam lançadas as bases da reforma dos organismos municipais do país, que, ao longo de vários séculos, tendiam cada vez mais a uniformizar-se. De facto, durante todo o século XIX procurou-se revitalizar as instituições municipais, suprimindo-se concelhos pobres e remodelando-se circunscrições. 

Escritura da Capeleira


terça-feira, 30 de outubro de 2018

456 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Escrituras de compra e venda da courela junto à Sina
As escrituras de compra e venda de courelas, herdades, casas, moinhos, de empréstimos e outras, são documentos importantes que nos descrevem como era, nas respetivas épocas, a divisão administrativa das terras, ou seja, quem eram os proprietários ou rendeiros das courelas ou herdades, não só das terras transacionadas, mas também, das confinantes. 
Como já referimos, existiam várias courelas entre a herdade da Sina e a Vila de Ferreira, que se situava a sul das herdades de Nabais e da dita Sina. 

Apresentamos a escritura de mais uma courela, junto à Igreja de Santo António, da qual, era proprietário Ignácio José Pereira e sua mulher Dona Josefa Violante, moradores na Villa de Terena e, o comprador foi Silvestre José, morador na Aldeia de Faleiros, que pagou pela courela 33.600 Reais metálicos e mais 3.360 Reais de Siza. Esta Escritura foi feita no dia 23 de Maio de 1829 pelo Tabelião Feliciano José Cardoso do Cartório de Terena. Esta courela confinava, parte com a herdade da Sina e, dos dois lados com courelas do Coronel Azambuja, de Vila Viçosa. 

Reparamos que, o lavrador Ignácio José Pereira e sua mulher Dona Josefa Violante eram os mesmo proprietários da courela onde se situava a Igreja de Santo António, vendida a Joaquim Martins e que, durante vários anos foram vendendo várias courelas na Freguesia de Santo António de Capelins, assim como, na Freguesia de S. Pedro em Terena, incluindo casas nesta Villa. 
Quanto ao Coronel Azambuja, dono das referidas courelas, era natural de Vila Viçosa, onde residia no Palácio da família Matos Azambuja, também conhecido como Casa dos Arcos, que foi edificado cerca de 1599 e, decerto, com muitas propriedades pela região.

folha 1 de 6 da escritura feita em Terena em 1829, da courela de Silvestre José da Aldeia de Faleiros.


455 - Terras de Capelins 
História de gentes de Capelins 
Como referimos, através das escrituras efetuadas no Cartório de Terena entre 1724 e 1852, conseguimos conhecer um pouco da história de Capelins e das suas gentes, em algumas escrituras como as de juro, podemos concluir que, alguns lavradores conseguiam enriquecer com a sua atividade de agro-pecuária, os que emprestavam, porém, outros não davam conta das suas finanças, todos os anos pediam empréstimos, concedidos por lavradores da região mediante o pagamento juros, por exemplo, a cinco por cento. 

Esta escritura de juro foi feita no dia 13 de Fevereiro de 1833, no Monte Real, mas existem outras da mesma família, desde muitos anos antes. 
" Escritura de juro da quantia de quarenta e três mil e duzentos réis metálicos que a deram de juro de cinco por cento na forma de Lei toma Domingos Esteves do Monte do Rial deste Termo, cuja quantia hé pertencente aos herdeiros do falecido Manoel Jorge, Total a quantia de 43.200 Réis.
Saibam quantos este Instrumento de Escritura de juro de cinco por cento, virem que tendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oito centos e trinta e trez annos, sendo aos treze dias de Fevereiro do ditto anno, no Monte do Rial Freguezia de Santo António de Capelins, onde digo de Capelins Termo de Terena, onde eu Tabelião adiante nomiado e asignado, vim e logo aqui em o ditto Monte do Rial aonde hé morador Domingos Esteves aparecerão e foram presentes os herdeiros habilitados da hirança do falecido Manoel Jorge - Manoel Henrique morador na Villa de Ferreira; Maria de Santa Anna; Francisco Caeiro; Thereza de Jesuz viúva de Ignácio Caeiro; e Manoel Caeiro todos moradores no Termo da Villa de Terena de que eu Tabelião dou fé serem os próprios, E logo por Domingos Esteves me foi dito que tomava de juro de cinco por cento a quantia de quarenta e trez mil e duzentos réis metálicos por tençantes aos herdeiros habilitados da hirança do falecido Manoel Jorge Lavrador que foi da Erdade do Sexo, E logo aqui pelo ditto tomador Domingos Esteves me foi apresentado um Requerimento de theor e forma seguinte - (...)
(...)
3 páginas depois, o capital foi entregue ao suplicante e seguiram-se as assinaturas: 
Tomador: Domingos Esteves 
Fiador: 
Miguel Ramalho 
(Lavrador do Monte da Galvoeira) 
herdeiros: 
Manoel Caeiro 
Francisco Caeiro 
A rogo de Thereza de Jesus 
Gabriel António de Rosa 
Manoel Henrique 
Maria de Santa Anna 
Luís Gonzaga de Paiva"


No requerimento do suplicante apresentado ao Tabelião, a rogo de Thereza de Jesus, assinou: Thomé dos Mártires.
1 de 4 páginas da Escritura de juro feita no Monte Real no dia 13 de Fevereiro de 1833 


domingo, 28 de outubro de 2018

454 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
A origem das designações de Lugares, Montes e Herdades da Freguesia de Capelins 
Como sabemos, a Freguesia de Capelins tem muita história, todos os lugares têm a sua história e, decerto foram importantes para quem, a eles de alguma forma esteve ligado. Alguns desses lugares, têm essa designação devido ao nome, ou apelido de quem lá residia, trabalhava, ou que foi rendeiro/lavrador dessas terras. 
O Senhorio da Vila Defesa de Ferreira, (hoje Freguesia de Capelins) foi da Família Freire de Andrade, entre 1433 e 1674, ou seja, durante 241 anos e deve-se a esta Família a designação de pelo menos duas herdades e respetivos Montes, que são: a Defesa de Bobadela e a herdade do Azinhal Redondo. 

A Família Freire de Andrade detinham o senhorio da Casa de Bobadela, constituída pela Vila de Bobadela em Oliveira do Hospital, a Vila Defesa de Ferreira e, mais tarde do Morgadio do Azinhal no Concelho de Évora.
Assim, conforme ainda hoje conhecemos, a herdade junto ao rio Guadiana, (hoje duas), designava-se herdade da Defesa de Bobadela, devido à Casa de Bobadela e, a herdade do Azinhal Redondo, ficou com a mesma designação do Morgadio do Azinhal que como referimos, também era da Casa de Bobadela.

Monte do Azinhal 


453 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
O Padre Manoel Ramos, da Igreja de Santo António, Termo da Vila de Terena, em 1697 menciona num Assento: "herdade do Roncão do Conde". Fomos, imediatamente pesquisar quem seria o Conde a quem o Padre se referia, mas não encontramos nenhum Conde com o perfil que nos parecesse ter sido o senhor da herdade do Roncão, a qual, fazia parte integrante da Vila Defesa de Ferreira que, como sabemos, foi retirada a Luís Freire de Andrade em 1674

Após esgotarmos as hipóteses sobre quem teria sido esse "Conde" senhor da herdade do Roncão, lembramo-nos que o dono do Moinho das Azenhas D' El-Rei, o da parte de dentro, em 1787 era de Francisco de Melo Cogominho, obviamente, em 1697 não podia ser ele o dono do Roncão, porque ainda nem tinha nascido, mas podia seu o seu pai ou o seu avô! Os Moinhos das Azenhas D' El-Rei ficavam no leito do rio Guadiana, na herdade do Roncão, por isso era natural que existisse alguma ligação!

Na escritura de compra/venda do Moinho das Azenhas D' El-Rei de fora está indicado que existiu uma demanda com essa herdade, mas ainda não percebemos qual a causa/efeito! Fomos saber de quem era filho Francisco de Melo Cogominho, com a esperança de ser filho de algum Conde, porque já sabiamos que era Família nobre, mas concluímos que, embora fidalgos da Corte, não eram Condes! O dito Francisco de Melo Cogominho era filho de Diogo de Melo Cogominho, nascido em 1712 e, era neto de Simão de Melo Cogominho, também fidalgo da Corte e, foram todos, "Senhores da Torre de Coelheiros", em 1697 o senhor da Torre de Coelheiros e talvez da herdade do Roncão era Simão de Melo Cogominho, ou seja, o avô de Francisco de Melo Cogominho, dono do Moinho! 

Por enquanto, não podemos afirmar nada, mas acreditamos que, o senhorio da herdade do Roncão, pertencia à Família Cogominho, senhores da Torre de Coelheiros, talvez por isso, parte da herdade do Roncão, a que lhe foi retirada em 1834 se designa por "Torre" porque era do senhor da Torre!
Roncão 


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...