domingo, 14 de outubro de 2018

443 - Terras de Capelins 
De Terena e Ferreira a Viana do Alentejo 
Desde a cristianização das terras raianas do Alentejo, a Vila de Viana do Alentejo esteve associada à Vila de Terena em termos de doações, até 1314. Foram ambas doadas por D. Afonso III à Família Riba de Vizela (D. Martins Gil) e, em 1314 foram ambas doadas por D. Dinis ao seu filho Afonso, que veio ser o rei D. Afonso IV, conforme consta na Chancelaria de D. Dinis, depositada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Viana do Alentejo 

Após o falecimento de D. Martim Gil, senhor destes domínios, o rei Dinis de Portugal (1279-1325) tomou posse dos mesmos, passando Carta de Foral à povoação (1313) documento onde é denominada como Viana-de-a-par-de-Alvito, regulando-lhes as relações e doando cem libras para as suas obras de fortificação. Iniciaram-se, assim, as obras de construção do castelo e da cerca da vila. No ano seguinte (1314), a vila e seus domínios foram doados pelo soberano a seu filho, o futuro Afonso IV de Portugal, com a cláusula de a não trespassar a ninguém, salvo à esposa, a infanta castelhana D. Beatriz. 
Como sabemos, a doação de Viana e de Terena consta no mesmo documento de D. Dinis, logo, Terena e seu Termo (Concelho) que, incluía a Vila de Ferreira, foi doada ao Infante D. Afonso em 1314. 
Existem e temos acesso, a muitos outros documentos que comprovam essa realidade, contra a versão que as Vilas de Terena e Ferreira foram doadas a Afonso Sanches, (que recebeu os bens pertencentes a D. Martins Gil, falecido em Dezembro de 1312).
Até 1433, as Vilas de Terena e Ferreira encontram-se sempre associadas! Vila de Ferreira a par de Terena, talvez para não se confundir com Ferreira, municipio espanhol (Herrera de Alcântara) que foi portuguesa até ao Tratado de Alcanizes, em 12 de Setembro de 1297, situada perto de Cáceres, nem com Ferreira do Alentejo.

Castelo de Viana do Alentejo 


442- Terras de Capelins 
História da Vila de Terena e seu Termo (Concelho) Inclui a Vila de Ferreira
Além de outros, apresentamos comprovativos de que a Vila de Terena e seu Termo (Concelho), em 1314 foi doada por D. Dinis ao seu filho D. Afonso que, veio ser o rei D. Afonso IV e nunca a D. Afonso Sanches, seu filho bastardo. 
493 “Agora, que se recebeo por palavras de presente, lhe acreceo a pòsse das arras prometidas a sua
molher a Princesa Dona Brites; e muytos lugares de que elRey lhe fez merce” (ML, VII, p. 85). Este autor remete para Ruy de Pina, do qual extrai o seguinte: “despois que se receberaõ em Lisboa por palavras de prezente: elRey lhe deu (ao Principe) Viana, Terena, o Castello de Ourem, e a terra de
Armamar junto a Lamego, e a sua molher grandes terras, e muytas joyas, e riquezas” (ML, VII, p. 85).

Quando em 1314 D. Dinis doou Terena e seu Termo (que incluia a Vila Defesa de Ferreira) ao seu filho D. Afonso, que veio ser D. Afonso IV, este a doou imediatamente a sua esposa Dª Betariz (Brites) de Castela, ficando Terena (que incluia a Vila Desfesa de Ferreira) na Casa das Rainhas até à morte de Dª Beatriz em 1359! 
Conforme as normas, após a morte da Rainha consorte, todos os bens da Casa das Rainhas, voltavam à Coroa! Depois, só encontramos o Lugar de Ferreira e Terena, em 1376, sendo as mesmas retirada a Dª Beatriz de Castro pelo seu meio irmão D. Fernando, por carta régia de 19 de Dezembro de 1378.

Ora, em 28 de agosto de 1378, D. Fernando faz seu testamento e nele clarifica as traições de que fôra objeto, justificando suas coações aos traidores do reino português. Acusa o Pacheco, alguns naturais do reino e seus meio-irmãos, Infantes Dinis61 e Beatriz de Castro de terem conspirado para sua morte62, aproveitando para deserdá-los da sucessão do reino63. Acusação suficiente para não devolver os bens confiscados do Pacheco e do Infante Dinis. Tal menção testamentária indica-nos, também, que a tentativa de regicídio deve ter ocorrido antes de meados de 1378. A Chancelaria fernandina corrobora tal hipótese através de quatro cartas. A primeira, datada de 19 de dezembro de 1378, na qual transfere-se bens da Infanta Beatriz de Castro a Fernando Afonso de Albuquerque, sem menção direta a traição 64. 
64 Recebe. os lugares de Terena e Ferreira (TT, ChancDF, l. II, f. 36v). Ou seja: (Torre do Tombo, Chancelaria D. Fernando, I, II, folha 36 v)

Como podemos verificar, consta na Chancelaria de D. Fernando que, em 19 de Dezembro de 1378, Terena e Ferreira, foram retirados a Dª Beatriz de Castro, filha de D. Pedro I e de Dª Inês de Castro e, ficaram na posse de D. Fernando Afonso de Albuquerque, mas, as mesmas Vilas, foram doadas por D. Fernando a sua filha Dª Beatriz no ano de 1379. Esta, não foi senhora desta Vilas por muito tempo, porque, como Dª Beatriz estava casada com D. João I de Espanha, deu-se a crise de 1385 e, a guerra com Espanha.
Pensamos que, Terena e Ferreira, entre 1359 e 1376, ficaram na posse da Coroa, porque, não devem ter continuado na Casa das Rainhas! Se assim fosse, em 1359, quando faleceu Dª Beatriz, passavam para Dª Leonor Teles, esposa de D. Fernando, onde ficariam até à sua morte! Ora, Dª Leonor Teles faleceu no dia 27 de Abril de 1386 e, as ditas Vilas entre 1376 e 1379 passaram, por 3 senhores/as. (Dª Beatriz de Castro, Fernando Afonso de Albuquerque e Dª Beatriz, filha de D. Fernando).
Fica assim concluído, pela nossa parte, este capítulo da história de Terena e da Vila de Ferreira, quanto à eventual possedas mesmas, por D. Afonso Sanches. 






441 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
D. Afonso Sanches e a Vila de Terena e seu Termo (Concelho) Incluindo a Vila de Ferreira
Há alguns anos dedicamos algum tempo a pesquisar o percurso de vida de D. Afonso Sanches, um dos sete filhos bastardos do rei D. Dinis, porque encontramos apontamentos de que após a morte, em Dezembro de 1312 de D. Martins Gil Riba de Vizela e senhor de Terena e seu Termo (Concelho), D. Dinis retirou todos os bens a esta família aludindo que D. Martns Gil não tinha herdeiros diretos, voltando, assim, os seus bens à Coroa. Como D. Afonso Sanches, embora bastardo, nesta data já legitimado, era o seu filho preferido, então, D. Dinis segundo esses escritos doou-lhe todos os bens que pertenciam a D. Martins Gil. Talvez, exista parte de verdade, e escrevemos parte, porque, conforme documentos arquivados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, pertencentes à Chancelaria do rei D. Dinis, não lhe entregou as Vilas de Viana do Alentejo e Terena, as quais, também eram da Família Riba de Vizela e foram doadas por D. Dinis em 1314 ao seu filho legítimo D. Afonso Infante de Portugal, que veio ser o rei D. Afonso IV, o qual, naquele momento as doou a sua esposa Dª Beatriz (Brites) de Castela, entrando Terena e seu Termo na Casa das Rainhas, onde permaneceu pelo menos até à morte desta Rainha em 25 de Outubro de 1359.

Os bens da família Riba de Vizela foram reclamados pela mãe de D. Martins Gil e, em resultado da demanda, foram quase todos devolvidos! Terena, não foi devolvida! 

D. Afonso Sanches nasceu em Cerva, a 24 de Maio de 1289 e faleceu, aos 40 anos de idade em Escalona, Espanha a 02 de Novembro de 1329! Como referimos, era filho bastardo, depois legitimado, e predileto de Dinis e de Aldonça Rodrigues Talha.

D. Afonso Sanches foi senhor de Cerva, de Alburquerque na Estremadura espanhola, senhor do castelo onde mais tarde D. Inês de Castro viveu vários anos. Deve-se-lhe a ele e à sua esposa, D. Teresa Martins, a fundação do Convento de Santa Clara de Vila do Conde, onde ambos estão sepultados.
A Rainha Santa Isabel chamara para a corte todos os filhos do rei, incluindo os bastardos, proporcionando-lhes igual qualidade de educação. Por esta proximidade, e decerto por outras razões, D. Dinis dedicava a D. Afonso Sanches uma estima especial, a ponto de lhe entregar o cargo de mordomo da coroa, quase o equivalente ao cargo de primeiro-ministro na política actual. 
Com a subida ao trono de Afonso IV de Portugal, este exilou o meio-irmão em Castela.
D. Afonso Sanches ainda tentou manobras políticas e militares para tomar o trono. Depois de várias tentativas de invasão falhadas, uma das mais importantes foi em 1326! Nesta data, os irmãos assinaram um tratado de paz sob mais uma vez o patrocínio da rainha Isabel de Aragão.


Muito mais se pode escrever sobre a vida de D. Afonso Sanches.







domingo, 7 de outubro de 2018

440 - Terras de Capelins
As lendas do Chiquinho de Capelins 
A lenda do Chiquinho foi à Caça 
Na década de 1960, grande parte da Freguesia de Capelins estava ocupada por coutadas de caça, desde as Defesas de Ferreira e Bobadela até à herdade do Roncanito, no entanto, ao contrário de hoje, havia grandes quantidades de coelhos, lebres e perdizes. A coutada da Defesa de Ferreira encabeçava com as paredes dos quintais da aldeia de Ferreira de Capelins, ou seja, era até aos limites desta herdade! Porém, existia outra coutada na herdade da Defesa de Ferreira de Cima, da Casa Rendeira que, só não ligavam uma com a outra, porque era obrigatório existir uma faixa mínima de 600 metros de espaço livre entre elas, onde todos os habilitados para o efeito, podiam caçar sem restrições! Estas faixas, eram muito povoadas por animais, talvez, por motivo de marcação de território,  saiam das coutadas, onde não lhe faltava nada, desde a proteção, exceto  no dia das batidas, água e comida. 
No início do mês Outubro de 1968, começou a caça! Alguns dias antes, já existia grande agitação na aldeia de Ferreira, porque, vinham os caçadores lisboetas que alteravam a natural pacatez aqui vivida o resto do ano! Meses antes, já se falava quem vinha nesse ano, porque, ou deixavam já tudo falado pela abertura da caça às rolas, em 15 de Agosto, ou escreviam cartas a marcar, com antecedência, a estadia nas casas das pessoas que os recebiam e, alguns traziam a família, passando vários dias em convivio com os capelinenses.  
O Chico Manel, ou seja, o Chiquinho de Capelins, gostava muito da abertura da caça geral, porque era uma festa em Ferreira, já conhecia alguns caçadores lisboetas e seus familiares que os acompanhavam e lhe contavam como era a sua vida em Lisboa, onde moravam o que faziam, onde trabalhavam e o que por lá se passava, causando-lhe grande admiração e desejo de rapidamente ir para aquela grande cidade! 
Todos os anos, no dia da abertura da caça, já de noite ouviam-se tiros, era sinal que havia algum caçador lisboeta perdido e, com os tiros orientava-se e conseguia voltar à aldeia, essa situação, mobilizava muitas pessoas conhecedoras da região que, se prontificavam a ajudar a procurar os desaparecidos, acabava sempre bem e em festa, por o desaparecido ter aparecido são e salvo! 
O Chiquinho era pouco entusiasmado com a caça, mas o seu pai fazia parte dos cerca de 90% de caçadores de Capelins, sendo obrigado a envolver-se algumas vezes nessa atividade! Assim, na noite de 6 de Outubro de 1968, depois da ceia (jantar), o pai do Chiquinho sentenciou:
Pai: Chico Manel, não te demores em deitar! Amanhã, temos de levantar muito cedo, pelas cinco e meia, para ir-mos à caça! 
Chiquinho: Oh pai, mas eu gosto pouco de ir à caça! Ainda por cima tenho de me levantar tão cedo! O que vou eu lá fazer? 
Pai: Gostes, ou não gostes, fazes-me falta, vais comigo e mais nada!  
Chiquinho: Está bem! Então, vou-me já deitar! 
Pai: Ao meio dia vens embora, trazes a caça, jantas (almoço) e, depois descansas e dormes uma sesta! Ainda vai muito calor e não posso andar lá com a caça o dia todo! Vamos pela faixa até à Ribeira de Lucefécit e quando voltarmos para cima, tu vens para casa e eu vou por Nabais, Sina e dou uma volta pelo Terraço que andam por aí umas lebres! 
O Chiquinho, foi deitar-se amuado, mas depressa adormeceu e, parecia que tinha acabado de adormecer e já o pai o estava a abanar para acordar! 
Pai: Chico Manel! Oh Chico Manel, está na hora, levanta-te e vai lavar a cara! 
Chiquinho: É já para me levantar? Então, mesmo agora me deitei! O que vamos fazer para a caça a esta hora da noite? 
Pai: Qual hora, nem hora da noite, já é manhã, põe-te em pé e depressa que ainda temos de comer! 
Chiquinho: Temos de comer outra vez? Então, não comemos mesmo agora? 
Pai: Deixa-te de conversas parvas e despacha-te! 
O Chiquinho sentou-se na cama, espreguiçou-se vezes sem conta e, só saltou para o chão quando ouviu os passos do pai que ia ver o que se passava com ele, lavou a cara e sentou-se à mesa! Comeu pouco, porque não conseguia comer às cinco e meia da manhã! Depois de tudo preparado, o pai do Chiquinho chamou os cães, deu-lhe uns restos de comida e, em poucos minutos estavam a caminhar para a dita faixa de caça, na Defesa de Ferreira, em direção à Ribeira de Lucefécit! Passaram junto ao eucaliptal da Casa Dias ainda não se via nada, mas no ribeiro da aldeia os cães sentiram a presença de coelhos, mas a sua investida não teve êxito por falta de visibilidade! Foram encostando à esquerda aos limites da herdade da Casa Rendeira e, quando chegaram ao alto das Colmeadas já se via um clarão no sítio onde o sol anunciava o seu nascimento! Foram descendo e, os cães levantarem um coelho que foi logo travado na sua corrida, com apenas um tiro certeiro! 
O Chiquinho, seguia as instruções do pai, ia atrás, mantendo sempre uma distância de segurança de cerca de dois metros, já carregava alguns coelhos e perdizes, entretanto abatidos e, com a manhã a mais de meio estavam junto do Moinho das Neves, sentaram-se sobre umas rochas, comeram uma bucha, beberam água e descansaram um pouco! Mas como não estavam ali para admirar a paisagem, continuaram pelo Ribeiro das Neves acima! O sol estava quente, obrigando a consumir água, por isso, quando subiam o vale de enxofre o pai do Chiquinho lembrou-se de ir beber e encher o barril de água fresca à fonte do ti Mutchaco, uma fonte pequenina de onde corria água muito limpida e, que se situava na margem esquerda do Ribeiro das Neves, a qual, em relação ao sítio por onde iam, estava separada por grandes silvados, mas o pai do Chiquinho não podia dispensar o abastecimento de água, porque quanto mais para cima iam, menos água havia, então, decidiu voltar atrás para contornar os silvados, ir à fonte e depois seguir em frente até onde pudesse voltar ao outro lado do Ribeiro, mas lembrou-se de entregar a espingarda ao Chiquinho e disse-lhe: 
Pai: Chico Manel, tu já és um homem e como já percebes a espingarda, ficas com ela e segues em frente, porque está aí um matinho à frente que deita sempre coelhos aqui para as silvas, tem cuidado com os cães, se sair algum coelho não atires para o lado deles, não acertes em algum, ou se aparecer aí alguém, mesmo que apareça algum coelho não atires! A espingarda fica pronta a disparar, tem cuidado com os gatilhos e nunca a vires para ti! Eu vou ali à fonte, porque não podes ir lá tu, ela é muito pequenina e a água tem de ser tirada com cuidado, não é para ti, senão chafurdas tudo e sujas a água, depois, vou ter contigo além acima naquele alto, esperas lá por mim! Ouviste? 
O Chiquinho ouviu tudo com muita atenção e pegou na espingarda, com algum nervosismo, embora já tivesse pegado nela algumas vezes, nunca tinha dado um tiro, mas agora quase de certeza que ia aparecer algum coelho, logo, seria a primeira vez a dar um tiro, mas ao mesmo tempo, estava muito orgulhoso pela confiança depositada pelo pai, que lhe disse que já era um homem! Fosse, como fosse, tinha de mostrar que o pai estava certo, só faltava o coelho aparecer e nada podia falhar!
O pai do Chiquinho dirigiu-se à fonte e, ele seguiu com os cães, de espingarda na mão na direção que lhe foi indicada, sempre alerta e atiçando os cães: busca, busca, mas não aparecia nada por ali! O pai do Chiquinho bebeu água frequinha, encheu o barril e, quando se preparava para ir ter com ele, ouviu um tiro tão forte que ficou atarantado e, assim que se orientou gritou ao Chiquinho: 
Pai: Chico Manel, foste tu que deste este tiro? 
Chiquinho: Fui eu, fui, pai! 
Pai: E estás bem? Está tudo bem? 
Chiquinho: Está, sim senhor! 
O pai mal convencido correu na direção do lugar onde tinha ouvido o tiro e, assim que encontrou uma passagem no silvado, nem se importou de se arranhar, passou naquele lugar e ficou junto do Chiquinho, ainda a espingarda deitava fumo por todo o lado! 
Pai: Então filho, que tiro foi este? Até o vale de enxofre tremeu! Parecia um tremor de terra! Ainda pensei que tinhas ido pelos ares! Até tenho as pernas a tremer! 
Chiquinho: Vocemecê tem as pernas a tremer e eu estou mouco do ouvido direito e tenho este ombro (direito), todo escangalhado! 
Pai: Mau. mau, mostra lá! Vamos lá ver o que para aí está! 
O pai do Chiquinho esteve a observar, mandou-lhe mexer o braço e concluiu que, não devia ser nada partido, era só a clavícula toda esfolada do coice da espingarda! E continuou:
Pai: Mas como é que tu fizeste uma coisas destas? 
Chiquinho: Oh pai, não sei como foi, quando puxei o gatilho ouvi um grande estrondo e senti uma lambada no ombro que me fez ir de marcha atrás até ali, não sei como não me atirou ao chão, mas esteve quase! 
Pai: Dá cá a espingarda! Olha, estão os dois cães da espingarda em baixo! Está explicado! Puxaste os dois gatilhos ao mesmo tempo! Foi sorte ela não ter rebentado e acabar contigo! O que tu ias arranjando! Não tens tato nenhum! Não te mataste porque não calhou! Mas afinal mataste alguma coisa? 
Chiquinho: Oh pai, eu só puxei um gatilho! Deve ter dispardo sózinha! Mas desconfio que matei alguma coisa! 
Pai: Então, se mataste, onde está a peça? 
Chiquinho. Qual peça? Da espingarda? 
Pai: Não, a peça de caça, o coelho, a lebre, a perdiz que mataste? 
Chiquinho: Deve estar além para cima!  Foi para além que eu atirei!
Pai: Mas atiras-te a quê, Chico? 
Chiquinho: Atirei a um coelho! 
Pai: Ah, um coelho! E onde está ele rapaz? 
Chiquinho: Deve estar além para cima! 
Pai: Mas além para cima, onde? Então, os cães não foram buscá-lo?
Chiquinho: Os cães, nem se mexeram daqui! 
Pai: Ora essa! Devem ter ficado assustados com o tiraço que deste, ainda estão aparvalhados! Bom, vamos lá apanhar o coelho! 
Chegaram ao primeiro alto em frente, o pai chamou os cães e deu ordens: Pluto, busca, busca, busca! Como os cães não encontravam nada, o Chiquinho disse ao pai: 
Chiquinho; Oh pai, não foi aqui que eu matei o coelho! 
Pai: Não foi aqui? Então onde foi? 
Chiquinho: Foi além no outro alto! 
Pai: Além naquele alto? Mas isso são mais de duzentos metros do lugar onde estavas! Como é que tu querias matar um coelho a essa distância? Ai valha-me Deus! Vamos embora!
Chiquinho: Oh pai, até podia não o matar, então e se o chumbasse, já os cães depois o apanhavam! 
Pai: Tu não regulas bem! Como é que chumbavas um coelho a mais de duzentos metros? 
Chiquinho: Não sei, mas podia ser! Se não lhe atirasse é que de certeza não o chumbava! 
Pai: Anda daí, vamos mas é andando para cima, já vi que não tens astúcia nenhuma para caçador! Nem para caçador, nem para nada! 
O Chiquinho seguiu o pai e, pouco falou o resto do percurso que fizeram juntos, até perto do poço da bomba, ficou com o orgulho beliscado e só pensava: "nunca mais me vou embora daqui, eu quero lá saber da caça, nem quero ser caçador"! Logo a seguir, o pai virou à direita para o Gomes e mandou o Chiquinho em frente para casa, em Capelins de Cima, com as peças que tinha caçado durante a manhã. 
O Chiquinho depois de jantar (almoçar) em vez de descansar e dormir a sesta, como o pai lhe ordenara, durante a tarde foi passar a ronda pela aldeia de Ferreira e arredores aproveitando as brincadeiras que foi encontrando, mas quando o pai chegou já estava em casa!
O Chiquinho, nunca mais esqueceu este episódio decorrido no dia 6 de Outubro de 1968, que correu mal e, provavelmente, teve influência na decisão de, mais tarde, não querer ser caçador. 

 Fim 




domingo, 30 de setembro de 2018

439 - Terras de Capelins
As lendas do Chiquinho de Capelins 
A lenda do Chiquinho foi à Forja
Na semana antes da Páscoa do ano de 1968, o Chico Manel, conhecido pelo Chiquinho de Capelins, estava de férias da escola, por isso, tinha mais tarefas a seu cargo, além de estudar, tinha de tratar dos animais e, fazer os recados da casa, assim, na noite do dia 15 de Abril, o seu pai começou a nomear o que ele devia fazer no dia seguinte, além do que já estava assente, o pai disse-lhe que depois de jantar (almoçar) tinha de ir à Froja (Forja) do ti Vicente (P.A.S.A.), saber quando estavam prontas as coisas que lá estavam a amanhar (arranjar) e, saber quanto era, mais ou menos, o custo do arranjo! Foi tudo repetido duas ou três vezes, devia ir lá e não se demorar, porque tinha muito trabalho a fazer, limpar o galinheiro e capoeira, o chiqueiro dos porcos, a choça das cabras e, à tardinha dar-lhe a ração e, durante o dia não deixar acabar a água aos animais! 
O Chiquinho, respondeu a tudo com um sim e, prometeu fazer tudo certinho a tempo e horas! 
No dia seguinte, 16 de Abril, assim que acordou lembrou-se que era dia de perna longa, uma vez que, ia à Forja, logo tinha uma boa oportunidade de ao passar por Capelins de Baixo, podia brincar a tarde toda, depois, o trabalho que estava riscado depressa o fazia e, a parte de estudar não era preciso, uma vez que, estava de férias e se fosse já estudar, quando começasse a escola não se lembrava de nada, era um desperdício! 
Durante a manhã, adiantou as tarefas, mas sempre reclamando, nunca mais chegava a hora de jantar (almoçar), para sair dali até Capelins de Baixo, onde brincava até haver uma hora de sol e, dali dava um pulo até à Forja e voltava para Capelins de Cima, onde chegaria com sol e a tempo de acabar o trabalho! 
O chiquinho elaborou bem o plano, por isso, nada podia falhar! 
Assim que acabou o prato de sopas de grãos, arredou a cadeira da mesa e disse à mãe: 
Chiquinho: Mãe, tenho de me ir já embora dar o recado que o pai mandou lá à Froja (Forja)! 
Mãe: Mas tu não comeste quase nada, Chico! Puxa lá a cadeira para a frente e come lá um bocadinho de pão com carne! 
Chiquinho: Oh mãe, vocemecê acha que comi pouco? Eu não estou aqui para engorda! Além disso, estou com muita pressa! 
Mãe: Mas estás com muita pressa porquê? Pouco passa do meio dia, ainda a Froja (Forja) está fechada! O ti Vicente está a jantar (almoçar) e não a abre a Froja (Forja)  antes da uma e tal! 
Chiquinho: Mau, mau, se sabe tanto da Froja (Forja) porque não vai lá vocemecê a dar o recado ao homem? 
Mãe: Cala-te Chico e come mais alguma coisa! 
Chiquinho: Não como! Já lhe disse que não como! Tenho de me ir embora! 
Mãe: Não vais, não! Queres que conte isto ao teu pai? Eu logo conto-lhe! 
Chiquinho: Alto lá! Não é preciso ir a contar nada a ninguém! Eu espero mais um bocadinho! 
Mãe: Então, se não queres comer mais nada, vai lá dar de comer aos cães e água aos bacros, às galinhas e trás os ovos que estiverem lá no postor, mas deixa lá um ovo, para elas saberem onde pôr! 
Chiquinho: Está bem! Só me vê a mim! Quando uma pessoa tem azar na vida calha-lhe o mal todo! Sem eu ter vagar nenhum, ainda tenho que fazer tudo nesta casa! Mas eu um dia vou-me embora daqui!
O chiquinho fez o que a mãe lhe mandou, mas sempre refilando e em menos de dez minutos estava tudo feito! 
Chiquinho: Mãe! Já fiz tudo o que mandou, posso ir dar o recado à Froja (Forja)?
Mãe: Não, o homem ainda não está lá, não tens nada que o ir incomodar lá a casa! 
Chiquinho: Oh mãe, vocemecê não vê que daqui até à forja a pé levo quase meia hora? Por isso, quando lá chegar já está aberta! 
Mãe: Tu levas meia hora até à Froja (Forja)? Nem dez minutos, pensas que não sei que vais a correr até lá! Tu nem sabes andar, só para onde não te agrada é que vais a andar e devagarinho! Para onde te agrada vais sempre a correr! 
Chiquinho: Vocemecê deve pensar que me agrada ir à Froja (Forja) a dar recados, não vê que é para ficar descansado! 
Mãe: É para ficares descansado é! Pensas que não te conheço! Se encontras brinca (brincadeira) no caminho até te esqueces do recado! 
Chiquinho: Quem a houve, até parece que já alguma vez me esqueci de alguma coisa que me mandaram fazer! 
Mãe: Pois não! Nunca te esqueces de nada, se não estivermos com o olho em ti, é todos os dias! 
Chiquinho: Olhe mãe, vocemecê quer é empatar-me aqui, logo não se admire das horas a que cá apareço! Quando lá chegar já há pessoas à minha frente e o ti Vicente manda-me esperar para me atender e, o mais certo é ter de passar lá a tarde à espera! 
Mãe: Olha Chico, vai-te embora que já nem te ouço! Não estejas cá a horas e já sabes que fazes contas com o teu pai e ficas a saber que eu não te tapo! 
Chiquinho: Mas tapar do quê? Eu estou cá muito antes do pai chegar! 
Mãe: Oh Chico, tu ainda sabes o que vais fazer à Froja (Forja)? 
Chiquinho: Sei, sei, são só duas coisas! Quando é que o pai pode ir buscar o que lá está a amahar e quanto custa! Grande coisa!
Mãe: Então vai-te embora e vê lá o que fazes para aí, olha que o teu pai não é macio contigo e depois vão-lhe contar o que por aí andas fazendo! 
Chiquinho: Eu sei o que lhe vão contar! Metade são mentiras e depois eu é que as pago! 
Mãe: São mentiras, são! Nem ele sabe de tudo o que se passa, senão, ainda apanhavas mais! 
Chiquinho: E vocemecê, parece que até gosta! Deixe que um dia, ainda desapareço desta aldeia, desapareço, desapareço! As pessoas só estão bem a fazer mal aos outros! Todos os dias levo uma sova, por coisas que não faço! Ainda se fizesse! Vá lá! 
Mãe: Sim, os outros é que têm a culpa do mal que tu fazes! Tu é que pensas que me enganas! 
Chiquinho: Vou-me embora! Não me está a agrdar nada a conversa! 
Mãe: Chico! Tu ouviste o que eu te disse? Não te demores! 
Chiquinho: Oh valha-me Deus! Ainda nem abalei e já quer que eu aqui esteja de volta! Eu não posso com isto! Mas para onde é que eu abalo de uma vez por todas! 
O Chiquinho, como morava no meio de Capelins de Cima, o caminho mais direto para Capelins de Baixo, era pela "talisca", uma vereda em que parte dela estava emparedada de ambos os lados, chegando a ter pouco mais de meio metro de largura na parte norte, sendo impossível, nesse espaço, o cruzamento entre dois transeuntes, logo, se alguém se fosse meter na talisca  na parte norte e viesse outra pessoa do sul, tinha de esperar a sua saída! Lá mais para baixo já se passava ombro a ombro! 
A talisca era muito concorrida, principalmente, pelo ti José, sapateiro, em Capelins de Cima, mas morador em Capelins de Baixo, o que o obrigava a utilizar a talisca pelo menos quatro vezes por dia, porque ia almoçar a casa! O ti José, era um homem alto, um pouco curvado e com pouca saúde, por isso, muitas vezes usava um cacheiro (bengala) para se equilibrar com mais seguranla e o ajudar na sua locomoção, mas o obrigava a ocupar mais espaço na largura da "talisca" reduzindo as hipóteses de ultrapassagem ou de cruzamento! Esta situação, já estava assinalada por alguns transeuntes que, acelaravam o passo para lá passar antes do amigo sapateiro, senão, passavam uma eternidade à espera de vaga, porque, ele andava muito devagarinho! 
O Chiquinho, saiu de casa a correr, como sempre e, entrou em grande velocidade pela talisca, mas quando levantou os olhos ficou espantado por a mesma estar completamente bloqueada! Ainda soltou um suspiro: Ai valha-me Deus, por onde é que eu agora passo? A meio da talisca vinha o ti José e o ti Vicente, um à frente do outro, davam um passo e paravam-se de conversa! O Chiquinho ficou parado ao cimo da talisca a pensar a maneira de contornar o obstáculo, por cima da parede da Ti Rosa, não dava, tinha feixas de lenha e ela não queria os gaiatos em cima da parede, era um grande risco, podia levar alguma tanganhada ou  ela ir contar ao pai e, aí era tanganhada certa! Por cima da outra parede do lado direito, também não era boa ideia, já tinha tido dissabores por isso! Podia passar por baixo das pernas deles, mas eles não iam deixar e se tentasse  podia levar alguma cacheirada! Os dois homens avistaram-no e, decerto repararam na sua impaciência, ele entrava a correr pela talisca dentro e, depois voltava dando passos para trás de frente para eles, foi então que eles pararam de vez! O Chiquinho, fez de tudo para que eles percebessem que ele estava à espera de passar, escondeu-se atrás da parede da ti Rosa na esperança de eles pensarem que tinha desistido e se tinha ido embora, mas quando espreitava só com um olho para que não o vissem, mas esqueceu-se de tirar o chapeu e, quando o olho alcançava o objetivo já aparecia mais de um palmo do chapéu, por isso, os transeuntes percebiam as manobras do Chiquinho e  continuavam inertes no mesmo lugar! Esteve quase a gritar-lhe para desentupirem a talisca que ele queria passar, mas conteve-se ao lembrar-se que, o pai frequentava a oficina do sapateiro à conversa e ia logo saber o que se tinha passado, depois, não se escapava de levar uns açoites! Estava irritado, porque era ele que se saia sempre mal e as pessoas desta aldeia diziam que, ele é que era o mau e, continuou dando saltos quase da altura da parede da talisca, para dar a entender que queria passar, mas não, estavam parados, paradinhos e nada os demovia dali! 
De repente, o Chiquinho lembrou-se que tinha uma boa alternativa e ficou irado por não se ter lembrado logo disso, esteve a cansar-se a dar pulos e, esse esforço tinha dado para contornar pelo Monte da Cruz e pelo poço largo, a correr, depressa dava a volta e ficava logo no fim da vereda que dava com a talisca! Quando acabou de pensar nisso, já ia a correr, dando a volta na rua para o Monte da Cruz! Nesse momento, ouviu um assobio dobrado, não ligou, porque pensou que não era para ele, mas logo a seguir, ouviu o seu nome! Ainda tentou continuar mas, outro brado mais forte fê-lo parar: Oh Chico Manel! Chico Manel! O Chiquinho não tinha como escapar! Pela voz, viu logo que era o ti José Maria e, à distância ripostou: 
Chiquinho: O que é que vocemecê quer, ti Zé? Não vê que vou com muita pressa! Agora, não tenho vagar nenhum!
Ti Zé: Qual pressa nem pressa! Só tens pressa para ires para a brincadeira! Chega lá aqui! 
Chiquinho: Oh homem, já lhe disse, vou com muita pressa fazer um recado ao meu pai e, era já para estar na Froja (Forja) mas taparam-me a talisca e há quase uma hora que estou ali à espera para passar, tive de vir por aqui e, sai-me vocemecê ao caminho ainda para me empatar mais! Eu venho cá logo à volta! 
Ti Zé: Não, não! Anda cá agora, eu depois falo com o teu pai! Digo-lhe que te empatei aqui para me ajudares! 
Chiquinho: Oh ti Zé, mas eu agora não posso, logo ou amanhã eu faço-lhe tudo o que precisar, mas de verdade, agora não posso!
Ti Zé: Olha Chico, se não vens cá agora, logo conto ao teu pai que me desobedeceste e depois já sabes o troco que levas! 
Chiquinho: Pronto! Diga lá o que quer! Isto é demais! Eu não aguento isto! E ainda por cima o mau sou sempre eu! Tomara desapercer desta aldeia! 
Ti Zé: Vá lá, não te zangues, sabes que te ajudo sempre que precisas! 
Chiquinho: Ajuda, ajuda! Não sei como vou dizer ao meu pai que não fiz o mandado por sua culpa e eu é que as vou pagar! 
Ti Zé: Fica descansado que eu falo com o teu pai, não te vai acontecer nada! 
Chiquinho: Não me acontece nada, não! A mim nunca me acontece nada! Veja lá que ainda mal saí de casa, já nem sei o que me aconteceu! Daqui até à noite, não vou aguentar! Mas vá, diga lá para que me chamou e, porque me está aqui a empatar? 
Ti Zé: É para me ajudares a fazer aqui um serviço! 
Chiquinho: O meu pai e a minha mãe dizem que eu não sei fazer nada! Como posso ajudá-lo a fazer um serviço? Porq2ue não pede aos eus filhos?
Ti Zé: Porque os meus filhos não estão cá, tenho a certeza que isto sabes fazer, anda lá! 
Chiquinho: Então, mas não me pode dizer que serviço é esse? Se eu não souber fazê- lo, escusa de me empatar e vou-me logo embora! 
Ti Zé: É para me ajudares a untar o carro (carroça)! 
No eixo de ferro temperado que entrava na manga das rodas das carroças tinha que, periódicamente, ser aplicada massa consistente para o mesmo não aquecer e partir-se ou empenar! Para se fazer esse trabalho tinham de levantar a carroça a braços, depois especá-la, a roda ficava no ar, tirava-se a cavilha e puxava-se a roda até à ponta do eixo, aplicava-se a dita massa que tinha uma mistura de pó de carvão mineral e, depois era só  empurrar a roda para o seu lugar, pôr a cavilha no lugar para segurar a roda, levantar novamente aquele lado da carroça a braços para tirar o espeque, baixava-se a carroça e estava o serviço feito naquela roda, depois era fazer tudo igual na outra roda e, ficava o carro untada! 
Chiquinho: Ora está a ver! É trabalho que não sei fazer! Sei fazer de tudo, menos isso! Vou-me andando! 
Ti Zé: Espera lá! Não é para untares nada! É só para pores o espeque debaixo do eixo do carro para eu tirar a roda! 
Chiquinho: Chó, chó! Isso é que eu não faço! Se deixa cair o carro em cima de mim, fico aí arreganhado que nem um passarinho! E depois, sou eu que ouço o meu pai? Vou-me andando! 
Ti Zé: Espera lá rapaz! Eu não deixo cair o carro, porque não tiro a roda, fica à ponta do eixo, se caisse, que nao cai, ficava firme na roda! Vá, vamos lá! 
Chiquinho: Vamos lá, vamos lá, vamos é ver o que vocemecê vai arranjar! 
Ti Zé: Então, tu não ajudas o teu pai a untar o carro? 
Chiquinho: Oh ti Zé, já lhe disse que é um trabalho que não sei fazer! O meu pai nem me quer lá perto dele, quando unta o carro, tem medo não me caia em cima! 
Ti Zé: O teu pai lá sabe! Vá, anda cá! Primeiro vamos travar a roda de lá, porque ao levantar o carro deste lado se aquela roda não estiver travada com uma pedra ele pde rodar e cair de cima do espeque! 
Chiquinho: Ah, agora já pode cair! Bem, caia, ou não caia, já vi que não abalo daqui hoje! Nunca pensei que untar um carro levasse quase um dia inteiro! 
Ti Zé: Não leva muito tempo! Aquela roda já está travada, agora eu levanto o carro deste lado e tu metes o espeque aqui no eixo, depois, eu vou baixando o carro e a roda fica no ar, tiro a cavilha, puxo a roda e unto o eixo e a manga! Vá, mete o espeque! 
O Chiquinho, com o medo que estava, não lhe caisse a carroça em cima, atirou o espeque de longe, o qual, foi cair debaixo dela! O trabalho começou a correr mal! O ti Zé baixou a carroça e, com calma explicou-lhe novamente, como tinha de fazer, mas só depois de várias tentativas lá conseguiu colocar o espeque no lugar e fazer o trabalho! Depois, fizeram tudo igual na outra roda e, depois de meia hora estava o carro untado!
Ti Zé: Ora estás a ver, já aprendeste a untar um carro! 
Chiquinho: Grande coisa que eu aprendi, pôr um espqeque no carro e alcançar-lhe a lata do unto! De resto fiquei a saber o que sabia! Mas empatou-me aqui bem empatado!
Ti Zé. Vocês, agora, já uns homens e não sabem fazer nada, nem querem aprender! Na tua idade já eu vestia ceroulas e andava com a parelha do meu avô! 
Chiquinho: Chó, ti Zé, ceroulas não são para mim, se gosta fique com elas todas! Eu não visto coisas dessas! 
Ti Zé: Não vestes? Então apanha lá uns geadões e depois diz-me se não vestes ceroulas! Então vestes cuequinhas de menina? 
Chiquinho: Olhe ti Zé, só lhe digo uma coisa, é dizer-me outra dessas e acabou-se o untar do carro, pode ir dizer ao meu pai, ou a quem quiser, mas eu nunca mais lhe unto o carro! Não quer mais nada? 
Ti Zé. Não! Podes ir lá à Froja! 
O Chiquinho põs-se a correr a caminho de Capelins de Baixo, mas antes ainda advertiu o ti José Maria para no caso de ser preciso dizer ao pai que ele tinha passado ali a tarde a untar o carro! O ti José Maria disse-lhe que sim, podia ir descansado! 
Quando o Chiquinho chegou a Capelins de Baixo já as brincadeiras estavam em andamento, geralmente começavam com jogar aos escondarêlos (escondidas), depois à apanhada, berlinde, pião, pateira e outros, naquele momento ainda estavam nos escondarêlos, o Chiquinho entrou logo mas teve de ser ele a "ficar-se" (tapar os olhos, contar até 20) e sair dali da barra (barra) a procurar os que se escondiam, depois ao encontrar algum, correr primeiro do que ele até à barra e contar 1,2,3 ficas-te! A brincadeira estava tão boa que o Chiquinho não deu por o tempo passar, era quase sol posto quando despertou, ficou muito aflito e correu imediatamente na direção da Forja! Depressa lá chegou, mas bateu com o nariz na porta, já estava fechada! Ficou muito apreensivo, restava-lhe dirigir-se à casa do ti Vicente e foi isso que fez, chegou à porta em grande alarido:
Chiquinho: Ti Vicente, ti Vicente!  Oh ti Vicente!
Quem é? Ai valha-me Deus, o que aconteceu? 
Chiquinho: Ah! É a ti Jacinta (P.A.S.A.)! Então o ti Vicente tem a Froja (Forja) fechada porquê? 
Ti Jacinta: Porque chegou a hora de fechar! Então porquê? O que lhe queres a esta hora? 
Chiquinho: Era só para lhe dar um recado do meu pai! 
Ti Jacinta: Ele anda ali para trás do Monte! 
O Chiquinho nem ouviu mais nada! Foi a correr em volta do Monte, encontrando o ti Vicente a tirar um balde de água do poço para lavar uma alface! 
Chiquinho: Eh ti Vicente! Cá onde vocemecê está! Há quase uma hora que ando por aí à sua procura! Hoje fechou a Froja mais cedo porquê? 
Ti Vicente: Não fechei nada mais cedo! Fechei, quando tinha de fechar e quando eu quis fechar! Porquê? 
Chiquinho: Por nada, ti Vicente! Já uma vez cá vim por esta hora e ainda ali estava a trabalhar! 
Ti Vicente: Isso foi alguma vez que estava com o trabalho apertado! Então o que queres? 
Chiquinho: O meu pai manda perguntar, quando é que pode vir buscar as coisas que tem cá a amanhar? Ah, e quanto custo tudo?
Ti Vicente: Diz lá ao teu pai que amanhã à tarde está tudo pronto, se quiser pode cá vir buscar as coisas! Ora, são cinco escudos da aiveca, cinco escudos da relha e sete e quinhentos da enxada, tudo são dezassete e quinhentos! 
Chiquinho: Dezassete e quinhentos? Bela conta! Até Capelins de Cima, decerto que me esqueço! 
Ti Vicente: Então se te esqueceres, diz ao teu pai que traga vinte escudos, que ainda leva troco! 
Chiquinho: Ah! Assim está bem! Dezassete e quinhentos? Dezassete e quinhentos? 
Ti Vicente: Sim! Não te disse já?
O sol já desaparecia no horizonte e o Chiquinho corria, corria, na sua direção, na esperança de o segurar até ele chegar a casa onde tinha de apresentar uma boa jsutificação pata não bater com a cara nas mãos do pai! O caminho de regresso foi o mais direto possível, inevitávelmente, pela talisca que, estava totalmente desimpedida! Entrou em casa, pé ante pé e para seu espanto não estava ninguém, andou a escutar pelas portas e nada! Quando já pensava que estava safo, ia a sair para averiguar o que se passava no quintal, deu de caras com o pai que vinha a entrar com uma tijela cheia de leite das cabras! Ficou atarantado, sem respiração e sem palavras, foi o pai que começou: 
Pai: Onde é que tens andado seu malandro? 
Chiquinho: Eu? Eu tenho estado aqui! Há muito tempo que aqui estou, mas não vi ninguém, agora ia ver o que se passava no quintal! 
Pai: Eu sei há quanto tempo estás aqui, mesmo agora vim buscar esta tijela e não estavas cá!
Chiquinho: Não estava? Mas olhe que eu já estou aqui há muito tempo! Devia estar ali para dentro!
Pai: Deixa-te de mentiras e diz-me lá onde tens andado? 
Chiquinho: Eu? Eu fui dar o recado ao ti Vicente da Froja (Forja)! 
Pai: Ainda por cima és mentiroso, foi preciso a tarde toda para dares o recado?  
Chiquinho: Ah! Não! É que aconteceram-me tantas coisas até chegar à Froja (Forja) que ainda pensei que não era capaz de dar o recado hoje! 
Pai: Ah sim? E que coisas foram essas que te empataram a tarde inteira? E o que disse o homem? 
O Chiquinho contou ao pai a conversa que teve com o ti Vicente, a situação do impedimento de passar pela talisca, dizendo que podia confirmar com o sapateiro e depois quando optou em dar a volta pelo Monte da Cruz, o ti José Maria o tinha chamado para o ajudar a untar o carro e por isso tinha passado a tarde a ajudá-lo, podia confirmar isso com o ti José Maria e depois logo via se ele estava a mentir e então logo ajustavam contas! 
O pai do Chiquinho não achou a justificação fora de jeito e, apenas exclamou: Está bem! Amanhã logo ajustamos as contas e já sabes, se estiveres a mentir, chego-te a roupa ao pêlo! Foi grande alívio para o Chiquinho, porque sabia que o ti José Maria não o ia deixar ficar mal! No dia seguinte, o pai do Chiquinho a caminho para a courela dirigiu-se ao ti José Maria a confirmar a afirmação do Chiquinho! O ti José Maria, confirmou tudo e disse-lhe que ele tinha passado ali a tarde quase toda a ajudá-lo a untar o carro e outros trabalhos, saindo dali já tarde! 
Quando o pai chegou a casa, vindo da courela, o Chiquinho já o esperava para o ajudar, muito confiante, porque sabia que daquela vez estava safo, mas já tinha dado uma volta por Capelins de Baixo. 
Agora, a talisca está abandonada, instransitável, a oficina do sapateiro está em ruínas, o ti José Maria há muitos anos que deixou a vida presente, o Monte da Cruz está quase desabitado, o poço largo ainda aí está, foi modificado, tapado e em redor ajardinado, a Forja está fechada, o Chiquinho cumpriu a promessa de abalar da aldeia e, embora por cá voltasse, anda por aí, longe da sua aldeia natal.

Fim 


  

domingo, 23 de setembro de 2018

438 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da Passagem do Rei D. José I pelas terras de Capelins em 1751 
Passavam os meses e a cidade de Elvas clamava pela presença do Rei D. José I para despachar assuntos de justiça e outros que se acumulavam e estavam a prejudicar a vida normal nesta cidade, mas devido à distância que a separava do Paço da Ribeira, o Rei ia adiando, até que, sua majestade a rainha Mariana Vitória, cansada dos ares de Lisboa, propôs ao monarca que a Família Real fosse com ele passar uns dias à inesquecível cidade de Elvas, onde, perto dela, tinha sido feita a troca das Princesas que a incluia! 
A Troca das Princesas realizou-se no dia 19 de Janeiro de 1729! Essa troca foi feita no Rio Caia, que faz fronteira entre os Concelhos de Elvas, Portugal e de  Badajoz, Espanha. A cerimónia fez-se literalmente a meio do rio, numa grande ponte-palácio de madeira ricamente decorada construida para a ocasião, com vários pavilhões em ambas as margens. 
Quase toda a Corte participou, tendo todas as vilas e lugares entre Lisboa e Elvas sido enfeitadas com arte efémera, tal como arcos triunfais, jardins artificiais, fontes e outros ornamentos, para receber os imensos cortejos na ida e na volta da fronteira. 
As princesas trocadas foram Dª Mariana Vitória, filha de Filipe V de Espanha e, Dª Maria Bárbara, filha de D. João V e irmã de D. José, que casou com o Pirncipe das Astúrias. 
A rainha Dª Mariana Vitória, não esqueceu como foi recebida e, ficou com Elvas no coração, porque, tinha sido ali a porta de entrada para o reino de Portugal, por isso, desejava ardentemente voltar a esse lugar e, apesar da viagem ser longa não hesitou e convenceu o rei em o acompanhar e aproveitar para mostrar aos filhos, o lugar onde foi trocada no rio Caia que lhe deixou tanta saudade, também foi aí que se separou dos seus familiares e amigos para iniciar uma nova vida no reino de Portugal! 
O rei D. José I, depois de ouvir os argumentos da rainha aceitou imediatamente e, deu ordens para se iniciarem os preparativos da viagem com a partida para daí a 8 dias e, na data marcada partiram pelo Alentejo dentro! Ao terceiro dia de viagem estavam em Elvas, atravessaram os campos do Alentejo no mês de Abril, em plena Primavera por, Alcácer do Sal, Alcáçovas, Évora, Estremoz, Elvas. 
O rei D. José I, tinha muito trabalho a afzer na cidade de Elvas, as justiças e outros assuntos, mas a rainha todos os dias cumpria o seu programa, foi duas vezes ao rio Caia, sem necessitar da sua companhia, a não ser nas várias festas que se realizaram com a presença das gentes importantes da cidade, arredores e de Espanha. 
Quando o rei estava com o trabalho aliviado, em conversa com o meirinho-mor disse-lhe que, estava cansado de tanta papelada e o que gostava de fazer no fim do trabalho eram umas boas caçadas, porque não havia desporto tão belo! 
O Meirinho-mor, incentivou o rei a fazer algumas caçadas por ali, ou melhor seria na sua montaria real no Roncão D' El-Rei, porque não havia outra igual, mas era um pouco longe dali, talvez 5/6 horas de cavalo! Esta sugestão despertou no rei a vontade de ir passar uns dias ao seu Roncão, mas estava ali a Família Real e tinha de a mandar seguir para Évora onde o podiam esperar! Quando acabou o trabalho foi dizer à rainha o que tinha decidido! A rainha perguntou-lhe onde ficava esse Roncão e, o rei explicou-lhe que era no termo (Concelho) de Monsaraz. perto do rio Guadiana! A rainha disse-lhe que já tinha ouvido falar nessa Vila Medieval e gostava muito de a conhecer! Não é aquela Vila que fica muito alta e se vê Espanha? Perguntou a rainha!  Sim, vê-se a Espanha quase toda! Respondeu o rei! Nesse caso, vamos todos com sua majestade e, se for possível descemos o rio Guadiana!  Disse a rainha! O rei chamou o caiptão mor da guarda real e participou-lhe o desejo da rainha! O capitão disse-lhe que seria muito difícil descer o rio Guadiana com as carruagens, mas podiam seguir por caminhos muito próximos, quase sempre com Espanha à vista! Mas tinham de arranjar esses caminhos, porque existiam muitos buracos e barrancos, mas isso depressa se arranjava, mandavam um piquete especializado para arranjar alguns troços e dez ordenanças comandados pelo sargento mor dizer aos lavradores para arranjar os caminhos que estavam dentro das suas herdades e, decerto que, em menos de oito dias os caminhos estavam todos arranjados! O rei concordou  e começaram logo a distribuir as  ordens! O caminho entre Elvas e o Roncão D' El-Rei, tinha de ser quase em linha reta e o mais próximo possível do rio Guadiana! Ainda tentaram o percurso por Juromenha, Alandroal, Terena e Aldeia de Reguengos, mas esse percurso foi logo rejeitado uma vez que, além de ser mais longo, afastava-se muito do rio Guadiana, podendo ser uma deceção para sua majestade a rainha! Então, foi decidido que, o percurso seria por Juromenha, Mina do Bugalho, Rosário, Defesa de Ferreira, Cabeça de Carneiro, Corval e fialmente Roncão, cujo espaço seria percorrido, incluindo 5/6 paragens para diversos fins, sem apertos cerca de 10 a 12 horas, com saída de Elvas pelas 5/6 horas da manhã e chegada ao Roncão à tardinha pelas 18/19 Horas. A operação começou naquela hora e, antes da data marcada para a partida estava tudo conclluído! As populações dos lugares junto aos caminhos que foram alvo de intervenção, ficaram surpreendidadas com tanto movimento e começaram a ouvir dizer que era para o rei e a rainha passar por ali, mas ninguém sabia em que dia ou hora e nem o que ia fazer por ali, alguns nem acreditavam, ainda se fosse o rei à caça! Mas o que vem uma rainha fazer a estes matos? Comentavam os moradores!  
No dia 18 de Maio de 1751, depois de meio dia sairam várias carroças, trens e charretes de apoio, levavam tendas para levantar nos lugares onde a caravana devia parar, anunciando que estava para breve a passagem dos monarcas por ali! 
No dia 19 de Maio de 1751, pouco depois da hora marcada a caravana real pôs-se em marcha escoltada por um pelotão especial da guarda real, mas todo o caminho estava guardado por ordenanças bem armados, porque iam passar por lugares onde por vezes apareciam bandidos! A primeira paragem foi na Mina do Bugalho, cerca de meia hora, a segunda paragem foi na Ribeira de Lucefécit, logo após a passagem no Porto das Águas Frias de Baixo, no altinho, já dentro da Defesa de Ferreira, chegando ali antes da hora prevista, ainda não era meio dia, admiraram a paisagem, ouviram a história da Vila de Ferreira Romana, lá no alto, onde se viam bem as paredes do Forte Romano e, ouviram a história da Ribeira de Lucefécit, que é mencionada nos versos do rei Afonso X, o que causou grande admiração e interesse por parte da rainha que quis saber tudo! 
Assim que almoçaram seguiram o antigo caminho da época romana para Capelins de Cima, chegaram ao Monte Grande da Casa do Infantado que, embora não fosse nada do que conhecemos, já mostrava grande imponência pelas grandes dimensões, sendo explicado aos monarcas a quem pertencia! Passaram a pequena aldeia de Capelins de Cima, composta por 8 a 10 casas, mas muitas cabanas e cabanões e, quando chegaram à Igreja Paroquial de Santo António, a rainha que era muito católica e ainda não tinha entrado numa Igreja nesse dia, mandou parar a carruagem, entrou na Igreja acompanhada pelo rei, damas e chanceler mor e começaram todos a orar! O Pároco António de Souza e Sylva, naquele momento estava dentro da Igreja, quando viu aquela gente, deduziu que eram os monarcas e ficou impávido, quando acabaram o rei dirigiu-se ao Pároco e apresentou-se, o Pároco atirou-se ao chão, parecia que tinha endoidecido, o rei pediu para se levantar e fez-lhe algumas perguntas, quantos fregueses tinha, se os moradores frequentavam a Igreja, de quem era a Igreja e outras, sendo tudo anotado pelo chanceler mor, o rei não se mostrou muito satisfeito com as respostas, mas despediu-se e sairam, tomaram lugar na carruagem real e seguiram o caminho já com Monsaraz à vista! O Pároco de Santo António, ficou atónito o resto do dia, o rei D. José I e a rainha Mariana Vitória, estiveram a orar na sua Igreja, e andou algum tempo a pensar que tinha sido um sonho. 
A caravana passou pelo Monte da Vinha, aldeia de Cabeça de Carneiro, herdade da Rendeira e seguiu até ao Roncão do Rei, onde chegaram mais cedo do que estava marcado, mesmo fazendo uma paragem de quase uma hora antes do Corval. 
O rei e a família Real ficaram alguns dias no seu Roncão, onde existiam boas instalações para todos, o rei fez grandes caçadas e uma semana depois chegaram à cidade de Évora, onde o rei tinha muito trabalho a fazer e muitas festas já marcadas, pela nobreza deste importante burgo. 
O rei, durante o seu trabalho em Évora, recebeu as altas individualidades, entre elas, uma das mais importantes nessa época, o Arcebispo Frei Miguel de Távora, trataram alguns assuntos sobre a Diocese, o padroado real e, por fim o rei disse-lhe que estava muito satisfeito com o desempenho das Igrejas do Bispado de Elvas, porém, não se passava o mesmo com uma pequena Igreja Paroquial, cujo padroeiro era Santo António e ficava no termo (Concelho) de Terena! O rei transmitiu-lhe o que constava no relatório do chanceler e que tinham sido as respostas do Pároco António de Souza e Sylva, depois, sugeriu ao Arcebispo para enviar lá um clérigo avaliar a situação e tomar as medidas que melhor entendesse para alterar o que por lá se passava, uma vez que, os moradores, jornaleiros, que trabalhavam para os lavradores eram impedidos de assistir às missas, frisando que, talvez fosse um caso para a Santa Inquisição, porque o Pároco deu-lhe a entender que havia por ali "marranos". O Arcebispo ficou muito incomodado e prometeu ao rei que seria ele em pessoa a ir visitar a Igreja Paroquial de Santo António, falar com os lavradores  e, exigir que todos os moradores daquela Paróquia fossem crismados! O rei anuiu e, o assunto ficou por ali!
O Arcebispo de Évora, Frei Miguel de Távora, enviou logo na semana seguinte um emissário, à Villa de Terena com uma carta para o Cónego, na qual mostrava grande insatisfação com o que se estava a passar na Paroquia de Santo António, dava algumas diretivas para aplicação imediata e informava que brevemente estaria presente na dita Paróquia para falar com moradores, com os lavradores e fazer a crisma de todas as pessoas que ainda não estivessem crismados! Adiantava para que, o Cónego do termo (Concelho) de Terena, o Pároco de Santo António e outros, deviam começar a preparar a cerimónia que, brevemente, lhe comunicaria, o dia em que estaria presente. Ainda nessa carta, pedia ao Cónego para começar imediatamente a corrigir a situação, porque era essa a vontade de sua magestade!  
A visita à Paroquia de Santo António, foi marcada no fim desse ano, e no dia 15 de Março de 1752 o Arcebispo Frei Miguel de Távora entrava na Igreja Paroquial de Santo António, nunca se tinha assistido a uma cerimónia religiosa como essa, foi recebido pelos Párocos do Concelho de Terena e arredores, pela população, com cânticos de boas vindas e com um grupo de música! Depois das apresentações e cumprimentos, o Arcebispo leu um discurso dirigido a todos os fregueses, no qual pedia aos lavradores para, aoss Domingos darem umas horas aos jornaleiros e outros trabalhadores, para poderem assistir à missa e purificar a sua alma, porque, se isso não acontecer, a Santa Inquisição pode passar por cá e não queremos isso! Também, lembrou que suas majestades o rei D. José e a rainha Dª Mariana Vitória, tinham orado na Igreja de Santo António e não gostaram do que aqui ouviram, por isso, é sua vontade que todas as pessoas possam assistir às missas! Depois do discurso começou a crisma, as 158 pessoas que iam ser crismadas estavam alinhadas, vestindo as melhores roupas que conseguiram, ladeados pelos padrinhos, e tudo decorreu como planeado! A cerimónia durou o dia todo e, pela tardinha o Arcebispo Frei Miguel de Távora regressou à Vila de Terena, onde dormiu, para no dia seguinte continuar a sua viagem para a Diocese de Évora.
A partir desse dia, verificou-se grande mudança na Paróquia de Santo António, durante as missas de Domingo, mais de metade da população não tinha lugar dentro da Igreja, tinham de abrir a porta grande ao fundo, para os homens que ficavam de fora poderem assistir à missa! Os lavradores, talvez com receio da Santa Inquisição, obrigavam os criados e criadas a assistir às missas, era ouvi-los: "Vá Maneli tens dir à missa home"! "Mas eu nã sei razar! O que vou lá fazer patrão? Respondiam alguns criados! "Nã sei, logo aprendes, eu é que nã quero aqui a Inquisição à porta"! Diziam os lavradores!
Este foi o resultado da passagem do rei D. José I e da rainha Mariana Vitória, pelas terras de Capelins, no dia 19 de Maio de 1751.  

Fim 

D. José I



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

437- Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A herdade do Roncão em Capelins 
Desconhece-se a sua origem, no entanto tem-se a certeza que é terra de animais que roncam: javalis, caititus, gatos-bravos, saca-rabos, raposas e é terra onde está bem presente o genuíno provérbio Quem porcos acha menos - em cada moita lhe roncam, que está patente no auto da barca do Inferno de Gil Vicente. 
As terras da Vila de Ferreira (hoje Freguesia de Capelins) entre 1433 e 1674 foram da família Freire de Andrade, mas há documentos em Espanha que se referem aos Freires de Andrade e, ao mesmo tempo ao Rei de Portugal, "Defesa do Rei", significa que, o mesmo tinha parte da Vila de Ferreira e essa parte só podia ser a herdade do Roncão, ou seja, "Coutada do Rei", também mencionada de forma pouco clara em documentos portugueses! 
Como sabemos, as Azenhas D' El-Rei ficam dentro da dita herdade, mas temos provas de que nos finais de 1700 já não eram do Rei.
Com a Revolução Liberal procurou-se acabar com o sistema de coutadas, tendo mesmo sido promulgado um decreto que extinguia o cargo de Monteiro-mor, em 18 de Agosto de 1821. Porém, o fervor revolucionário foi interrompido logo em 1823 e no ano seguinte tudo tinha voltado à situação inicial. Só em 1834, após a vitória do Liberalismo, é que foi extinta definitivamente a Montaria-mor do Reino, depois de mais de 300 anos de história. 
Com a Reforma Agrária de 1834 as herdades da Vila de Ferreira, incluindo a herdade do Roncão, foram todas repartidas em menores dimensões e, em courelas, dando lugar a imensos seareiros e, por consequência, ao aumento da população da Freguesia de Capelins.



584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...