domingo, 30 de setembro de 2018

439 - Terras de Capelins
As lendas do Chiquinho de Capelins 
A lenda do Chiquinho foi à Forja
Na semana antes da Páscoa do ano de 1968, o Chico Manel, conhecido pelo Chiquinho de Capelins, estava de férias da escola, por isso, tinha mais tarefas a seu cargo, além de estudar, tinha de tratar dos animais e, fazer os recados da casa, assim, na noite do dia 15 de Abril, o seu pai começou a nomear o que ele devia fazer no dia seguinte, além do que já estava assente, o pai disse-lhe que depois de jantar (almoçar) tinha de ir à Froja (Forja) do ti Vicente (P.A.S.A.), saber quando estavam prontas as coisas que lá estavam a amanhar (arranjar) e, saber quanto era, mais ou menos, o custo do arranjo! Foi tudo repetido duas ou três vezes, devia ir lá e não se demorar, porque tinha muito trabalho a fazer, limpar o galinheiro e capoeira, o chiqueiro dos porcos, a choça das cabras e, à tardinha dar-lhe a ração e, durante o dia não deixar acabar a água aos animais! 
O Chiquinho, respondeu a tudo com um sim e, prometeu fazer tudo certinho a tempo e horas! 
No dia seguinte, 16 de Abril, assim que acordou lembrou-se que era dia de perna longa, uma vez que, ia à Forja, logo tinha uma boa oportunidade de ao passar por Capelins de Baixo, podia brincar a tarde toda, depois, o trabalho que estava riscado depressa o fazia e, a parte de estudar não era preciso, uma vez que, estava de férias e se fosse já estudar, quando começasse a escola não se lembrava de nada, era um desperdício! 
Durante a manhã, adiantou as tarefas, mas sempre reclamando, nunca mais chegava a hora de jantar (almoçar), para sair dali até Capelins de Baixo, onde brincava até haver uma hora de sol e, dali dava um pulo até à Forja e voltava para Capelins de Cima, onde chegaria com sol e a tempo de acabar o trabalho! 
O chiquinho elaborou bem o plano, por isso, nada podia falhar! 
Assim que acabou o prato de sopas de grãos, arredou a cadeira da mesa e disse à mãe: 
Chiquinho: Mãe, tenho de me ir já embora dar o recado que o pai mandou lá à Froja (Forja)! 
Mãe: Mas tu não comeste quase nada, Chico! Puxa lá a cadeira para a frente e come lá um bocadinho de pão com carne! 
Chiquinho: Oh mãe, vocemecê acha que comi pouco? Eu não estou aqui para engorda! Além disso, estou com muita pressa! 
Mãe: Mas estás com muita pressa porquê? Pouco passa do meio dia, ainda a Froja (Forja) está fechada! O ti Vicente está a jantar (almoçar) e não a abre a Froja (Forja)  antes da uma e tal! 
Chiquinho: Mau, mau, se sabe tanto da Froja (Forja) porque não vai lá vocemecê a dar o recado ao homem? 
Mãe: Cala-te Chico e come mais alguma coisa! 
Chiquinho: Não como! Já lhe disse que não como! Tenho de me ir embora! 
Mãe: Não vais, não! Queres que conte isto ao teu pai? Eu logo conto-lhe! 
Chiquinho: Alto lá! Não é preciso ir a contar nada a ninguém! Eu espero mais um bocadinho! 
Mãe: Então, se não queres comer mais nada, vai lá dar de comer aos cães e água aos bacros, às galinhas e trás os ovos que estiverem lá no postor, mas deixa lá um ovo, para elas saberem onde pôr! 
Chiquinho: Está bem! Só me vê a mim! Quando uma pessoa tem azar na vida calha-lhe o mal todo! Sem eu ter vagar nenhum, ainda tenho que fazer tudo nesta casa! Mas eu um dia vou-me embora daqui!
O chiquinho fez o que a mãe lhe mandou, mas sempre refilando e em menos de dez minutos estava tudo feito! 
Chiquinho: Mãe! Já fiz tudo o que mandou, posso ir dar o recado à Froja (Forja)?
Mãe: Não, o homem ainda não está lá, não tens nada que o ir incomodar lá a casa! 
Chiquinho: Oh mãe, vocemecê não vê que daqui até à forja a pé levo quase meia hora? Por isso, quando lá chegar já está aberta! 
Mãe: Tu levas meia hora até à Froja (Forja)? Nem dez minutos, pensas que não sei que vais a correr até lá! Tu nem sabes andar, só para onde não te agrada é que vais a andar e devagarinho! Para onde te agrada vais sempre a correr! 
Chiquinho: Vocemecê deve pensar que me agrada ir à Froja (Forja) a dar recados, não vê que é para ficar descansado! 
Mãe: É para ficares descansado é! Pensas que não te conheço! Se encontras brinca (brincadeira) no caminho até te esqueces do recado! 
Chiquinho: Quem a houve, até parece que já alguma vez me esqueci de alguma coisa que me mandaram fazer! 
Mãe: Pois não! Nunca te esqueces de nada, se não estivermos com o olho em ti, é todos os dias! 
Chiquinho: Olhe mãe, vocemecê quer é empatar-me aqui, logo não se admire das horas a que cá apareço! Quando lá chegar já há pessoas à minha frente e o ti Vicente manda-me esperar para me atender e, o mais certo é ter de passar lá a tarde à espera! 
Mãe: Olha Chico, vai-te embora que já nem te ouço! Não estejas cá a horas e já sabes que fazes contas com o teu pai e ficas a saber que eu não te tapo! 
Chiquinho: Mas tapar do quê? Eu estou cá muito antes do pai chegar! 
Mãe: Oh Chico, tu ainda sabes o que vais fazer à Froja (Forja)? 
Chiquinho: Sei, sei, são só duas coisas! Quando é que o pai pode ir buscar o que lá está a amahar e quanto custa! Grande coisa!
Mãe: Então vai-te embora e vê lá o que fazes para aí, olha que o teu pai não é macio contigo e depois vão-lhe contar o que por aí andas fazendo! 
Chiquinho: Eu sei o que lhe vão contar! Metade são mentiras e depois eu é que as pago! 
Mãe: São mentiras, são! Nem ele sabe de tudo o que se passa, senão, ainda apanhavas mais! 
Chiquinho: E vocemecê, parece que até gosta! Deixe que um dia, ainda desapareço desta aldeia, desapareço, desapareço! As pessoas só estão bem a fazer mal aos outros! Todos os dias levo uma sova, por coisas que não faço! Ainda se fizesse! Vá lá! 
Mãe: Sim, os outros é que têm a culpa do mal que tu fazes! Tu é que pensas que me enganas! 
Chiquinho: Vou-me embora! Não me está a agrdar nada a conversa! 
Mãe: Chico! Tu ouviste o que eu te disse? Não te demores! 
Chiquinho: Oh valha-me Deus! Ainda nem abalei e já quer que eu aqui esteja de volta! Eu não posso com isto! Mas para onde é que eu abalo de uma vez por todas! 
O Chiquinho, como morava no meio de Capelins de Cima, o caminho mais direto para Capelins de Baixo, era pela "talisca", uma vereda em que parte dela estava emparedada de ambos os lados, chegando a ter pouco mais de meio metro de largura na parte norte, sendo impossível, nesse espaço, o cruzamento entre dois transeuntes, logo, se alguém se fosse meter na talisca  na parte norte e viesse outra pessoa do sul, tinha de esperar a sua saída! Lá mais para baixo já se passava ombro a ombro! 
A talisca era muito concorrida, principalmente, pelo ti José, sapateiro, em Capelins de Cima, mas morador em Capelins de Baixo, o que o obrigava a utilizar a talisca pelo menos quatro vezes por dia, porque ia almoçar a casa! O ti José, era um homem alto, um pouco curvado e com pouca saúde, por isso, muitas vezes usava um cacheiro (bengala) para se equilibrar com mais seguranla e o ajudar na sua locomoção, mas o obrigava a ocupar mais espaço na largura da "talisca" reduzindo as hipóteses de ultrapassagem ou de cruzamento! Esta situação, já estava assinalada por alguns transeuntes que, acelaravam o passo para lá passar antes do amigo sapateiro, senão, passavam uma eternidade à espera de vaga, porque, ele andava muito devagarinho! 
O Chiquinho, saiu de casa a correr, como sempre e, entrou em grande velocidade pela talisca, mas quando levantou os olhos ficou espantado por a mesma estar completamente bloqueada! Ainda soltou um suspiro: Ai valha-me Deus, por onde é que eu agora passo? A meio da talisca vinha o ti José e o ti Vicente, um à frente do outro, davam um passo e paravam-se de conversa! O Chiquinho ficou parado ao cimo da talisca a pensar a maneira de contornar o obstáculo, por cima da parede da Ti Rosa, não dava, tinha feixas de lenha e ela não queria os gaiatos em cima da parede, era um grande risco, podia levar alguma tanganhada ou  ela ir contar ao pai e, aí era tanganhada certa! Por cima da outra parede do lado direito, também não era boa ideia, já tinha tido dissabores por isso! Podia passar por baixo das pernas deles, mas eles não iam deixar e se tentasse  podia levar alguma cacheirada! Os dois homens avistaram-no e, decerto repararam na sua impaciência, ele entrava a correr pela talisca dentro e, depois voltava dando passos para trás de frente para eles, foi então que eles pararam de vez! O Chiquinho, fez de tudo para que eles percebessem que ele estava à espera de passar, escondeu-se atrás da parede da ti Rosa na esperança de eles pensarem que tinha desistido e se tinha ido embora, mas quando espreitava só com um olho para que não o vissem, mas esqueceu-se de tirar o chapeu e, quando o olho alcançava o objetivo já aparecia mais de um palmo do chapéu, por isso, os transeuntes percebiam as manobras do Chiquinho e  continuavam inertes no mesmo lugar! Esteve quase a gritar-lhe para desentupirem a talisca que ele queria passar, mas conteve-se ao lembrar-se que, o pai frequentava a oficina do sapateiro à conversa e ia logo saber o que se tinha passado, depois, não se escapava de levar uns açoites! Estava irritado, porque era ele que se saia sempre mal e as pessoas desta aldeia diziam que, ele é que era o mau e, continuou dando saltos quase da altura da parede da talisca, para dar a entender que queria passar, mas não, estavam parados, paradinhos e nada os demovia dali! 
De repente, o Chiquinho lembrou-se que tinha uma boa alternativa e ficou irado por não se ter lembrado logo disso, esteve a cansar-se a dar pulos e, esse esforço tinha dado para contornar pelo Monte da Cruz e pelo poço largo, a correr, depressa dava a volta e ficava logo no fim da vereda que dava com a talisca! Quando acabou de pensar nisso, já ia a correr, dando a volta na rua para o Monte da Cruz! Nesse momento, ouviu um assobio dobrado, não ligou, porque pensou que não era para ele, mas logo a seguir, ouviu o seu nome! Ainda tentou continuar mas, outro brado mais forte fê-lo parar: Oh Chico Manel! Chico Manel! O Chiquinho não tinha como escapar! Pela voz, viu logo que era o ti José Maria e, à distância ripostou: 
Chiquinho: O que é que vocemecê quer, ti Zé? Não vê que vou com muita pressa! Agora, não tenho vagar nenhum!
Ti Zé: Qual pressa nem pressa! Só tens pressa para ires para a brincadeira! Chega lá aqui! 
Chiquinho: Oh homem, já lhe disse, vou com muita pressa fazer um recado ao meu pai e, era já para estar na Froja (Forja) mas taparam-me a talisca e há quase uma hora que estou ali à espera para passar, tive de vir por aqui e, sai-me vocemecê ao caminho ainda para me empatar mais! Eu venho cá logo à volta! 
Ti Zé: Não, não! Anda cá agora, eu depois falo com o teu pai! Digo-lhe que te empatei aqui para me ajudares! 
Chiquinho: Oh ti Zé, mas eu agora não posso, logo ou amanhã eu faço-lhe tudo o que precisar, mas de verdade, agora não posso!
Ti Zé: Olha Chico, se não vens cá agora, logo conto ao teu pai que me desobedeceste e depois já sabes o troco que levas! 
Chiquinho: Pronto! Diga lá o que quer! Isto é demais! Eu não aguento isto! E ainda por cima o mau sou sempre eu! Tomara desapercer desta aldeia! 
Ti Zé: Vá lá, não te zangues, sabes que te ajudo sempre que precisas! 
Chiquinho: Ajuda, ajuda! Não sei como vou dizer ao meu pai que não fiz o mandado por sua culpa e eu é que as vou pagar! 
Ti Zé: Fica descansado que eu falo com o teu pai, não te vai acontecer nada! 
Chiquinho: Não me acontece nada, não! A mim nunca me acontece nada! Veja lá que ainda mal saí de casa, já nem sei o que me aconteceu! Daqui até à noite, não vou aguentar! Mas vá, diga lá para que me chamou e, porque me está aqui a empatar? 
Ti Zé: É para me ajudares a fazer aqui um serviço! 
Chiquinho: O meu pai e a minha mãe dizem que eu não sei fazer nada! Como posso ajudá-lo a fazer um serviço? Porq2ue não pede aos eus filhos?
Ti Zé: Porque os meus filhos não estão cá, tenho a certeza que isto sabes fazer, anda lá! 
Chiquinho: Então, mas não me pode dizer que serviço é esse? Se eu não souber fazê- lo, escusa de me empatar e vou-me logo embora! 
Ti Zé: É para me ajudares a untar o carro (carroça)! 
No eixo de ferro temperado que entrava na manga das rodas das carroças tinha que, periódicamente, ser aplicada massa consistente para o mesmo não aquecer e partir-se ou empenar! Para se fazer esse trabalho tinham de levantar a carroça a braços, depois especá-la, a roda ficava no ar, tirava-se a cavilha e puxava-se a roda até à ponta do eixo, aplicava-se a dita massa que tinha uma mistura de pó de carvão mineral e, depois era só  empurrar a roda para o seu lugar, pôr a cavilha no lugar para segurar a roda, levantar novamente aquele lado da carroça a braços para tirar o espeque, baixava-se a carroça e estava o serviço feito naquela roda, depois era fazer tudo igual na outra roda e, ficava o carro untada! 
Chiquinho: Ora está a ver! É trabalho que não sei fazer! Sei fazer de tudo, menos isso! Vou-me andando! 
Ti Zé: Espera lá! Não é para untares nada! É só para pores o espeque debaixo do eixo do carro para eu tirar a roda! 
Chiquinho: Chó, chó! Isso é que eu não faço! Se deixa cair o carro em cima de mim, fico aí arreganhado que nem um passarinho! E depois, sou eu que ouço o meu pai? Vou-me andando! 
Ti Zé: Espera lá rapaz! Eu não deixo cair o carro, porque não tiro a roda, fica à ponta do eixo, se caisse, que nao cai, ficava firme na roda! Vá, vamos lá! 
Chiquinho: Vamos lá, vamos lá, vamos é ver o que vocemecê vai arranjar! 
Ti Zé: Então, tu não ajudas o teu pai a untar o carro? 
Chiquinho: Oh ti Zé, já lhe disse que é um trabalho que não sei fazer! O meu pai nem me quer lá perto dele, quando unta o carro, tem medo não me caia em cima! 
Ti Zé: O teu pai lá sabe! Vá, anda cá! Primeiro vamos travar a roda de lá, porque ao levantar o carro deste lado se aquela roda não estiver travada com uma pedra ele pde rodar e cair de cima do espeque! 
Chiquinho: Ah, agora já pode cair! Bem, caia, ou não caia, já vi que não abalo daqui hoje! Nunca pensei que untar um carro levasse quase um dia inteiro! 
Ti Zé: Não leva muito tempo! Aquela roda já está travada, agora eu levanto o carro deste lado e tu metes o espeque aqui no eixo, depois, eu vou baixando o carro e a roda fica no ar, tiro a cavilha, puxo a roda e unto o eixo e a manga! Vá, mete o espeque! 
O Chiquinho, com o medo que estava, não lhe caisse a carroça em cima, atirou o espeque de longe, o qual, foi cair debaixo dela! O trabalho começou a correr mal! O ti Zé baixou a carroça e, com calma explicou-lhe novamente, como tinha de fazer, mas só depois de várias tentativas lá conseguiu colocar o espeque no lugar e fazer o trabalho! Depois, fizeram tudo igual na outra roda e, depois de meia hora estava o carro untado!
Ti Zé: Ora estás a ver, já aprendeste a untar um carro! 
Chiquinho: Grande coisa que eu aprendi, pôr um espqeque no carro e alcançar-lhe a lata do unto! De resto fiquei a saber o que sabia! Mas empatou-me aqui bem empatado!
Ti Zé. Vocês, agora, já uns homens e não sabem fazer nada, nem querem aprender! Na tua idade já eu vestia ceroulas e andava com a parelha do meu avô! 
Chiquinho: Chó, ti Zé, ceroulas não são para mim, se gosta fique com elas todas! Eu não visto coisas dessas! 
Ti Zé: Não vestes? Então apanha lá uns geadões e depois diz-me se não vestes ceroulas! Então vestes cuequinhas de menina? 
Chiquinho: Olhe ti Zé, só lhe digo uma coisa, é dizer-me outra dessas e acabou-se o untar do carro, pode ir dizer ao meu pai, ou a quem quiser, mas eu nunca mais lhe unto o carro! Não quer mais nada? 
Ti Zé. Não! Podes ir lá à Froja! 
O Chiquinho põs-se a correr a caminho de Capelins de Baixo, mas antes ainda advertiu o ti José Maria para no caso de ser preciso dizer ao pai que ele tinha passado ali a tarde a untar o carro! O ti José Maria disse-lhe que sim, podia ir descansado! 
Quando o Chiquinho chegou a Capelins de Baixo já as brincadeiras estavam em andamento, geralmente começavam com jogar aos escondarêlos (escondidas), depois à apanhada, berlinde, pião, pateira e outros, naquele momento ainda estavam nos escondarêlos, o Chiquinho entrou logo mas teve de ser ele a "ficar-se" (tapar os olhos, contar até 20) e sair dali da barra (barra) a procurar os que se escondiam, depois ao encontrar algum, correr primeiro do que ele até à barra e contar 1,2,3 ficas-te! A brincadeira estava tão boa que o Chiquinho não deu por o tempo passar, era quase sol posto quando despertou, ficou muito aflito e correu imediatamente na direção da Forja! Depressa lá chegou, mas bateu com o nariz na porta, já estava fechada! Ficou muito apreensivo, restava-lhe dirigir-se à casa do ti Vicente e foi isso que fez, chegou à porta em grande alarido:
Chiquinho: Ti Vicente, ti Vicente!  Oh ti Vicente!
Quem é? Ai valha-me Deus, o que aconteceu? 
Chiquinho: Ah! É a ti Jacinta (P.A.S.A.)! Então o ti Vicente tem a Froja (Forja) fechada porquê? 
Ti Jacinta: Porque chegou a hora de fechar! Então porquê? O que lhe queres a esta hora? 
Chiquinho: Era só para lhe dar um recado do meu pai! 
Ti Jacinta: Ele anda ali para trás do Monte! 
O Chiquinho nem ouviu mais nada! Foi a correr em volta do Monte, encontrando o ti Vicente a tirar um balde de água do poço para lavar uma alface! 
Chiquinho: Eh ti Vicente! Cá onde vocemecê está! Há quase uma hora que ando por aí à sua procura! Hoje fechou a Froja mais cedo porquê? 
Ti Vicente: Não fechei nada mais cedo! Fechei, quando tinha de fechar e quando eu quis fechar! Porquê? 
Chiquinho: Por nada, ti Vicente! Já uma vez cá vim por esta hora e ainda ali estava a trabalhar! 
Ti Vicente: Isso foi alguma vez que estava com o trabalho apertado! Então o que queres? 
Chiquinho: O meu pai manda perguntar, quando é que pode vir buscar as coisas que tem cá a amanhar? Ah, e quanto custo tudo?
Ti Vicente: Diz lá ao teu pai que amanhã à tarde está tudo pronto, se quiser pode cá vir buscar as coisas! Ora, são cinco escudos da aiveca, cinco escudos da relha e sete e quinhentos da enxada, tudo são dezassete e quinhentos! 
Chiquinho: Dezassete e quinhentos? Bela conta! Até Capelins de Cima, decerto que me esqueço! 
Ti Vicente: Então se te esqueceres, diz ao teu pai que traga vinte escudos, que ainda leva troco! 
Chiquinho: Ah! Assim está bem! Dezassete e quinhentos? Dezassete e quinhentos? 
Ti Vicente: Sim! Não te disse já?
O sol já desaparecia no horizonte e o Chiquinho corria, corria, na sua direção, na esperança de o segurar até ele chegar a casa onde tinha de apresentar uma boa jsutificação pata não bater com a cara nas mãos do pai! O caminho de regresso foi o mais direto possível, inevitávelmente, pela talisca que, estava totalmente desimpedida! Entrou em casa, pé ante pé e para seu espanto não estava ninguém, andou a escutar pelas portas e nada! Quando já pensava que estava safo, ia a sair para averiguar o que se passava no quintal, deu de caras com o pai que vinha a entrar com uma tijela cheia de leite das cabras! Ficou atarantado, sem respiração e sem palavras, foi o pai que começou: 
Pai: Onde é que tens andado seu malandro? 
Chiquinho: Eu? Eu tenho estado aqui! Há muito tempo que aqui estou, mas não vi ninguém, agora ia ver o que se passava no quintal! 
Pai: Eu sei há quanto tempo estás aqui, mesmo agora vim buscar esta tijela e não estavas cá!
Chiquinho: Não estava? Mas olhe que eu já estou aqui há muito tempo! Devia estar ali para dentro!
Pai: Deixa-te de mentiras e diz-me lá onde tens andado? 
Chiquinho: Eu? Eu fui dar o recado ao ti Vicente da Froja (Forja)! 
Pai: Ainda por cima és mentiroso, foi preciso a tarde toda para dares o recado?  
Chiquinho: Ah! Não! É que aconteceram-me tantas coisas até chegar à Froja (Forja) que ainda pensei que não era capaz de dar o recado hoje! 
Pai: Ah sim? E que coisas foram essas que te empataram a tarde inteira? E o que disse o homem? 
O Chiquinho contou ao pai a conversa que teve com o ti Vicente, a situação do impedimento de passar pela talisca, dizendo que podia confirmar com o sapateiro e depois quando optou em dar a volta pelo Monte da Cruz, o ti José Maria o tinha chamado para o ajudar a untar o carro e por isso tinha passado a tarde a ajudá-lo, podia confirmar isso com o ti José Maria e depois logo via se ele estava a mentir e então logo ajustavam contas! 
O pai do Chiquinho não achou a justificação fora de jeito e, apenas exclamou: Está bem! Amanhã logo ajustamos as contas e já sabes, se estiveres a mentir, chego-te a roupa ao pêlo! Foi grande alívio para o Chiquinho, porque sabia que o ti José Maria não o ia deixar ficar mal! No dia seguinte, o pai do Chiquinho a caminho para a courela dirigiu-se ao ti José Maria a confirmar a afirmação do Chiquinho! O ti José Maria, confirmou tudo e disse-lhe que ele tinha passado ali a tarde quase toda a ajudá-lo a untar o carro e outros trabalhos, saindo dali já tarde! 
Quando o pai chegou a casa, vindo da courela, o Chiquinho já o esperava para o ajudar, muito confiante, porque sabia que daquela vez estava safo, mas já tinha dado uma volta por Capelins de Baixo. 
Agora, a talisca está abandonada, instransitável, a oficina do sapateiro está em ruínas, o ti José Maria há muitos anos que deixou a vida presente, o Monte da Cruz está quase desabitado, o poço largo ainda aí está, foi modificado, tapado e em redor ajardinado, a Forja está fechada, o Chiquinho cumpriu a promessa de abalar da aldeia e, embora por cá voltasse, anda por aí, longe da sua aldeia natal.

Fim 


  

domingo, 23 de setembro de 2018

438 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da Passagem do Rei D. José I pelas terras de Capelins em 1751 
Passavam os meses e a cidade de Elvas clamava pela presença do Rei D. José I para despachar assuntos de justiça e outros que se acumulavam e estavam a prejudicar a vida normal nesta cidade, mas devido à distância que a separava do Paço da Ribeira, o Rei ia adiando, até que, sua majestade a rainha Mariana Vitória, cansada dos ares de Lisboa, propôs ao monarca que a Família Real fosse com ele passar uns dias à inesquecível cidade de Elvas, onde, perto dela, tinha sido feita a troca das Princesas que a incluia! 
A Troca das Princesas realizou-se no dia 19 de Janeiro de 1729! Essa troca foi feita no Rio Caia, que faz fronteira entre os Concelhos de Elvas, Portugal e de  Badajoz, Espanha. A cerimónia fez-se literalmente a meio do rio, numa grande ponte-palácio de madeira ricamente decorada construida para a ocasião, com vários pavilhões em ambas as margens. 
Quase toda a Corte participou, tendo todas as vilas e lugares entre Lisboa e Elvas sido enfeitadas com arte efémera, tal como arcos triunfais, jardins artificiais, fontes e outros ornamentos, para receber os imensos cortejos na ida e na volta da fronteira. 
As princesas trocadas foram Dª Mariana Vitória, filha de Filipe V de Espanha e, Dª Maria Bárbara, filha de D. João V e irmã de D. José, que casou com o Pirncipe das Astúrias. 
A rainha Dª Mariana Vitória, não esqueceu como foi recebida e, ficou com Elvas no coração, porque, tinha sido ali a porta de entrada para o reino de Portugal, por isso, desejava ardentemente voltar a esse lugar e, apesar da viagem ser longa não hesitou e convenceu o rei em o acompanhar e aproveitar para mostrar aos filhos, o lugar onde foi trocada no rio Caia que lhe deixou tanta saudade, também foi aí que se separou dos seus familiares e amigos para iniciar uma nova vida no reino de Portugal! 
O rei D. José I, depois de ouvir os argumentos da rainha aceitou imediatamente e, deu ordens para se iniciarem os preparativos da viagem com a partida para daí a 8 dias e, na data marcada partiram pelo Alentejo dentro! Ao terceiro dia de viagem estavam em Elvas, atravessaram os campos do Alentejo no mês de Abril, em plena Primavera por, Alcácer do Sal, Alcáçovas, Évora, Estremoz, Elvas. 
O rei D. José I, tinha muito trabalho a afzer na cidade de Elvas, as justiças e outros assuntos, mas a rainha todos os dias cumpria o seu programa, foi duas vezes ao rio Caia, sem necessitar da sua companhia, a não ser nas várias festas que se realizaram com a presença das gentes importantes da cidade, arredores e de Espanha. 
Quando o rei estava com o trabalho aliviado, em conversa com o meirinho-mor disse-lhe que, estava cansado de tanta papelada e o que gostava de fazer no fim do trabalho eram umas boas caçadas, porque não havia desporto tão belo! 
O Meirinho-mor, incentivou o rei a fazer algumas caçadas por ali, ou melhor seria na sua montaria real no Roncão D' El-Rei, porque não havia outra igual, mas era um pouco longe dali, talvez 5/6 horas de cavalo! Esta sugestão despertou no rei a vontade de ir passar uns dias ao seu Roncão, mas estava ali a Família Real e tinha de a mandar seguir para Évora onde o podiam esperar! Quando acabou o trabalho foi dizer à rainha o que tinha decidido! A rainha perguntou-lhe onde ficava esse Roncão e, o rei explicou-lhe que era no termo (Concelho) de Monsaraz. perto do rio Guadiana! A rainha disse-lhe que já tinha ouvido falar nessa Vila Medieval e gostava muito de a conhecer! Não é aquela Vila que fica muito alta e se vê Espanha? Perguntou a rainha!  Sim, vê-se a Espanha quase toda! Respondeu o rei! Nesse caso, vamos todos com sua majestade e, se for possível descemos o rio Guadiana!  Disse a rainha! O rei chamou o caiptão mor da guarda real e participou-lhe o desejo da rainha! O capitão disse-lhe que seria muito difícil descer o rio Guadiana com as carruagens, mas podiam seguir por caminhos muito próximos, quase sempre com Espanha à vista! Mas tinham de arranjar esses caminhos, porque existiam muitos buracos e barrancos, mas isso depressa se arranjava, mandavam um piquete especializado para arranjar alguns troços e dez ordenanças comandados pelo sargento mor dizer aos lavradores para arranjar os caminhos que estavam dentro das suas herdades e, decerto que, em menos de oito dias os caminhos estavam todos arranjados! O rei concordou  e começaram logo a distribuir as  ordens! O caminho entre Elvas e o Roncão D' El-Rei, tinha de ser quase em linha reta e o mais próximo possível do rio Guadiana! Ainda tentaram o percurso por Juromenha, Alandroal, Terena e Aldeia de Reguengos, mas esse percurso foi logo rejeitado uma vez que, além de ser mais longo, afastava-se muito do rio Guadiana, podendo ser uma deceção para sua majestade a rainha! Então, foi decidido que, o percurso seria por Juromenha, Mina do Bugalho, Rosário, Defesa de Ferreira, Cabeça de Carneiro, Corval e fialmente Roncão, cujo espaço seria percorrido, incluindo 5/6 paragens para diversos fins, sem apertos cerca de 10 a 12 horas, com saída de Elvas pelas 5/6 horas da manhã e chegada ao Roncão à tardinha pelas 18/19 Horas. A operação começou naquela hora e, antes da data marcada para a partida estava tudo conclluído! As populações dos lugares junto aos caminhos que foram alvo de intervenção, ficaram surpreendidadas com tanto movimento e começaram a ouvir dizer que era para o rei e a rainha passar por ali, mas ninguém sabia em que dia ou hora e nem o que ia fazer por ali, alguns nem acreditavam, ainda se fosse o rei à caça! Mas o que vem uma rainha fazer a estes matos? Comentavam os moradores!  
No dia 18 de Maio de 1751, depois de meio dia sairam várias carroças, trens e charretes de apoio, levavam tendas para levantar nos lugares onde a caravana devia parar, anunciando que estava para breve a passagem dos monarcas por ali! 
No dia 19 de Maio de 1751, pouco depois da hora marcada a caravana real pôs-se em marcha escoltada por um pelotão especial da guarda real, mas todo o caminho estava guardado por ordenanças bem armados, porque iam passar por lugares onde por vezes apareciam bandidos! A primeira paragem foi na Mina do Bugalho, cerca de meia hora, a segunda paragem foi na Ribeira de Lucefécit, logo após a passagem no Porto das Águas Frias de Baixo, no altinho, já dentro da Defesa de Ferreira, chegando ali antes da hora prevista, ainda não era meio dia, admiraram a paisagem, ouviram a história da Vila de Ferreira Romana, lá no alto, onde se viam bem as paredes do Forte Romano e, ouviram a história da Ribeira de Lucefécit, que é mencionada nos versos do rei Afonso X, o que causou grande admiração e interesse por parte da rainha que quis saber tudo! 
Assim que almoçaram seguiram o antigo caminho da época romana para Capelins de Cima, chegaram ao Monte Grande da Casa do Infantado que, embora não fosse nada do que conhecemos, já mostrava grande imponência pelas grandes dimensões, sendo explicado aos monarcas a quem pertencia! Passaram a pequena aldeia de Capelins de Cima, composta por 8 a 10 casas, mas muitas cabanas e cabanões e, quando chegaram à Igreja Paroquial de Santo António, a rainha que era muito católica e ainda não tinha entrado numa Igreja nesse dia, mandou parar a carruagem, entrou na Igreja acompanhada pelo rei, damas e chanceler mor e começaram todos a orar! O Pároco António de Souza e Sylva, naquele momento estava dentro da Igreja, quando viu aquela gente, deduziu que eram os monarcas e ficou impávido, quando acabaram o rei dirigiu-se ao Pároco e apresentou-se, o Pároco atirou-se ao chão, parecia que tinha endoidecido, o rei pediu para se levantar e fez-lhe algumas perguntas, quantos fregueses tinha, se os moradores frequentavam a Igreja, de quem era a Igreja e outras, sendo tudo anotado pelo chanceler mor, o rei não se mostrou muito satisfeito com as respostas, mas despediu-se e sairam, tomaram lugar na carruagem real e seguiram o caminho já com Monsaraz à vista! O Pároco de Santo António, ficou atónito o resto do dia, o rei D. José I e a rainha Mariana Vitória, estiveram a orar na sua Igreja, e andou algum tempo a pensar que tinha sido um sonho. 
A caravana passou pelo Monte da Vinha, aldeia de Cabeça de Carneiro, herdade da Rendeira e seguiu até ao Roncão do Rei, onde chegaram mais cedo do que estava marcado, mesmo fazendo uma paragem de quase uma hora antes do Corval. 
O rei e a família Real ficaram alguns dias no seu Roncão, onde existiam boas instalações para todos, o rei fez grandes caçadas e uma semana depois chegaram à cidade de Évora, onde o rei tinha muito trabalho a fazer e muitas festas já marcadas, pela nobreza deste importante burgo. 
O rei, durante o seu trabalho em Évora, recebeu as altas individualidades, entre elas, uma das mais importantes nessa época, o Arcebispo Frei Miguel de Távora, trataram alguns assuntos sobre a Diocese, o padroado real e, por fim o rei disse-lhe que estava muito satisfeito com o desempenho das Igrejas do Bispado de Elvas, porém, não se passava o mesmo com uma pequena Igreja Paroquial, cujo padroeiro era Santo António e ficava no termo (Concelho) de Terena! O rei transmitiu-lhe o que constava no relatório do chanceler e que tinham sido as respostas do Pároco António de Souza e Sylva, depois, sugeriu ao Arcebispo para enviar lá um clérigo avaliar a situação e tomar as medidas que melhor entendesse para alterar o que por lá se passava, uma vez que, os moradores, jornaleiros, que trabalhavam para os lavradores eram impedidos de assistir às missas, frisando que, talvez fosse um caso para a Santa Inquisição, porque o Pároco deu-lhe a entender que havia por ali "marranos". O Arcebispo ficou muito incomodado e prometeu ao rei que seria ele em pessoa a ir visitar a Igreja Paroquial de Santo António, falar com os lavradores  e, exigir que todos os moradores daquela Paróquia fossem crismados! O rei anuiu e, o assunto ficou por ali!
O Arcebispo de Évora, Frei Miguel de Távora, enviou logo na semana seguinte um emissário, à Villa de Terena com uma carta para o Cónego, na qual mostrava grande insatisfação com o que se estava a passar na Paroquia de Santo António, dava algumas diretivas para aplicação imediata e informava que brevemente estaria presente na dita Paróquia para falar com moradores, com os lavradores e fazer a crisma de todas as pessoas que ainda não estivessem crismados! Adiantava para que, o Cónego do termo (Concelho) de Terena, o Pároco de Santo António e outros, deviam começar a preparar a cerimónia que, brevemente, lhe comunicaria, o dia em que estaria presente. Ainda nessa carta, pedia ao Cónego para começar imediatamente a corrigir a situação, porque era essa a vontade de sua magestade!  
A visita à Paroquia de Santo António, foi marcada no fim desse ano, e no dia 15 de Março de 1752 o Arcebispo Frei Miguel de Távora entrava na Igreja Paroquial de Santo António, nunca se tinha assistido a uma cerimónia religiosa como essa, foi recebido pelos Párocos do Concelho de Terena e arredores, pela população, com cânticos de boas vindas e com um grupo de música! Depois das apresentações e cumprimentos, o Arcebispo leu um discurso dirigido a todos os fregueses, no qual pedia aos lavradores para, aoss Domingos darem umas horas aos jornaleiros e outros trabalhadores, para poderem assistir à missa e purificar a sua alma, porque, se isso não acontecer, a Santa Inquisição pode passar por cá e não queremos isso! Também, lembrou que suas majestades o rei D. José e a rainha Dª Mariana Vitória, tinham orado na Igreja de Santo António e não gostaram do que aqui ouviram, por isso, é sua vontade que todas as pessoas possam assistir às missas! Depois do discurso começou a crisma, as 158 pessoas que iam ser crismadas estavam alinhadas, vestindo as melhores roupas que conseguiram, ladeados pelos padrinhos, e tudo decorreu como planeado! A cerimónia durou o dia todo e, pela tardinha o Arcebispo Frei Miguel de Távora regressou à Vila de Terena, onde dormiu, para no dia seguinte continuar a sua viagem para a Diocese de Évora.
A partir desse dia, verificou-se grande mudança na Paróquia de Santo António, durante as missas de Domingo, mais de metade da população não tinha lugar dentro da Igreja, tinham de abrir a porta grande ao fundo, para os homens que ficavam de fora poderem assistir à missa! Os lavradores, talvez com receio da Santa Inquisição, obrigavam os criados e criadas a assistir às missas, era ouvi-los: "Vá Maneli tens dir à missa home"! "Mas eu nã sei razar! O que vou lá fazer patrão? Respondiam alguns criados! "Nã sei, logo aprendes, eu é que nã quero aqui a Inquisição à porta"! Diziam os lavradores!
Este foi o resultado da passagem do rei D. José I e da rainha Mariana Vitória, pelas terras de Capelins, no dia 19 de Maio de 1751.  

Fim 

D. José I



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

437- Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A herdade do Roncão em Capelins 
Desconhece-se a sua origem, no entanto tem-se a certeza que é terra de animais que roncam: javalis, caititus, gatos-bravos, saca-rabos, raposas e é terra onde está bem presente o genuíno provérbio Quem porcos acha menos - em cada moita lhe roncam, que está patente no auto da barca do Inferno de Gil Vicente. 
As terras da Vila de Ferreira (hoje Freguesia de Capelins) entre 1433 e 1674 foram da família Freire de Andrade, mas há documentos em Espanha que se referem aos Freires de Andrade e, ao mesmo tempo ao Rei de Portugal, "Defesa do Rei", significa que, o mesmo tinha parte da Vila de Ferreira e essa parte só podia ser a herdade do Roncão, ou seja, "Coutada do Rei", também mencionada de forma pouco clara em documentos portugueses! 
Como sabemos, as Azenhas D' El-Rei ficam dentro da dita herdade, mas temos provas de que nos finais de 1700 já não eram do Rei.
Com a Revolução Liberal procurou-se acabar com o sistema de coutadas, tendo mesmo sido promulgado um decreto que extinguia o cargo de Monteiro-mor, em 18 de Agosto de 1821. Porém, o fervor revolucionário foi interrompido logo em 1823 e no ano seguinte tudo tinha voltado à situação inicial. Só em 1834, após a vitória do Liberalismo, é que foi extinta definitivamente a Montaria-mor do Reino, depois de mais de 300 anos de história. 
Com a Reforma Agrária de 1834 as herdades da Vila de Ferreira, incluindo a herdade do Roncão, foram todas repartidas em menores dimensões e, em courelas, dando lugar a imensos seareiros e, por consequência, ao aumento da população da Freguesia de Capelins.



sábado, 15 de setembro de 2018

436 - Terras de Capelins 
História, lendas, tradições, usos e costumes das terras de Capelins
A lenda das Cavalhadas nas Festas Religiosas das Terras de Capelins
As Cavalhadas eram uma luta simulada, na qual os participantes principais, em número de 24, representavam, através de evoluções eqüestres e movimentos de espada ou lança, uma batalha de fundo religioso entre mouros e cristãos, e que acabava sendo vencida por estes, após a tomada do "castelo" na praça e a "submissão" dos mouros ao cristianismo, através do "batismo" destes, na Igreja. 
As Cavalhadas, segundo mostram pesquisas históricas, surgiram no reinado de Carlos Magno, na França, que se destacou pelo combate ao Islão, no final do século VIII. O objetivo era destacar as vitórias do cristianismo sobre o islamismo, o que levou as cavalhadas a ser muito populares, tanto em Portugal como em Espanha, que sofreram bastante com uma prolongada dominação dos muçulmanos, os mouros, como eram conhecidos na Península Ibérica. 
As Cavalhadas consistiam em dois grupos, de cristãos e mouros, com 12 cavaleiros cada um, número esse que remetia aos 12 Pares de França. Os diálogos das Cavalhadas, entre os embaixadores dos dois lados, também tinham inspiração histórica, baseando-se em grandes romances da cavalaria como "Cid Campeador", "La Canción de Rolando" e "Mata-Mouros".
Nas Festas religiosas das terras de Capelins, nos anos de 1700, 1800 e primeira metade de 1900, não faltavam as cavalhadas, fosse cavalgando burros ou cavalos, porém, o inimigo Mouro eram pombos ou frangos pendurados num fio e os cavaleiros partiam com a montada a trote de um lugar préviamente marcado e, com uma lança em punho, tinham de os caçar, ficando, assim,  proprietários da sua presa e vencedores da luta simulada. No fundo, o sentido era o mesmo descrito anteriormente, ou seja, seria mostrar destresa, valentia e vencer o inimigo, neste caso os Mouros. 

Cavalhadas!



435 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da Taberna do Monte do Escrivão em Capelins
Ao cair da noite de quarta - feira do dia 2 de Maio do ano de 1810, o Ti Miguel da Serra entrou em sua casa no Monte do Escrivão, com a habitual saca de serapilheira às costas e, o pau de defesa que, arrumou atrás da porta, vindo do trabalho na herdade da Talaveira! Os seus filhos mais novos já estavam com um olho fechado e outro aberto, denunciando muito sono, mas a larica (fome) era tanta, que não conseguiam fechar o outro olho, sob pena de irem de barriga vazia para a cama, porque, enquanto o ti Miguel não chegasse a casa, ninguém se sentava à banca para cear (jantar). A ti Maria Domingas, sua mulher, arredou a panela das sopas de grãos do lume e preparou as colheres, o rodilho (trapo para limpar a boca e as colheres, mas coletivo), o pão e o barranhão (tijela grande, de barro)! O ti Miguel, tirou a navalha do bolso das calças e começou a migar (cortar pequenas fatias de pão) para dentro do barranhão, contadas uma a uma, ao mesmo tempo que ia nomeando o nome dos destinatários, seis para o Mnaoel, cinco para a Rosa, dez para mim e, por aí, não podia haver desperdício, porque havia falta de tudo! A ti Maria despejou as sopas da panela de barro para cima do pão e, começaram logo a comer, todos de dentro do barranhão, porque não existiam pratos! 
Depois de sossegarem um pouco  o estômago, a ti Maria  meteu conversa com o marido: 
Ti Maria: Miguel, tenho uma conversa para te fazer!
Ti Miguel: Mau, mau, Maria! Pela tua cara, cheira-me a "fezes"! 
Ti Maria: Oh homem, não são "fezes" nenhumas, se não te agradar o que te vou dizer, acaba-se logo a conversa! 
Ti Miguel: Está bem, Maria! Vou comendo, diz lá o que me queres dizer! 
Ti Maria: Há muito tempo que ando a pensar nisto, mas ainda não tinha dito nada, porque queria saber, tudo bem sabido, agora já sei graças á nossa comadre Mariana, mas ela também tem andado a estudar algumas coisas que não sabia lá muito bem, mas agora já sabemos as duas! 
Ti Miguel: Oh mulher, então a conversa mete a comadre Mariana, mete estudos e o quê mais? Mas vá, diz lá, senão está quase na hora de deitar! 
Ti Maria: Oh Miguel, eu não sei como te dizer isto homem! Tu sabes que nos fartamos de trabalhar e a nossa vida não medra, mal ganhamos para comer! Então, eu pensei,  pensei, qual seria a maneira de melhrar a nossa vida, até que me lembrei de uma coisa e fui logo contar à nossa comadre Mariana, e ela disse-me para não olhar para trás e falar logo contigo, antes de alguém daqui se lembrar disto e passar-nos à frente! 
Ti Miguel: Oh Maria, se nunca mais me dizes o que queres, decerto que nos passam à frentes, diz lá que coisa é essa que tu pensaste! 
Ti Maria: Não sei o que vais pensar, mas eu pensei em abrirmos uma taberna aqui no Monte do Escrivão, o que dizes Miguel? 
Ti Miguel: Eh Maria, apanhaste-me de surpresa, nem sei o que dizer, mas tu achas algum jeito nisso? 
Ti Maria: Acho, sim Miguel! Acho eu e a nossa comadre Mariana! A irmã dela tem uma taberna lá em Santiago e foi por isso que desafogaram a vida! A comadre Mariana também me disse que nos ajudava a começar o negócio e vai comigo à Câmara a Terena tirar a licença e a comprar o vinho, a aguardente, umas onças de tabaco, livros de papel para enrolar os cigarros e fósforos! E olha, ela sabe fazer licor para depois vendermos na nossa taberna e até já me ensinou a mesinha para o vinho não azedar! 
Ti Miguel: Não sei, não sei Maria! Vou pensar melhor nisso e, amanhã logo se vê o que vamos fazer!  
Ti Maria: Está bem homem! É o que tu quiseres! Se não achares jeito, não se abre a taberna e acabou-se!
Mal acabaram a ceia (jantar), as crianças foram a correr para a cama, uma esteira de buinho no chão, que era muito melhor que os sacos de serapilheira cheias de palha que muitos tinham de usar para dormir! O ti Miguel e a ti Maria, já não demoraram muito em apagar a candeia, porque tinham de poupar o azeite e, também se deitaram, porque às quatro da manhã já o ti Miguel tinha de estar em pé e às cinco lá no Monte da Talaveira!
No dia seguinte, durante a ceia, voltou a conversa da taberna da ti Maria! O ti Miguel, aproveitou para, durante o dia, falar com alguns compadres lá no trabalho e, todos lhe disseram que fazia ali muita falta, e deram-lhe força, porque a taberna em Capelins de Cima ficava muito longe e perdiam muito tempo no caminho! O ti Miguel ficou quase convencido, mas continuava com  dúvidas e medo de se ir meter numa naquilo que não conhecia e nem dinheiro tinham para começar o negócio! Porém, a ti Maria dava-lhe força, lembrando sempre a ajuda preciosa da comadre Mariana, acabando por o convencer, mas a conversa entre eles, sobre a taberna, prosseguia! 
Ti Miguel: Eh Maria, tenho muito medo disto, mas se tu dizes que a comadre Mariana nos vai ajudar, então, trata lá disso! Mas não sei se fazemos a taberna aqui na casa de fora, ou se faço aí um cabanão! O que dizes mulher? 
Ti Maria: Oh homem, já tenho tudo tratado, a taberna tem que ser aqui na casa de fora, é onde são as tabernas! Agora, para comerçarmos, a comadre Mariana empresta-nos uma banca grande que tem ali e não lhe faz falta, para pôr os copos em cima e aviar o vinho e a aguardente, depois, se isto der, lá para a frente,  logo fazes um balcão com umas tábuas e uns pregos! 
Ti Miguel: Está bem, Maria! Então e como seguras aqui o vinho sem azedar? 
Ti Maria: Oh Miguel, está descansado, já sei o que tenho de fazer! Se ele der sinal de azedar, se começar a criar laço por cima, leva uma colher de sal e uma pinga de água e aguenta-se até o vender! Mas, mesmo sem esse sinal, leva sempre uma pinga de água, por isso, estás a ver, o vinho cresce sempre e isso é tudo ganho! Olha Miguel, vai já dizendo a novidade lá no trabalho! Ora, hoje é quarta-feira, então, se não houver nenhuma  desgraça, abrimos a taberna no sábado que vem!    
Ti Miguel: Pronto, está bem, amanhã podes ir tratar disso lá a Terena, com a comadre Mariana! 
A ti Maria foi a correr, combinar com a sua comadre Mariana, como deviam fazer a volta, combinaram tudo e, no dia seguinte, depois da ti Maria entregar os filhos à comadre Josefa, partiram na burra da comadre Mariana para Terena! 
Foram à Câmara tratar da licença da taberna, seguindo logo para a casa do ti Jesuíno ajustar as mercadorias que tinham de levar! O ti Jesuíno ao ver duas mulheres sózinhas ainda se começou a alarvar, mas levou logo nas orelhas, a ti Mariana era muito esperta e deu-lhe logo para trás, disse-lhe o que queriam e pediu o orçamento, avisando para não se alargar, senão ficava ali tudo, seguiam para o Alandroal e nunca mais lhe compravam ali nada! O ti Jesuíno não queria perder uma cliente promissora e, recuou nos seus intentos, mudando de estratégia, como tinha muita experiência desse negócio disse-lhe para comprar sempre bebidas das melhores e, decerto nunca se ia arrepender! Apartaram o que precisavam, ele fez-lhe um preço muito bom e ainda levaram mercadoria fiada e vasilhame emprestado! Fizeram um bom negócio com o ti Jesuíno e voltaram para o Monte do Escrivão!
Na sexta-feira, prepararam tudo, fizeram licores, lavaram os copos de lata (folha de flandres), que compraram ao ti Jesuíno, duas dúzias de dois tamanhos, para a aguardente e licores e para o vinho! Arranjaram um jarro de barro com a capacidade de um litro para, com ele, encher os copos do vinho, um alguidar de barro para lavar os copos, um quadro feito em buinho para pousar os copos depois de lavados, uma bolsa em pano para meter o dinheiro e mais algumas coisas, que deram trabalhar o dia todo na preparação para o grande dia da abertura, sábado logo de madrugada, hora do mata bicho! 
O ti Miguel levantou-se à mesma hora de sempre e, perto das cinco da manhã, meteu a saca de serapilheira  ao ombro e quando ia para sair de casa a ti Maria chamou-o: 
Ti Maria: Miguel, anda cá! 
Ti Miguel. O que queres mulher, não vês que está na hora de ir andando! 
Ti Maria: Hoje é o dia de abrir a nossa taberna, mas quero que sejas tu a inaugurá-la, chega aqui! 
A ti Maria encheu um copinho de aguardente  e disse-lhe para o beber e desejar boa sorte à sua aventura! 
O ti Miguel assim fez e exclamou: Eh mulher, que aguardente tão boa, nunca bebi nada assim! 
Assim, estava inaugurada a taberna do Monte do Escrivão no sábado, dia 5 de Maio de 1810! 
Ti Maria; Olha Miguel, ainda bem que confirmas que a aguardente é muito boa e é para ser sempre assim, podemos ganhar menos em cada copo, mas o ti Jesuíno disse-me que vendemos muito mais e, assim se vendemos mais, logo  ganhamos mais! Se gostaste dela, bebe lá outro copinho, homem! 
O ti Miguel nem se fez rogado, mas foi avisado pela ti Maria: Olha  que é só hoje, para inaugurar a taberna, não é para te habituares! 
O ti Miguel concordou e, saiu a caminho do trabalho! Ou porque já ia um pouco atrasado ou devido ao efeito da aguardente levou menos tempo na viagem até ao Monte da Talaveira, apressando-se a contar aos compadres, que já tinha inaugurado a taberna da ti Maria Domingas, e tinha bebido uma aguardente tão boa, que nunca tinha encontrado uma igual, passando o dia a falar dela, aguçando ainda mais a vontade dos outros, em ir o mais depressa possível, comprovar o que o ti Miguel lhe contava! 
A taberna do Monte do Escrivão, ganhou muita fama, devido à qualidade da aguardente, do licor e do vinho que a ti Maria Domingas vendia e, aqui acodiam homens de todo o lado, os lavradores das terras de Capelins eram obrigados a comparecer no escritório do Escrivão da Casa do Infantado e das herdades do Reino e alguns não dispensavam uns copinhos de aguardente e de vinho, e até vinham de além Guadiana, das Vilas de Cheles e de S. Bento da Contenda, como se fosse uma romaria! A ti Maria, manteve sempre a qualidade das bebidas na sua taberna e, foi devido a isso que teve muito sucesso! A sua vida e da família ficou desafogada em menos de um ano e, a taberna manteve-se aberta no Monte do Escrivão durante muitas gerações, tornando-se uma lenda nas terras de Capelins.
Na realidade, existiu uma taberna no Monte do Escrivão, da qual, ainda hoje se fala nas terras de Capelins.

Fim 

Monte do Escrivão - Capelins 



sábado, 8 de setembro de 2018


434 - Terras de Capelins 

Freguesia de Capelins 
A Freguesia é Capelins (Santo António), quase todas as Freguesias em Portugal têm o nome de um Santo agregado à sua denominação! Então, Capelins, oficialmente, não tem um ponto específico, é toda a Freguesia, seja Faleiros, Santo António (Igreja), Ferreira, Montes Juntos e uma pequenina parte de Cabeça de Carneiro. A Freguesia tem uma Junta, para a governar, que tem uma sede, por acaso em Montes Juntos, como podia ser em Faleiros, Ferreira, ou outro lugar dentro da Freguesia. A confusão é que, até ao dia 6 de Novembro de 1836 existiam as duas Aldeias de Capelins de Cima e de Baixo, que naquele dia foram fundidas e o seu topónimo foi substiuido por "Ferreira" de Capelins! O que a Google apresenta como "Capelins" junto a Santo António - Igreja, está errado! Assim, a sede da Junta de Freguesia de Capelins, por acaso está em Montes Juntos desde Fevereiro de 1921, mas é todo o espaço geográfico da Freguesia que se denomina por "Capelins".



433 - Terras de Capelins 

A identidade cultural da comunidade capelinense 
"Identidade" é algo único, distinto e completo. "Cultural" é um adjetivo que se refere a "saber". Logo, a junção das duas palavras produz o sentido de "saber-se reconhecer". 
Na perceção individual ou coletiva da identidade, a cultura exerce um papel principal para delimitar as diversas personalidades, os padrões de conduta e ainda as características próprias de cada grupo humano. 
A influência do meio modifica constantemente um ser já que o nosso mundo é repleto de inovações e características temporárias, os chamados "modismos". 
No passado, as identidades eram mais conservadas devido à falta de contato entre culturas diferentes, porém, com a globalização, isso mudou, fazendo com que as pessoas interagissem mais entre si e com o mundo ao seu redor.
Uma pessoa que nasce num lugar absorve todas as características deste, entretanto, se ela for submetida a uma cultura diferente por muito tempo, ela vai adquirir as características do novo local onde está agregada. 
Por isso, os "Amigos de Capelins" registam e publicam a história, lendas, contos, gastronomia, usos e costumes dos nossos antepassados, com o objetivo de não deixar esquecer as antigas características que, estão sendo substituídas pelas adquiridas nos novos lugares, onde as gerações de hoje residem.

Com a ajuda, saudável, de todos! A bem da Freguesia de Capelins e, em memória dos nossos antepassados!

Obrigado! 


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...