domingo, 23 de setembro de 2018

438 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da Passagem do Rei D. José I pelas terras de Capelins em 1751 
Passavam os meses e a cidade de Elvas clamava pela presença do Rei D. José I para despachar assuntos de justiça e outros que se acumulavam e estavam a prejudicar a vida normal nesta cidade, mas devido à distância que a separava do Paço da Ribeira, o Rei ia adiando, até que, sua majestade a rainha Mariana Vitória, cansada dos ares de Lisboa, propôs ao monarca que a Família Real fosse com ele passar uns dias à inesquecível cidade de Elvas, onde, perto dela, tinha sido feita a troca das Princesas que a incluia! 
A Troca das Princesas realizou-se no dia 19 de Janeiro de 1729! Essa troca foi feita no Rio Caia, que faz fronteira entre os Concelhos de Elvas, Portugal e de  Badajoz, Espanha. A cerimónia fez-se literalmente a meio do rio, numa grande ponte-palácio de madeira ricamente decorada construida para a ocasião, com vários pavilhões em ambas as margens. 
Quase toda a Corte participou, tendo todas as vilas e lugares entre Lisboa e Elvas sido enfeitadas com arte efémera, tal como arcos triunfais, jardins artificiais, fontes e outros ornamentos, para receber os imensos cortejos na ida e na volta da fronteira. 
As princesas trocadas foram Dª Mariana Vitória, filha de Filipe V de Espanha e, Dª Maria Bárbara, filha de D. João V e irmã de D. José, que casou com o Pirncipe das Astúrias. 
A rainha Dª Mariana Vitória, não esqueceu como foi recebida e, ficou com Elvas no coração, porque, tinha sido ali a porta de entrada para o reino de Portugal, por isso, desejava ardentemente voltar a esse lugar e, apesar da viagem ser longa não hesitou e convenceu o rei em o acompanhar e aproveitar para mostrar aos filhos, o lugar onde foi trocada no rio Caia que lhe deixou tanta saudade, também foi aí que se separou dos seus familiares e amigos para iniciar uma nova vida no reino de Portugal! 
O rei D. José I, depois de ouvir os argumentos da rainha aceitou imediatamente e, deu ordens para se iniciarem os preparativos da viagem com a partida para daí a 8 dias e, na data marcada partiram pelo Alentejo dentro! Ao terceiro dia de viagem estavam em Elvas, atravessaram os campos do Alentejo no mês de Abril, em plena Primavera por, Alcácer do Sal, Alcáçovas, Évora, Estremoz, Elvas. 
O rei D. José I, tinha muito trabalho a afzer na cidade de Elvas, as justiças e outros assuntos, mas a rainha todos os dias cumpria o seu programa, foi duas vezes ao rio Caia, sem necessitar da sua companhia, a não ser nas várias festas que se realizaram com a presença das gentes importantes da cidade, arredores e de Espanha. 
Quando o rei estava com o trabalho aliviado, em conversa com o meirinho-mor disse-lhe que, estava cansado de tanta papelada e o que gostava de fazer no fim do trabalho eram umas boas caçadas, porque não havia desporto tão belo! 
O Meirinho-mor, incentivou o rei a fazer algumas caçadas por ali, ou melhor seria na sua montaria real no Roncão D' El-Rei, porque não havia outra igual, mas era um pouco longe dali, talvez 5/6 horas de cavalo! Esta sugestão despertou no rei a vontade de ir passar uns dias ao seu Roncão, mas estava ali a Família Real e tinha de a mandar seguir para Évora onde o podiam esperar! Quando acabou o trabalho foi dizer à rainha o que tinha decidido! A rainha perguntou-lhe onde ficava esse Roncão e, o rei explicou-lhe que era no termo (Concelho) de Monsaraz. perto do rio Guadiana! A rainha disse-lhe que já tinha ouvido falar nessa Vila Medieval e gostava muito de a conhecer! Não é aquela Vila que fica muito alta e se vê Espanha? Perguntou a rainha!  Sim, vê-se a Espanha quase toda! Respondeu o rei! Nesse caso, vamos todos com sua majestade e, se for possível descemos o rio Guadiana!  Disse a rainha! O rei chamou o caiptão mor da guarda real e participou-lhe o desejo da rainha! O capitão disse-lhe que seria muito difícil descer o rio Guadiana com as carruagens, mas podiam seguir por caminhos muito próximos, quase sempre com Espanha à vista! Mas tinham de arranjar esses caminhos, porque existiam muitos buracos e barrancos, mas isso depressa se arranjava, mandavam um piquete especializado para arranjar alguns troços e dez ordenanças comandados pelo sargento mor dizer aos lavradores para arranjar os caminhos que estavam dentro das suas herdades e, decerto que, em menos de oito dias os caminhos estavam todos arranjados! O rei concordou  e começaram logo a distribuir as  ordens! O caminho entre Elvas e o Roncão D' El-Rei, tinha de ser quase em linha reta e o mais próximo possível do rio Guadiana! Ainda tentaram o percurso por Juromenha, Alandroal, Terena e Aldeia de Reguengos, mas esse percurso foi logo rejeitado uma vez que, além de ser mais longo, afastava-se muito do rio Guadiana, podendo ser uma deceção para sua majestade a rainha! Então, foi decidido que, o percurso seria por Juromenha, Mina do Bugalho, Rosário, Defesa de Ferreira, Cabeça de Carneiro, Corval e fialmente Roncão, cujo espaço seria percorrido, incluindo 5/6 paragens para diversos fins, sem apertos cerca de 10 a 12 horas, com saída de Elvas pelas 5/6 horas da manhã e chegada ao Roncão à tardinha pelas 18/19 Horas. A operação começou naquela hora e, antes da data marcada para a partida estava tudo conclluído! As populações dos lugares junto aos caminhos que foram alvo de intervenção, ficaram surpreendidadas com tanto movimento e começaram a ouvir dizer que era para o rei e a rainha passar por ali, mas ninguém sabia em que dia ou hora e nem o que ia fazer por ali, alguns nem acreditavam, ainda se fosse o rei à caça! Mas o que vem uma rainha fazer a estes matos? Comentavam os moradores!  
No dia 18 de Maio de 1751, depois de meio dia sairam várias carroças, trens e charretes de apoio, levavam tendas para levantar nos lugares onde a caravana devia parar, anunciando que estava para breve a passagem dos monarcas por ali! 
No dia 19 de Maio de 1751, pouco depois da hora marcada a caravana real pôs-se em marcha escoltada por um pelotão especial da guarda real, mas todo o caminho estava guardado por ordenanças bem armados, porque iam passar por lugares onde por vezes apareciam bandidos! A primeira paragem foi na Mina do Bugalho, cerca de meia hora, a segunda paragem foi na Ribeira de Lucefécit, logo após a passagem no Porto das Águas Frias de Baixo, no altinho, já dentro da Defesa de Ferreira, chegando ali antes da hora prevista, ainda não era meio dia, admiraram a paisagem, ouviram a história da Vila de Ferreira Romana, lá no alto, onde se viam bem as paredes do Forte Romano e, ouviram a história da Ribeira de Lucefécit, que é mencionada nos versos do rei Afonso X, o que causou grande admiração e interesse por parte da rainha que quis saber tudo! 
Assim que almoçaram seguiram o antigo caminho da época romana para Capelins de Cima, chegaram ao Monte Grande da Casa do Infantado que, embora não fosse nada do que conhecemos, já mostrava grande imponência pelas grandes dimensões, sendo explicado aos monarcas a quem pertencia! Passaram a pequena aldeia de Capelins de Cima, composta por 8 a 10 casas, mas muitas cabanas e cabanões e, quando chegaram à Igreja Paroquial de Santo António, a rainha que era muito católica e ainda não tinha entrado numa Igreja nesse dia, mandou parar a carruagem, entrou na Igreja acompanhada pelo rei, damas e chanceler mor e começaram todos a orar! O Pároco António de Souza e Sylva, naquele momento estava dentro da Igreja, quando viu aquela gente, deduziu que eram os monarcas e ficou impávido, quando acabaram o rei dirigiu-se ao Pároco e apresentou-se, o Pároco atirou-se ao chão, parecia que tinha endoidecido, o rei pediu para se levantar e fez-lhe algumas perguntas, quantos fregueses tinha, se os moradores frequentavam a Igreja, de quem era a Igreja e outras, sendo tudo anotado pelo chanceler mor, o rei não se mostrou muito satisfeito com as respostas, mas despediu-se e sairam, tomaram lugar na carruagem real e seguiram o caminho já com Monsaraz à vista! O Pároco de Santo António, ficou atónito o resto do dia, o rei D. José I e a rainha Mariana Vitória, estiveram a orar na sua Igreja, e andou algum tempo a pensar que tinha sido um sonho. 
A caravana passou pelo Monte da Vinha, aldeia de Cabeça de Carneiro, herdade da Rendeira e seguiu até ao Roncão do Rei, onde chegaram mais cedo do que estava marcado, mesmo fazendo uma paragem de quase uma hora antes do Corval. 
O rei e a família Real ficaram alguns dias no seu Roncão, onde existiam boas instalações para todos, o rei fez grandes caçadas e uma semana depois chegaram à cidade de Évora, onde o rei tinha muito trabalho a fazer e muitas festas já marcadas, pela nobreza deste importante burgo. 
O rei, durante o seu trabalho em Évora, recebeu as altas individualidades, entre elas, uma das mais importantes nessa época, o Arcebispo Frei Miguel de Távora, trataram alguns assuntos sobre a Diocese, o padroado real e, por fim o rei disse-lhe que estava muito satisfeito com o desempenho das Igrejas do Bispado de Elvas, porém, não se passava o mesmo com uma pequena Igreja Paroquial, cujo padroeiro era Santo António e ficava no termo (Concelho) de Terena! O rei transmitiu-lhe o que constava no relatório do chanceler e que tinham sido as respostas do Pároco António de Souza e Sylva, depois, sugeriu ao Arcebispo para enviar lá um clérigo avaliar a situação e tomar as medidas que melhor entendesse para alterar o que por lá se passava, uma vez que, os moradores, jornaleiros, que trabalhavam para os lavradores eram impedidos de assistir às missas, frisando que, talvez fosse um caso para a Santa Inquisição, porque o Pároco deu-lhe a entender que havia por ali "marranos". O Arcebispo ficou muito incomodado e prometeu ao rei que seria ele em pessoa a ir visitar a Igreja Paroquial de Santo António, falar com os lavradores  e, exigir que todos os moradores daquela Paróquia fossem crismados! O rei anuiu e, o assunto ficou por ali!
O Arcebispo de Évora, Frei Miguel de Távora, enviou logo na semana seguinte um emissário, à Villa de Terena com uma carta para o Cónego, na qual mostrava grande insatisfação com o que se estava a passar na Paroquia de Santo António, dava algumas diretivas para aplicação imediata e informava que brevemente estaria presente na dita Paróquia para falar com moradores, com os lavradores e fazer a crisma de todas as pessoas que ainda não estivessem crismados! Adiantava para que, o Cónego do termo (Concelho) de Terena, o Pároco de Santo António e outros, deviam começar a preparar a cerimónia que, brevemente, lhe comunicaria, o dia em que estaria presente. Ainda nessa carta, pedia ao Cónego para começar imediatamente a corrigir a situação, porque era essa a vontade de sua magestade!  
A visita à Paroquia de Santo António, foi marcada no fim desse ano, e no dia 15 de Março de 1752 o Arcebispo Frei Miguel de Távora entrava na Igreja Paroquial de Santo António, nunca se tinha assistido a uma cerimónia religiosa como essa, foi recebido pelos Párocos do Concelho de Terena e arredores, pela população, com cânticos de boas vindas e com um grupo de música! Depois das apresentações e cumprimentos, o Arcebispo leu um discurso dirigido a todos os fregueses, no qual pedia aos lavradores para, aoss Domingos darem umas horas aos jornaleiros e outros trabalhadores, para poderem assistir à missa e purificar a sua alma, porque, se isso não acontecer, a Santa Inquisição pode passar por cá e não queremos isso! Também, lembrou que suas majestades o rei D. José e a rainha Dª Mariana Vitória, tinham orado na Igreja de Santo António e não gostaram do que aqui ouviram, por isso, é sua vontade que todas as pessoas possam assistir às missas! Depois do discurso começou a crisma, as 158 pessoas que iam ser crismadas estavam alinhadas, vestindo as melhores roupas que conseguiram, ladeados pelos padrinhos, e tudo decorreu como planeado! A cerimónia durou o dia todo e, pela tardinha o Arcebispo Frei Miguel de Távora regressou à Vila de Terena, onde dormiu, para no dia seguinte continuar a sua viagem para a Diocese de Évora.
A partir desse dia, verificou-se grande mudança na Paróquia de Santo António, durante as missas de Domingo, mais de metade da população não tinha lugar dentro da Igreja, tinham de abrir a porta grande ao fundo, para os homens que ficavam de fora poderem assistir à missa! Os lavradores, talvez com receio da Santa Inquisição, obrigavam os criados e criadas a assistir às missas, era ouvi-los: "Vá Maneli tens dir à missa home"! "Mas eu nã sei razar! O que vou lá fazer patrão? Respondiam alguns criados! "Nã sei, logo aprendes, eu é que nã quero aqui a Inquisição à porta"! Diziam os lavradores!
Este foi o resultado da passagem do rei D. José I e da rainha Mariana Vitória, pelas terras de Capelins, no dia 19 de Maio de 1751.  

Fim 

D. José I



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

437- Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A herdade do Roncão em Capelins 
Desconhece-se a sua origem, no entanto tem-se a certeza que é terra de animais que roncam: javalis, caititus, gatos-bravos, saca-rabos, raposas e é terra onde está bem presente o genuíno provérbio Quem porcos acha menos - em cada moita lhe roncam, que está patente no auto da barca do Inferno de Gil Vicente. 
As terras da Vila de Ferreira (hoje Freguesia de Capelins) entre 1433 e 1674 foram da família Freire de Andrade, mas há documentos em Espanha que se referem aos Freires de Andrade e, ao mesmo tempo ao Rei de Portugal, "Defesa do Rei", significa que, o mesmo tinha parte da Vila de Ferreira e essa parte só podia ser a herdade do Roncão, ou seja, "Coutada do Rei", também mencionada de forma pouco clara em documentos portugueses! 
Como sabemos, as Azenhas D' El-Rei ficam dentro da dita herdade, mas temos provas de que nos finais de 1700 já não eram do Rei.
Com a Revolução Liberal procurou-se acabar com o sistema de coutadas, tendo mesmo sido promulgado um decreto que extinguia o cargo de Monteiro-mor, em 18 de Agosto de 1821. Porém, o fervor revolucionário foi interrompido logo em 1823 e no ano seguinte tudo tinha voltado à situação inicial. Só em 1834, após a vitória do Liberalismo, é que foi extinta definitivamente a Montaria-mor do Reino, depois de mais de 300 anos de história. 
Com a Reforma Agrária de 1834 as herdades da Vila de Ferreira, incluindo a herdade do Roncão, foram todas repartidas em menores dimensões e, em courelas, dando lugar a imensos seareiros e, por consequência, ao aumento da população da Freguesia de Capelins.



sábado, 15 de setembro de 2018

436 - Terras de Capelins 
História, lendas, tradições, usos e costumes das terras de Capelins
A lenda das Cavalhadas nas Festas Religiosas das Terras de Capelins
As Cavalhadas eram uma luta simulada, na qual os participantes principais, em número de 24, representavam, através de evoluções eqüestres e movimentos de espada ou lança, uma batalha de fundo religioso entre mouros e cristãos, e que acabava sendo vencida por estes, após a tomada do "castelo" na praça e a "submissão" dos mouros ao cristianismo, através do "batismo" destes, na Igreja. 
As Cavalhadas, segundo mostram pesquisas históricas, surgiram no reinado de Carlos Magno, na França, que se destacou pelo combate ao Islão, no final do século VIII. O objetivo era destacar as vitórias do cristianismo sobre o islamismo, o que levou as cavalhadas a ser muito populares, tanto em Portugal como em Espanha, que sofreram bastante com uma prolongada dominação dos muçulmanos, os mouros, como eram conhecidos na Península Ibérica. 
As Cavalhadas consistiam em dois grupos, de cristãos e mouros, com 12 cavaleiros cada um, número esse que remetia aos 12 Pares de França. Os diálogos das Cavalhadas, entre os embaixadores dos dois lados, também tinham inspiração histórica, baseando-se em grandes romances da cavalaria como "Cid Campeador", "La Canción de Rolando" e "Mata-Mouros".
Nas Festas religiosas das terras de Capelins, nos anos de 1700, 1800 e primeira metade de 1900, não faltavam as cavalhadas, fosse cavalgando burros ou cavalos, porém, o inimigo Mouro eram pombos ou frangos pendurados num fio e os cavaleiros partiam com a montada a trote de um lugar préviamente marcado e, com uma lança em punho, tinham de os caçar, ficando, assim,  proprietários da sua presa e vencedores da luta simulada. No fundo, o sentido era o mesmo descrito anteriormente, ou seja, seria mostrar destresa, valentia e vencer o inimigo, neste caso os Mouros. 

Cavalhadas!



435 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da Taberna do Monte do Escrivão em Capelins
Ao cair da noite de quarta - feira do dia 2 de Maio do ano de 1810, o Ti Miguel da Serra entrou em sua casa no Monte do Escrivão, com a habitual saca de serapilheira às costas e, o pau de defesa que, arrumou atrás da porta, vindo do trabalho na herdade da Talaveira! Os seus filhos mais novos já estavam com um olho fechado e outro aberto, denunciando muito sono, mas a larica (fome) era tanta, que não conseguiam fechar o outro olho, sob pena de irem de barriga vazia para a cama, porque, enquanto o ti Miguel não chegasse a casa, ninguém se sentava à banca para cear (jantar). A ti Maria Domingas, sua mulher, arredou a panela das sopas de grãos do lume e preparou as colheres, o rodilho (trapo para limpar a boca e as colheres, mas coletivo), o pão e o barranhão (tijela grande, de barro)! O ti Miguel, tirou a navalha do bolso das calças e começou a migar (cortar pequenas fatias de pão) para dentro do barranhão, contadas uma a uma, ao mesmo tempo que ia nomeando o nome dos destinatários, seis para o Mnaoel, cinco para a Rosa, dez para mim e, por aí, não podia haver desperdício, porque havia falta de tudo! A ti Maria despejou as sopas da panela de barro para cima do pão e, começaram logo a comer, todos de dentro do barranhão, porque não existiam pratos! 
Depois de sossegarem um pouco  o estômago, a ti Maria  meteu conversa com o marido: 
Ti Maria: Miguel, tenho uma conversa para te fazer!
Ti Miguel: Mau, mau, Maria! Pela tua cara, cheira-me a "fezes"! 
Ti Maria: Oh homem, não são "fezes" nenhumas, se não te agradar o que te vou dizer, acaba-se logo a conversa! 
Ti Miguel: Está bem, Maria! Vou comendo, diz lá o que me queres dizer! 
Ti Maria: Há muito tempo que ando a pensar nisto, mas ainda não tinha dito nada, porque queria saber, tudo bem sabido, agora já sei graças á nossa comadre Mariana, mas ela também tem andado a estudar algumas coisas que não sabia lá muito bem, mas agora já sabemos as duas! 
Ti Miguel: Oh mulher, então a conversa mete a comadre Mariana, mete estudos e o quê mais? Mas vá, diz lá, senão está quase na hora de deitar! 
Ti Maria: Oh Miguel, eu não sei como te dizer isto homem! Tu sabes que nos fartamos de trabalhar e a nossa vida não medra, mal ganhamos para comer! Então, eu pensei,  pensei, qual seria a maneira de melhrar a nossa vida, até que me lembrei de uma coisa e fui logo contar à nossa comadre Mariana, e ela disse-me para não olhar para trás e falar logo contigo, antes de alguém daqui se lembrar disto e passar-nos à frente! 
Ti Miguel: Oh Maria, se nunca mais me dizes o que queres, decerto que nos passam à frentes, diz lá que coisa é essa que tu pensaste! 
Ti Maria: Não sei o que vais pensar, mas eu pensei em abrirmos uma taberna aqui no Monte do Escrivão, o que dizes Miguel? 
Ti Miguel: Eh Maria, apanhaste-me de surpresa, nem sei o que dizer, mas tu achas algum jeito nisso? 
Ti Maria: Acho, sim Miguel! Acho eu e a nossa comadre Mariana! A irmã dela tem uma taberna lá em Santiago e foi por isso que desafogaram a vida! A comadre Mariana também me disse que nos ajudava a começar o negócio e vai comigo à Câmara a Terena tirar a licença e a comprar o vinho, a aguardente, umas onças de tabaco, livros de papel para enrolar os cigarros e fósforos! E olha, ela sabe fazer licor para depois vendermos na nossa taberna e até já me ensinou a mesinha para o vinho não azedar! 
Ti Miguel: Não sei, não sei Maria! Vou pensar melhor nisso e, amanhã logo se vê o que vamos fazer!  
Ti Maria: Está bem homem! É o que tu quiseres! Se não achares jeito, não se abre a taberna e acabou-se!
Mal acabaram a ceia (jantar), as crianças foram a correr para a cama, uma esteira de buinho no chão, que era muito melhor que os sacos de serapilheira cheias de palha que muitos tinham de usar para dormir! O ti Miguel e a ti Maria, já não demoraram muito em apagar a candeia, porque tinham de poupar o azeite e, também se deitaram, porque às quatro da manhã já o ti Miguel tinha de estar em pé e às cinco lá no Monte da Talaveira!
No dia seguinte, durante a ceia, voltou a conversa da taberna da ti Maria! O ti Miguel, aproveitou para, durante o dia, falar com alguns compadres lá no trabalho e, todos lhe disseram que fazia ali muita falta, e deram-lhe força, porque a taberna em Capelins de Cima ficava muito longe e perdiam muito tempo no caminho! O ti Miguel ficou quase convencido, mas continuava com  dúvidas e medo de se ir meter numa naquilo que não conhecia e nem dinheiro tinham para começar o negócio! Porém, a ti Maria dava-lhe força, lembrando sempre a ajuda preciosa da comadre Mariana, acabando por o convencer, mas a conversa entre eles, sobre a taberna, prosseguia! 
Ti Miguel: Eh Maria, tenho muito medo disto, mas se tu dizes que a comadre Mariana nos vai ajudar, então, trata lá disso! Mas não sei se fazemos a taberna aqui na casa de fora, ou se faço aí um cabanão! O que dizes mulher? 
Ti Maria: Oh homem, já tenho tudo tratado, a taberna tem que ser aqui na casa de fora, é onde são as tabernas! Agora, para comerçarmos, a comadre Mariana empresta-nos uma banca grande que tem ali e não lhe faz falta, para pôr os copos em cima e aviar o vinho e a aguardente, depois, se isto der, lá para a frente,  logo fazes um balcão com umas tábuas e uns pregos! 
Ti Miguel: Está bem, Maria! Então e como seguras aqui o vinho sem azedar? 
Ti Maria: Oh Miguel, está descansado, já sei o que tenho de fazer! Se ele der sinal de azedar, se começar a criar laço por cima, leva uma colher de sal e uma pinga de água e aguenta-se até o vender! Mas, mesmo sem esse sinal, leva sempre uma pinga de água, por isso, estás a ver, o vinho cresce sempre e isso é tudo ganho! Olha Miguel, vai já dizendo a novidade lá no trabalho! Ora, hoje é quarta-feira, então, se não houver nenhuma  desgraça, abrimos a taberna no sábado que vem!    
Ti Miguel: Pronto, está bem, amanhã podes ir tratar disso lá a Terena, com a comadre Mariana! 
A ti Maria foi a correr, combinar com a sua comadre Mariana, como deviam fazer a volta, combinaram tudo e, no dia seguinte, depois da ti Maria entregar os filhos à comadre Josefa, partiram na burra da comadre Mariana para Terena! 
Foram à Câmara tratar da licença da taberna, seguindo logo para a casa do ti Jesuíno ajustar as mercadorias que tinham de levar! O ti Jesuíno ao ver duas mulheres sózinhas ainda se começou a alarvar, mas levou logo nas orelhas, a ti Mariana era muito esperta e deu-lhe logo para trás, disse-lhe o que queriam e pediu o orçamento, avisando para não se alargar, senão ficava ali tudo, seguiam para o Alandroal e nunca mais lhe compravam ali nada! O ti Jesuíno não queria perder uma cliente promissora e, recuou nos seus intentos, mudando de estratégia, como tinha muita experiência desse negócio disse-lhe para comprar sempre bebidas das melhores e, decerto nunca se ia arrepender! Apartaram o que precisavam, ele fez-lhe um preço muito bom e ainda levaram mercadoria fiada e vasilhame emprestado! Fizeram um bom negócio com o ti Jesuíno e voltaram para o Monte do Escrivão!
Na sexta-feira, prepararam tudo, fizeram licores, lavaram os copos de lata (folha de flandres), que compraram ao ti Jesuíno, duas dúzias de dois tamanhos, para a aguardente e licores e para o vinho! Arranjaram um jarro de barro com a capacidade de um litro para, com ele, encher os copos do vinho, um alguidar de barro para lavar os copos, um quadro feito em buinho para pousar os copos depois de lavados, uma bolsa em pano para meter o dinheiro e mais algumas coisas, que deram trabalhar o dia todo na preparação para o grande dia da abertura, sábado logo de madrugada, hora do mata bicho! 
O ti Miguel levantou-se à mesma hora de sempre e, perto das cinco da manhã, meteu a saca de serapilheira  ao ombro e quando ia para sair de casa a ti Maria chamou-o: 
Ti Maria: Miguel, anda cá! 
Ti Miguel. O que queres mulher, não vês que está na hora de ir andando! 
Ti Maria: Hoje é o dia de abrir a nossa taberna, mas quero que sejas tu a inaugurá-la, chega aqui! 
A ti Maria encheu um copinho de aguardente  e disse-lhe para o beber e desejar boa sorte à sua aventura! 
O ti Miguel assim fez e exclamou: Eh mulher, que aguardente tão boa, nunca bebi nada assim! 
Assim, estava inaugurada a taberna do Monte do Escrivão no sábado, dia 5 de Maio de 1810! 
Ti Maria; Olha Miguel, ainda bem que confirmas que a aguardente é muito boa e é para ser sempre assim, podemos ganhar menos em cada copo, mas o ti Jesuíno disse-me que vendemos muito mais e, assim se vendemos mais, logo  ganhamos mais! Se gostaste dela, bebe lá outro copinho, homem! 
O ti Miguel nem se fez rogado, mas foi avisado pela ti Maria: Olha  que é só hoje, para inaugurar a taberna, não é para te habituares! 
O ti Miguel concordou e, saiu a caminho do trabalho! Ou porque já ia um pouco atrasado ou devido ao efeito da aguardente levou menos tempo na viagem até ao Monte da Talaveira, apressando-se a contar aos compadres, que já tinha inaugurado a taberna da ti Maria Domingas, e tinha bebido uma aguardente tão boa, que nunca tinha encontrado uma igual, passando o dia a falar dela, aguçando ainda mais a vontade dos outros, em ir o mais depressa possível, comprovar o que o ti Miguel lhe contava! 
A taberna do Monte do Escrivão, ganhou muita fama, devido à qualidade da aguardente, do licor e do vinho que a ti Maria Domingas vendia e, aqui acodiam homens de todo o lado, os lavradores das terras de Capelins eram obrigados a comparecer no escritório do Escrivão da Casa do Infantado e das herdades do Reino e alguns não dispensavam uns copinhos de aguardente e de vinho, e até vinham de além Guadiana, das Vilas de Cheles e de S. Bento da Contenda, como se fosse uma romaria! A ti Maria, manteve sempre a qualidade das bebidas na sua taberna e, foi devido a isso que teve muito sucesso! A sua vida e da família ficou desafogada em menos de um ano e, a taberna manteve-se aberta no Monte do Escrivão durante muitas gerações, tornando-se uma lenda nas terras de Capelins.
Na realidade, existiu uma taberna no Monte do Escrivão, da qual, ainda hoje se fala nas terras de Capelins.

Fim 

Monte do Escrivão - Capelins 



sábado, 8 de setembro de 2018


434 - Terras de Capelins 

Freguesia de Capelins 
A Freguesia é Capelins (Santo António), quase todas as Freguesias em Portugal têm o nome de um Santo agregado à sua denominação! Então, Capelins, oficialmente, não tem um ponto específico, é toda a Freguesia, seja Faleiros, Santo António (Igreja), Ferreira, Montes Juntos e uma pequenina parte de Cabeça de Carneiro. A Freguesia tem uma Junta, para a governar, que tem uma sede, por acaso em Montes Juntos, como podia ser em Faleiros, Ferreira, ou outro lugar dentro da Freguesia. A confusão é que, até ao dia 6 de Novembro de 1836 existiam as duas Aldeias de Capelins de Cima e de Baixo, que naquele dia foram fundidas e o seu topónimo foi substiuido por "Ferreira" de Capelins! O que a Google apresenta como "Capelins" junto a Santo António - Igreja, está errado! Assim, a sede da Junta de Freguesia de Capelins, por acaso está em Montes Juntos desde Fevereiro de 1921, mas é todo o espaço geográfico da Freguesia que se denomina por "Capelins".



433 - Terras de Capelins 

A identidade cultural da comunidade capelinense 
"Identidade" é algo único, distinto e completo. "Cultural" é um adjetivo que se refere a "saber". Logo, a junção das duas palavras produz o sentido de "saber-se reconhecer". 
Na perceção individual ou coletiva da identidade, a cultura exerce um papel principal para delimitar as diversas personalidades, os padrões de conduta e ainda as características próprias de cada grupo humano. 
A influência do meio modifica constantemente um ser já que o nosso mundo é repleto de inovações e características temporárias, os chamados "modismos". 
No passado, as identidades eram mais conservadas devido à falta de contato entre culturas diferentes, porém, com a globalização, isso mudou, fazendo com que as pessoas interagissem mais entre si e com o mundo ao seu redor.
Uma pessoa que nasce num lugar absorve todas as características deste, entretanto, se ela for submetida a uma cultura diferente por muito tempo, ela vai adquirir as características do novo local onde está agregada. 
Por isso, os "Amigos de Capelins" registam e publicam a história, lendas, contos, gastronomia, usos e costumes dos nossos antepassados, com o objetivo de não deixar esquecer as antigas características que, estão sendo substituídas pelas adquiridas nos novos lugares, onde as gerações de hoje residem.

Com a ajuda, saudável, de todos! A bem da Freguesia de Capelins e, em memória dos nossos antepassados!

Obrigado! 


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

432 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do Moinho das Bolas 
Moinho de Bolas/Seixos
"Esta confiável e eficaz tecnologia de moagem existe há mais de 200 anos, e a Metso até agora projetou, fabricou e instalou mais de 8.000 moinhos de bolas/seixos em todo o mundo. Ambos utilizam corpos moedores como meio de moagem, sendo os de bolas com bolas de aço, e os de seixos com cerâmica ou a própria rocha natural".
O Moinho do Bolas ficava/fica situado no rio Guadiana, no limite das herdades da Amadoreira e da Defesa de Bobadela, na Freguesia de Capelins, encontrando-se submerso pelas águas do Grande Lago de Alqueva! 
Este Moinho, construído no início da primeira década de 1900, foi o último a edificar nesta Freguesia, quando já aqui existiam cerca de 20 Moinhos e, um dos últimos no rio Guadiana! 
A sua construção envolveu muito falatório, a opinião dos entendidos na matéria era que, não havia lugar para mais Moinhos e, toda a gente queria saber quem seriam os donos desse Moinho! Alguns diziam que devia ser uma sociedade de lavradores das herdades vizinhas, mas os que eram confrontados afirmavam que, não sabiam de nada, ninguém tinha falado com eles sobre esse assunto e, achavam que, devia ser uma alta figura de fora da Freguesia e, estavam certos! 
Assim que o caudal de inverno do rio Guadiana baixou, começaram as obras, aumentando ainda mais a curiosidade dos capelinenses e dos vizinhos, ao mesmo tempo, começaram a ouvir que o Moinho  era diferente de todos os que já existiam, não teria mós, fazia a farinha com umas Bolas, o que era difícil de acreditar! 
Já passava de um século que tinham surgido na Europa os Moinhos de Bolas, os quais, eram mais usados para desfazer o minério, mas neste caso, dava jeito aos donos deste Moinho fazer publicidade e, foi a seu mando que esta novidade foi espalhada por toda a região. 
Os alvanéus que lá trabalhavam eram de Terena, mas uma grande parte dos jornaleiros eram de Montes Juntos, construiam o Moinho, o açude e toda a zona envolvente, incluindo os acessos, tal como os alvanéus também os jornaleiros não sabiam para quem trabalhavam, recebiam a jorna e as ordens diretamente do Mestre e, só sabiam que ele tinha sido contratado por um Procurador que morava na Vila de Terena, existia aqui um grande segredo! Devido a esta situação, surgiam conversas incríveis, como a de dois fregueses dos Moinhos das Azenhas D' El-Rei o ti Manoel Joaquim de Montes Juntos e um seu compadre o ti Joaquim Manoel que morava no Monte da Capeleira, ambos seareiros que se encontraram no caminho ao lado do Monte da Amadoreira, vindo um, de volta com com a farinha e, o outro dirigia-se para as Azenhas D' El-Rei com a semente! Ao cruzarem-se, deram ordem de paragem às mulas que pararam instantaneamente e, os carros ficaram lado a lado! Cumprimentaram-se e a conversa foi imediatamente dirigida para o novo Moinho no Guadiana! 
Ti Manoel: Então compadre, o que me diz vocemecê do Moinho que andam para ali a construir na Guadiana?
Ti Joaquim: O que hei-de dizer compadre, digo o que toda a gente por aí diz! Diga-me lá que necessidade há de mais um Moinho? Já temos aqui uns vinte! Para mim, não me faz falta nenhuma, toda a vida fui às Azenhas D' El-Rei, já o meu avô e o meu pai lá eram fregueses, por isso, é aí que continuo a ir! Não sei, compadre, para que será uma coisa destas? 
Ti Manoel. Pois, olhe compadre, eu digo o mesmo! Mas dizem que há aí uma marosca qualquer! Então, como é que controem uma coisa dessas e ninguém sabe quem é o dono! Tiveram de tirar licença lá no Alandroal, logo, teve de ficar lá o nome dele! Ou então, será alguma sociedade secreta! 
Ti Joaquim: Sim, sim compadre, isto é secretismo a mais! Mas não podiam fazer o Moinho sem licença, eles tiveram de dar a licença a alguém e esse alguém é o dono! Mas quem será? Quém será ele? O compadre não desconfia? Cá a mim, parece-me que deve ser de algum desses lavradores ricaços ali de Terena! 
Ti Manoel: Oh compadre, eu também desconfio disso, mas porque motivo será um segredo destes? Tem de haver aí alguma coisa! 
Ti Joaquim: Sim, sim, compadre, alguma coisa ele há, senão não havia tanto falatório! 
Ti Manoel: Então e o compadre já ouviu a novidade sobre como é esse Moinho? 
Ti Joaquim: Qual noviidade compadre? Então não é como os outros? 
Ti Mnaoel: Ah o compadre ainda não sabia? Não é como os outros, não! Lá nos Montes Juntos, dizem que vai ser um Moinho como há poucos no Mundo! 
Ti Joaquim: Oh diabo! Oh diabo! Eu vi logo que isso nos trazia para aqui algumas "fezes"! Mas que "raio" vai esse Moinho ter que outros não têm? 
Ti Manoel: Olhe compadre, dizem que não vai ter mós! 
Ti Joaquim: Oh compadre não me faça rir! Essa agora! Então sem mós, como vai moer a semente, como faz a farinha? 
Ti Manoel: Não sei compadre, dizem que em vez das mós vai levar duas bolas de aço e são essas bolas que passam uma pela outra, moem o trigo e fazem a farinha, que dizem ser melhor do que a dos outros Moinhos, é mais e muito fina! Sabe que até já lhe chamam o Moinho das Bolas?
Ti Joaquim. Ah sim compadre? E o compadre não acha que isso são modernices a mais aqui para o nosso Lugar? 
Ti Manoel: Então não acho compadre! Olhe, como lhe disse, eu é que não ponho lá os pés e trigo meu, não entra nesse Moinho! 
Ti Joaquim: Eu digo o mesmo compadre! Vamos lá indo, cumprimentos lá em casa, até um dia destes! 
Ti Manoel: Passe bem compadre, os meus cumprimentos à família! 
O ti Manoel Joaquim e o ti Joaquim Manoel despediram-se e foram tratar da sua vida, seguindo em direções contrárias, ambos afirmando que, não iam pôr os pés no futuro Moinho das Bolas! 
A construção do Moinho das Bolas, já era assim conhecido, continhuava em força e, todos os dias lá passavam muitos curiosos a tentar saber alguma novidade e, outros andavam espreitando as obras por detrás dos outeiros em volta, porque ninguém percebia como é que o Moinho pudia trabalhar sem mós e como é que duas bolas podiam fazer o trigo em farinha! 
Finalmente, o Moinho, o açude e os acessos ficaram prontos e, a curiosidade dos capelinenses subiu em flecha, porque diziam que estavam quase a chegar as Bolas de aço que vinham lá de fora do estrangeiro! 
Um dia, apareceu um carro puxado por bois a caminho do Moinho das Bolas, toda a gente pensou que eram as Bolas, não podia ser outra coisa e, os que puderam foram a correr até ao rio Guadiana para as ver descarregar e, se os deixassem, até podiam ajudar e mesmo vê-las a fazer farinha, passaram por ali o dia, mas sofreram grande deceção, uma vez que no carro vinham mós feitas em mármore, era verdade que eram diferentes das outras mós de granito, existentes nos outros Moinhos e de verdade faziam a farinha mais fina, mas não eram bolas, isso não eram, a não ser que ainda viessem, ficou essa dúvida! Porém, as mós de mármore foram instaladas, o tempo foi passando e, nada de bolas! Moinho foi registado com a designação de Moinho das Bolas, porque, já era uma marca bem conhecida em toda a região! 
A farinha produzida neste Moinho era de verdade muito melhor do que nos outros Moinhos, devido às mós de mármore, por isso, eram muitos os fregueses que lá acodiam e, até o ti Manoel Joaquim e o ti Joaquim Manoel deram o dito por não dito e ficatram fregueses, também, devido à troca dos moleiros das Azenhas D' El-Rei, para este Moinho! As Bolas, nunca chegaram ao Moinho das Bolas, mas que era diferente dos outros, isso era! 
Sobre quem mandou construir o Moinho das Bolas, continuou a ser um grande mistério até agora, porque, já sabemos que, este Moinho não foi mandado construir pelo Ti Bolas, mas sim, pelo mesmo dono dos Moinhos das Azenhas D' El-Rei, que era, o Conde de Terena. 

Fim 

Moinho do Bolas



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