sábado, 15 de setembro de 2018

436 - Terras de Capelins 
História, lendas, tradições, usos e costumes das terras de Capelins
A lenda das Cavalhadas nas Festas Religiosas das Terras de Capelins
As Cavalhadas eram uma luta simulada, na qual os participantes principais, em número de 24, representavam, através de evoluções eqüestres e movimentos de espada ou lança, uma batalha de fundo religioso entre mouros e cristãos, e que acabava sendo vencida por estes, após a tomada do "castelo" na praça e a "submissão" dos mouros ao cristianismo, através do "batismo" destes, na Igreja. 
As Cavalhadas, segundo mostram pesquisas históricas, surgiram no reinado de Carlos Magno, na França, que se destacou pelo combate ao Islão, no final do século VIII. O objetivo era destacar as vitórias do cristianismo sobre o islamismo, o que levou as cavalhadas a ser muito populares, tanto em Portugal como em Espanha, que sofreram bastante com uma prolongada dominação dos muçulmanos, os mouros, como eram conhecidos na Península Ibérica. 
As Cavalhadas consistiam em dois grupos, de cristãos e mouros, com 12 cavaleiros cada um, número esse que remetia aos 12 Pares de França. Os diálogos das Cavalhadas, entre os embaixadores dos dois lados, também tinham inspiração histórica, baseando-se em grandes romances da cavalaria como "Cid Campeador", "La Canción de Rolando" e "Mata-Mouros".
Nas Festas religiosas das terras de Capelins, nos anos de 1700, 1800 e primeira metade de 1900, não faltavam as cavalhadas, fosse cavalgando burros ou cavalos, porém, o inimigo Mouro eram pombos ou frangos pendurados num fio e os cavaleiros partiam com a montada a trote de um lugar préviamente marcado e, com uma lança em punho, tinham de os caçar, ficando, assim,  proprietários da sua presa e vencedores da luta simulada. No fundo, o sentido era o mesmo descrito anteriormente, ou seja, seria mostrar destresa, valentia e vencer o inimigo, neste caso os Mouros. 

Cavalhadas!



435 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da Taberna do Monte do Escrivão em Capelins
Ao cair da noite de quarta - feira do dia 2 de Maio do ano de 1810, o Ti Miguel da Serra entrou em sua casa no Monte do Escrivão, com a habitual saca de serapilheira às costas e, o pau de defesa que, arrumou atrás da porta, vindo do trabalho na herdade da Talaveira! Os seus filhos mais novos já estavam com um olho fechado e outro aberto, denunciando muito sono, mas a larica (fome) era tanta, que não conseguiam fechar o outro olho, sob pena de irem de barriga vazia para a cama, porque, enquanto o ti Miguel não chegasse a casa, ninguém se sentava à banca para cear (jantar). A ti Maria Domingas, sua mulher, arredou a panela das sopas de grãos do lume e preparou as colheres, o rodilho (trapo para limpar a boca e as colheres, mas coletivo), o pão e o barranhão (tijela grande, de barro)! O ti Miguel, tirou a navalha do bolso das calças e começou a migar (cortar pequenas fatias de pão) para dentro do barranhão, contadas uma a uma, ao mesmo tempo que ia nomeando o nome dos destinatários, seis para o Mnaoel, cinco para a Rosa, dez para mim e, por aí, não podia haver desperdício, porque havia falta de tudo! A ti Maria despejou as sopas da panela de barro para cima do pão e, começaram logo a comer, todos de dentro do barranhão, porque não existiam pratos! 
Depois de sossegarem um pouco  o estômago, a ti Maria  meteu conversa com o marido: 
Ti Maria: Miguel, tenho uma conversa para te fazer!
Ti Miguel: Mau, mau, Maria! Pela tua cara, cheira-me a "fezes"! 
Ti Maria: Oh homem, não são "fezes" nenhumas, se não te agradar o que te vou dizer, acaba-se logo a conversa! 
Ti Miguel: Está bem, Maria! Vou comendo, diz lá o que me queres dizer! 
Ti Maria: Há muito tempo que ando a pensar nisto, mas ainda não tinha dito nada, porque queria saber, tudo bem sabido, agora já sei graças á nossa comadre Mariana, mas ela também tem andado a estudar algumas coisas que não sabia lá muito bem, mas agora já sabemos as duas! 
Ti Miguel: Oh mulher, então a conversa mete a comadre Mariana, mete estudos e o quê mais? Mas vá, diz lá, senão está quase na hora de deitar! 
Ti Maria: Oh Miguel, eu não sei como te dizer isto homem! Tu sabes que nos fartamos de trabalhar e a nossa vida não medra, mal ganhamos para comer! Então, eu pensei,  pensei, qual seria a maneira de melhrar a nossa vida, até que me lembrei de uma coisa e fui logo contar à nossa comadre Mariana, e ela disse-me para não olhar para trás e falar logo contigo, antes de alguém daqui se lembrar disto e passar-nos à frente! 
Ti Miguel: Oh Maria, se nunca mais me dizes o que queres, decerto que nos passam à frentes, diz lá que coisa é essa que tu pensaste! 
Ti Maria: Não sei o que vais pensar, mas eu pensei em abrirmos uma taberna aqui no Monte do Escrivão, o que dizes Miguel? 
Ti Miguel: Eh Maria, apanhaste-me de surpresa, nem sei o que dizer, mas tu achas algum jeito nisso? 
Ti Maria: Acho, sim Miguel! Acho eu e a nossa comadre Mariana! A irmã dela tem uma taberna lá em Santiago e foi por isso que desafogaram a vida! A comadre Mariana também me disse que nos ajudava a começar o negócio e vai comigo à Câmara a Terena tirar a licença e a comprar o vinho, a aguardente, umas onças de tabaco, livros de papel para enrolar os cigarros e fósforos! E olha, ela sabe fazer licor para depois vendermos na nossa taberna e até já me ensinou a mesinha para o vinho não azedar! 
Ti Miguel: Não sei, não sei Maria! Vou pensar melhor nisso e, amanhã logo se vê o que vamos fazer!  
Ti Maria: Está bem homem! É o que tu quiseres! Se não achares jeito, não se abre a taberna e acabou-se!
Mal acabaram a ceia (jantar), as crianças foram a correr para a cama, uma esteira de buinho no chão, que era muito melhor que os sacos de serapilheira cheias de palha que muitos tinham de usar para dormir! O ti Miguel e a ti Maria, já não demoraram muito em apagar a candeia, porque tinham de poupar o azeite e, também se deitaram, porque às quatro da manhã já o ti Miguel tinha de estar em pé e às cinco lá no Monte da Talaveira!
No dia seguinte, durante a ceia, voltou a conversa da taberna da ti Maria! O ti Miguel, aproveitou para, durante o dia, falar com alguns compadres lá no trabalho e, todos lhe disseram que fazia ali muita falta, e deram-lhe força, porque a taberna em Capelins de Cima ficava muito longe e perdiam muito tempo no caminho! O ti Miguel ficou quase convencido, mas continuava com  dúvidas e medo de se ir meter numa naquilo que não conhecia e nem dinheiro tinham para começar o negócio! Porém, a ti Maria dava-lhe força, lembrando sempre a ajuda preciosa da comadre Mariana, acabando por o convencer, mas a conversa entre eles, sobre a taberna, prosseguia! 
Ti Miguel: Eh Maria, tenho muito medo disto, mas se tu dizes que a comadre Mariana nos vai ajudar, então, trata lá disso! Mas não sei se fazemos a taberna aqui na casa de fora, ou se faço aí um cabanão! O que dizes mulher? 
Ti Maria: Oh homem, já tenho tudo tratado, a taberna tem que ser aqui na casa de fora, é onde são as tabernas! Agora, para comerçarmos, a comadre Mariana empresta-nos uma banca grande que tem ali e não lhe faz falta, para pôr os copos em cima e aviar o vinho e a aguardente, depois, se isto der, lá para a frente,  logo fazes um balcão com umas tábuas e uns pregos! 
Ti Miguel: Está bem, Maria! Então e como seguras aqui o vinho sem azedar? 
Ti Maria: Oh Miguel, está descansado, já sei o que tenho de fazer! Se ele der sinal de azedar, se começar a criar laço por cima, leva uma colher de sal e uma pinga de água e aguenta-se até o vender! Mas, mesmo sem esse sinal, leva sempre uma pinga de água, por isso, estás a ver, o vinho cresce sempre e isso é tudo ganho! Olha Miguel, vai já dizendo a novidade lá no trabalho! Ora, hoje é quarta-feira, então, se não houver nenhuma  desgraça, abrimos a taberna no sábado que vem!    
Ti Miguel: Pronto, está bem, amanhã podes ir tratar disso lá a Terena, com a comadre Mariana! 
A ti Maria foi a correr, combinar com a sua comadre Mariana, como deviam fazer a volta, combinaram tudo e, no dia seguinte, depois da ti Maria entregar os filhos à comadre Josefa, partiram na burra da comadre Mariana para Terena! 
Foram à Câmara tratar da licença da taberna, seguindo logo para a casa do ti Jesuíno ajustar as mercadorias que tinham de levar! O ti Jesuíno ao ver duas mulheres sózinhas ainda se começou a alarvar, mas levou logo nas orelhas, a ti Mariana era muito esperta e deu-lhe logo para trás, disse-lhe o que queriam e pediu o orçamento, avisando para não se alargar, senão ficava ali tudo, seguiam para o Alandroal e nunca mais lhe compravam ali nada! O ti Jesuíno não queria perder uma cliente promissora e, recuou nos seus intentos, mudando de estratégia, como tinha muita experiência desse negócio disse-lhe para comprar sempre bebidas das melhores e, decerto nunca se ia arrepender! Apartaram o que precisavam, ele fez-lhe um preço muito bom e ainda levaram mercadoria fiada e vasilhame emprestado! Fizeram um bom negócio com o ti Jesuíno e voltaram para o Monte do Escrivão!
Na sexta-feira, prepararam tudo, fizeram licores, lavaram os copos de lata (folha de flandres), que compraram ao ti Jesuíno, duas dúzias de dois tamanhos, para a aguardente e licores e para o vinho! Arranjaram um jarro de barro com a capacidade de um litro para, com ele, encher os copos do vinho, um alguidar de barro para lavar os copos, um quadro feito em buinho para pousar os copos depois de lavados, uma bolsa em pano para meter o dinheiro e mais algumas coisas, que deram trabalhar o dia todo na preparação para o grande dia da abertura, sábado logo de madrugada, hora do mata bicho! 
O ti Miguel levantou-se à mesma hora de sempre e, perto das cinco da manhã, meteu a saca de serapilheira  ao ombro e quando ia para sair de casa a ti Maria chamou-o: 
Ti Maria: Miguel, anda cá! 
Ti Miguel. O que queres mulher, não vês que está na hora de ir andando! 
Ti Maria: Hoje é o dia de abrir a nossa taberna, mas quero que sejas tu a inaugurá-la, chega aqui! 
A ti Maria encheu um copinho de aguardente  e disse-lhe para o beber e desejar boa sorte à sua aventura! 
O ti Miguel assim fez e exclamou: Eh mulher, que aguardente tão boa, nunca bebi nada assim! 
Assim, estava inaugurada a taberna do Monte do Escrivão no sábado, dia 5 de Maio de 1810! 
Ti Maria; Olha Miguel, ainda bem que confirmas que a aguardente é muito boa e é para ser sempre assim, podemos ganhar menos em cada copo, mas o ti Jesuíno disse-me que vendemos muito mais e, assim se vendemos mais, logo  ganhamos mais! Se gostaste dela, bebe lá outro copinho, homem! 
O ti Miguel nem se fez rogado, mas foi avisado pela ti Maria: Olha  que é só hoje, para inaugurar a taberna, não é para te habituares! 
O ti Miguel concordou e, saiu a caminho do trabalho! Ou porque já ia um pouco atrasado ou devido ao efeito da aguardente levou menos tempo na viagem até ao Monte da Talaveira, apressando-se a contar aos compadres, que já tinha inaugurado a taberna da ti Maria Domingas, e tinha bebido uma aguardente tão boa, que nunca tinha encontrado uma igual, passando o dia a falar dela, aguçando ainda mais a vontade dos outros, em ir o mais depressa possível, comprovar o que o ti Miguel lhe contava! 
A taberna do Monte do Escrivão, ganhou muita fama, devido à qualidade da aguardente, do licor e do vinho que a ti Maria Domingas vendia e, aqui acodiam homens de todo o lado, os lavradores das terras de Capelins eram obrigados a comparecer no escritório do Escrivão da Casa do Infantado e das herdades do Reino e alguns não dispensavam uns copinhos de aguardente e de vinho, e até vinham de além Guadiana, das Vilas de Cheles e de S. Bento da Contenda, como se fosse uma romaria! A ti Maria, manteve sempre a qualidade das bebidas na sua taberna e, foi devido a isso que teve muito sucesso! A sua vida e da família ficou desafogada em menos de um ano e, a taberna manteve-se aberta no Monte do Escrivão durante muitas gerações, tornando-se uma lenda nas terras de Capelins.
Na realidade, existiu uma taberna no Monte do Escrivão, da qual, ainda hoje se fala nas terras de Capelins.

Fim 

Monte do Escrivão - Capelins 



sábado, 8 de setembro de 2018


434 - Terras de Capelins 

Freguesia de Capelins 
A Freguesia é Capelins (Santo António), quase todas as Freguesias em Portugal têm o nome de um Santo agregado à sua denominação! Então, Capelins, oficialmente, não tem um ponto específico, é toda a Freguesia, seja Faleiros, Santo António (Igreja), Ferreira, Montes Juntos e uma pequenina parte de Cabeça de Carneiro. A Freguesia tem uma Junta, para a governar, que tem uma sede, por acaso em Montes Juntos, como podia ser em Faleiros, Ferreira, ou outro lugar dentro da Freguesia. A confusão é que, até ao dia 6 de Novembro de 1836 existiam as duas Aldeias de Capelins de Cima e de Baixo, que naquele dia foram fundidas e o seu topónimo foi substiuido por "Ferreira" de Capelins! O que a Google apresenta como "Capelins" junto a Santo António - Igreja, está errado! Assim, a sede da Junta de Freguesia de Capelins, por acaso está em Montes Juntos desde Fevereiro de 1921, mas é todo o espaço geográfico da Freguesia que se denomina por "Capelins".



433 - Terras de Capelins 

A identidade cultural da comunidade capelinense 
"Identidade" é algo único, distinto e completo. "Cultural" é um adjetivo que se refere a "saber". Logo, a junção das duas palavras produz o sentido de "saber-se reconhecer". 
Na perceção individual ou coletiva da identidade, a cultura exerce um papel principal para delimitar as diversas personalidades, os padrões de conduta e ainda as características próprias de cada grupo humano. 
A influência do meio modifica constantemente um ser já que o nosso mundo é repleto de inovações e características temporárias, os chamados "modismos". 
No passado, as identidades eram mais conservadas devido à falta de contato entre culturas diferentes, porém, com a globalização, isso mudou, fazendo com que as pessoas interagissem mais entre si e com o mundo ao seu redor.
Uma pessoa que nasce num lugar absorve todas as características deste, entretanto, se ela for submetida a uma cultura diferente por muito tempo, ela vai adquirir as características do novo local onde está agregada. 
Por isso, os "Amigos de Capelins" registam e publicam a história, lendas, contos, gastronomia, usos e costumes dos nossos antepassados, com o objetivo de não deixar esquecer as antigas características que, estão sendo substituídas pelas adquiridas nos novos lugares, onde as gerações de hoje residem.

Com a ajuda, saudável, de todos! A bem da Freguesia de Capelins e, em memória dos nossos antepassados!

Obrigado! 


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

432 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do Moinho das Bolas 
Moinho de Bolas/Seixos
"Esta confiável e eficaz tecnologia de moagem existe há mais de 200 anos, e a Metso até agora projetou, fabricou e instalou mais de 8.000 moinhos de bolas/seixos em todo o mundo. Ambos utilizam corpos moedores como meio de moagem, sendo os de bolas com bolas de aço, e os de seixos com cerâmica ou a própria rocha natural".
O Moinho do Bolas ficava/fica situado no rio Guadiana, no limite das herdades da Amadoreira e da Defesa de Bobadela, na Freguesia de Capelins, encontrando-se submerso pelas águas do Grande Lago de Alqueva! 
Este Moinho, construído no início da primeira década de 1900, foi o último a edificar nesta Freguesia, quando já aqui existiam cerca de 20 Moinhos e, um dos últimos no rio Guadiana! 
A sua construção envolveu muito falatório, a opinião dos entendidos na matéria era que, não havia lugar para mais Moinhos e, toda a gente queria saber quem seriam os donos desse Moinho! Alguns diziam que devia ser uma sociedade de lavradores das herdades vizinhas, mas os que eram confrontados afirmavam que, não sabiam de nada, ninguém tinha falado com eles sobre esse assunto e, achavam que, devia ser uma alta figura de fora da Freguesia e, estavam certos! 
Assim que o caudal de inverno do rio Guadiana baixou, começaram as obras, aumentando ainda mais a curiosidade dos capelinenses e dos vizinhos, ao mesmo tempo, começaram a ouvir que o Moinho  era diferente de todos os que já existiam, não teria mós, fazia a farinha com umas Bolas, o que era difícil de acreditar! 
Já passava de um século que tinham surgido na Europa os Moinhos de Bolas, os quais, eram mais usados para desfazer o minério, mas neste caso, dava jeito aos donos deste Moinho fazer publicidade e, foi a seu mando que esta novidade foi espalhada por toda a região. 
Os alvanéus que lá trabalhavam eram de Terena, mas uma grande parte dos jornaleiros eram de Montes Juntos, construiam o Moinho, o açude e toda a zona envolvente, incluindo os acessos, tal como os alvanéus também os jornaleiros não sabiam para quem trabalhavam, recebiam a jorna e as ordens diretamente do Mestre e, só sabiam que ele tinha sido contratado por um Procurador que morava na Vila de Terena, existia aqui um grande segredo! Devido a esta situação, surgiam conversas incríveis, como a de dois fregueses dos Moinhos das Azenhas D' El-Rei o ti Manoel Joaquim de Montes Juntos e um seu compadre o ti Joaquim Manoel que morava no Monte da Capeleira, ambos seareiros que se encontraram no caminho ao lado do Monte da Amadoreira, vindo um, de volta com com a farinha e, o outro dirigia-se para as Azenhas D' El-Rei com a semente! Ao cruzarem-se, deram ordem de paragem às mulas que pararam instantaneamente e, os carros ficaram lado a lado! Cumprimentaram-se e a conversa foi imediatamente dirigida para o novo Moinho no Guadiana! 
Ti Manoel: Então compadre, o que me diz vocemecê do Moinho que andam para ali a construir na Guadiana?
Ti Joaquim: O que hei-de dizer compadre, digo o que toda a gente por aí diz! Diga-me lá que necessidade há de mais um Moinho? Já temos aqui uns vinte! Para mim, não me faz falta nenhuma, toda a vida fui às Azenhas D' El-Rei, já o meu avô e o meu pai lá eram fregueses, por isso, é aí que continuo a ir! Não sei, compadre, para que será uma coisa destas? 
Ti Manoel. Pois, olhe compadre, eu digo o mesmo! Mas dizem que há aí uma marosca qualquer! Então, como é que controem uma coisa dessas e ninguém sabe quem é o dono! Tiveram de tirar licença lá no Alandroal, logo, teve de ficar lá o nome dele! Ou então, será alguma sociedade secreta! 
Ti Joaquim: Sim, sim compadre, isto é secretismo a mais! Mas não podiam fazer o Moinho sem licença, eles tiveram de dar a licença a alguém e esse alguém é o dono! Mas quem será? Quém será ele? O compadre não desconfia? Cá a mim, parece-me que deve ser de algum desses lavradores ricaços ali de Terena! 
Ti Manoel: Oh compadre, eu também desconfio disso, mas porque motivo será um segredo destes? Tem de haver aí alguma coisa! 
Ti Joaquim: Sim, sim, compadre, alguma coisa ele há, senão não havia tanto falatório! 
Ti Manoel: Então e o compadre já ouviu a novidade sobre como é esse Moinho? 
Ti Joaquim: Qual noviidade compadre? Então não é como os outros? 
Ti Mnaoel: Ah o compadre ainda não sabia? Não é como os outros, não! Lá nos Montes Juntos, dizem que vai ser um Moinho como há poucos no Mundo! 
Ti Joaquim: Oh diabo! Oh diabo! Eu vi logo que isso nos trazia para aqui algumas "fezes"! Mas que "raio" vai esse Moinho ter que outros não têm? 
Ti Manoel: Olhe compadre, dizem que não vai ter mós! 
Ti Joaquim: Oh compadre não me faça rir! Essa agora! Então sem mós, como vai moer a semente, como faz a farinha? 
Ti Manoel: Não sei compadre, dizem que em vez das mós vai levar duas bolas de aço e são essas bolas que passam uma pela outra, moem o trigo e fazem a farinha, que dizem ser melhor do que a dos outros Moinhos, é mais e muito fina! Sabe que até já lhe chamam o Moinho das Bolas?
Ti Joaquim. Ah sim compadre? E o compadre não acha que isso são modernices a mais aqui para o nosso Lugar? 
Ti Manoel: Então não acho compadre! Olhe, como lhe disse, eu é que não ponho lá os pés e trigo meu, não entra nesse Moinho! 
Ti Joaquim: Eu digo o mesmo compadre! Vamos lá indo, cumprimentos lá em casa, até um dia destes! 
Ti Manoel: Passe bem compadre, os meus cumprimentos à família! 
O ti Manoel Joaquim e o ti Joaquim Manoel despediram-se e foram tratar da sua vida, seguindo em direções contrárias, ambos afirmando que, não iam pôr os pés no futuro Moinho das Bolas! 
A construção do Moinho das Bolas, já era assim conhecido, continhuava em força e, todos os dias lá passavam muitos curiosos a tentar saber alguma novidade e, outros andavam espreitando as obras por detrás dos outeiros em volta, porque ninguém percebia como é que o Moinho pudia trabalhar sem mós e como é que duas bolas podiam fazer o trigo em farinha! 
Finalmente, o Moinho, o açude e os acessos ficaram prontos e, a curiosidade dos capelinenses subiu em flecha, porque diziam que estavam quase a chegar as Bolas de aço que vinham lá de fora do estrangeiro! 
Um dia, apareceu um carro puxado por bois a caminho do Moinho das Bolas, toda a gente pensou que eram as Bolas, não podia ser outra coisa e, os que puderam foram a correr até ao rio Guadiana para as ver descarregar e, se os deixassem, até podiam ajudar e mesmo vê-las a fazer farinha, passaram por ali o dia, mas sofreram grande deceção, uma vez que no carro vinham mós feitas em mármore, era verdade que eram diferentes das outras mós de granito, existentes nos outros Moinhos e de verdade faziam a farinha mais fina, mas não eram bolas, isso não eram, a não ser que ainda viessem, ficou essa dúvida! Porém, as mós de mármore foram instaladas, o tempo foi passando e, nada de bolas! Moinho foi registado com a designação de Moinho das Bolas, porque, já era uma marca bem conhecida em toda a região! 
A farinha produzida neste Moinho era de verdade muito melhor do que nos outros Moinhos, devido às mós de mármore, por isso, eram muitos os fregueses que lá acodiam e, até o ti Manoel Joaquim e o ti Joaquim Manoel deram o dito por não dito e ficatram fregueses, também, devido à troca dos moleiros das Azenhas D' El-Rei, para este Moinho! As Bolas, nunca chegaram ao Moinho das Bolas, mas que era diferente dos outros, isso era! 
Sobre quem mandou construir o Moinho das Bolas, continuou a ser um grande mistério até agora, porque, já sabemos que, este Moinho não foi mandado construir pelo Ti Bolas, mas sim, pelo mesmo dono dos Moinhos das Azenhas D' El-Rei, que era, o Conde de Terena. 

Fim 

Moinho do Bolas



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

431 - Terras de Capelins 
História de vidas de Gentes das terras de Capelins 
Família "Romão" de Capelins e arredores 
Consideramos o nascimento da Família "Romão" no dia 02 de Janeiro de 1757, porque foi neste dia que nasceu "Romão Gomes" na Freguesia de Nossa Senhora das Neves, Amieira - Portel. Até esta data a Família tinha o apelido "Gomes" e, ele foi batizado com o nome próprio de "Ramom", "Romão Gomes", (averiguamos e "Romão", não vem de avós, nem paternos, nem maternos), depois, aos seus cinco filhos (faleceu um, Inácio) a todos foi dado o apelido de "Romão", às duas filhas parece-nos que não! "Romão Gomes" era filho de Manoel Gomes e de Leonor Rodrigues, ele natural de São Lourenço de Alqueva e sua mãe de Nossa Senhora das Neves de Amieira, Portel. Era neto pelo lado paterno de António Gomes e de Maria Domingas, ambos naturais da Vila de Portel. Romão Gomes, saiu da Aldeia da Amieira e, foi para S. Vicente do Pigeiro - Vendinha, onde casou (com 28 anos) no dia 02 de Outubro de 1785, com Luíza de Mira, natural desta Freguesia, onde ficaram a residir nesta mesma Aldeia. aqui nasceram sete filhos ( 5 meninos e duas meninas, que a seguir descrevemos): 

No dia 18 de Janeiro de 1787, nasceu o Inácio Romão, vindo a falecer 06 meses depois no dia 24 de Junho de 1757! 

No dia 09 de Junho de 1788, nasceu a filha Gregória! 
No dia 03 de Maio de 1790, nasceu José Romão!
No dia 08 de Dezembro de 1791, nasceu outro Inácio Romão!
No dia 01 de Janeiro de 1794, nasceu Manoel Romão! 
No dia 01 de Fevereiro de 1796, nasceu Francisco Romão! 
No dia 01 de Julho de 1798, nasceu Maria. 
Estes, todos naturais de São Vicente do Pigeiro - Vendinha.
Provavelmente, nasceram mais alguns filhos/as, depois da partida, da Vendinha, em Capelins ou em alguma localidade onde, eventualmente, ainda residiram até chegar aqui, (não encontramos em Santo António de Capelins)!
Encontramos os Assentos de casamentos de alguns dos seus filhos, na Igreja de Santo António de Capelins, assim como, do nascimento dos seus netos que, deram continuidade à família Romão, até hoje! Por exemplo, Manoel Romão casou na Igreja de Santo António, no dia 24 de Setembro de 1815, com Mariana da Conceição, uma das filhas de José Martins Caxamorra, dos quais, descendem a maioria dos capelinenses com apelido "Romão" que, hoje conhecemos em Ferreira, Montejuntos, ´Évora, Lisboa e arredores. 
"Romão Gomes", o pioneiro desta Família em Capelins, faleceu aqui, (com 65 anos), no dia 30 de Dezembro de 1822, ficando sepultado na Igreja de Santo António.


As linhagens "Romão" a partir de 1800, já estão registadas na Paróquia de santo António de Capelins, a não ser, a de alguns "Romão" que partiram para outras localidades ou para o Mundo!

Assento do nascimento de "Romão Gomes"
02 de Janeiro de 1757 - Nossa Senhora das Neves - Amieira - Portel 


sábado, 11 de agosto de 2018

430 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins
A lenda do Maltês Lavrador  
Na madrugada do dia 25 de Maio de 1740, quando a ti Maria Bia abriu a porta da sua taberna em Capelins de Cima, (hoje, Ferreira de Capelins), estava um homem alto, com chapéu preto  e com uma manta às costas, encostado a um pau, a figura de um verdadeiro maltês! A ti Maria Bia, não estranhou a sua presença, porque, naquela época passavam por ali muitos maltezes que faziam paragem por lhe dar o cheiro da taberna, a vinho e a aguardente! A ti Maria apenas exclamou em voz alta: 
Ti Maria: Mais um maltês! Bom dia! 
Maltês: Bom dia!
O maltês falou em voz baixa e rouca, talvez, consequência da frieza da noite, porque tinha dormido ao relento, embora já reinasse o mês de Maio, as noites ainda iam muito frias! Aquela voz, estava mesmo a pedir um mata bicho, ou seja, um copo ou dois de aguardente! A ti Maria, abriu a porta do “cabanão” onde era a taberna, acendeu a candeia de azeite, porque a aurora ainda não emprestava luz suficiente para se poder ver bem dentro da taberna, dizendo ao maltês: 
Ti Maria: Oh homem, já pode entrar, diga lá o que quer?
O maltês, estava perto da porta do cabanão, deu um passo em frente e ficou lá dentro!  A ti Maria, tinha bom olho, mesmo com pouca luz da candeia  reparou que era um homem novo, com cerca de 25 a 28 anos, mas com aspeto de sofrimento no físico e na alma. 
Maltês: Então, queria aí, um copo de aguardente! 
Nessa época, a aguardente era considerada um remédio para curar muitos males!
A ti Maria encheu um copo de aguardente para o maltês e, um para ela! Ainda o maltês não tinha tocado no seu copo, já ela estava a encher outro, como reparou que o maltês a olhava, apressou-se a justificar: 
Ti Maria: Tem de ser! Não tenho andado nada bem! Anda aqui bicho, enquanto não tomo dois ou três copinhos deste remédio não o mato, depois já fico bem o resto do dia!
O maltês, apenas acenou afirmativamente com a cabeça, levando o seu copo aos lábios sorvendo apenas metade da aguardente e, só o acabou quando a ti Maria já ia no terceiro, ou quarto, ficando por aí, porque, estava convencida que o bicho naquele dia não a incomodava mais! Logo a seguir, esfregou as mãos e encetou a conversa com o suposto maltês: 
Ti Maria: Então homem, diga-me lá, de onde é que vocemecê é? 
O maltês ficou indeciso em responder, fitando o copo de aguardente, por fim respondeu:
Maltês: Eu sou de um Monte perto de São Brás dos Matos, um pouco acima, chama-se Monte das Naves de Baixo! 
Ti Maria: Ah sim? Eu conheço isso tudo, quando o meu, que Deus lá tem, era vivo, moravamos em Terena e corríamos essas herdades todas a fazer ceifas e outros trabalhos, ainda lá estivemos nesse Monte, a fazer qualquer coisa, ou noutro lá ao pé, já não sei bem! Mas, então, se há lá tantos sítios para trabalhar, para esses lados, até na mina, o que vem vossemecê a fazer para aqui? Prego-a para lá e vem fugido aqui para a Defesa de Ferreira, não? Mais um! Há cá poucos!
Maltês: Não senhora, não é nada disso, é verdade que venho fugido, mas é de mim, das sombras da minha vida! Olhe, encha-me lá outro copo de aguardente! 
Ti Maria: Já me disse tudo! Eu vi logo que vinha fugido, nunca me engano, cheiram-me logo à distância, vem fugido porque a pregou para lá e deve ter sido boa! Ou fez pouco de alguma rapariga e desgaraçou-a ou matou alguém! Mas olhe que aqui não se escapa! Eles encontram-no!
O maltês negou todas as insinuações, mas não conseguiu convencer a ti Maria de que estava enganada, não havia nada a fazer! A mulher era do pior! Entretanto, chegaram mais dois ou três homens a matar o bicho e, ainda assistiram a parte da conversa entre o maltês e a ti Maria, mas limitaram-se a abanar a cabeça negativamente, não se atrevendo a contrariá-la, porque, quando ela metia uma coisa na cabeça, ninguém a demovia!  
Os fregueses que chegaram, foram metendo conversa com o maltês, perguntaram-lhe se vinha para trabalhar por ali, ou se ia de passagem! Ele, contou-lhe de onde era e que há muito tempo que ouvia falar da Vila de Ferreira, por isso, quando pensou sair lá do Monte das Naves de  Baixo, foi logo com a ideia de vir ali parar, embora tivessse tido ofertas para ficar a trabalhar na herdade das Bolhas no Rosário e, na herdade da Boeira, onde tinha dormido, mas este lugar, não lhe saia da cabeça, parecia que alguma coisa o chamava! O maltês, aproveitou para perguntar qual seria a melhor herdade e qual o lavrador que se devia dirigir para poder ficar a trabalhar! Os presentes, prontificaram-se a ajudar e, foram unânimes em lhe indicar a herdade da Zorra, explicaram-lhe onde ficava e por onde devia seguir! O maltês, pagou os copos de aguardente que tinha bebido, agradeceu  a informação e, seguiu direitnho ao Monte da Zorra mas, antes, ainda ouviu mais alguns desaforos por parte da ti Maria Bia que, não gostou nada do maltês e, continuou a dizer mal dele, por mais algum tempo, até surgir outra novidade em Capelins de Cima! Ninguém percebia porque motivo a ti Maria não gostava do homem, mas a verdade é que não engraçou com ele! 
A ti Maria Bia, apareceu em Capelins de Cima cerca de 1730, a Aldeia estava em crescimento, instalou-se numa pequena casa junto do Monte Grande que, era da Casa do Infantado, um bom lugar para o seu negócio, porque, estava dentro da herdade da Defesa de Ferreira, com muitos criados, abriu uma taberna num cabanão que, por ser a única, dava-lhe bem para viver, vendia copos de vinho, de aguardente, onças de tabaco, livros de papel para fazer os respetivos cigarros, fósforos e pouco mais! Era natural da Vila de Terena, viúva e sem filhos! Não se sabia nada do seu passado, mas ela sabia de todos.
O maltês seguiu pelo Monte do Meio, poço da estrada, onde nesssa época se iniciava a herdade da Zorra  e chegou ao respetivo Monte ainda cedo, dirigiu-se logo ao lavrador, tirou o chapéu em sinal de respeito, cumprimentou-o e, pediu - lhe  se podia falar! O lavrador da Zorra, moveu a cabeça em sinal afirmativo!
Maltês: Bom dia senhor, queria pedir-lhe se podia aceitar-me a trabalhar na sua herdade!
Lavrador: Bom dia homem! Isso é com o feitor e não é assim, primeiro, temos de saber quem é, como se chama, de onde vem, como veio ter aqui e, principalmente, o que sabe fazer! 
O maltês acenou com a cabeça, em sinal de compreensão! 
Lavrador: Mas já agora, diga-me lá como se chama? 
Maltês:  O meu nome é Manoel Rodrigues, seu criado, senhor!
Lavrador: Criado de Deus, Manoel Rodrigues? E de onde é?
Manoel: Sou do Monte das Naves de Baixo, de S. Brás dos Matos, senhor!
Lavrador: Conheço bem! E porque motivo veio parar aqui? 
Manoel: Foi devido a um grande desgosto que estou a ter na minha vida, fiquei viúvo no dia do meu casamento, a minha mulher já andava doente, mas não esperava uma coisas destas! Então, depois de a sepultar na Igreja de S. Brás dos Matos, não consegui ficar lá, nem mais um dia! Peguei no pau e numa manta, disse aos meus pais que vinha embora para a Vila de Ferreira e, aqui estou, senhor!
Lavrador: Eh rapaz que fezes as tuas! Eu compreendo isso! É muito triste! Então, e o que sabes fazer cá destes trabalhos? 
Manoel: Sei fazer tudo senhor! O meu pai é lavrador lá na herdade do Monte das Naves de Baixo, eu trabalhava com ele lá na herdade, com os meus irmãos, aprendemos a fazer tudo, logo desde pequenos!
Lavrador: Então, sendo assim, podes ficar a trabalhar aqui! Hoje, ficas no Monte, o feitor já te diz onde te podes arrumar e o que vais fazer!
Despediram-se e, o lavrador foi falar com o feitor que, veio imediatamente ter com o Manoel, começaram a falar, parecia que se conheciam desde sempre, falavam a mesma linguagem, depois, vieram a ser grandes amigos!Após uma breve conversa, ficou decidido que o Manoel no dia seguinte, ia ceifar! 
Assim, logo de madrugada, começou a ceifar com o rancho da herdade da Zorra, porque, era a atividade agrícola, onde precisavam de mais gente e, também, a mais bem paga! 
Quando acabou a ceifa, o Manoel passou para o carrego dos molhos de cereais para as eiras, ele, tanto dava molhos para cima das carroças como fazia as carradas, nenhum desses trabalhos tinha segredos para ele, sabia fazer tudo! 
Começaram a debulhar e, o Manoel continuou a mostrar as suas competências, sabia malhar, debulhar com os trilhos, limpar os cereais, ou seja, separar a semente da palha atirnado-o ao vento, ensacar, colocar os cereais, principalmente, aveia, trigo e cevada, dentro de grandes sacos de serapilheira, para serem transportados para os celeiros!
Após a debulha, o feitor entregou-lhe uma parelha de machos e, em companhia de outros criados passou algum tempo a carregar a semente para o celeiro comunitário da Vila de Terena e para o da Vila de Alandroal! 
O Manoel já se sentia muito bem nas terras da Vila de Ferreira (Capelins) e, as feridas da sua alma já davam sinais de estarem a sarar, foi fazendo amigos e, ganhando fama de homem honrado e de bom trabalhador, logo, começaram a aparecer pretendentes, mas ele não correspondia, não esquecia a sua falecida mulher Maria das Neves. 
Quando acabaram os trabalhos agrícolas do verão, ceifa, carrego, debulha, entrega do trigo nos celeiros e fazer as almiaras de palha para o gado e tapá-las com palha de centeio e piorno (giesta) para proteção das chuvas do inverno, fizeram uma festa no Monte da Zorra, com comes e bebes e um baile que durou quase toda a noite, mas o Manoel afastou-se do Monte e não assistiu a nada, porque, ainda não tinha  vontade de festas! 
No dia seguinte, começou novo trabalho na herdade da Zorra, o atalho, ou seja, a preparação das terras para as sementeiras, gradar e dar uma lavoura na folha (terra) onde iam semaear, o que não foi nada de novo para o Manoel, como, também, não foram os trabalhos que se seguiram, as sementeiras e, outros trabalhos como juntar pedra, desmatar, arrancar mato, piorno, estevas e carrascos, até chegar à poda das azinheiras, arranjar e carregar a lenha para abastecimento do Monte o ano inteiro. Assim, chegou o início do ciclo agrícola, nos finais de Fevereiro/Março, começou o alqueve, primeira lavoura das terras (folhas) que seriam semeadas em Outubro. O Manoel mostrou sempre muito empenho e sabedoria desses trabalhos.
 O tempo foi passando e o Manoel sentia que estava na terra prometida e, quase três anos após o falecimento da sua mulher começou a pensar que tinha de dar novo rumo à sua vida, também, porque, gostava muito da filha do pastor da herdade, a Anna Maria, rapariga solteira, muito bonita, que lhe emprestava um olhar muito especial, era correspondido, mas ele não conseguia dar o passo em frente, porque, tinha receio de ela e a família não o aceitarem ao saberem que era viúvo! Mas estava enganado, porque a Anna Maria e a família já sabiam tudo sobre a sua vida, assim, um dia, o Manoel pediu à Anna Maria se podia falar com ela e contou-lhe o seu passado! A Anna Maria, não se mostrou surpreendida e, respondeu-lhe que já sabia tudo, porque, quando chegou aos ouvidos do pai dela, que ele a andava a catrapiscar, ele encarregou-se de saber tudo sobre o seu passado e, já toda a família estava de acordo, não tinha lá nada ser viúvo! O Manoel ficou surpreendido, mas compreendeu, uma vez  que, o pai da Anna Maria, tinha direito a saber o seu passado, a bem da filha! A Ann Maria concordou em o Manoel pedi-la em casamento a seu pai, o que ele fez ainda nesse dia, sendo logo aceite, até porque, ele já sabia que o Manoel era filho de um grande lavrador. 
Este acontecimento foi grande novidade nas terras de Capelins e, quando era comentado na taberna da ti Maria Bia, ela comentava sempre: "Este mundo está perdido! Onde é que já se viu uma menina, uma donzela tão bonita e tão prendada, casar com um maltês!" 
O Manoel Rodrigues, tornou-se um dos trabalhadores  mais respeitados e admirados da herdade da Zorra, com todas as competências para poder ser feitor, de muita confiança por parte do lavrador e da família! Sabia ler e escrever, ajudava nas contas e na papelada da herdade, acompanhava o lavrador às feiras e, em todos os negócios, assim, quando informou o lavrador de que ia casar com a Anna Maria, ficou logo assente que o seu padrinho seria o lavrador e, a boda era no Monte da Zorra. 
O Manoel, ainda em Maio, foi tratar da papelada do matrimónio com o Pároco Miguel Gonçalves Gallego, da Paróquia de Santo António e, marcaram o mesmo para o dia 30 de Setembro de 1743 ao meio dia! Como eram necessários alguns papéis passados pelo Pároco de S. Brás dos Matos, o Manoel foi falar com este Pároco e, ao mesmo tempo, participar e convidar a Família, os pais ficaram muito contentes por ele arrumar a sua vida e, disseram-lhe que a boda era por sua conta! 
O Manoel e os pais tiveram uma longa conversa sobre a vida dele e quiseram saber tudo sobre a sua futura nora! O Manoel contou-lhe como tinha sido a sua vida desde o dia que tinha partido e sobre a Anna Maria, assim como, os seus planos para o futuro! Os pais concordaram com tudo, exceto em ele ficar como criado na herdade da Zorra, mas isso depois do casamento logo falavam, porque, estava no tempo de ele ser lavrador disse o pai! O Manoel disse-lhe que esrava na terra certa e por nada ia deixar a Vila de Ferreira! Após ficar tudo combinado, o Manoel voltou ao seu trabalho no Monte da Zorra! 
Ao aproximar-se a data do casamento, começaram os preparativos no Monte da Zorra, estava planeado ser um casamento ao nível de lavrador! Os pais do Manoel um mês antes, mandaram dizer por um criado que, três dias antes do casamento mandavam tudo o que fosse necessário para a boda, apenas queriam saber mais ou menos, quantos convidados eram! O Manoel enviou a resposta numa carta e, no dia 27 de Setembro de 1743 chegou grande caravana ao Monte da Zorra, cinco carroças carregadas de produtos, tachos, panelas, alguidares, utensílios de cozinha e gado para abate, criados e criadas, cozinheiras e ajudantes para prepararem as comidas e bebidas! 
Os criados levantaram grandes choças cobertas por cima com verdura cortada nas margens do Ribeiro do Carrão para fazerem sombras às mesas e cadeiras onde mais de 80 convidados se iam instalar, porque, o tempo ainda estava muito quente! 
Assim, prepararam tudo para a festa do casamento do Manoel Rodrigues com a Anna Maria. 
Nas terras da Vila de Ferreira (Capelins), não existia outra conversa, senão a do matrimónio do Manoel com a Anna Maria filha do pastor e, todos os clientes que entravam na taberna da ti Maria Bia, como sabiam que a assanhavam, puxavam a conversa, deixando-a fora de si, porque, continuava a dizer que o Manoel não passava de um maltês. 
No dia 30 de Setembro de 1743, muito cedo, chegaram ao Momte da Zorra a Família do Manoel e, outros convidados, mais de 40 pessoas, foi imediatamente servido o almoço (pequeno almoço) a todos os convidados que iam chegando, pelas criadas do Monte das Naves de Baixo e do Monte da Zorra! 
Pelas 11 horas, foi dada a partida para a Igreja de Santo António! Os noivos e padrinhos iam no chorrião dos pais do Manoel, à sua frente ia o chorrião do Monte da Zorra com a Família, depois, seguiam 10 charretes de lavradores da Vila de Ferreira e de S. Brás dos Matos e 10 carros puxados por parelhas, todos ornamentados com tapetes bordados, arreios vistosos e, com flores de aloendros! Nunca se tinha visto uma coisa assim! 
A caravana passou pelo meio de Capelins de Cima, à porta da taberna da ti Maria Bia, onde se juntou muita gente para ver passar os noivos e convidados, só ela ficou dentro da taberna a espreitar, porque, embora gostasse de assistir, não queria quebrar a ideia maléfica que tinha contra o Manoel, mas esteve sempre em bicos de pés e pedindo para não lhe taparem a porta porque lhe tiravam a luz! 
O casamento foi realizado às 12:00 horas na Igreja de Santo António pelo Pároco Miguel Gonçalves Gallego e, os noivos e os convidados voltaram pelo mesmo caminho para o Monte da Zorra, onde decorreu a grande festa com dois tocadores de harmónio e três cantadeiras, até ao dia seguinte. 
Os pais do Manoel antes de voltarem para o Monte das Naves de Baixo, chamaram-no de parte e, o pai disse-lhe para começar imediatamente a procurar uma herdade para arrrendar e, passar a ser lavrador, levou a mão ao bolso do colete, tirou uma bolsa com dinheiro e continuou: "está aqui dinheiro suficiente para isso e, se existir algum problema vai ter comigo e trazes umas parelhas e alfaias!"
O Manoel aceitou a oferta do pai, sem imaginar que quantidade de dinheiro estava dentro da bolsa, limitando-se a agradecer e a guardá-la! Depois do janatar (almoço), os famíliares e convidados começaram a despedir-se e a partir para os seus destinos, a família do Manoel seguiu para o Monte das Naves de Baixo, prometendo que em breve os vinham visitar! 
O Manoel e sua legítima mulher, Anna Maria, ficaram a morar numa pequena casa em frente ao Monte da Zorra e, quando já estvam a sós ele contou-lhe a conversa com os pais e que lhe tinham deixado dinheiro para ele ser lavrador! A Anna Maria não ficou muito entusiasmada, porque era coisa que nunca lhe tinha passado pela cabeça, ser lavradora na Vila de Ferreira! Vamos lá ver o que está aqui dentro desta bolsa, se dá para começar! Disse o Manoel! Ao abrir a bolsa, ficaram ambos admirados devido à quantidade de dinheiro que tinham na sua frente, muitas moedas de ouro e de prata! Olharam um para o outro e, não conseguiam falar, por fim ele exclamou: E agora? Não sei! Respondeu ela! Vamos esconder muito bem este dinheiro e, depois logo falo com o nosso padrinho e faremos o que disser!
O lavrador da Zorra, era padrinho e grande amigo do Manoel, então, assim que houve oportunidade, contou-lhe a conversa do pai e, sobre o dinheiro que ele lhe tinha deixado, depois, pediu-lhe ajuda para poder arrendar uma herdade! O padrinho prometeu-lhe que o ajudava e talvez mais depressa do que ele pensava, porque, sabia que o arrendamento da herdade da Talaveira estava a terminar, era uma questão de ele oferecer mais dinheiro do que o lavrador Lopes e, decerto ficava com ela! Assim, o Manoel, no ano seguinte, em 1744, já era lavrador na herdade da Talaveira. 
Com a ajuda do lavrador da herdade da Zorra, o Manoel começou a atividade de lavrador mas, continuou a trabalhar ao lado dos seus criados, como se fosse um deles, tratando-os muito bem, porque, sabia o que custava trabalhar de sol a sol ou, pela noite dentro, ganhando, assim, ainda mais admiração nas terras de Capelins! A partir daí, já poucas pessoas o apelidavam de maltês e, aqueles que o faziam eram logo repreendidos, exeto a ti Maria Bia!
Um ano depois do casamento, a Anna Maria teve o primeiro filho, ao qual foi dado o nome de Manoel como o do pai, seguiram-se muitos outros, chegando aos oito, o que era normal nessa época! 
O Manoel continuou por muitos anos a ser o lavrador da Talaveira, mas o seu sonho era ser o lavrador da herdade da Zorra! Passados cerca de dez anos faleceu o seu padrinho, lavrador da herdade da Zorra! Os filhos continuaram como lavradores desta herdade, mas não mostravam o devido interesse pela sua administração, o que veio dar problemas nas contas e entre eles, acabando por se instalar uma grande desorganizção, começaram a surgir dívidas com graves consequências! 
Passsados três anos, terminou o contrato de arrendamento da herdade da Zorra, que era propriedade do reino, como o Manoel tinha conhecimento que existiam vários interessados nela, então, na carta fechada onde constava o valor da oferta da renda, a entregar ao administrador das herdades da Vila de Ferreira, ofereceu um valor seguro, mais alto, de maneira a ficar com ela! A oferta do Manoel ganhou e ele passou a ser o lavrador da herdade da Zorra! 
O Manoel concretizou o seu sonho e, como já conhecia aquelas terras, depressa começou a fazer boas colheitas, que o ajudaram a entrar noutros negócios, além da agro-pecuária começou a negociar em cereais, gado e na industria moageira, comprou metade de um Moinho no rio Guadiana por oitenta mil réis e, passados quatro anos comprou o maior e melhor moinho do rio Guadiana designado por Azenhas del - Rei, por um valor muito elevado nessa época, duzentos mil réis, mas foi o melhor negócio nesse tempo, eram fábricas de fazer farinha que tinha grande consumo e, depressa amortizou os valores que investiu, conseguindo grandes lucros com estes negócios e, com empréstimos de dinheiro que fazia a outros lavradores, mediante escrituras feitas no Cartório Notarial de Terena! 
O lavrador Manoel Rodrigues, era muito estimado e admirado na Vila de Ferreira e no Termo de Terena, também, devido ao seu enigmático passado! Alguns, acreditavam que ele tinha sido maltês e chegou onde chegou! Tinha uma história de vida apaixonante, com a qual, muitos sonhavam!
Um dia, repentinamente, chegou o seu fim! O grande lavrador Manoel Rodrigues da herdade da Zorra partiu, sendo sepultado na Igreja de Santo António, na quarta cova da quarta carreira a contar da mão esquerda, no dia 10 de Janeiro de 1782, em cujo Assento do óbito o Pároco Manoel Martins Felippe, escreveu: "Era o lavrador mais opulento (rico) desta Paróquia de Santo António (Capelins)". 
A sua fortuna foi desfeita, porque foi repartida pelos seus oito filhos/as que, mesmo assim,  ficaram ricos!  
A ti Maria Bia, já estava sepultada na Igreja de Santo António, havia oito anos, na quarta cova da quarta carreira a contar da mão esquerda, nunca reconheceu o Manoel como lavrador, foi sempre o maltês, mas por coincidência, ou não, ou talvez o Omnipotente os tivesse juntado para poderem fazer as pazes até à eternidade, uma vez que, foram ambos sepultados na mesma cova na Igreja de Santo António, onde jazem!  
A sua taberna em Capelins de Cima, foi passando de mão em mão, por muitas gerações.
P.A.S.A. 
Fim 




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