sexta-feira, 31 de agosto de 2018

432 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do Moinho das Bolas 
Moinho de Bolas/Seixos
"Esta confiável e eficaz tecnologia de moagem existe há mais de 200 anos, e a Metso até agora projetou, fabricou e instalou mais de 8.000 moinhos de bolas/seixos em todo o mundo. Ambos utilizam corpos moedores como meio de moagem, sendo os de bolas com bolas de aço, e os de seixos com cerâmica ou a própria rocha natural".
O Moinho do Bolas ficava/fica situado no rio Guadiana, no limite das herdades da Amadoreira e da Defesa de Bobadela, na Freguesia de Capelins, encontrando-se submerso pelas águas do Grande Lago de Alqueva! 
Este Moinho, construído no início da primeira década de 1900, foi o último a edificar nesta Freguesia, quando já aqui existiam cerca de 20 Moinhos e, um dos últimos no rio Guadiana! 
A sua construção envolveu muito falatório, a opinião dos entendidos na matéria era que, não havia lugar para mais Moinhos e, toda a gente queria saber quem seriam os donos desse Moinho! Alguns diziam que devia ser uma sociedade de lavradores das herdades vizinhas, mas os que eram confrontados afirmavam que, não sabiam de nada, ninguém tinha falado com eles sobre esse assunto e, achavam que, devia ser uma alta figura de fora da Freguesia e, estavam certos! 
Assim que o caudal de inverno do rio Guadiana baixou, começaram as obras, aumentando ainda mais a curiosidade dos capelinenses e dos vizinhos, ao mesmo tempo, começaram a ouvir que o Moinho  era diferente de todos os que já existiam, não teria mós, fazia a farinha com umas Bolas, o que era difícil de acreditar! 
Já passava de um século que tinham surgido na Europa os Moinhos de Bolas, os quais, eram mais usados para desfazer o minério, mas neste caso, dava jeito aos donos deste Moinho fazer publicidade e, foi a seu mando que esta novidade foi espalhada por toda a região. 
Os alvanéus que lá trabalhavam eram de Terena, mas uma grande parte dos jornaleiros eram de Montes Juntos, construiam o Moinho, o açude e toda a zona envolvente, incluindo os acessos, tal como os alvanéus também os jornaleiros não sabiam para quem trabalhavam, recebiam a jorna e as ordens diretamente do Mestre e, só sabiam que ele tinha sido contratado por um Procurador que morava na Vila de Terena, existia aqui um grande segredo! Devido a esta situação, surgiam conversas incríveis, como a de dois fregueses dos Moinhos das Azenhas D' El-Rei o ti Manoel Joaquim de Montes Juntos e um seu compadre o ti Joaquim Manoel que morava no Monte da Capeleira, ambos seareiros que se encontraram no caminho ao lado do Monte da Amadoreira, vindo um, de volta com com a farinha e, o outro dirigia-se para as Azenhas D' El-Rei com a semente! Ao cruzarem-se, deram ordem de paragem às mulas que pararam instantaneamente e, os carros ficaram lado a lado! Cumprimentaram-se e a conversa foi imediatamente dirigida para o novo Moinho no Guadiana! 
Ti Manoel: Então compadre, o que me diz vocemecê do Moinho que andam para ali a construir na Guadiana?
Ti Joaquim: O que hei-de dizer compadre, digo o que toda a gente por aí diz! Diga-me lá que necessidade há de mais um Moinho? Já temos aqui uns vinte! Para mim, não me faz falta nenhuma, toda a vida fui às Azenhas D' El-Rei, já o meu avô e o meu pai lá eram fregueses, por isso, é aí que continuo a ir! Não sei, compadre, para que será uma coisa destas? 
Ti Manoel. Pois, olhe compadre, eu digo o mesmo! Mas dizem que há aí uma marosca qualquer! Então, como é que controem uma coisa dessas e ninguém sabe quem é o dono! Tiveram de tirar licença lá no Alandroal, logo, teve de ficar lá o nome dele! Ou então, será alguma sociedade secreta! 
Ti Joaquim: Sim, sim compadre, isto é secretismo a mais! Mas não podiam fazer o Moinho sem licença, eles tiveram de dar a licença a alguém e esse alguém é o dono! Mas quem será? Quém será ele? O compadre não desconfia? Cá a mim, parece-me que deve ser de algum desses lavradores ricaços ali de Terena! 
Ti Manoel: Oh compadre, eu também desconfio disso, mas porque motivo será um segredo destes? Tem de haver aí alguma coisa! 
Ti Joaquim: Sim, sim, compadre, alguma coisa ele há, senão não havia tanto falatório! 
Ti Manoel: Então e o compadre já ouviu a novidade sobre como é esse Moinho? 
Ti Joaquim: Qual noviidade compadre? Então não é como os outros? 
Ti Mnaoel: Ah o compadre ainda não sabia? Não é como os outros, não! Lá nos Montes Juntos, dizem que vai ser um Moinho como há poucos no Mundo! 
Ti Joaquim: Oh diabo! Oh diabo! Eu vi logo que isso nos trazia para aqui algumas "fezes"! Mas que "raio" vai esse Moinho ter que outros não têm? 
Ti Manoel: Olhe compadre, dizem que não vai ter mós! 
Ti Joaquim: Oh compadre não me faça rir! Essa agora! Então sem mós, como vai moer a semente, como faz a farinha? 
Ti Manoel: Não sei compadre, dizem que em vez das mós vai levar duas bolas de aço e são essas bolas que passam uma pela outra, moem o trigo e fazem a farinha, que dizem ser melhor do que a dos outros Moinhos, é mais e muito fina! Sabe que até já lhe chamam o Moinho das Bolas?
Ti Joaquim. Ah sim compadre? E o compadre não acha que isso são modernices a mais aqui para o nosso Lugar? 
Ti Manoel: Então não acho compadre! Olhe, como lhe disse, eu é que não ponho lá os pés e trigo meu, não entra nesse Moinho! 
Ti Joaquim: Eu digo o mesmo compadre! Vamos lá indo, cumprimentos lá em casa, até um dia destes! 
Ti Manoel: Passe bem compadre, os meus cumprimentos à família! 
O ti Manoel Joaquim e o ti Joaquim Manoel despediram-se e foram tratar da sua vida, seguindo em direções contrárias, ambos afirmando que, não iam pôr os pés no futuro Moinho das Bolas! 
A construção do Moinho das Bolas, já era assim conhecido, continhuava em força e, todos os dias lá passavam muitos curiosos a tentar saber alguma novidade e, outros andavam espreitando as obras por detrás dos outeiros em volta, porque ninguém percebia como é que o Moinho pudia trabalhar sem mós e como é que duas bolas podiam fazer o trigo em farinha! 
Finalmente, o Moinho, o açude e os acessos ficaram prontos e, a curiosidade dos capelinenses subiu em flecha, porque diziam que estavam quase a chegar as Bolas de aço que vinham lá de fora do estrangeiro! 
Um dia, apareceu um carro puxado por bois a caminho do Moinho das Bolas, toda a gente pensou que eram as Bolas, não podia ser outra coisa e, os que puderam foram a correr até ao rio Guadiana para as ver descarregar e, se os deixassem, até podiam ajudar e mesmo vê-las a fazer farinha, passaram por ali o dia, mas sofreram grande deceção, uma vez que no carro vinham mós feitas em mármore, era verdade que eram diferentes das outras mós de granito, existentes nos outros Moinhos e de verdade faziam a farinha mais fina, mas não eram bolas, isso não eram, a não ser que ainda viessem, ficou essa dúvida! Porém, as mós de mármore foram instaladas, o tempo foi passando e, nada de bolas! Moinho foi registado com a designação de Moinho das Bolas, porque, já era uma marca bem conhecida em toda a região! 
A farinha produzida neste Moinho era de verdade muito melhor do que nos outros Moinhos, devido às mós de mármore, por isso, eram muitos os fregueses que lá acodiam e, até o ti Manoel Joaquim e o ti Joaquim Manoel deram o dito por não dito e ficatram fregueses, também, devido à troca dos moleiros das Azenhas D' El-Rei, para este Moinho! As Bolas, nunca chegaram ao Moinho das Bolas, mas que era diferente dos outros, isso era! 
Sobre quem mandou construir o Moinho das Bolas, continuou a ser um grande mistério até agora, porque, já sabemos que, este Moinho não foi mandado construir pelo Ti Bolas, mas sim, pelo mesmo dono dos Moinhos das Azenhas D' El-Rei, que era, o Conde de Terena. 

Fim 

Moinho do Bolas



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

431 - Terras de Capelins 
História de vidas de Gentes das terras de Capelins 
Família "Romão" de Capelins e arredores 
Consideramos o nascimento da Família "Romão" no dia 02 de Janeiro de 1757, porque foi neste dia que nasceu "Romão Gomes" na Freguesia de Nossa Senhora das Neves, Amieira - Portel. Até esta data a Família tinha o apelido "Gomes" e, ele foi batizado com o nome próprio de "Ramom", "Romão Gomes", (averiguamos e "Romão", não vem de avós, nem paternos, nem maternos), depois, aos seus cinco filhos (faleceu um, Inácio) a todos foi dado o apelido de "Romão", às duas filhas parece-nos que não! "Romão Gomes" era filho de Manoel Gomes e de Leonor Rodrigues, ele natural de São Lourenço de Alqueva e sua mãe de Nossa Senhora das Neves de Amieira, Portel. Era neto pelo lado paterno de António Gomes e de Maria Domingas, ambos naturais da Vila de Portel. Romão Gomes, saiu da Aldeia da Amieira e, foi para S. Vicente do Pigeiro - Vendinha, onde casou (com 28 anos) no dia 02 de Outubro de 1785, com Luíza de Mira, natural desta Freguesia, onde ficaram a residir nesta mesma Aldeia. aqui nasceram sete filhos ( 5 meninos e duas meninas, que a seguir descrevemos): 

No dia 18 de Janeiro de 1787, nasceu o Inácio Romão, vindo a falecer 06 meses depois no dia 24 de Junho de 1757! 

No dia 09 de Junho de 1788, nasceu a filha Gregória! 
No dia 03 de Maio de 1790, nasceu José Romão!
No dia 08 de Dezembro de 1791, nasceu outro Inácio Romão!
No dia 01 de Janeiro de 1794, nasceu Manoel Romão! 
No dia 01 de Fevereiro de 1796, nasceu Francisco Romão! 
No dia 01 de Julho de 1798, nasceu Maria. 
Estes, todos naturais de São Vicente do Pigeiro - Vendinha.
Provavelmente, nasceram mais alguns filhos/as, depois da partida, da Vendinha, em Capelins ou em alguma localidade onde, eventualmente, ainda residiram até chegar aqui, (não encontramos em Santo António de Capelins)!
Encontramos os Assentos de casamentos de alguns dos seus filhos, na Igreja de Santo António de Capelins, assim como, do nascimento dos seus netos que, deram continuidade à família Romão, até hoje! Por exemplo, Manoel Romão casou na Igreja de Santo António, no dia 24 de Setembro de 1815, com Mariana da Conceição, uma das filhas de José Martins Caxamorra, dos quais, descendem a maioria dos capelinenses com apelido "Romão" que, hoje conhecemos em Ferreira, Montejuntos, ´Évora, Lisboa e arredores. 
"Romão Gomes", o pioneiro desta Família em Capelins, faleceu aqui, (com 65 anos), no dia 30 de Dezembro de 1822, ficando sepultado na Igreja de Santo António.


As linhagens "Romão" a partir de 1800, já estão registadas na Paróquia de santo António de Capelins, a não ser, a de alguns "Romão" que partiram para outras localidades ou para o Mundo!

Assento do nascimento de "Romão Gomes"
02 de Janeiro de 1757 - Nossa Senhora das Neves - Amieira - Portel 


sábado, 11 de agosto de 2018

430 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins
A lenda do Maltês Lavrador  
Na madrugada do dia 25 de Maio de 1740, quando a ti Maria Bia abriu a porta da sua taberna em Capelins de Cima, (hoje, Ferreira de Capelins), estava um homem alto, com chapéu preto  e com uma manta às costas, encostado a um pau, a figura de um verdadeiro maltês! A ti Maria Bia, não estranhou a sua presença, porque, naquela época passavam por ali muitos maltezes que faziam paragem por lhe dar o cheiro da taberna, a vinho e a aguardente! A ti Maria apenas exclamou em voz alta: 
Ti Maria: Mais um maltês! Bom dia! 
Maltês: Bom dia!
O maltês falou em voz baixa e rouca, talvez, consequência da frieza da noite, porque tinha dormido ao relento, embora já reinasse o mês de Maio, as noites ainda iam muito frias! Aquela voz, estava mesmo a pedir um mata bicho, ou seja, um copo ou dois de aguardente! A ti Maria, abriu a porta do “cabanão” onde era a taberna, acendeu a candeia de azeite, porque a aurora ainda não emprestava luz suficiente para se poder ver bem dentro da taberna, dizendo ao maltês: 
Ti Maria: Oh homem, já pode entrar, diga lá o que quer?
O maltês, estava perto da porta do cabanão, deu um passo em frente e ficou lá dentro!  A ti Maria, tinha bom olho, mesmo com pouca luz da candeia  reparou que era um homem novo, com cerca de 25 a 28 anos, mas com aspeto de sofrimento no físico e na alma. 
Maltês: Então, queria aí, um copo de aguardente! 
Nessa época, a aguardente era considerada um remédio para curar muitos males!
A ti Maria encheu um copo de aguardente para o maltês e, um para ela! Ainda o maltês não tinha tocado no seu copo, já ela estava a encher outro, como reparou que o maltês a olhava, apressou-se a justificar: 
Ti Maria: Tem de ser! Não tenho andado nada bem! Anda aqui bicho, enquanto não tomo dois ou três copinhos deste remédio não o mato, depois já fico bem o resto do dia!
O maltês, apenas acenou afirmativamente com a cabeça, levando o seu copo aos lábios sorvendo apenas metade da aguardente e, só o acabou quando a ti Maria já ia no terceiro, ou quarto, ficando por aí, porque, estava convencida que o bicho naquele dia não a incomodava mais! Logo a seguir, esfregou as mãos e encetou a conversa com o suposto maltês: 
Ti Maria: Então homem, diga-me lá, de onde é que vocemecê é? 
O maltês ficou indeciso em responder, fitando o copo de aguardente, por fim respondeu:
Maltês: Eu sou de um Monte perto de São Brás dos Matos, um pouco acima, chama-se Monte das Naves de Baixo! 
Ti Maria: Ah sim? Eu conheço isso tudo, quando o meu, que Deus lá tem, era vivo, moravamos em Terena e corríamos essas herdades todas a fazer ceifas e outros trabalhos, ainda lá estivemos nesse Monte, a fazer qualquer coisa, ou noutro lá ao pé, já não sei bem! Mas, então, se há lá tantos sítios para trabalhar, para esses lados, até na mina, o que vem vossemecê a fazer para aqui? Prego-a para lá e vem fugido aqui para a Defesa de Ferreira, não? Mais um! Há cá poucos!
Maltês: Não senhora, não é nada disso, é verdade que venho fugido, mas é de mim, das sombras da minha vida! Olhe, encha-me lá outro copo de aguardente! 
Ti Maria: Já me disse tudo! Eu vi logo que vinha fugido, nunca me engano, cheiram-me logo à distância, vem fugido porque a pregou para lá e deve ter sido boa! Ou fez pouco de alguma rapariga e desgaraçou-a ou matou alguém! Mas olhe que aqui não se escapa! Eles encontram-no!
O maltês negou todas as insinuações, mas não conseguiu convencer a ti Maria de que estava enganada, não havia nada a fazer! A mulher era do pior! Entretanto, chegaram mais dois ou três homens a matar o bicho e, ainda assistiram a parte da conversa entre o maltês e a ti Maria, mas limitaram-se a abanar a cabeça negativamente, não se atrevendo a contrariá-la, porque, quando ela metia uma coisa na cabeça, ninguém a demovia!  
Os fregueses que chegaram, foram metendo conversa com o maltês, perguntaram-lhe se vinha para trabalhar por ali, ou se ia de passagem! Ele, contou-lhe de onde era e que há muito tempo que ouvia falar da Vila de Ferreira, por isso, quando pensou sair lá do Monte das Naves de  Baixo, foi logo com a ideia de vir ali parar, embora tivessse tido ofertas para ficar a trabalhar na herdade das Bolhas no Rosário e, na herdade da Boeira, onde tinha dormido, mas este lugar, não lhe saia da cabeça, parecia que alguma coisa o chamava! O maltês, aproveitou para perguntar qual seria a melhor herdade e qual o lavrador que se devia dirigir para poder ficar a trabalhar! Os presentes, prontificaram-se a ajudar e, foram unânimes em lhe indicar a herdade da Zorra, explicaram-lhe onde ficava e por onde devia seguir! O maltês, pagou os copos de aguardente que tinha bebido, agradeceu  a informação e, seguiu direitnho ao Monte da Zorra mas, antes, ainda ouviu mais alguns desaforos por parte da ti Maria Bia que, não gostou nada do maltês e, continuou a dizer mal dele, por mais algum tempo, até surgir outra novidade em Capelins de Cima! Ninguém percebia porque motivo a ti Maria não gostava do homem, mas a verdade é que não engraçou com ele! 
A ti Maria Bia, apareceu em Capelins de Cima cerca de 1730, a Aldeia estava em crescimento, instalou-se numa pequena casa junto do Monte Grande que, era da Casa do Infantado, um bom lugar para o seu negócio, porque, estava dentro da herdade da Defesa de Ferreira, com muitos criados, abriu uma taberna num cabanão que, por ser a única, dava-lhe bem para viver, vendia copos de vinho, de aguardente, onças de tabaco, livros de papel para fazer os respetivos cigarros, fósforos e pouco mais! Era natural da Vila de Terena, viúva e sem filhos! Não se sabia nada do seu passado, mas ela sabia de todos.
O maltês seguiu pelo Monte do Meio, poço da estrada, onde nesssa época se iniciava a herdade da Zorra  e chegou ao respetivo Monte ainda cedo, dirigiu-se logo ao lavrador, tirou o chapéu em sinal de respeito, cumprimentou-o e, pediu - lhe  se podia falar! O lavrador da Zorra, moveu a cabeça em sinal afirmativo!
Maltês: Bom dia senhor, queria pedir-lhe se podia aceitar-me a trabalhar na sua herdade!
Lavrador: Bom dia homem! Isso é com o feitor e não é assim, primeiro, temos de saber quem é, como se chama, de onde vem, como veio ter aqui e, principalmente, o que sabe fazer! 
O maltês acenou com a cabeça, em sinal de compreensão! 
Lavrador: Mas já agora, diga-me lá como se chama? 
Maltês:  O meu nome é Manoel Rodrigues, seu criado, senhor!
Lavrador: Criado de Deus, Manoel Rodrigues? E de onde é?
Manoel: Sou do Monte das Naves de Baixo, de S. Brás dos Matos, senhor!
Lavrador: Conheço bem! E porque motivo veio parar aqui? 
Manoel: Foi devido a um grande desgosto que estou a ter na minha vida, fiquei viúvo no dia do meu casamento, a minha mulher já andava doente, mas não esperava uma coisas destas! Então, depois de a sepultar na Igreja de S. Brás dos Matos, não consegui ficar lá, nem mais um dia! Peguei no pau e numa manta, disse aos meus pais que vinha embora para a Vila de Ferreira e, aqui estou, senhor!
Lavrador: Eh rapaz que fezes as tuas! Eu compreendo isso! É muito triste! Então, e o que sabes fazer cá destes trabalhos? 
Manoel: Sei fazer tudo senhor! O meu pai é lavrador lá na herdade do Monte das Naves de Baixo, eu trabalhava com ele lá na herdade, com os meus irmãos, aprendemos a fazer tudo, logo desde pequenos!
Lavrador: Então, sendo assim, podes ficar a trabalhar aqui! Hoje, ficas no Monte, o feitor já te diz onde te podes arrumar e o que vais fazer!
Despediram-se e, o lavrador foi falar com o feitor que, veio imediatamente ter com o Manoel, começaram a falar, parecia que se conheciam desde sempre, falavam a mesma linguagem, depois, vieram a ser grandes amigos!Após uma breve conversa, ficou decidido que o Manoel no dia seguinte, ia ceifar! 
Assim, logo de madrugada, começou a ceifar com o rancho da herdade da Zorra, porque, era a atividade agrícola, onde precisavam de mais gente e, também, a mais bem paga! 
Quando acabou a ceifa, o Manoel passou para o carrego dos molhos de cereais para as eiras, ele, tanto dava molhos para cima das carroças como fazia as carradas, nenhum desses trabalhos tinha segredos para ele, sabia fazer tudo! 
Começaram a debulhar e, o Manoel continuou a mostrar as suas competências, sabia malhar, debulhar com os trilhos, limpar os cereais, ou seja, separar a semente da palha atirnado-o ao vento, ensacar, colocar os cereais, principalmente, aveia, trigo e cevada, dentro de grandes sacos de serapilheira, para serem transportados para os celeiros!
Após a debulha, o feitor entregou-lhe uma parelha de machos e, em companhia de outros criados passou algum tempo a carregar a semente para o celeiro comunitário da Vila de Terena e para o da Vila de Alandroal! 
O Manoel já se sentia muito bem nas terras da Vila de Ferreira (Capelins) e, as feridas da sua alma já davam sinais de estarem a sarar, foi fazendo amigos e, ganhando fama de homem honrado e de bom trabalhador, logo, começaram a aparecer pretendentes, mas ele não correspondia, não esquecia a sua falecida mulher Maria das Neves. 
Quando acabaram os trabalhos agrícolas do verão, ceifa, carrego, debulha, entrega do trigo nos celeiros e fazer as almiaras de palha para o gado e tapá-las com palha de centeio e piorno (giesta) para proteção das chuvas do inverno, fizeram uma festa no Monte da Zorra, com comes e bebes e um baile que durou quase toda a noite, mas o Manoel afastou-se do Monte e não assistiu a nada, porque, ainda não tinha  vontade de festas! 
No dia seguinte, começou novo trabalho na herdade da Zorra, o atalho, ou seja, a preparação das terras para as sementeiras, gradar e dar uma lavoura na folha (terra) onde iam semaear, o que não foi nada de novo para o Manoel, como, também, não foram os trabalhos que se seguiram, as sementeiras e, outros trabalhos como juntar pedra, desmatar, arrancar mato, piorno, estevas e carrascos, até chegar à poda das azinheiras, arranjar e carregar a lenha para abastecimento do Monte o ano inteiro. Assim, chegou o início do ciclo agrícola, nos finais de Fevereiro/Março, começou o alqueve, primeira lavoura das terras (folhas) que seriam semeadas em Outubro. O Manoel mostrou sempre muito empenho e sabedoria desses trabalhos.
 O tempo foi passando e o Manoel sentia que estava na terra prometida e, quase três anos após o falecimento da sua mulher começou a pensar que tinha de dar novo rumo à sua vida, também, porque, gostava muito da filha do pastor da herdade, a Anna Maria, rapariga solteira, muito bonita, que lhe emprestava um olhar muito especial, era correspondido, mas ele não conseguia dar o passo em frente, porque, tinha receio de ela e a família não o aceitarem ao saberem que era viúvo! Mas estava enganado, porque a Anna Maria e a família já sabiam tudo sobre a sua vida, assim, um dia, o Manoel pediu à Anna Maria se podia falar com ela e contou-lhe o seu passado! A Anna Maria, não se mostrou surpreendida e, respondeu-lhe que já sabia tudo, porque, quando chegou aos ouvidos do pai dela, que ele a andava a catrapiscar, ele encarregou-se de saber tudo sobre o seu passado e, já toda a família estava de acordo, não tinha lá nada ser viúvo! O Manoel ficou surpreendido, mas compreendeu, uma vez  que, o pai da Anna Maria, tinha direito a saber o seu passado, a bem da filha! A Ann Maria concordou em o Manoel pedi-la em casamento a seu pai, o que ele fez ainda nesse dia, sendo logo aceite, até porque, ele já sabia que o Manoel era filho de um grande lavrador. 
Este acontecimento foi grande novidade nas terras de Capelins e, quando era comentado na taberna da ti Maria Bia, ela comentava sempre: "Este mundo está perdido! Onde é que já se viu uma menina, uma donzela tão bonita e tão prendada, casar com um maltês!" 
O Manoel Rodrigues, tornou-se um dos trabalhadores  mais respeitados e admirados da herdade da Zorra, com todas as competências para poder ser feitor, de muita confiança por parte do lavrador e da família! Sabia ler e escrever, ajudava nas contas e na papelada da herdade, acompanhava o lavrador às feiras e, em todos os negócios, assim, quando informou o lavrador de que ia casar com a Anna Maria, ficou logo assente que o seu padrinho seria o lavrador e, a boda era no Monte da Zorra. 
O Manoel, ainda em Maio, foi tratar da papelada do matrimónio com o Pároco Miguel Gonçalves Gallego, da Paróquia de Santo António e, marcaram o mesmo para o dia 30 de Setembro de 1743 ao meio dia! Como eram necessários alguns papéis passados pelo Pároco de S. Brás dos Matos, o Manoel foi falar com este Pároco e, ao mesmo tempo, participar e convidar a Família, os pais ficaram muito contentes por ele arrumar a sua vida e, disseram-lhe que a boda era por sua conta! 
O Manoel e os pais tiveram uma longa conversa sobre a vida dele e quiseram saber tudo sobre a sua futura nora! O Manoel contou-lhe como tinha sido a sua vida desde o dia que tinha partido e sobre a Anna Maria, assim como, os seus planos para o futuro! Os pais concordaram com tudo, exceto em ele ficar como criado na herdade da Zorra, mas isso depois do casamento logo falavam, porque, estava no tempo de ele ser lavrador disse o pai! O Manoel disse-lhe que esrava na terra certa e por nada ia deixar a Vila de Ferreira! Após ficar tudo combinado, o Manoel voltou ao seu trabalho no Monte da Zorra! 
Ao aproximar-se a data do casamento, começaram os preparativos no Monte da Zorra, estava planeado ser um casamento ao nível de lavrador! Os pais do Manoel um mês antes, mandaram dizer por um criado que, três dias antes do casamento mandavam tudo o que fosse necessário para a boda, apenas queriam saber mais ou menos, quantos convidados eram! O Manoel enviou a resposta numa carta e, no dia 27 de Setembro de 1743 chegou grande caravana ao Monte da Zorra, cinco carroças carregadas de produtos, tachos, panelas, alguidares, utensílios de cozinha e gado para abate, criados e criadas, cozinheiras e ajudantes para prepararem as comidas e bebidas! 
Os criados levantaram grandes choças cobertas por cima com verdura cortada nas margens do Ribeiro do Carrão para fazerem sombras às mesas e cadeiras onde mais de 80 convidados se iam instalar, porque, o tempo ainda estava muito quente! 
Assim, prepararam tudo para a festa do casamento do Manoel Rodrigues com a Anna Maria. 
Nas terras da Vila de Ferreira (Capelins), não existia outra conversa, senão a do matrimónio do Manoel com a Anna Maria filha do pastor e, todos os clientes que entravam na taberna da ti Maria Bia, como sabiam que a assanhavam, puxavam a conversa, deixando-a fora de si, porque, continuava a dizer que o Manoel não passava de um maltês. 
No dia 30 de Setembro de 1743, muito cedo, chegaram ao Momte da Zorra a Família do Manoel e, outros convidados, mais de 40 pessoas, foi imediatamente servido o almoço (pequeno almoço) a todos os convidados que iam chegando, pelas criadas do Monte das Naves de Baixo e do Monte da Zorra! 
Pelas 11 horas, foi dada a partida para a Igreja de Santo António! Os noivos e padrinhos iam no chorrião dos pais do Manoel, à sua frente ia o chorrião do Monte da Zorra com a Família, depois, seguiam 10 charretes de lavradores da Vila de Ferreira e de S. Brás dos Matos e 10 carros puxados por parelhas, todos ornamentados com tapetes bordados, arreios vistosos e, com flores de aloendros! Nunca se tinha visto uma coisa assim! 
A caravana passou pelo meio de Capelins de Cima, à porta da taberna da ti Maria Bia, onde se juntou muita gente para ver passar os noivos e convidados, só ela ficou dentro da taberna a espreitar, porque, embora gostasse de assistir, não queria quebrar a ideia maléfica que tinha contra o Manoel, mas esteve sempre em bicos de pés e pedindo para não lhe taparem a porta porque lhe tiravam a luz! 
O casamento foi realizado às 12:00 horas na Igreja de Santo António pelo Pároco Miguel Gonçalves Gallego e, os noivos e os convidados voltaram pelo mesmo caminho para o Monte da Zorra, onde decorreu a grande festa com dois tocadores de harmónio e três cantadeiras, até ao dia seguinte. 
Os pais do Manoel antes de voltarem para o Monte das Naves de Baixo, chamaram-no de parte e, o pai disse-lhe para começar imediatamente a procurar uma herdade para arrrendar e, passar a ser lavrador, levou a mão ao bolso do colete, tirou uma bolsa com dinheiro e continuou: "está aqui dinheiro suficiente para isso e, se existir algum problema vai ter comigo e trazes umas parelhas e alfaias!"
O Manoel aceitou a oferta do pai, sem imaginar que quantidade de dinheiro estava dentro da bolsa, limitando-se a agradecer e a guardá-la! Depois do janatar (almoço), os famíliares e convidados começaram a despedir-se e a partir para os seus destinos, a família do Manoel seguiu para o Monte das Naves de Baixo, prometendo que em breve os vinham visitar! 
O Manoel e sua legítima mulher, Anna Maria, ficaram a morar numa pequena casa em frente ao Monte da Zorra e, quando já estvam a sós ele contou-lhe a conversa com os pais e que lhe tinham deixado dinheiro para ele ser lavrador! A Anna Maria não ficou muito entusiasmada, porque era coisa que nunca lhe tinha passado pela cabeça, ser lavradora na Vila de Ferreira! Vamos lá ver o que está aqui dentro desta bolsa, se dá para começar! Disse o Manoel! Ao abrir a bolsa, ficaram ambos admirados devido à quantidade de dinheiro que tinham na sua frente, muitas moedas de ouro e de prata! Olharam um para o outro e, não conseguiam falar, por fim ele exclamou: E agora? Não sei! Respondeu ela! Vamos esconder muito bem este dinheiro e, depois logo falo com o nosso padrinho e faremos o que disser!
O lavrador da Zorra, era padrinho e grande amigo do Manoel, então, assim que houve oportunidade, contou-lhe a conversa do pai e, sobre o dinheiro que ele lhe tinha deixado, depois, pediu-lhe ajuda para poder arrendar uma herdade! O padrinho prometeu-lhe que o ajudava e talvez mais depressa do que ele pensava, porque, sabia que o arrendamento da herdade da Talaveira estava a terminar, era uma questão de ele oferecer mais dinheiro do que o lavrador Lopes e, decerto ficava com ela! Assim, o Manoel, no ano seguinte, em 1744, já era lavrador na herdade da Talaveira. 
Com a ajuda do lavrador da herdade da Zorra, o Manoel começou a atividade de lavrador mas, continuou a trabalhar ao lado dos seus criados, como se fosse um deles, tratando-os muito bem, porque, sabia o que custava trabalhar de sol a sol ou, pela noite dentro, ganhando, assim, ainda mais admiração nas terras de Capelins! A partir daí, já poucas pessoas o apelidavam de maltês e, aqueles que o faziam eram logo repreendidos, exeto a ti Maria Bia!
Um ano depois do casamento, a Anna Maria teve o primeiro filho, ao qual foi dado o nome de Manoel como o do pai, seguiram-se muitos outros, chegando aos oito, o que era normal nessa época! 
O Manoel continuou por muitos anos a ser o lavrador da Talaveira, mas o seu sonho era ser o lavrador da herdade da Zorra! Passados cerca de dez anos faleceu o seu padrinho, lavrador da herdade da Zorra! Os filhos continuaram como lavradores desta herdade, mas não mostravam o devido interesse pela sua administração, o que veio dar problemas nas contas e entre eles, acabando por se instalar uma grande desorganizção, começaram a surgir dívidas com graves consequências! 
Passsados três anos, terminou o contrato de arrendamento da herdade da Zorra, que era propriedade do reino, como o Manoel tinha conhecimento que existiam vários interessados nela, então, na carta fechada onde constava o valor da oferta da renda, a entregar ao administrador das herdades da Vila de Ferreira, ofereceu um valor seguro, mais alto, de maneira a ficar com ela! A oferta do Manoel ganhou e ele passou a ser o lavrador da herdade da Zorra! 
O Manoel concretizou o seu sonho e, como já conhecia aquelas terras, depressa começou a fazer boas colheitas, que o ajudaram a entrar noutros negócios, além da agro-pecuária começou a negociar em cereais, gado e na industria moageira, comprou metade de um Moinho no rio Guadiana por oitenta mil réis e, passados quatro anos comprou o maior e melhor moinho do rio Guadiana designado por Azenhas del - Rei, por um valor muito elevado nessa época, duzentos mil réis, mas foi o melhor negócio nesse tempo, eram fábricas de fazer farinha que tinha grande consumo e, depressa amortizou os valores que investiu, conseguindo grandes lucros com estes negócios e, com empréstimos de dinheiro que fazia a outros lavradores, mediante escrituras feitas no Cartório Notarial de Terena! 
O lavrador Manoel Rodrigues, era muito estimado e admirado na Vila de Ferreira e no Termo de Terena, também, devido ao seu enigmático passado! Alguns, acreditavam que ele tinha sido maltês e chegou onde chegou! Tinha uma história de vida apaixonante, com a qual, muitos sonhavam!
Um dia, repentinamente, chegou o seu fim! O grande lavrador Manoel Rodrigues da herdade da Zorra partiu, sendo sepultado na Igreja de Santo António, na quarta cova da quarta carreira a contar da mão esquerda, no dia 10 de Janeiro de 1782, em cujo Assento do óbito o Pároco Manoel Martins Felippe, escreveu: "Era o lavrador mais opulento (rico) desta Paróquia de Santo António (Capelins)". 
A sua fortuna foi desfeita, porque foi repartida pelos seus oito filhos/as que, mesmo assim,  ficaram ricos!  
A ti Maria Bia, já estava sepultada na Igreja de Santo António, havia oito anos, na quarta cova da quarta carreira a contar da mão esquerda, nunca reconheceu o Manoel como lavrador, foi sempre o maltês, mas por coincidência, ou não, ou talvez o Omnipotente os tivesse juntado para poderem fazer as pazes até à eternidade, uma vez que, foram ambos sepultados na mesma cova na Igreja de Santo António, onde jazem!  
A sua taberna em Capelins de Cima, foi passando de mão em mão, por muitas gerações.
P.A.S.A. 
Fim 




quinta-feira, 26 de julho de 2018

429 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins
A lenda da Loja do ti Manoel Lagartixo 
Na segunda metade de 1700, a população da Vila de Ferreira (atual Freguesia de Capelins) aumentou significativamente, registando em 1758 mais de 350 pessoas, representando uma comunidade já com algumas exigências de bens de consumo que, era satisfeita através das feiras nas redondezas, ou no porta a porta por almocreves, mas nem sempre traziam o suficiente ou necessário, como: Sal, açucar, arroz, massa, utensílios domésticos e, sobretudo, peças de fazenda para fazerem o vestuário para homens, mulheres e crianças! 
Assim, surgiu a primeira loja de Capelins, na Aldeia de Capelins de Cima, a qual, era do ti Manoel Lagartixo, natural da Vila de Terena que, desceu com a família, até às terras de Capelins, incentivado pelos boatos sobre o seu crescimento e boa oportunidade de negócios, como também, devido aos privilégios concedidos aos moradores da Vila de Ferreira, os quais, estavam isentos do pagamento de alguns impostos reais.    
A abertura da dita loja em Capelins de Cima, foi uma grande novidade nas terras de Capelins, toda a gente queria ver como era, o que  vendia, não se falava noutra coisa! 
Começaram logo, as romarias à loja do ti Lagartixo que, tinha muito jeito para cativar e explicar o benefício dos produtos que vendia, para ele, eram quase todos mezinhas! O açucar curava todos os males respiratórios, tosse, constipações e resfriamentos, podiam fazer xarope, queimar o açúcar com uma brasa, depois adicionar água a ferver, estava o xarope feito! Era só beber bem quentinho! O arroz e massa com um bocadinho de toucinho, de galinha, ou mesmo sem ela, curavam todas as fraquesas! 
A toda a hora se oouvia: Ti Lagartixo, "quero meio arrate de massa, meio arrate de arroz, uma quarta de açucar, 5 Kg de farinha, dois metros daquele tecido" e, em cada dia aumentavam as vendas! Passados dois meses, o ti Lagartixo já não dava conta do trabalho sózinho, já tinham de ser a mulher e os filhos a ajudar! 
Bendita a hora em que vim para Capelins de Cima, repetia ele! Nunca pensei vender tanto! 
Devido à fama e, pela novidade, vinham clientes das terras de Capelins e das aldeias e montes das redondezas àloja do ti Lagartixo! Quando apareciam produtos novos, depressa se espalhava e, algumas mulheres acorriam à loja para admirar esses produtos, era a sua perdição, porque, já de lá não saiam sem os levar! 
O negócio corria tão bem ao ti Lagartixo que, começou a dar facilidades de pagamento às mulheres que tinham courelas ou alguma coisa de seu! Como já conhecia bem as clientes, fazia sempre a mesma conversa: "Leve, leve, porque depressa se acaba, depois logo paga!" 
Assim, passados poucos anos, já era dono de meia dúzia de courelas nas terras de Capelins! 
Uma das suas melhores clientes era a ti Maria das Candeias, moradora no Monte de Calados e, dona de uma boa courela junto ao Monte Real, logo, era das que podia levar tudo fiado! Quando hesitava, o ti Lagartixo empurrava:
Ti Lagartixo: Leve ti Maria, leve! Olhe que isto está-se a acabar e não sei quando vem mais! Isto tem muita procura, porque é muito bom! Muito bom!
Ti Maria: É só levar? Então, e depois quando pago? 
Ti Lagartixo: Isso vê-se depois! Vocemecês não têm uma courela? Então pode levar que eu aponto!
Ti Maria: Temos, uma boa courela! Mas não podemos ficar sem ela! Nem sei o que o meu Zé me fazia, se a empenhasse! Não levo, não!
Ti Lagartixo: Leve lá isso tudo, ti Maria! Olhe que não faço isto a toda a gente! Depois, logo paga!
Ti Maria: Não posso, não posso! Ai se eu pudesse!  
Ti Lagartixo: Então, se não leva, não demora nada, leva-as outra!
Ti Maria: Então, está bem! Eu levo isso tudo! Aponte aí!  
Ti Lagartixo: Aponto, aponto, já está apontado! 
A conta da ti Maria das Candeias na loja do ti Lagartixo não parava de aumentar, ele apontava, apontava e, ela levava, levava, nem queria saber quanto devia e, alguns réis que lhe entregava nem faziam mossa na conta! Até que um dia, o ti Lagartixo, começou com uma conversa pouco agradável com a ti Maria: "Eh ti Maria, a vida está muito má! Não sei onde isto vai chegar! Eu tenho de deixar de vender fiado, pelo menos a algumas pessoas que já aqui têm uma grande dívida! Olhe, nem a propósito, vocemecê já não pode levar mais nada fiado, já tem aqui uma grande dívida, veja lá se me podem pagar, nem que seja uma parte da conta!" 
Ti Maria: Oh ti Lagartixo, é muito má altura, agora não podemos pagar nada! Não pode esperar mais um tempo? Agora, não podemos, não! A vida está muito má!
Ti Lagartixo: A quem o diz! Já não sei o que fazer, isto está mau, muito mau! Não posso dar mais nada fiado e, sendo assim, diga lá ao seu Zé que venha cá falar comigo logo às nove horas da noite e, se não me pudererm pagar, traga a caderneta da courela! 
A ti Maria começou a chorar, mas sabia que não havia nada a fazer, foi para casa e, quando o marido chegou do trabalho estava a acabar de fazer a ceia (jantar) e, ainda soluçava! O ti Zé Lopes viu logo que alguma coisa má se passava, mas nunca pensou que ia ficar sem a sua courela que tanto estimava, por ser herança dos pais! 
Ti Zé: Então mulher, o que se passa?
Ti Maria: Não se passa nada, o que se havia de passar? 
Ti Zé: Se não se passa nada, diz-me lá porque estás a chorar? 
Ti Maria: São coisas da vida! Nada, nada!
Ti Zé: Nada, não! Se estás a chorar, diz lá porquê?
A ti Maria não teve outro remédio senão, contar ao marido que, o mais certo era ficarem sem a courela, a não ser que, alguém lhe emprestasse dinheiro para pagar a dívida na loja do ti Lagartixo! Mas quem? Nem a courela podiam empenhar, porque, a dívida já era maior do que o valor da courela! Pensaram, pensaram, mas não encontraram nenhuma saída! O ti Zé ainda a interrogou a mulher, queria saber como  tinham feito uma dívida tão grande e, a ti Maria exclamou: Olha, foi com o tempo, foi com o tempo, comprei algumas peças de fazenda para fazer roupa para vocês, as amassaduras da semana, (farinha para fazer o pão), massa, arroz, açucar e outras coisas que temos comido, sabes que, tens cinco filhos pequenos, tu ganhas pouco e eu sou uma mulher doente que nem sempre posso trabalhar! O ti Zé, apenas abanou a cabeça em sinal de negação e, antes das nove horas da noite já estava na casa do ti Lagartixo com a caderneta da courela, porque, não encontraram nenhuma solução e, a honra estava acima de tudo! 
Ti Zé: Boa noite ti Lagartixo, tome lá a caderneta da courela e trate de a pôr em seu nome!
Ti Lagartixo: Boa noite ti Zé, já sabe que depois tem de ir assinar! 
Ti Zé: Está bem, eu vou lá assinar! Então e fica tudo pago?  
Ti Lagartixo: Sim, sim, ainda era mais alguma coisa, mas fica assim, faço-lhe essa atenção! Já sabe, como estas coisas são! Quer ver as contas?
Ti Zé: Não, não! Eu sei que não nos engana! Até amanhã ti Lagartixo!
Ti Lagartixo: Até amanhã ti Zé!
O ti Lagartixo, com um sorriso malicioso, guardou a caderneta na gaveta do balcão para no dia seguinte ir ter com o Tabelião do Cartório Notarial de Terena e, passar a courela do ti Zé Lopes para seu nome! O ti Lagartixo seguiu este mesmo caminho mais algumas vezes, com o mesmo fim, ou seja, passar outras courelas para seu nome, conquistadas pela sua loja, ou pela sua astúcia em iludir as humildes moradoras das terras de Capelins! 

Fim 





segunda-feira, 23 de julho de 2018

428 - Terras de Capeins
História das terras de Capelins 
Os efeitos, no Concelho de Terena, logo, terras de Capelins, da guerra da sucessão de Castela em 1474 , envolvendo o rei português D. Afonso V. 

Dos vinte e quatro aglomerados, todos fronteiriços ou próximos da fronteira, que D. Afonso V referiu numa carta de 23 de Maio de 1480 como particularmente atingidos durante o conflito, terminado no ano anterior, vinte e dois localizavam-se na Comarca de Entre Tejo e Guadiana[56]. Podemos imaginar a profundidade das cicatrizes socioeconómicas da guerra naquelas terras quando o monarca justificava a concessão de isenções fiscais pelo “rrecrecer muytos trabalhos, fadigas, perdas e danos”, em particular, “aos moradores e lavradores”[57]. Para além das acções de pilhagem e de devastação sobre a produção, as incursões tiveram como alvo os habitantes, que “muitas vezes eram presos, resgatados”[58], acarretando problemas na agricultura a um ponto tal que, segundo a documentação, as comunidades “nom podiam lavrar, nem semear e se semeiam nom colhiam”[59] 
As localidades atingidas foram:


[56] O citado documento, que consta na Chancelaria de D. Afonso V, encontra-se já transcrito e publicado no seguinte estudo, aludindo às seguintes povoações alentejanas martirizadas pela guerra: Serpa, Moura, Mourão, Monsaraz, Terena, Alandroal, Juromenha, Vila Viçosa, Borba, Olivença, Redondo, Elvas, Campo Maior, Ouguela, Arronches, Alegrete, Portalegre, Marvão, Castelo de Vide, Montalvão, Assumar e Monforte. Veja-se MORENO, Humberto Baquero – “Os confrontos fronteiriços entre D. Afonso V e os Reis Católicos”. in Revista da Faculdade de Letras. Série 2, vol. 10 (1993), pp. 322-324.
Castelo da Villa de Terena 


sábado, 21 de julho de 2018

427 - Terras de Capelins

História de Capelins 


Vila de Ferreira
Em 1433, a Vila Defesa de Ferreira foi doada à família Freire de Andrade, permanecendo na sua posse até 1674, (241 anos), sendo-lhe retirada pela Coroa nesta data, porque D. Luís Freire de Andrade não tinha herdeiros diretos, por isso, a Vila Defesa de Ferreira (que era quase todo o espaço geográfico da atual Freguesia de Capelins), ficou na posse do Reino, reinava, então, D. Afonso VI, filho de D. João IV. Quando D. Pedro II, 5º filho de D. João IV tomou as rédeas do Reino, afastando o irmão, D. João VI, a partir de 1668, tornou-se o 1º Senhor da Casa do Infantado e, em 1698 doou as duas herdades, Defesa de Ferreira e Defesa de Bobadela à referida Casa do Infantado, ficando as restantes herdades na posse do Reino que, as arrendou a lavradores e, ao mesmo tempo, vendeu e aforou algumas courelas a privados e a irmandades. 

O 2º senhor da Casa do Infantado foi o infante Francisco de Bragança, filho deste rei, por isso, registamos a sua ligação à Vila Defesa de Ferreira.


Francisco de Bragança, Duque de Beja

D. Francisco de Bragança, nasceu em Lisboa em 25 de Maio de 1691 e faleceu em Óbidos em 21 de Julho de 1742, o seu nome completo era: Francisco Xavier José António Bento Urbano de Bragança, foi um infante de Portugal, 3º filho do rei D. Pedro II de Portugal e de sua 2ª esposa Maria Sofia de Neuburgo.


Foi feito pelo pai 7.º Duque de Beja, Condestável de Portugal, Prior do Crato e, ainda foi o 2º Senhor da Casa do Infantado. No dia 1 de dezembro de 1697, nas Cortes que juraram o príncipe D. João como herdeiro do Reino, D. Francisco desempenhou a função de Condestável. Jamais um infante obtivera tantos bens e, deles usufruiu largamente, pois ao morrer estava cheio de dívidas. 

Assim, parece-nos que, os interesses do infante Francisco de Bragança na Vila Defesa de Ferreira, não passaram dos pertencentes à Casa do Infantado, da qual, foi o 2º senhor, ou seja, das duas ditas herdades. 

Concluímos que, só no ano de 1698, as referidas herdades foram doadas por D. Pedro II à Casa do Inafantado, estando, a totalidade da Defesa de Ferreira na posse da Coroa entre, 1674 e 1698.


 Presença da Casa do Infantado 






quarta-feira, 11 de julho de 2018

426 - Terras de Capelins 
História de Capelins 
Escritura da Courela onde foi construída a Igreja de Santo António
Como sabemos, as escrituras de compra e venda de imóveis rústicos são documentos históricos onde fica registada a história desse imóvel, a quem pertenceu, ou seja, a identificação dos sucessivos proprietários ao longo do tempo, onde fica localizado, o lugar, a dimensão, a qualidade do terreno, o arvoredo que tem, ou não tem e, os seus limites, acabando, também, por registar a história dos terrenos contíguos. 
Neste caso, divulgamos parte da escritura (está totalmente disponível, em 6 páginas), de uma courela que existia entre a herdade da Sina e a Defesa de Ferreira, dentro da qual ficava a Igreja de Santo António de Capelins.

Com esta escritura ficamos a saber que os limites da herdade da Sina eram diferentes, que esta herdade era do Barão de Quintella e, existiam aqui várias courelas de privados, ficando a Igreja de Santo António dentro de uma dessas courelas e, não naquela herdade, pelo menos a parte antiga, porque o seu acréscimo, parece-nos já dentro da Sina!


Escritura de compra que faz Joaquim Martins, morador deste Termo (Concelho) de Terena a Ignácio José Pereira e a sua mulher Dona Josefa Violante moradores na Villa do Alandroal de huma courella com huma casa junto à Igreja de Santo António de Capelins tudo dentro da dita courella pella quantia de: 67$200 réis.

Saibam quantos este publico Instrumento de Escritura de compra e venda virem que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e trinta e hum annos, aos vinte dias do mês de Fevereiro do dito anno nesta Villa de Terena no Cartório de mim Tabelião sendo eu ahi foram presentes Ignácio José Pereira e por sua mulher Dona Josefa Violante o mesmo seu marido Ignácio José Pereira, com procuração bastante da mesma para elle fazer a dita venda e poder asignar a dita escritura, moradores na Villa do Alandroal de que dou fé serem os próprios e pello qual perante as testemunhas adiante nomeadas e asignadas foi dito que elles muito de suas boas próprias e livres vontades sem força ou constrangimento de pessoas, vendiam com o conceito: vendido tinham de hoje para sempre, huma courella de terra e huma casa dentro da mesma courella dita, onde está a Freguesia e Igreja de Santo António de Capelins no Termo (Concelho) desta Villa, cuja courella parte é confronte pello nascente com a Defesa de Ferreira e courella de João Coelho da Paiva, Lavrador da herdade de Bacellos deste Termo e pello Pego e a Norte com a herdade da Sina do Barão de Quintella e pelo sulle com a courella de José Guido e Azambuja de Vila Viçosa e também do mesmo sulle com a Defesa de Ferreira, tem três alqueires e dentro da dita courella a Igreja de Santo António de Capelins que serve de Freguesia.

O Tabelião do Cartório da Villa de Terena era: João António Banazol

Continua...

Folha 1 de 6. 



Escritura da courela onde fica a Igreja de Santo António





584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...