quarta-feira, 7 de março de 2018


403 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins 

Montejuntos

História, lendas e tradições das Terras de Capelins

A lenda do Capitão de cavalos, Pedro Gonzaga, natural 

de Capelins

Na madrugada do dia 6 de Março do ano de 1836, em pleno inverno, o Sacristão da Igreja de Santo António de Capelins e, os seus vizinhos acordaram com o choro da uma criança! O Sacristão deu um salto da cama e, em ceroulas, correu a abrir a porta da sua residência, deparando-se com um cesto de verga com alguma roupa, dentro do qual, se ouvia uma criança a chorar! Naquele instante, chegaram as vizinhas com o Padre António Laurentino, porque o choro era tão alto e aflitivo, que se ouvia em todas as casas da Igreja! O sacristão pegou no cesto e entraram todos para casa, porque tinha chovido durante a noite, o frio da madrugada era muito e estavam mal vestidos, foram tirando a roupa do cesto e no fundo estava uma criança muito bonita, gelada e esfomeada, olharam uns para os outros à procura de explicações, mas não encontraram respostas para o que estava a acontecer, comentaram logo que tinham de aquecer a criança e dar-lhe de mamar! A mulher do sacristão estava na cama mas acompanhava a conversa e tinha uma criança, que tinha nascido havia de poucos dias, pediu logo para a levarem até ela e deitou-a muito chegadinha e, logo começou a aquecer e a procurar a mama!  Mamou e pouco depois, já dormia profundamente de barriguinha cheia e quentinho! 
O Padre António Laurentino, o Sacristão e os vizinhos  não sabiam o que fazer com a criança, nenhum dos moradores tinha  possibilidades de ficar com ela, porque estavam cheios de filhos e, ao Padre não lhe era permitido ficar com uma criança, mesmo sendo enjeitada, como parecia ser aquele caso! Então, pensaram em apresentar o assunto ao Juiz dos Orfãos de Terena e, com uma carta do Padre, o Sacristão partiu imediatamente para a casa do Juiz, chegou muito cedo, mas ele já andava no quintal e, como eram conhecidos foi logo recebido! O Sacristão contou-lhe o que se estava passando e, entregou-lhe a carta onde o Padre António Laurentino lhe pedia para assim que pudesse ir à Igreja de Santo António de Capelins, porque não sabiam o que fazer com uma criança enjeitada! O Juiz disse ao Sacristão para esperar, que ia preparar-se, a albardar a burra e depois iam juntos! Ainda lhe perguntou se era um menino ou uma menina, mas o Sacristão não tinha a certeza, depois lembrou-se que, pelo choro devia ser um menino!  
O Juiz não se demorou nos preparativos e seguiram pela Villa Velha, Monte Branco, Faleiros, até à Igreja de Santo António de Capelins! 
Ao chegarem, o Juiz reuniu-se com o Padre na casa Paroquial, fez muitas perguntas, tomou notas sobre o acontecimento e, o Padre teve de responder:
Juiz: O senhor Padre não sabe quem pode ser a mãe da criança? Não se lembra se alguma das suas paroquianas estava de esperanças e que pudesse ter a criança por estes dias?
Padre: Para lhe ser franco, senhor Juiz, não tenho pensado noutra coisa toda a manhã e, não vejo quem possa ser a mãe dessa criança! Até pode ser alguma mulher que anda aí no meio desses matos! Não consigo, não consigo lembrar-me, por agora!
Juiz: O senhor Padre, não ouviu se alguma das suas paroquianas andava por aí mal encaminhada?  
Padre: Não, senhor Juiz, não ouvi nada e olhe que eu sei tudo o que se passa na minha Paróquia, não preciso de perguntar nada a ninguém, nem me meto onde não sou chamado, mas contam-me tudo e, de verdade, nos últimos tempos, não ouvi nada!
Juiz: Então, nesse caso, não desconfia quem seja a mãe dessa criança?
Padre: Até agora, não desconfio de ninguém, mas se ela for daqui, da minha Paróquia, depressa vou saber! Tudo se sabe, tudo se sabe!
Juiz: Então, veja lá isso senhor Padre! O mais depressa que puder, porque temos de dar andamento ao processo! Olhe, já que estou aqui, se estiver de acordo, vamos já fazer o batizado e, vamos decidir o que fazer com ela, por agora!
Padre: Estou de acordo com tudo, senhor Juiz, temos de resolver esta situação!
Chamaram o Sacristão e, perguntaram-lhe como estava a criança!
Sacristão: O menino está bem, está a dormir, quando o recolhemos estava gelado, cheio de fome e, parece que estava muito cansado, tenho cá na minha ideia que veio de longe, durante a noite, depois deixaram-no aqui e seguiram!
Juiz: Essa agora! A sua ideia não está fora de jeito! Mas se foi assim, sabiam que a sua mulher tinha a filha recém nascida e leite para ele!
Sacristão: Ah pois, deviam saber, senão como é que a criança calhava à gente, com tantas portas por aí!
Juiz: Sendo assim, não pode ser de muito longe, talvez lá de Terena, ou de Santiago, mas alguém daqui, deu-lhe as informações! Em Terena, investigo eu e também falo com o Pároco de Santiago, mas agora vamos lá falar sobre o que fazemos com a criança!
O Juiz virou-se para o Sacristão e perguntou-lhe:
Juiz: Então, a sua mulher tem leite para as duas crianças?
Sacristão: Ter, até tem, a menina mama pouco, até tem leite a mais!
Juiz: Nesse caso, podem ficar com o menino até eu ver o que posso fazer lá em Terena, ou se encontro um sítio para onde o mandar?
Sacristão: A gente podia, mas temos tantos filhos e isto está tão mau! Não sei, não sei!
Juiz: Era só um tempo, homem! E eu ajudo!
Padre: Já sabe, eu também ajudo em tudo o que puder!
Juiz: Está a ver! Vamos olhar pelas crianças e pela sua mulher, ela  tem de comer melhor, para dar de mamar a duas crianças e também lhe dou alguma roupa!
Sacristão: Então, se for assim, vou dizer à minha mulher!
O Sacristão saiu a correr e não demorou a confirmar que, se fosse só algum tempo e com ajudas, ficavam com o menino!
Juiz: Então, vamos batizá-lo, eu posso ser um dos padrinhos, temos de arranjar outra pessoa!
Sacristão e Padre: Se não estiver aí mais ninguém, pode ser um de nós!
Naquele momento, ouviram o rodar de uma carroça na rua da Igreja, o Padre tirou a cabeça de fora da porta da casa Paroquial para ver quem era, ao mesmo tempo o transeunte, o ti Domingos Ramos, que morava no Monte do Meio, um homem muito devoto, assim que viu o Padre mandou logo parar o macho: Aí, oh! Tirou o chapéu, apeou-se e foi cumprimentar o Padre!
Ti Domingos: Bom dia senhor Padre! Bons olhos o vejam! 
Padre: Bom dia, Domingos! Então, vais com muita pressa?
Ti Domingos: Não, não vou, senhor Padre! Então queria que eu fizesse aí alguma coisa?
Padre: Queria, queria, Domingos! Queria que fosses padrinho de um menino que apareceu esta madrugada aí à porta do Sacristão e, está aqui o Juiz para o batizarmos, só precisamos que assines o assento, pode ser?
Ti Domingos: Oh senhor Padre, sabe que sou um bom Cristão, nunca podia negar uma coisa dessas, é um filho de Deus, vamos lá!
O menino foi batizado e, o Padre António Laurentino, com o acordo de todos, deu-lhe o nome de Pedro, o nome do apóstolo São Pedro que, nasceu Simão, na Galileia, assim, o nome do menino ficou Pedro!
Depois do batismo, cada um seguiu o seu caminho e, o Pedro ficou entregue ao Sacristão e à sua mulher, em companhia dos seus cinco filhos, era mais um! Toda a gente ajudava com o pouco que tinham, os padrinhos vinham visitá-lo periodicamente e, saber se estava tudo bem com ele! O Pedro era o enlevo de toda a gente e, já existiam muitas pessoas interessadas em o perfilhar!
O Padre António Laurentino, tentou tudo, no sentido de saber quem seria a mãe do Pedro e, embora tivessem surgido muitos boatos, muito falatório, não conseguiu saber nada de concreto!
O Juiz e a sua mulher vinham muitas vezes à missa na Igreja de Santo António, também para visitarem o afilhado, que estava cada vez mais engraçado e ajudavam a família do Sacristão! Estas visitas eram cada vez mais frequentes, porque a afeição pelo Pedro estava a aumentar! Um dia, quando iam de volta para Terena, o Juiz disse à mulher:
Juiz: Oh mulher, cada vez gosto mais do Pedro, está muito lindo e parece que gosta de nós, daqui a pouco tem dois anos, já pensei em o perfilharmos e levá-lo para nossa casa, o que dizes? 
Mulher: O que digo? Olha, ainda não te tinha dito nada, mas eu sinto o mesmo e, por mim já o levava hoje!
Juiz: Ah sim? Então, lá em casa, vamos falar isso muito a sério!
Mulher: Então vamos! Eu já pensei em tudo, por isso é contigo!
O Juiz e a sua mulher no Domingo seguinte, contaram ao Padre António Laurentino, qual era a sua intenção e, pediram a sua opinião! O Padre disse-lhe que não podia ficar mais contente com a sua decisão e, que decerto era o melhor para a criança! Passado cerca de um mês, o processo estava tratado, o Pedro foi perfilhado pelo padrinho Luiz Gonzaga e foi para sua casa em Terena! De início, estranhou um pouco, mas depressa se habituou ao que era bom! Na Igreja de Santo António ficaram muito tristes, principalmente a Família do Sacristão, mas todos achavam que era o melhor para ele! 
O Pedro brincava com os, agora irmãos, já adolescentes, para os quais, rapidamente se tornou a sua perdição, por isso vivia muito feliz e com muito aconchego!

Os anos foram passando, o Pedro recebeu uma boa educação, estudou num Colégio em Estremoz e, sempre que lhe perguntavam que profissão queria ter, respondia: "Militar de cavalaria” e, antes dos vinte anos já estava alistado no  Regimento do Reino, em cavalaria, como era o seu sonho! O Pedro aplicou-se de corpo e alma, esteve em muitas praças, prestando serviços relevantes ao reino e, aos trinta e seis anos já era capitão de cavalos na praça de Estremoz!
Ainda na sua infância, o Juiz e sua mulher contaram ao Pedro, a história da sua aparição à porta do Sacristão, assim, ele conhecia bem o seu passado, mas nunca se conformou não saber quem era a sua mãe biológica e, porque motivo ela o abandonou! 
O Pedro adorava Capelins, ia muitas vezes ao Monte do Meio, visitar o padrinho, o ti Domingos Ramos e família, onde era muito bem recebido e ficava alguns dias com eles, nunca falava do seu passado, mas sentia-se muito bem em Capelins, tinha a sensação que era ali que pertencia e que a sua mãe não estaria longe e por vezes o observava!
O Pedro casou com uma rapariga da Villa de Terena, filha do Capitão Mor das Ordenanças que, era de Estremoz, também, por isso, continuou sempre muito ligado a esta Villa, onde tinha residência e, com a família, iam passar os dias de licença concedidos pelo Regimento! 
A gratidão do Pedro às pessoas que o acolheram na fria madrugada do mês de Março de 1836 e, ao lugar, era imensa, então, como sabia a data em que se realizavam as Festas de Santo António, foi falar com o Padre Manoel Maria Fernandes e pediu-lhe autorização para fazer guarda de honra a cavalo, a Santo António no dia da Procissão, 3 de Setembro de 1870! Assim, nesse dia, apresentou-se com a farda de gala do Regimento, montando um lindo cavalo branco em companhia de um sargento e dois praças e, quando a Procissão saiu da Igreja, os quatro cavaleiros, dois a dois, colocaram-se ao lado do andor de Santo António, acompanhando a Procissão, apresentando um cenário indescritível, logo à frente quatro homens de saiotes e mitras na cabeça com tufos de fitas e guitarras nas mãos, dançavam freneticamente em frente ao andor, seguindo sempre de recuas sem nunca virarem as costas ao andor, um quadro que emocionou os paroquianos que estavam presente e, eram muitos! 
A Procissão, durou quase três horas, fez o percurso habitual entre os cruzeiros das seis Irmandades, depois de Santo António entrar na sua Igreja, o Capitão Pedro Gonzaga foi cumprimentar o Padre Manoel Fernandes e, as pessoas uma por uma, como se fossem todas da sua família, demorou-se algum tempo pelo recinto da Festa, falando com toda a gente e, já de noite, regressaram à Villa de Terena com o sentimento do dever cumprido!
O seu abandono à porta do Sacristão, foi um segredo tão bem guardado que, nunca se soube quem era a sua mãe, uns diziam que era uma, outros diziam que era outra, outros diziam que ele sabia quem era, mas na verdade, o Pedro era filho de pais incógnitos! 
Durante muitos anos, o Capitão Pedro Gonzaga, continuou a visitar Capelins, também, porque, sentia que estava ali a sua verdadeira Família, as suas raízes, a sua identidade, como ele dizia e, porque foi padrinho de batismos de muitas crianças e de matrimónios, de todos os que o convidavam em Santo António de Capelins de onde era natural.

Fim

Igreja de Santo António de Capelins



domingo, 4 de março de 2018

402 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -

Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do peruneiro do Monte do Roncão e, a rocha do 

medo no Carrão

Antes de 1800, já se faziam grandes bailes nos Montes das herdades e, nas Aldeias das terras de Capelins, muitas vezes, nem existia toque de harmónio, ou da gaita de beços, bastava alguém cantar e, todos dançavam! Os bailes nas Aldeias realizavam-se nas casas de habitação de quem os organizava e, era nesses lugares que, os rapazes e raparigas em idade casadoira, destas terras e dos arredores se conheciam e, surgiam namoros que, quase sempre davam em casamento, por isso, todos sonhavam com esses bailes, também, porque, havia poucos divertimentos por aqui e, mesmo estes, nem todos tinham o privilégio de frequentar, devido às durezas das vidas nesse tempo!
A Aldeia de Montes Juntos em 1830, já estava muito povoada, com pessoas de variadas regiões de Portugal e da raia da vizinha Espanha que trouxeram hábitos, usos e costumes, culturas diferentes que, aqui se fundiram, assim, os bailes eram uma forma de convívio entre estas gentes!
No final do mês de Outubro de 1830, foi anunciada a realização de um baile em Montes Juntos na casa da Ti Maria Rufina, que tinha cinco filhas e um filho, abrilhantado por dois tocadores de harmónio, uma grande novidade, a notícia depressa se espalhou e, não se falava noutra coisa por estas bandas, todos ficavam entusiasmados e diziam que não faltavam, até o Zé peruneiro do Monte do Roncão, um rapaz natural de Santiago Maior que, ainda muito pequeno, veio pela mão do tio, ganadeiro nesta herdade! O Zé, durante muitos anos foi guardador de perus, por isso, ficou com aquele apelido! Era um rapaz muito reservado, de pouca conversa, vivia triste e, nunca tinha ido a um baile daquele nível, mas agora, sentia um apelo para não faltar a esse!  Chegou o dia e, o Zé peruneiro lá foi com um grupo de rapazes que trabalhavam nesta herdade, quando chegaram a Montes Juntos, o baile ainda não tinha começado, mas foram logo entrando para ficarem num bom lugar! A casa da ti Rufina, depressa se encheu, começou o toque e a dança! O Zé peruneiro, ficou pasmado, nem fechava a boca, para ele, era tudo uma grande admiração! O baile estava cada vez mais animado e, o Zé reparou numa rapariga, talvez da sua idade, andava pelos dezoito anos, que lhe encheu instantaneamente o coração, era muito bonita e, dançava com todos os rapazes, ele imaginou-se a dançar com ela, mas lembrou-se que não sabia dançar e ficou quieto, continuando de boca aberta! Durante toda a noite, o Zé não tirou os olhos da rapariga, estava enfeitiçado, mas ela nem reparou nele! Alguns companheiros davam-lhe cotoveladas e diziam-lhe para fechar a boca, mas ele não os ouvia! O tempo passou muito depressa, o baile já estava no fim e, os outros chamaram-no, chamaram-no, para se irem embora, mas  ele não ligava, por fim, um deles, deu-lhe um abanão e ele percebeu-se que estava na hora da partida, mas disse-lhe para irem andando, ele logo os apanhava ali pelo Salgueiro e, continuou com os olhos postos na rapariga! As pessoas estavam a sair do baile e deram-lhe um encontrão que o desequilibrou e, quando se endireitou, procurou a rapariga com os olhos, mas como por magia, ela já lá não estava, ainda correu na direção onde a tinha acabado de ver, mas nada, saiu a correr para a rua e nada, ficou algum tempo na esperança de ela por ali passar, mas nada! Teve de seguir sozinho pela Rua da Faceira, Salgueiro, Arrabaça, Carrão, sempre com a imagem da rapariga na cabeça, nem reparava por onde ia, quando chegou à rocha do medo, estava um fraco luar, lembrou-se do medo, olhou para a dita rocha e ficou aterrorizado ao ver a rapariga lá sentada olhando para ele! O Zé, sentiu as pernas a fraquejar, passou imediatamente para o lado esquerdo da estrada, ainda pensou em voltar para trás,  mas tinha de seguir em frente e, ao olhar de soslaio teve a certeza que ela o seguia com o olhar, a rapariga não disse nada e, ele também não, mas assim que passou a rocha, começou  a correr o mais que podia e só parou esbaforido quando chegou à choça onde dormia!
No dia seguinte, toda a gente falava do baile, os que tinham ido contavam aos que não puderam estar presente o que lá se tinha passado e, um dos temas era sobre a figura que o peruneiro tinha feito e, contavam que estava perdido de amores por uma magana que lá estava e nem tinha fechado a boca a noite toda, por isso, começaram logo a mangar com ele, mas o Zé peruneiro não ligava, só pensava naquela linda rapariga, mas andava ainda mais atormentado porque não entendia o que fazia ela sentada na rocha do medo! A partir daquele dia, o Zé ficou melancólico e pouco falava, o que deu ainda mais falatório e chacota na herdade do Roncão! Uns diziam que andava de cabeça perdida pela perua do baile! Outros diziam que, depois do baile tinha ficado maluquinho! E, muitos outros comentários de troça!
Os bailes em Montes Juntos continuaram e, o Zé nunca mais faltou a nenhum, na esperança de encontrar a sua amada, mas nada! Foi passando o tempo e, cerca de um ano depois, já sem esperança de a encontrar, um dia, andava com as ovelhas junto à foz do Ribeiro do Carrão, foi descendo a Ribeira de Lucefécit e, ao aproximar-se do Moinho do Roncão deu de caras com a rapariga sentada à porta de casa, a costurar! O Zé ficou sem palavras, tirou o chapéu, acenou em cumprimento e afastou-se apressadamente, mas no dia seguinte voltou cedo, na esperança de a ver e, lá estava ela, seguiram-se outros dias, até que, ela começou a perceber que o Zé andava ali por ela!  O Zé dava nas vistas e começou o falatório e outras raparigas da herdade encarregaram-se de ajudar o Zé, como a Maria Anna, assim se chamava a rapariga, não namorava, começaram por lhe contar que ele tinha andado perdido por ela, depois do baile na casa da ti Maria Rufina em Montes Juntos e que ele era muito bom rapaz, muito trabalhador e seria muito bom para ela! A Maria foi-se convencendo e começou a pensar nele e, não demorou, começaram a falar de coisa vulgares, mas a atração mútua foi aumentando dia a dia, o Zé ganhou coragem depois de passar muitos dias e noites a treinar e, declarou-se à Maria, disse-lhe que gostava muito dela desde o momento em que a viu no dito baile, mas não percebia porque estava ela sentada na rocha do medo naquela mesma noite!  A Maria disse-lhe que nunca podia ser ela, porque, quando acabou o baile tinha ido logo com os pais e as irmãs para casa em Cabeça de Carneiro, por isso, só podia ser ilusão na cabeça dele, ou então, era outra rapariga parecida com ela! O Zé, não ficou muito convencido, mas o assunto ficou por ali, como já se conheciam e falavam, ele perguntou-lhe se aceitava namoro e, ela disse-lhe logo que sim, mas ele tinha de pedir ao pai dela, porque não podiam continuar a falar! O Zé, foi logo com o tio, a pedir a a filha do Moleiro que, depois de uma demorada conversa, autorizou que namorassem à pequenina janela da casa do Moinho, um bocadinho nos domingos à tarde e, mais nada de conversas por ali! O Zé e a Maria Anna namoraram mais de um ano, depois, marcaram o casamento que se realizou na Igreja de Santo António e, como ele era ganadeiro na herdade do Roncão, alargaram a choça e assentaram por ali, tiveram cinco filhos e, ainda hoje, existem seus descendentes nas terras de Capelins.
Ao longo da sua vida, o Zé peruneiro passou noites sem conta ao lado da rocha do medo e, nunca mais viu nada! Com o passar dos anos acabou por se convencer que, não tinha passado de uma ilusão.
Fim 

Rocha do medo



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

401 - Terras de Capelins

História de vidas de gentes de Capelins

A comunidade capelinense foi sempre constituída por Famílias oriundas de diversas regiões de Portugal e, de localidades espanholas próximas da raia, verificando-se maior afluência nos anos de 1700 e 1800! Assim, devido ao interesse manifestado por algumas Famílias no sentido de conhecerem as suas origens, procedemos à pesquisa, através dos Assentos Paroquiais, de algumas Famílias conhecidas nesta Freguesia de Capelins!
 O nosso objetivo é identificar o respetivo casal, mas seguir apenas o elemento do apelido, a sua filiação, data de nascimento, lugar do nascimento, data do matrimónio, nome do/a esposo/a, lugar onde se realizou o matrimónio e outros elementos relevantes!
Esta pesquisa é sobre a Família “Mira” que descobriu as terras de Capelins na década de 1790, através do pioneiro José de Mira, o qual veio da sua terra natal, Aldeia de Valverde – Freguesia de Nossa Senhora da Assunção da Tourega – Évora!
Percurso de vida da Família “Mira”
Como referimos, José de Mira chegou às terras de Capelins na década de 1790, onde contraiu matrimónio com Francisca Rodrigues, natural de Santiago Maior, no dia 05 de Agosto de 1798, na Igreja de Santo António de Capelins!
José de Mira e, sua legítima mulher Francisca Rodrigues, tiveram vários filhos/as, conhecemos quatro, do sexo masculino que, deram origem às diversas Famílias “Mira” que povoaram as terras de Capelins e arredores! Os filhos do género masculino chamavam-se: Manuel de Mira, Fernando de Mira, Vicente de Mira e João de Mira. No caso da linhagem da família que seguimos, devido à manifestação dos seus familiares, a mesma, já em Capelins, teve origem em João de Mira, logo, para trás de José de Mira é igual para toda esta Família!
A pesquisa, começa dos tempos mais recentes, dos Registos Paroquiais de Santo António de Capelins até ao limite temporário dos registos Paroquiais da antiga Paróquia de São Matias – Évora, dia 02 de Março de 1641, mais de 350 anos e 10 gerações da família Mira! Estão ao dispor de interessados todos os Assentos Paroquiais a que nos referimos até àquela data, mas como antes referimos seguimos apenas o ramo direto do 1º grau “Mira”, com algumas exceções.

Assim:

     1. Nome: Manuel Mira
Data de nascimento: 11 de Novembro de 1900
Ficheiro 40
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Inácio Mira e de Maria Antónia
Data de matrimónio: 16 de Abril de 1922
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Mariana Francisca
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: António João Velladas e Francisca Luzia.

     2. Nome: Inácio Mira
Data de nascimento: 31 de Maio de 1873
Ficheiro 5
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Manuel Mira e de Maria Luiza
Data de matrimónio: Não encontrado em Capelins
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome da esposa: Maria Antónia
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Vicente Mira e Antónia Velladas
Inácio Mira faleceu no Alandroal em 26-12-1939

  3. Nome: Manuel Mira
Data de nascimento: 16 de Dezembro de 1832
Ficheiro 124
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: João Mira e de Maria de Jesus
Data de matrimónio: 03 de Outubro de 1861
Ficheiro 4
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Maria Luiza
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Inácio Marques e de Catharina Maria

     4. Nome: João Mira
Data de nascimento: 27 de Agosto de 1809
Ficheiro 42
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: José de Mira e de Francisca Rodrigues
Data de matrimónio: 05 de Agosto de 1832
Ficheiro 38
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Maria de Jesus
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Domingos Esteves e de Brites Maria

5. Nome: José de Mira
Data de nascimento: 05 de Fevereiro de 1772
Ficheiro 17
Naturalidade: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Filiação: João de Mira e de Maria Joanna
Data de matrimónio: 05 de Agosto de 1798
Ficheiro 63
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Francisca Rodrigues
Naturalidade: Freguesia de Santiago Maior
Filiação: Manoel Marques e de Joaquina Nunes

     6. Nome: João de Mira
Data de nascimento: 03 de Fevereiro de 1745
Ficheiro 23
Naturalidade: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Filiação: Domingos Friz e de Maria de Mira
Data de matrimónio: Não encontrada
Lugar do matrimónio: Não encontrada
Nome da esposa: Maria Joanna
Naturalidade: Freguesia de São Brás do Regedouro

Seguimos a Família “Mira”, cujo apelido, nesta geração foi transmitido pelo lado materno, ou seja, por Antónia de Mira, assim:

     7. Nome: Maria de Mira
Data de nascimento: 28 de Abril de 1709
Ficheiro 12
Naturalidade: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Filiação: Martinho Freire Galego e de Antónia de Mira
Data de matrimónio: 21 de Abril de 1738
Ficheiro 28
Lugar do matrimónio: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Nome do esposo: Domingos Friz
Naturalidade: Villa de Aguiar – Viana do Alentejo
Filiação: Brás Friz e de Izabel Gliz
Naturais da Villa de Aguiar

     8. Nome: Antónia de Mira
Data de nascimento: 09 de Junho de 1678
Ficheiro 48
Naturalidade: São Matias - Évora
Filiação: António Roiz e de Grácia Vidigal
Data de matrimónio: Não encontrado
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome do esposo: Martinho Freire Galego
Naturalidade: Vila Ruiva - Cuba
Filiação: António Galego e de Joanna Pombera
Naturais de Vila Ruiva - Cuba

     9. Nome: Grácia Vidigal
Da. ta de nascimento: 28 de Outubro de 1656
Ficheiro 58
Naturalidade: São Matias - Évora
Filiação: Francisco Roiz e de Caterina Vidigal
Data de matrimónio: Não encontrado
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome do esposo: António Roiz
Naturalidade: São Gregório - Arraiolos

10. Nome: Caterina Vidigal
Data de nascimento: Prevê-se década de 1630, não há Assentos
Naturalidade: São Matias - Évora
Filiação: Não há Assentos
Data de matrimónio: Não encontrado
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome do esposo: Pedro Roiz
Naturalidade: Não encontrado.

Na 9ª e 10 ª gerações não consta o apelido “Mira” mas sim o de “Vidigal”, originando a dúvida sobre, de qual ramo da filiação de Antónia de Mira, surge este apelido! Esta situação levou-nos a investigar se, quando o pai de Antónia de Mira chegou a São Matias, vindo de São Gregório – Arraiolos, já aqui existia o apelido “Mira”  e de facto, logo, no ano de 1643 encontramos Luiza Mira e, a seguir outras pessoas com o mesmo apelido, assim, podemos concluir que, a Família Mira já existia quando Grácia Vidigal casou com António Roiz que, como referimos veio de São Gregório, estando, então, os “Mira” já ligados aos “Vidigal” que também já aqui os encontramos em grande número no ano de 1642 e decerto muito antes, mas não existem Registos antes de 1641. Tudo indica que Grácia Vidigal foi recuperar o apelido “Mira” para os seus vários filhos, que encontramos nos Assentos Paroquiais de São Matias.
É de salientar que, o padrinho de batismo de Grácia Vidigal foi, Francisco de Mira, casado com Izabel Vidigal.
Desde o início dos registos 1641, existem em São Matias, muitas Famílias com o apelido “Mira” e, talvez ainda mais com o de “Vidigal”.

Os apelidos: Roiz, Friz e Gliz, são: Rodrigues, Fernandes e Gonçalves que vieram de: Rodriguez, Fernandez e Gonçalvez, apelidos judaicos espanhóis, que se encontram nas linhagens de quase todos os alentejanos e beirões.


Resumo histórico/administrativo, das Paróquias envolvidas:

Santo antónio de capelins – alandroal História 

administrativa/biográfica/familiar

A Freguesia, nos séculos XVII, XVIII e até meados do século XIX era designada por Santo António, termo da Vila de Terena.

Posteriormente, aparece nos Registos Paroquiais como Santo António de Capelins, sendo atualmente denominada Capelins.

Pertencem a esta Freguesia as localidades de Ferreira de Capelins e Montes Juntos.

O orago da Freguesia é Santo António.

nossa senhora da Tourega – valverde – évora

História administrativa/biográfica/familiar

A designação mais antiga da Freguesia era Ourega, estando documentada desde o séc. XIII. Mas também é denominada Nossa Senhora da Assunção de Tourega.

A Paróquia, no termo de Évora, era curado da apresentação do Arcebispo daquela Diocese.De 1911 a 1926 esteve anexada à Freguesia da Graça do Divor. Com o Decreto n.º 12509, de 18 de Outubro de 1926, foi desanexada da referida Freguesia e foi-lhe anexada a de São Brás do Regedouro. Pelo Decreto n.º27424, de 31 de Dezembro de 1936, e em resultado da extinção da Freguesia de São Brás do Regedouro, ficou só como Freguesia de Nossa Senhora da Tourega.

O orago é Nossa Senhora da Assunção.

São Matias - évora 

História administrativa/biográfica/familiar

Esta Freguesia já era referenciada em 1555, no livro de Batismos da Sé de Évora.

A antiga Freguesia de São Matias, no termo de Évora, era curado da apresentação do Arcebispado da Diocese.

Após 1911, a Freguesia foi anexada à da Graça do Divor. 

Em 8 de Dezembro de 1966 foi transferida a sede de Freguesia para a igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, com o título de Paróquia. Todo o seu território ficou integrado na Freguesia de Nossa Senhora da Guadalupe, criada pelo Decreto-Lei n.º 128/85 de 4 de Outubro.

O orago é São Matias.

Fim 


 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

400 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do contrabandista de Capelins de Cima e a rocha do medo no Carrão
O ti Manoel Ramos era contrabandista e morava em Capelins de Cima, numa noite do mês de Março do ano de 1890, pelas 22 horas, carregou às costas, a carga de 30 quilogramas de produtos para entregar no outro lado da fronteira junto à Ribeira de Tálega, foi pelo Monte do Meio, poço da estrada e desceu o Ribeiro do Carrão pensando ir até perto da foz e dali já estaria perto do lugar, ao fundo da horta do Pisco, combinado com o moleiro do moinho das Azenhas D’El-Rei que o passaria com mais dois contrabandistas no seu barco, para o outro lado do rio Guadiana, porém, quando chegou em frente ao Monte da Zorra ouviu vozes e, temendo serem os guardas fiscais, pensou em os contornar, subiu pelo alto do Carrão e desceu quase em linha reta em direção ao Pombal! Entre esse percurso fica a rocha do medo e, quando o ti Manoel chegou a esse lugar sentiu vontade de ir à casa de banho, mas com a carga às costas não era fácil e, para pousar a carga no chão e, depois carrega-la novamente, também não! Então, o ti Manoel lembrou-se de uma solução, apoiar-se na dita rocha e assim não era preciso descarregar a carga! Quando se preparava para o efeito, ouviu uma voz aterradora, parecia vir do interior da rocha a dizer: “Vai-te andando daqui”! O ti Manoel ficou paralisado, mas assim que se orientou, começou a correr, passou por detrás do Monte do Pombal e, de cabeça perdida, passou pelo moleiro que estava perto do barco a comer uma bucha, esperando pela chegada dos três contrabandistas, mas o ti Manoel nem parou! O moleiro começou a correr atrás dele chamando-o, sem perceber o que se passava, ainda pensou que fosse a guarda fiscal que viesse atrás dele, mas não viu ninguém e, já junto ao moinho deitou-lhe a mão e não o deixou correr mais! O ti Manoel caiu de joelhos e durante uns dez minutos não foi capaz de dizer uma palavra, tremia todo, por fim, depois de muita insistência do moleiro lá começaram a falar:
Moleiro: Oh ti Manoel, nunca na minha vida tinha assistido a uma coisa destas! Vocemecê ia doido! O que lhe passou pela cabeça para ir nessa correria? Não vinha ninguém atrás, diga-me lá o que se passou homem?
Ti Manoel: O que se passou, nem sei bem! Só lhe digo que apanhei o maior susto da minha vida!
Moleiro: Mas que susto? Conte-me lá, foi a guarda fiscal, não?
Ti Manoel: Qual guarda fiscal! Antes fosse, antes fosse, nada disso!
Moleiro: Mas se não foi a guarda fiscal, o que foi homem?
Ti Manoel: Não sei, não sei o que foi, mas sei que foi uma coisa do outro mundo!
Moleiro: Uma coisa do outro mundo? Vocemecê não diz coisa com coisa! Diga-me lá de uma vez, o que viu do outro mundo, algum vulto!
Ti Manoel: Eu não vi nada, nada, mas ouvi uma voz medonha que só podia vir do outro mundo!
Moleiro: É o que eu digo! Vocemecê endoideceu, foi o que foi! Como é que sabe que essa voz vinha do outro mundo?
Ti Manoel: Ora, porque sei! Ouvi muito bem a rocha do medo a falar e a tremer, como se fosse um tremor de terra!
Moleiro: Essa agora! Mas se vocemecê nunca teve medo de nada, como é que apanhou um susto tão grande só por a rocha tremer?
Ti Manoel: Por a rocha tremer e falar! Nunca tive medo de nada neste mundo, mas como já lhe disse, aquilo não foi coisa deste mundo!
Moleiro: Acredito! Para vocemecê ter tanto medo, teve que ser uma coisa muito medonha!
Ti Manoel: Só eu sei, só eu sei! Bem, vamos lá que já estou melhor, já quase me passou o susto!
Quando chegaram, já lá estavam os dois companheiros, eram eles que iam à sua frente ao lado do Ribeiro do Carrão na Zorra, quando ele ouviu as vozes e pensou que era a guarda fiscal! Entraram no barco e seguiram até à margem esquerda do rio Guadiana, mas o ti Manoel não disse uma palavra! Fizeram a viagem e, pelas cinco horas estavam de volta, acenderam uns fósforos como sinal e, o moleiro não demorou em os recolher para o lado de cá da fronteira! O ti Manoel despediu-se dos companheiros com poucas palavras e seguiu para Capelins de Cima, quando chegou, meteu-se na cama e só de lá saiu ao fim de três dias, o homem esteve mal!
O ti Manoel teve de voltar à sua vida de contrabandista mas, até ao fim da sua vida, nunca mais se aproximou da rocha do medo.
Fim



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

399 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins 

Montejuntos

A lenda da taberneira de Capelins de Baixo, que 

batizava o vinho

De entre as tabernas das terras de Capelins, existia a taberna da ti Maria das Candeias em Capelins de Baixo, herança dos seus pais que sempre dela se governaram, porém  a ti Maria, levada pela ganância, a pensar em ganhar mais, começou a batizar o vinho, ou seja, a misturar água! No princípio adicionava pequenas quantidades que poucos fregueses conseguiam notar, mas ao ver que era um bom negócio, vender água do seu poço ao preçodo vinho, aos poucos foi aumentando a quantidade, ao ponto da maioria dos clientes notarem e de a chamarem à atenção! A ti Maria negava sempre, desafiava-os a provarem que era ela quem adulterava o vinho, fazia grande escândalo e dizia que eles não percebiam nada de vinho ou que o vinho estava aberto porque o ano tinha sido muito chuvoso e a uva tinha apanhado muita água! Alguns, ainda a enfrentavam dizendo que o vinho das outras taberneiras vinha do mesmo sítio onde tinha chovido muito e não era aguado! A ti Maria zangava-se e enxotava-os para a rua com uma vassoura, mas como era muito brejeira e sabia cativar os homens, não demorava nada e já lá estavam a beber vinho com água e novamente a reclamar! O ti Manoel António que era sapateiro umas portas acima, também gostava de lá ir beber um copinho e a olhar para a ti Maria, mas todos os dias a chamava a atenção:
Ti Manoel: Oh Maria, isto não é nada, o vinho está aguado, isto é água com umas gotas de vinho! Um dia sais-te mal!
Ti Maria: Antes de me acusares de uma coisa dessas, tens de provar que eu meto água no vinho! Senão deixa-te estar calado!
Ti Manoel: Olha que eu um dia vou provar e sabes que vais perder muito com isso! Vai ser uma vergonha!
Ti Maria: Então prova! Já que és tão esperto, prova!
O ti Manoel sapateiro dava voltas à cabeça, na tentativa de encontrar uma maneira de desmascarar a ti Maria, todos sabiam que ela metia água no vinho, mas ela negava e ninguém tinha provas do contrário! O ti Manoel entrava na taberna e olhava para todos os pormenores na esperança de encontrar alguma ajuda, colocava-se no topo do balcão de onde podia ver as manobras da ti Maria, assim como os objetos que estavam atrás do mesmo e verificou que ela tinha uma cantarinha de barro mesmo ao lado dos jarros do vinho de onde enchia os copos, logo pensou que era ali que estava a água que ela adicionava ao vinho! O ti Manoel queria apanhar a ti Maria e quando estava na taberna, disfarçadamente, não tirava os olhos da “cantarinha de barro” até que, teve a certeza que era dela que saía a água para o vinho, mas como o podia provar? Passou, muitas horas sem dormir, até que se lembrou como o fazer, só precisava de uma oportunidade para chegar à cantarinha sem ser visto! Observou qual a melhor hora do dia para ir à taberna sem outros clientes à vista e que a ti Maria lhe aviasse o copo de vinho e fosse lá para dentro fazer alguma coisa que a prendesse alguns minutos, foi estudando o caso e viu que a melhor hora era antes do jantar (almoço), quase nunca aparecia ninguém e a ti Maria ia dar volta e temperar as sopas! Assim, um dia encheu os bolsos de sal e foi á taberna, ocupou o mesmo lugar no balcão e pediu um copo de vinho, a ti Maria encheu o copo e como estava só ele a beber o vinho muito devagar, ela viu que era para demorar e disse-lhe: Olha Manoel deixa-te estar que eu vou temperar as sopas não me demoro nada! Oh Maria, vai lá com vagar que eu fico aqui até voltares, disse o ti Manoel! Logo que a ti Maria virou costas o ti Manoel correu à cantarinha e despejou para lá o sal, abanou-a e meteu lá dentro uma pequena tábua para desfazer o sal, limpou tudo bem e foi para o mesmo sítio, a ti maria voltou ele pagou e foi-se embora doido de contente! À noitinha o ti Manoel e outros fregueses chegaram à taberna, mandaram encher os copos e começaram a beber, mas logo a fazer caretas e a dizerem: Mas que raio tem o vinho? Isto não é vinho, é veneno, ela quer matar-nos, isto é sal, já não bastava a água, agora meteu sal no vinho, vamos chamar a Guarda que ela é presa! Armou-se grande confusão, até que a ti Maria já em grande pranto e vendo o caso muito sério, confessou que metia água no vinho, mas jurou por tudo que o sal não tinha sido ela, para não chamarem a Guarda, ela ia já buscar outro vinho e, nem pagavam e mais isto e mais aquilo! Começaram a beber um bom vinho, à conta da ti Maria e, tudo ficou por ali!
Ficou provado que a ti Maria das Candeias batizava o vinho e, a sua ganância levou-a longe de mais! A partir daquele dia passou a ser alvo de chacota por quase todos os fregueses e tinha de ficar calada, porque estava provada a fraude! Um dia ainda disse ao sapateiro: “Malandro, foste tu, que puseste o sal no vinho, o sapateiro negou e só lhe disse: “Então prova”!
A ti Maria começou a vender o vinho puro, como o comprava, mas ouvia sempre a gracinha: “Será que não está batizado?”
É caso para dizer: “A mulher/homem cobre e Deus descobre”.

Fim  



domingo, 11 de fevereiro de 2018

398 - Terras de Capelins 
História da vida de gentes de Capelins 
Quando alguns capelinenses com o mesmo apelido de outros, pensam, nada ter a ver uma família com a outra, concluímos que são muito raros os que têm razão! De verdade a separação das famílias pode ter-se dado há 4/5/6 gerações e obviamente, já se perderam os laços familiares! Também acontece, saber que um determinado familiar veio de uma localidade diferente da primitiva origem dessa família, mas não podemos esquecer que cada casal tinha 6/8/10 e mais filhos e alguns casavam em Terena, Santiago Maior, Rosário, ou noutra terras e anos mais tarde os seus descendentes voltavam às terras de Capelins, tinham o mesmo apelido dos que já cá estavam e, possivelmente nem se apercebiam que a sua origem era a mesma!

Veja-se como a Família Rocha (inicialmente Roxa) se implementou em Ferreira de Capelins, Montejuntos, Cabeça de Carneiro, Santiago Maior e outras localidades! 
Em 26 de Abril de 1738 nasceu António da Rocha, em São Pedro do Corval, filho de Domingos Antunes e de Natália Marques, que pensamos terem nascido entre 1710/15 com ligação a Santo António do Baldio (brevemente vamos continuar o ramo)! 
António da Rocha casou com Antónia Maria, também de São Pedro do Corval e foram residir para Santiago Maior (Aldeia da Venda) e, logo aí começaram a nascer os filhos/as, encontramos 2/3 mas devem ser mais! Poucos anos depois já se encontram a residir na Freguesia de Capelins, onde continuaram a nascer filhos/as, 1 filho/a em cada 2/3 anos! Assim, uns filhos eram naturais de S. Tiago de Terena e outros de Santo António de Terena (Capelins)! Os filhos/as de António da Rocha e de Antónia Maria começaram a casar muito antes de 1800, (veja-se as gerações que daí vêem), com filhos/as de outras famílias, por exemplo a Izabel Maria Rocha que nasceu em Santiago Maior em 5 de Janeiro de 1770 casou com Francisco Jozé Valente (Família Valente), mas como nesse tempo, geralmente era o apelido da mãe que passava para os filhos/as, logo todos os seus filhos/as ficaram com o apelido Rocha, como o Francisco José Rocha, cujos descendentes não deixaram mais esse apelido! 
É fácil imaginar como foi a multiplicação dos apelidos, neste caso, em cerca de 300 anos, uma vez que, os pais de António da Rocha nasceram há mais de 300 anos! 
Neste contexto, António da Rocha de São Pedro do Corval foi o povoador da família Rocha, por todas as localidades já referidas e decerto muitas outras. 
(Continuamos a seguir este ramo)

A Família Rocha vem de São Pedro do Corval para Capelins na década de 1770, via Santiago Maior! 


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...