quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

401 - Terras de Capelins

História de vidas de gentes de Capelins

A comunidade capelinense foi sempre constituída por Famílias oriundas de diversas regiões de Portugal e, de localidades espanholas próximas da raia, verificando-se maior afluência nos anos de 1700 e 1800! Assim, devido ao interesse manifestado por algumas Famílias no sentido de conhecerem as suas origens, procedemos à pesquisa, através dos Assentos Paroquiais, de algumas Famílias conhecidas nesta Freguesia de Capelins!
 O nosso objetivo é identificar o respetivo casal, mas seguir apenas o elemento do apelido, a sua filiação, data de nascimento, lugar do nascimento, data do matrimónio, nome do/a esposo/a, lugar onde se realizou o matrimónio e outros elementos relevantes!
Esta pesquisa é sobre a Família “Mira” que descobriu as terras de Capelins na década de 1790, através do pioneiro José de Mira, o qual veio da sua terra natal, Aldeia de Valverde – Freguesia de Nossa Senhora da Assunção da Tourega – Évora!
Percurso de vida da Família “Mira”
Como referimos, José de Mira chegou às terras de Capelins na década de 1790, onde contraiu matrimónio com Francisca Rodrigues, natural de Santiago Maior, no dia 05 de Agosto de 1798, na Igreja de Santo António de Capelins!
José de Mira e, sua legítima mulher Francisca Rodrigues, tiveram vários filhos/as, conhecemos quatro, do sexo masculino que, deram origem às diversas Famílias “Mira” que povoaram as terras de Capelins e arredores! Os filhos do género masculino chamavam-se: Manuel de Mira, Fernando de Mira, Vicente de Mira e João de Mira. No caso da linhagem da família que seguimos, devido à manifestação dos seus familiares, a mesma, já em Capelins, teve origem em João de Mira, logo, para trás de José de Mira é igual para toda esta Família!
A pesquisa, começa dos tempos mais recentes, dos Registos Paroquiais de Santo António de Capelins até ao limite temporário dos registos Paroquiais da antiga Paróquia de São Matias – Évora, dia 02 de Março de 1641, mais de 350 anos e 10 gerações da família Mira! Estão ao dispor de interessados todos os Assentos Paroquiais a que nos referimos até àquela data, mas como antes referimos seguimos apenas o ramo direto do 1º grau “Mira”, com algumas exceções.

Assim:

     1. Nome: Manuel Mira
Data de nascimento: 11 de Novembro de 1900
Ficheiro 40
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Inácio Mira e de Maria Antónia
Data de matrimónio: 16 de Abril de 1922
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Mariana Francisca
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: António João Velladas e Francisca Luzia.

     2. Nome: Inácio Mira
Data de nascimento: 31 de Maio de 1873
Ficheiro 5
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Manuel Mira e de Maria Luiza
Data de matrimónio: Não encontrado em Capelins
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome da esposa: Maria Antónia
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Vicente Mira e Antónia Velladas
Inácio Mira faleceu no Alandroal em 26-12-1939

  3. Nome: Manuel Mira
Data de nascimento: 16 de Dezembro de 1832
Ficheiro 124
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: João Mira e de Maria de Jesus
Data de matrimónio: 03 de Outubro de 1861
Ficheiro 4
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Maria Luiza
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Inácio Marques e de Catharina Maria

     4. Nome: João Mira
Data de nascimento: 27 de Agosto de 1809
Ficheiro 42
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: José de Mira e de Francisca Rodrigues
Data de matrimónio: 05 de Agosto de 1832
Ficheiro 38
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Maria de Jesus
Naturalidade: Freguesia de Capelins
Filiação: Domingos Esteves e de Brites Maria

5. Nome: José de Mira
Data de nascimento: 05 de Fevereiro de 1772
Ficheiro 17
Naturalidade: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Filiação: João de Mira e de Maria Joanna
Data de matrimónio: 05 de Agosto de 1798
Ficheiro 63
Lugar do matrimónio: Igreja de Santo António de Capelins
Nome da esposa: Francisca Rodrigues
Naturalidade: Freguesia de Santiago Maior
Filiação: Manoel Marques e de Joaquina Nunes

     6. Nome: João de Mira
Data de nascimento: 03 de Fevereiro de 1745
Ficheiro 23
Naturalidade: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Filiação: Domingos Friz e de Maria de Mira
Data de matrimónio: Não encontrada
Lugar do matrimónio: Não encontrada
Nome da esposa: Maria Joanna
Naturalidade: Freguesia de São Brás do Regedouro

Seguimos a Família “Mira”, cujo apelido, nesta geração foi transmitido pelo lado materno, ou seja, por Antónia de Mira, assim:

     7. Nome: Maria de Mira
Data de nascimento: 28 de Abril de 1709
Ficheiro 12
Naturalidade: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Filiação: Martinho Freire Galego e de Antónia de Mira
Data de matrimónio: 21 de Abril de 1738
Ficheiro 28
Lugar do matrimónio: Freguesia de Nª Senhora da Assunção da Tourega - Valverde
Nome do esposo: Domingos Friz
Naturalidade: Villa de Aguiar – Viana do Alentejo
Filiação: Brás Friz e de Izabel Gliz
Naturais da Villa de Aguiar

     8. Nome: Antónia de Mira
Data de nascimento: 09 de Junho de 1678
Ficheiro 48
Naturalidade: São Matias - Évora
Filiação: António Roiz e de Grácia Vidigal
Data de matrimónio: Não encontrado
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome do esposo: Martinho Freire Galego
Naturalidade: Vila Ruiva - Cuba
Filiação: António Galego e de Joanna Pombera
Naturais de Vila Ruiva - Cuba

     9. Nome: Grácia Vidigal
Da. ta de nascimento: 28 de Outubro de 1656
Ficheiro 58
Naturalidade: São Matias - Évora
Filiação: Francisco Roiz e de Caterina Vidigal
Data de matrimónio: Não encontrado
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome do esposo: António Roiz
Naturalidade: São Gregório - Arraiolos

10. Nome: Caterina Vidigal
Data de nascimento: Prevê-se década de 1630, não há Assentos
Naturalidade: São Matias - Évora
Filiação: Não há Assentos
Data de matrimónio: Não encontrado
Lugar do matrimónio: Não encontrado
Nome do esposo: Pedro Roiz
Naturalidade: Não encontrado.

Na 9ª e 10 ª gerações não consta o apelido “Mira” mas sim o de “Vidigal”, originando a dúvida sobre, de qual ramo da filiação de Antónia de Mira, surge este apelido! Esta situação levou-nos a investigar se, quando o pai de Antónia de Mira chegou a São Matias, vindo de São Gregório – Arraiolos, já aqui existia o apelido “Mira”  e de facto, logo, no ano de 1643 encontramos Luiza Mira e, a seguir outras pessoas com o mesmo apelido, assim, podemos concluir que, a Família Mira já existia quando Grácia Vidigal casou com António Roiz que, como referimos veio de São Gregório, estando, então, os “Mira” já ligados aos “Vidigal” que também já aqui os encontramos em grande número no ano de 1642 e decerto muito antes, mas não existem Registos antes de 1641. Tudo indica que Grácia Vidigal foi recuperar o apelido “Mira” para os seus vários filhos, que encontramos nos Assentos Paroquiais de São Matias.
É de salientar que, o padrinho de batismo de Grácia Vidigal foi, Francisco de Mira, casado com Izabel Vidigal.
Desde o início dos registos 1641, existem em São Matias, muitas Famílias com o apelido “Mira” e, talvez ainda mais com o de “Vidigal”.

Os apelidos: Roiz, Friz e Gliz, são: Rodrigues, Fernandes e Gonçalves que vieram de: Rodriguez, Fernandez e Gonçalvez, apelidos judaicos espanhóis, que se encontram nas linhagens de quase todos os alentejanos e beirões.


Resumo histórico/administrativo, das Paróquias envolvidas:

Santo antónio de capelins – alandroal História 

administrativa/biográfica/familiar

A Freguesia, nos séculos XVII, XVIII e até meados do século XIX era designada por Santo António, termo da Vila de Terena.

Posteriormente, aparece nos Registos Paroquiais como Santo António de Capelins, sendo atualmente denominada Capelins.

Pertencem a esta Freguesia as localidades de Ferreira de Capelins e Montes Juntos.

O orago da Freguesia é Santo António.

nossa senhora da Tourega – valverde – évora

História administrativa/biográfica/familiar

A designação mais antiga da Freguesia era Ourega, estando documentada desde o séc. XIII. Mas também é denominada Nossa Senhora da Assunção de Tourega.

A Paróquia, no termo de Évora, era curado da apresentação do Arcebispo daquela Diocese.De 1911 a 1926 esteve anexada à Freguesia da Graça do Divor. Com o Decreto n.º 12509, de 18 de Outubro de 1926, foi desanexada da referida Freguesia e foi-lhe anexada a de São Brás do Regedouro. Pelo Decreto n.º27424, de 31 de Dezembro de 1936, e em resultado da extinção da Freguesia de São Brás do Regedouro, ficou só como Freguesia de Nossa Senhora da Tourega.

O orago é Nossa Senhora da Assunção.

São Matias - évora 

História administrativa/biográfica/familiar

Esta Freguesia já era referenciada em 1555, no livro de Batismos da Sé de Évora.

A antiga Freguesia de São Matias, no termo de Évora, era curado da apresentação do Arcebispado da Diocese.

Após 1911, a Freguesia foi anexada à da Graça do Divor. 

Em 8 de Dezembro de 1966 foi transferida a sede de Freguesia para a igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, com o título de Paróquia. Todo o seu território ficou integrado na Freguesia de Nossa Senhora da Guadalupe, criada pelo Decreto-Lei n.º 128/85 de 4 de Outubro.

O orago é São Matias.

Fim 


 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

400 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do contrabandista de Capelins de Cima e a rocha do medo no Carrão
O ti Manoel Ramos era contrabandista e morava em Capelins de Cima, numa noite do mês de Março do ano de 1890, pelas 22 horas, carregou às costas, a carga de 30 quilogramas de produtos para entregar no outro lado da fronteira junto à Ribeira de Tálega, foi pelo Monte do Meio, poço da estrada e desceu o Ribeiro do Carrão pensando ir até perto da foz e dali já estaria perto do lugar, ao fundo da horta do Pisco, combinado com o moleiro do moinho das Azenhas D’El-Rei que o passaria com mais dois contrabandistas no seu barco, para o outro lado do rio Guadiana, porém, quando chegou em frente ao Monte da Zorra ouviu vozes e, temendo serem os guardas fiscais, pensou em os contornar, subiu pelo alto do Carrão e desceu quase em linha reta em direção ao Pombal! Entre esse percurso fica a rocha do medo e, quando o ti Manoel chegou a esse lugar sentiu vontade de ir à casa de banho, mas com a carga às costas não era fácil e, para pousar a carga no chão e, depois carrega-la novamente, também não! Então, o ti Manoel lembrou-se de uma solução, apoiar-se na dita rocha e assim não era preciso descarregar a carga! Quando se preparava para o efeito, ouviu uma voz aterradora, parecia vir do interior da rocha a dizer: “Vai-te andando daqui”! O ti Manoel ficou paralisado, mas assim que se orientou, começou a correr, passou por detrás do Monte do Pombal e, de cabeça perdida, passou pelo moleiro que estava perto do barco a comer uma bucha, esperando pela chegada dos três contrabandistas, mas o ti Manoel nem parou! O moleiro começou a correr atrás dele chamando-o, sem perceber o que se passava, ainda pensou que fosse a guarda fiscal que viesse atrás dele, mas não viu ninguém e, já junto ao moinho deitou-lhe a mão e não o deixou correr mais! O ti Manoel caiu de joelhos e durante uns dez minutos não foi capaz de dizer uma palavra, tremia todo, por fim, depois de muita insistência do moleiro lá começaram a falar:
Moleiro: Oh ti Manoel, nunca na minha vida tinha assistido a uma coisa destas! Vocemecê ia doido! O que lhe passou pela cabeça para ir nessa correria? Não vinha ninguém atrás, diga-me lá o que se passou homem?
Ti Manoel: O que se passou, nem sei bem! Só lhe digo que apanhei o maior susto da minha vida!
Moleiro: Mas que susto? Conte-me lá, foi a guarda fiscal, não?
Ti Manoel: Qual guarda fiscal! Antes fosse, antes fosse, nada disso!
Moleiro: Mas se não foi a guarda fiscal, o que foi homem?
Ti Manoel: Não sei, não sei o que foi, mas sei que foi uma coisa do outro mundo!
Moleiro: Uma coisa do outro mundo? Vocemecê não diz coisa com coisa! Diga-me lá de uma vez, o que viu do outro mundo, algum vulto!
Ti Manoel: Eu não vi nada, nada, mas ouvi uma voz medonha que só podia vir do outro mundo!
Moleiro: É o que eu digo! Vocemecê endoideceu, foi o que foi! Como é que sabe que essa voz vinha do outro mundo?
Ti Manoel: Ora, porque sei! Ouvi muito bem a rocha do medo a falar e a tremer, como se fosse um tremor de terra!
Moleiro: Essa agora! Mas se vocemecê nunca teve medo de nada, como é que apanhou um susto tão grande só por a rocha tremer?
Ti Manoel: Por a rocha tremer e falar! Nunca tive medo de nada neste mundo, mas como já lhe disse, aquilo não foi coisa deste mundo!
Moleiro: Acredito! Para vocemecê ter tanto medo, teve que ser uma coisa muito medonha!
Ti Manoel: Só eu sei, só eu sei! Bem, vamos lá que já estou melhor, já quase me passou o susto!
Quando chegaram, já lá estavam os dois companheiros, eram eles que iam à sua frente ao lado do Ribeiro do Carrão na Zorra, quando ele ouviu as vozes e pensou que era a guarda fiscal! Entraram no barco e seguiram até à margem esquerda do rio Guadiana, mas o ti Manoel não disse uma palavra! Fizeram a viagem e, pelas cinco horas estavam de volta, acenderam uns fósforos como sinal e, o moleiro não demorou em os recolher para o lado de cá da fronteira! O ti Manoel despediu-se dos companheiros com poucas palavras e seguiu para Capelins de Cima, quando chegou, meteu-se na cama e só de lá saiu ao fim de três dias, o homem esteve mal!
O ti Manoel teve de voltar à sua vida de contrabandista mas, até ao fim da sua vida, nunca mais se aproximou da rocha do medo.
Fim



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

399 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins 

Montejuntos

A lenda da taberneira de Capelins de Baixo, que 

batizava o vinho

De entre as tabernas das terras de Capelins, existia a taberna da ti Maria das Candeias em Capelins de Baixo, herança dos seus pais que sempre dela se governaram, porém  a ti Maria, levada pela ganância, a pensar em ganhar mais, começou a batizar o vinho, ou seja, a misturar água! No princípio adicionava pequenas quantidades que poucos fregueses conseguiam notar, mas ao ver que era um bom negócio, vender água do seu poço ao preçodo vinho, aos poucos foi aumentando a quantidade, ao ponto da maioria dos clientes notarem e de a chamarem à atenção! A ti Maria negava sempre, desafiava-os a provarem que era ela quem adulterava o vinho, fazia grande escândalo e dizia que eles não percebiam nada de vinho ou que o vinho estava aberto porque o ano tinha sido muito chuvoso e a uva tinha apanhado muita água! Alguns, ainda a enfrentavam dizendo que o vinho das outras taberneiras vinha do mesmo sítio onde tinha chovido muito e não era aguado! A ti Maria zangava-se e enxotava-os para a rua com uma vassoura, mas como era muito brejeira e sabia cativar os homens, não demorava nada e já lá estavam a beber vinho com água e novamente a reclamar! O ti Manoel António que era sapateiro umas portas acima, também gostava de lá ir beber um copinho e a olhar para a ti Maria, mas todos os dias a chamava a atenção:
Ti Manoel: Oh Maria, isto não é nada, o vinho está aguado, isto é água com umas gotas de vinho! Um dia sais-te mal!
Ti Maria: Antes de me acusares de uma coisa dessas, tens de provar que eu meto água no vinho! Senão deixa-te estar calado!
Ti Manoel: Olha que eu um dia vou provar e sabes que vais perder muito com isso! Vai ser uma vergonha!
Ti Maria: Então prova! Já que és tão esperto, prova!
O ti Manoel sapateiro dava voltas à cabeça, na tentativa de encontrar uma maneira de desmascarar a ti Maria, todos sabiam que ela metia água no vinho, mas ela negava e ninguém tinha provas do contrário! O ti Manoel entrava na taberna e olhava para todos os pormenores na esperança de encontrar alguma ajuda, colocava-se no topo do balcão de onde podia ver as manobras da ti Maria, assim como os objetos que estavam atrás do mesmo e verificou que ela tinha uma cantarinha de barro mesmo ao lado dos jarros do vinho de onde enchia os copos, logo pensou que era ali que estava a água que ela adicionava ao vinho! O ti Manoel queria apanhar a ti Maria e quando estava na taberna, disfarçadamente, não tirava os olhos da “cantarinha de barro” até que, teve a certeza que era dela que saía a água para o vinho, mas como o podia provar? Passou, muitas horas sem dormir, até que se lembrou como o fazer, só precisava de uma oportunidade para chegar à cantarinha sem ser visto! Observou qual a melhor hora do dia para ir à taberna sem outros clientes à vista e que a ti Maria lhe aviasse o copo de vinho e fosse lá para dentro fazer alguma coisa que a prendesse alguns minutos, foi estudando o caso e viu que a melhor hora era antes do jantar (almoço), quase nunca aparecia ninguém e a ti Maria ia dar volta e temperar as sopas! Assim, um dia encheu os bolsos de sal e foi á taberna, ocupou o mesmo lugar no balcão e pediu um copo de vinho, a ti Maria encheu o copo e como estava só ele a beber o vinho muito devagar, ela viu que era para demorar e disse-lhe: Olha Manoel deixa-te estar que eu vou temperar as sopas não me demoro nada! Oh Maria, vai lá com vagar que eu fico aqui até voltares, disse o ti Manoel! Logo que a ti Maria virou costas o ti Manoel correu à cantarinha e despejou para lá o sal, abanou-a e meteu lá dentro uma pequena tábua para desfazer o sal, limpou tudo bem e foi para o mesmo sítio, a ti maria voltou ele pagou e foi-se embora doido de contente! À noitinha o ti Manoel e outros fregueses chegaram à taberna, mandaram encher os copos e começaram a beber, mas logo a fazer caretas e a dizerem: Mas que raio tem o vinho? Isto não é vinho, é veneno, ela quer matar-nos, isto é sal, já não bastava a água, agora meteu sal no vinho, vamos chamar a Guarda que ela é presa! Armou-se grande confusão, até que a ti Maria já em grande pranto e vendo o caso muito sério, confessou que metia água no vinho, mas jurou por tudo que o sal não tinha sido ela, para não chamarem a Guarda, ela ia já buscar outro vinho e, nem pagavam e mais isto e mais aquilo! Começaram a beber um bom vinho, à conta da ti Maria e, tudo ficou por ali!
Ficou provado que a ti Maria das Candeias batizava o vinho e, a sua ganância levou-a longe de mais! A partir daquele dia passou a ser alvo de chacota por quase todos os fregueses e tinha de ficar calada, porque estava provada a fraude! Um dia ainda disse ao sapateiro: “Malandro, foste tu, que puseste o sal no vinho, o sapateiro negou e só lhe disse: “Então prova”!
A ti Maria começou a vender o vinho puro, como o comprava, mas ouvia sempre a gracinha: “Será que não está batizado?”
É caso para dizer: “A mulher/homem cobre e Deus descobre”.

Fim  



domingo, 11 de fevereiro de 2018

398 - Terras de Capelins 
História da vida de gentes de Capelins 
Quando alguns capelinenses com o mesmo apelido de outros, pensam, nada ter a ver uma família com a outra, concluímos que são muito raros os que têm razão! De verdade a separação das famílias pode ter-se dado há 4/5/6 gerações e obviamente, já se perderam os laços familiares! Também acontece, saber que um determinado familiar veio de uma localidade diferente da primitiva origem dessa família, mas não podemos esquecer que cada casal tinha 6/8/10 e mais filhos e alguns casavam em Terena, Santiago Maior, Rosário, ou noutra terras e anos mais tarde os seus descendentes voltavam às terras de Capelins, tinham o mesmo apelido dos que já cá estavam e, possivelmente nem se apercebiam que a sua origem era a mesma!

Veja-se como a Família Rocha (inicialmente Roxa) se implementou em Ferreira de Capelins, Montejuntos, Cabeça de Carneiro, Santiago Maior e outras localidades! 
Em 26 de Abril de 1738 nasceu António da Rocha, em São Pedro do Corval, filho de Domingos Antunes e de Natália Marques, que pensamos terem nascido entre 1710/15 com ligação a Santo António do Baldio (brevemente vamos continuar o ramo)! 
António da Rocha casou com Antónia Maria, também de São Pedro do Corval e foram residir para Santiago Maior (Aldeia da Venda) e, logo aí começaram a nascer os filhos/as, encontramos 2/3 mas devem ser mais! Poucos anos depois já se encontram a residir na Freguesia de Capelins, onde continuaram a nascer filhos/as, 1 filho/a em cada 2/3 anos! Assim, uns filhos eram naturais de S. Tiago de Terena e outros de Santo António de Terena (Capelins)! Os filhos/as de António da Rocha e de Antónia Maria começaram a casar muito antes de 1800, (veja-se as gerações que daí vêem), com filhos/as de outras famílias, por exemplo a Izabel Maria Rocha que nasceu em Santiago Maior em 5 de Janeiro de 1770 casou com Francisco Jozé Valente (Família Valente), mas como nesse tempo, geralmente era o apelido da mãe que passava para os filhos/as, logo todos os seus filhos/as ficaram com o apelido Rocha, como o Francisco José Rocha, cujos descendentes não deixaram mais esse apelido! 
É fácil imaginar como foi a multiplicação dos apelidos, neste caso, em cerca de 300 anos, uma vez que, os pais de António da Rocha nasceram há mais de 300 anos! 
Neste contexto, António da Rocha de São Pedro do Corval foi o povoador da família Rocha, por todas as localidades já referidas e decerto muitas outras. 
(Continuamos a seguir este ramo)

A Família Rocha vem de São Pedro do Corval para Capelins na década de 1770, via Santiago Maior! 


sábado, 10 de fevereiro de 2018


397 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

A Família Capelinense

É verdade, somos todos família, desde Santiago Maior, Monsaraz, S. Pedro do Corval, Capelins, Rosário, quase todos os capelinenses daí descendemos! Também sou Moreira, vindo do Clemente Antunes Moreira (nascido em 1735) em Vila Viçosa e de Francisca Bernarda, de Assumar - Monforte! Já investiguei a origem de quase todas as famílias capelinenses desde antes de 1600 e, vieram de diversos lugares de Portugal e de Espanha, o povoamento destas terras feito a partir de 1314 foi à custa de refugiados na Vila Defesa de Ferreira, que se fixaram no Lugar de Ferreira junto à atual Ermida de Nossa Senhora das Neves e, já em alguns Montes, depois de 1500 vieram os Cristãos novos de origem judaica! A partir de 1700 já com a Casa do Infantado (desde 1698) chegaram muitos povoadores através da transumância, da Serra da Estrela - Seia - Guarda e por cá ficaram, dos quais, também sabemos quem são as respetivas famílias! Após a extinção da Casa do Infantado, que detinha a herdade da Defesa de Ferreira e a herdade da Defesa de Bobadela, senão quase toda a Vila de Ferreira, hoje Freguesia de Capelins, a coroa procedeu à venda destas terras divididas em pequenas herdades e courelas e, vieram novos povoadores das terras mais próximas e de Espanha, com maior concentração na área de Montes Juntos. A riqueza destas terras era a agro pecuária, existindo em simultâneo alguma industria, ainda artesanal, sendo a mais relevante o fabrico de queijos, farinha, carvão, telhas e tijolos. 




sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

396 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -

Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A lenda do contrabandista de Capelins que, enganou os 

Guardas Barreiras

Nas terras de Capelins existiu sempre a atividade de contrabando desde a fixação da fronteira com a vizinha Espanha, por isso, foi aqui colocado um grupo de segurança da fronteira, os Guardas Barreiras, que antecederam a Guarda Fiscal criada em 17 de Setembro de 1885, porém, nunca conseguiram evitar o contrabando, verificando-se muitas vezes o jogo do gato e do rato, com estratégias incríveis na tentativa de se enganarem mutuamente, deixando, assim, em memória muitas peripécias, já lendas, devido aos feitos arriscados, quase heroicos, praticados por homens que trilharam estes caminhos para ganhar a vida!
Esta lenda, é sobre um contrabandista que morava em Capelins de Baixo, chamado António Borralho, que passou quase toda a sua vida a praticar essa atividade, sem nunca ser apanhado e, sem os guardas barreiras conseguirem saber o que ele transportava entre fronteiras!
Nas terras de Capelins, todos sabiam qual era o trabalho do ti António, mas não sabiam que produtos movimentava, porque não viam nada! Os guardas andavam intrigados e pressionados pelo comandante para desvendarem o mistério, o ti António andava debaixo de olho e, sempre a ser fiscalizado, mas nunca encontravam nada ilegal! Quase todos os dias saía de Capelins de Baixo para o rio Guadiana, pescava, ceifava junco ou junça, cortava piorno ou gestia, apanhava lenha, comprava farinha aos moleiros que legalizava sempre e voltava! No caminho lá estavam os guardas barreiras, davam volta a tudo e não encontravam nada! Isto passou-se durante vários anos até que o ti António, já idoso deixou o contrabando, mas ficou cheio de dinheiro, comprou seis courelas para os filhos, uma para cada um e, ainda ficou com grande folga económica!
Um dia, estava sentado ao sol em companhia de um seu compadre já aposentado da guarda barreiras, o ti Manoel António e, em conversa, este perguntou-lhe:
Ti Manoel: Oh compadre António, como é que tu com uma vida tão fraca que aí tinhas, conseguiste comprar seis courelas?
Ti António: Qual vida? Não estou a perceber!
Ti Manoel: A vida que tu tinhas, compravas e vendias uma cabra ou outra, alguma farinha, junça e buinho, como é que isso deu para tanto?
Ti António: Mas quem te disse, que eu comprei as courelas com o dinheiro que ganhei nisso? Isso era para disfarçar!
Ti Manoel: Para disfarçar? Não me digas que foi com o contrabando, como por aí dizem! Podes contar-me, porque eu já não quero saber nada disso!
Ti António: Foi com o contrabando, foi!
Ti Manoel: Olha que custa-me acreditar, mas se tu dizes, é porque é verdade! Então, e como é que nos enganaste estes anos todos? Como sabes, estivemos sempre com o olho em ti e nunca conseguimos apanhar-te! O que era o contrabando?
Ti António: Para te falar a verdade nunca transportei nada, o meu contrabando transportava-se a ele próprio!
Ti Manoel: Eh compadre, assim não percebo nada! Como é que o seu contrabando se transportava a ele próprio? E como é que nós não o víamos?
Ti António: Oh compadre, vocês viam-no e bem visto, mexiam-lhe e depois mandavam-me embora!
Ti Manoel: Nessa não acredito! Estás a brincar comigo?
Ti António: Não estou a brincar, não! Já te conto, e logo vês se não é verdade!
Ti Manoel: Então, conta lá! Uma coisa dessas tem muito que contar!
Ti António: Oh compadre, o meu contrabando foi sempre de burros, havia muita procura em Espanha, todos os que eu levasse não chegavam para as encomendas, muitas vezes ganhava o dobro do que pagava na compra!  
Ti Manoel: Essa está boa! Como é que fazias isso e nós não dávamos por nada?
Ti António: Trazia os burros, um ou dois, durante a noite, de Vila Viçosa onde tinha o fornecedor, ali para ao cabanão, onde não entrava ninguém e depois daqui até à fronteira levava só um, atado ao meu e umas vezes deixava-o logo lá, ou se desconfiava que vocês estava a seguir-me trazia-o para trás com farinha legalizada ou outras coisas lá do rio, mas a seguir voltava logo e deixava lá o burro, como tinha muita papelada no posto onde umas vezes dizia que era um burro, outras vezes dois, dava para os baralhar, nunca me perguntaram quantos burros estavam nos papéis porque vocês só pensavam em mercadorias e nem queriam saber de mais nada!
Ti Manoel: Sim senhor, compadre, bem enganados! É verdade, que pensámos sempre que trazias ou levavas mercadorias, nem reparávamos nos burros!
Ti António: Foi assim a minha vida compadre, arranjei muito dinheirinho, mas sofri muito e, nem imaginas o que passei e pensei para os enganar e chegar onde cheguei!

É caso para dizer: Ás vezes, o que está à vista, é o mais difícil de ver!

Fim 



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

395 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -

Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda da ti Margarida e da rocha do medo, no Carrão

Desde sempre, ouviram-se lendas sobre medos que apareciam nas terras de Capelins! Este caso, passou-se com a ti Margarida de Jesus junto à rocha do medo, que se situa no caminho entre Montejuntos e o Monte do Roncão, ou seja, no Carrão antes do Ribeiro desse nome! Nesse tempo, passavam por aqui muitas pessoas, de noite e de dia, a caminho dos diversos Montes das herdades da região e do rio Guadiana e, parece que aconteceram muitos casos semelhantes ao da ti Margarida, mulher que era do ti Manoel Guerra, moleiro no Moinho das Azenhas D’ El-Rei, com casa em Capelins de Baixo!
A ti Margarida passava grande parte do ano em companhia do marido e dos filhos no dito Moinho, mas como tinham os pais na Aldeia e já não andavam bem, sempre que podia, levava alguma farinha à cabeça para deixar à mãe e, depois de fazer a ceia e cear (jantar), depois de tudo arrumado, partia para dormi lá e fazer-lhe companhia, mas quando saía dali já era noite dentro, porque o ti Manoel nunca tinha pressa em cear! Uma noite, a ti Margarida, para chegar mais depressa, subiu o alto das Azenhas D´El-Rei, pela Fonte da Lesma, depois por um caminho ao lado Ribeiro e virou para o Carrão para seguir pelas Bispas, Calados e Capelins de Baixo! A ti Margarida, poucas vezes fazia esse percurso, mas naquela noite deu-lhe para ir por ali, porque não se lembrou que tinha de passar junto à rocha do medo, mas também não tinha medo de nada, porque fazia-se acompanhar de um rosário que levava sempre nas  mãos e passava grande parte da viagem a rezar o terço, porém, quando passava junto à dita rocha, sem perceber o que se passou, deixou cair o rosário das mãos, como levava a farinha à cabeça era difícil baixar-se, mas teve de ser e, na escuridão começou a apalpar o chão para o apanhar, mas não o encontrava, estava naquela azáfama quando ouviu uma voz rouca, parecia vir das profundezas dizer: “ Baixa mais a mão que o apanhas”! A ti Margarida mesmo sem ver, devido ao susto, arremessou a mão pelo chão e ficou com o rosário na mão, começou a correr pela chapada do Carrão, até não poder mais, já muito cansada chegou às Bispas e, continuou o resto do caminho a passo, quando deu por si, já estava em Capelins de Baixo!  Descansou um pouco, e contou logo aos pais e aos vizinhos o que se tinha passado, mas ninguém acreditou nela, muito menos que a vós fosse da própria rocha! Agora as rochas já falam! Exclamou o pai! Uns diziam que tinha sido alguém que estava por ali e viu onde caiu o rosário! Outros, diziam que tinha sido tudo maquinado na cabeça da ti Margarida, a qual, estava já tão confusa que não tinha a certeza de nada, mas naquela noite pouco dormiu a pensar no caso! No dia seguinte, voltou ao Moinho das Azenhas D’ El-Rei, mas já não foi por aquele caminho! Quando chegou, contou a sua versão ao marido, mas ele não acreditou nela e ainda a enxovalhou dizendo que era tudo da cabeça dela e que tivesse juízo! A ti Margarida teve de ficar calada, porque já nem sabia se teria sonhado com o sucedido mas, por sim, por não, nunca mais passou, nem de noite nem de dia, junto à rocha do medo no Carrão.

Fim    


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