388 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
Peripécias das terras de Capelins
A lenda do jantar de grilos fritos
O Manoel Maria morava em Capelins
de Cima e, era filho do ti Miguel da Rosa, um seareiro que tinha algumas
courelas de sua propriedade, mas também semeava outras ao quarto, ou seja,
depois da ceifa do trigo, aveia ou cevada, o dono das courelas dirigia-se às
mesmas e, em cada quatro molhos de cereal recolhia um para ele! Uma dessas
courelas era na herdade do Terraço, da casa Camões, que tinha essa herdade
dividida em três folhas, estando uma de alqueve, em descanso, outra semeada de
trigo e outra de aveia. Cada uma dessas folhas era composta por 10/12 courelas
que, eram dispensadas a seareiros das terras de Capelins.
Na segunda-feira dia 23 de Março
de 1964, iniciaram-se as férias escolares da Páscoa, há tanto tempo esperadas
e, o Manoel, pelas 8 horas da manhã foi com o pai, na carroça, a caminho da courela
do Terraço que, nesse ano era junto à herdade do Seixo! Assim que chegou, por
ali andou a averiguar o que havia para ver e avistou não muito longe um
seareiro a lavrar com a sua mula, foi-se aproximando e logo o reconheceu, era o
seu vizinho o ti Elias!
Manoel: Olá ti Elias! Então o que
anda a fazer?
Ti Elias: Olá Manoel! Ando a
lavrar, não vês?
Manoel: Que anda a lavrar sei eu!
Ti Elias: Então, se sabes, para
que estás a perguntar?
Manoel: Para saber, não?
Ti Elias: Para saberes, o que já
sabias, isso já é saber a mais! Então, hoje vieste com o teu pai?
Manoel: Pois! Se estou aqui é
porque vim, não?
Ti Elias: Então, já conhecias
aqui o Terraço?
Manoel: Ainda não! Mas já estou a
ver que há aqui pouco para conhecer!
Ti Elias: Podes ir conhecer além o
Monte do Seixo, está a cair, mas foi um grande Monte, ainda podes ver como era!
Manoel: Eu tenho medo de ir para
além, sei lá quem é que lá morou, no fim ainda lá me aparece alguém que já
morreu, não, não, além é que eu não vou!
Ti Elias: Olha, vai ali àquele
altinho, já perto das Areias, que ainda podes ver uns restos de paredes de uma
casa dos romanos!
Manoel: Ainda bem que me disse,
já lá não arrumo!
Ti Elias: Mas porquê? Não
encontras lá ninguém, moraram aí, há mais de 1000 anos!
Manoel: Não, não, e se ainda lá
anda algum bicho desses?
Ti Elias: Não eram bichos que lá
moravam, eram pessoas como nós!
Manoel: Ah eram? E para onde
abalaram?
Ti Elias: Para a terra deles!
Outros morreram em guerras! Desapareceram daqui!
Manoel: Sei lá se desapareceram!
Eu é que não vou para esse lado! Vou mas é ver do meu pai que já devem ser
horas de jantar (almoçar)!
Ti Elias: Horas de jantar? Só se
for da bucha, são agora umas dez horas, até ao meio dia ainda tens muito que
esperar e eu ainda tenho de lavrar até àquele chaparro!
Manoel: Eh ti Elias! Só janta quando
chegar àquele chaparro? Eu morria de fome! Então o que trouxe para o jantar?
Ti Elias: Olha! Hoje são grilos
fritos!
Manoel: Eh lá, ti Elias! Então
isso come-se?
Ti Elias: Claro que come! Não me
digas que nunca comeste?
Manoel: Como é que havia de
comer, se os grilos não se comem!
Ti Elias: Já te disse! São o meu
jantar hoje, se não acreditas logo estás aqui que eu dou-te a provar!
Manoel: Eu provar não quero! Mas
gostava de ver!
Ti Elias: Então, logo ao meio dia
aparece aqui!
Manoel: Está bem! Vou ver do meu
pai!
O Manoel foi ter com o pai, que
já estranhava a sua ausência, explicou-lhe onde tinha andado e continuou a
conversa:
Manoel: Oh pai! Ainda demoramos
muito em jantar?
Pai: Então porquê? Já tens fome?
Ainda nem são 11 horas! Jantamos ao meio dia!
Manoel: Já tenho fome, já! Mas
não é só por isso!
Pai: Então, é o porquê?
Manoel: É que ao meio dia, já
tenho de estar despachado do jantar, porque a essa hora tenho de estar à do ti
Elias para ver uma coisa que ele hoje trouxe para o jantar!
Pai: O que é essa coisa que o ti
Elias trouxe para jantar e que tu tens que ver?
Manoel: São grilos fritos!
Pai: Qual grilos fritos! Alguém
come grilos fritos! Foi ele a brincar contigo!
Manoel: Não foi não! Ele falou
muito a sério! Veja lá que até me quer dar a provar!
Pai: Já és muito grande para
seres tão parvo! Ninguém come grilos fritos!
O Manoel por ali andou cheio de
ansiedade para se despachar do jantar (almoço) e ir assistir ao pitéu dos
grilos fritos do ti Elias, mas foi uma eternidade até o pai parar de lavrar e,
por fim, lá foram jantar! Assim que acabaram de comer, o Manoel levantou-se de
cima do saco de serapilheira onde estava sentado e foi a correr até onde andava
o ti Elias!
Manoel: Então?
Ti Elias: Então o quê?
Manoel: Já jantou?
Ti Elias: Já! Havia de estar à
espera de quê?
Manoel: Olha para isto! Não foi
capaz de esperar!
Ti Elias: Mas de esperar o quê?
Manoel: Que eu viesse, não?
Ti Elias. Então, era para
jantares comigo?
Manoel: Não era, não! Mas não
tínhamos combinado de eu ver os grilos fritos?
Ti Elias: Mas foste tu que
faltaste! Ainda esperei, mas não aparecias, não pude esperar mais!
Manoel: Então, e não sobrou nada?
Ti Elias: Sobraram umas rodelas
de farinheira frita e um bocado de toucinho!
Manoel: Não é isso! Dos grilos
fritos!
Ti Elias: Nem um sequer! E mais
que fossem!
Manoel: Esta agora! E quando é
que trás outra vez os grilos fritos?
Ti Elias: Ah, agora não sei! Nem
tenho tempo para ir a eles! Vê lá tu, se me arranjas por aí alguns!
Manoel: Eu até arranjava, mas nunca
consigo apanhar mais de quatro ou cinco, mas deixe estar que eu não me esqueço
de si! Bem! Sendo assim, vou por aí a ver o que há de novo! Até logo!
Ti Elias: Até logo Manoel!
O Manoel desamparou o ti Elias e,
por ali andou a passar o tempo, até chegar a hora de voltarem para casa!
A conversa dos grilos fritos do jantar
do ti Elias perdurou muito tempo nas terras de Capelins e, principalmente na
escola primária de Ferreira! Muita gente ficou na dúvida se era ou não verdade
que o ti Elias comia os grilos fritos!
Bem haja ti Elias!
Terraço