393 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins
- Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da iniciação do Zé
Miguel nas tabernas de
Capelins
As tabernas de Capelins
eram lugares de cultura, onde se reuniam, nas tardes de Domingo, os mais ou
menos iluminados, os mais ou menos apreciadores de vinho e aguardente ou, os
amantes das duas situações! Era nas tabernas entre uns copinhos de vinho e
aguardente que se sabiam as novidades do Reino de Portugal, os devaneios da
Corte e, cada um que tinha engenho e arte apresentava os seus versos e cantigas
que tinha pensado ao longo da semana anterior, como também, se ouviam e
aplaudiam cantigas repentinas ao despique que algumas vezes acabavam em socos e
pontapés, sem grandes consequências! Do elenco faziam parte cantores ouvintes
atentos que decoravam tudo, encarregando-se de as difundir pelas terras de
Capelins e arredores durante a semana seguinte!
Em Ferreira de Capelins,
herdeira de Capelins de Baixo e Capelins de Cima, existiram sempre muitas
tabernas, umas mais antigas, outras mais famosa, para todos os gostos, embora vendessem
todas os mesmos produtos. No caso, da lenda que passamos a descrever, a mesma, envolve
um rapaz chamado Zé Miguel que morava no Monte do Roncão e, duas tabernas de
Capelins de Cima!
Antigamente, os
povoadores das terras de Capelins moravam na sua maioria nos Montes das
respetivas herdades onde trabalhavam, fosse na agricultura em geral, guardadores
e tratadores do gado, ovelhas, vacas, porcos, cabras, perus e outros,
envolvendo dezenas ou centenas de trabalhadores, que viviam em pequenas casas, choças,
cabanões, malhadas e cabanas, com toda a família! Era esse o caso do Zé Miguel
que estava quase a fazer 18 anos e já andava nos trabalhos agrícolas com os “homens”,
logo, também já tinha direito a participar nas conversas entre eles, mas
existia um problema, a maioria dessas conversas eram sobre o que se tinha
passado nas tabernas de Capelins e, como o Zé Miguel ainda não tinha permissão
dos pais para as frequentar, ficava sempre de parte o que lhe causava grande
constrangimento! Assim, começou a pensar que essa situação não podia continuar!
Então, se acompanhava os homens no trabalho, também estava no tempo de os
acompanhar nas tabernas, nos Domingos à tarde e, naquela mesma semana, com
muita serenidade, apresentou a sua sugestão aos pais!
Zé Miguel: Pai, eu
gostava de ir às tabernas com os homens, com os meus irmãos, no Domingo à
tarde, porque eles passam a semana a falar das novidades, a dizer versos e a
cantar as cantigas que lá ouvem e eu como não sei nada disso, fico sempre
calado fazendo figura de parvo!
Pai: Mau, Zé Miguel! Não
achas que és muito novo para te ires a meter em tabernas? Deixa lá passar mais
algum tempo, tu ainda nem tens 18 anos, e lá nas tabernas há muitas coisas que
ainda não são para a tua idade!
Zé: Oh pai, deixe-me lá,
vou com os meus irmãos, não me vou perder! Eu gostava tanto de ouvir os
cantadores!
Mãe: Deixa lá ir o rapaz!
Então se vai com os irmãos que mal há nisso? Não anda já a trabalhar como os
outros?
Pai: Este Domingo ainda
não vais! Não prometo, mas talvez para o outro possas ir, e acabou a conversa!
O Zé Miguel, não ficou
nada contente com a decisão do pai, mas o respeito era muito e restou-lhe a
esperança de já poder ir às tabernas no outro Domingo! Foi isso que aconteceu,
no sábado o pai disse-lhe que o deixava ir com os irmãos, mas não era para se
meter na bebida, porque embora não levasse dinheiro, não podia beber nada que
outros lhe pagassem, nem os próprios irmãos e, ficou bem assente, senão nunca
mais lá punha os pés! No Domingo à tarde, lá foi o Zé Miguel com um grupo de
homens para as tabernas mais famosas de Capelins, a do ti Cucha e a do ti
Limpas! O “batismo” do Zé Miguel nas tabernas, deu muito falatório no Monte do Roncão!
Uns diziam: Já está um homem! Ainda ontem aí andava de ranho pendurado! Como o
tempo passa, já o Zé Miguel anda nas tabernas! E ouviam-se outros comentários
semelhantes!
O Zé Miguel passou a
tarde de Domingo nas ditas tabernas em Capelins de Cima e, à noitinha voltou ao
Monte do Roncão, passou o resto da noite muito calado, os pais estranharam e
ainda lhe perguntaram se não tinha gostado! Ele respondeu secamente que sim,
foi bonito e não passou disso!
Na segunda feira, as
pessoas que se cruzavam com ele, faziam-lhe perguntas sobre as novidades, que cantigas
sabia e, se tinha gostado! O Zé Miguel, dizia que sim, mas que não se lembrava
de nenhuma cantiga, tinha ouvido poucas e desviava a conversa, levando algumas
pessoas a desconfiar que alguma coisa não tinha corrido bem, começaram a interroga-lo
cada vez mais, mas ele não adiantava nada, porque, tinha sido uma coisa tão
desejada, como poderia dizer que não gostou? A pressão era muita, mesmo dos
pais e irmãos, até que foi obrigado a dizer a verdade!
Estava um grupo de homens
e mulheres na rua do Monte do Roncão, ele ia passando e perguntaram-lhe: Então,
Zé Miguel, Domingo vais outra vez às tabernas?
Zé Miguel: Não vou, não,
também não posso ir sempre!
Grupo: Espera lá, Zé
Miguel, mas tu pensas que nos enganas? Nós já sabemos que não gostaste de ir,
conta-nos lá o que se passou!
Zé Miguel: Não se passou
nada de mal, só que não era bem aquilo que eu pensava!
Grupo: Então, o que pensavas?
Uma taberna é uma taberna!
Zé Miguel: Sim, eu sei!
Mas digam lá como é que eu havia de gostar? Olhem que eu passei uma tarde
inteira a andar para cima do Limpas, para baixo do Cucha, para cima do Limpas,
para baixo do Cucha! Já lá não me apanham!
Consta que, o Zé Miguel ficou
tão traumatizado, que só voltou a entrar numa taberna, muitos anos mais tarde.
É de salientar que, a taberna dos pais do ti Limpas ficava lá em cima e, a taberna do ti Cucha cá em baixo ao lado do Monte Grande, o Zé Miguel atrás do seu grupo, andaram a tarde toda, para baixo e para cima, de uma para a outra, como a maioria dos homens faziam, bebendo um copo de vinho, ora numa, ora noutra.