segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

387 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -

Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

Mistérios das terras de Capelins

A lenda do lobisomem de Capelins de Cima

Desde sempre, nas terras de Capelins, quando não existia explicação coerente para qualquer acontecimento menos agradável, o mesmo era atribuído à ação das feiticeiras ou de lobisomens! Se adoecia ou morria um porco no chiqueiro de alguém, era obra de feiticeiras, tinham que fazer as respetivas mesinhas! Se morriam as galinhas da ti Maria, toda a gente dizia que tinham sido as feiticeiras e faziam-se mais mesinhas! Se aparecia algum cão sem vida, logo diziam que tinha sido um lobisomem! Tudo isto, era o terror da rapaziada!
Numa noite do mês de Março de 1962, o ti Lourenço, seareiro, chegou a casa e, depois de meter a mula na cabana, deu-lhe a ração, alguma palha, entrou em casa e disse à ti Margarida: “Lava a cara aos gaiatos, que depois da ceia (jantar) vamos falar à minha madrinha, que veio hoje na carreira!
A madrinha do ti Lourenço, tinha emigrado para o sul do Tejo no final dos anos 50, mas gostava muito de voltar a Ferreira de Capelins, passar uns dias de férias com o marido que, era jardineiro nos jardins de Almada!
A conversa continuou entre o ti Lourenço e a ti Margarida!
Ti Margarida: Ah, a tua madrinha está cá?
Ti Lourenço: Está! Disseram-me ali no caminho que veio hoje! Se não estivesse cá como é que lá querias ir?
Ti Margarida: Eu não disse que queria lá ir! Tu é que disseste! Então! Não sabia!
Ti Lourenço: Pronto! Agora já sabes! Põe a mesa para cearmos e depois prepara os gaiatos!
Ti Margarida: Está bem! É preciso grande preparo! Coitadinhos!
 A ti Margarida pôs a mesa, o ti Lourenço começou logo a migar o pão para dentro da tijela de barro e, não demoraram em comer as sopas de grãos, com carne e toucinho!
A ti Margarida lavou a cara dos gaiatos e puseram-se a caminho da casa da madrinha do ti Lourenço, já era noite e quando iam entrar na Rua principal de Capelins de Cima, junto ao Monte Grande, só tiveram tempo de dar um salto para trás, porque a poucos metros deles, passou um homem alto com outro mais baixo às costas, (às cavalitas) a correr com tanta velocidade que parecia um cavalo! Os gaiatos deram um grito, agarraram-se ao pai e em coro gritaram: Um lobisomem! O pai e a mãe tentaram acalmá-los, dizendo que não era nenhum lobisomem, mas também não estavam muito convencidos, porque, mesmo eles, estavam com dúvidas se seria ou não um lobisomem! E agora? Se ele volta! Diziam os gaiatos em pânico! Agente já não vai à da madrinha! Ai, não, não! Os pais lá os foram acalmando e afirmando que não era nenhum lobisomem, que era alguém a brincar! Mas o que viram não tinha explicação, muito menos para crianças! Foram subindo a rua e quando chegaram ao Largo de Capelins de Cima estava um homem a sair da taberna do ti Zé Francisco, com a pouca luz do candeeiro a petróleo o ti Lourenço viu que era um contrabandista muito conhecido, o ti António Marim!
Ti Lourenço: Boa noite ti António! Então houve por aqui alguma coisa esquisita?
Ti António: Boa noite! Eu não dei por nada esquisito! Então porquê?
Ti Lourenço: É que mesmo agora, vinhamos além em baixo e passou um homem muito grande com outro às costas, parecia mesmo um cavalo a galope! Nunca vimos uma coisa assim!
Ti António: Ah, isso! Então não os conheceste?
Ti Lourenço: Eu não! Como é que havia de os conhecer, já escuro e aquela cavalhada!
Ti António: Então! Um, era o teu tio Chico e o outro o Zé do Carrão!
Ti Lourenço: Essa agora! Então e porque é que o Zé do Carrão levava o meu tio às cavalitas e naquela correria?
Ti António: Até parece que não os conheces! Qual deles é o mais teimoso? Estavamos aqui a beber uns copitos de vinho e eles começaram a apostar, o teu tio dizia que a família do Soares era da serra da Estrela para cima e o Zé do Carrão dizia que era da serra da Estrela para baixo, o que perdesse a aposta tinha de levar o outro às cavalitas até casa! Ainda bem que ganhou o teu tio que mora no Monte Meio! E se tem perdido? Tinha que levar o Zé do Carrão às cavalitas até ao Monte! Não se aguentava! Não os conseguimos impedir de apostar! Depois, chegou aqui o Soares e confirmou que a sua família era da serra da Estrela para cima, já sabes o resto do que se passou! A correria era efeito do vinho!
Ti Lourenço: Olhe, também não sabia! Ouvi sempre dizer que os Soares eram do norte, mas pensava que a serra da Estrela era no norte e que já não havia mais nada do norte para cima!
Ti António: Olha! Boa noite e até amanhã! Eu não quero apostar nada! Eu sou do sul, de Castro Marim!
Ti Lourenço: Boa noite ti António! Até amanhã!
Ti Lourenço: Ouviram a conversa do ti António? Não era nenhum lobisomem!
Gaiatos em coro: E se ele estiver a enganar a gente?
Ti Lourenço: Mas qual enganar! Nem enganar! Já ouviram o que se passou, agora acabou a conversa do lobisomem! Ouviram?
Gaiatos: Está bem! Pronto!
Dali, depressa chegaram à casa da madrinha, fizeram os cumprimentos e instalaram-se nas cadeiras de buinho, porque tinham muitas peripécias para ouvir sobre casos cómicos que o padrinho assistia no dia a dia, nos jardins de Almada, o que implicava passar o serão a rir! Conte lá mais uma padrinho! E logo surgia outra! Também foi contado o episódio passado ali na rua na última hora, que originou risos dos mais velhos, mas que deu pouca graça aos gaiatos que, continuavam convencidos ser mesmo um lobisomem!
No dia seguinte, os gaiatos andaram de casa em casa dos vizinhos a contar que tinham visto um lobisomem na noite anterior e, ao mesmo tempo criavam um grande mistério! Os mais novos ficavam apreensivos, mas os mais velhos perguntavam sempre: “E vocês benzeram-se?”
Gaiatos: Não! Não benzemos! Ninguém nos disse que tínhamos que benzer!
Vizinhos: Então, não se benzam, não!
 Os gaiatos passaram aquele dia e os seguintes, a fazer o sinal da cruz, para espantar o lobisomem de Capelins de Cima!
Assim, nasciam os boatos que se transformavam em mistérios, nas terras de Capelins. 




domingo, 7 de janeiro de 2018

386 - Terras de Capelins
História de vidas, das gentes de Capelins
Família Moreira
A Família "Moreira" teve início nas terras de Capelins há mais de 250 anos, com a chegada de Clemente Antunes Moreira cerca de 1760 a Capelins de Cima, onde faleceu com 32 anos de idade em 28 de Julho de 1767! 

Foram vários os "Moreira" que se destacaram, devido aos seus dotes, contribuindo para o bem da comunidade capelinense, com trabalho, arte, ou outras formas de fazer bem! Assim, pretendemos fazer uma singela homenagem, dando a conhecer o percurso familiar ascendente de um dos "Moreira" mais conhecido nas terras de Capelins, e que tem o seu nome numa Rua de Ferreira de Capelins, como reconhecimento da sua dedicação a esta comunidade! Era lavrador do Monte do Roncão e, um dos poetas populares da Freguesia de Capelins, de nome: 
1 - Inácio Moreira Correia, nascido no Monte da Boavista - Montes Juntos no dia 03 de Agosto de 1909, casou no dia 27 de Maio de 1942, com Dª Carmen Dias da Vila de Cheles, foi pai de duas meninas e faleceu no dia 18 de Janeiro de 1977! 
2 - Pais: Era filho de Manuel José Moreira, lavrador, nascido em 09-05-1881 e de Joaquina Mariana Correia, nascida em 17-03-1879, os quais, casaram em 22-10-1906 na Igreja de Santo António de Capelins!
3 - Avós: No seu assento de nascimento consta que, o seu avô era: José Joaquim Moreira, nascido em 02-11-1836 e sua avó era: Vicência Ritta, mas parece não corresponder à realidade, o seu verdadeiro avô era: João Moreira, Pastor, nascido em 25-11-1834 e sua avó era; Bárbara Maria, os quais casaram em 06-08-1860 em Santo António de Capelins! João Moreira, além de outros filhos, teve o filho Manuel José Moreira, muito tarde e, este foi perfilhado pelo seu irmão José Joaquim Moreira, constando já no assento do casamento de Manuel José Moreira, que ele era filho perfilhado de José Joaquim Moreira e não de João Moreira como consta no assento do nascimento em 09-05-1881. (Conclusão: O pai de sr. Inácio Moreira Correia, foi perfilhado pelo tio José Joaquim Moreira)! 
4 - Bisavós: Os seus bisavós acabam por ser os pais dos dois avós, de João Moreira e de José Joaquim Moreira (estes eram irmãos), os avós chamavam-se: Manuel Joaquim Moreira, Seareiro, nascido em 17-02-1799 e Francisca Ignácia, moravam no Monte Real e casaram na Igreja de Santo António de Capelins em 14-03-1831.
5 - Trisavós: Joaquim Antunes Moreira, nascido em 11-02-1766 em Santo António de Capelins, e Eufémia Maria, de Mourão, casaram na Igreja de Santo António em 22-09-1790.
6 - Tetravós: Clemente Antunes Moreira, nascido em 26-01-1735 em Vila Viçosa e Francisca Bernarda Eugénia, na Vila de Assumar.

Como sabemos, é aqui, em Clemente Antunes Moreira e Francisca Bernarda Eugénia que se inicia toda a dinastia "Moreira" nas terras de Capelins! 
Cada "Moreira" anteriormente mencionados tiveram 5/6 e mais filhos que, obviamente vieram dar outras famílias "Moreira", mas facilmente sabemos quem são, no entanto, todas vão dar a Clemente Antunes Moreira! 
Sobre o que aqui descrevemos, temos a respetiva documentação oficial, registos paroquiais! 




sábado, 6 de janeiro de 2018

385 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

A lenda do achado do Pedro em Capelins 

O aparecimento do Pedro, recém nascido, à porta do Sacristão da Igreja de Santo António de Capelins na madrugada do dia 06 de Março de 1836 
Quando se pensava que nada acontecia nas terras de Capelins na década de 1830, eis que surge mais um acontecimento que deu muito que falar! Na madrugada do dia 06 de Março de 1836, alguém deixou um menino recém nascido à porta do Sacristão da Igreja de Santo António de Capelins! Um grande mistério, porque seria o sacristão abençoado com essa dádiva? Toda a gente queria saber quem era a sua mãe, grande trabalho se arranjou, foram dias e dias a passar a pente fino as mulheres das terras de Capelins e arredores, qual tinha a barriga grande e deixou dd ter? Deve ser fulana! Diziam uns! Deve ser beltrana! Diziam outros! E quem seria o pai? Podiam ser tantos!

A criança foi logo batizada nesse dia pelo Pároco António Laurentino Sopa Godinho, não podiam esperar mais tempo, ainda nesse dia veio o senhor Gonzaga de Terena e o senhor Domingos Ramos do Monte do Meio para serem os padrinhos e, o nome teve que ser Pedro, ou em homenagem a São Pedro, ou porque queriam que se soubesse que o pequeno Pedro tinha vindo da Freguesia de São Pedro de Terena! 

Pensamos que, o Pedro foi criado na Igreja de Santo António pelo Pároco António Laurentino e pelo Sacristão e que aqui foi feliz à sua maneira! Talvez, também fosse sacristão!


Diz assim o assento: 
"Em os seis dias de Março de mil oitocentos e trinta e seis annos, nesta Parochial Igreja de Santo António de Capellins termo de Terena Arcebispado de Évora baptizei solenemente e puz os Santos Oleos a Pedro filho de pais incógnitos que apareceu neste mesmo dia à porta do Sacristão: e para constar fiz o prezente e assignei em dia mez e anno ut supra. Forão Padrinhos Luiz Pereira Gonzaga morador em Terena e Domingos Ramos no Monte do Meio de Ferreira. E para constar fiz este termo que assignei em dia mez e anno ut supra.
O Parocho António Laurentino Sopa Godinho"

Sabemos que, o aparecimento do Pedro à porta do Sacristão da Igreja de Santo António, foi num domingo! 

Assento do Pedro



384 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - 
Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do lavrador do Monte da Zorra

No mês de Janeiro do ano de 1697, o lavrador do Monte da Zorra, o ti Manoel Nunes, estava sentado à chaminé, ao lume, acompanhado da mulher e dos filhos, quando bateram três pancadas fortes na porta que, com o susto, os fez dar um salto nas cadeiras de buinho. O lavrador tinha fama de não gostar de dar esmola aos pedintes, era raro dar-lhe uma côdea de pão, dizia sempre que não tinha para ele e, além disso, era mau para os seus criados, um homem pouco cordial para com o próximo! Levantou-se com muita calma e foi abrir a porta, pensando ser algum criado a pedir-lhe alguma coisa, porém, deparou-se com um homem baixo, franzino e todo molhado da cabeça aos pés, porque estava uma noite invernosa com muito vento e aguaceiros! O homem pediu desculpa por estar ali e pediu pelas almas que o deixasse passar a noite num cabanão ou numa almiara de palha e, algum resto de sopas, porque já havia dois dias que não comia quase nada! A mulher e os filhos ouviram a conversa e esperavam que o lavrador o mandasse embora, como fazia sempre, mas foi com grande surpresa que ouviram o lavrador mandá-lo entrar e dizer-lhe para se sentar a um canto da grande chaminé do Monte, para a roupa enxugar! Não perceberam o que passou na cabeça do lavrador! A seguir, pediu à mulher para lhe dar o resto das sopas da ceia (jantar)! A mulher respondeu que não tinham sobrado sopas, mas que podia dar-lhe um naco de pão duro! Antes do lavrador confirmar, o pedinte pediu licença e disse-lhe que não conseguia comer o pão duro e, se o autorizassem ele mesmo fazia uma açorda de alho, porque a água já estava quente ao lume, era só pisar uns poejos, um dente de alho, uma pitada de sal, juntar uma colher de azeite e estaria a açorda feita! A mulher do lavrador, a ti Maria da Zorra esperava que o marido negasse, mas mais uma vez ficou surpreendida, o lavrador disse logo que sim e, o pedinte começou a fazer a açorda debaixo do olhar de toda a família que aproveitaram para fazer perguntas:
Ti Manoel: Então, vossemecê é de onde? E o que anda a fazer para estes lados?
Pedinte: Eu nasci em Montemor, mas tenho passado a minha vida por aí, sou um servo de Deus, passei por aqui, porque ando a ver se existe algum lugar para me instalar, perto do rio Guadiana!
Ti Manoel: Ah sim! Para se instalar como? Para fazer alguma casa para morar?
Pedinte: Não, qualquer abrigo me serve, uma gruta, uma choupana, sou frade eremita, venho para meditar!
Ti Manoel: Olhe, se é para isso, vem para o sítio certo! O pior é a comidinha! Há pouca por aqui, pouca! Não deve cá estar muito tempo! O que há muito, são lobos por aí!
A açorda já estava feita, o frade começou a comer e não respondeu, acabou, migou mais, acabou, migou mais, até haver uma pinga de caldo não parou de migar e de comer! A fome era muita!
Quando acabou de comer, já a mulher do lavrador e os filhos se tinham deitado, agradeceu a ceia e perguntou onde se podia deitar, dirigindo-se na direção da porta da rua! Aqui mesmo, disse o lavrador, acenando para o canto da chaminé! Espere um pouco! O lavrador abriu uma porta que dava para a cabana das mulas e foi buscar um saco de serapilheira com alguma palha para servir de cama e atirou-a para o canto da chaminé! Dorme aí, porque vocemecê ainda está molhado! O frade não queria acreditar no que estava a ouvir, mas o lavrador afastou-se e não lhe deu oportunidade de falar, apenas disse: “Boa noite, Deus o salve, até amanhã” e foi deitar-se!
Na madrugada seguinte, o lavrador levantou-se cedo e já estava o lume a arder e a água quente, mas não havia sinais do frade! O lavrador ficou admirado por ele já ali não se encontrar, olhou e viu um papel escrito em cima do saco da palha ao canto da chaminé! Como não tinha luz suficiente para o ler, guardou-o no bolso e mais tarde com a luz do dia leu: “Deus não se esquece do bem que me fizeste”! O lavrador ficou surpreendido e foi contar à mulher que lhe deu pouca importância! Guardou o papel na gaveta da mesa onde tinha alguns papéis importantes das rendas e continuou a sua vida!
Quando recebiam alguma visita, o lavrador contava sempre o que se tinha passado naquela noite e mostrava o escrito com muito orgulho, estava muito bem escrito! O tempo foi passando e a vida do lavrador da Zorra melhorava de dia para dia! Aumentava o gado, fazia boas colheitas, não tinham doenças, tudo corria bem! O escrito estava bem guardado na gaveta da mesa grande, era um tesouro, um amuleto de fé para o lavrador e sua família, que acreditavam ser ele que lhe proporcionava todo aquele bem, mas o lavrador não mudava a forma do tratamento para com os criados e pedintes que se aproximavam do Monte da Zorra, chegando essa notícia aos ouvidos do frade eremita que, continuava a andar pelas terras de Capelins!
Um dia, o lavrador estava falando com um compadre e a conversa foi ter ao escrito do frade, o compadre disse-lhe que ouvia falar nesse escrito, mas nunca o tinha visto! Oh compadre, não há-de ser por isso, mesmo agora o vou buscar! O lavrador voltou com o escrito e entregou-o ao compadre que começou a ler alto: “Deus já te pagou pelo bem que me fizeste”! Alto lá compadre! Não é isso que o escrito diz! Disse o lavrador!
Compadre: Ora essa! É isso,  é compadre! Eu sei ler!
Ti Manoel: Mostre lá o papel!
O lavrador começou a ler, exatamente as mesmas palavras!
Ti Manoel: Esta agora! Não era isto que o escrito dizia! Sei que não era! Li-o tantas vezes! Não estou a gosta nada disto!
Compadre: Será que alguém lhe roubou o verdadeiro e deixou lá esse!
Ti Manoel: Até podia ser, mas a letra, a letra é mesmo igual!
Compadre: Sim, mas podem tê-la copiado!
Ti Manoel: Uma destas, é que eu não esperava! Oh Maria, anda cá!
A ti Maria veio a correr e o lavrador perguntou-lhe:
Ti Manoel: Oh mulher! Tu não sabes se alguém teria entrado aqui na nossa casa e nos roubou o escrito do frade?
Ti Maria: Oh Manoel, como é que nos roubaram o escrito do frade, se tu o tens aí na mão!
Ti Manoel; Não tenho, não! Este, não é o verdadeiro! Alguém os trocou e este já não diz a mesma coisa do outro!
Ti Maria: Essa agora! O que é que esse diz?
Ti Manoel: Este diz que Deus já me pagou o bem que fiz ao frade! Tu não mostraste o escrito a ninguém?
Ti Maria: Eu não! Só lhe o mostrei a ele no dia da feira de Terena! Ele veio cá pedir esmola e eu disse-lhe que só lhe dava, devido ao bem que temos recebido desde o dia que ele cá tinha deixado o escrito! E vê lá tu que ele disse-me que não se lembrava de ter cá deixado escrito nenhum, então eu fui busca-lo à gaveta e preguei-lhe com ele na frente dos olhos!
Ti Manoel: Ah mulher! Foste tu! E ele meteu-lhe a mão?
Ti Maria: Meteu, mas na minha frente!
Ti Manoel: Já sei o que aconteceu! Ele já trazia este escrito e trocou-os sem tu te aperceberes!
Ti Maria: Eu não tirei os olhos do escrito! Só se foi enquanto eu disse à criada para meter o sal nas sopas!
Ti Manoel: Ah! Pois foi, foi! Então, está explicado! Foi ele que trocou os escritos! Isto quer dizer que acabou a nossa proteção, daqui para a frente estamos por nossa conta! 
Como o lavrador da herdade da Zorra não tinha mudado, continuava a ser mau para os pedintes e para os seus criados, o frade soube que ele estava na feira de Terena a vender e comprar gado, foi ao Monte da Zorra e foi fácil enganar a ti Maria, trocando os escritos!
Devido à falta do amuleto, do escrito, que lhe dava muita força, o lavrador da Zorra ficou afetado psicologicamente e, a partir daquele dia muitas coisas começaram a correr mal na sua vida!  
É caso para dizer: A força de um amuleto, pode mover montanhas. 





383 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

O dia de Reis

Também, o dia de Reis faz parte da identidade cultural das terras de Capelins! Noutros tempos, na noite de Reis 5 de Janeiro, os homens e rapazes organizados em grupos andavam pelos Montes e Aldeias a cantar aos Reis, recebendo em troca alguns produtos regionais, como pão, bolos, queijos, enchidos, ovos e tudo o que lhe quisessem dar! Alguns lavradores apreciavam muito esta tradição, porque os grupos de cantadores dedicavam-lhe sempre um, ou mais versos de elogio que, os orgulhava, ou não, porque depois os versos mais sonantes e interessantes ficavam por muito tempo nas bocas do povo capelinense!

O Dia de Reis, segundo a tradição cristã, seria aquele em que Jesus Cristo recém-nascido recebera a visita de "alguns magos do oriente" que, foram três Reis Magos, e que ocorrera no dia 6 de Janeiro. A noite do dia 5 de Janeiro e madrugada do dia 6 é conhecida como "Noite de Reis". 
A data marca, para os católicos, o dia para a veneração aos Reis Magos, que a tradição surgida no século VIII converteu nos santos Belchior, Gaspar e Baltazar. Nesta data, ainda, encerram-se para os católicos os festejos natalícios - sendo o dia em que são desarmados os presépios e por conseguinte são retirados todos os enfeites natalícios.




quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

382 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da mulher de branco sentada no açude do Moinho das Neves 
O ti Manoel António, morava junto à Igreja de Santo António de Capelins e trabalhava na herdade de Santa Luzia, indo a casa fazer a mudança da roupa e ver a mulher e os filhos aos domingos à tarde, voltando a Santa Luzia logo à noitinha ou na segunda-feira de madrugada! 
Num sábado do mês de Abril de 1890, depois da saída do trabalho, o feitor deu ordens que podiam ir dormir a casa, assim, depois da ceia (jantar) o ti Manoel pôs-se a caminho de casa, como habitualmente, foi passar a Ribeira de Lucefécit por cima do açude do Moinho das Neves! A noite estava escura, mas não era problema para o ti Manoel, que conhecia muito bem todo o terreno que pisava, entrou no açude muito devagarinho, porque não deixava de ser perigoso, podia tropeçar ou escorregar em alguma pedra, foi avançando e quando estava a meio, levantou um pouco os olhos e viu na sua frente uma mulher sentada no açude com as pernas pendentes para a corrente, de cabelos soltos e toda vestida de branco! O ti Manoel assustou-se, sentiu um calafrio e parou imediatamente, sem saber o que fazer, mas não se conteve e gritou bem alto: " O que está a fazer aqui? Posso passar?" A mulher nem se mexeu e respondeu pausadamente: "Quem vai, vai, e quem está, está"! O ti Manoel esteve uns minutos sem reação, por fim decidiu avançar passando por ela a rasar sem lhe tocar, assim que chegou mais à frente começou a ouvir a mó do Moinho a fazer farinha e ficou mais calmo por saber que o moleiro estava por perto! Passou por detrás do Moinho, pôs o pé em terra firme e foi a correr dizer ao moleiro que estava uma mulher vestida de branco sentada no meio do açude! O moleiro ouviu o ti Manoel e no fim disse: "Isso não pode ser"! Tem de haver alguma confusão!" Não há confusão nenhuma! Até falei com ela! Venha lá ver! Disse o ti Manoel! O moleiro andava em ceroulas, vestiu as calças, calçou umas alpargatas e foram os dois, passaram o açude até Santa Luzia, voltaram ao ponto de partida e nada, não viram mulher nenhuma! Está a ver, como lhe disse foi confusão sua! Disse o moleiro! Não foi confusão nenhuma, foi porque ela fugiu ou foi levada pela corrente! Disse o ti Manoel! Olhe, se foi na corrente, logo vai aparecer aí para baixo, eu tenho mais que fazer! Disse o moleiro e entrou para o Moinho! 
O ti Manoel despediu-se e seguiu pelo Vale de enxofre acima, chegando rapidamente a Capelins de Cima, sempre com o cenário na cabeça e falando sozinho! Entrou na taberna, pediu um copo de aguardente e começou logo a contar aos presentes o que tinha acabado de lhe acontecer no açude do Moinho das Neves! Alguns dos presentes já tinham bebido uns copinhos de vinho e de aguardente nem disfarçaram e começaram a dizer baboseiras e a fazer versos, acompanhados de grandes risadas, claramente a fazer pouco do ti Manoel que, ficou muito aborrecido, pagou o copo de aguardente e seguiu para sua casa! O ti Manoel, nunca mais falou daquele assunto com ninguém, no entanto, o mesmo foi motivo de chacota nas terras de Capelins, durante muito tempo! 
Quando o ti Manoel ia chegando ao largo de Capelins de Cima, ainda ouviu os atabernados cantar uma cantiga em coro:  
O ti Manoel diz que viu
Uma noiva na Ribeira
E que teve um calafrio
Era uma feiticeira!
Quanto à mulher de branco, mais ninguém a viu pela Ribeira de Lucefécit, mas toda a gente dizia que, só podia ser obra do Lucifer, senhor desta Ribeira. 

Neves


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

381 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A lenda do Moleiro do Moinho do Bufo

O Moinho do Bufo situava-se na margem direita da Ribeira de Lucefécit, no lugar designado por Torre, a sua construção devia ter sido no século XVIII, aparecendo nos assentos paroquiais da Paróquia de Santo António com o topónimo de Moinho do Escrivão, sendo mais tarde do Bufo, devido ao apelido de um seu rendeiro de Alandroal.
No ano de 1862 este Moinho foi arrendado pelo ti Manoel Zurreta, um bom Moleiro, natural e com casa na vizinha Aldeia da Venda em Santiago Maior, era casado com a ti Margarida de Jesus e pai de cinco filhos, estando apenas dois na sua companhia, os outros três já eram “ajudas” de gado nas redondezas, pela Defesa de Ferreira e Santa Luzia. Esta família, vivia a maior parte da sua vida nas casas de apoio aos Moinhos, enquanto as Ribeiras tinham água suficiente para fazer rodar a mó a cerca de 25 a 30 rotações por minuto e fazer boa farinha, ficavam nos Moinhos situados nos afluentes, mais altos do rio Guadiana, mais perto das localidades e, a salvo das grandes cheias do Guadiana que, podia manter o caudal, submergindo os Moinhos, durante três meses.
O ti Manoel, passava os dias e noites no Moinho, quando precisava de dormir era a mulher  que ficava de vigia e a alimentar a mó, era uma vida de muito trabalho!
Um dia, a ti Margarida decidiu ir visitar a mãe à Aldeia da Venda, como fazia habitualmente, levava um saco de farinha na burra para vender e em troca comprava algumas coisas que lhe faziam falta! Combinou com o ti Manoel e de madrugada carregaram a burra com a farinha, os filhos em cima e pôs-se a caminho, pelo Malhão, Monte do Marco, Terraço, Monte do ti José Agostinho e dali quase em linha reta, até à Aldeia da Venda, onde chegaram logo após o nascer do sol.
O ti Manoel ficou agarrado ao trabalho, a preparar trigo para ser moído, ensacar e pesar farinha para clientes, passou o dia naquela azáfama que chegou à noite sem dar pelo dia passar!
A ti Margarida resolveu a sua vida na Aldeia da Venda e logo de madrugada seguinte voltou ao Moinho do Bufo, mas na volta veio pela Igreja, Capelins de Cima, Chaparral e quando ia passando pelo Monte do Escrivão apareceram algumas mulheres a correr na sua direção a gritar: “Espere aí ti Margarida”!
Ti Margarida: Ai valha-me Deus! Então o que foi? Alguma coisa com o meu homem?
Mulheres: Não sabemos! Então não tem cá estado?
Ti Margarida: Só não estive cá ontem e esta noite, fui lá à Aldeia visitar a minha mãe! Então porquê?
Mulheres: Olhe! Alguma coisa se passou esta noite lá para o Moinho! Toda a noite ouvimos música e gritos estridentes de mulheres! Aquilo, foi um baile que para lá houve, até o barulho da mó a moer a semente acertava com a música! Foi toda a noite: Catapum, catapum, catapum! Uma coisa assustadora!
Ti Margarida: Credo! O meu Manoel é lá homem disso! É um mouro a trabalhar! Não se metia numa coisa dessas! Decerto que não foi lá no Moinho! 
Mulheres: Olhe que não sei! Alguma coisa lá houve!
A ti Margarida despediu-se, continuando o seu caminho! Quando se aproximou do Moinho começou a ouvir a mó a moer em velocidade anormal, catapum, catapum, catapum e nada de sinais do ti Manoel, chamou novamente e nada, estava já assustada, entrou no Moinho, viu logo grandes montanhas de farinha sem estar ensacada, no normal era trabalho de três dias, continuou a chamar pelo ti Manoel e viu-lhe a cabeça fora da montanha da farinha, ressonava e atirava com a farinha ao ar em frente ao nariz, o resto do corpo estava debaixo da farinha! A ti Margarida viu logo que ele estava vivo, encheu o peito de ar e gritou: Manoel! O Moleiro estava a dormir profundamente, mas acordou com o grito, ficando tão assustado que a farinha que estava em cima dele bateu no teto do Moinho do Bufo! O ti Manoel desempoeirou-se e estava só com uma perna das ceroulas enfiada, sem mais nada vestido! A ti Margarida ficou abismada e perguntou-lhe o que se tinha passado ali durante a noite, mas o ti Manoel não conseguia falar, só abanava a cabeça! Depois de passarem alguns minutos, lá foi dizendo à ti Margarida que não sabia o que se tinha passado, não se lembrava de nada, tinha tido um sonho que andava num baile com mulheres nuas e com o Mafarrico a tratar do Moinho, mas isso não tinha passado de um sonho!
Quando se orientaram, foram ambos inspecionar o Moinho e ficaram sem palavras, estava tudo cheio de pegadas de pés descalços de mulheres e dos cascos do Lucifer! Perceberam logo o que se tinha passado, um baile de feiticeiras, pouco mais falaram e o ti Manoel começou a ensacar e a pesar a farinha, quando acabou, disse à ti Margarida que ia a Santo António falar com o Padre Jerónimo de Jesus Maria Granja e a contar-lhe o que ali se tinha passado!
O Padre Jerónimo ouviu o ti Manoel e disse-lhe para todas as noites rezar umas orações e para fazer umas cruzes em volta do Moinho que, ele logo que pudesse ia lá benzer o Moinho e foi logo no dia seguinte, porque o caso era sério e, porque ele também precisava de farinha!  
Os seareiros, conforme estava combinado, foram buscar a sua farinha, mas passados alguns dias, começaram a voltar a pedir mais farinha daquela ao ti Manoel, porque era muito fina, muito boa e fazia um pão que era uma delícia!
Era caso para dizerem: “não era o pão que o diabo amassou”, mas era a farinha que o diabo fabricou!
O ti Manoel e a ti Margarida, continuaram muitos anos pelo Moinho do Bufo, mas nunca mais conseguiram fabricar farinha tão boa. 
O Moinho do Bufo desapareceu! Foi demolido! 

Casa na Torre




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