387 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -
Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
Mistérios
das terras de Capelins
A lenda do lobisomem de Capelins de Cima
Desde sempre, nas terras
de Capelins, quando não existia explicação coerente para qualquer acontecimento
menos agradável, o mesmo era atribuído à ação das feiticeiras ou de lobisomens!
Se adoecia ou morria um porco no chiqueiro de alguém, era obra de feiticeiras,
tinham que fazer as respetivas mesinhas! Se morriam as galinhas da ti Maria,
toda a gente dizia que tinham sido as feiticeiras e faziam-se mais mesinhas! Se
aparecia algum cão sem vida, logo diziam que tinha sido um lobisomem! Tudo isto,
era o terror da rapaziada!
Numa noite do mês de
Março de 1962, o ti Lourenço, seareiro, chegou a casa e, depois de meter a mula
na cabana, deu-lhe a ração, alguma palha, entrou em casa e disse à ti
Margarida: “Lava a cara aos gaiatos, que depois da ceia (jantar) vamos falar à
minha madrinha, que veio hoje na carreira!
A madrinha do ti
Lourenço, tinha emigrado para o sul do Tejo no final dos anos 50, mas gostava
muito de voltar a Ferreira de Capelins, passar uns dias de férias com o marido
que, era jardineiro nos jardins de Almada!
A conversa continuou
entre o ti Lourenço e a ti Margarida!
Ti Margarida: Ah, a tua
madrinha está cá?
Ti Lourenço: Está! Disseram-me
ali no caminho que veio hoje! Se não estivesse cá como é que lá querias ir?
Ti Margarida: Eu não
disse que queria lá ir! Tu é que disseste! Então! Não sabia!
Ti Lourenço: Pronto!
Agora já sabes! Põe a mesa para cearmos e depois prepara os gaiatos!
Ti Margarida: Está bem! É
preciso grande preparo! Coitadinhos!
A ti Margarida pôs a mesa, o ti Lourenço
começou logo a migar o pão para dentro da tijela de barro e, não demoraram em
comer as sopas de grãos, com carne e toucinho!
A ti Margarida lavou a
cara dos gaiatos e puseram-se a caminho da casa da madrinha do ti Lourenço, já era
noite e quando iam entrar na Rua principal de Capelins de Cima, junto ao Monte
Grande, só tiveram tempo de dar um salto para trás, porque a poucos metros deles,
passou um homem alto com outro mais baixo às costas, (às cavalitas) a correr
com tanta velocidade que parecia um cavalo! Os gaiatos deram um grito, agarraram-se
ao pai e em coro gritaram: Um lobisomem! O pai e a mãe tentaram acalmá-los,
dizendo que não era nenhum lobisomem, mas também não estavam muito convencidos,
porque, mesmo eles, estavam com dúvidas se seria ou não um lobisomem! E agora?
Se ele volta! Diziam os gaiatos em pânico! Agente já não vai à da madrinha! Ai,
não, não! Os pais lá os foram acalmando e afirmando que não era nenhum
lobisomem, que era alguém a brincar! Mas o que viram não tinha explicação,
muito menos para crianças! Foram subindo a rua e quando chegaram ao Largo de
Capelins de Cima estava um homem a sair da taberna do ti Zé Francisco, com a
pouca luz do candeeiro a petróleo o ti Lourenço viu que era um contrabandista
muito conhecido, o ti António Marim!
Ti Lourenço: Boa noite ti
António! Então houve por aqui alguma coisa esquisita?
Ti António: Boa noite! Eu
não dei por nada esquisito! Então porquê?
Ti Lourenço: É que mesmo
agora, vinhamos além em baixo e passou um homem muito grande com outro às
costas, parecia mesmo um cavalo a galope! Nunca vimos uma coisa assim!
Ti António: Ah, isso!
Então não os conheceste?
Ti Lourenço: Eu não! Como
é que havia de os conhecer, já escuro e aquela cavalhada!
Ti António: Então! Um,
era o teu tio Chico e o outro o Zé do Carrão!
Ti Lourenço: Essa agora!
Então e porque é que o Zé do Carrão levava o meu tio às cavalitas e naquela
correria?
Ti António: Até parece
que não os conheces! Qual deles é o mais teimoso? Estavamos aqui a beber uns
copitos de vinho e eles começaram a apostar, o teu tio dizia que a família do
Soares era da serra da Estrela para cima e o Zé do Carrão dizia que era da
serra da Estrela para baixo, o que perdesse a aposta tinha de levar o outro às
cavalitas até casa! Ainda bem que ganhou o teu tio que mora no Monte Meio! E se
tem perdido? Tinha que levar o Zé do Carrão às cavalitas até ao Monte! Não se
aguentava! Não os conseguimos impedir de apostar! Depois, chegou aqui o Soares
e confirmou que a sua família era da serra da Estrela para cima, já sabes o
resto do que se passou! A correria era efeito do vinho!
Ti Lourenço: Olhe, também
não sabia! Ouvi sempre dizer que os Soares eram do norte, mas pensava que a
serra da Estrela era no norte e que já não havia mais nada do norte para cima!
Ti António: Olha! Boa
noite e até amanhã! Eu não quero apostar nada! Eu sou do sul, de Castro Marim!
Ti Lourenço: Boa noite ti
António! Até amanhã!
Ti Lourenço: Ouviram a
conversa do ti António? Não era nenhum lobisomem!
Gaiatos em coro: E se ele
estiver a enganar a gente?
Ti Lourenço: Mas qual
enganar! Nem enganar! Já ouviram o que se passou, agora acabou a conversa do
lobisomem! Ouviram?
Gaiatos: Está bem!
Pronto!
Dali, depressa chegaram à
casa da madrinha, fizeram os cumprimentos e instalaram-se nas cadeiras de
buinho, porque tinham muitas peripécias para ouvir sobre casos cómicos que o
padrinho assistia no dia a dia, nos jardins de Almada, o que implicava passar o
serão a rir! Conte lá mais uma padrinho! E logo surgia outra! Também foi contado
o episódio passado ali na rua na última hora, que originou risos dos mais
velhos, mas que deu pouca graça aos gaiatos que, continuavam convencidos ser mesmo
um lobisomem!
No dia seguinte, os
gaiatos andaram de casa em casa dos vizinhos a contar que tinham visto um
lobisomem na noite anterior e, ao mesmo tempo criavam um grande mistério! Os
mais novos ficavam apreensivos, mas os mais velhos perguntavam sempre: “E vocês
benzeram-se?”
Gaiatos: Não! Não
benzemos! Ninguém nos disse que tínhamos que benzer!
Vizinhos: Então, não se
benzam, não!
Os gaiatos passaram aquele dia e os seguintes,
a fazer o sinal da cruz, para espantar o lobisomem de Capelins de Cima!
Assim, nasciam os boatos
que se transformavam em mistérios, nas terras de Capelins.


