quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

382 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da mulher de branco sentada no açude do Moinho das Neves 
O ti Manoel António, morava junto à Igreja de Santo António de Capelins e trabalhava na herdade de Santa Luzia, indo a casa fazer a mudança da roupa e ver a mulher e os filhos aos domingos à tarde, voltando a Santa Luzia logo à noitinha ou na segunda-feira de madrugada! 
Num sábado do mês de Abril de 1890, depois da saída do trabalho, o feitor deu ordens que podiam ir dormir a casa, assim, depois da ceia (jantar) o ti Manoel pôs-se a caminho de casa, como habitualmente, foi passar a Ribeira de Lucefécit por cima do açude do Moinho das Neves! A noite estava escura, mas não era problema para o ti Manoel, que conhecia muito bem todo o terreno que pisava, entrou no açude muito devagarinho, porque não deixava de ser perigoso, podia tropeçar ou escorregar em alguma pedra, foi avançando e quando estava a meio, levantou um pouco os olhos e viu na sua frente uma mulher sentada no açude com as pernas pendentes para a corrente, de cabelos soltos e toda vestida de branco! O ti Manoel assustou-se, sentiu um calafrio e parou imediatamente, sem saber o que fazer, mas não se conteve e gritou bem alto: " O que está a fazer aqui? Posso passar?" A mulher nem se mexeu e respondeu pausadamente: "Quem vai, vai, e quem está, está"! O ti Manoel esteve uns minutos sem reação, por fim decidiu avançar passando por ela a rasar sem lhe tocar, assim que chegou mais à frente começou a ouvir a mó do Moinho a fazer farinha e ficou mais calmo por saber que o moleiro estava por perto! Passou por detrás do Moinho, pôs o pé em terra firme e foi a correr dizer ao moleiro que estava uma mulher vestida de branco sentada no meio do açude! O moleiro ouviu o ti Manoel e no fim disse: "Isso não pode ser"! Tem de haver alguma confusão!" Não há confusão nenhuma! Até falei com ela! Venha lá ver! Disse o ti Manoel! O moleiro andava em ceroulas, vestiu as calças, calçou umas alpargatas e foram os dois, passaram o açude até Santa Luzia, voltaram ao ponto de partida e nada, não viram mulher nenhuma! Está a ver, como lhe disse foi confusão sua! Disse o moleiro! Não foi confusão nenhuma, foi porque ela fugiu ou foi levada pela corrente! Disse o ti Manoel! Olhe, se foi na corrente, logo vai aparecer aí para baixo, eu tenho mais que fazer! Disse o moleiro e entrou para o Moinho! 
O ti Manoel despediu-se e seguiu pelo Vale de enxofre acima, chegando rapidamente a Capelins de Cima, sempre com o cenário na cabeça e falando sozinho! Entrou na taberna, pediu um copo de aguardente e começou logo a contar aos presentes o que tinha acabado de lhe acontecer no açude do Moinho das Neves! Alguns dos presentes já tinham bebido uns copinhos de vinho e de aguardente nem disfarçaram e começaram a dizer baboseiras e a fazer versos, acompanhados de grandes risadas, claramente a fazer pouco do ti Manoel que, ficou muito aborrecido, pagou o copo de aguardente e seguiu para sua casa! O ti Manoel, nunca mais falou daquele assunto com ninguém, no entanto, o mesmo foi motivo de chacota nas terras de Capelins, durante muito tempo! 
Quando o ti Manoel ia chegando ao largo de Capelins de Cima, ainda ouviu os atabernados cantar uma cantiga em coro:  
O ti Manoel diz que viu
Uma noiva na Ribeira
E que teve um calafrio
Era uma feiticeira!
Quanto à mulher de branco, mais ninguém a viu pela Ribeira de Lucefécit, mas toda a gente dizia que, só podia ser obra do Lucifer, senhor desta Ribeira. 

Neves


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

381 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A lenda do Moleiro do Moinho do Bufo

O Moinho do Bufo situava-se na margem direita da Ribeira de Lucefécit, no lugar designado por Torre, a sua construção devia ter sido no século XVIII, aparecendo nos assentos paroquiais da Paróquia de Santo António com o topónimo de Moinho do Escrivão, sendo mais tarde do Bufo, devido ao apelido de um seu rendeiro de Alandroal.
No ano de 1862 este Moinho foi arrendado pelo ti Manoel Zurreta, um bom Moleiro, natural e com casa na vizinha Aldeia da Venda em Santiago Maior, era casado com a ti Margarida de Jesus e pai de cinco filhos, estando apenas dois na sua companhia, os outros três já eram “ajudas” de gado nas redondezas, pela Defesa de Ferreira e Santa Luzia. Esta família, vivia a maior parte da sua vida nas casas de apoio aos Moinhos, enquanto as Ribeiras tinham água suficiente para fazer rodar a mó a cerca de 25 a 30 rotações por minuto e fazer boa farinha, ficavam nos Moinhos situados nos afluentes, mais altos do rio Guadiana, mais perto das localidades e, a salvo das grandes cheias do Guadiana que, podia manter o caudal, submergindo os Moinhos, durante três meses.
O ti Manoel, passava os dias e noites no Moinho, quando precisava de dormir era a mulher  que ficava de vigia e a alimentar a mó, era uma vida de muito trabalho!
Um dia, a ti Margarida decidiu ir visitar a mãe à Aldeia da Venda, como fazia habitualmente, levava um saco de farinha na burra para vender e em troca comprava algumas coisas que lhe faziam falta! Combinou com o ti Manoel e de madrugada carregaram a burra com a farinha, os filhos em cima e pôs-se a caminho, pelo Malhão, Monte do Marco, Terraço, Monte do ti José Agostinho e dali quase em linha reta, até à Aldeia da Venda, onde chegaram logo após o nascer do sol.
O ti Manoel ficou agarrado ao trabalho, a preparar trigo para ser moído, ensacar e pesar farinha para clientes, passou o dia naquela azáfama que chegou à noite sem dar pelo dia passar!
A ti Margarida resolveu a sua vida na Aldeia da Venda e logo de madrugada seguinte voltou ao Moinho do Bufo, mas na volta veio pela Igreja, Capelins de Cima, Chaparral e quando ia passando pelo Monte do Escrivão apareceram algumas mulheres a correr na sua direção a gritar: “Espere aí ti Margarida”!
Ti Margarida: Ai valha-me Deus! Então o que foi? Alguma coisa com o meu homem?
Mulheres: Não sabemos! Então não tem cá estado?
Ti Margarida: Só não estive cá ontem e esta noite, fui lá à Aldeia visitar a minha mãe! Então porquê?
Mulheres: Olhe! Alguma coisa se passou esta noite lá para o Moinho! Toda a noite ouvimos música e gritos estridentes de mulheres! Aquilo, foi um baile que para lá houve, até o barulho da mó a moer a semente acertava com a música! Foi toda a noite: Catapum, catapum, catapum! Uma coisa assustadora!
Ti Margarida: Credo! O meu Manoel é lá homem disso! É um mouro a trabalhar! Não se metia numa coisa dessas! Decerto que não foi lá no Moinho! 
Mulheres: Olhe que não sei! Alguma coisa lá houve!
A ti Margarida despediu-se, continuando o seu caminho! Quando se aproximou do Moinho começou a ouvir a mó a moer em velocidade anormal, catapum, catapum, catapum e nada de sinais do ti Manoel, chamou novamente e nada, estava já assustada, entrou no Moinho, viu logo grandes montanhas de farinha sem estar ensacada, no normal era trabalho de três dias, continuou a chamar pelo ti Manoel e viu-lhe a cabeça fora da montanha da farinha, ressonava e atirava com a farinha ao ar em frente ao nariz, o resto do corpo estava debaixo da farinha! A ti Margarida viu logo que ele estava vivo, encheu o peito de ar e gritou: Manoel! O Moleiro estava a dormir profundamente, mas acordou com o grito, ficando tão assustado que a farinha que estava em cima dele bateu no teto do Moinho do Bufo! O ti Manoel desempoeirou-se e estava só com uma perna das ceroulas enfiada, sem mais nada vestido! A ti Margarida ficou abismada e perguntou-lhe o que se tinha passado ali durante a noite, mas o ti Manoel não conseguia falar, só abanava a cabeça! Depois de passarem alguns minutos, lá foi dizendo à ti Margarida que não sabia o que se tinha passado, não se lembrava de nada, tinha tido um sonho que andava num baile com mulheres nuas e com o Mafarrico a tratar do Moinho, mas isso não tinha passado de um sonho!
Quando se orientaram, foram ambos inspecionar o Moinho e ficaram sem palavras, estava tudo cheio de pegadas de pés descalços de mulheres e dos cascos do Lucifer! Perceberam logo o que se tinha passado, um baile de feiticeiras, pouco mais falaram e o ti Manoel começou a ensacar e a pesar a farinha, quando acabou, disse à ti Margarida que ia a Santo António falar com o Padre Jerónimo de Jesus Maria Granja e a contar-lhe o que ali se tinha passado!
O Padre Jerónimo ouviu o ti Manoel e disse-lhe para todas as noites rezar umas orações e para fazer umas cruzes em volta do Moinho que, ele logo que pudesse ia lá benzer o Moinho e foi logo no dia seguinte, porque o caso era sério e, porque ele também precisava de farinha!  
Os seareiros, conforme estava combinado, foram buscar a sua farinha, mas passados alguns dias, começaram a voltar a pedir mais farinha daquela ao ti Manoel, porque era muito fina, muito boa e fazia um pão que era uma delícia!
Era caso para dizerem: “não era o pão que o diabo amassou”, mas era a farinha que o diabo fabricou!
O ti Manoel e a ti Margarida, continuaram muitos anos pelo Moinho do Bufo, mas nunca mais conseguiram fabricar farinha tão boa. 
O Moinho do Bufo desapareceu! Foi demolido! 

Casa na Torre




segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

380 - Terras de Capelins 

História de Vidas de Gentes de Capelins 

Entrevista ao "Ti Limpas" pelo Jornal On - Line UBI  
“Nasce do meu Pensamento”

Manuel Inácio Veladas, poeta popular alentejano, ganhou o concurso nacional de poetas realizado em 1982. “Não queria participar, porque na altura não tinha disponibilidade e nunca ambicionei ser conhecido. Sempre gostei de fazer versos entre amigos e acompanhado de um bom copinho de vinho. Acabaram por me convencer e fiquei em primeiro lugar”. Depois desta vitória o poeta nunca mais parou e em 2003 foi publicado um livro com algumas das memórias do “Ti Limpas”, como é conhecido. Hoje com 82 anos (nasceu em 1929) recorda a sua vida ligada ao campo e alguns dos poetas que sempre admirou.
É natural de onde?
Nasci em Ferreira de Capelins, concelho de Alandroal, onde sempre vivi. Foi nesta aldeia que passei a minha vida e posso dizer que não há aldeia como esta.
Com que idade deixou a escola e começou a trabalhar?
Estudei até à quarta classe, depois tive de ir trabalhar para ajudar lá em casa. Sou filho único, mas o meu pai adoeceu novo e eu com catorze anos comecei a trabalhar com uma junta de bois. Depois fui tractorista na “Casa Dias”, e mais tarde fui encarregado de máquinas. 
Quando é que começou a desenvolver o gosto pela poesia?
Muito novo, com quinze anos, já fazia as minhas cantigas a despique com os meus amigos. Sempre fui muito intrometido e quando se tem um grande interesse por alguma coisa sempre se consegue mais.
Como é que surgiu a possibilidade de publicar um livro?
Foi há cerca de 12 anos que recebi um convite da Confraria do Pão do Alentejo, na pessoa do Dr. Madureira. Na altura iam lá poetas de vários sitos e chegavam a juntar-se 150 ou 200 pessoas. Recordo-me que nenhum disse versos como eu disse, todos levavam folhas escritas e liam o que haviam escrito. Eu não, todos os versos que recitei foi de cabeça, da minha memória.
Então o Dr. João Madureira viu que eu sabia tantos versos e que tinha facilidade em dizer décimas que me propôs fazer um livro.
Porque é que o livro não tem só décimas suas?
Porque eu sei mais décimas dos outros que minhas. Sei muitas de autores aqui da zona que admiro ou admirava porque alguns já faleceram como José Romão e poetas de outros tempos nomeadamente, “Castro” de Cuba e António Aleixo.
O livro “Nasce do meu Pensamento” foi publicado em 2003, pelas publicações da Confraria do Pão Alentejo, e no dia da apresentação não havia verso que eu não soubesse de cabeça.
Já pensou publicar mais algum livro?
Já tive pessoas que me falaram dessa possibilidade. É certo que tem de ser um assunto devidamente pensado e preparado porque nada do que está no outro livro pode ser repetido, o que requer algum cuidado.
Já ganhou algum prémio com as suas décimas?
Já ganhei vários. O primeiro prémio foi ganho em 1982 a nível nacional. Não queria concorrer porque achava que não tinha tempo. Tinha muito trabalho com um pequeno rebanho de vacas e por isso achei que não podia participar.
Ao fim de seis meses soube que tinha ficado em primeiro lugar. E recebi como prémio três obras do Bocage, Os Lusíadas, e um prato grande.
Depois disto já ganhei vários prémios na Confraria do Pão.
Até onde é que as suas décimas já o levaram?
A vários sítios, do país e não só. A maior empreitada que tive foi na homenagem do Dr. Emílio Peres, um grande nutricionista. Levavam 20 quadras de décimas para dizer, os mandamentos de Deus, e levava ainda mais 15 feitas para a Confraria do Pão. Estive três horas e meia a falar sem ter o auxílio de um papel.
De outra vez fui a Bruxelas e acabei por visitar o Parlamento Europeu. 

Ti Limpas


domingo, 17 de dezembro de 2017

379 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Lenda do Moleiro das Neves e do Lucifer, senhor da Ribeira de Lucefécit 
O Moinho das Neves, submerso pelas águas do Grande Lago de Alqueva, situa-se na Ribeira de Lucefécit um pouco acima da foz do Ribeiro das Neves! Era o Moinho da Vila Defesa de Ferreira e, por ali passaram muitos moleiros e, com as suas famílias ali permaneciam cerca de seis meses, instalados no moinho, na casa de apoio e, em cabanões junto à mesma! 
Um dos moleiros que lá esteve nos anos de 1800, foi o ti José Martins, da aldeia de Cabeça de Carneiro, casado com a ti Mariana da Conceição, a qual, além de tratar dos filhos, da comida, da roupa, da burra, ainda o ajudava na sua tarefa no moinho! 
Um dia, chegou lá um parente com um saco de trigo para moer, fazer em farinha e, a dizer à ti Mariana que a mãe estava muito doente, se a quisesse ver viva que fosse ainda nesse dia porque ela estava mesmo nas abaladas! A ti Mariana acabou de fazer a açorda, comeram mais cedo, organizou as coisa com o ti José, carregou a burra com meio saco de farinha, montou os gaiatos e seguiu pela estrada do vale de enxofre acima, Capelins de Cima, Portela, Terraço, Areias, Monte da Vinha e Cabeça de Carneiro! Foi a correr ver a mãe que já nem falava, mas teve a certeza que ainda a ouviu, mas a mulher depressa entrou em agonia, parecia estar só à espera da filha para se despedir e partir!
O ti José estava no moinho, a noite a escurecer, ele deixou as coisas orientadas e foi à casa que ficava 30 ou 40 metros  mais acima, em frente à porta juntou um feixe de lenha e fez lume para assar um bocado de toucinho para a sua ceia (jantar) com um quarto de bom pão, cozido no forno das Neves! Estava com o toucinho no espeto junto ao lume, quando ouviu uma voz assustadora que, parecia vir dos fundos da terra:
- Boa noite moleiro!
Naquele lugar, quando a Ribeira ia cheia, passavam muitas pessoas para a Aldeia do Rosário ou para Santa Luzia, por cima do açude, uma parede que ligava as margens entre a Defesa de Ferreira e a herdade de Santa Luzia, para estancar e canalizar a água para fazer mover o moinho e, os passantes para um e o outro lado, sempre tinham uma palavra para com o ti José! Naquela noite ficou muito assustado, porque não ouviu a aproximação e deu um salto, ficando imediatamente virado para o desconhecido! Ainda ficou mais assustado quando, com a luz do lume viu a figura que estava na sua frente, muito alta, fisionomia medonha e, ainda ficou pior quando lhe olhou para os pés, formados por cascos, pensou logo que era o Lucifér, mas disfarçou e disse-lhe! 
Moleiro: Boa noite, quem és tu? E o que queres daqui?   
Lucifer: Eu sou o Lucifer, o senhor desta Ribeira! Andam por aí a mudar-lhe o hidrónimo, mas esta é a Ribeira do Lucifer e será sempre a minha Ribeira! Deixas-me assar a minha ceia (jantar) aí no teu lume? 
O ti José olhou e, ficou aterrorizado quando viu o espeto do Lucifer cheio de cobras de água, ainda vivas a debaterem-se na tentativa de fuga impossível! 
Moleiro: A tua ceia são essas cobras de água? 
Lucifer: A minha e a tua, chegam para ti, se quiseres posso dar-te algumas, decerto nunca comeste coisa tão boa! Não têm espinhas, como os peixes que comes! 
O Lucifer, chegou imediatamente as cobras ao lume do ti José e, depressa deixaram de se debater porque já estavam a pingar para cima do toucinho! 
Moleiro: Alto lá! Deixa-me lá assar o meu toucinho e, depois já assa as tuas cobras! Para mim, não quero nada disso! 
Lucifer: Não posso esperar, porque estou com muita pressa! 
Moleiro: Vamos lá ver se nos entendemos, o lume é meu e eu não quero cá isso em cima do meu toucinho! Mas que pressa é essa, que não podes esperar uns minutos? 
Lucifer: Tenho de ir já para Cabeça de Carneiro, porque a tua sogra está mesmo a acabar e eu tenho de lhe catar a alma! 
Moleira: Não acredito nisso! A minha sogra é das melhores pessoas de Cabeça de Carneiro, não merece ir para o inferno, a alma dela, decerto que não é para ti! 
Lucifer: Seja, ou não, tenho que lá estar, porque às vezes há surpresas! Vamos ver! 
O moleiro não estava a gostar da conversa, mas como tinha desvantagem física em relação ao Lucifer, sabia que a única salvação era mostrar-lhe uma cruz, mas onde é que a tinha? Deu voltas à cabeça, enquanto iam falando sobre a vida do moleiro e do moinho, que moía com a água da sua Ribeira, até que o Lucifer lhe perguntou:
- Oh moleiro, já vi que sabes muito de moinhos, mas sabes dizer-me qual a dimensão ali do teu moinho? 
De repente, fez-se luz na cabeça do ti José e, pensou que era a sua oportunidade de se desfazer do Lucifer, meteu mais lenha no lume para dar boa luz e disse-lhe: 
Moleiro: Sei, sim Lucifer! Mas tenho de te fazer um desenho aqui no chão, ao pé do lume para perceberes bem!
Lucifer: Então faz lá o desenho e explica-me, bem explicado!
Moleiro: Então, para veres bem chega lá aqui ao pé do lume! 
O ti José alisou bem o terreno arrojando as botas para um e outro lado e, o Lucifer, muito curioso chegou a cabeça quase ao pé do lume, o moleiro, pegou no espeto do toucinho que era de ferro e disse-lhe:
- Olha Lucifer, o meu moinho é daqui, fez um risco bem fundo na terra, até aqui, e fez outro risco muito fundo a cortar o anterior, fazendo uma cruz! O Lucufer, viu a cruz mesmo na frente dos seus olhos, deu um grito estridente e esfumou-se! 
O ti José já não comeu o toucinho com pingo das cobras, enterrou-o, entrou em casa e comeu um pedaço de pão com queijo e, foi trabalhar para o moinho toda a noite, pouco passou pelas brasas! 
Ao nascer do sol, foi a correr ao lugar onde tudo se tinha passado para confirmar se tinha sido mesmo real ou se tinha sonhado em algum momento que adormeceu e, lá estavam as marcas das patas do Lucifer e, a cruz bem saliente no chão! 
Pouco depois, chegou um parente que morava na aldeia de Cabeça de Carneiro a informá-lo que a sogra tinha falecido durante a noite! Foi à Vila de Ferreira - Neves, ali ao lado,  chamar um homem que por vezes o ajudava, para ficar no moinho naquele dia e foi ao funeral da sogra!
Quando o ti José voltou ao moinho, contou tudo à ti Mariana e, foram a correr fazer cruzes bem visíveis, com cal branca, no moinho, na casa e nas rochas em redor, sendo até motivo de chacota por parte de alguns clientes que, inventavam o que lhes convinha, faziam décimas  e, alguns começaram a chamar-lhe o moinho das cruzes, pensavam que tinha a ver com feitiçaria! 
O ti José e a ti Mariana ficaram convencidos que, foram as cruzes a afastar o Lucifer daquele lugar e, acreditaram que a Ribeira era mesmo dele! 
As pessoas chamavam-lhe Ribeira do Lucefece (Lucefécit) para não pronunciarem a palavra Lucifer, porque, todos estavam convencidos que, se o pronunciassem ele aparecia! (Ainda hoje dizem: "Fala-se no diabo e ele aparece!"). 








  



sábado, 16 de dezembro de 2017

378 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História de Capelins 
Os tempos da Reforma Agrária 1975 

Portaria 579/75

de 24 de Setembro
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Agricultura e Pescas, sob proposta do Conselho Regional de Reforma Agrária do Distrito de Évora e nos termos dos artigos 1.º e 8.º do Decreto-Lei 406-A/75, de 29 de Julho, expropriar os prédios rústicos abaixo discriminados:
13) Herdade da Defesa da Bobadela de Cima:
Matriz cadastral: artigo 2, secção B, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins (Santo António), com 667 ha, propriedade de Luís Dias Coutinho.
14) Herdade da Defesa de Ferreira:
Matriz cadastral: artigo 1, secção F, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 514,7250 ha, propriedade de Luís Dias Coutinho.
20) Herdade dos Caldeirões:
Matriz cadastral: artigo 1, secção A1-A2, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 2074,6250 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A.
R. L.
21) Courela Colmeal do Marocos:
Matriz cadastral: artigo 10, secção A, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 0,05 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A. R. L.
22) Courela do Colmeal dos Caldeirões:
Matriz cadastral: artigo 8, secção A, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, com 0,0750 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A. R. L.
23) Herdade do Azinhal Redondo:
Matriz cadastral: artigo 41, secção C, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins (Santo António), com 179,4250 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S. A. R. L.
24) Herdade do Monte Novo:
Matriz cadastral: artigo 40, secção C, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins, (Santo António), com 269,80 ha, propriedade de Sociedade Agrícola do Roncanito, S.
A. R. L.
25) Herdade da Defesa da Bobadela:
Matriz cadastral: artigo 1, secção B-B1, do concelho de Alandroal, freguesia de Capelins (Santo António), com 854,70 ha, propriedade de Carvalho J. Martins, Lda.
Ministério da Agricultura e Pescas, 5 de Setembro de 1975. - O Ministro da Agricultura e Pescas, Fernando Oliveira Baptista.

Nos termos dos artigos 1.º e 8.º do Decreto-Lei 406-A/75, de 29 de Julho, expropriar os prédios rústicos abaixo discriminados, propriedades de:


87 - Defesa da Pedra Alçada. - Situado na freguesia de Santo António de Capelins, concelho de Alandroal, matriz cadastral 3-EE1, com a área de 680,4900 ha (115613,6 pontos).
88 - Defesinha. - Situado na freguesia de Santo António de Capelins, concelho de Alandroal, matriz cadastral 1-F, com a área de 466,0250 ha (31166,2 pontos).
De acordo com o n.º 1 do artigo 15.º do referido diploma, são declarados ineficazes todos os actos praticados desde 25 de Abril de 1974 que, por qualquer forma, tenham implicado diminuição da área do conjunto de prédios rústicos de cada proprietário.
Ministério da Agricultura e Pescas, 1 de Junho de 1976. - O Ministro da Agricultura e Pescas, António Poppe Lopes Cardoso.


Ex.mo Sr. Chefe do Gabinete do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro:
Em resposta ao ofício n.° 3421, de 13 de Dezembro de 1978, do ex-Gabinete do Ministro sem Pasta, remeto a V. Ex.ª os elementos pedidos pelo Deputado José Carvalho Cardoso.
Com os melhores cumprimentos.
15 de Abril de 1978.— Pelo Chefe do Gabinete, (Assinatura ilegível).
ANEXO 1
Lista de unidades colectivas de produção Distrito de Évora:
I — Concelho de Alandroal:
1 — Cooperativa Agrícola Defesa da Bobadela:
Área: 1552,30 ha.
Herdade Defesa da Bobadela.
2 — Cooperativa Agrícola das Defesas:
Área: 1998,90 ha.
Herdade da Defesa da Pedra Alçada
3 — Cooperativa Agrícola do Infantado:
Área: 758,05 ha.
Herdade da Defesa de Cima.
4 — Unidade Colectiva de Produção de Santa Clara:
Área: 1211,30 ha. Herdade da Chamorreira.
5 — Cooperativa Agrícola de Santa Luzia:
Área: 1236,40 ha. Herdade de Santa Luzia.
6 — Unidade Colectiva de Produção de Santo Amaro:
Área: 1105,70 ha. Monte de Santo Amaro.
7 — Unidade Colectiva de Produção Cooperativa
Agrícola de Santo Isidro:
Área: 1117,60 ha.
Herdade de Defesa de Ferreira.
8 — Cooperativa Agrícola 11 de Março:
Área: 2098,20 ha. Herdade da Misericórdia.
9 — Unidade Colectiva de Produção Vasco Gonçal-
ves:
Área: 1865 ha.
10—Comissão de Trabalhadores Herdade do Roncanito — Capelins. 




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

377 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Concelho de Ferreira (Capelins) 
Continuamos a descrever a história do Concelho de Ferreira (Capelins), neste caso, o seu fim para sempre: 
"Foi pouco duradoura esta organização; porquanto em 1836 pôla completamente de parte a comissão nomeada em portaria de 29 Setembro para redação d'um novo projecto de divisão administrativa, a qual, tomando por base os trabalhos enviados pelas juntas geraes dos districtos, apresentou o seu relatório e projecto a 3 de Novembro, e em consequência, saiu o decreto de 6 de Novembro, mandando pôr em execução, ainda a título de ensaio, a nova circunscripção administrativa.
Por esta circunscripção estabeleceram-se no Alentejo três districtos administrativos, com as sedes nas mesmas terras em que se tinham collocado outrora as divisões eleitoraes, e por elles se distribuiram todos os Concelhos das 8 antigas comarcas, (...).
Vejamos agora como ficaram constituídos os três districtos administrativos do Alentejo:
(...)
Da comarca d' Elvas: Mourão, conservado; FERREIRA DE CAPELLINS e Terena, extinctos! 
E, assim, pelo decreto de 6 de Novembro de 1836, chegou ao fim o Concelho de Ferreira (Capelins) que pertencia à comarca de Elvas". 










quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

376 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
Concelho de Ferreira (Capelins) 
Continuamos a descrever a história do Concelho de Ferreira (Capelins), assim: 
"Como dissemos, o mapa de 1822, teve unicamente applicação aos actos eleitoraes, continuando a subsistir no paíz a mesma circunscripção administrativa para os efeitos civis e judiciais. 
Com a mudança porém do systema politico em 1834, tornou-se extensiva a todo o Reino a nova circunscripção, pelo systema francez das prefeituras, decretadas nos Açores a 16 de Maio de 1832 e completadas mais tarde no Porto pelo decreto de 28 de Junho de 1833.
Por este último decreto estabelecia-se a capital da Provincia em Évora, sede portanto da prefeitura do Alentejo, à qual ficavam pertencendo 5 comarcas, a saber: Évora (prefeitura), Estremoz, Elvas, Portalegre e Setúbal (sub-prefeituras), (...).
Vejamos quais os Concelhos que entravam na demarcação de cada uma d'estas comarcas:
(...)
Comarca d' Elvas - 11 Concelhos: Alandroal, Borba, Elvas, FERREIRA DE CAPELLINS, Jerumenha, Monsaraz, Mourão, Terena, Villa-boim, Villa Fernando e Villa Viçosa.
Assim, mais uma vez podemos verificar que, após a alteração do número de Concelhos constituintes de algumas comarcas, nos termos do decreto de 28 de Junho de 1833, o Concelho de FERREIRA (CAPELINS) continuou integrado na comarca de Elvas".

Continua... 






584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...