terça-feira, 31 de outubro de 2017

354 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da sobrinha do Pároco de Capelins 
Nas últimas décadas de 1800, chegou ao fim da sua missão, mais um Pároco de Capelins, esperando a todo o momento a sua substituição e, era o tema das conversas em toda a Paróquia! Os paroquianos tentavam  adivinhar como seria o novo padre, porque desta vez era diferente, a vaga seria preenchida por um Cura que vinha da Paróquia de Redondo e não de Terena, por onde tinham passado todos os anteriores que, mais tarde passavam a Curas das respetivas Paróquias, por isso, era um mistério! 
Finalmente, o Cura José Fernandes chegou a Santo António, esteve alguns dias com o seu antecessor para este lhe explicar em que pontos se encontrava a Paróquia e quais os seus direitos e deveres perante os paroquianos! A primeira missa no Domingo, foi muito bonita, rezada pelos dois padres, um para fazer as despedidas e o outro para se apresentar! Foi um dia de festa em Santo António, nem um terço dos paroquianos tinham lugar dentro da Igreja de Santo António, todos queriam despedir-se do velho padre e, ao mesmo tempo conhecer o novo, porque decerto continuava a ser o tema das conversas na semana que se seguia! O padre José Fernandes já tinha quarenta anos e, com muita experiência em presença de multidões, por isso, sabia o que fazer para agradar aos fregueses e, de verdade foi fácil cativar os seus paroquianos que, no entanto, continuavam apreensivos sobre o motivo do padre querer vir meter-se nesta paróquia tão isolada! 
O novo padre instalou-se na casa paroquial e, começou a trabalhar imediatamente, com a ajuda do sacristão, foi conhecendo e sabendo quantos eram, quem eram e como eram os paroquianos, assim como, os mais e menos complicados, os mais beatos e beatas! O padre adaptou-se facilmente ao novo lugar e ao fim de três meses estava a par de todos os assuntos da Paróquia! 
Um dia começou a dizer ao sacristão, às beatas e aos vizinhos que moravam junto à igreja que tinha uma sobrinha a viver sozinha no Redondo e queria que ela viesse para junto dele, porque, embora ele não estivesse mal, a sobrinha estava sozinha e, assim, fazia-lhe a comida, lavava e passava a roupa a ferro e ficava melhor ali com ele! Em poucos dias esta novidade espalhou-se pelas terras de Capelins, havia grande curiosidade, como seria a sobrinha do padre, nova, bonita, feia, velha, cada qual imaginava-a à sua maneira! 
Passou menos de um mês, numa manhã, chegou à Igreja de Santo António uma carroça carregada com arcas de madeira cheias de roupas, louças e outros utensílios e, também vinha uma senhora muito bonita, bem vestida, bem penteada que, era a suposta sobrinha do padre, cumprimentaram-se efusivamente, à frente da comissão de boas vindas, formada pela vizinhança, beatas, e outros curiosos, o padre apresentou-a e, disse que se chamava Rosalina! Depois, alguns ajudaram a meter tudo em casa e, só ao fim do dia conseguiram ficar sozinhos, então, abraçaram-se beijaram-se e reiniciaram o que já se passava no Redondo, ou seja, a sua ligação amorosa, porque a Rosalina não era sobrinha do padre, mas sua amante, por isso, tiveram de sair do Redondo, porque a sua relação amorosa estava a dar que falar! Em Santo António, estavam mais resguardados dos olhos da censura, porque o lugar era isolado e, isso permitia-lhe viver a coberto da mentira! O tempo foi passando, a sobrinha do padre como era conhecida, era muito cobiçada por todos os rapazes em idade casadoira, passavam em ranchos em frente à casa paroquial, mas não conseguiam por-lhe a vista em cima, a não ser na presença do padre, mas por respeito, não se atreviam a olhá-la de frente! A Rosalina nunca saía sozinha, raramente ia a casa das vizinhas e pouco se demorava para não dar aso a conversas que a comprometessem! Tudo isso, intrigava os fregueses das terras de Capelins que, tentavam por todos os meios, saber da vida da Rosalina! 
Quando o padre chegou a Santo António, pediu ao sacristão para lhe indicar um barbeiro que fosse todos os sábados, de manhã, cortar-lhe a barba e aparar o cabelo, caindo essa escolha no mestre Manoel Carocho, homem de sessenta anos, já viúvo e, morador no Monte do Pinheiro o qual, pelas 11 horas de sábado estava sempre ao serviço do senhor padre!
 No primeiro sábado em que a Rosalina já estava na casa paroquial, o padre apresentou-a ao mestre Manoel como sendo sua sobrinha que vinha viver com ele para Santo António e depois do serviço de barbeiro feito, perguntou-lhe se tinha jantar (almoço)!
Ti Manoel: Tenho, sim senhor padre, nos sábados antes de vir deixo sempre as sopinhas cozidas, depois ao chegar é logo jantar (almoçar)!
Padre: Hoje, não vai comer as suas sopas ao meio dia, ti Manoel, come-as à noite, agora come aqui com a gente, a minha sobrinha cozinha muito bem e contou consigo para o jantar (almoço)!
Ti Manoel: Não, agradeço-lhe mas não quero incomodar, fica para outra vez! Vou-me já embora!
Padre: Não, ti Manoel, é como eu disse, ponha aí o estojo e logo vai depois de jantar!
O ti Manoel não teve como dizer que não e, ficou para o jantar!
A Rosalina sabia cozinhar muito bem e o ti Manoel nunca tinha comido um jantar tão bom! No sábado seguinte repetiu-se  a mesma situação, o ti Manoel não queria, mas o padre insistiu e teve de ficar para jantar e partir daquele sábado nunca mais deixou de jantar (almoçar) com o padre e com a Rosalina, crescendo cada vez mais a amizade entre o três! 
O padre e a Rosalina faziam vida de marido e mulher, sem darem nas vistas, pensavam eles, viviam em grande felicidade! Os anos foram passando, sem nenhum problema, até ao dia em que a Rosalina descobriu que estava grávida, esse dia e os que se seguiram,  foram um pesadelo para ambos, não comiam, não dormiam sempre a pensar como poderiam resolver a situação! As hipóteses não eram muitas, ou o padre despia a batina e sobre grande vergonha saíam de Santo António defraudando os paroquianos, mas depois como iam viver? Que vida podiam dar ao filho ou filha que vinha a caminho? A Rosalina propôs-lhe ir ela embora para o Redondo ou para Évora, teria a criança longe dali e, à noite abandoná-la na roda da Misericórdia! O padre disse-lhe que nem pensar, era um crime moral e não podia abandonar um filho! Pensavam, pensavam e não encontravam uma solução com sentido! Numa noite em que não fecharam os olhos, pelas cinco da manhã, o padre chamou a Rosalina, estás a dormir? 
Rosalina: Não, até agora ainda não fechei os olhos! 
Padre: Nem eu! Olha, acho que encontrei a solução para o nosso problema, se tu aceitares! 
Rosalina: Então diz lá, decerto que aceito! 
Padre: Como sabes, o ti Manoel Carocho, o meu barbeiro, é viúvo, nada o impede de casar! Tu és solteira, nada te impede de casar! Eu sou padre, posso fazer o assento do casamento! Sei que o ti Manoel nos vai ajudar, é um casamento só no papel, mas depois tem de assinar como pai do nosso filho, custa-me muito isso, mas não encontro outro caminho! Tenho de lhe contar tudo, mas sei que mesmo que ele não aceite, não abre a boca! Mas tenho de lhe oferecer em troca que tratamos dele até ao fim da vida! Estás de acordo? 
Rosalina: Não sei! Custa-me muito fazer parte dessa mentira, mas aos olhos de Deus já estamos perdidos, por isso para viver contigo, não me importo e também não encontro nada melhor! Mas temos outro problema, quando o nosso filho ou filha nascer, ainda não há nove meses de casados! 
Padre: Pois não! Mas já pensei em tudo! Vou dizer às beatas que tu já andavas com ele há muito tempo e que eu os apanhei juntos, assim explica-se a diferença desse tempo! Agora só falta o ti Manoel aceitar! 
Rosalina: Pois! Não te esqueças que eu tenho trinta e uma anos e o ti Manoel tem sessenta, isso vai dar falatório! 
Padre: Não te preocupes! Deixa lá isso, há por aí muitos casos desses de viúvos casados com mulheres muito mais novas! Eu remedeio isso! 
Rosalina: Então, sendo assim, trata disso com o ti Manoel, eu só quero é ficar contigo aqui em Santo António!
Padre: Está bem, é no sábado, fazes um bom jantar (almoço), para o deixares impressionado e depois do jantar eu falo com ele! 
Conforme estava planeado, depois do jantar, a Rosalina meteu-se no quarto e o padre disse ao ti Manoel que queria falar com ele para lhe fazer um pedido, ele nem o deixou falar, disse-lhe que sabia o que o padre lhe queria pedir, não valia a pena muitas explicações! O padre ficou surpreendido e o ti Manoel disse-lhe que ele e a Rosalina habituaram-se à sua presença e esqueciam-se de disfarçar, já havia muito tempo que sabia do seu envolvimento, como também sabia que a Rosalina estava grávida, pela mudança do seu corpo e estava disposto ajudá-los! O padre ainda insistiu em querer contar os pormenores da proposta, mas o ti Manoel repetiu que não valia a pena dizer mais nada, era só ele falar com os filhos e o padre podia tratar logo do casamento, no papel, claro! 
Quando nas terras de Capelins e arredores as pessoas souberam do casamento, ninguém queria acreditar, como é que uma rapariga como a Rosalina, tão nova, tão linda, com tantos rapazes, alguns ricos que queriam casar com ela foi escolher o ti Manoel! Houve muitos comentários: Isto são os tempos, anda tudo ao contrário! Outros diziam: Foi ele que enganou a rapariga, sempre metido lá em casa apanhou-a sem ela dar por isso e o padre nem via nada! 
O casamento foi registado e, sete meses depois, o ti Manoel foi pai de um menino! Para convencer os fregueses o ti Manoel ficou lá uns dias em casa e começou a frequentar ainda mais vezes a casa do padre, dormia lá uns dias pelos outros ou ia de madrugada para depois sair e fingir que tinha lá dormido! O tempo foi passando sem nenhum comentário de relevo e, três anos depois o ti Manoel foi novamente pai de outro menino, houve mais comentários mas nada que desse muito que falar! 
O aparente trio amoroso continuava, sem nada de anormal, mas cinco anos depois o ti Manoel adoeceu com uma pneumonia e ficou em casa do padre, mas estava cada vez pior e passados quinze dias fizeram-lhe o funeral, ficando a Rosalina viúva e com trinta e nove anos! A morte do ti Manoel não deixou de ser um alívio, mas só até ao momento em que a Rosalina descobriu que estava grávida, o problema era que engravidou um mês depois do falecimento do marido, logo a gestação seria de dez meses! Não havia nada a fazer! Quando a criança nasceu, uma filha, o padre recuou quinze dias no nascimento e os outros quinze passaram despercebidos, porque ainda havia quem dissesse que o ti Manoel ainda fez uma filha depois de receber a estrema unção! 
Passados mais cinco anos a Rosalina ainda teve outra filha, mas o padre encarregou as beatas de dizerem que era filha de um lavrador que não queria dar a cara e então foi registada como filha de pai incógnito e o problema ficou resolvido! 
Era uma família baseada na mentira, mas muito feliz, os filhos nasceram e cresceram em Santo António, aprenderam a ler e escrever com os pais e os rapazes quando chegaram à idade própria foram estudar para o Seminário de Évora, mas não seguiram para padres, ao fazerem os seus estudos foram admitidos como funcionários do reino, casaram e organizaram família em Évora, as suas irmãs foram para sua casa de onde saíram para casar com rapazes de boas famílias! O padre José Fernando e a Rosalina também acabaram as suas vidas em Évora, perto dos seus filhos e netos!
Nas terras de Capelins, toda a gente soube a verdade! Os filhos não eram do ti Manoel, mas do padre José Fernandes e a Rosalina não era sua sobrinha, mas mulher! Este insólito acontecimento, foi sendo contado de geração em geração, chegando aos nosso dias e todos os capelinenses o conhecem.

Lenda inspirada na vida do padre Passarinho da Paróquia de Capelins

Santo António - Capelins


sábado, 28 de outubro de 2017

353 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do Chico franzino que enganou o Pároco de Capelins 
Na quinta feira, dia 10 de Setembro do ano de 1840, o Pároco de Santo António, padre Manoel de Sancto Ignácio Pereira, estava na casa paroquial fazendo a sua escrita quando bateram à porta, era um portador que, de caminho para Terena, trazia um pedido do morador numa das casas que existiam junto ao moinho do Roncão, para que o padre fosse dar a estrema unção ao seu pai que estava mesmo nas abaladas e para ir depressa ou então já não valia a pena ir lá, porque o homem estava mesmo pelas pontas! O padre ouviu o passageiro e exclamou: Mas como é que agora vou? O sacristão foi a Terena buscar umas coisas para a Igreja, levou a burra e não há aqui mais nenhuma! Pois! Não sei senhor padre, foi o que me pediram para lhe dizer! Respondeu o passageiro! Está bem! Eu vou já! Disse o padre! Chamou a mulher do sacristão contou-lhe o que se passava e disse-lhe que tinha de ir já, levava uma bucha e depois o sacristão quando voltasse de Terena que  fosse lá ter com a burra para o trazer de volta! Foi pelo Monte Novo, Pinheiro, Ramalha e antes de chegar à Zorra, onde havia água, já sentia uma sede insuportável, porque o padre lembrou-se da bucha mas esqueceu-se da água e o dia estava a ficar muito quente, então reparou numa choça perto do caminho, onde havia alguns animais, galinhas, porcos, cães e outros, pensou logo que, decerto estava por ali alguém e que tinha de ter água, dirigiu-se à choça e gritou: "está alguém?" Não demorou nada, saiu da choça um rapaz aparentando doze ou treze anos, muito franzino, esfregando os olhos e demonstrando mau humor! O padre cumprimentou-o, mas ele não respondeu!
Padre: Então, como te chamas?
Rapaz: Sou o Chico!
Padre: Oh Chico, não arranjas um cocho de água ao padre? Estou cheio de sede!
Chico: Não temos cocho! 
Padre: Está bem! Eu disse cocho, mas eu quero é água, seja num cocho, num quartilho, num púcaro, seja lá onde for!
Chico: Não temos água! 
Padre: Essa agora! Não têm aqui água para beber? Onde vão beber?
Chico: Bebemos aqui, temos uma panela cheia e é lá da fonte, mas a minha mãe disse-me para não lhe tocar, esta água é só para dar aos animais!
Padre: Eu tenho tanta sede, dá-me lá uma pinguinha que a tua mãe decerto não se zanga por matares a sede ao padre! 
Chico: Está bem! Espere aqui! 
O Chico entrou na choça, não demorou e voltou com uma tigela cheia de água para o padre, que bebeu com sofreguidão e no fim exclamou: "Boa água, fresquinha, muito saborosa, sabe mesmo a barro! Que sede eu tinha! 
Chico: Se gosta tanto dela, veja lá se quer mais uma tigela? 
Padre: Quero, quero, não posso negar, há tanto tempo que não bebia água tão boa! 
O Chico entrou novamente na choça e serviu mais uma tigela de água ao padre Manoel que a bebeu mais devagar, saboreando e repetindo: Boa água, tão saborosa! O Chico já estava cansado de ouvir o padre a repetir a mesma coisa e como para ele a água não sabia a nada, pensou em pregar uma partida ao padre Manoel! 
Chico: Oh senhor padre, mas a água sabe-lhe a alguma coisa? A mim não me sabe a nada?
Padre: Se sabe Chico, se sabe, não me lembro de beber água tão boa, tão saborosa! 
Chico: Tão saborosa? Estive a pensar e já sei do que é esse sabor!
Padre: É a água da fonte que é boa e depois é o gosto do barro onde a têm!
Chico: Não, não, senhor padre, esse sabor deve ser o do rato que se afogou esta noite na panela dessa água, por isso a minha mãe disse para não lhe tocar, ou então é sabor que  ficou nessa tigela onde a minha avó faz o xixi todas as noites!  
Quando o Chico acabou as últimas palavras já ia a correr à frente do padre pela chapada acima e o padre Manoel a gritar que lhe arrancava as orelhas, que era um malandro, malcriado, que isso não se fazia ao padre, mas lembrou-se da missão e desistiu de correr atrás do Chico, voltou e seguiu o seu caminho ao lado do Ribeiro do Carrão até ao seu destino! Assim que chegou, começou logo a contar o que o Chico lhe tinha feito e, só quando desabafou é que se dirigiu à cama do moribundo para fazer o trabalho que ali a levou, dar-lhe os Sacramentos para poder entrar no céu!
O Chico já não se aproximou da choça enquanto não viu passar o padre Manoel de volta à tardinha, com o sacristão, passou o resto do dia atrás dos outeiros encoberto com os chaparros a espreitar, não fosse ficar sem orelhas! O padre Manoel, durante uns dias contava a todos os paroquianos o desaforo do Chico e, rematava sempre: "um franzino daqueles", todos lhe davam razão e diziam: "Isso não se faz a um padre", mas nas suas costas riam, riam e o Chico, passou a ser um herói por ter tido coragem de pregar aquela partida ao padre! 
Eram assim, os divertimentos nesses tempos, nas terras de Capelins! 


Zorra - Capelins



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

352 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do estranho que ajudou a Paróquia de Santo António e suicidou-se no rio Guadiana  
No domingo dia 4 de Outubro de 1699, o Pároco Manoel Marques, da Paróquia de Santo António (Capelins), levantou-se às 6 horas da manhã, como fazia habitualmente, preparou-se e foi dar o seu passeio matinal pela serra da sina, para respirar os bons ares e esticar um pouco as pernas, porém nessa manhã o passeio foi mais rápido, não só por ser domingo de missa, às 9 horas, mas porque ocupou todo esse tempo a dar voltas à cabeça a pensar onde podia angariar o dinheiro tão necessário para arranjar a Igreja de Santo António, pelo menos o telhado e o tabuado do teto interior que já estava caído no canto do lado direito e tinha de ser reparado até ao Inverno ou, o tabuado podia cair em cima dos paroquianos! 
Já tinha feito um peditório aos lavradores e aos fregueses, mas o dinheiro nem dava para reparar uma goteira e, como os últimos anos tinham sido muito secos e as colheitas muito fracas, os lavradores negaram-se ajudar mais, também, porque tinham acabado de construir a Ermida de Nossa Senhora das Neves! 
Tinham feito a Festa de Santo António em Setembro, mas só tinham sobrado uns réis, que pouco ajudavam e o Pároco fez o seu passeio sem encontrar a solução para o que mais o atormentava! Por fim, entregou o caso a Deus! 
Como ainda era cedo para fazer as migas com toucinho e chouriça para o almoço (pequeno almoço), lembrou-se de entrar na Igreja e deixar já tudo preparado para a missa, assim, almoçava mais descansado! Dirigiu-se à sacristia, ainda se via mal, abriu a janela e pegou na Bíblia no cálice e outras coisas, quando voltou sentiu que estava a ser observado, levantou os olhos viu um moço muito bem vestido e bem calçado, com menos de trinta anos, sentado num banco à frente olhando-o fixamente, com o chapéu pousado ao lado, ficou surpreendido por aquela presença e, apressou-se a dar-lhe: "bom dia"!
Estranho: Bom dia, senhor padre! 
Padre: O senhor não é daqui! Não o conheço! 
Estranho: Não sou, não, senhor padre! Sou passageiro e se for possível precisava de falar com o senhor padre!
O padre Manoel Marques aproximou-se imediatamente do estranho e disse-lhe que estava ao seu dispor!
Estranho: Queria pedir ao senhor padre se podia rezar uma missa para mim?
Padre: Oh homem, nunca rezei uma missa para uma só pessoa, espere um pouco, pode vir almoçar comigo e, às 9 horas assiste à missa de domingo!
Estranho: Não pode ser senhor padre, eu estou com muita pressa, tenho de seguir o meu caminho, não posso esperar até às 9 horas!  
Padre: Isso não me dá jeito nenhum, porque depois não me despacho até à hora de rezar a missa aos meus paroquianos, venha comigo até ali à casa Paroquial que depressa se fazem 9 horas! 
Estranho: Por favor, senhor padre, eu não posso esperar! Olhe, se rezar a missa para mim, eu dou uma esmola que pode mandar reparar a sua Igreja! 
Padre: Bem falta me fazia, mas eu não posso fazer essa troca! 
Estranho: Não podemos considerar que seja uma troca, porque não vou pagar a missa, apenas dou uma esmola de livre e espontânea vontade! 
O padre Manoel Marques ficou a pensar um pouco e, lembrou-se que tinha colocado o caso nas mãos de Deus e se estava ali a solução na sua frente, só podia ter sido Deus a enviar aquele estranho e aceitou rezar a missa! 
O padre levou alguns minutos a preparar-se e, depois começou a missa como se a Igreja estivesse cheia de paroquianos, o homem estranho acompanhou a missa com muita fé e sabia todos os preceitos, não deixou dúvidas que era católico praticante e assistente assíduo deste ato religioso! Quando findou a missa, o padre fez sinal ao estranho, como que, a dizer-lhe que tinha chegado ao fim e, dirigiu-se à sacristia! O estranho foi à caixa das esmolas que estava na sua frente e começou a meter moedas que, tilintavam e parecia nunca mais parar, quando o padre ouviu os passos do estranho a afastar-se, esperou um pouco, foi a correr à porta da Igreja e viu-o desaparecer pela estrada para sul, voltou para dentro, abriu a caixa das esmolas e ficou boquiaberto, estava quase cheia de moedas, entre as quais, muitas de prata, depressa a esvaziou e levou o dinheiro para a casa Paroquial, para conferir mais tarde, porque ainda tinha de almoçar antes da missa e, não demoravam em começar a chegar os paroquianos! 
O padre Manoel Marques, rezou e cantou uma missa, como ainda nunca ninguém tinha assistido, demonstrava uma satisfação que deixou os paroquianos intrigados, ainda mais, porque na missa nem disse o habitual sermão que, tinham de ajudar nas obras da Igreja! 
Depois de terminar a missa e, dos paroquianos irem às suas vidas, o padre Manoel Marques foi a correr contar o dinheiro da esmola deixada pelo estranho e, embora não soubesse quanto custavam as obras, teve a certeza que, chegava bem para o essencial e a Igreja de Santo António estava salva! 
No dia seguinte, segunda feira à tarde, o padre estava na casa Paroquial escrevendo uns assentos de batismos que tinha atrasados quando o sacristão o foi chamar porque estavam dois criados do lavrador da Defesa Del - Rei que traziam um homem que tinham encontrado afogado no rio Guadiana! O padre foi à rua falar com os homens para recolher o seu depoimento sobre o que tinha acontecido ao desgraçado que ali traziam, quem era, o que sabiam dele, mas os homens pouco adiantaram, disseram que o viram passar a cavalo no dia anterior na direção da Moinhola no Guadiana e como de manhã viram o cavalo perdido na margem do rio, foram contar ao lavrador e ele mandou-os ir procurar esse homem que tinham visto passar no cavalo preto! Cavalo preto? Perguntou o padre! Sim, um cavalo preto e, parece que o homem é um fidalgo, porque tem a divisa de uma casa real do reino nas roupas! Disse um dos criados! E continuou, o lavrador mandou o feitor falar com o capitão dos ordenanças a Terena e depois vem ter aqui a dizer se o homem pode ser sepultado aqui ou se temos de o levar para Terena, assim, temos de esperar pelas ordens! O padre aproximou-se  do defunto e pediu para o ver! Quando olhou para o estranho deu um salto para trás, parecia assustado! Então senhor padre, nunca viu um defunto? Disse um dos homens! O padre não respondeu mas murmurou baixinho: "olha para o que ele tinha tanta pressa, era por isso que não podia esperar pela missa das 9 horas"! Logo a seguir, chegou o sargento das ordenanças de Terena e o feitor da Defesa com instruções de sepultarem o estranho na Igreja de Santo António, porque não adiantava levá-lo para Terena, uma vez que, não sabiam nada sobre ele! O cavalo preto ficava na Defesa e se fosse reclamado tinham de acertar contas com o lavrador, caso contrário, ficava para ele em troca de o tratar e, fizeram o funeral do estranho que ficou sepultado na 6ª cova da terceira carreira contando da mão esquerda de cima para baixo! 
Três dias após o funeral do estranho, chegaram alguns fidalgos e criados destes com o sargento das ordenanças de Terena à Igreja de Santo António, pediram ao sacristão para falar com o padre Manoel Marques! Quando o padre veio à rua cumprimentaram-se e o sargento apresentou o fidalgo que estava a seu lado como sendo D. Lopo Gonçalves, de Estremoz, fidalgo do Reino! O padre no início não percebeu o que significava a presença daquele grupo de cavaleiros, mas lembrou-se que devia ser por motivo da morte do estranho que ali tinha sepultado! O padre mandou-os entrar para a casa Paroquial! O fidalgo começou por informar o padre que era o pai de António Gonçalves que ele tinha sepultado e, agradeceu-lhe pelo que tinha feito!  Disse-lhe que, era seu desejo levá-lo para a capela da família em Estremoz, mas já sabia que não o podia fazer, porque o capitão das ordenanças explicou-lhe que era proibido abrir a sepultura antes de cinco anos, caso contrário podia ser mal interpretado pela Santa Inquisição, assim, teria de esperar esse tempo para o levar para casa! Contou ao padre que não tinha chegado a tempo de o salvar, porque tinham sido induzidos em erro, seguiram o cavaleiro errado até Arraiolos e, quando encontraram a verdadeira pista do caminho seguido pelo António já era tarde, e adiantou que há muito tempo que o filho andava com tendência em se suicidar, tinham sempre um homem a vigiá-lo, mas durante a noite conseguiu escapar de Estremoz e o resto já o senhor padre sabia! Assim, o filho ficaria ali sepultado e sempre que possível a família vinha às missas que mandariam rezar pela sua alma! O fidalgo contou ao padre que o filho andava de cabeça perdida devido a uma grande paixão por uma rapariga com traços de cigana  que tinha conhecido na feira de Estremoz, andou algum tempo envolvido com ela mas a família teve de o proibir de a ver, porque não podia passar por aquela desonra, então a partir daí, com o desgosto, ficou perdido! O padre só ouvia e abanava a cabeça, umas vezes para baixo e para cima, outras vezes para os lados!
Depois, ditou ao padre os elementos de identificação referentes ao seu filho António, idade, 28 anos, filiação e, naturalidade Estremoz, para constar no respetivo assento do óbito! A seguir, foram todos à Igreja junto da sepultura do António, onde choraram e rezaram com o padre, durante alguns minutos!
O fidalgo levantou os olhos e ficou ainda mais triste, por deixar o filho sepultado numa Igreja quase em ruínas e perguntou ao padre porque motivo a Igreja estava naquele estado? E acenou com a cabeça para o sítio pior! O padre explicou-lhe a situação, que era falta de dinheiro e disse-lhe que no dia que o filho ali esteve, deixou uma boa esmola para a reparar, a não ser que o fidalgo quisesse que fosse devolvida! Nem pensar, se foi a última vontade do meu filho, isso seria impensável, respondeu o fidalgo! Depois, perguntou ao padre quando pensava fazer as obras, porque dentro de um ou dois meses queria voltar com a família e gostaria de ver tudo arranjado! O padre disse-lhe que, dentro desse tempo seria difícil, porque havia por ali poucos alvanéus e carpinteiros e teria de esperar que eles acabassem outras obras que estavam a fazer! Então o fidalgo disse-lhe que no máximo dentro de dois dias estaria ali um mestre de obras de Estremoz, para fazer a avaliação e, depois se o padre pudesse ir com ele para Estremoz comprava lá os materiais necessários, dormia na sua casa e, depois voltava com os alvanéus e carpinteiros que ele contratava e pagava os salários, assim, seguramente as obras estariam terminadas em dois meses! 
O padre concordou e acertaram tudo, o fidalgo esteve mais alguns minutos a chorar e a rezar junto à sepultura do filho, a seguir dirigiu-se à caixa das esmolas e meteu lá dentro a mão cheia de moedas, algumas de prata, despediram-se do padre e dos presentes e seguiram para Estremoz! 
Dois dias depois, conforme combinado, chegou à Igreja de Santo António o mestre de obras, passou algumas horas a averiguar, a tomar notas e, depois do jantar (almoço) partiram para Estremoz! 
Quando chegaram à casa do fidalgo, este veio receber o padre e começou logo por lhe dizer que durante a viagem de volta a Estremoz pensou em alterar o que tinham falado, mas para melhor, isso, se o senhor padre estivesse de acordo! Se é para melhor decerto estou de acordo! Disse o padre! Então a minha proposta é pagar eu tudo, os materiais de reforço das paredes e do teto, assim como aos alvanéus e carpinteiros e o padre pode mandar restaurar algumas imagens e outras coisas que achar necessárias! O padre Manoel Marques agradeceu a oferta do fidalgo e as obras de reparação da Igreja de Santo António, começaram uma semana depois, decorrendo como foi previsto! Os lavradores emprestaram alguns criados para ajudar e, antes do Natal a Igreja de Santo António estava pronta e tudo a brilhar! O fidalgo Lopo Gonçalves e a família vieram à missa de inauguração e continuaram a assistir a outras missas que mandaram rezar por alma do António, mas com o passar do tempo as visitas começaram a ser cada vez mais raras, passaram os cinco anos e muitos mais e nunca foi transladado para a capela da família em Estremoz, ficando para sempre sepultado na Igreja de Santo António em Capelins, no lugar antes descrito. 
Devido à desgraça do António, a Igreja de Santo António foi salva, ele já estava perdido, a Igreja estava a perder-se, o padre Manoel Marques estava a ficar de cabeça perdida, mas ficou tudo resolvido. 


Serra da Sina




sexta-feira, 20 de outubro de 2017

351 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins  
Os Montes de Capelins 
Era nossa convicção que, os Montes de Capelins, tinham sido construídos a partir de 1698, quando a Vila de Ferreira foi doada pelo Infante Francisco de Bragança à Casa do Infantado, mas após consultarmos várias fontes de informação, viemos encontrar provas contrárias ao que se pensava! Sabia-se que, a partir de 1314 o espaço geográfico ocupado pela atual Freguesia de Capelins, (exceto a Aldeia de Faleiros, Nabais e Sina), por iniciativa do Rei D. Dinis, passou a Vila Defesa, a qual recebia povoadores voluntários em troca de vários privilégios concedidos pelo reino, mas esses moradores tinham de estar todos alistados para defesa da Vila. Em 1433, a Vila Defesa de Ferreira foi doada por D. Duarte a Gomes Freire de Andrade, assim, todo esse espaço ficou com um só dono, mas os lavradores podiam arrendar parcelas em função das suas capacidades. Estes lavradores eram na maioria militares e ordenanças de altas patentes e, pelas provas que encontramos, algumas herdades e respetivos Montes foram construídos por esses mesmos lavradores antes de 1698, da Casa do Infantado, como foi o caso do Monte do Azinhal Redondo que consta num assento Paroquial de óbito de um moço espanhol de Vila Nueva del Fresno, encontrado morto numa cabana de Manoel Roiz no Azinhal Redondo, no dia 6 de Novembro de 1686. 

O primitivo Monte da Zorra, já existia em 6 de Fevereiro de 1697, dia em que faleceu o lavrador desta mesma herdade! O Monte da Talaveira, já existia em 8 de Janeiro de 1699, dia em que faleceu o respetivo lavrador!





segunda-feira, 16 de outubro de 2017

350 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da tragédia que deu o nome ao poço do chorão 
O poço do chorão situa-se no centro de Ferreira de Capelins, entre as antigas Aldeias de Capelins de Cima  e Capelins de Baixo, junto à estrada para Montejuntos! Dizem que este  poço é histórico porque, embora como charco, parece que, já existia há 2.000 anos, na época romana, formou-se naturalmente pelo encontro de vários cursos de água, vinda de diversas direções e encontrando-se nesse lugar! Quando os invernos eram rigorosos, esse charco tinha água pelo verão adiante, decerto com pequena nascente, permitindo dar de beber a pessoas e animais que ali passavam pela estrada um pouco abaixo, a única entre o rio Guadiana e Terena! Quanto à sua designação de "chorão" existem várias versões, sendo a mais comum: "que ali devia ter existido um chorão ou salgueiro", mas ninguém o viu, nem conseguiu ter confirmação dos seus antepassados da sua verdadeira existência! 
A lenda que conhecemos é muito diferente, o chorão não foi uma árvore, mas um homem, que ali muito chorou!
No ano de 1602 havia um lavrador em Terena que, tinha uma filha muito linda, chamada Madalena, que estava em idade casadoira e, perdeu-se de amores por um rapaz chamado António, seu vizinho e também filho de um lavrador cujas herdades encabeçavam existindo grandes desavenças entre eles, não se podiam ver, pelo que, seria impensável haver algum casamento entre os seus descendentes, mas quanto mais oposição existia por parte das famílias, mais eles se apaixonavam, até que, o pai da Madalena soube o que se passava e proibiu-a de se encontrar com o rapaz, mas como isso não acontecia, contratou uma criada muito severa, uma autentica carcereira para a guardar de dia e noite, as ordens eram para nunca a perder de vista! A Madalena deixou de falar e de ver o António e, nem conseguia mandar-lhe uma carta porque a criada não lhe tirava os olhos de cima e não deixava ninguém aproximar-se dela, estava prisioneira na sua própria casa! A situação tornou-se insuportável, a Madalena pouco comia e passava os dias a chorar! As irmãs e as criadas com muita pena dela davam voltas à cabeça sobre a forma de a ajudar, mas nada lhes ocorria, até que, uma das criadas mais velhas disse às meninas que se elas quisessem, tinha maneira de a ajudar, a bruxa de Terena era sua prima e fazia o que ela lhe pedisse! As meninas aceitaram a oferta da criada porque viam a irmã a definhar! A criada foi ter com a bruxa e depressa voltou, trouxe uma mesinha, era um pó para deitarem na comida da carcereira que a fazia dormir de dia e noite! A mulher dormia, dormia e a Madalena com a ajuda das irmãs encontrava-se com o António, mas ambos sabiam que os seus encontros tinham os dias contados, não podiam durar muito mais tempo, então, como não encontravam outra solução, decidiram fugir! Combinaram que desciam para sul até encontrar o rio Guadiana, depois era só irem descendo o mais próximo do rio, até ao Reino do Algarve e, aí começavam a sua vida! 
Depois de tudo preparado, numa noite muito escura, partiram, mas pouco depois da sua saída a carcereira acordou, foi ver se a menina continuava a dormia e como ela não estava na cama nem pela casa foi a correr acordar o lavrador que, em poucas horas tinha criados a procurá-los por todas as estradas em redor de Terena! O António e a Madalena aperceberam-se que estavam a ser procurados e, esconderam-se pelos matagais nas herdades da Boeira e Defesa de Ferreira! Como todos os caminhos estavam vigiados, também por pessoas a quem o lavrador tinha prometido grandes alvíssaras, durante o dia não podiam sair dos matos e como de noite era perigoso, pouco conseguiam avançar para sul! Já tinham passado quase dois meses e não havia nenhuma notícia deles, até que, quando um ganadeiro subia o atual ribeiro da aldeia de Ferreira com as ovelhas e sabendo da existência daquela fonte de água ia na sua direção e ouviu os seus cães a ladrar muito, pensou que seria algum lobo perdido, porque era tudo matos, ainda não existiam casas naquele espaço, foi averiguar ao que os cães ladravam tanto, mas ainda estava distante, apercebeu-se do mau cheiro e mudou de ideia, afinal era um animal morto e chamou os cães, mas eles não obedeceram! Como o seu destino era o charco ou fonte, continuou, mas o cheiro era insuportável e não teve outro remédio senão tapar o nariz com a fralda da camisa e aproximar-se dos cães, com o pau de guardar o rebanho afastou a vegetação e viu dentro do ribeiro a roupa muito esfarrapada de uma mulher e os cabelos compridos caídos sobre outra pessoa, da qual só aparecia parte da cabeça! Deu um salto para trás e afastou-se imediatamente, zangou-se com os cães que acabaram por lhe obedecer, chamou o ajuda e disse-lhe para não se aproximar  daquele lugar, mandou-lhe juntar o rebanho e seguir ribeiro abaixo para  a choça e disse-lhe que, tinha de ir a correr tratar de um assunto a Terena! 
O ganadeiro seguiu logo para Terena e foi recebido pelo capitão dos ordenanças, ao qual relatou o que tinha encontrado, disse-lhe que, pela roupa e pelos cabelos pareciam-lhe uma mulher e um homem! O capitão pensou logo na Madalena e no António, chamou dois ordenanças que os conheciam, passou-lhe a informação e disse-lhe que fossem com o ganadeiro ao dito lugar confirmar se eram os desaparecidos! Os ordenanças não conseguiram ter a certeza, mas recolheram as provas possíveis e, foram falar com as famílias que, por aqueles dados tinham a certeza de que eram mesmo eles!
Em toda a Vila de Terena, soube-se imediatamente e foi um grande desgosto para as famílias e para todas as pessoas, que odiaram e culparam o lavrador pela tragédia! 
As famílias tiveram de ir lá ao lugar reconhecê-los, porque não podiam existir dúvidas, o que só foi possível pela roupa e cabelo! Quando o lavrador se preparava para levar a Madalena para ser sepultada na Igreja Matriz de Terena, o capitão das ordenanças disse-lhe que não podia autorizar, porque já tinha feito uma reconstituição do que teria acontecido e, tudo indicava que eles tinham sido contagiados com peste em alguma fonte, depois, ele faleceu primeiro e, ela não o deixou, acabando por morrer ou com peste ou com fome junto dele, porque estava por cima e, pelo estado em que estavam, decerto havia mais de um mês, por isso, tinham de ser sepultados imediatamente naquele lugar e depois queimar tudo em volta! O lavrador não queria aceitar a ordem do capitão, mas a lei era muito rigorosa, todas as aldeias, vilas e cidades ardiam em peste desde 1600 e, ele teve de ceder, sendo ambos sepultados junto ao dito caminho! O lavrador sofreu grande desgosto, sentia-se culpado pela morte da filha e, durante quase vinte anos, enquanto viveu, foi diariamente onde a Madalena estava sepultada a pedir-lhe perdão e, enquanto lá estava, chorava, chorava, chorava, mas já era tarde, e foi assim que este lugar ficou a designar-se por chorão! 
Cerca de duzentos anos mais tarde, o charco (fonte) foi aprofundado e empedrado, passando a designar-se poço do chorão por se situar no lugar do chorão e, ao longo de séculos deu de beber a pessoas e animais das terras de Capelins e, a quem por ali passava.
Tanta gente que namoraram ali, sem saberem esta história de amor e, beberam a água do poço do chorão! 
O poço do chorão, ainda hoje, é propriedade da Junta de Freguesia de Capelins! 


Poço do chorão em Capelins




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

349 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da Construção da Igreja de Santo António de Capelins 
Conforme consta em documentação conhecida, a primitiva Igreja de Santo António de Capelins, (então Ermida), foi construída cerca dos anos de 1517/1518, na herdade da Sina que, se designava por Cabeça de Sina e, era considerada uma das melhores Montarias do Reino (Coutada), como consta no livro das Montarias do Reino. Nessa época, as caçadas eram muito importantes na vida da fidalguia que, ao mesmo tempo lhe servia de treino militar. Todos os fidalgos queriam caçar nas Montarias mais famosas, entre as quais na Cabeça de Sina, uma das quatro doadas pelo povo de Terena ao Rei D. João I em troca das 1000 libras para ajudar na construção da barbacã e reforço das muralhas do seu Castelo!
Nessa mesma época, existia um fidalgo da Corte do Rei D. Manuel I, capitão de Armadas, o qual, em 1509 comandou uma Armada por terras da India e parte do Oriente que, como consta em diversos documentos, não foi bem sucedido em termos militares mas, devido a alguns bons negócios comercias pessoais, conseguiu enriquecer, o que não o fez esquecer o seu Alandroal de onde era natural e onde a sua família residia, sendo o seu pai o Alcaide Mor desta Vila. Assim. sempre que punha o pé em terra, vinha sempre passar aqui alguns dias e foi numa dessas visitas que mandou preparar mantimentos, cavalos, cães, fusis e tudo o que era necessário para passar algum tempo a caçar nas terras de Terena, ficando a comitiva instalada no Castelo desta Vila e dali deslocavam-se diariamente às melhores Coutadas Reais. Saíram do Alandroal logo de manhã cedo para Terena, a fim de aqui se prepararem e saber junto dos administradores locais, quais eram os melhores lugares para caçar, sendo-lhe indicada a Coutada da Cabeça de Sina, porque não havia por ali nenhuma igual em caça grossa!
Na madrugada seguinte, a comitiva seguiu pelo Monte Branco, Ai Ai, Monte Abaixo, Faleiros, subiram pelo caminho que existia na Cova da herdade da Sina que entrava noutro caminho que vinha dos lados de Ferreira, no lugar onde se situa a Igreja de Santo António, aqui tinham de virar à esquerda para se dirigirem à casa dos guardas e de apoio aos caçadores que ficava a cerca de 100 metros, porém, quando a comitiva ia no referido lugar cruzaram-se com um frade de Jesus da pobre vida, cujos frades eram protegidos pela Diocese de Évora, o qual vinha em sentido contrário! Alguns fidalgos, nem reparavam nele, uma figura muito franzina, sumida nuns trapos, irradiando pobreza à distância, e que só não passou despercebido porque os cavalos pararam repentinamente e fizeram-lhe uma vénia! Os fidalgos ficaram indignados e reagiram mal contra os cavalos, tentando fazê-los avançar, mas eles continuaram parados e nada os fazia sair dali, armando-se uma grande confusão! O frade foi-se afastando  para os lados da serra da Sina e, só depois os cavalos se acalmaram e seguiram o seu caminho! 
Os fidalgos passaram o dia nas caçadas e, pela tardinha voltaram a Terena, mas no momento que estavam a passar no mesmo lugar vinha o pobre frade de volta e, novamente os cavalos tiveram exatamente o mesmo comportamento, só depois do frade se afastar dali, os cavalos continuaram a andar a Terena! 
À noite, durante o jantar e ao serão o assunto foi comentado por todos e, não conseguiram encontrar explicação para o sucedido! 
Na madrugada seguinte, a comitiva seguiu o mesmo caminho de Terena para a Coutada da Cabeça de Sina, quando ali chegaram, lá vinha o pobre frade eremita e repetiu-se tudo como no dia anterior! O fidalgo apeou-se do seu cavalo e foi falar com ele, cumprimentou-o e perguntou-lhe qual era o motivo daquele acontecimento, porque não existia nenhuma dúvida que aquilo, era devido à sua influência! 
O pobre frade pediu desculpa pelo que tinha acontecido e disse-lhe que não tinha feito nada propositadamente, estava ali como mandatário do seu Senhor Santo António, para lhe construir uma Igreja (Ermida) naquele exato lugar, mas era tão pobre e fraco que nem uma pedra conseguia juntar, por isso procurava ajuda! 
O fidalgo ouviu o pobre frade com muita atenção, pensou que fazia mesmo falta ali uma Ermida e logo a seguir disse-lhe: Fica descansado, não precisas de juntar nenhuma pedra, assim que tiver autorização do rei meu senhor a Igreja (Ermida) em honra do teu Senhor Santo António vai ser construída aqui neste lugar, despediu-se, montou a cavalo e a comitiva seguiu sem impedimento! 
À tarde quando voltavam a Terena, chegaram aquele lugar e os fidalgos estavam à espera de encontrar o pobre frade e de tudo se repetir, mas passaram normalmente e nem sinais do frade nem reação dos cavalos! Perguntaram ao fidalgo qual a razão daquela mudança e, ele apenas lhe disse que estava tudo resolvido e não se falava mais no assunto! Os fidalgos continuaram mais alguns dias pelas terras de Terena e, tudo decorreu normalmente! 
O fidalgo, logo que chegou ao Alandroal, escreveu uma carta ao Rei D. Manuel I a pedir autorização para construir uma Igreja (Ermida) a Santo António, nas terras do Reino, no lugar da Cabeça de Sina, por ali ter estado numa caçada e ter sentido a falta de uma Ermida para rezar! Como sabia que, o Rei se encontrava em Estremoz, mandou um ordenança entregar a referida carta e, através do correio enviou igualmente cartas a dar conhecimento ao Arcebispo e Diocese de Évora! 
A autorização do rei não demorou a chegar às suas mãos e, o fidalgo deslocou-se a Terena onde deixou tudo tratado e pago para a construção da Igreja (Ermida) de Santo António, cujas obras começaram imediatamente sob gestão do Prior de Terena! 
A Igreja (Ermida) de Santo António depois de terminada foi benzida e, temos provas de que, no ano de 1518, já aqui eram cantadas e rezadas Missas. 

Quase tudo o que está narrado nesta lenda, foi verdade, não revelamos o nome do fidalgo, porque não temos nenhum documento específico comprovativo! 
O que conhecemos sobre quem mandou construir a referida Igreja, (Ermida) enquadra-se no fidalgo do Alandroal, incluindo uma prova física que, por razões de segurança, não podemos aqui divulgar! 


Igreja de Santo António de Capelins



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

348 - Amigos de Capelins 
História da Vila de Terena escrita pelo Prior Mathias Viegas da Sylva, em Memórias Paroquiais de 17 de Junho de 1758  Villa de Terena
Villa de Terena Comarca de Elvas 
He a Villa de Terena huma das mais antigas da Provincia de Alem Tejo, sita na raya, duas legoas distante do Guadiana termo (Concelho) dos dous reinos, a Lusitania e a Hespanha.
Pertence ao Arcebispado de Evora e à Comarca de Elvas. He Terra hoje da Coroa, antigamente teve Donatário chamado D. Gil Martins.
Tem a Villa e seo contiguo arrabalde 272 visinhos (fogos) e 497 pessoas; exceptuando os menores que ainda não têm lugar no rol das confissões, (os menores de sete anos).
Está situada em huma eminencia que tem mayor subida pelo Poente, e Nascente: e pela parte do Norte há menos declives, por esta corre a mayor parte dos seos edificios.
Tem proprio termo (Concelho), e no desta Freguezia so tem a aldeya chamada das Hortinhas, meya legoa distante desta Villa, que se compõe de 30 visinhos (fogos) e 70 pessoas.
Desta Villa se descobrem as Villas de Monsaras distante três legoas; a de Chelles do Reyno de Castella duas legoas, e mais a de Alconchel no longe de quatro legoas; célebre pelo forte e cerrado do seo Castello, e digno de memória pelas repetidas vezes que se tem visto so gasto pelas armas Portuguezas.
A sua Paróquia, ou Matriz se ve logo da estrada da Villa, e a ella contigua, pela parte do poente, para onde respeita a porta principal da mesma.
Venerão por seo Orago ao Principe dos Apostollos São Pedro, cuja Imagem se ve collocada no Altar Mayor de hua parte, e da outra a da Senhora da Conceição. Tem mais quatro Altares postos a face da Igreja: hum do Santo Nome de Jesus; os outros três de São Miguel, Nossa Senhora do Rozário e de São Francisco. Tem as Irmandades do Sacramento; De São Pedro, que he de Echlesiasticos; de São Miguel e Almas, e do Rozario. A renda da Capella do Santo Nome administra o Prior com hum Escrivão, e Thezoureiro. Sendo todas da jurisdição Real, por serem leigas as Irmandades. Tem São Francisco Sua Ordem Terceira, de que he Comissário o Reverendo Comissário dos Terceiros dos Religiosos observantes do Convento de São Francisco da Villa de Olivença.
He este Templo de huma só nave, e de muito suficiente capacidade para o numero de freguezes por cujo zelo de poucos annos se acha reedificalo.
Tem esta Igreja Matriz um Prior, e dous Beneficiados curados que propriamente são coadjutores do Prior. São da appresentação Real, por serem inteiramente do seo Padroado. Tem de renda o Prior trezentos mil réis; e cada hum dos Beneficiados sincoenta.
Há neste termo (Concelho) duas Parochias: de San Thiago Mayor e de Santo António (Capelins), distantes huma legoa da Villa: creadas para mais fácil, e cómoda administração dos Sacramentos que não poderia haver da Igreja Matriz, por causa da distancia. São estes dous curados da appresentação do Excellentissimo Ordinario; e as Igrejas suffraganeas da matriz, por cujo motivo pagam por titulo de reconhecimento, cada hum dos curas 400 réis annuais ao Prior da Matriz. A sua congrua (imposto que por meio de contribuição ou derrama Paroquial se dá a Curas, Párocos ou Cónegos, para viverem nas Freguesias onde não há os dízimos eclesiásticos) he constituída pelos seus Parochianos, cuja importância com melhor averiguação exporão os ditos curas. 

Não Logra esta Villa ou o seu termo (Concelho) a ventura de ter Convento de alguma família Religiosa. Tem uma caza, a que chamam Hospital, aonde se recebem os pobres passageiros, tão pobres que bem se parece com os mendigos que hospedam. 
Foi frustrada toda a diligencia, que se pôs na indagação dos principios da Caza da Misericórdia desta Villa. Sempre foi timbre dos antigos o empenhar ser mais no obrar, que no escrever. As Cazas da Misericórdia foram constituídas para o exercício da charidade, e obras de Misericórdia nas esmolas, que quotidianamente nellas se dispendem; e o fundador desta Caza talvez accomodandoas com o preceito do Evangelho para que a sem escrito as esmolas, sua mão esquerda não soubesse o que a direita obrava não quiz entregar à memória, deixando-nos em escrito as esmolas, que fazia, na Caza da Misericórdia que fundava. 
A sua renda de cento e quarenta até cento e sinquenta mil réis.
Fora desta Villa em muito pequena distância há duas Ermidas; a de S. Sebastião que pertence à Camera e a de Santo António que pertence ao Prior, como annexa que he da Matriz. Huma e outra têm Cappelão: o de S. Sebastião tem obrigação sommente de Missa nos Domingos; o de Santo António de Missa quotidiana. Tem a Ermida de Santo António três Altares. No principal estão as Imagens de Santo António titular da Caza, São Gregório, e São Bento, que tem sua Confraria. No Altar collateral está a Senhora do Carmo, que tem Irmaons do Bentinho; e outro he de São Vicente Ferrer.
Na distância de oitocentos passos pouco mais ou menos está o antigo Templo da Senhora da Boa Nova, especial Patrona desta Villa. Foi este fundado, [se damos credito aos Autores que assim o escrevem] por Marhabal capitão carthagines, e dedicado a Cupido formado de  fina prata, e a aljava, e o Arco de ouro puro, três mil e seiscentos e três annos depois da Criação do Mundo, e trezentos e sincoenta e nove annos antes do Nascimento de Christo, como consta do Santuário Mariano 66 e da coronica de Fr. Bernardo de Britto. 
He a architetura deste Templo por modo de huma torre Capella de pedra parda na forma de cruz, coroado de ameyas. Alem do Altar Mor, em que está a Imagem da Senhora, tem dous collateraes: hum de Santa Catarina Mártir, e o outro de São Bras. Tem seo Capellão, a quem dá a Comenda que anda na Caza do Conde de Villa Nova (de Portimão) moyo e meyo de trigo, e seis mil réis em dinheiro. Os (?) desta Igreja, e o mais que pertence ao culto divino são obrigaçoens da Comenda. He esta Igreja da Ordem de São Bento de Avis.
A principal festa desta Senhora he no dia, em que a Igreja cellebra a da Senhora dos Prazeres com grande concurso dos pares em roda. São os Pastores desta terra e das circunvizinhas os Mordomos da festa; trazendo em sollene procissão na véspera, depois do sermão, a Sagrada Imagem da Senhora para a Igreja Matriz, e no dia pela manhã com a mesma correndo primeiro as ruas principais da Villa a acompamhão à sua Caza aonde prosseguem os cultos da Sua solene Festa. 
O Senado da Camera desta Villa costuma festejar a mesma Senhora no dia vinte e sinco de Março e oito de Setembro. Em o primeiro Domingo de Mayo he a Festa do Senado de Jeromenha. A Camera do Landroal também festeja a mesma Senhora, porem não tem dia determinado. Os moradores da Freguesia de São Bras, e os da Ribeira de Pardaes vindo em romagem fazem a sua festa à mesma Senhora; aquelles no Domingo do Espirito Santo, e estes na primeira oitava da mesma solenidade. E nos demais tempos do anno são muitas as pessoas, que em romagem visitão a mesma Senhora.
Sabemos por tradição, que foram muitas as visitas, que os Sereníssimos Duques de Bragança fazião a este Sagrado Templo: e em memória desta sua Pia e jenerosa devoção ainda hoje ardem as suas alampadas huma às expensas da ditta Sereníssima Caza.
Foi o ditto Templo, como consta do sobredito Santuário Mariano, consagrado a Maria Santissima com o titulo de Boa Nova pela Rainha Dª Maria molher Del Rey Afonso 11 de Castella no tempo da invasão dos Mouros na Hespanha, filha Del Rey D. Affonso 4º de Portugal, por receber naquelle lugar a nova, que o ditto seu Pay D. Affonso 4º lhe concedia o socorro pedido contra os Mouros, que antes lhe tinha negado.


Os frutos da terra, que em mayor abundancia recolhem os moradores desta Villa são trigo, cevada e senteyo: e de arvores são abundantes os que ressebem do arvoredo de azinho: porque possuem os sobreditos moradores do seo termo (Concelho) sete Erdades, juntas e humas separadas a que chamão Baldios, de montados de azinho, alguas das quaes nos forão deixados pelo seo antigo Donatário D. Gil Martins, para os poderem desfrutar e comer com os seos gados sem que nos ditos possão entrar gados de pessoas de fora: com obrigação porem de suprirem os gastos da Camera, aonde não chegarem as próprias rendas: com o privilegio porem de se não tirar a Terça Real (doação que o Concelho fazia ao Rei da terça parte das suas rendas para que com esse montante o monarca provesse à manutenção das fortalezas do reino) das quantias dadas pelos moradores, como consta de algumas sentenças registadas nos livros da mesma Camera.
Além dos ditos Baldioas ha neste termo (Concelho) sete Defezas (grandes herdades) e trinta e seis Erdades de montados de azinho; pelo que são abundantes os fruttos deste arvoredo.
Teve Juízes Ordinários esta Villa até ao anno de 1753, e o primeiro Juiz de Fora (Presidente da Câmara), que a petição de alguns seos moradores, lhe foi concedido, tomou posse em 8 de Outubro do sobredito anno. Tem Camera sem sojeição a outras justiças.
Tem feira três dias, franca, que tem principio no dia oitavo de Setembro com os mesmo privilégios da feira de S. João de Évora, ainda que pela pequenez do povo dura só hum dia até dois.
Não tem  correyo mas sim hum estafeta posto pela Camera ha seys annos , e pela mesma satisfeito; sendo conduzidas as cartas ao presente da Villa do Redondo distante duas legoas; e chegão na quinta feira por noite e voltão na sexta feira de tarde. O correyo é de Estremoz distante quatro  legoas, donde parte a quinta feira pelo mesmo dia pelo estafeta do Redondo. 
Dista esta Villa de Evora cidade capital do Arcebispado sete legoas, e da Corte de Lisboa vinte e sete. 
Têm os moradores desta Villa e termo (Concelho) o privilégio de não pagarem direito de Portagem, como consta pelo Foral concedido pelo Senhor Rey D. Manoel aos dez de Outubro de 1514, que se acha tombado (arquivado) na torre do Tombo. Também pelo mesmo Foral, lhe he concedido a isenção de tributo algum das carnes ou (?) que se (?) no (?) de Terena ainda sendo pessoas de fora excepto o real da fortificação, que chamão o real de agoa.Tem esta Villa seo castello que se diz ser obra do senhor Rey D. Dinis. Dos edificios interiores, e particulares só se achão vestígios, e os poucos que existem se achão arruinados.
No Terremoto de 1755 cahirão algumas partes superiores do dito castello, são notáveis; e a sua torre grande recebeo algumas aberturas; e a abobeda da mesma que já tinha principio de ruina cahio toda trazendo consigo precipitada huma pequena caza  em que estava recluzo o Relógio governo desta Villa, sem o qual se acha até ao prezente, sem ter experimentado reparo algum, o qual pertence ao Alcaide Mor.
A Ermida de S. Sebastião pertence ao Senado da Camera, como dito está, experimentado algumas aberturas nas suas paredes se julgou conveniente deslançar em terra o seu tecto para que com o seo pezo não fosse mayor a ruína e agora se acha esperando por reparo.
A Igreja Matriz, e a Ermida de Santo António, que pelo Terremoto se virão com algumas aberturas, se achão inteiramente reparadas.

Corre junto desta Villa huma ribeira com o nome de Luçafece, termo divisório dos dous termos (Concelhos) de Terena e Landroal. Tem esta seo nascimento em huma Lagoa que está no sitio de Rio de Moinhos, termo (Concelho) de Estremoz, e de outras agoas, que descem da Serra doça, distante a dita Lagoa desta Villa três legoas: e correndo pelas faldas da mesma Serra, paulatinamente vai engrossando suas correntes: passa pelos termos (Concelhos) de três Villas, Borba, Vila Viçoza e Landroal, correndo em (?) gyros sempre solitária até que se avisinha de Terena em distância para mais (?) daqui passa junto à Ferreira Villa da Sereníssima caza do Infantado, distante huma legoa; depois correndo outra legoa entre o Baldio do Roncão deste termo (Concelho) e a Erdade do Aguilhão, termo (Concelho) do Landroal, entra no Guadiana (?) menos agradecido depois de lhe receber as agoas tira-lhe o nome.
São sinco legoas do lugar aonde nasce até o Guadiana onde morre. Corre do Norte para a parte acima do Sul: Somente conserva a sua corrente neste termo (Concelho), enquanto as chuvas lhe formão as mesmas correntes, que no estio se veem extintas. He o seo curso neste Pais moderado (Clima moderado) sem muita precipitação, por serem planicies os campos por onde passa. He abundante dos peixes, que comummente há nas ribeiras pequenas desta provincia. As mais frequentes pescarias que nela se fazem [que são livres] são no Inverno até aos fins de Abril. Fora mais piscoza esta ribeira se na sua foz não tivera hum açude alto e forte, que lhe impede a subida dos peixes do Guadiana com a do Luçafece subindo muito sobre o dito açude; o qual parece devia ser demolido; porque sempre o bem comum prevaleceo ao particular.
As suas margens neste termo (Concelho) há poucos annos que se vê começarão a cultivar com hortas de melão, e melancia, e os mais frutos, que costumão andar juntos. O arvoredo, que se vê nas suas margens he de azinho, e o silvestre de alandros, de que he abundantissimo ainda no interior da ribeira. He este mato infrutifero, e de tal qualidade, que das suas flores, que só são agradaveis à vista, se não aproveita  a Republica das abelhas para a misterioza fábrica do seo trabalho.
Tem huma ponte muito capaz, que da livre e segura passagem aos passageiros, e ainda às carruagens, composta de seis arcos, obra de cantaria que continua que domina as suas mais sobidas e arrogantes inundações; que começão deste termo (Concelh o) no sitio que vulgarmente chamão o carrascal, descansa na margem opposta  do termo do Landroal na raíz de hum outeiro, em cuja eminência  se venera o gloriozo Martir São Gens em huma Ermida que he da Ordem de São Bento de Aviz.
Tem esta ribeira no termo (Concelho) desta Villa dezasseis Moinhos, e hum Lagar de azeite, a que chamão o Lagar da ribeira: e no Guadiana dentro do mesmo termo, na Freguezia de Santo António (Capelins), se achão nove, e hum no Ribeiro do Azavel.
Entrão na dita ribeira no mesmo termo (Concelho) sette ribeiros de nome; o ribeiro da Silveira, o de Alfardagão, o da Albragaria, dos (?)adros; o Alcayde, o Garrão, (Carrão)  e o Azavel.
No Baldio a que chamão Malhada Alta. há uma fonte, de pouca agoa, a qual chamão santa; pois se tem visto, que bebendoa muitos enfermos especialmente os que padecem de terçons, tiveram remédio nas suas queixas; o que atribuem a favor de huma Imagem de N. Senhora da Conceição, que está pintada na fonte, e não a especial virtude da sua agoa; por cujo motivo he visitada de muitos enfermos.
Esteve fundada esta Villa, ao longo da ribeira por cuja causa só estava a Villa longa, da qual era Matriz e se chamava a Igreja da Senhora da Boa Nova que ainda hoje conserva a Pia Baptismal depois ou por insconstancia dos tempos ou por ser menos saudável pela mismia vizinhança da dita ribeira, pela corrupção das suas agoas.
No tempo do estio, se passou para a eminência aonde se acha; e deixando o nome de Villa Longa (Nunca se conheceu nenhum documento de prova que tivesse oficialmente esta toponimia) tomou o de Terena. Dizem que por clamar neste sitio o postilhão: Ter, ter, à Rainha D. Maria de Castella, que se retirava de Portugal, para lhe dar a nova do subsidio, que já lhe concedia contra os Mouros, como acima fica dito". 




Terena 17 de Junho de 1758

O Prior mathias Viegas da Sylva


Nosso comentário: 
Pensamos que, esta ultima parte escrita pelo Sr. Prior Mathias Viegas da Sylva, não está correta, porque a Vila quando estava situada junto à ribeira de Lucefécit já se designava Terena, assim consta em vários documentos e, nos versos do Rei Afonso X o Sábio, do Reino de Castela. Enquanto Terena foi junto à dita Ribeira, a Matriz era de Santa Maria, conforme provam vários documentos e também os mesmos versos daquele Rei, que foram feitos cerca de 1265/1270!  





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