sábado, 30 de setembro de 2017

345 - Amigos de Capelins 

História do Alandroal 
Dicionário geográfico 1747 Padre Luiz Cardoso 

"Alandroal ou Landroal. Villa na Provincia do Alentejo, Bispado de Elvas, Comarca de Aviz: eh seu Donatário o Grão Mestre de Aviz, em cujo dominio, e protecção está El-Rey nosso Senhor, como Regente, Governador, e Administrador. Consta de trezentos e sessenta e quatro visinhos (fogos) dentro da Villa, e no seu termo (Concelho) cento e vinte e hum, e não tem Lugar, ou Aldea alguma. Fica situada esta Villa nove legoas ao Sueste de Aviz, quatro da cidade de Elvas para o Sul, e legoa e meya ao Sueste da Villa de Borba. Tem seu assento na chapada de hum monte, que olha para o Poente: he partida em duas partes, e no meyo dellas fica o castello; a parte de cima se chama a Mata, e fica entre vinhas, e olivaes; e a parte de baixo está entre hortas, e farrageais de arvores fructiferas de espinho, e mais frutas, e lhe chamão o Arrabalde. He tradição tomara esta Villa o nome dos Allandros, que são humas plantas com folhas semelhantes às do louro; posto que mais grossas, e lizas, e a flor como rosas, das quais havia grande copia na sua fonte, abaixo da qual fica huma grande horta, a que chamão do Mestre, pelo ser dos Mestres de Aviz, no tempo em que os havia. 
O Castelo de Alandroal 
O castello tem sete torres em roda com sua muralha, e contra muralha, no meyo tem uma grande torre, e quatro portas; a mais principal fica entre duas torres, e na qual fica à mão esquerda ao sair para fora, tem huma inscripção, que diz assim: Deos he, e Deos será por quem elle for, ese vencerá. Sobre esta porta do castello, na altura de huma lança, está outra inscripção em huma pedra branca, que diz o seguinte: Era de mil trezentos e trinta e dous, a seis dias de Fevereyro começarão a fazer este castello por mandado do Mestre de Aviz Dom Afonso, e elle poz a primeyra pedra M.E.E.6.3.E. castello. Sobre a outra porta se vê a cruz da Ordem de Aviz com duas aguias, dos braços para cima dous grilhõs ao modo de Calatrava,e ao pé humas letras, que dizem: Mouro me fez.
A torre grande tem no meyo huma cruz da Ordem, com a seguinte letra: Era de mil e trezentos e trinta e seis annos a vinte e cinco dias andados de Fevereyro fez este castello D. Lourenco Affonso, Mestre de Aviz, à honra e serviço de Deos, e Santa Maria sua madre, dos herdeiros do muyto nobre Senhor D. Diniz Rey de Portugal, e dos Algarves reynante naquelle tempo , em defendimento dos seus Reynos: Salvator mundi, salva me. No canto da torre está outra inscripção, que é como a primeyra a porta Legali etc. Na porta desta torre, que cahe sobre o muro, em huma grande pedra branca, se lê o seguinte: Quando quizeres fazer alguma cousa, cata o que te he necessário, e depois verás, e quem de ti se fiar não o enganes, lealdade em todas as cousas.
Descobrem-se desta Villa para o Nascente a Villa de Juromenha, e a de Olivença; e para Poente a Cidade de Évora, e a Villa do Redondo; e para a parte do Sul a Villa de Monsarás; e do mais alto da torre grande do castello, se descobrem ao Norte a Villa de Estremoz, e ao Sul a Villa de Mourão. 
Esta Villa tem Termo (Concelho) seu, que se estende por espaço de três legoas, desde o penedo do Machos, até à herdade do Aguilhão, que fica contígua ao rio Guadiana. Comprehende dentro de si a Freguesia de N. Senhora do Rosário. Há nesta Villa huma só Paróquia, fundada dentro do castello: he Igreja da Ordem de Aviz; e tem por Orago N. Senhora da Conceição: Consta de cinco altares, o mayor com a imagem da Senhora, e dous collateraes; hum da parte do Evangelho, dedicado a N. Senhora do Rosário; e outro da parte de Epistola de N. Senhora do Carmo. No corpo da Igreja, que he de huma só nave, há mais dous altares particulares; hum das Almas da parte da Epistola; e outro do Menino Jesus da parte do Evangelho. Há nella cinco Irmandades, a do Senhor, a de N. Senhora do Carmo, a de N. Senhora do Rosário, a das Almas, e a da Cruz de Christo.
O Paroco he Prior, e tem dous Beneficiados providos pelo Tribunal da Mesa da Consciencia, todos do habito de S. Bento de Aviz. O Prior tem de renda três moyos de trigo ( 1 moio = 720 Kg), dous de cevada, e vinte cinco mil reis em dinheiro. Os Beneficiados têm cada hum de renda dous moyos de trigo, moyo e meio de cevada, e dez mil reis em dinheiro.
No caminho da fonte, que vay para o arrabalde da Villa, ha vestigios de hum Hospicio, que fundou, e dotou com boa renda Diogo Lopes Siqueira, no qual se diz, que assistião tres Monges de S. Bento, e era obrigação terem huma cadeira de Latim, e outra de Theologia Moral, que não tem, e cobra as rendas, que passão de tres mil cruzados, ao Mosteiro de S. Bento dos Negros da Cidade de Lisboa.
Tem Casa da Misericórdia, de cujo principio não há noticia, e huma casa, que serve de Hospital para recolhimento dos pobres passageiros. No redor desta Villa há cinco Ermidas, que são a de S. Pedro, a de N. Senhora da Consolação. Nesta Ermida jaz, sepultado Diogo Lopes Siqueira, que foy o que fundou o Hospicio dos Monges Bentos, de que acima fallámos, juntamente com seus filhos, na sepultura, que aqui se vê de pedra marmore, com seu epitáfio. A de N. Senhora das Neves, a de Santo António, e a de S. Bento, Imagem muito milagrosa, a cuja intercessão confessão os moradores não entrar peste nesta Villa em nenhum tempo, e o mesmo Santo assim o prometeo apparecendo a hum seu devoto por nome de João Serigado. Para se livrar do contágio, em que ardião as vizinhanças desta Villa, se recolheo a ella a Senhora Duqueza de Bragança com sua filha a Senhora Dona Isabel, e com toda a sua familia no anno de (1600?), no tempo do Senhor Rey Dom Sebastião; e depois de entrar nella, nenhuma pessoa adoeceo.
Este exemplo imitarão outras muitas pessoas, que feridas do mortal contagio, o mesmo era chegar a esta Villa, que ficarem livres da peste. Deste milagre do Senhor faz menção Fr. Leão de Santo Thomás na Benedictina Lussitana. No tempo antigo acodião a esta Ermida; hoje porém he menor o concurso, e só na ultima Oitava da Pascoa se ajunta muita gente. Dentro desta Villa está a Igreja, ou Ermida de S. Sebastião, a qual diz ser mais antiga, que a mesma Villa, e de novo reedificou fazendo-se toda no anno de 1722.

Ao fundo da praça há uma fermosa fonte, de que bebe o povo: he de pedra branca, com seis bicas de bronze, e com seu taboleiro ao redor da mesma pedra: tem oitenta palmos em quadro, vinte de canto a canto, e oito palmos de altura de agua, que sempre está lançando por cima. Com a agua, que sobeja se alimentão varias hortas que estão em seu rego, e passando por muitos jardins: daquy vai fazer moer tres lagares de azeite, pouco distante dos limites desta Villa. Ha outra fonte, a que dão o nome de Fonte das Freiras, que rebenta do coração de huma rocha, de bruta e tosca Peneda, que dá agua a muitas hortas, e pomares. Entre esta fonte, e a Villa ha um sitio, a que chamam de Villares, donde querem alguns estivesse antigamente fundada esta Villa; e não parece fora de razão pelos vestigios, que ali se achão, como são telhas, e ladrilhos; hoje porém, se acha povoado de olivaes.
Dentro destes olivaes ha dous algares de agua muito fundos, os quaes hoje se achão cobertos por cima de abobeda, prevenção dos moradores da Villa, para evitar as desgraças, que nelles podião suceder. parece terem daqui seu principio as fontes desta Villa, e de outras Povoações circumvizinhas, e lhes reparte as aguas por meatos subterraneos; porque já houve homem curioso, que lançando em um dos ditos algares tres cantaros de azeite, foy sair a esta Villa em varios olhos; e em outra de Villa Viçoza, na Villa de Estremoz, na Villa do Cano, na da Villa de Aviz, nas Fontes Furadas, Termo da Cidade de Évora, e finalmente na lagoa de Alhanoura (Ana Loura), Termo da Villa de Estremoz, Desviado desta Villa huma legoa, mas ainda no seu Termo (Concelho), corre a serra de S. Miguel, nome que lhe deu uma Ermida deste Soberano Archanjo, que se ve edificada no mais alto della, cua Casa dizem foy fundada no tempo da Gentilidade, trezentos e tantos anos antes da vinda de Christo ao mundo, e se entende ser mais antiga, que a Igreja de Nossa Senhora da Boa Nova de Terena. Por diante desta Villa passa o rio Lucefeci, que nos tempos antigos foy castello, e ainda no tempo presente lhe dão o nome de Castello Velho; porém não ha certeza de quem fosse. Na Defesa da Granja, Termo do Alandroal, se veem alguns outeiros minados, que mostra terem lugares donde se tirarão metaes de ferro, ouro, ou prata, e não consta em que tempo se tirassem.
Abunda no termo desta Villa de toda a sorte de caça, como também de varias especies de gado, assim miudo, como grosso, em razão dos ferteis pastos, que cria.


Dos Inquéritos de 1721 e 1732
Fim 
Fonte das seis bicas - Alandroal


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

344 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do sapateiro da Aldeia de Capelins de Baixo 
Nos anos de 1840, existia na Aldeia de Capelins de Baixo um pobre sapateiro chamado Manoel Rodrigues, que passava os dias e noites a bater sola, mas por muito que trabalhasse não passava da cepa torta, porque tinha muitos filhos e, por a mulher chamada Domingas Rosa estar sempre doente, não podendo trabalhar para ajudar nas despesas da casa! A ti Domingas andava sempre a tomar mesinhas caseiras porque era o que havia naquele tempo, mas nada a fazia melhorar! O ti Manoel, tinha que se deslocar a Vila Viçosa, sempre que os materiais para o seu ofício se estavam a esgotar e, como ela reparou que já quase não havia, perguntou ao ti Manoel quando ia a Vila Viçosa? 
Ti Manoel: Então porquê Domingas? Querias ir comigo? 
Ti Domingas: Eu quero lá ir contigo Manoel! E mesmo que quisesse a burra da comadre Jacinta podia com os dois e com as coisas que tens de trazer! Quero que fales lá com o Boticário e lhe peças alguma mesinha para a minha doença!
Ti Manoel: Oh Domingas, então e como é que eu sei qual é a tua doença? O que queres que eu diga ao Boticário?
Ti Domingas: Dizes que eu ando muito doente homem! Não tenho vontade de comer, não tenho força nenhuma e nem sou capaz de obrar!
Ti Manoel: Tanta doença junta! Como é que queres ter força e obrar se não comes quase nada mulher! Mas fica descansada, eu vou segunda-feira a Vila Viçosa, vou falar com o Boticário e trago a mesinha! 
No Domingo, o ti Manoel pediu a burra emprestada à comadre Jacinta e, antes das quatro da madrugada de segunda-feira já a estava a albardar a burra e de saída para Vila Viçosa, foi pelo Cebolal, Nabais, Monte Branco, Ribeiro do Alcaide, passou perto da Igreja de Nossa Senhora da Boa Nova, subiu a Ribeira do Lucefécit até à ponte romana e só parou no Alandroal, para a burra beber água e descansar, chegando a Vila Viçosa antes das 09 horas! Prendeu a burra, deu-lhe uma pouca de palha e um punhado de aveia e foi dar uma volta pela Vila, andou por algumas oficinas de sapateiros seus conhecidos para saber as novidades do reino e sobre sapataria, mas pelas 10 horas já estava na loja oficina onde comprava todos os materiais que precisava, ensacou tudo dentro de sacos de serapilheira, despediu-se dos comerciantes, foi logo arrumar as coisa nos alforges da burra e, não demorou muito tempo pôs-se a caminho de Capelins! Parou novamente no Alandroal para ele e o animal descansarem um pouco, depois, dali só já parou no Monte Branco, como fazia habitualmente, para visitar o parente Inácio Gomes que era aqui o hortelão! Ao desmontar da burra é que se lembrou da encomenda da ti Domingas sua mulher, mas já era tarde, era impossível voltar dali a Vila Viçosa! E agora? Que desculpa arranjava para ela não lhe dar cabo da cabeça? O parente Inácio viu-o chegar e aproximou-se fazendo um grande cumprimento, mas o ti Manoel não parecia ele, nem o ouvia e só quando ele lhe deu uma palmadinha nas costas é que reparou nele! Quando se virou o parente Inácio ficou assustado, o ti Manoel estava mais branco do que a cal da parede, parecia que ia desmaiar logo ali! O parente Inácio amparou-o e perguntou-lhe o que se passava! Pediu-lhe para se sentar no poial da porta não fosse cair desamparado! O ti Manoel sentou-se  e contou ao parente qual era a causa de estar naquele estado! O parente sossegou-o logo, disse-lhe que sabia muitas mesinhas para tudo! Os peregrinos, alguns de Espanha, que por ali passavam a caminho de Nossa Senhora da Boa Nova, pernoitavam no cabanão, depois, no Monte davam-lhe sempre alguma comida e água e eles ensinavam-lhe as mesinhas que sabiam, todas feitas a partir de ervas, por isso, ia já resolver o caso, mas impunha a condição de ele dizer à mulher que era uma mesinha do Boticário, que era nova em Vila Viçosa, mas já curou muitas pessoas com a doença igual à dela, pelo mundo fora e, que te custou os olhos da cara!
O ti Manoel, considerado um homem muito honrado declinou logo a oferta do parente, porque não podia mentir à mulher, se nunca o fez, não era agora que o fazia! Digo-lhe a verdade e fico com a minha honra honrada! Nesse caso, não aceitas a minha mesinha, que tenho a certeza ia curar a tua mulher, porque eu sei que a doença da parenta são nervos e, achas que a vais curar com essa tua honra?  Isso é uma mentira insignificante e, daqui a um ano ou dois já lhe podes contar a verdade! Disse-lhe o parente! 
O ti Manoel esteve a pensar um pouco e acabou por aceitar a proposta do seu parente Inácio, uma vez que era para bem de sua mulher! O parente Inácio fez a mesinha, uma infusão à base de erva cidreira e funcho e, quando a mistela já estava fria adicionou-lhe o sumo de um limão e ficou pronta para meter na garrafa que o ti Manoel trazia! O parente recomendou-lhe para quando chegasse a casa passá-la para uma púcara de barro tapá-la bem e, para a Ti Domingas tomar duas colheres em jejum e duas colheres ao deitar até a acabar, mas dentro de oito dias já estaria boa! 
O ti Manoel agradeceu ao parente, despediu-se de todos e continuou a viagem até sua casa, onde a ti Domingas o esperava ansiosa pela mesinha milagrosa, na esperança dela acabar com a sua doença! 
O ti Manoel fez tudo como o parente Inácio lhe disse, a ti Domingas não desconfiou de nada e só lhe perguntou como arranjou tanto dinheiro para a mesinha! O ti Manoel com ar de convencido disse-lhe que teve de deixar de comprar algumas coisas, porque primeiro estava ela e, pelo que o Boticário lhe tinha dito de certeza que a mesinha valia o dinheiro e que ela ia mesmo ficar boa, ficando a conversa por ali! 
Ainda nessa noite, ao deitar, a ti Domingas tomou as duas colheres recomendadas, fez uma careta, porque era muito má de tragar, mas logo murmurou. "As que custam a tomar é que são boas"! Três dias depois de começar a tomar a mesinha, o organismo da ti Domingas começou a funcionar normalmente e, já tinha mais apetite, cada dia que passava melhores eram os resultados e, passados quinze dias a ti Domingas já andava a ceifar sem nenhuma queixa! O marido andava abismado, a mesinha feita pelo seu parente Inácio tinha-lhe curado a mulher, mas não dizia nada, não fosse ela ter alguma recaída! Na ceifa a ti Domingas destacava-se das outras mulheres ao ponto de começarem a comentar sobre o que teria acontecido para se verificar aquela mudança, tanto insistiram em saber que ela não teve outro remédio senão contar que estava curada do mal que tinha, devido a uma mesinha que o marido tinha comprado no Boticário de Vila Viçosa, muita cara, mas era a melhor do mundo, curava todos os males e ela era a prova! 
O caso da ti Domingas depressa se espalhou pelas terras de Capelins, diziam que era um um milagre e todas as pessoas exclamavam: "Também quero! Tenho de a comprar, porque há muito tempo que ando aqui com istou ou com aquilo! E perguntavam: Como se chama a mesinha, para a mandar vir de Vila Viçosa? Mas todos respondiam: "Não sei"! Faltava a ti Domindas dizer o nome da mesinha, mas a sua resposta era sempre a mesma: "Não sei"! Então começou o corropio para casa dela falar com o mestre sapateiro, até os que andavam sempre à "pata galhana" lhe entravam pela casa dentro a perguntar o nome da mesinha que tinha curado a ti Domingas, mas a sua resposta era: "Não sei"! Não trazia nome! Deixe, não há problema, vou a Vila Viçosa e decerto lá a encontro, diziam alguns! O problema surgiu quando esses foram a todos os Boticários e nenhum conhecia a nova mesinha que curava todos os males! A partir daí começaram a apertar o cerco ao ao mestre sapateiro, queriam saber onde ele tinha comprado a dita mesinha, porque isso não não se fazia! Queria-a só para a mulher dele e chamavam-lhe mentiroso, porque nenhum Boticário a conhecia em Vila Viçosa e mais isto e mais aquilo! O sapateiro já nem dormia a pensar como se ia livrar daquela embrulhada, mas por mais que pensasse não encontrava nenhuma maneira e nem podia dizer que afinal a mesinha tinha sido feita pelo seu parente Inácio! Sem solução à vista, pensou em ir pedir ao parente se o ajudava a resolver a situação! Levantou-se de madrugada e disse à mulher que tinha de ir a um Monte tirar a medida de umas botas para um lavrador e que era longe mas voltava antes do meio dia e lá foi a caminho do Monte Branco! O parente assim que o viu chegar, ficou preocupado e foi a correr ao seu encontro a cumprimentá-lo e a saber qual a razão da sua visita! Depois de se cumprimentarem, o ti Manoel disse-lhe: Oh parente, tens de me ajudar, estou metido numa camisa de onze varas! E contou-lhe o que se estava a passar sobre a mesinha que tinha curado a ti Domingas! Estás assim só por isso? Eu tenho remédio para tudo! Respondeu o parente Inácio!
O ti Manoel, não disse, mas pensou: "Ora essa! Estou para ver como é que ele remedeia o que não tem remédio"!
Ti Manoel: Então vê lá isso parente, o que vou eu dizer às pessoas que não me largam a porta?
Ti Inácio: Vais dizer-lhe uma parte de verdade e, a outra não é toda verdade mas é como se fosse! 
Ti Manoel: Não estou a perceber parente! Eu não sou pessoa de mentiras, como sabes sou muito honrado!
Ti Inácio: Lá voltas tu ao mesmo! Foi a tua honra que curou a tua mulher? Desonra era deixá-la andar como andava, por uma coisa de nada! Se quiseres eu safo-te da camisa de onze varas! Se não queres, fica lá com a tua honra, mas digo-te já, se vierem cá ter comigo eu não posso andar a fazer mesinhas para todos e arranja-se aqui um grande problema para todos! É isso que queres?
Ti Manoel: Não parente! Não quero isso! Então diz lá o que tenho de fazer ou dizer às pessoas?
Ti Inácio: Não fazes nada! É só dizeres o seguinte: "Há mais de um mês fui a Vila Viçosa comprar material para o ofício e parei no Monte Branco porque o meu parente Inácio da última vez que estive com ele disse-me que, quando eu fosse  a Vila Viçosa ia comigo, mas quando lá cheguei ele disse-me que não podia ir porque naquele dia estava comprometido, mas eu insisti, disse-lhe que não demorávamos, que voltávamos cedo e lá o convenci a ir comigo, depois lá em Vila Viçosa para demorarmos menos ele foi tratar das coisas dele e eu das minhas, mas como ele ia para os lados do Boticário, eu pedi-lhe para me comprar a mesinha para a minha Domingas e, foi o que ele fez, mas não me disse onde a comprou, porque eu também não perguntei, fiquei convencido que tinha sido no Boticário onde vou sempre, mas agora já sei que não, porque fui falar com ele e ele disse-me que não foi em nenhum Boticário de Vila Viçosa, porque ele sabia que estava lá um Boticário espanhol que era de perto de Granada e que ele conheceu lá no Monte Branco, onde esteve a descansar dois ou três dias, um peregrino que vinha a Nossa Senhora da Boa Nova  e a Nossa Senhora da Conceição em Vila Viçosa e, como foi muito bem tratado disse ao meu parente que ficava por Vila Viçosa dois ou três meses a descansar antes de voltar para Espanha e se ele precisasse de alguma coisa de Botica que fosse falar com ele, porque ele estava a par de muitas mesinhas novas, boas para curar todas as doenças! Quando ia a tratar dos assunto dele, passou à porta da casa onde ele estava o peregrino e lembrou-se de ir falar com ele, apanhou-o por pouco, o homem já tinha tudo preparado para se ir embora para Espanha, mas devido à amizade com o meu parente, ainda lhe fez a mesinha! E, foi isto que se passou!
Ti Manoel: Não sei se sou capaz de me sair disso! Nem se as pessoas acreditam!
Ti Inácio: Mas tu não te lembras de eu ter ido contigo nesse dia a Vila Viçosa?
Ti Manoel: Então se tu não foste, como me hei-de lembrar?
Ti Inácio: Acho que estás a precisar de uma mesinha das minhas, é verdade que já foi há mais de um mês, mas era para te lembrares, porque eu fui mesmo contigo!
Ti Manoel: Mau! Então, eu não sei que não foste!
Ti Inácio: Mau, digo eu! Então eu não sei que fui e comprei a mesinha da parenta ao Boticário espanhol!
Ti Manoel: Já não sei  o que diga! Parecia-me que não tinhas ido! Mas já não sei!
Ti Inácio: Queres ver que fui? E chamou: Oh Zé, chega aqui! Tu não te lembras que há ai um mês ou um mês e pouco eu fui a Vila Viçosa aqui com o meu parente?
Zé: Oh ti Inácio, está a brincar comigo? Então não me havia de lembrar? Até parece que foi ontem! Foi, sim senhor, foi!
Ti Inácio: Estás a ouvir parente? Queres que chame mais alguém?
Ti Manoel: Não, não, parente! E eu que me parecia que não tinhas ido!
Ti Inácio: Já viste que às vezes o que parece não é! Tu é que já não te lembravas!
Ti Manoel: Sendo assim, já estou safo da camisa de onze varas! Muito obrigado parente, vou-me  já embora porque tenho lá muito que fazer!
Ti Inácio: Espera lá, tens de levar umas coisas aqui da horta, ao menos não perdes os passos!
O ti Manoel apanhou as coisas que o parente lhe deu, despediu-se e voltou para Capelins de Baixo, durante a viagem não pensava noutra coisa! Será que ele foi mesmo comigo e eu já não estou bom da cabeça? Depois pensou: "Isso já não interessa nada, agora só preciso de convencer esta gente que tudo aconteceu como o meu parente me disse"! A partir daquele dia começou a contar a versão que o parente lhe meteu na cabeça, com tanta convicção, porque ele próprio já estava convencido que tinha sido assim que, ninguém ousou duvidar das suas palavras! Alguns ainda lhe perguntaram se sabia onde morava o Boticário lá em Espanha, porque estavam na disposição de o ir procurar! O sapateiro disse-lhe que era perto de Granada, ele chama-se Pepe, mas nem ele, nem o seu parente Inácio sabiam mais nada do Boticário peregrino! A conversa ficou por ali, caindo no esquecimento!
A ti Domingas continuou convencida, durante alguns anos, que tinha tomado a melhor mesinha do mundo, nova e muito cara e, só cinco anos depois o ti Manoel teve coragem de lhe contar toda a verdade! A ti Domingas riu como nunca tinha rido na sua vida e, não se cansou de agradecer ao marido, porque tinha sido graças aquela peripécia que ela se tinha curado e, a sua vida tinha dado uma grande volta para melhor, porque, além de ajudar com o seu trabalho nas despesas da casa, também passou a existir muita alegria na família! 
O ti Manoel ficou convencido que, só conseguia convencer os outros, se ele próprio estivesse convencido, continuou a ser um homem muito honrado e fez botas e sapatos em Capelins de Baixo enquanto conseguiu bater as solas e, ter forças para puxar as pontas com que cozia o calçado! 
O Ti Inácio, que tanto aprendeu com os peregrinos que ali descansavam quando iam em peregrinação a Nossa Senhora da  Boa Nova, continuou no Monte Branco até ao fim dos seus dias, passando para os mais novos, as histórias de vidas que ouviu! 

Fim





domingo, 24 de setembro de 2017

343 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins 
A lenda do ti Pivete 


O ti Joaquim Barradas natural, da então, Vila de Montoito, veio com a sua família para Capelins de Baixo no ano de 1825, onde ficaram a morar e, começou logo a trabalhar como jornaleiro (à jorna) na herdade da Defesa de Ferreira, fazia todos os trabalhos agrícolas, sobre os quais era muito entendido! Era uma pessoa muito conhecida e sociável, dava-se muito bem com toda a gente das terras de Capelins, até ao dia em que devido às suas qualidades foi nomeado manageiro do rancho das mulheres da monda e de outros trabalhos, juntar pedra e arnelos, apanhar espigas e o que houvesse para fazer, a partir daí o ti Joaquim tornou-se autoritário, arrogante e, dono de todo o saber, naturalmente, estava sempre a favor do patrão! O ti Joaquim gostava de beber um copinho de vinho, ou dois e,  quando a sua vida o permitia frequentava a taberna do ti Xico das Albardas, o qual tinha este apelido porque também fazia albardas para as burras e burros que existiam em abundância nestas terras! Uma tarde, depois de sair do trabalho, o ti Joaquim entrou na taberna e já lá estava um homem alto, bem calçado e bem vestido, encostado à parede do lado direito do balcão, bebendo sozinho! O ti Joaquim disse: "boa tarde", o homem respondeu baixinho, mas assim que ele chegou perto do balcão, ainda antes de pedir o copo de vinho ao ti Xico, exclamou alto: "Que pivete"! O ti Joaquim ouviu essas palavras, mas como não sabia o que o estranho queria dizer, não ligou! Pediu um copo de vinho tinto e foi falando com o ti Xico das Albardas, sobre o tempo e as searas que estavam boas, já grandes e outras coisas relacionadas! Daí a pouco entrou um vizinho da rua do quebra cu e, naturalmente, disse: Boa noite! Os presentes responderam todos: "Boa noite"! E o estranho repetiu bem alto: "Que pivete"! Como ninguém sabia o que o homem queria dizer com isso, não ligaram e continuaram a beber e a falar dos assuntos que dominavam, mas sempre que entrava alguém, o homem repetia sempre em tom alto: "Que pivete"! O ti Joaquim passou horas a ouvir a mesma coisa, até que meteu conversa com o estanho! 
Ti Joaquim: Olhe lá, de onde é que vocemecê é? 
Estranho: Eu cá sou de Vila Viçosa! Então porquê? 
Ti Joaquim: Por nada! Era só para saber! 
Estranho: Então, agora já sabe!
O ti Joaquim pensou: "Estás mesmo a pedi-las", mas mediu-o de alto a baixo e pensou logo em desistir dos seus intentos e continuou:
Ti Joaquim: Então e podia dizer-me porque está sempre dizendo essas palavras? 
Estranho: Quais palavras? 
Ti Joaquim: "Que pivete"! Eu bem o ouvi cada vez que entrou aqui alguém!
Estranho: Ah isso? Não ligue, são coisas da minha vida, cada vez que entra alguém lembro-me das fezes em que estou metido! Não estou nada satisfeito com a minha vida!
Ti Joaquim: Então essas palavras querem dizer que está cheio de fezes e que não está satisfeito com a vida? 
Estranho: Nem mais nem menos, estou com grandes problemas, metido em grandes fezes! 
Ti Joaquim: Ah sim? Então em que fezes está metido?  
Estranho: Tenho uma casa cheia de filhos e tive de fugir de Vila Viçosa, aqui para a Defesa, devido a um problema que lá tive, dei uns sopapos num fidalgo e se lá voltar sou preso! Agora preciso de arranjar trabalho aqui, para mandar alguma coisa para os meus filhos comerem e, depois trazer a minha mulher e os meus filhinhos para cá! 
Ti Joaquim: Esteja descansado que depressa arranja trabalho! Em todas as herdades precisam de gente!  
Estranho: Amanhã de madrugada, vou tratar disso! 
O ti Joaquim foi para casa e já no caminho não lhe saiam da cabeça as palavras do estranho: "que pivete", davam-lhe muito jeito para usar na sua profissão de manageiro para desabafar quando as mulheres lhe vinham com pedidos de irem várias vezes por dia atrás do outeiro e, quando estivessem sempre a pedir água para o tempo passar e elas estarem de costas direitas, assim quando não estivesse satisfeito com o que se passava, podia sempre dizer essas palavras modernas! Chegou a casa e começou logo o treino, cada vez que a mulher lhe dizia alguma coisa sobre os problemas da vida, o ti Joaquim respondia: "Que pivete", a mulher não percebia nada, mas com receio de receber alguma má resposta, foi-se mostrando entendida! Chegou a um ponto em que não aguentou mais e perguntou-lhe:
Ti Maria: Olha lá Joaquim, desde que chegaste a casa ainda não te ouvi dizer outras palavras senão essas, "que pivete", diz-me lá o que queres dizer com isso homem? Não entendo nada do que dizes!
Ti Joaquim: Atá aí já eu sabia! São palavras modernas mulher, não são para ti, com estas duas palavras nem imaginas o que podemos dizer! 
Ti Maria: Oh valha-me Deus! Diz-me lá, porque eu estou a ficar parva! 
Ti Joaquim: Há muito tempo, mulher, não é de hoje! Então, essas palavras querem dizer que estamos metidos em fezes, em problemas, que não estamos satisfeitos com alguma coisa, percebeste? 
Ti Maria: Percebi pouco! Tens razão não são para mim! 
Ti Joaquim: Grande novidade! Que não são para ti, sei eu! São tão moderno que acabaram de chegar mesmo agora a Capelins de Baixo, eu sou o primeiro a saber! Que até já sabia!
Na madrugada seguinte, o ti Joaquim deu ordens para o rancho enrregar na monda, mas ficaram algumas mulheres mais para trás a pôr os ganchos nas saias das calças, o ti Joaquim já estava ansioso  e começou a apressá-las e a dizer: "Vá lá mulheres, já era para estarem nos seus regos" e exclamou logo: "que pivete"! As mulheres nem repararam e começaram a mondar! Ao fim de duas horas as mulheres começaram com vontade de ir atrás do outeiro, a pedir uma de cada vez, porque era impensável irem duas juntas e, cada vez que uma pedia, o ti Joaquim respondia: vai lá depressa e rematava: "que pivete", cada vez que uma mulher pedia para beber água, o ti Joaquim respondia: Vá, bebe lá, e logo de seguida repetia: "que pivete"! Foi um dia inteiro nisto, era impossível as mulheres não repararem naquela frase que, nunca tinham ouvido e, já no fim do dia quando alguma mulher fazia um pedido, já todas acompanhavam a resposta entre dentes: "que pivete". Nos dias seguintes  tudo continuou quase igual, com a diferença de, sempre que o ti Joaquim dizia as palavras mágicas, era acompanhado por todo o rancho em coro: "que pivete"! Ele ficava zangado com as mulheres, ou por pensar que estavam a fazer pouco dele, ou por sentir que lhe estavam a usurpar as palavras que ele tanto prezava e, só dignas de um manageiro, mas as mulheres andavam inclinadas com a cabeça dentro da seara e, quando ele se dirigia a alguma, ela respondia sempre: Oh ti Joaquim, eu não abri a minha boca, veja lá quem foi, porque eu não fui! A partir daí o ti Joaquim ganhou o apelido de "PIVETE" e nunca mais se livrou dele! Ainda hoje, existem descendentes, "os pivetes" por aqui e pelo mundo!   
Obviamente que, o estranho de Vila Viçosa se referia ao aroma exalado por cada homem que entrava na taberna, que era natural nessa época!

"Capelins de Baixo"




342 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins


Em 1758, o Pároco de Santo António, Manoel Ramalho Madeira, escreveu o seguinte:

"Digo que esta Feguezia está na provincia do Alentejo no Arcebispado de Évora na comarca da cidade de Elvas e Termo da Vila de Terena chamada esta Freguezia de Santo António de Terena. A Igreja he de Elrei meo Senhor. Esta Freguezia tem ouitenta e seis vizinhos (fogos) e duzentas e outenta pessoas Mayores sincoenta e sete menores", (337 pessoas em toda a Freguesia em 1758)! 
Em 1758, ainda não se designava de Freguesia de Santo António de Capelins! 
A Igreja de Santo António era do Rei nessa data de D. José I! 
A maioria das pessoas ainda moravam na Vila de Ferreira, junto às Neves, porque, Capelins de Cima tinha 8 fogos e Capelins de Baixo tinha 6 fogos, mas já existiam mais de 20 Montes nas herdades que, embora fossem da Casa do Infantado, os lavradores foram autorizados a construir os Montes! Também já existiam os Montes que ficaram incluídos na futura aldeia de Montes Juntos, Almas, Salgueiro, Manentio, Assento e Janelas, (Capeleira e Galvoeira? eram nas respetivas herdades)! 




sábado, 23 de setembro de 2017

341 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - 
Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

Vidas do Contrabando e dos guardas fiscais nas terras 

de Capelins 

As memórias de um tempo em que o contrabando era um modo de vida de muitas pessoas nas terras de Capelins desde há centenas de anos! Existem documentos datados de 1463, do reinado de D. Afonso V, que se referem ao contrabando no Concelho de Terena, que era essencialmente de gado, cereais, armas, couros e mercadorias.
 Os contrabandistas de Ferreira de Capelins, Montejuntos e outras localidades vizinhas entravam em Espanha e dirigiam-se a cidades, vilas e aldeias, como: Olivença, Vila Real, São Bento da Contenda, São Rafael de Olivença, Valverde de Leganés, Almendralejo, Almendral, Táliga, Alconchel, Cheles, Barcarrota e outros lugares, durante a noite, de carga às costas que variava entre os 25 e os 40 quilogramas e, ao longo de distâncias que poderiam atingir mais de 50 quilómetros.
O que ganhavam com o contrabando foi ao longo de séculos, o sustento de muitas famílias da Freguesia de Capelins, sendo, em alguns casos um suplemento dos salários nos trabalhos agrícolas, mas havia muitas famílias que vivam exclusivamente desta atividade. Desses tempos, ficaram as memórias e ainda os testemunhos de algumas personagens, como o Ti Agostinho de Almeida, Joaquim do Assobio, Natalino, Abrantes, Lagarto, Lourenço, Fura, Batista, Jacinto, Varandas, Busca e muitos outros, chegaram a passar o rio Guadiana numa noite mais de 40 homens e respetivas cargas em barcos a remos dos moleiros ou de pescadores como o Ti José Glórias, Venâncio, Faustino, Fura, Varandas e outros. Esses homens mantinham um permanente jogo do gato e do rato no desempenho da sua atividade, entre eles que viviam do contrabando e daqueles que tinham por missão o seu impedimento, a guarda fiscal.
As rotas do contrabando eram, geralmente, por veredas, matagais, pedregulhos, barreiras, buracos, por lugares com mais difícil acesso e que podiam servir de esconderijo para os homens e para as cargas de forma a ludibriar a guarda fiscal do lado de cá ou a guarda civil (carabineiros) do lado de lá! Para que as campanhas tivessem sucesso, existia uma conduta, cumplicidades e entreajuda, mas também das comunidades rurais e urbanas das localidades espanholas colaboravam com os contrabandistas portugueses em alguns casos devido à reciprocidade, ou seja na aquisição de produtos para trazerem de volta.
Os contrabandistas estavam sempre em alerta e avisavam os companheiros da proximidade dos guardas, porque tinham muito medo de serem apanhados e perderem a carga de café, mesmo os que nunca foram detidos pelas autoridades dos dois países, ouviram muitas vezes as balas dos carabineiros a zumbir perto dos ouvidos.
O dia-a-dia não era fácil para os contrabandistas, mas também não era para os guardas fiscais, apelidados de “pica-chouriços”, tal como as rotas, por utilizarem um ferro comprido e aguçado com o qual verificavam se havia alguma carga de contrabando escondidos nos matos ou outros lugares propícios, que se queixavam das condições a que eram sujeitos para desempenhar a sua missão, ficavam em outeiros, com frio e a chover, ou com muito calor, sem poderem sair dali, quase sempre em  pé mais de 12 horas, a vigiar uma determinada área onde poderiam passar os contrabandistas e, no caso de os detetarem teriam de os deter, apreender a carga, preencher um auto de notícia e aplicar uma multa. Mas a guarda fiscal de Montes Juntos não queria apanhar os contrabandistas, quando os viam disparavam alguns tiros para o ar, para eles fugirem e a guarda ficava com a carga de café que, depois era leiloada e, geralmente adquirida pelo fornecedor. Os guardas fiscais colocados na raia tinham uma vida muito dura e, apesar de serem a força armada do Ministério das Finanças tinham ordenados muito baixos, obrigando-os a procurar alternativas de sobrevivência como cultivar hortas e a procurar casas de habitação muito simples, devido ao custo das rendas.
Os produtos transacionados pelos contrabandistas entre os dois países, nos anos 50 a 90, eram variavelmente os seguintes:  Para lá, em grandes quantidades, o café camelo! Para cá: Louças de pyrex e esmaltadas, rebuçados, chocolates, calças de ganga, botas, medicamentos, perfumes, tabaco, roupas, toucinho, azeite, tripas de porco, pneus, peças de automóveis e gado.
Os antigos contrabandistas que ainda estão entre nós, mantêm hoje, uma relação normal com os últimos guardas fiscais, sem nenhum rancor do passado.
Com a abertura das fronteiras no início dos anos 90, o contrabando praticado durante séculos pelas comunidades rurais localizadas na raia, com mais intensidade entre as terras de Capelins e as localidades espanholas acima referidas acabou-se, dispensando o efetivo da Guarda Fiscal concentrado ao longo da fronteira entre os dois países, o mesmo acontecendo com a guarda civil, que só na província de Badajoz, existiam 26 postos distanciados entre si seis quilómetros e, na Freguesia de Capelins, existiam dois postos da guarda fiscal, um no centro da aldeia de Montes Juntos, cujos guardas deviam vigiar a fronteira entre as Azenhas D’ El - Rei e os Moinhos Novos  e, outro designado de Miguéns na herdade do Azinhal Redondo de Baixo, hoje Roncanito, que vigiavam o espaço geográfico entre os Moinhos Novos e o Moinho do Gato.
Existem muitas peripécias passadas na Freguesia de Capelins e nas terras de Espanha entre os contrabandistas, a guarda civil, a guarda fiscal e outros intervenientes que enriquecem a cultura do povo capelinense.
Como existia contrabando, tinha de existir guarda fiscal e, só existia guarda fiscal, porque existia contrabando! No entanto, o contrabando implicava guarda fiscal, mas a guarda fiscal não implicava contrabando!





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

340 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
Ribeira do Lucefécit 
Já em 1732 assim se descrevia a Ribeira do Lucefécit:
Padre Luiz Cardoso inquéritos de 1732
"Por diante desta Villa (Alandroal) passa o rio Lucefeci por terras muito fragosas, junto ao qual está hum edifício, que nos tempos antigos foy castello, e ainda no tempo presente lhe dão o nome de castello Velho, porém não há certeza de quem fosse.

Memórias Paroquiais:
1758 - Prior Bento Ferrão Castelbranco do Alandroal: 
"A Ribeira de Luçafece nasce no termo de Estremoz na freguezia de Rio de Moinhos de huma lagoa que ahi há, corre para o Nascente e entra a costear este termo em o Sítio dos Galvões e indo dividindo todo o termo pella parte do Sul se mete em o Rio Guadiana onde se sepulta e perde o nome em o Sítio chamado do Aguilhão".

1758 - Parocho Frei Francisco Xavier Pereira, de Rosário: 
"Tem a ditta freguezia de Comprimento duas legoas, principia na parte Norte com as Erdades de Alcalaz Ribeiro que tem seo nascimento próxomo da ditta Villa do Alandroal engtrando pela parte do poente em a Ribeira de Lucem Fecit, correndo da parte Norte para o Sul, cercando a freguezia he entrando em Guadiana na Erdade do Aguilhão".

1758 - Pároco Manoel Ramalho Madeira - Santo António(atual Capelins):
"(...) no sítio desta Freguezia entram nella duas ribeiras pequeinas huma Luçafece e a outra Asavel, as duas que de verão nam correm por nam terem os seos moinhos de pão".

1758 - Prior Mathias Viegas da Sylva, de Terena:
"Corre junto desta villa huma ribeira com o nome de Luçafece, termo divisorio dos dous termos de Terena e Landroal. Tem esta seo nascimento em huma Lagôa que esta no sitio de Rio-de-Moinhos, termo de Estremoz, e de outras agoas, que descem da Serra doça, Distante a dita Lagôa desta villa tres legoas: e correndo pelas faldas da mesma Serra, paulatinamente vai engrossando suas correntes: passa pelo termo de tres villas, Borba, Vila Viçoza e Landroal, correndo em gyros sempre solitária até que se avizinha a Terena em distancia para mais (?) daqui passa junto à Ferreira villa da serenissima Caza do Infantado, distante huma legoa; depois correndo outra legoa entre o Baldio do Roncão deste termo e a Erdade do Aguilhão, termo do Landroal, entra no Guadiana, menos agradecido depois de lhe receber as agoas lhe tira o nome. São cinco legoas do lugar aonde nasce até ao Guadiana onde morre. Corre do Norte para a parte acima do Sul. Somente conserva a sua corrente neste termo, enquanto as chuvas lhe formão as mesmas correntes, que no estio se vem extintas. He o seo curso neste termo moderado sem muita precipitação, por serem planicies os campos por onde passa. He abundante dos peixes que comumente há nas ribeiras pequenas desta provincia. As mais frequentes pescarias que nela se fazem, (que são livres) são no inverno até fins de Abril. Fora mais piscoza esta ribeira se na sua foz não tivera hum açude alto e forte, que lhe impede a subida dos peixes do Guadiana com a do Lucefece subindo muito sobre o dito açude; o qual parece devia ser demolido; porque sempre o bem comum prevaleceo ao particular":  


Ano de 1758, o Prior Bento Ferrão Castelbranco escreve o seguinte sobre a Ribeira do Lucefécit:

"Não damos a etimologia da Ribeyra de Luçafece porque sobre ella não há couza provavel por mais que alguns com louca prezunpção pertendão decobrir a verdadeyra origem deste nome, porque não podendo nós caminhar sem a guia dos Escriptores antigos, pello vasto e escuro paiz da antiguidade e não havendo hum só que dicesse alguma couza neste particular, tudo o que afirmarmos será destituído de fundamento posto que nos queyramos valer de alguma vulgar tradição que he autoridade totalmente débil".


Aqui, "acaba" a Ribeira do Lucefécit de hoje, onde se inicia o Grande Lago de Alqueva!


domingo, 17 de setembro de 2017

339 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da "aleijadinha" de Capelins 
No ano de 1821 chegou a Capelins de Cima uma família vinda da Paróquia de S. Miguel do Adaval, perto da Vila de Redondo. Essa família, era constituída pelo pai o ti Miguel da Sylva, a mãe a ti Antónia Rosa e seis filhos, quatro rapazes e duas raparigas, com idades entre os oito e os dezoito anos e, por influência de um irmão que já residia nesta aldeia o convenceu a mudar-se para cá, porque era uma terra de oportunidades, existia aqui muito trabalho para várias profissões e, principalmente para os seus filhos. Logo que chegaram, os pais e cinco filhos começaram a trabalhar, o pai e o filho mais velho como jornaleiros na Defesa de Ferreira, os restantes três filhos como ajudas de guardadores de gado, a mulher e uma das filhas na monda do trigo! Ficou em casa uma filha de quinze anos, a Maria de Jesus que, era "aleijadinha" tinha os pés tortos e pouca força nas pernas que lhe dificultava a mobilidade. Esta família, ficaram a morar numa casa pequenina em Capelins de Cima, ao lado do Monte Grande e, embora estivessem quase todos empregados eram muito pobrezinhos mas muito unidos, viviam tristes por ver a filha e irmã Maria de Jesus  naquele estado, mas ela ainda vivia mais triste por não poder ajudar a família e por se sentir rejeitada pelas outras crianças e pelo desdém que alguns adultos mostravam quando a viam arrastar-se entre a sua casa e o lugar onde passava a maior parte do tempo, sentada num banco de pedra debaixo de uma oliveira em frente a sua casa e do Monte Grande! 
Ainda nesse verão, estava sozinha em casa e, depois de arrumar o que estava ao seu alcance, foi-se arrastando para o seu lugar habitual que, embora não fosse longe, levava muito tempo a percorrer! Quando chegou, reparou que estava uma senhora muito bem vestida sentada numa cadeira ao lado do banco, parou e ficou indecisa, na dúvida se devia voltar para trás, ou sentar-se nas pedras! Nesse momento, a senhora falou com ela, cumprimentou-a e pediu-lhe para se sentar, para poderem falar, disse que estava ali porque não tinha com quem falar e, assim faziam companhia uma à outra! Esta senhora era uma fidalga da Casa Bragança, mulher de um fidalgo da mesma casa, que gostava muito de caçar e, todos os anos passavam algum tempo no Monte Grande, que era da Casa do Infantado, ou seja ligada à Casa de Bragança e, moravam num palácio em Évora! Esta fidalga, como já tinha reparado na situação da Maria, sentiu vontade de a conhecer e, talvez a ajudasse a melhorar a sua qualidade de vida! 
A fidalga perguntou-lhe o nome, a idade, quantos irmãos tinha e como se chamavam, se era natural dali, o que gostava de fazer e outras perguntas para a pôr à vontade! A Maria respondeu a tudo com voz muito doce, um pouco trémula, demonstrando pouca felicidade, e explicou à fidalga como era a vida dos seus pais, dos irmãos e disse-lhe que, gostaria de de poder trabalhar para ajudar a sua família a qual era muito pobrezinha, mas devido a ser "aleijadinha", não podia fazer nada! 
Fidalga: Olha que  não é assim Maria, há muitas coisas que podes fazer, mesmo com essa tua condição, acredita que podes melhorar a tua vida e ajudar a tua família, aprendes uma profissão que possas trabalhar sentada, como por exemplo isto que estou fazendo! E mostrou-lhe um lindo bordado numa toalha de linho! 
A Maria, nunca tinha visto nada semelhante e desde que ali chegou não tirou os olhos daqueles lindos bordados!  
Maria: Mas isso não é coisa para mim! Só para pessoas ricas! 
Fidalga: Eu estou disposta a ajudar-te e a ensinar-te a bordar, achas que gostas? 
Maria: Gostava muito, minha senhora! Mas não tenho nada nem dinheiro para comprar as coisas e para quem bordava nesta aldeia? 
Fidalga: Se gostares e tiveres jeito, bordas para mim e para as minhas amigas, deixa isso comigo, só tens de perguntar aos teus pais se te deixam ir ali para o Monte Grande, enquanto eu cá estiver vou-te ensinando e comes lá, depois, quando me for embora, deixo-te cá tudo para ires treinando, mas há uma condição, também tens de aprender a ler a contar e a escrever! 
Maria: Acho muito bom aprender a bordar, mas a ler e escrever, não me serve para nada minha senhora!
Fidalga: Não, Maria! Vais aprender e depois vês como estavas enganada, porque quem tiver o conhecimento, tem um tesouro, por isso, diz aos teus pais que a minha condição é essa! 
Maria: Está bem! Eu logo à noite falo com os meus pais e amanhã já dou a resposta!
Naquele momento chegou a criada a buscar a cadeira onde a fidalga se sentava e, depois de se despedir da Maria, recolheu ao Monte Grande! No caminho disse à criada: Um diamante em bruto para lapidar, é um desafio para mim! A criada não percebeu nada daquela conversa e exclamou: É verdade minha senhora, é uma desgraça que ali está! 
À noite, quando o ti Miguel, a mulher e as filhas acabaram de cear (jantar) a Maria contou-lhe a conversa com a fidalga! Os pais zangaram-se com ela, porque não devia ter falado com a fidalga e mais isto e mais aquilo! A Maria disse-lhe que não teve culpa, tinha sido a fidalga a impedir que voltasse para trás e quase a obrigou a falar com ela! E queria saber a resposta dos pais, para começar já, tinha de dar-lhe a resposta no dia seguinte e a conversa prosseguiu:
Ti Miguel: Então diz-lhe que podes aprender a bordar, uma vez que não podes fazer mais nada e ainda te dá de comer, sempre é melhor do que estares  metida aqui em casa, mas aprender a ler e escrever é que não concordo, isso só traz problemas e não serve para nada, é melhor passares sem isso! 
Maria: Foi isso que eu disse à fidalga e ela disse-me que eu estava enganada e também  me disse que, quem tiver o conhecimento tem um tesouro! 
Ti Miguel: Um tesouro é muito ouro, acho isso mal comparado, mas se a fidalga quer assim, então vai lá aprender também a ler e escrever! 
No dia seguinte a Maria à hora habitual dirigiu-se ao seu lugar debaixo da oliveira e já lá estava a fidalga sentada a bordar! A Maria ia envergonhada, ainda mais devagarinho do que era habitual,mas por fim lá chegou! Cumprimentaram-se e a fidalga perguntou-lhe:
Fidalga: Então Maria, trazes boas notícias? Pelos teus olhos já sei que sim! 
Maria: Trago sim, minha senhora, o meu pai concordou com tudo! 
Fidalga: Nesse caso, vamos começar já, eu vou dizer à criada que venha buscar a cadeira e para te ajudar a ir ali para o Monte Grande!
A fidalga levantou-se, deixou a cadeira e a toalha que estava a bordar e foi para o Monte Grande! Daí a uns minutos apareceu a criada muito admirada, porque não entendia o motivo de ajudar a Maria a ir com ela! Mas com a mão esquerda levou a cadeira e a toalha e com a mão direita foi ajudando a Maria que, com os pés arrojando, entrou para uma casa onde a fidalga já estava sentada! A fidalga disse à criada para levar a Maria para outra casa e lavá-la o melhor possível com sabonete com cheiro a rosas, mandou chamar um criado e disse-lhe para procurar o melhor sapateiro das terras de Capelins para fazer umas botas especiais para a Maria! Depois de estar lavadinha, sentou-se ao lado da fidalga e, esta começou por lhe mostrar os bordados que tinha feito em tolhas de linho,camas de roupa e outros panos, deixando a Maria maravilhada, tudo lhe parecia um sonho, não só pelo que estava a ver, mas também pela atenção que a fidalga lhe dava! A seguir, explicou-lhe os instrumentos que tinham de usar, agulhas, linhas, bastidores em conformidade com as peças que bordavam e entregou-lhe um bastidor com um pequeno pano de linho já com um desenho feito a lápis, para ela preencher com um ponto que lhe começou a ensinar! Foi um dia difícil para a Maria e para a fidalga, mas era tanta a vontade de aprender e de ensinar que não deram pelo dia passar! A Maria bebia as palavras e gestos da fidalga, aprendia imediatamente todos pontos, bastava a fidalga ensinar-lhe uma vez, mesmo os pormenores e, não era preciso mais explicações! Assim se passaram quase dois meses, a fidalga teve de voltar para Évora, onde o marido tinha obrigações, mas deixou tudo preparado para a Maria continuar e algumas toalhas e panos para ela bordar com os pontos que mais gostasse e, combinaram em as entregar no Monte Grande e quando alguém da Casa do Infantado fosse a Évora levava-as e trazia outras para ela bordar!  
E, assim foi, quando a fidalga recebeu os panos e as toalhas bordadas, não esteve a observar, ficaram guardados até ao dia em que se lembrou de os ir ver  e não queria acreditar, estava ali uma obra de arte, a Maria usou pontos que a fidalga nunca lhe ensinou, ficou muito intrigada como tinha sido possível fazer aqueles pontos, decerto alguém a continuou a ensinar, mas quem? Naquela pequena aldeia? Mostrou o trabalho a algumas amigas que ficaram encantadas com as obras da Maria e todas queriam bordados iguais! 
No ano seguinte, em 1822, quando a fidalga voltou com o marido ao Monte Grande, trazia muitas encomendas de bordados! Mandou chamar a Maria e, depois de se cumprimentarem exclamou:
Fidalga: Gostei muito dos bordados dos panos e das toalhas, mas conta-me lá, onde aprendeste aqueles pontos? Não fui eu que te os ensinei, porque não os sei fazer! 
Maria: Vi-os em sonhos! Depois foi só passá-los para as toalhas, porque, gostei muito deles e como a senhora me disse para fazer os pontos que eu mais gostasse eu fiz!
Fidalga: Sim, fizeste um trabalho muito lindo! As minhas amigas gostaram muito dos teus bordados e querem iguais ou outros que tu gostes, por isso, amanhã vamos começar os bordados! E também quero saber como está a tua leitura e escrita, mas hoje tenho de descansar da viagem! 
Maria: Já conheço as letras, sei os números até cem e, também já sei escrever o meu nome! 
Fidalga: Está bem! Amanhã continuamos, não podemos perder tempo, porque não sei quantos dias vou cá estar! 
Despediram-se e a fidalga entregou-lhe uma bolsa com muito dinheiro como pagamento das obras que ela tinha feito! A Maria foi para casa e só abriu a bolsa quando chegou, era tanto dinheiro, que nem queria acreditar! À noite entregou o dinheiro aos pais que ficaram muito surpreendidos, como era possível os bordados renderam tanto dinheiro! 
A Maria continuou a sua aprendizagem cada vez com mais empenho! Quanto aos  bordados já ensinava os novos pontos à fidalga e na literacia fazia grandes progressos dia a dia! Quando a fidalga partiu levou muitas peças bordadas e deixou outras para a Maria continuar a bordar!  
Esta situação foi-se repetindo durante cinco anos! A Maria já tinha uma profissão, era bordadeira, mas ainda podia melhorar algumas técnicas, mas não era ali e, como  fidalga gostava muito dela, pensou em a levar para Évora, onde podia aprender o que lhe faltava, fosse em bordados fosse na escrita e leitura, então contou-lhe o que estava a pensar fazer, mas isso, só podia ser com autorização dos pais, disse-lhe que ficaria no seu palácio, nos aposentos das criadas mas ia dedicar-se aos bordados e à leitura! A Maria à noite pediu aos pais, que não mostraram muita vontade, mas pensaram melhor e concluíram que seria a oportunidade da Maria ter uma vida melhor e acabaram por concordar em a deixar ir com a fidalga! 
As obras da Maria encantavam a fidalguia feminina de Évora que diziam, nunca ter visto bordados tão lindos e perfeitos, nem os das bordadeiras da Corte! As encomendas eram tantas que, a fidalga tinha de gerir  a carreira da Maria, porque, tinham de reservar algumas horas para, diariamente, ter aulas com uma mestra contratada pela fidalga! Tudo corria bem, a Maria já era conhecida por muitas senhoras da nobreza, até que o fidalgo adoeceu e passados poucos meses faleceu, causando grande desgosto à fidalga que perdeu a vontade de viver e pensou em se recolher a um convento de Évora! A fidalga perguntou à Maria se gostaria de ser bordadeira da Corte ou se queria ficar sozinha em Évora, ela trataria do que fosse preciso, mas a Maria disse-lhe que nem uma coisa nem outra, queria voltar para junto dos pais! A fidalga preparou tudo para não faltar nada à Maria, em Capelins de Cima e, para lhe garantir proteção, porque existia uma guerra civil devido ao desentendimento entre D. Pedro IV e o irmão D. Miguel e ninguém sabia como ia acabar, também por isso a Maria recusou ir trabalhar como bordadeira na Corte! A fidalga disse-lhe que queria continuar a saber como ela ia passando, por isso, todos os meses lhe teria de enviar uma carta a contar como se encontrava e tinha de continuar a estudar, principalmente as leis do reino, ela encarregava-se de lhe enviar todas as leis que fossem publicadas, porque conhecendo bem as leis teria poder e ganharia respeito por parte dos e ignorantes e arrogantes lavradores das terras de Capelins! Fez uma carta na qual declarava que a Maria era sua afilhada e sua protegida, assinou e colocou a chancela da sereníssima Casa de Bragança, para que, se alguma vez fosse incomodada a apresentar às autoridades incluindo os ordenanças (guardas do reino)! A fidalga mandou as criadas encher uma arca com roupa e com obras feitas pela Maria e disse-lhe que os bordados eram uma segurança financeira se tivesse necessidade para os vender às lavradoras de Capelins ou Terena! Entregou-lhe uma bolsa com dinheiro e disse-lhe que dava para comprar uma casinha em Capelins para ela e, ainda podia ajudar os pais!
Na madrugada seguinte, depois das despedidas muito emotivas a Maria voltou a casa no coche da fidalga em companhia de duas criadas! Quando chegou, houve grande alegria dos seus pais e irmãos, pensavam que ela nunca mais voltava, mas ao mesmo tempo ficaram apreensivos, sem saber como seria a vida dela na aldeia! Porém,  a Maria contou-lhe do falecimento do fidalgo e do recolhimento da fidalga a um convento e que não quis ficar sozinha em Évora e que tinha dinheiro para fazer uma vida desafogada, então, ficaram aliviados! A Maria ajudou os pais e os irmãos com o dinheiro que trazia e pediu-lhe ajuda para mandar fazer uma casa para ela, porque, quando enviasse a primeira carta à fidalga tinha de lhe contar que já tinha a sua casa para morar! A Maria continuou a bordar e a estudar as leis do reino, porque, exigiam muito estudo, foi bem avisada pela fidalga que tinha de as ler muitas vezes para as poder compreender, porque aquilo que parece que é, quase nunca é, e não podia errar senão perdiam todo o respeito por ela e ainda era vexada! 
Nas terras de Capelins e arredores começaram a falar que a menina Maria de Jesus sabia muito de leis e algumas pessoas que se sentiam injustiçadas começaram a pedir-lhe conselhos e para ela as encaminhar para as entidades certas! Como poucos sabiam ler e escrever, ela escrevia cartas para apresentarem nas Repartições do Reino e para juízes, os quais na maior parte dos casos atiravam com elas e nem as liam, as pessoas vinham contar-lhe e ela fazia outra onde mencionava as leis em que se enquadravam os casos! Alguns juízes, como eram poderosos começaram a achar que era falta de respeito e apresentaram queixa contra ela ao capitão de ordenanças de Terena, aludindo que ela lhe faltava ao respeito! O capitão mandou o sargento a Capelins dizer-lhe que nunca mais escrevesse nenhuma carta aos juízes senão tinha de responder por falta de respeito! O sargento chegou à porta da Maria e chamou-a! Ela veio e ouviu o recado do sargento! Depois disse-lhe que, não estava a faltar ao respeito aos juízes porque cumpria a lei e, se escrevia as cartas era porque as pessoas eram analfabetas e tinham dificuldade em se exprimir perante os juízes! O sargento ouviu-a e disse-lhe que as ordens era para acabar com as cartas ou seria presa! A Maria repetiu que não estava fora da lei e, por isso ia continuar a ajudar as pessoas! O sargento em tom agressivo disse-lhe que se escrevesse mais alguma carta ia à frente deles a pé até Terena, fosse coxa ou não fosse! A Maria sentiu-se ameaçada e pediu-lhe para esperar um pouco, porque tinha uma carta para ele ler e transmitir ao capitão o que a carta dizia! Trouxe a carta onde estava escrito que a Maria era afilhada da fidalga e protegida da sereníssima Casa de Bragança! O sargento leu a carta duas vezes, com muita atenção, quando viu que a chancela era verdadeira pediu perdão por ter sido tão rude e que era um seu criado e que fazia bem em ajudar as pessoas! Despediu-se da Maria e foi à taberna averiguar sobre a vida da Maria, chamou o taberneiro de parte e perguntou-lhe:
Sargento: Conheces uma Maria de Jesus que mora ali em cima? 
Taberneiro: A menina Maria? Conheço muito bem! Então fez alguma coisa de mal? 
Sargento: Acho que não! Mas como é que ela é protegida pela sereníssima Casa de Bragança? Está aí um grande mistério!
Taberneiro: Não há mistério nenhum! Ela saiu daqui pela mão de uma fidalga da Casa de Bragança, tem estado em Évora no palácio dela e só voltou porque a fidalga recolheu-se a um Convento, mas continua a olhar por ela, trocam cartas, e dizem aí que só não foi para bordadeira da Rainha senhora Dª Maria II, porque não quis aceitar o lugar, parece que conheceu a Rainha lá para Évora! Fora o que não se sabe!
Sargento: Oh valha-me Deus, estou a ver que é mesmo importante! Só não sei porque se veio meter aqui nesta aldeia! 
Taberneiro: Ela é muito importante e sabe as leis do reino! Veio por causa dos pais! Não os quis abandonar, trocou o palácio real por esta casinha! Diz que é mais feliz a bordar aqui, do que se fosse para a Corte! 
O sargento não quis ouvir mais nada, despediu-se e foi a correr para Terena!
O sargento chegou a Terena, apresentou-se ao capitão e relatou-lhe tudo o que se tinha passado em Capelins e disse-lhe que estava com muito medo que a menina Maria de Jesus fizesse queixa deles, porque ele antes de saber da existência da carta protetora tinha sido agressivo para com ela, decerto os punham fora de ordenanças ou, os mudavam dali!
Algum castigo iam ter! O capitão depois de ouvir o sargento também ficou preocupado e decidiu ir pessoalmente apresentar desculpas à Maria de Jesus! Foi a Capelins de Cima, apresentou-se com muita simpatia, pediu desculpa pela diligência feita pelo sargento e disse à Maria que nada do que tinha acontecido partiu dele, que foi devido a uma queixa dos juízes, mas podia estar descansada e continuar a escrever as cartas, porque sabia que estava tudo dentro das leis do Reino e não era proibido ajudar as pessoas, seria mesmo isso que ia participar aos juízes! 
A Maria de Jesus disse-lhe que compreendia a situação! Quanto à atitude do sargento ele apenas tinha cumprido as ordens dadas pelos seus superiores! E, uma vez que tudo não tinha passado de um mal entendido não ia apresentar queixa contra os ordenanças! 
O capitão ficou aliviado e agradeceu à Maria de Jesus pela sua compreensão! Pediu novamente desculpa e despediu-se com um gesto de continência! Foi dali, fez um relatório sobre a diligência feita e enviou-o aos juízes que tinham apresentado queixa, explicando tudo sobre a vida da Maria de Jesus e fez a situação muito feia, por ela ter sido incomodada, uma vez que estava tudo dentro das leis do Reino! A partir daquele dia os juízes mudaram a atitude, sempre que alguém entregava uma carta escrita pela Maria de Jesus, era recebido pelo respetivo juíz e o caso tratado com muita atenção! 
A Maria tornou-se a pessoa mais importante e poderosa das terras de Capelins e, dos arredores, deixou de ser apelidada de "aleijadinha" apenas algumas pessoas, por questão de identificação lhe chamavam a "coxinha", passando a ser conhecida por menina Maria de Jesus! 
A menina Maria de Jesus, cumpriu tudo o que tinha combinado com a fidalga até ao falecimento da mesma e, até ao fim da sua vida ajudou a família e os mais pobrezinhos de Capelins, usando as recompensas que recebia dos mais abastados em troca de conselhos jurídicos e, também do que ganhava com os seus lindos bordados! E, nunca se esquecia das palavras da fidalga: "quem tem o conhecimento, tem um tesouro"

Fim

Monte Grande



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