quarta-feira, 13 de setembro de 2017

338 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do Peleiro de Elvas e do pastor de Terena 
Num dia do mês de Janeiro do ano de 1760, um peleiro ou negociante de peles, o Ti Peleiro, como o apelidavam por aqui, tanto  comprava como vendia peles de animais, que alguns contrabandeavam para Espanha, residia em Elvas, onde passava pouco tempo, tinha dois burros e andava pelas terras da raia, desde Elvas, Juromenha, Mina do Bugalho, Vila de Ferreira às Neves, Capelins de Cima, Capelins de Baixo, Cabeça de Carneiro, até Monsaraz! Depois, voltava por Reguengos, Santiago Maior, Hortinhas, Terena, Alandroal, Vila Viçosa, São Romão, até Elvas, levava cerca de quinze dias nessa volta, fazendo esse trajeto duas vezes por mês, sendo bem conhecido por estas gentes raianas, muitas pessoas esperavam-no só para saber as novidades que ele trazia e que ouvia pelas localidades por onde ia passando. Nunca tinha pressa, porque o seu negócio exigia que verificasse bem as peles e regateava, porque arranjava sempre algum defeito para pagar o menos possível. Em Janeiro de 1760, como habitualmente, um dia o ti Peleiro passava a Ribeira do Lucefécit no porto romano das Águas Frias de Baixo e começou a ouvir um homem a gemer com dores, deixou os burros presos a um chaparro e seguiu a direção dos gemidos na margem direita da Ribeira e, logo acima do Moinho Velho das Águas Frias, encontrou um homem enrolado no chão contorcendo-se com dores e a tremer! O ti Peleiro, viu que o caso era grave e ficou sem saber o que fazer, começou a perguntar-lhe onde lhe doía, se tinha caído, se estava ali há muito tempo, mas não percebia as respostas, então pensou que era uma cólica e voltou ao lugar onde tinha os burros, levou-os pela Ribeira abaixo, prendeu-os e tirou uma manta muito boa do alforge, que usava para passar as noites tão frias naquela região, estendeu-a, levantou o homem do chão, deitou-o na manta tapou-o e ficou muito bem aconchegado, daí a pouco já não tremia quase nada! Foi apanhar lenha, fez um lume e pôs uma cafeteira com água a aquecer, quando a água estava a ferver pegou num pequeno pano apanhou dois "cagalhões" dos burros, atou as pontas do pano e meteu-os na cafeteira, deixou ferver e fez um chá, arredou a cafeteira do lume, deixou-o arrefecer um pouco, despejou para um quartilho e começou a dar de beber o chá ao homem que, com alguma dificuldade foi bebendo. A dor foi diminuindo e, não demorou, deixou-se dormir! O ti Peleiro, ficou sentado junto dele mais de duas horas até acordar, já quase sem dor! Como trazia farinha de trigo nos mantimentos, para quando fritava peixe do rio, fez-lhe umas papas com água e sal e, muito devagar, o homem foi comendo! Antes do meio dia estava em condições de continuar a sua viagem para a Vila de Ferreira, o mesmo caminho do ti Peleiro! Foram falando e o homem contou-lhe que se chamava Joaquim, era de Terena e vinha guardar umas ovelhas para a Defesa de Ferreira, mas que chegar ali tinha tido uma dor (cólica) tão forte que nem o deixava pôr em pé! Contou-lh que já tinha ouvido falar no ti Peleiro e agradeceu-lhe muito por lhe ter salvado a vida! Chegaram à Vila de Ferreira nas Neves, o ti Joaquim tornou a agradecer, separaram-se e cada um foi à sua vida! 
O ano de 1760, decorria muito chuvoso, mas a vida do ti Peleiro obrigava-o a andar debaixo de chuva, atravessando Ribeiros e Ribeiras com muita água durante o inverno, ele conhecia muito bem todos os lugares onde podia passar, assim, num dia do mês de Março, o ti Peleiro, como já tinha feito dezenas de vezes, foi passar a Ribeira do Lucefécit que levava grande cheia, no porto das Águas Frias de Baixo, tentou saltar de passadeira em passadeira, mas elas estavam submersas e chegou a meio parou indeciso, mas já era tarde para voltar para trás, ainda olhou, para avaliar a situação, mas nesse momento veio uma enxurrada com mistura de grandes ramos de árvores que o arrastou e aos burros pela Ribeira abaixo, foi obrigado a largar a arreata dos burros e deu por si agarrado a um silvado, logo acima do Moinho Velho. Estava agarrado às silvas, mas nem sentia as picadas, só pensava em salvar a vida, mas encontrava-se numa posição que a qualquer momento podia ser arrastado e seria o seu fim! Começou a gritar por socorro, socorro, na esperança que alguém lhe prestasse auxílio. O ti Joaquim, já estava a voltar as ovelhas para o lado da choça e ouviu os gritos de aflição, foi a correr e viu o ti Peleiro agarrado às silvas, entrou no silvado até onde achou seguro e com o graveto de apanhar as ovelhas agarrou-o pelo casaco junto aos ombros e gritou-lhe para se agarrar bem e ir rodando para a direita a fim de se livrar da corrente! O ti Peleiro assim fez e o ti Joaquim aplicou toda a força que conseguiu e puxou-o para a margem. O ti Peleiro estava esgotado e enxarcado até aos ossos, o ti Joaquim tirou-lhe o casaco e vestiu-lhe o pelico. O ti Peleiro esteve meia hora deitado a descansar, depois com a ajuda do ti Joaquim lá se conseguiu pôr em pé e caminharam na direção da Vila de Ferreira, Neves, para os lados da choça. O ti Peleiro ia a lamentar-se que os seus burros se tinham afogado, era a desgraça da vida dele e mais isto e mais aquilo e o ti Joaquim acalmava-o e dizia-lhe que no dia seguinte logo os procuravam e podiam estar vivos! Quando iam no outeiro a norte das Neves, olharam para os lados da Ribeira e de Santa Luzia e viram os dois burros do outro lado. O ti Joaquim foi a correr assobiar e gritar ao pastor de Santa Luzia, que andava por ali com as ovelhas e pediu-lhe para os levar para a choça que no dia seguinte ia lá buscá-los! Dali seguiram para a choça e o ti Joaquim tratou muito bem o ti Peleiro e só o deixou partir ao fim de três dias, quando já estava bem! O ti Peleiro agradeceu-lhe muito por lhe ter salvado a vida e por o ter tratado tão bem! 
Em tão pouco tempo  a história repetiu-se! Por isso, assenta aqui bem o provérbio: "Faz bem, não olhes a quem"!
O ti Peleiro continuou naquela vida, mais alguns anos, nunca mais passou pela Vila de Ferreira sem visitar o ti Joaquim e, ficaram como irmãos! 

Porto das Águas Frias de Baixo


terça-feira, 12 de setembro de 2017

337 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
O Algarve de Água e o Algarve Seco de Capelins 
O subsolo das terras de Capelins, parece ser fértil em minérios, com mais abundância em ferro, vindo daí a toponímia da Vila de Ferreira Romana. Ainda hoje, se encontra aberta uma das minas  Romanas, constituída por um poço retangular escavado na vertical e depois a cerca de 4/5 metros de profundidade sai uma galeria na horizontal na direção sul com dimensões indefinidas! A esta mina Romana, os nosso antepassados designaram por Algarve de Água e fica situada na Defesa de Ferreira de Cima, junto à estrada Ferreira - Rosário. Passados 1900 anos surgiu outro Algarve, o Seco, mas este na Defesa de Ferreira de Baixo, separando-os mais de um quilometro de distância, reforçada por um vale e um grande outeiro! As gerações mais recentes achavam estranho essa designação e, queriam saber porque motivo se chamavam Algarves, sendo a dúvida ainda maior na Escola Primária quando começavam a estudar as províncias de Portugal, porque, ainda maior era a confusão entre os Algarves de Ferreira e a província do sul! O mito era evidenciado quando os mais velhos contavam que, uns homens das minas, tinham derramado azeite no Algarve de Água e esse azeite apareceu no Algarve Seco, por isso, diziam que ambos estavam de alguma forma ligados, decerto por um túnel que abriram noutros tempos, provavelmente os romanos! Mas não deixava de existir uma contradição, porque o Algarve Seco, só foi escavado nas primeiras décadas de 1900, por coincidência 1900 anos depois do outro e, se o Algarve era Seco, como foi transportado o azeite? E quem desperdiçava azeite naqueles tempos de tanta miséria? Isso, nunca teve explicação, mas não importava, fosse como fosse, havia ali um mistério! E o mistério continua, porque este mito vai passando de geração em geração e temos de acreditar nos nossos avós! 
Agora, viemos saber que não existe ali nenhum Algarve, mas sim, Algar de Àgua e Algar Seco! E que Algar significa: Cova profunda feita pelas torrentes e enxurradas ou Caverna! 
Naquele caso, podiam ser Algares, ou Foyos/Fojos como outros que existem perto de Alandroal, mas somente se fossem abertos pela natureza! Aqueles não foram, pelo menos o que está à vista!

Mina Romana de Ferreira - Capelins



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

336 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do Encontro dos Irmãos, Pastores da Póvoa Nova, Serra da Estrêla, no Alto do Malhão em Capelins
No Domingo dia 9 de Março de 1845, ao lusco fusco, o ti José de Brito, pastor na Defesa de Ferreira, que tinha a Choça perto do Monte do Escrivão onde também tinha uma casa, voltava de Capelins de Baixo e já tinha bebido uns copos de vinho, quando ia no alto do malhão, tropeçou ou escorregou na estrada lamacenta e foi de encontro a outro transeunte que vinha em sentido contrário, dando-lhe uma grande cabeçada no peito! O homem ficou muito zangado e exclamou: 
Transeunte: Oh homem, vocemecê está maluco? Ou já vem bêbedo? 
Ti José: Nem uma coisa nem outra, veja lá como fala, senão leva mesmo a sério!
Transeunte: Olha este! Então vocemecê dá-me uma cabeçada, sem mais nem menos e ainda quer ter razão?
Ti José: Não foi sem mais nem menos, vocemecê não viu que foi sem querer! Escorreguei e fui aí ter consigo!
Transeunte: Veio ter comigo e bateu-me, mas é porque já vem com o grão na asa, senão isto não tinha acontecido!
Ti José: Já lhe disse para ter tento na lingua, vocemecê não sabe com quem está a falar!  
Transeunte: E vocemecê sabe? Por isso tenha muito cuidado, não sabe do que eu sou capaz de fazer! Espere lá! Não me diga que também é lá de xima? Fala quase como eu! 
Ti José: Sou lá de xima, sou! Porquê? 
Transeunte: Porque eu também sou! De onde é vocemecê? 
Ti José: Eu sou da Póvoa Nova, da Serra da Estrêla! E vocemecê?
Transeunte: Eu também sou da Póvoa Nova! Então vocemecê é filho de quem?
Ti José: Eu sou filho do ti Xico Beiçude e da ti Rita Benta, que moravam ao pé do Ribeiro!
Transeunte: Sei muito bem onde moravam! Eu também sou filho deles! 
Aqui, os dois em coro exclamaram: Então somos irmãos!
Ti José: Então tu és qual? 
Transeunte: Eu sou o Joaquim! E tu? 
Ti José: Eu sou o José! 
Ti Joaquim: O José? E eu que pensava que o José era um dos cinco que se finaram! Vê lá se és a alma dele que anda penada e agora vens ter comigo! 
Ti José: Vê lá se queres levar outra cabeçada, para teres a certeza que sou eu, o José! 
Ti Joaquim: Não! Não! Já chegou a que me deste! Então abalaste de lá há tantos anos e nunca mais puseste os pés na Póvoa Nova! 
Ti José: Nunca mais! E não volto a pôr lá os pés! E tu onde andas com as ovelhas e desde quando? 
Ti Joaquim: Ando com as ovelhas  na herdade do Roncão! E vim quando vieram todos, em Novembro! E tu onde andas? 
Ti José: Eu ando aqui na Defesa e tenho uma casinha no Monte do Escrivão! Já tenho mulher e filhos! E tu, também tens? 
Ti Joaquim: Tenho, mas ficaram na Póvoa Nova! É muito longe para os trazer, são pequenos! 
Ti José: E os nossos pais ficaram bons? 
Ti Joaquim: O nosso pai já faleceu! A mãe está muito boa!
Ti José: O pai já faleceu? Com o quê? 
Ti Joaquim: Caiu de um carro de bois, ia em cima de uma carrada de palha e partiu o pescoço! 
Ti José: Olha, que descanse em paz! E a nossa burra?
Ti Joaquim: A nossa burra também já morreu!
 O ti José, começou a chorar e o ti Joaquim muito surpreendido perguntou-lhe:
Ti Joaquim: Olha lá irmão, quando te disse que o nosso pai tinha morrido nem choraste! Agora, quando te disse que a nossa burra morreu, fazes um pranto desses! Isso é porquê? 
Ti José: Isto é porque a burra andava comigo a "cavalo" e era a maior amiga que eu tinha na Póvoa Nova! E o pai dava-me uma surra todos os dias! 
Ti Joaquim: E a mim irmão! Adeus, até pode ser que ainda nos encontramos por aí! 
Ti José: Adeus irmão, pode ser que sim! 
O ti Joaquim e o ti José despediram-se nessa noite no alto do malhão e nunca mais se viram, embora o ti Joaquim continuasse a vir na transumância para a herdade do Roncão e outras vizinhas, durante alguns anos! 
Nessa época, as famílias eram tão numerosas que alguns irmãos mal se conheciam, porque, quando nasciam os irmãos mais novos, já os mais velhos estavam fora de casa em ajudas de pastores ou de outros ganadeiros e, muitos raramente punham os pés em casa. 

Alto do Malhão




domingo, 10 de setembro de 2017

335 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
Das Choças aos Cabanões das Terras de Capelins

Nas terras de Capelins, existiam muitas choças, nos campos, junto aos Montes, dentro e nos arredores das Aldeias! No entanto, apenas se designavam choças as estruturas de menor dimensão, as quais, podiam ser fixas ou móveis, neste caso, eram abrigos dos pastores que as deslocavam acompanhando os rebanhos para todos os lugares a que eram obrigados a mudarem-se por motivo de aproveitamento de novas pastagens! Algumas choças eram constituídas por peças separadas, que rapidamente se juntavam e ficavam prontas a abrigar os pastores, mas havia outras de maior dimensão que serviam para abrigar toda a família, eram a sua habitação, mas mesmo essas, desde que fossem dos pastores, não deixavam de ser choças. 

As choças com maiores dimensões e imóveis, nas terras de Capelins designavam-se por Cabanões e, geralmente, eram constituídas por uma parede feita em pedra com cerca de um metro de altura e, meio metro de largura que lhe conferia um bom ambiente interior e, podiam ter formas circulares, quadrangulares ou retangulares, sendo estas últimas, as que mais predominavam nesta região! Com uma técnica de construção rudimentar mas muito eficiente, os cabanões utilizavam no seu fabrico unicamente matéria prima obtida localmente. Sobre a estrutura de pedra assentavam vários paus, tipo barrotes, colocados ao alto e lateralmente, que eram colhidos em árvores da região, geralmente de madeira de azinheiras, freixos ou outras árvores nativas nos Ribeiros, Ribeiras e no rio Guadiana, que no interior davam forma ao esqueleto da cobertura. No Outono, cortavam o piorno/giesta e estevas, que eram entrelaçados naqueles paus e cobriam completamente toda a estrutura. Mais tarde, também era usada palha de centeio ou junco para fazer essa cobertura. Uma porta, também coberta pelos referidos arbustos, possibilitava o acesso ao interior, formado por um só espaço, onde também podia existir um lugar para o lume, saindo o fumo por uma pequena chaminé existente a um canto do cabanão. 
Os cabanões, eram usados para diversos fins, entre os quais, abrigar animais, guardar forragens, alfaias e utensílios usados na agricultura e pecuária e eram a habitação de muitas famílias podendo ser comum à família e aos animais, burros/as ou outras muares. 
Os cabanões, construções intemporais desde sempre presentes na paisagem humanizada das terras de Capelins, parecem ser testemunhos vivos das habitações pré-romanas, existindo testemunhos disso, no vale do rio Guadiana e das Ribeiras do Lucefécit e do Azevel. 
Eram essas as habitações de outrora, por isso, nasceram, viveram e faleceram muitos/as capelinenses, nos cabanões das terras de Capelins.

Aqui era um cabanão! 



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

334 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
Gastronomia das terras de Capelins 
Caspacho ou Gaspacho 
O Gaspacho era/é um prato que, no verão, era servido quase diariamente nas casas de Capelins. No tempo das ceifas e debulha de cereais fazia parte da merenda! Pelas dezassete horas era feito um Gaspacho com tomate e acompanhado com azeitonas e muitas vezes ainda era servido outro à ceia (jantar)!

Ingredientes:
Alho
Sal
Azeite
Vinagre
Pão
Tomate
Pepino 

Numa terrina ou tigela de barro, corta-se um dente de alho em pequeninos pedaços, junta-se água fresca, azeite, q.b vinagre, sal, tomate cortado em pequenos cubos, pepino cortado em bocadinhos pequenos, junta-se o pão cortado em pequenos cubos, dão-se umas voltas com uma colher para misturar tudo e fica pronto a servir! Era acompanhado com azeitonas, ou sem nada! 

Bom apetite! 

Hoje são um pouco diferentes, principalmente os acompanhantes! 




333 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins 

Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do Frade eremita da pobre vida, que enganou o 

pastor da Defesa de Bobadela, em Capelins

A Congregação dos Eremitas de São Paulo da Serra D ‘ Ossa, era um movimento de cariz eremítico que surgiu no Alto Alentejo a partir da segunda metade do século XIV, embora enquadrado na forma de vida monástica, foi fortemente influenciado por práticas mendicantes.
Com uma rápida expansão a partir da Serra D’Ossa, local de onde partiram vários pobres para reformar alguns lugares ou para fundar novas casas, os homens da pobre vida em pouco mais de um século, entre 1366 e finais do século XV, instalaram, na diocese de Évora e sobretudo no Alto Alentejo, um total de treze eremitérios. Alguns instalaram-se nas imediações de aldeias, vilas e cidades, em locais ermos que designavam como “provenças”.
A partir da Serra D’ Ossa, para sul, avistam-se terras de Espanha, tendo como pano de fundo algumas serras, então, um frade eremita começou a pensar em ir até lá, porque parecia-lhe um bom lugar para fazer uma “provença”! Disse a alguns frades do Convento de São Paulo o que pretendia fazer e pediu-lhe informações sobre aquela área geográfica e eles disseram-lhe que achavam serem aquelas serras no Reino de Espanha e só com uma autorização desse reino ali se poderia instalar! O frade eremita, ou da pobre vida, não deixava de sonhar com aquelas terras do sul, que avistava lá tão longe e continuou a averiguar qual seria o melhor caminho para chegar lá, sendo informado que podia descer a serra D’ Ossa até à Ribeira do Lucefécit e depois seguia o seu leito até ao rio Guadiana, onde acabava o Reino de Portugal e começava o de Espanha!
O frade da pobre vida, depois de obter a devida autorização do Prior, numa madrugada do mês de Abril de 1721 pôs-se a caminho, ao fim de algumas horas conseguiu encontrar a Ribeira do Lucefécit e, a partir dali ficou orientado! Levou pouca comida, porque a mesma, era escassa no Convento, mas foi colhendo frutos bravos, bagas e ervas comestíveis, que ele bem conhecia! Ao chegar a Terena, procurou a vigararia e aí deram-lhe alguns mantimentos, principalmente pão e, também aí dormiu! De madrugada continuou a sua viagem, chegando à foz da Ribeira do Lucefécit perto do meio dia do dia seguinte ao da partida da serra D’ Ossa, porque foi muito devagar para observar bem a natureza da qual era amante! O rio Guadiana ainda levava muita água, porque chovia muito no mês de Abril, então parou nesse lugar e ficou a observar a fauna, flora, os cheiros da natureza e tudo o que o rodeava! Os aromas naturais emanados pelo rio Guadiana deixaram-no imediatamente apaixonado por aquele lugar e passadas poucas horas estava decidido a criar ali uma “provença” ou seja, um tipo de eremitério. Procurou um abrigo provisório junto a umas rochas onde encostou uns paus, colocou-lhe umas pedras grandes em cima para os fixar ao chão e fez uma armação em mato, com estevas, piorno e giestas, depressa arranjou um bom abrigo do frio, da chuva e do vento! Depois de ter esse lugar seguro, decidiu ir explorar as margens do rio Guadiana e verificou que havia por ali muita gente, moleiros e família, seareiros a levar o trigo aos moinhos, pescadores, ganadeiros e outras pessoas, o que não era bom, talvez assim não lhe faltasse comida, não que ele precisasse de muita, umas bagas, amoras, uvas bravas, uns figos e pouco mais, comia menos do que um passarinho, em parte alimentava-se através da meditação, mas era mau para um eremita que precisava de meditar sem ser incomodado! Como ainda não conhecia a região pensou em não desistir do lugar sem verificar se existia outro, para se instalar e foi descendo o rio Guadiana até chegar ao pequeno Ribeiro que separa a Defesa da Bobadela de Cima da Amadoreira, subiu um pouco esse Ribeiro e achou que era aí que queria ficar e já nem voltou lá acima à Foz da Ribeira, cortou alguns ramos de arbustos e fez outro abrigo num lugar muito bonito no lado da herdade da Amadoreira! Nesse dia, como estava cansado e ainda tinha umas côdeas de pão, já não saiu dali, sentou-se a observar tudo o que o rodeava e estava cada vez mais convencido ser aquele o sítio certo para se instalar! Disse algumas orações e fez-se noite, comeu pouca coisa e enrolou-se na manta em cima de junco, buinho, piorno e outros arbustos e dormiu que nem um anjo. Porém, não há bela sem senão, logo de madrugada foi acordado com o barulho de um rebanho de ovelhas, o balir, os chocalhos e os gritos e assobios do pastor! Ai valha-me Deus! Eu a pensar que estava no sítio certo, até me parecia o céu, agora uma coisa destas! Estava neste pensamento quando ouve uma voz acutilante, era o pastor:
Pastor: Então? O que é que vossemecê faz aqui?
Frade: Bom dia! Eu sou frade eremita do Convento da Serra D’ Ossa e estou a pensar em ficar por aqui algum tempo! Se não fizer aqui mal a ninguém!
Pastor: Cá pra mim, não me faz mal nenhum! Mas vem para um sítio destes fazer o quê?
Frade: Como sou eremita da pobre vida, venho para aqui meditar, entregar-me a Deus e à natureza, neste lugar tão aprazível!
Pastor: Isso é o quê? Nunca vi essas coisas! Meditar?
Frade: É pensar! Refletir! Falar com Deus e com a natureza através da minha mente e do meu corpo!
Pastor: Eu não percebo nada disso, mesmo nada! Percebo é de ovelhas e não é pouco! Eu nem sei se não sou filho de uma ovelha! Mas se fala com Deus, está tudo dito! Passe bem, que eu tenho mais que fazer!
O pastor e o rebanho afastaram-se e ficaram apenas os rumores da natureza, o ambiente propício à meditação, que imediatamente fez o frade mudar a ideia de abalar dali! Desceu o Ribeiro até ao rio Guadiana, lavou-se, bebeu água e foi procurar alguma coisa comestível, fornecida pela natureza! Por ali andou, até à hora da meditação, que foi fazer perto do lugar onde tinha os seus poucos haveres, pouco mais do que uma manta! Estava tudo a correr bem até ao momento em que sentiu estar a ser observado, era novamente o pastor que estava atrás de uma moita de estevas com os olhos arregalados para o que estava vendo, que não era mais do que o frade em meditação, uma coisa que ele nunca tinha visto e achava muito estranho, por isso, não demorou a aproximar-se para fazer perguntas ao frade:
Pastor: Olhe lá! Não me diga que estava a falar com Deus? Ou estava a dormir a sesta sentado?
Frade: Estava a entregar-me a Deus e à natureza! Mas se não se importar eu preciso de continuar, de silêncio e de estar sozinho, como lhe disse sou um eremita!
Pastor: Já percebi que não me quer aqui! Está bem, vou-me já embora a ver das ovelhas! Só gostava de saber que conversa é a sua com Deus! Eu estive à coca e não ouvi nada! Como é que falam? Vocemecê não diz nada!
Frade: Não é propriamente falar, é através da meditação! É preciso silêncio para esvaziar a mente e o corpo!
Pastor: Ai valha-me Deus! O que me havia de aparecer aqui! Passe bem e por mim pode continuar a falar com Deus ou com quem vossemecê quiser!
O frade eremita passava os dias em meditação, mas o pastor continuava a observá-lo à distância, era o seu divertimento!
O pastor quando chegava à noitinha recolhia à sua choça na Defesa de Bobadela de Cima, onde estavam a mulher e os filhos e levava sempre novidades, já estavam esperando por ele para saberem se tinha ouvido o que disse Deus ao eremita, mas as novidades não eram muitas, sempre o mesmo! O homem dá-me dó, passa horas e horas sem comer nem beber a falar com Deus, devem ter muito que falar um com o outro! Contava o pastor à mulher e aos filhos!
O verão foi passando, mas a situação não se alterava, o pastor já ligava mais ao que o frade eremita fazia do que às ovelhas, tudo era admiração, contava tudo à família, a qual, depois se encarregava de espalhar pelas terras de Capelins! Como estava a acabar o verão e o abrigo do frade era muito fraco para suportar o frio e chuvas do inverno que se aproximava, o frade procurou um lugar agradável para se instalar melhor, quando o encontrou, sentou-se na posição da meditação, na margem esquerda do Ribeiro, onde previu que a água não chegaria e fingiu que estava a meditar, não demorou nada já estava o pastor deitado nas rochas por cima dele, a tentar ouvir a conversa! O pastor pensou: Hoje é que não te escapas! Daqui vou ouvir a tua conversa toda com Deus! O frade estava a vê-lo por cima dele, fingiu que falava com Deus e levantou a voz: “O tesouro está por cima de mim e será recolhido por quem salsa semear, com água de maná a regar, quando ela florescer, o tesouro pode recolher”! O pastor nem quis ouvir mais nada, mandou os cães virar as ovelhas e foi mais cedo para a choça! Entrou espavorido e disse à mulher: Maria! Estamos quase ricos! Hoje ouvi a conversa do frade eremita com Deus, já sei onde está um tesouro! Eu já tinha ouvido isso a muita gente, só faltava saber o sítio! Agora já sei!
Ti Maria: Espera lá Manoel, então se está lá um tesouro e esse eremita sabe onde ele está, porque motivo é para ti e não o leva ele?
Pastor: Oh mulher, quantas vezes já te disse que o homem é da “Congregação de Jesus da Pobre Vida”, ele não pode ter nada! Mas Deus disse-lhe que estava ali um tesouro, eu ouvi bem! O que queres que eu te diga mais?
Ti Maria: Então se o tesouro lá está, porque não o trouxeste já? Estou mesmo a ver que quando o fores a buscar já lá não está, já outro o levou! És sempre o mesmo parvo!
Pastor: Eh lá! Parvo é que eu não sou! É que para trazer o tesouro, ainda tenho de fazer algumas coisas, ainda temos de dar umas voltas!
Ti Maria: Eu vi logo! A nossa sorte é sempre assim! Então o que temos de fazer para o trazer para a choça?
Pastor: Eu já te conto mulher! Há aí uma coisa que eu não sei como a vamos arranjar!
O pastor contou à Ti Maria o que tinham de fazer, afinal era quase tudo muito fácil, o maior problema era encontrar a água de maná! Mas que água será essa? Será da Botica? Deve ser muito cara! Onde vamos arranjar essa água para regar a salsa? Interrogavam-se ambos! A Ti Maria prontificou-se a ir até onde fosse preciso a procurar a água de maná! Então faz lá isso mulher, porque eu não posso deixar as ovelhas! A ti Maria no dia seguinte saiu da choça e foi procurar a água de maná! Levantou-se cedo com ideia de ir a Terena, mas como tinha duas irmãs que moravam na Vila de Ferreira, às Neves, pensou em falar com elas para saber se queriam ir a Terena ou alguma coisa de lá! As irmãs perguntaram-lhe o que ia lá fazer?
Ti Maria: Vou ver se encontro lá, água de maná, para o meu marido tratar as ovelhas!
Irmã: Mas se é só isso, não precisas de ir a Tertena! Trazes a água e o padre benze-a aqui!
Ti Maria: Oh mana, mas eu não sei o que é água de maná, para trazer ao padre!
Irmã: A água só e de maná depois do padre a benzer, porque até pode ser ali da Ribeira do Lucefécit!
Ti Maria: Estás a falar a sério mana? Ou estás a brincar comigo?
Irmã: Oh mana, então eu ia lá brincar com uma coisa dessas! Vai buscar a água que precisas para tratarem as ovelhas que eu depois vou contigo a falar aqui com o padre!
Ti Maria: Então, assim já não vou a Terena!
Irmã: Se era só por isso, não vais lá fazer nada!
A Ti Maria voltou dali para a choça e foi contar ao marido, o que era preciso fazer para terem a água de maná e ele ficou muito contente por ser tão fácil, era como se já a tivesse, ela no dia seguinte levou dois cântaros de lata cheios de água, na burra, e o Padre da Igreja de Nossa Senhora das Neves depois dela lhe explicar que era para uma mesinha e para salpicar as ovelhas depois de umas orações, porque achavam que as coisas não andavam muito bem e assim ficavam mais descansados e mais isto e mais aquilo, convenceu o padre, mas em troca deu-lhe uma dúzia de queijos. O padre benzeu a água e a Ti Maria voltou à choça muito contente!
O pastor ainda nesse dia, foi cavar bem a terra, levou uma saca de estrume das ovelhas e semeou logo a salsa, a mulher foi levar-lhe o jantar (almoço), umas sopas de grãos, e levou alguma água de maná para a regar, tapou-a com uns ramos de lenha e ficou tudo pronto e em condições de nascer! O pastor todos os dias a regava e, ao fim de quinze dias já estava a nascer! Como a terra e estrume eram bons em pouco mais de um mês a salsa já estava a florescer! O pastor ia contando à mulher o estado em que a salsa estava, até que concordaram que já podia procurar o tesouro! Na madrugada do dia seguinte levou uma picareta e uma pá, calculou o lugar por cima da salsa onde pensou estar o tesouro e começou a cavar, mas grande parte do terreno tinha rocha que exigia grande esforço, o pastor cavou três dias e grande parte das mesmas noites sem aparecer nada! A mulher que estava permanentemente a par da situação disse-lhe que ele devia estar a procurar no sítio errado, porque decerto era para o lado de cima da salsa! Depois de trocarem opiniões, o pastor mudou de lugar e começou a cavar no lado de cima, a norte da salsa e, já tinha grande buraco quando o frade que, desde o início ia observando o trabalho, com pena do pastor andar a trabalhar tanto e, porque já estava feita a gruta que precisava, foi ter com ele:
Frade: Bom dia pastor! Procura aí alguma coisa?
Pastor: Pois procuro! Então pensa que eu não ouvi Deus a dizer-lhe que estava aqui um tesouro?
Frade: Olhe que Deus não me disse nada disso! Como é que vossemecê pode ter ouvido?
Pastor: Há menos de oito dias, eu ouvi tudo! Deus a dizer-lhe "quem aqui semeasse salsa e a regasse com água de maná, quando ela estivesse como essa, podia levar um tesouro que estava por cima dela"! Foi ou não foi?
Frade: Não foi! Não! Acredito que tenha ouvido essas palavras na minha meditação, mas eu estava a ler entre linhas!
Pastor: Entre linhas? Eu não vi aqui nenhuma linha! Vocemecê está é a querer disfarçar! Mas olhe que a mim não me engana! O tesouro é meu e acabou-se!
Frade: Pode continuar cavar, se não acredita em mim, mas olhe que tudo não passa de um mal entendido! Já lhe expliquei o que foi, agora é consigo!
Pastor: Está bem! Deixa! Vocemecê é que pensa que me engana! Deve enganar, deve!
O frade afastou-se e o pastor continuou a cavar mais alguns dias, até que no lugar onde estava a cavar começou a jorra água em abundância, saindo dali uma fonte, que obrigou o pastor a abandonar o lugar e a convencer-se que o frade eremita lhe tinha falado a verdade, era mesmo um mal entendido! Foi para a choça muito triste, mais uma vez não tinha tido sorte na vida e ainda por cima trabalhou tanto! Nunca tinha trabalhado tanto na sua vida! Ainda disse à mulher: O frade eremita enganou-me, mas logo a seguir corrigiu: Não! Não enganou! Eu é que percebi mal, ele até me tentou ajudar! Eu é que fui teimoso! A Ti Maria consolou-o: Deixa marido, não estávamos guardados para isso, o que é preciso é termos saúde, eu já sabia que a nossa sorte é sermos pobres até morrer! O pastor ainda exclamou: Mas que há por aí um tesouro, lá isso há!
Chegou o inverno, o pastor mudou a choça e as ovelhas para outro lugar afastado dali e o silêncio instalou-se naquele lugar! O frade, que de verdade enganou o pastor, mudou-se para a gruta que ele abriu na barreira da margem do Ribeiro, foi só tapar a frente com uns arbustos, piorno, junco e buinho e ficou muito bem instalado, abrigado do frio e da chuva, com um lugar muito bom para a sua meditação! Por ali ficou alguns anos, depois desapareceu! Ainda hoje lá está, submersa pelas águas do Grande Lago de Alqueva, ao fundo desse Ribeiro, a dita gruta do frade eremita da pobre vida e a Fonte do Frade, ou da Figueira, por ter uma figueira ao lado!

Fim



332 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins
Gastronomia das terras de Capelins
Açorda de tomate com carne frita
A açorda de tomate com carne frita, era um prato muito forte e que na maioria das casas das terras de Capelins, ia à mesa logo de manhã, ao almoço (pequeno almoço)! os trabalhadores/as saiam para o campo ou outra atividade, muito cedo, comiam uma bucha, ou seja um naco de pão com queijo, carne, passas de figo, marmelada ou outro conduto e pelas 8 horas almoçavam (pequeno almoço) a açorda ou sopa de tomate com carne frita! 

Açorda de tomate com carne frita: 

Ingredientes:
Manteiga de porco
alho
cebola
tomate
sal
toucinho
linguinça
farinheira
cacholeira
(ou outros enchidos)
batatas (optativo)

Põe-se uma tigela de fogo ao lume com uma colher de manteiga, frita-se o toucinho em pequenos cubos e a carne (enchidos) em rodelas! Quando tudo estiver frito, tira-se para um prato e fica de lado!
No pingo da carne e do toucinho faz-se um refogado com o alho, sal, cebola e o tomate! Depois de refogado vai-se deitando (de preferência) água quente até atingir a quantidade de caldo desejada! Estando pronta, deitam-se as batatas em rodelas no caldo, deixam-se cozer e arreda-se do lume!

Numa terrina ou tigela de barro, deitam-se as pequenas fatias de pão escuro (alentejano), mais duro do que mole, despeja-se o caldo da açorda por cima do pão e come-se acompanhada com as rodelas de carne frita e do toucinho!

Bom apetite!




626 - Tradições das Terras de Capelins Nas Terras de Capelins uma serra de palha designava-se por "Almiara"! Sempre ouvimos ...