quarta-feira, 6 de setembro de 2017

334 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
Gastronomia das terras de Capelins 
Caspacho ou Gaspacho 
O Gaspacho era/é um prato que, no verão, era servido quase diariamente nas casas de Capelins. No tempo das ceifas e debulha de cereais fazia parte da merenda! Pelas dezassete horas era feito um Gaspacho com tomate e acompanhado com azeitonas e muitas vezes ainda era servido outro à ceia (jantar)!

Ingredientes:
Alho
Sal
Azeite
Vinagre
Pão
Tomate
Pepino 

Numa terrina ou tigela de barro, corta-se um dente de alho em pequeninos pedaços, junta-se água fresca, azeite, q.b vinagre, sal, tomate cortado em pequenos cubos, pepino cortado em bocadinhos pequenos, junta-se o pão cortado em pequenos cubos, dão-se umas voltas com uma colher para misturar tudo e fica pronto a servir! Era acompanhado com azeitonas, ou sem nada! 

Bom apetite! 

Hoje são um pouco diferentes, principalmente os acompanhantes! 




333 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins 

Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do Frade eremita da pobre vida, que enganou o 

pastor da Defesa de Bobadela, em Capelins

A Congregação dos Eremitas de São Paulo da Serra D ‘ Ossa, era um movimento de cariz eremítico que surgiu no Alto Alentejo a partir da segunda metade do século XIV, embora enquadrado na forma de vida monástica, foi fortemente influenciado por práticas mendicantes.
Com uma rápida expansão a partir da Serra D’Ossa, local de onde partiram vários pobres para reformar alguns lugares ou para fundar novas casas, os homens da pobre vida em pouco mais de um século, entre 1366 e finais do século XV, instalaram, na diocese de Évora e sobretudo no Alto Alentejo, um total de treze eremitérios. Alguns instalaram-se nas imediações de aldeias, vilas e cidades, em locais ermos que designavam como “provenças”.
A partir da Serra D’ Ossa, para sul, avistam-se terras de Espanha, tendo como pano de fundo algumas serras, então, um frade eremita começou a pensar em ir até lá, porque parecia-lhe um bom lugar para fazer uma “provença”! Disse a alguns frades do Convento de São Paulo o que pretendia fazer e pediu-lhe informações sobre aquela área geográfica e eles disseram-lhe que achavam serem aquelas serras no Reino de Espanha e só com uma autorização desse reino ali se poderia instalar! O frade eremita, ou da pobre vida, não deixava de sonhar com aquelas terras do sul, que avistava lá tão longe e continuou a averiguar qual seria o melhor caminho para chegar lá, sendo informado que podia descer a serra D’ Ossa até à Ribeira do Lucefécit e depois seguia o seu leito até ao rio Guadiana, onde acabava o Reino de Portugal e começava o de Espanha!
O frade da pobre vida, depois de obter a devida autorização do Prior, numa madrugada do mês de Abril de 1721 pôs-se a caminho, ao fim de algumas horas conseguiu encontrar a Ribeira do Lucefécit e, a partir dali ficou orientado! Levou pouca comida, porque a mesma, era escassa no Convento, mas foi colhendo frutos bravos, bagas e ervas comestíveis, que ele bem conhecia! Ao chegar a Terena, procurou a vigararia e aí deram-lhe alguns mantimentos, principalmente pão e, também aí dormiu! De madrugada continuou a sua viagem, chegando à foz da Ribeira do Lucefécit perto do meio dia do dia seguinte ao da partida da serra D’ Ossa, porque foi muito devagar para observar bem a natureza da qual era amante! O rio Guadiana ainda levava muita água, porque chovia muito no mês de Abril, então parou nesse lugar e ficou a observar a fauna, flora, os cheiros da natureza e tudo o que o rodeava! Os aromas naturais emanados pelo rio Guadiana deixaram-no imediatamente apaixonado por aquele lugar e passadas poucas horas estava decidido a criar ali uma “provença” ou seja, um tipo de eremitério. Procurou um abrigo provisório junto a umas rochas onde encostou uns paus, colocou-lhe umas pedras grandes em cima para os fixar ao chão e fez uma armação em mato, com estevas, piorno e giestas, depressa arranjou um bom abrigo do frio, da chuva e do vento! Depois de ter esse lugar seguro, decidiu ir explorar as margens do rio Guadiana e verificou que havia por ali muita gente, moleiros e família, seareiros a levar o trigo aos moinhos, pescadores, ganadeiros e outras pessoas, o que não era bom, talvez assim não lhe faltasse comida, não que ele precisasse de muita, umas bagas, amoras, uvas bravas, uns figos e pouco mais, comia menos do que um passarinho, em parte alimentava-se através da meditação, mas era mau para um eremita que precisava de meditar sem ser incomodado! Como ainda não conhecia a região pensou em não desistir do lugar sem verificar se existia outro, para se instalar e foi descendo o rio Guadiana até chegar ao pequeno Ribeiro que separa a Defesa da Bobadela de Cima da Amadoreira, subiu um pouco esse Ribeiro e achou que era aí que queria ficar e já nem voltou lá acima à Foz da Ribeira, cortou alguns ramos de arbustos e fez outro abrigo num lugar muito bonito no lado da herdade da Amadoreira! Nesse dia, como estava cansado e ainda tinha umas côdeas de pão, já não saiu dali, sentou-se a observar tudo o que o rodeava e estava cada vez mais convencido ser aquele o sítio certo para se instalar! Disse algumas orações e fez-se noite, comeu pouca coisa e enrolou-se na manta em cima de junco, buinho, piorno e outros arbustos e dormiu que nem um anjo. Porém, não há bela sem senão, logo de madrugada foi acordado com o barulho de um rebanho de ovelhas, o balir, os chocalhos e os gritos e assobios do pastor! Ai valha-me Deus! Eu a pensar que estava no sítio certo, até me parecia o céu, agora uma coisa destas! Estava neste pensamento quando ouve uma voz acutilante, era o pastor:
Pastor: Então? O que é que vossemecê faz aqui?
Frade: Bom dia! Eu sou frade eremita do Convento da Serra D’ Ossa e estou a pensar em ficar por aqui algum tempo! Se não fizer aqui mal a ninguém!
Pastor: Cá pra mim, não me faz mal nenhum! Mas vem para um sítio destes fazer o quê?
Frade: Como sou eremita da pobre vida, venho para aqui meditar, entregar-me a Deus e à natureza, neste lugar tão aprazível!
Pastor: Isso é o quê? Nunca vi essas coisas! Meditar?
Frade: É pensar! Refletir! Falar com Deus e com a natureza através da minha mente e do meu corpo!
Pastor: Eu não percebo nada disso, mesmo nada! Percebo é de ovelhas e não é pouco! Eu nem sei se não sou filho de uma ovelha! Mas se fala com Deus, está tudo dito! Passe bem, que eu tenho mais que fazer!
O pastor e o rebanho afastaram-se e ficaram apenas os rumores da natureza, o ambiente propício à meditação, que imediatamente fez o frade mudar a ideia de abalar dali! Desceu o Ribeiro até ao rio Guadiana, lavou-se, bebeu água e foi procurar alguma coisa comestível, fornecida pela natureza! Por ali andou, até à hora da meditação, que foi fazer perto do lugar onde tinha os seus poucos haveres, pouco mais do que uma manta! Estava tudo a correr bem até ao momento em que sentiu estar a ser observado, era novamente o pastor que estava atrás de uma moita de estevas com os olhos arregalados para o que estava vendo, que não era mais do que o frade em meditação, uma coisa que ele nunca tinha visto e achava muito estranho, por isso, não demorou a aproximar-se para fazer perguntas ao frade:
Pastor: Olhe lá! Não me diga que estava a falar com Deus? Ou estava a dormir a sesta sentado?
Frade: Estava a entregar-me a Deus e à natureza! Mas se não se importar eu preciso de continuar, de silêncio e de estar sozinho, como lhe disse sou um eremita!
Pastor: Já percebi que não me quer aqui! Está bem, vou-me já embora a ver das ovelhas! Só gostava de saber que conversa é a sua com Deus! Eu estive à coca e não ouvi nada! Como é que falam? Vocemecê não diz nada!
Frade: Não é propriamente falar, é através da meditação! É preciso silêncio para esvaziar a mente e o corpo!
Pastor: Ai valha-me Deus! O que me havia de aparecer aqui! Passe bem e por mim pode continuar a falar com Deus ou com quem vossemecê quiser!
O frade eremita passava os dias em meditação, mas o pastor continuava a observá-lo à distância, era o seu divertimento!
O pastor quando chegava à noitinha recolhia à sua choça na Defesa de Bobadela de Cima, onde estavam a mulher e os filhos e levava sempre novidades, já estavam esperando por ele para saberem se tinha ouvido o que disse Deus ao eremita, mas as novidades não eram muitas, sempre o mesmo! O homem dá-me dó, passa horas e horas sem comer nem beber a falar com Deus, devem ter muito que falar um com o outro! Contava o pastor à mulher e aos filhos!
O verão foi passando, mas a situação não se alterava, o pastor já ligava mais ao que o frade eremita fazia do que às ovelhas, tudo era admiração, contava tudo à família, a qual, depois se encarregava de espalhar pelas terras de Capelins! Como estava a acabar o verão e o abrigo do frade era muito fraco para suportar o frio e chuvas do inverno que se aproximava, o frade procurou um lugar agradável para se instalar melhor, quando o encontrou, sentou-se na posição da meditação, na margem esquerda do Ribeiro, onde previu que a água não chegaria e fingiu que estava a meditar, não demorou nada já estava o pastor deitado nas rochas por cima dele, a tentar ouvir a conversa! O pastor pensou: Hoje é que não te escapas! Daqui vou ouvir a tua conversa toda com Deus! O frade estava a vê-lo por cima dele, fingiu que falava com Deus e levantou a voz: “O tesouro está por cima de mim e será recolhido por quem salsa semear, com água de maná a regar, quando ela florescer, o tesouro pode recolher”! O pastor nem quis ouvir mais nada, mandou os cães virar as ovelhas e foi mais cedo para a choça! Entrou espavorido e disse à mulher: Maria! Estamos quase ricos! Hoje ouvi a conversa do frade eremita com Deus, já sei onde está um tesouro! Eu já tinha ouvido isso a muita gente, só faltava saber o sítio! Agora já sei!
Ti Maria: Espera lá Manoel, então se está lá um tesouro e esse eremita sabe onde ele está, porque motivo é para ti e não o leva ele?
Pastor: Oh mulher, quantas vezes já te disse que o homem é da “Congregação de Jesus da Pobre Vida”, ele não pode ter nada! Mas Deus disse-lhe que estava ali um tesouro, eu ouvi bem! O que queres que eu te diga mais?
Ti Maria: Então se o tesouro lá está, porque não o trouxeste já? Estou mesmo a ver que quando o fores a buscar já lá não está, já outro o levou! És sempre o mesmo parvo!
Pastor: Eh lá! Parvo é que eu não sou! É que para trazer o tesouro, ainda tenho de fazer algumas coisas, ainda temos de dar umas voltas!
Ti Maria: Eu vi logo! A nossa sorte é sempre assim! Então o que temos de fazer para o trazer para a choça?
Pastor: Eu já te conto mulher! Há aí uma coisa que eu não sei como a vamos arranjar!
O pastor contou à Ti Maria o que tinham de fazer, afinal era quase tudo muito fácil, o maior problema era encontrar a água de maná! Mas que água será essa? Será da Botica? Deve ser muito cara! Onde vamos arranjar essa água para regar a salsa? Interrogavam-se ambos! A Ti Maria prontificou-se a ir até onde fosse preciso a procurar a água de maná! Então faz lá isso mulher, porque eu não posso deixar as ovelhas! A ti Maria no dia seguinte saiu da choça e foi procurar a água de maná! Levantou-se cedo com ideia de ir a Terena, mas como tinha duas irmãs que moravam na Vila de Ferreira, às Neves, pensou em falar com elas para saber se queriam ir a Terena ou alguma coisa de lá! As irmãs perguntaram-lhe o que ia lá fazer?
Ti Maria: Vou ver se encontro lá, água de maná, para o meu marido tratar as ovelhas!
Irmã: Mas se é só isso, não precisas de ir a Tertena! Trazes a água e o padre benze-a aqui!
Ti Maria: Oh mana, mas eu não sei o que é água de maná, para trazer ao padre!
Irmã: A água só e de maná depois do padre a benzer, porque até pode ser ali da Ribeira do Lucefécit!
Ti Maria: Estás a falar a sério mana? Ou estás a brincar comigo?
Irmã: Oh mana, então eu ia lá brincar com uma coisa dessas! Vai buscar a água que precisas para tratarem as ovelhas que eu depois vou contigo a falar aqui com o padre!
Ti Maria: Então, assim já não vou a Terena!
Irmã: Se era só por isso, não vais lá fazer nada!
A Ti Maria voltou dali para a choça e foi contar ao marido, o que era preciso fazer para terem a água de maná e ele ficou muito contente por ser tão fácil, era como se já a tivesse, ela no dia seguinte levou dois cântaros de lata cheios de água, na burra, e o Padre da Igreja de Nossa Senhora das Neves depois dela lhe explicar que era para uma mesinha e para salpicar as ovelhas depois de umas orações, porque achavam que as coisas não andavam muito bem e assim ficavam mais descansados e mais isto e mais aquilo, convenceu o padre, mas em troca deu-lhe uma dúzia de queijos. O padre benzeu a água e a Ti Maria voltou à choça muito contente!
O pastor ainda nesse dia, foi cavar bem a terra, levou uma saca de estrume das ovelhas e semeou logo a salsa, a mulher foi levar-lhe o jantar (almoço), umas sopas de grãos, e levou alguma água de maná para a regar, tapou-a com uns ramos de lenha e ficou tudo pronto e em condições de nascer! O pastor todos os dias a regava e, ao fim de quinze dias já estava a nascer! Como a terra e estrume eram bons em pouco mais de um mês a salsa já estava a florescer! O pastor ia contando à mulher o estado em que a salsa estava, até que concordaram que já podia procurar o tesouro! Na madrugada do dia seguinte levou uma picareta e uma pá, calculou o lugar por cima da salsa onde pensou estar o tesouro e começou a cavar, mas grande parte do terreno tinha rocha que exigia grande esforço, o pastor cavou três dias e grande parte das mesmas noites sem aparecer nada! A mulher que estava permanentemente a par da situação disse-lhe que ele devia estar a procurar no sítio errado, porque decerto era para o lado de cima da salsa! Depois de trocarem opiniões, o pastor mudou de lugar e começou a cavar no lado de cima, a norte da salsa e, já tinha grande buraco quando o frade que, desde o início ia observando o trabalho, com pena do pastor andar a trabalhar tanto e, porque já estava feita a gruta que precisava, foi ter com ele:
Frade: Bom dia pastor! Procura aí alguma coisa?
Pastor: Pois procuro! Então pensa que eu não ouvi Deus a dizer-lhe que estava aqui um tesouro?
Frade: Olhe que Deus não me disse nada disso! Como é que vossemecê pode ter ouvido?
Pastor: Há menos de oito dias, eu ouvi tudo! Deus a dizer-lhe "quem aqui semeasse salsa e a regasse com água de maná, quando ela estivesse como essa, podia levar um tesouro que estava por cima dela"! Foi ou não foi?
Frade: Não foi! Não! Acredito que tenha ouvido essas palavras na minha meditação, mas eu estava a ler entre linhas!
Pastor: Entre linhas? Eu não vi aqui nenhuma linha! Vocemecê está é a querer disfarçar! Mas olhe que a mim não me engana! O tesouro é meu e acabou-se!
Frade: Pode continuar cavar, se não acredita em mim, mas olhe que tudo não passa de um mal entendido! Já lhe expliquei o que foi, agora é consigo!
Pastor: Está bem! Deixa! Vocemecê é que pensa que me engana! Deve enganar, deve!
O frade afastou-se e o pastor continuou a cavar mais alguns dias, até que no lugar onde estava a cavar começou a jorra água em abundância, saindo dali uma fonte, que obrigou o pastor a abandonar o lugar e a convencer-se que o frade eremita lhe tinha falado a verdade, era mesmo um mal entendido! Foi para a choça muito triste, mais uma vez não tinha tido sorte na vida e ainda por cima trabalhou tanto! Nunca tinha trabalhado tanto na sua vida! Ainda disse à mulher: O frade eremita enganou-me, mas logo a seguir corrigiu: Não! Não enganou! Eu é que percebi mal, ele até me tentou ajudar! Eu é que fui teimoso! A Ti Maria consolou-o: Deixa marido, não estávamos guardados para isso, o que é preciso é termos saúde, eu já sabia que a nossa sorte é sermos pobres até morrer! O pastor ainda exclamou: Mas que há por aí um tesouro, lá isso há!
Chegou o inverno, o pastor mudou a choça e as ovelhas para outro lugar afastado dali e o silêncio instalou-se naquele lugar! O frade, que de verdade enganou o pastor, mudou-se para a gruta que ele abriu na barreira da margem do Ribeiro, foi só tapar a frente com uns arbustos, piorno, junco e buinho e ficou muito bem instalado, abrigado do frio e da chuva, com um lugar muito bom para a sua meditação! Por ali ficou alguns anos, depois desapareceu! Ainda hoje lá está, submersa pelas águas do Grande Lago de Alqueva, ao fundo desse Ribeiro, a dita gruta do frade eremita da pobre vida e a Fonte do Frade, ou da Figueira, por ter uma figueira ao lado!

Fim



332 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins
Gastronomia das terras de Capelins
Açorda de tomate com carne frita
A açorda de tomate com carne frita, era um prato muito forte e que na maioria das casas das terras de Capelins, ia à mesa logo de manhã, ao almoço (pequeno almoço)! os trabalhadores/as saiam para o campo ou outra atividade, muito cedo, comiam uma bucha, ou seja um naco de pão com queijo, carne, passas de figo, marmelada ou outro conduto e pelas 8 horas almoçavam (pequeno almoço) a açorda ou sopa de tomate com carne frita! 

Açorda de tomate com carne frita: 

Ingredientes:
Manteiga de porco
alho
cebola
tomate
sal
toucinho
linguinça
farinheira
cacholeira
(ou outros enchidos)
batatas (optativo)

Põe-se uma tigela de fogo ao lume com uma colher de manteiga, frita-se o toucinho em pequenos cubos e a carne (enchidos) em rodelas! Quando tudo estiver frito, tira-se para um prato e fica de lado!
No pingo da carne e do toucinho faz-se um refogado com o alho, sal, cebola e o tomate! Depois de refogado vai-se deitando (de preferência) água quente até atingir a quantidade de caldo desejada! Estando pronta, deitam-se as batatas em rodelas no caldo, deixam-se cozer e arreda-se do lume!

Numa terrina ou tigela de barro, deitam-se as pequenas fatias de pão escuro (alentejano), mais duro do que mole, despeja-se o caldo da açorda por cima do pão e come-se acompanhada com as rodelas de carne frita e do toucinho!

Bom apetite!




terça-feira, 5 de setembro de 2017

331 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Serração da Velha
A Serração da Ti Guilhermina em 1965, em Capelins de 
Cima

Ao aproximar-se a noite da “serração da velha” que era na noite de 17 de Março, o João e o seu grupo habitual, estavam em Capelins de Baixo e ele lembrou-se que tinham de combinar as coisas para a “serração da velha”! O ajuntamento do grupo tinha de ser no cabanão do pai, perto de Capelins de Cima, porque não convinha serem vistos juntos a cochichar, senão inventavam logo que estavam a tramar alguma e ainda se estragava tudo antes de começar! Sim! Porque está na hora de escolhermos as velhas que vamos serrar e temos de combinar bem as coisas, porque todos os anos temos problemas, falha sempre alguma coisa, disse o João! Não foi preciso muito tempo para se entenderem, prontificaram-se logo a ir ter ao cabanão do pai do João! Não! Disse ele, vocês ficam além ao Muro, ao Monte Grande e eu vou lá ao cabanão ver se o meu velho lá está, ele ia para o Guadiana, mas sei lá, pode não ter ido, depois se o caminho estiver livre eu levanto o braço e vão indo um de cada vez! Todos concordaram e em poucos minutos estavam reunidos no cabanão, eram: o João I, o primo Manuel, o António, o José e o João II! Chegamos bem os cinco, senão quantos mais são, pior é, disse o João I e continuou:
João I: Bem! Eu já tenho tudo na cabeça! A serração da velha é na quarta-feira à noite, agora, só temos de acertar quais as velhas que vamos serrar, combinar quem vai falar e responder pelas velhas e lembrar as lengas lengas! Alguém tem alguma ideia brilhante nova para este ano? Eh pá, para não ser sempre a mesma coisa!
António: O que podia ser diferente eram os versos, porque o resto faz tudo parte da serração, não podemos mudar nada, senão não é serração, já no tempo do meu avô era assim!
Manuel: Bem dito! Mas qual de nós consegue fazer outros versos diferentes? Somos todos burros, para isso não damos!
João II: Pois! Tens razão” Nenhum de nós sabe fazer versos! Mas há aí muita gente que sabe! E se pedíssemos para nos fazerem uns versos novos?
João I: Tu estás parvo? Ou estás maluco? Pedíamos para nos fazerem uns versos novos e depois íamos-lhe a serrar a mãe ou a sogra! E ninguém nos fazia isso, porque depois tudo se sabe e esse é que ficava nos cornos do touro!
Isso é verdade, responderam em coro!
João I: E então? Como fazemos?
José: Fazemos como no ano passado e nos outros anos, os versos, são os que são e mais nada! Nem a gente consegue aprender mais nenhum! Esses dois que sabemos, já temos que andar agora oito dias a estudá-los e mesmo assim nos enganamos sempre, por isso, por mim fica assim!
Então fica assim! Responderam todos!
João I: Agora vamos para o ponto 2, quem fala para as velhas? E quem responde com a falinha delas?
Imediatamente, apontaram todos o João I e o Manuel e, disseram: Tu, João, falas para as velhas, apontas os defeitos e o Manuel responde com a fala delas!
João I: Quais defeitos? O que é que eu digo às velhas?
António: Dizes o mesmo do ano passado: “Oh avozinha vossemecê é muito má, é maluca, já é muito velha, está na hora de calçar as botas e ir a caminho de Santo António e deixar-me tudo o que tem, e chega isso! Depois, se nos lembrarmos logo dizemos outras coisas! Não te esqueças que cada vez que lhe disseres uma coisa destas, logo a seguir tens de perguntar: “Oh avó, o que deixa ao neto?” E o Manuel responde com a fala dela: “O buraco do cu aberto” ou “ o penico aviado” e o José está sempre passando o serrote pela tábua, depois, no fim o João II diz os versos e nós vamos todos ajudando! Perceberam?
Sim! Responderam todos! Agora é só treinarmos!
João I: Ainda falta escolhermos as velhas para serrar! A tradição diz que têm de ser as mais velhas da aldeia, mas se não forem, não são! Quantas são este ano?
António: Eh pá! Não podem ser mais que três ou quatro, porque sempre leva algum tempo! Embora possa falhar alguma, porque não se esqueçam do perigo do penico aviado que algumas tê preparado para nos atirar com o presente acima, pelo postigo! Temos de ter muito cuidado com os postigos!
Os rapazes do grupo escolheram as idosas que seriam serradas, entre elas, a mais velha da aldeia, já com idade muito acima dos oitenta anos, a Ti Guilhermina que, morava em Capelins de Cima! Combinaram acertar ainda alguns pontos até à dita noite e como estava tudo tratado a reunião foi dada como terminada! Foram saindo do cabanão um de cada vez e juntaram-se novamente a caminho de Capelins de Baixo!
Chegou a noite da serração da velha e, o grupo estava preparado para cumprir a tradição, esperaram que toda a aldeia se metesse nos lençóis e pelas 23:00 horas, acharam que estava na hora certa, para não acabarem muito tarde, pegaram no serrote, numa tábua e foram direitinhos à porta da Ti Guilhermina, porque era a mais próxima dali, depois, logo seguiriam até à casa da última velha!
A Ti Guilhermina tinha fama de ser muito rabugenta e dona de grande esperteza, mal pensavam eles que ela já há muito tempo estava sentada atrás da porta com o penico aviado e o postigo encostado, para quando eles viessem a serrá-la, como sempre faziam, abria o postigo e levavam com o produto pelas ventas e depois fossem queixar-se onde quisessem!
Os rapazes chegaram à porta com muita cautela, chiu, chiu, que a velha é esperta, dizia o João I, eles eram cinco, havia pedras soltas na rua, era impossível aproximarem-se sem a Ti Guilhermina não dar por isso! Assim que os ouviu a cochichar a Ti Guilhermina pegou no penico com uma das mãos e com a outra agarrou o fecho do postigo para o abrir, o João I ia começar a lenga lenga quando reparou que o postigo estava a abrir-se, calculou logo o que se ia passar, ainda lhe deitou a mão e puxou-o para fora, não deixando passar o penico e a Ti Guilhermina puxou-o para dentro para o abrir, arranjou-se ali uma contenda até que o postigo saiu do lugar e saltou pelo ar estatelando-se no chão da casa de fora e a Ti Guilhermina gritava: “socorro, acudam, acudam”! Os rapazes começaram a ouvir as portas dos vizinhos a abrir e alguns a gritar: “malandros, deixem a velhota em paz”, os rapazes não tiveram outra solução senão fugir, desorientados, foram cada um para seu lado, uns pela talisca abaixo, outros para os lados do Monte da Cruz, outros para os lados do Monte Grande e só já se juntaram na tarde do dia seguinte! Os vizinhos da Ti Guilhermina foram chamar um sobrinho porque ela estava muito nervosa e sem postigo, depois com a luz da candeia viram que estava todo partido! Como a Ti Guilhermina conheceu o João I, na manhã seguinte o sobrinho estava à porta do pai dele a contar-lhe o que o filho tinha feito na noite anterior ao postigo da sua tia! O pai do João I, ainda exclamou: O que é que eu posso fazer? Não dou conta dele! Olhe, como vossemecê é carpinteiro, arranje lá o postigo e depois diga-me quanto é, que eu pago! A seguir puxou as orelhas ao João e ficou por ali, porque, afinal ele estava apenas a cumprir uma tradição de Capelins!
Nesse ano, a serração da velha, foi mal sucedida e, no ano seguinte, na respetiva noite, parece que, a Ti Guilhermina dormiu sentada numa cadeira atrás da porta, com o penico aviado, à espera que a fossem serrar, mas não apareceu lá ninguém! A partir daí, ainda houve algumas serrações de velhas e velhos, também com maus resultados, por isso um pouco mais tarde essa tradição desapareceu nas terras de Capelins!
Este caso foi verídico, com mais ou menos estes acontecimentos, só não garantimos se o ano foi exatamente 1965, mas foi por aí, alguns nomes dos rapazes do grupo da serração da velha, hoje reformados, foram alterados e outros não foram mencionados porque facilmente seriam identificados!
Bem Hajam! Quanto à Ti Guilhermina, P.A.S.A.


Fim 



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

330 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da queima dos Bonecos de Palha 
A queima do boneco, simbolizava a "queima do Judas" e, tal como a "serração da velha" também era uma tradição pagã, que se realizava na Quaresma, em algumas localidades no sábado de Aleluia, noutras nessa mesma semana, ambas estavam ligadas à "queima do Judas" (mas parece nunca foi queimado), o boneco representava alguém que se procurava atingir, com a finalidade de vingança, neste caso, fazendo uma crítica a um rapaz que estava mal visto perante as raparigas por ter "feito pouco de alguma", isto é, ter namorado com ela e depois tê-la deixado, sendo uma grande ofensa para ela e para toda a sua família, porque, depois já nenhum rapaz da sua aldeia queria casar com ela, ficava "desgraçada", se não viesse algum rapaz de fora, de outra localidade, a procurá-la, já seria muito difícil de casar, a não ser com um rapaz que por algum motivo tinha dificuldade em encontrar rapariga para se casar! Também acontecia, uma rapariga ser dada a um rapaz, ou seja, por brincadeira, ou não, um rapaz recebia uma proposta de uma pessoa mais velha, às vezes da família dela, para se arranjar com uma determinada rapariga, essa pessoa dizia "que seria boa para ele" e, se o rapaz respondesse mal, que não gostava dela porque era feia, ou mal jeitosa ou outro defeito, depois se essa resposta chegasse aos ouvidos das raparigas em causa, elas podia ignorar ou ficarem ofendidas e, geralmente elas exclamavam: "Quem é que ele pensa que é? "Um feioso daqueles", ou coisas semelhantes e, juravam vingança, ou seja, depois queimavam o Judas, que era esse rapaz e, ao mesmo tempo denegriam a sua imagem! 
A rapariga, da qual um rapaz "fazia pouco", no ano seguinte, tinha a oportunidade de, através da queima do boneco o difamar e, simbolicamente o queimar! Tudo era preparado em segredo, com um grupo de raparigas das suas relações que, também se sentiam ofendidas! Secretamente, construíam o boneco feito de palha e papéis, o mesmo era espetado num pau com dois ou três metros e no dia específico juntavam-se todas, puxavam fogo ao boneco, gritavam palavras contra aquele rapaz que o boneco representava e entoavam cânticos através dos quais o ridicularizavam, diziam: "que tinha o nariz torto, que tinha as pernas tortas, que era muito feio e evidenciavam outros atributos ofensivos! 
Como, na maioria dos anos a data da queima do boneco era na época da monda do trigo, elas levavam o boneco de madrugada e escondiam-no no caminho para o trabalho e à tardinha quando voltavam, antes de entrarem na aldeia, davam início à festa! 
Assistiam muitas pessoas a este ato para saberem quem era o rapaz que o boneco representava e o que diziam dele, porque depois era tema de conversa durante muito tempo nas terras de Capelins! 
Após o boneco arder, acompanhado de cânticos e de gritos estridentes, era eliminada a raiva ou parte dela, contra esse rapaz, ficava consumada a vingança, a vida continuava, mas as raparigas em causa, principalmente as que tinham sido namoradas, nunca mais falavam com os respetivos rapazes nem com a sua família!

Antiga Vila de Ferreira



domingo, 3 de setembro de 2017

329 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins


A Serração da Velha

Esta tradição, muito antiga e de origem pagã, realizava-se na noite de quarta-feira antes do terceiro domingo da Quaresma, chamado domingo "laetare"!
A serração da velha pretendia renovar a vida! Grupos de rapazes iam a meio da noite às portas de mulheres idosas e apontavam-lhe os defeitos, verdadeiros ou imaginários, intimando-as a deixarem-lhe os seus bens! 
As idosas eram consideradas como bodes expiatórios e eram serradas para darem o lugar aos novos, por isso eram escolhidas as mais velhas das aldeias. Esta tradição secular assinalava o meio da Quaresma e acabava com o enterro da velha, representando o fim do tempo de penitência.
Nas terras de Capelins, um grupo de rapazes escolhia as idosas consideradas mais rabugentas e, que se encontravam mais indefesas, porque a serração da velha, muitas vezes acabava mal, mas havia algumas idosas que colaboravam e levavam isso como brincadeira e até contribuíam com alguns produtos para no fim da noite fazerem um petisco! Outras, ficavam muito ofendidas! As idosas deitavam-se muito cedo e a meio da noite começava a serração, simulavam serrar a velha com um serrote numa tábua e sempre com grande "lamúria", um elemento do grupo falava para a idosa e outro com voz semelhante à dela ia respondendo! Após cada defeito apontado, repetiam a frase: "Oh avó! O que deixa ao neto?" Outro elemento do grupo ou a idosa respondia: " O buraco do Cu aberto" e sempre a serrar na tábua! Muitas vezes eram os vizinhos que se zangavam, precisavam de dormir, porque tinham de se levantar de madrugada para trabalhar! A serração da velha era sempre uma grande paródia para os rapazes das terras de Capelins!
Era uma tradição pouco aceitável, mas este ato estava ligado à Igreja, celebrada sob a forma cristianizada da "Queima do Judas"!


Algumas quadras da Serração da Velha:

Estamos no meio da Quaresma,
sem provarmos o café.
Vamos serrar esta velha
para o altar de S. José."

"Estamos no meio da Quaresma,
sem vermos nado do teu amor.
Vamos serrar esta velha
para o altar de Nosso Senhor."

"Digo-te adeus, minha avozinha,
nesta noite tão lembrada.
Não tens nada que nos dar,
damos-te uma chocalhada." 



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

328 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

A lenda de Amadeo e Violeta 


O Amadeo Capeleira era o filho mais novo do lavrador da herdade da Capeleira, rapaz aprumado, bem disposto e muito sociável, que estava em idade de casar e, perdeu-se de amores pela Violeta, filha do lavrador da herdade da Amadoreira, rapariga muito bonita e cobiçada por muitos rapazes, filhos dos lavradores das terras de Capelins e arredores! O Amadeo e a Violeta tinham quase a mesma idade e ambos sentiam o mesmo um pelo outro, mas isso não era suficiente para poderem escolher o seu futuro, porque nessa época, em 1780, eram os pais das raparigas em idade casadoira que escolhiam com quem elas podiam casar! O pai da Violeta era dono de grande honra, defensor deste princípio e de outros que ele considerava indispensáveis num homem! Aquele que não se enquadrasse nesse padrão seria impensável casar com alguma das suas filhas! O Amadeo era o menino da casa, sempre protegido pelos pais e pelos irmãos e quando se prontificava para fazer qualquer trabalho, era logo afastado, "deixa isso, que nós fazemos" diziam os irmãos! O Amadeo montava o seu cavalo e andava pela herdade ou pelos arredores, observando tudo o que por ali se passava! Aparecia em todo o lado no seu cavalo, nos dias quentes ia banhar-se no rio Guadiana e visitava frequentemente as Aldeias e Vilas da região! Devido a esse comportamento depressa ganhou fama de marialva e malandro! Mas depois de ficar embeiçado pela menina Violeta do Monte da Amadoreira a sua vida foi alterada, continuava a ir até ao rio Guadiana, mas passava os dias a rondar o Monte, ia para baixo, voltava para cima e cada vez se aproximava mais, porque, embora não pudesse falar com a menina, ela estava sempre à espreita e ele sabia disso através das criadas que colaboravam com eles, transmitindo recadinhos para um e outro lado! A permanência do Amadeo por ali era tão notada ao ponto de ser motivo de conversa, até que um dia o feitor da herdade contou tudo ao lavrador Manoel Martins: 
Feitor: Patrão! Fala-se que anda um rapaz, todos os dias, a rondar o Monte, montado num cavalo! Já o vi por aqui duas ou três vezes! 
Lavrador: Ah sim! E quem é esse rapaz? E o que quer daqui? 
Feitor: O rapaz chama-se Amadeo é filho do lavrador da Capeleira, seu vizinho e parece que anda a querer falar com a menina Violeta! 
Lavrador: Aquele malandro? E quer falar com a minha filha com ordens de quem? 
Feitor: Não sei patrão! Eu assim que soube vim logo contar-lhe! Mas não sei mais nada! 
Lavrador: Não sabes tu, mas sei eu! Um malandro desses nunca há-de casar com a minha filha, não sabe fazer nada, não tem princípios, senão não punha aqui os pés, portanto a partir de hoje se ele aí aparecer põe-o daqui para fora e diz-lhe que nem às minhas extremas o quero ver, senão temos de ter uma conversa muito séria! 
Feitor: Fique descansado patrão! Se quiser posso dar-lhe uma coça! 
Lavrador: Não! Isso não! Por agora! Não quero arranjar ódios com o pai dele! 
Feitor: Ah pois patrão! É melhor, senão arranjamos aqui uma guerra! 
Lavrador: Pronto! Faz como te disse e mais nada! Se eu o encontrar também falo com ele! Até logo!
Feitor: Está bem patrão! Até logo! 
Depois desta conversa, cada um seguiu para seu lado! Não foi preciso passar muito tempo para o Amadeo aparecer em volta do Monte da Amadoreira! O feitor já estava à espreita para não perder a oportunidade de aplicar o seu poder sobre o filho de um lavrador, foi na sua direção e deu a ordem: alto aí! O Amadeo parou logo o cavalo e cumprimentou o feitor com muita simpatia, mas ele nem ligou, comunicou-lhe o recado do patrão e disse-lhe para desaparecer imediatamente dali e nunca mais voltar! O Amadeo, apenas lhe disse que não andava a fazer mal a ninguém e que desde sempre, quando era preciso atravessavam as terras de ambas as herdades! E o feitor continuou: Isso é verdade, mas eu cumpro as ordens do patrão, por isso está o recado dado! O Amadeo não teve outro remédio senão tocar o cavalo e a trote meteu-se à estrada a caminho do Monte da Capelira onde chegou tão triste que a família notaram que alguma coisa não estava bem! Os irmãos perguntaram-lhe o que se tinha passado, porque aquela cara não enganava ninguém! O Amadeo, foi obrigado a contar a conversa com o feitor! Os irmãos riram-se e incentivaram-no a continuar a rondar o Monte da Amadoreira, uma vez que gostava da rapariga e ela dele, se fosse preciso eles estavam ali para o ajudar se continuasse a ser ameaçado pelo feitor! 
A Violeta foi logo informada pelas criadas do que se tinha passado e chorou o resto do dia, mas não podia fazer nada! No dia seguinte, o Amadeo mesmo com algum receio, não deixou de passar pela herdade da Amadoreira, mas não saiu da estrada, andou para baixo, para cima, mas como dali não via a porta do Monte, parava o cavalo e ficava em cima da cela a tentar avistar a Violeta! Depois de andar algum tempo nesta andança, um dia o lavrador veio ter com ele à estrada e perguntou-lhe: 
Lavrador: Ouve lá Amadeo, o que queres daqui? 
Amadeo: Bom dia lavrador Manoel, queria falar consigo! 
Lavrador: Falar comigo sobre quê? Eu não tenho nada para falar com malandros como tu! 
Amadeo: Oh lavrador, eu nunca lhe faltei ao respeito, nunca fiz mal à sua família nem a ninguém, porque motivo não quer falar comigo? E sou malandro porquê? 
Lavrador; Acabou a conversa! Já falei demais! Põe-te a andar daqui! 
Amadeo: Já vou! Mas quero pedir-lhe se o meu pai pode vir cá falar consigo? 
Lavrador: O que quer o teu pai falar comigo? 
Amadeo: É para lhe pedir se me deixa falar com a sua filha, a menina Violeta! 
O lavrador da Amadoreira até deu um salto e o seu rosto cobriu-se de vermelho, o sangue quase lhe rebentava as faces e exclamou: Desaparece daqui antes que eu te dê um tiro na cabeça, a minha filha não é para malandros como tu, ficas avisado, se pões o pé nas minhas terras levas um tiro! 
Depois desta conversa o Amadeo perdeu a esperança de alguma vez casar com a sua amada Violeta e seguiu para a Capeleira! À noite foi obrigado a contar aos pais e aos irmãos o teor da conversa que tinha tido com o lavrador da Amadoreira e as reações foram diversas, mas todas contra o vizinho Manoel! Os pais do Amadeo disseram-lhe que, o melhor para todos seria ele esquecer a Violeta! 


Depois da conversa com o lavrador da Amadoreira, o Amadeo não deixou de pensar nas palavras acutilantes que ouviu, não só as ameaças, mas ainda mais por ser acusado de malandro, de não saber fazer nada, por isso no dia seguinte levantou-se de madrugada e foi dizer ao pai que a partir daquele dia queria trabalhar ao lado dele e dos irmãos para aprender tudo o que um lavrador precisava de saber! O pai concordou e chamou o feitor da herdade ao qual deu ordens para ensinar tudo ao Amadeo e não o poupar em nada! O Amadeo começou a trabalhar desde o romper da aurora até ao pôr do sol e com tanta dedicação que rapidamente aprendia tudo o que lhe ensinavam. Durante um ano o menino Amadeo não se afastou muito da herdade da Capeleira, a não ser para passar pela estrada ao lado do Monte da Amadoreira, sempre que tinha algum momento de folga lá ia ele! Já se falava pelas terras de Capelins desta grande mudança, mas nada demovia o pai de Violeta que, entretanto já tinha pensado que seria o melhor marido para a sua filha Violeta! Era um dos filhos do lavrador do Monte do Seixo, um rapaz muito trabalhador e honrado, chamado António Jorge, também cobiçado por outros lavradores para marido das suas filhas, mas existia um grande problema, esse rapaz não saía da herdade, estava sempre a trabalhar e, quando lhe diziam que estava em idade de se casar, que tinha de procurar rapariga, ele dava sempre a mesma resposta: "Eu não tenho vagar para isso", mas o lavrador do Monte da Amadoreira estava convencido que encontraria uma maneira de o trazer ao seu Monte, para que ele visse a Violeta e, decerto não resistia aos seus encantos, logo podia ser que lhe pedisse para falar com ela e depois para casar! 
O Amadeu, devido aos trabalhos em que andava, era menos frequente vê-lo a rondar o Monte da Amadoreira, mas os recadinhos entre ele e a Violeta continuavam como antes sem o lavrador desconfiar de nada! Numa tarde de Domingo, para se certificar como estava a situação, chamou o feitor e disse-lhe: 
Lavrador: Não tenho ouvido falar no Amadeo que por aqui andava, será que já se convenceu que nunca vai pôr aqui os pés? 
Feitor: Mas fala-se por aí muito nele patrão! Parece que ficou nuito abalado por lhe chamarem malandro e começou a trabalhar em todos os serviços lána herdade, com tanto empenho que dizem ser um dos melhores trabalhadores da Capeleira, agora falam por aí muito bem do rapaz! 
Lavrador: Não acredito nisso, isso é só parar tentar enganar alguém! A mim não me engana de certeza! Mas o que eu quero saber é se ele ainda anda aqui a rondar o Monte? 
Feitor: Anda, sim patrão, anda! É verdade que não é tanto como era, porque como disse anda a trabalhar, mas continua a fazer o mesmo, para baixo, para cima, põe-se em cima da cela do cavalo para ver a porta do Monte, não desiste!
O lavrador ficou tão irado que parecia ter sido mordido por um enxame de abelhas e exclamou: Não desiste? Tu queres ver o que lhe vou fazer se ele por aqui aparecer hoje? Entrou em casa e voltou com a espingarda, pólvora, chumbo, buchas e os apetrechos para atacar a espingarda pela boca! Atacou-a rapidamente, ficou com ela na mão e continuou:
Lavrador: De hoje é que já não passa! 
Feitor: Vai matar o rapaz, patrão?
Lavrador: Vou agora matar o rapaz, é só para o assustar, mando-lhe um tiro por cima da cabeça, que ele vai apanhar um susto tão grande que nunca mais aqui põe os pés!
Feitor: Veja lá o que vai fazer, patrão!
O feitor nem acabou bem a frase, porque foram surpreendidos com gritos vindos dos outeiros em redor: “cão derramado” (com raiva), nessa época apareciam muitos cães com raiva vindos de Espanha e, eram o terror das gentes de Capelins, porque se alguém fosse mordido, era morte certa, como de verdade aqui aconteceu! O lavrador e o feitor viraram-se imediatamente na direção de onde vinham os gritos de aviso e depararam-se com um cão muito corpulento, mesma na sua frente a espumar baba, mostrando uma agressividade assustadora, com os dentes de fora, os cães do Monte que se aproximaram do animal foram logo mortos com uma dentada e um safanão! Como não existia cura para a raiva, a única solução era abater estes cães, o lavrador tinha a espingarda na mão esperando a passagem do Amadeo, apontou-a logo e disparou, mas como estava tremer tanto falhou e apenas apanhou o cão de raspão pelas costelas do lado direito enfurecendo-o ainda mais, o animal deu um salto por cima dos outros cães que o acossavam e só não apanhou o lavrador porque o feitor com muita rapidez o puxou para o seu lado, o cão viu a porta do Monte aberta e entrou em casa, mas virou-se logo ficando à entrada da porta em posição ainda mais ameaçadora. A Violeta, a lavradora e as criadas ouviram tanto barulho lá fora que iam ver o que se passava, a Violeta ia a correr e quando viu o cão na sua frente recuou, caiu e bateu com a cabeça no chão da casa de fora e desmaiou, a lavradora e as criadas esconderam-se debaixo das mesas e à chaminé e ali ficaram! O lavrador recarregou a espingarda e com alguns criados armados de foices, forquilhas, enxadas, machados e paus, cercaram o cão avançando na sua direção! Os criados que já tinham visto como o patrão tinha falhado o tiro anterior e adivinhando que ia suceder o mesmo, porque ele nem conseguia acertar com o gatilho de tanto tremer, diziam-lhe: Patrão, não falhe, senão morremos aqui todos! 

O lavrador da Amadoreira estava frente a frente com o cão derramado e os criados já adivinhavam que ele ia falhar o tiro, seria impossível atingir o alvo estando a tremer daquela maneira, nem segurava o dedo no gatilho da espingarda! No Monte estavam dois filhos do lavrador que deram pouca importância à situação e desapareceram, ou se esconderam ou seguiram outro destino, também porque o pai era muito bronco e nunca lhe deixava mexer na sua estimada espingarda! Quando estavam naquela aflição ouviram grande tropel, era um cavalo a galope que ao chegar ao Monte tropeçou nuns madeiros e montes de lenha e caiu, mas o cavaleiro ficou em pé, desenvencilhou-se dos arreios e com uma espingarda em punho avançou na direção da porta do Monte, os criados ainda gritaram: "menino Amadeo, não atire para dentro de casa, porque estão lá as mulheres", ele percebeu mas continuou a avançar sem vacilar, apenas mudou a posição para atirar de lado e o tiro não entrar pela casa, quando estava já a poucos metros o cão atirou-se em voo, ele disparou a espingarda, mas não conseguiu evitar um forte embate com o cão que lhe caiu em cima, deixando incerteza aos presentes se tinha, ou não, sido atingido, porque o Amadeo estava debaixo do cão e só lhe apareciam as botas, mas não foi preciso muito tempo para se certificarem, porque o Amadeo começou logo a debater-se para sair daquela incómoda posição! Nesse momento, chegaram ao Monte grande número de perseguidores do animal que já não foram fazer nada! O cão tinha sido atingido em cheio na cabeça e teve morte imediata, o Amadeo cheio de sangue do cão, dirigiu-se à pipa da água e despejou um balde de água pela cabeça abaixo e esfregou a cara, quando estava nesta azáfama ouviu as criadas a gritar: "a menina está morta", o Amadeo num impulso deu dois saltos, entrou em casa e ficou debruçado sobre a menina Violeta que estava apenas desmaiada, a cabeça dele ia escorrendo água que começou a cair na cara da Violeta acordando-a do desmaio, ela abriu muito os olhos e exclamou: O que foi? Vocemecê aqui? E levantou-se daquela posição ficando sentada no chão, ainda estava tonta, mas ao levantar-se repentinamente, os seus lábios quase se colaram aos do Amadeo, que recuou assustado, não fosse o lavrador reagir mal, mas este não disse uma palavra! A lavradora que saia lentamente do seu esconderijo, debaixo das mesas e de outra tralha, chegou nesse momento e não se conteve em emitir um grito: "Ai valha-me Deus! O que é isto?" Então o lavrador disse pausadamente: "Deixa estar mulher, está tudo bem! O Amadeu salvou-nos a vida"! E a lavradora não disse mais nada! O Amadeo pediu ajuda a uma criada para levantar a Violeta do chão e sentá-la numa cadeira, disse à criada para dar um copo de água com uma colher de açúcar ou de sal à Violeta e para beber devagarinho, a seguir despediu-se: "boa tarde", recebeu a sua espingarda das mãos de um criado e saiu. O lavrador ainda levantou ligeiramente a mão e disse muito baixinho "espera", mas como não queria atirar com o seu orgulho ao chão, não disse mais nada! O Amadeo, de um salto ficou montado no cavalo e seguiu a galope para o Monte da Capeleira! Nos dias seguintes não se falava noutra coisa, o Amadeo era um grande herói e todos diziam que tinha salvado a vida dos lavradores da Amadoreira e da Violeta! O lavrador estava-lhe muito grato, mas não lhe conseguiu agradecer naquele momento, só que os seus princípios obrigavam-no a fazer esse agradecimento e não podia ser à beira da estrada, para ser bem feito, ou tinha de ir ao Monte da Capeleira e levar a família, ou tinha de convidar o Amadeo a vir ao seu Monte e recebê-lo com todas as honras, como fazia a todos os visitantes, qualquer da formas teria de vergar-se perante o Amadeo, porque mesmo fazendo o agradecimento isso não significava que ficava tudo pago e esquecido para sempre, a dívida era muito grande, tratava-se da vida deles! Entretanto, a Violeta mandou-lhe dizer pelos criados, para não se aproximar do Monte, porque sabia o dilema em que o lavrador andava e estava com receio que ele lhe agradecesse à beira da estrada e tudo ficasse como antes. O Amadeo assim fez e o lavrador cada dia que passava mais atormentado andava, até que, passados quase oito dias chamou o feitor e pediu-lhe que fosse ao Monte da Capeleira apresentar o seu convite ao Amadeo para ele vir ao seu Monte no Domingo à tarde! O Amadeo quase explodiu de contentamento, disse logo que sim e, no Domingo lá estava! Foi recebido por toda a família, agradeceram-lhe o que tinha feito por eles e a conversa foi quase toda em volta desse episódio! O lavrador mandou as criadas pôr a mesa e merendaram todos em grande animação, o tempo passou-se num ápice e estava na hora do Amadeo partir, sentia-se muito satisfeito porque as relações pareciam quase familiares, mas estava apreensivo sem saber como seria o relacionamento no futuro, se continuaria tudo como antes, mas não se atrevia a perguntar nada ao lavrador! Ao despedir-se e agradecer a forma como tinha sido recebido, já a caminho de onde tinha o cavalo, o lavrador chamou-o e disse-lhe: Amadeo, eu sei o que sentes pela Violeta, assim como o que ela sente por ti, portanto diz lá ao teu pai para vir cá falar comigo e depois podes falar com a Violeta! O Amadeu ficou atordoado, parecia que tinha levado um coice do cavalo na cabeça! Só respondeu: “Está bem”, saltou para a cela e foi a galope até à Capeleira, entrou no Monte tão espavorido que assustou a família e rapidamente contou o que se tinha passado no Monte da Amadoreira e que já podia falar e casar com a Violeta, ou melhor, poder, ainda não podia, sem o pai lá ir pedir ao lavrador Manoel, mas o pai vai lá, já amanhã, não vai? O pai aceitou e o Amadeo e a Violeta começaram logo a namorar no Domingo seguinte! Um ano depois realizou-se o casamento na Igreja de Santo António e ficaram a morar no Monte da Amadoreira, mas o Amadeo ficou a trabalhar com o pai e os irmãos na sua herdade da Capeleira! O Amadeu e a Violeta foram dos casais mais felizes das terras de Capelins, tiveram cinco filhos e a sua descendência ainda hoje se encontra por aqui! 
O lavrador do Monte da Amadoreira que, inicialmente odiava o Amadeo e dizia que nunca ali punha os pés, teve de vergar o orgulho e gostava tanto do Amadeo que o tratava como filho, ainda mais, porque provavelmente lhe devia a vida!

Fim



626 - Tradições das Terras de Capelins Nas Terras de Capelins uma serra de palha designava-se por "Almiara"! Sempre ouvimos ...