terça-feira, 5 de setembro de 2017

331 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Serração da Velha
A Serração da Ti Guilhermina em 1965, em Capelins de 
Cima

Ao aproximar-se a noite da “serração da velha” que era na noite de 17 de Março, o João e o seu grupo habitual, estavam em Capelins de Baixo e ele lembrou-se que tinham de combinar as coisas para a “serração da velha”! O ajuntamento do grupo tinha de ser no cabanão do pai, perto de Capelins de Cima, porque não convinha serem vistos juntos a cochichar, senão inventavam logo que estavam a tramar alguma e ainda se estragava tudo antes de começar! Sim! Porque está na hora de escolhermos as velhas que vamos serrar e temos de combinar bem as coisas, porque todos os anos temos problemas, falha sempre alguma coisa, disse o João! Não foi preciso muito tempo para se entenderem, prontificaram-se logo a ir ter ao cabanão do pai do João! Não! Disse ele, vocês ficam além ao Muro, ao Monte Grande e eu vou lá ao cabanão ver se o meu velho lá está, ele ia para o Guadiana, mas sei lá, pode não ter ido, depois se o caminho estiver livre eu levanto o braço e vão indo um de cada vez! Todos concordaram e em poucos minutos estavam reunidos no cabanão, eram: o João I, o primo Manuel, o António, o José e o João II! Chegamos bem os cinco, senão quantos mais são, pior é, disse o João I e continuou:
João I: Bem! Eu já tenho tudo na cabeça! A serração da velha é na quarta-feira à noite, agora, só temos de acertar quais as velhas que vamos serrar, combinar quem vai falar e responder pelas velhas e lembrar as lengas lengas! Alguém tem alguma ideia brilhante nova para este ano? Eh pá, para não ser sempre a mesma coisa!
António: O que podia ser diferente eram os versos, porque o resto faz tudo parte da serração, não podemos mudar nada, senão não é serração, já no tempo do meu avô era assim!
Manuel: Bem dito! Mas qual de nós consegue fazer outros versos diferentes? Somos todos burros, para isso não damos!
João II: Pois! Tens razão” Nenhum de nós sabe fazer versos! Mas há aí muita gente que sabe! E se pedíssemos para nos fazerem uns versos novos?
João I: Tu estás parvo? Ou estás maluco? Pedíamos para nos fazerem uns versos novos e depois íamos-lhe a serrar a mãe ou a sogra! E ninguém nos fazia isso, porque depois tudo se sabe e esse é que ficava nos cornos do touro!
Isso é verdade, responderam em coro!
João I: E então? Como fazemos?
José: Fazemos como no ano passado e nos outros anos, os versos, são os que são e mais nada! Nem a gente consegue aprender mais nenhum! Esses dois que sabemos, já temos que andar agora oito dias a estudá-los e mesmo assim nos enganamos sempre, por isso, por mim fica assim!
Então fica assim! Responderam todos!
João I: Agora vamos para o ponto 2, quem fala para as velhas? E quem responde com a falinha delas?
Imediatamente, apontaram todos o João I e o Manuel e, disseram: Tu, João, falas para as velhas, apontas os defeitos e o Manuel responde com a fala delas!
João I: Quais defeitos? O que é que eu digo às velhas?
António: Dizes o mesmo do ano passado: “Oh avozinha vossemecê é muito má, é maluca, já é muito velha, está na hora de calçar as botas e ir a caminho de Santo António e deixar-me tudo o que tem, e chega isso! Depois, se nos lembrarmos logo dizemos outras coisas! Não te esqueças que cada vez que lhe disseres uma coisa destas, logo a seguir tens de perguntar: “Oh avó, o que deixa ao neto?” E o Manuel responde com a fala dela: “O buraco do cu aberto” ou “ o penico aviado” e o José está sempre passando o serrote pela tábua, depois, no fim o João II diz os versos e nós vamos todos ajudando! Perceberam?
Sim! Responderam todos! Agora é só treinarmos!
João I: Ainda falta escolhermos as velhas para serrar! A tradição diz que têm de ser as mais velhas da aldeia, mas se não forem, não são! Quantas são este ano?
António: Eh pá! Não podem ser mais que três ou quatro, porque sempre leva algum tempo! Embora possa falhar alguma, porque não se esqueçam do perigo do penico aviado que algumas tê preparado para nos atirar com o presente acima, pelo postigo! Temos de ter muito cuidado com os postigos!
Os rapazes do grupo escolheram as idosas que seriam serradas, entre elas, a mais velha da aldeia, já com idade muito acima dos oitenta anos, a Ti Guilhermina que, morava em Capelins de Cima! Combinaram acertar ainda alguns pontos até à dita noite e como estava tudo tratado a reunião foi dada como terminada! Foram saindo do cabanão um de cada vez e juntaram-se novamente a caminho de Capelins de Baixo!
Chegou a noite da serração da velha e, o grupo estava preparado para cumprir a tradição, esperaram que toda a aldeia se metesse nos lençóis e pelas 23:00 horas, acharam que estava na hora certa, para não acabarem muito tarde, pegaram no serrote, numa tábua e foram direitinhos à porta da Ti Guilhermina, porque era a mais próxima dali, depois, logo seguiriam até à casa da última velha!
A Ti Guilhermina tinha fama de ser muito rabugenta e dona de grande esperteza, mal pensavam eles que ela já há muito tempo estava sentada atrás da porta com o penico aviado e o postigo encostado, para quando eles viessem a serrá-la, como sempre faziam, abria o postigo e levavam com o produto pelas ventas e depois fossem queixar-se onde quisessem!
Os rapazes chegaram à porta com muita cautela, chiu, chiu, que a velha é esperta, dizia o João I, eles eram cinco, havia pedras soltas na rua, era impossível aproximarem-se sem a Ti Guilhermina não dar por isso! Assim que os ouviu a cochichar a Ti Guilhermina pegou no penico com uma das mãos e com a outra agarrou o fecho do postigo para o abrir, o João I ia começar a lenga lenga quando reparou que o postigo estava a abrir-se, calculou logo o que se ia passar, ainda lhe deitou a mão e puxou-o para fora, não deixando passar o penico e a Ti Guilhermina puxou-o para dentro para o abrir, arranjou-se ali uma contenda até que o postigo saiu do lugar e saltou pelo ar estatelando-se no chão da casa de fora e a Ti Guilhermina gritava: “socorro, acudam, acudam”! Os rapazes começaram a ouvir as portas dos vizinhos a abrir e alguns a gritar: “malandros, deixem a velhota em paz”, os rapazes não tiveram outra solução senão fugir, desorientados, foram cada um para seu lado, uns pela talisca abaixo, outros para os lados do Monte da Cruz, outros para os lados do Monte Grande e só já se juntaram na tarde do dia seguinte! Os vizinhos da Ti Guilhermina foram chamar um sobrinho porque ela estava muito nervosa e sem postigo, depois com a luz da candeia viram que estava todo partido! Como a Ti Guilhermina conheceu o João I, na manhã seguinte o sobrinho estava à porta do pai dele a contar-lhe o que o filho tinha feito na noite anterior ao postigo da sua tia! O pai do João I, ainda exclamou: O que é que eu posso fazer? Não dou conta dele! Olhe, como vossemecê é carpinteiro, arranje lá o postigo e depois diga-me quanto é, que eu pago! A seguir puxou as orelhas ao João e ficou por ali, porque, afinal ele estava apenas a cumprir uma tradição de Capelins!
Nesse ano, a serração da velha, foi mal sucedida e, no ano seguinte, na respetiva noite, parece que, a Ti Guilhermina dormiu sentada numa cadeira atrás da porta, com o penico aviado, à espera que a fossem serrar, mas não apareceu lá ninguém! A partir daí, ainda houve algumas serrações de velhas e velhos, também com maus resultados, por isso um pouco mais tarde essa tradição desapareceu nas terras de Capelins!
Este caso foi verídico, com mais ou menos estes acontecimentos, só não garantimos se o ano foi exatamente 1965, mas foi por aí, alguns nomes dos rapazes do grupo da serração da velha, hoje reformados, foram alterados e outros não foram mencionados porque facilmente seriam identificados!
Bem Hajam! Quanto à Ti Guilhermina, P.A.S.A.


Fim 



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

330 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da queima dos Bonecos de Palha 
A queima do boneco, simbolizava a "queima do Judas" e, tal como a "serração da velha" também era uma tradição pagã, que se realizava na Quaresma, em algumas localidades no sábado de Aleluia, noutras nessa mesma semana, ambas estavam ligadas à "queima do Judas" (mas parece nunca foi queimado), o boneco representava alguém que se procurava atingir, com a finalidade de vingança, neste caso, fazendo uma crítica a um rapaz que estava mal visto perante as raparigas por ter "feito pouco de alguma", isto é, ter namorado com ela e depois tê-la deixado, sendo uma grande ofensa para ela e para toda a sua família, porque, depois já nenhum rapaz da sua aldeia queria casar com ela, ficava "desgraçada", se não viesse algum rapaz de fora, de outra localidade, a procurá-la, já seria muito difícil de casar, a não ser com um rapaz que por algum motivo tinha dificuldade em encontrar rapariga para se casar! Também acontecia, uma rapariga ser dada a um rapaz, ou seja, por brincadeira, ou não, um rapaz recebia uma proposta de uma pessoa mais velha, às vezes da família dela, para se arranjar com uma determinada rapariga, essa pessoa dizia "que seria boa para ele" e, se o rapaz respondesse mal, que não gostava dela porque era feia, ou mal jeitosa ou outro defeito, depois se essa resposta chegasse aos ouvidos das raparigas em causa, elas podia ignorar ou ficarem ofendidas e, geralmente elas exclamavam: "Quem é que ele pensa que é? "Um feioso daqueles", ou coisas semelhantes e, juravam vingança, ou seja, depois queimavam o Judas, que era esse rapaz e, ao mesmo tempo denegriam a sua imagem! 
A rapariga, da qual um rapaz "fazia pouco", no ano seguinte, tinha a oportunidade de, através da queima do boneco o difamar e, simbolicamente o queimar! Tudo era preparado em segredo, com um grupo de raparigas das suas relações que, também se sentiam ofendidas! Secretamente, construíam o boneco feito de palha e papéis, o mesmo era espetado num pau com dois ou três metros e no dia específico juntavam-se todas, puxavam fogo ao boneco, gritavam palavras contra aquele rapaz que o boneco representava e entoavam cânticos através dos quais o ridicularizavam, diziam: "que tinha o nariz torto, que tinha as pernas tortas, que era muito feio e evidenciavam outros atributos ofensivos! 
Como, na maioria dos anos a data da queima do boneco era na época da monda do trigo, elas levavam o boneco de madrugada e escondiam-no no caminho para o trabalho e à tardinha quando voltavam, antes de entrarem na aldeia, davam início à festa! 
Assistiam muitas pessoas a este ato para saberem quem era o rapaz que o boneco representava e o que diziam dele, porque depois era tema de conversa durante muito tempo nas terras de Capelins! 
Após o boneco arder, acompanhado de cânticos e de gritos estridentes, era eliminada a raiva ou parte dela, contra esse rapaz, ficava consumada a vingança, a vida continuava, mas as raparigas em causa, principalmente as que tinham sido namoradas, nunca mais falavam com os respetivos rapazes nem com a sua família!

Antiga Vila de Ferreira



domingo, 3 de setembro de 2017

329 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins


A Serração da Velha

Esta tradição, muito antiga e de origem pagã, realizava-se na noite de quarta-feira antes do terceiro domingo da Quaresma, chamado domingo "laetare"!
A serração da velha pretendia renovar a vida! Grupos de rapazes iam a meio da noite às portas de mulheres idosas e apontavam-lhe os defeitos, verdadeiros ou imaginários, intimando-as a deixarem-lhe os seus bens! 
As idosas eram consideradas como bodes expiatórios e eram serradas para darem o lugar aos novos, por isso eram escolhidas as mais velhas das aldeias. Esta tradição secular assinalava o meio da Quaresma e acabava com o enterro da velha, representando o fim do tempo de penitência.
Nas terras de Capelins, um grupo de rapazes escolhia as idosas consideradas mais rabugentas e, que se encontravam mais indefesas, porque a serração da velha, muitas vezes acabava mal, mas havia algumas idosas que colaboravam e levavam isso como brincadeira e até contribuíam com alguns produtos para no fim da noite fazerem um petisco! Outras, ficavam muito ofendidas! As idosas deitavam-se muito cedo e a meio da noite começava a serração, simulavam serrar a velha com um serrote numa tábua e sempre com grande "lamúria", um elemento do grupo falava para a idosa e outro com voz semelhante à dela ia respondendo! Após cada defeito apontado, repetiam a frase: "Oh avó! O que deixa ao neto?" Outro elemento do grupo ou a idosa respondia: " O buraco do Cu aberto" e sempre a serrar na tábua! Muitas vezes eram os vizinhos que se zangavam, precisavam de dormir, porque tinham de se levantar de madrugada para trabalhar! A serração da velha era sempre uma grande paródia para os rapazes das terras de Capelins!
Era uma tradição pouco aceitável, mas este ato estava ligado à Igreja, celebrada sob a forma cristianizada da "Queima do Judas"!


Algumas quadras da Serração da Velha:

Estamos no meio da Quaresma,
sem provarmos o café.
Vamos serrar esta velha
para o altar de S. José."

"Estamos no meio da Quaresma,
sem vermos nado do teu amor.
Vamos serrar esta velha
para o altar de Nosso Senhor."

"Digo-te adeus, minha avozinha,
nesta noite tão lembrada.
Não tens nada que nos dar,
damos-te uma chocalhada." 



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

328 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

A lenda de Amadeo e Violeta 


O Amadeo Capeleira era o filho mais novo do lavrador da herdade da Capeleira, rapaz aprumado, bem disposto e muito sociável, que estava em idade de casar e, perdeu-se de amores pela Violeta, filha do lavrador da herdade da Amadoreira, rapariga muito bonita e cobiçada por muitos rapazes, filhos dos lavradores das terras de Capelins e arredores! O Amadeo e a Violeta tinham quase a mesma idade e ambos sentiam o mesmo um pelo outro, mas isso não era suficiente para poderem escolher o seu futuro, porque nessa época, em 1780, eram os pais das raparigas em idade casadoira que escolhiam com quem elas podiam casar! O pai da Violeta era dono de grande honra, defensor deste princípio e de outros que ele considerava indispensáveis num homem! Aquele que não se enquadrasse nesse padrão seria impensável casar com alguma das suas filhas! O Amadeo era o menino da casa, sempre protegido pelos pais e pelos irmãos e quando se prontificava para fazer qualquer trabalho, era logo afastado, "deixa isso, que nós fazemos" diziam os irmãos! O Amadeo montava o seu cavalo e andava pela herdade ou pelos arredores, observando tudo o que por ali se passava! Aparecia em todo o lado no seu cavalo, nos dias quentes ia banhar-se no rio Guadiana e visitava frequentemente as Aldeias e Vilas da região! Devido a esse comportamento depressa ganhou fama de marialva e malandro! Mas depois de ficar embeiçado pela menina Violeta do Monte da Amadoreira a sua vida foi alterada, continuava a ir até ao rio Guadiana, mas passava os dias a rondar o Monte, ia para baixo, voltava para cima e cada vez se aproximava mais, porque, embora não pudesse falar com a menina, ela estava sempre à espreita e ele sabia disso através das criadas que colaboravam com eles, transmitindo recadinhos para um e outro lado! A permanência do Amadeo por ali era tão notada ao ponto de ser motivo de conversa, até que um dia o feitor da herdade contou tudo ao lavrador Manoel Martins: 
Feitor: Patrão! Fala-se que anda um rapaz, todos os dias, a rondar o Monte, montado num cavalo! Já o vi por aqui duas ou três vezes! 
Lavrador: Ah sim! E quem é esse rapaz? E o que quer daqui? 
Feitor: O rapaz chama-se Amadeo é filho do lavrador da Capeleira, seu vizinho e parece que anda a querer falar com a menina Violeta! 
Lavrador: Aquele malandro? E quer falar com a minha filha com ordens de quem? 
Feitor: Não sei patrão! Eu assim que soube vim logo contar-lhe! Mas não sei mais nada! 
Lavrador: Não sabes tu, mas sei eu! Um malandro desses nunca há-de casar com a minha filha, não sabe fazer nada, não tem princípios, senão não punha aqui os pés, portanto a partir de hoje se ele aí aparecer põe-o daqui para fora e diz-lhe que nem às minhas extremas o quero ver, senão temos de ter uma conversa muito séria! 
Feitor: Fique descansado patrão! Se quiser posso dar-lhe uma coça! 
Lavrador: Não! Isso não! Por agora! Não quero arranjar ódios com o pai dele! 
Feitor: Ah pois patrão! É melhor, senão arranjamos aqui uma guerra! 
Lavrador: Pronto! Faz como te disse e mais nada! Se eu o encontrar também falo com ele! Até logo!
Feitor: Está bem patrão! Até logo! 
Depois desta conversa, cada um seguiu para seu lado! Não foi preciso passar muito tempo para o Amadeo aparecer em volta do Monte da Amadoreira! O feitor já estava à espreita para não perder a oportunidade de aplicar o seu poder sobre o filho de um lavrador, foi na sua direção e deu a ordem: alto aí! O Amadeo parou logo o cavalo e cumprimentou o feitor com muita simpatia, mas ele nem ligou, comunicou-lhe o recado do patrão e disse-lhe para desaparecer imediatamente dali e nunca mais voltar! O Amadeo, apenas lhe disse que não andava a fazer mal a ninguém e que desde sempre, quando era preciso atravessavam as terras de ambas as herdades! E o feitor continuou: Isso é verdade, mas eu cumpro as ordens do patrão, por isso está o recado dado! O Amadeo não teve outro remédio senão tocar o cavalo e a trote meteu-se à estrada a caminho do Monte da Capelira onde chegou tão triste que a família notaram que alguma coisa não estava bem! Os irmãos perguntaram-lhe o que se tinha passado, porque aquela cara não enganava ninguém! O Amadeo, foi obrigado a contar a conversa com o feitor! Os irmãos riram-se e incentivaram-no a continuar a rondar o Monte da Amadoreira, uma vez que gostava da rapariga e ela dele, se fosse preciso eles estavam ali para o ajudar se continuasse a ser ameaçado pelo feitor! 
A Violeta foi logo informada pelas criadas do que se tinha passado e chorou o resto do dia, mas não podia fazer nada! No dia seguinte, o Amadeo mesmo com algum receio, não deixou de passar pela herdade da Amadoreira, mas não saiu da estrada, andou para baixo, para cima, mas como dali não via a porta do Monte, parava o cavalo e ficava em cima da cela a tentar avistar a Violeta! Depois de andar algum tempo nesta andança, um dia o lavrador veio ter com ele à estrada e perguntou-lhe: 
Lavrador: Ouve lá Amadeo, o que queres daqui? 
Amadeo: Bom dia lavrador Manoel, queria falar consigo! 
Lavrador: Falar comigo sobre quê? Eu não tenho nada para falar com malandros como tu! 
Amadeo: Oh lavrador, eu nunca lhe faltei ao respeito, nunca fiz mal à sua família nem a ninguém, porque motivo não quer falar comigo? E sou malandro porquê? 
Lavrador; Acabou a conversa! Já falei demais! Põe-te a andar daqui! 
Amadeo: Já vou! Mas quero pedir-lhe se o meu pai pode vir cá falar consigo? 
Lavrador: O que quer o teu pai falar comigo? 
Amadeo: É para lhe pedir se me deixa falar com a sua filha, a menina Violeta! 
O lavrador da Amadoreira até deu um salto e o seu rosto cobriu-se de vermelho, o sangue quase lhe rebentava as faces e exclamou: Desaparece daqui antes que eu te dê um tiro na cabeça, a minha filha não é para malandros como tu, ficas avisado, se pões o pé nas minhas terras levas um tiro! 
Depois desta conversa o Amadeo perdeu a esperança de alguma vez casar com a sua amada Violeta e seguiu para a Capeleira! À noite foi obrigado a contar aos pais e aos irmãos o teor da conversa que tinha tido com o lavrador da Amadoreira e as reações foram diversas, mas todas contra o vizinho Manoel! Os pais do Amadeo disseram-lhe que, o melhor para todos seria ele esquecer a Violeta! 


Depois da conversa com o lavrador da Amadoreira, o Amadeo não deixou de pensar nas palavras acutilantes que ouviu, não só as ameaças, mas ainda mais por ser acusado de malandro, de não saber fazer nada, por isso no dia seguinte levantou-se de madrugada e foi dizer ao pai que a partir daquele dia queria trabalhar ao lado dele e dos irmãos para aprender tudo o que um lavrador precisava de saber! O pai concordou e chamou o feitor da herdade ao qual deu ordens para ensinar tudo ao Amadeo e não o poupar em nada! O Amadeo começou a trabalhar desde o romper da aurora até ao pôr do sol e com tanta dedicação que rapidamente aprendia tudo o que lhe ensinavam. Durante um ano o menino Amadeo não se afastou muito da herdade da Capeleira, a não ser para passar pela estrada ao lado do Monte da Amadoreira, sempre que tinha algum momento de folga lá ia ele! Já se falava pelas terras de Capelins desta grande mudança, mas nada demovia o pai de Violeta que, entretanto já tinha pensado que seria o melhor marido para a sua filha Violeta! Era um dos filhos do lavrador do Monte do Seixo, um rapaz muito trabalhador e honrado, chamado António Jorge, também cobiçado por outros lavradores para marido das suas filhas, mas existia um grande problema, esse rapaz não saía da herdade, estava sempre a trabalhar e, quando lhe diziam que estava em idade de se casar, que tinha de procurar rapariga, ele dava sempre a mesma resposta: "Eu não tenho vagar para isso", mas o lavrador do Monte da Amadoreira estava convencido que encontraria uma maneira de o trazer ao seu Monte, para que ele visse a Violeta e, decerto não resistia aos seus encantos, logo podia ser que lhe pedisse para falar com ela e depois para casar! 
O Amadeu, devido aos trabalhos em que andava, era menos frequente vê-lo a rondar o Monte da Amadoreira, mas os recadinhos entre ele e a Violeta continuavam como antes sem o lavrador desconfiar de nada! Numa tarde de Domingo, para se certificar como estava a situação, chamou o feitor e disse-lhe: 
Lavrador: Não tenho ouvido falar no Amadeo que por aqui andava, será que já se convenceu que nunca vai pôr aqui os pés? 
Feitor: Mas fala-se por aí muito nele patrão! Parece que ficou nuito abalado por lhe chamarem malandro e começou a trabalhar em todos os serviços lána herdade, com tanto empenho que dizem ser um dos melhores trabalhadores da Capeleira, agora falam por aí muito bem do rapaz! 
Lavrador: Não acredito nisso, isso é só parar tentar enganar alguém! A mim não me engana de certeza! Mas o que eu quero saber é se ele ainda anda aqui a rondar o Monte? 
Feitor: Anda, sim patrão, anda! É verdade que não é tanto como era, porque como disse anda a trabalhar, mas continua a fazer o mesmo, para baixo, para cima, põe-se em cima da cela do cavalo para ver a porta do Monte, não desiste!
O lavrador ficou tão irado que parecia ter sido mordido por um enxame de abelhas e exclamou: Não desiste? Tu queres ver o que lhe vou fazer se ele por aqui aparecer hoje? Entrou em casa e voltou com a espingarda, pólvora, chumbo, buchas e os apetrechos para atacar a espingarda pela boca! Atacou-a rapidamente, ficou com ela na mão e continuou:
Lavrador: De hoje é que já não passa! 
Feitor: Vai matar o rapaz, patrão?
Lavrador: Vou agora matar o rapaz, é só para o assustar, mando-lhe um tiro por cima da cabeça, que ele vai apanhar um susto tão grande que nunca mais aqui põe os pés!
Feitor: Veja lá o que vai fazer, patrão!
O feitor nem acabou bem a frase, porque foram surpreendidos com gritos vindos dos outeiros em redor: “cão derramado” (com raiva), nessa época apareciam muitos cães com raiva vindos de Espanha e, eram o terror das gentes de Capelins, porque se alguém fosse mordido, era morte certa, como de verdade aqui aconteceu! O lavrador e o feitor viraram-se imediatamente na direção de onde vinham os gritos de aviso e depararam-se com um cão muito corpulento, mesma na sua frente a espumar baba, mostrando uma agressividade assustadora, com os dentes de fora, os cães do Monte que se aproximaram do animal foram logo mortos com uma dentada e um safanão! Como não existia cura para a raiva, a única solução era abater estes cães, o lavrador tinha a espingarda na mão esperando a passagem do Amadeo, apontou-a logo e disparou, mas como estava tremer tanto falhou e apenas apanhou o cão de raspão pelas costelas do lado direito enfurecendo-o ainda mais, o animal deu um salto por cima dos outros cães que o acossavam e só não apanhou o lavrador porque o feitor com muita rapidez o puxou para o seu lado, o cão viu a porta do Monte aberta e entrou em casa, mas virou-se logo ficando à entrada da porta em posição ainda mais ameaçadora. A Violeta, a lavradora e as criadas ouviram tanto barulho lá fora que iam ver o que se passava, a Violeta ia a correr e quando viu o cão na sua frente recuou, caiu e bateu com a cabeça no chão da casa de fora e desmaiou, a lavradora e as criadas esconderam-se debaixo das mesas e à chaminé e ali ficaram! O lavrador recarregou a espingarda e com alguns criados armados de foices, forquilhas, enxadas, machados e paus, cercaram o cão avançando na sua direção! Os criados que já tinham visto como o patrão tinha falhado o tiro anterior e adivinhando que ia suceder o mesmo, porque ele nem conseguia acertar com o gatilho de tanto tremer, diziam-lhe: Patrão, não falhe, senão morremos aqui todos! 

O lavrador da Amadoreira estava frente a frente com o cão derramado e os criados já adivinhavam que ele ia falhar o tiro, seria impossível atingir o alvo estando a tremer daquela maneira, nem segurava o dedo no gatilho da espingarda! No Monte estavam dois filhos do lavrador que deram pouca importância à situação e desapareceram, ou se esconderam ou seguiram outro destino, também porque o pai era muito bronco e nunca lhe deixava mexer na sua estimada espingarda! Quando estavam naquela aflição ouviram grande tropel, era um cavalo a galope que ao chegar ao Monte tropeçou nuns madeiros e montes de lenha e caiu, mas o cavaleiro ficou em pé, desenvencilhou-se dos arreios e com uma espingarda em punho avançou na direção da porta do Monte, os criados ainda gritaram: "menino Amadeo, não atire para dentro de casa, porque estão lá as mulheres", ele percebeu mas continuou a avançar sem vacilar, apenas mudou a posição para atirar de lado e o tiro não entrar pela casa, quando estava já a poucos metros o cão atirou-se em voo, ele disparou a espingarda, mas não conseguiu evitar um forte embate com o cão que lhe caiu em cima, deixando incerteza aos presentes se tinha, ou não, sido atingido, porque o Amadeo estava debaixo do cão e só lhe apareciam as botas, mas não foi preciso muito tempo para se certificarem, porque o Amadeo começou logo a debater-se para sair daquela incómoda posição! Nesse momento, chegaram ao Monte grande número de perseguidores do animal que já não foram fazer nada! O cão tinha sido atingido em cheio na cabeça e teve morte imediata, o Amadeo cheio de sangue do cão, dirigiu-se à pipa da água e despejou um balde de água pela cabeça abaixo e esfregou a cara, quando estava nesta azáfama ouviu as criadas a gritar: "a menina está morta", o Amadeo num impulso deu dois saltos, entrou em casa e ficou debruçado sobre a menina Violeta que estava apenas desmaiada, a cabeça dele ia escorrendo água que começou a cair na cara da Violeta acordando-a do desmaio, ela abriu muito os olhos e exclamou: O que foi? Vocemecê aqui? E levantou-se daquela posição ficando sentada no chão, ainda estava tonta, mas ao levantar-se repentinamente, os seus lábios quase se colaram aos do Amadeo, que recuou assustado, não fosse o lavrador reagir mal, mas este não disse uma palavra! A lavradora que saia lentamente do seu esconderijo, debaixo das mesas e de outra tralha, chegou nesse momento e não se conteve em emitir um grito: "Ai valha-me Deus! O que é isto?" Então o lavrador disse pausadamente: "Deixa estar mulher, está tudo bem! O Amadeu salvou-nos a vida"! E a lavradora não disse mais nada! O Amadeo pediu ajuda a uma criada para levantar a Violeta do chão e sentá-la numa cadeira, disse à criada para dar um copo de água com uma colher de açúcar ou de sal à Violeta e para beber devagarinho, a seguir despediu-se: "boa tarde", recebeu a sua espingarda das mãos de um criado e saiu. O lavrador ainda levantou ligeiramente a mão e disse muito baixinho "espera", mas como não queria atirar com o seu orgulho ao chão, não disse mais nada! O Amadeo, de um salto ficou montado no cavalo e seguiu a galope para o Monte da Capeleira! Nos dias seguintes não se falava noutra coisa, o Amadeo era um grande herói e todos diziam que tinha salvado a vida dos lavradores da Amadoreira e da Violeta! O lavrador estava-lhe muito grato, mas não lhe conseguiu agradecer naquele momento, só que os seus princípios obrigavam-no a fazer esse agradecimento e não podia ser à beira da estrada, para ser bem feito, ou tinha de ir ao Monte da Capeleira e levar a família, ou tinha de convidar o Amadeo a vir ao seu Monte e recebê-lo com todas as honras, como fazia a todos os visitantes, qualquer da formas teria de vergar-se perante o Amadeo, porque mesmo fazendo o agradecimento isso não significava que ficava tudo pago e esquecido para sempre, a dívida era muito grande, tratava-se da vida deles! Entretanto, a Violeta mandou-lhe dizer pelos criados, para não se aproximar do Monte, porque sabia o dilema em que o lavrador andava e estava com receio que ele lhe agradecesse à beira da estrada e tudo ficasse como antes. O Amadeo assim fez e o lavrador cada dia que passava mais atormentado andava, até que, passados quase oito dias chamou o feitor e pediu-lhe que fosse ao Monte da Capeleira apresentar o seu convite ao Amadeo para ele vir ao seu Monte no Domingo à tarde! O Amadeo quase explodiu de contentamento, disse logo que sim e, no Domingo lá estava! Foi recebido por toda a família, agradeceram-lhe o que tinha feito por eles e a conversa foi quase toda em volta desse episódio! O lavrador mandou as criadas pôr a mesa e merendaram todos em grande animação, o tempo passou-se num ápice e estava na hora do Amadeo partir, sentia-se muito satisfeito porque as relações pareciam quase familiares, mas estava apreensivo sem saber como seria o relacionamento no futuro, se continuaria tudo como antes, mas não se atrevia a perguntar nada ao lavrador! Ao despedir-se e agradecer a forma como tinha sido recebido, já a caminho de onde tinha o cavalo, o lavrador chamou-o e disse-lhe: Amadeo, eu sei o que sentes pela Violeta, assim como o que ela sente por ti, portanto diz lá ao teu pai para vir cá falar comigo e depois podes falar com a Violeta! O Amadeu ficou atordoado, parecia que tinha levado um coice do cavalo na cabeça! Só respondeu: “Está bem”, saltou para a cela e foi a galope até à Capeleira, entrou no Monte tão espavorido que assustou a família e rapidamente contou o que se tinha passado no Monte da Amadoreira e que já podia falar e casar com a Violeta, ou melhor, poder, ainda não podia, sem o pai lá ir pedir ao lavrador Manoel, mas o pai vai lá, já amanhã, não vai? O pai aceitou e o Amadeo e a Violeta começaram logo a namorar no Domingo seguinte! Um ano depois realizou-se o casamento na Igreja de Santo António e ficaram a morar no Monte da Amadoreira, mas o Amadeo ficou a trabalhar com o pai e os irmãos na sua herdade da Capeleira! O Amadeu e a Violeta foram dos casais mais felizes das terras de Capelins, tiveram cinco filhos e a sua descendência ainda hoje se encontra por aqui! 
O lavrador do Monte da Amadoreira que, inicialmente odiava o Amadeo e dizia que nunca ali punha os pés, teve de vergar o orgulho e gostava tanto do Amadeo que o tratava como filho, ainda mais, porque provavelmente lhe devia a vida!

Fim



sábado, 26 de agosto de 2017

327 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 


História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do Pároco de Santo António que conheceu a mãe biológica quando lhe dava os Sacramentos 



Na sexta-feira dia 02 de Maio de 1766, às 6 horas da manhã, quando o Pároco de Santo António se levantou já um filho da Ti Rita de Jesus estava em frente à porta da Casa Paroquial para lhe pedir que fosse dar os Sacramentos à sua mãe que estava nas abaladas! O Padre Manoel Phelipe, disse-lhe que podia ir com a paz do Senhor que ele a seguir ao almoço (pequeno almoço) pedia ao sacristão para albardar a burra e depressa chegava ao Monte da Talaveira, onde a Ti Rita morava! E, pelas 09 horas já estava a cumprimentar os lavradores, filhos, os criados, as criadas e, logo de seguida dirigiu-se ao cabanão da Ti Rita. Depois de falar um pouco com os familiares que estavam presentes, pediu para os deixarem a sós, porque o ato era uma confissão! A ti Rita reuniu todas as forças que lhe restavam e não parecia que estava em estado terminal. O Padre aproximou-se o mais que pôde para não a obrigar a esforçar-se a falar, mas não era necessário, porque as palavras saiam-lhe sem grande esforço e começaram:

Padre: Bom dia ti Rita! Como está hoje? 
Ti Rita: Hoje parece-me que estou melhor, mas sinto que estou no fim!
Padre: Só Deus sabe quando é o fim ti Rita! Tem de ter esperança porque decerto vai melhorar!
Ti Rita; Eu sinto que não estou cá muito tempo, por isso pedi para vir cá confessar-me! 
Padre: Eu vim logo ti Rita, mas para lhe fazer uma visita! Agora que estou cá, pode confessar-se e podemos falar sobre alguma coisa que a atormente! 
Ti Rita: Está bem! Mas eu quero contar os meus pecados e pedir perdão a Deus! 
A ti Rita começou a contar ao Padre Manoel Phelipe alguns acontecimentos banais da sua vida até que ganhou coragem e chegou aos casos que mais a atormentavam!
Ti Rita: Eu tenho dois pecados muito grandes que não posso levar comigo, não podia morrer sem pedir perdão, destes, o pior foi ter enjeitado um filho e o outro foi ter jurado na Santa igreja que amava o meu marido, mas a verdade é que nunca o amei, porque amei sempre o outro, o pai desse filho!
Padre: Toda a gente cometeu pecados, agora o que é preciso é estar arrependida e pedir o perdão do Senhor! 
Ti Rita: Mas enjeitar um filho não tem perdão!
Padre: Já lhe disse que tudo tem perdão! 
Ti Rita: Agora, já não posso fazer nada e nem naquela altura pude fazer, fui enganada pelo pai daquele filho e, depois obrigaram-me a enjeitá-lo! Eu era muito nova, tinha vinte anos e o filho mais velho do lavrador começou a perseguir-me e a dizer-me que gostava muito de mim, em todo o lado me aparecia, até que me convenci que era verdade! Um dia esperou-me e puxou-me para dentro da seara, eu fechei os olhos e quando os abri já estava! Depois, já era eu que o procurava até descobrir que estava de esperanças! Fui contar-lhe e ele disse-me que não queria saber de mim, o mais certo era não ser ele o pai, porque eu era uma galdéria, ninguém ia acreditar em mim e o pai dele mandava toda a minha família daqui para fora, íamos morrer à fome porque nenhum lavrador nos queria nas suas herdades, que a culpa era toda minha, e outras ameaças! Foi grande sofrimento! Chorei, chorei, sem ter para onde me virar, até que a minha tia me chamou para a choça dela, o marido era o pastor do Monte, e obrigou-me a contar tudo o que se estava a passar! Ela pensou, pensou e depois disse-me que já tinha uma ideia, era só falarmos com a minha mãe e resolvia-se tudo! Eu fiquei na choça e ela foi ao Monte chamar a minha mãe, depois contou-lhe que eu estava de esperanças e ela ainda começou aos gritos, mas a minha tia disse-lhe para se calar porque assim não resolvia nada só podia piorar a situação! Depois disse-lhe o que tinha pensado, era só a minha mãe ajudar! Eu continuava como se nada tivesse acontecido, sempre com a barriga apertada e quando já não desse para esconder metia-me na choça fingindo que tinha nervos, que só queria estar com a minha tia, não saía à rua, nem queria ver ninguém e se tivesse alguma visita metia-me na cama bem tapada com uma manta, sem dizer uma palavra, e elas enchiam a choça de ervas para chás dos nervos, para convencer alguma desconfiada! Quando a criança nascesse a minha tia fazia-a desaparecer e acabava tudo! A minha mãe, ainda estava com algumas dúvidas, mas como não encontrava outra maneira, teve de aceitar, mas nunca me perdoou! Fizemos tudo como a minha tia pensou e correu bem! O menino nasceu na noite de sábado do dia 26 de Janeiro de 1726! Aqui o Padre Manoel deu um salto e pensou: "este foi o dia e ano que eu nasci e fui enjeitado, apareci de madrugada à porta deste Monte, meu Deus, não pode ser"! A ti Rita continuou: Nunca esqueci essa noite! Nem cheguei a ver o meu menino! Ainda perguntei à minha tia, antes dela falecer, o que lhe tinha acontecido, mas ela só me disse, que jurou de nunca me dizer, mas podia dizer-me que estava em Terena e muito bem e para não o procurar, devia lembrar-me do que se passou! A maior alegria que eu podia ter, era ver esse meu filho antes de morrer, mas sei que é impossível, já foi bom saber que ele estava bem! O Padre esteve quase a dizer-lhe que estava a olhar para esse filho, mas conteve-se porque tinha de ter a certeza do que ia dizer! Tinha que fazer melhor as contas e depois se fosse o caso, voltaria ali! A ti Rita, ainda continuou a falar mas já pouco se percebia e o Padre deu-lhe todos os Sacramentos, despediu-se da família e voltou para Santo António! 


O Padre Manoel Phelipe chegou a Santo António antes do meio dia, deixou a burra em frente da porta da casa Paroquial e recolheu-se, deixou-se cair na sua cadeira pensando na conversa que teve com a ti Rita de Jesus, passaram-lhe várias vezes pela cabeça cada palavra que ouviu da sua boca e estava a exclamar em voz alta: "a minha mãe! é a minha mãe", quando entrou a mulher do sacristão a chamá-lo para o jantar (almoço), não podendo deixar de ouvir essa frase e perguntou-lhe: O que se passa Padre? Estava falando sobre a sua mãezinha? O Padre Manoel ficou um pouco atrapalhado, mas respondeu: Ah sim! Era sobre um livro que li e tinha esta frase! A ti Maria acreditou e a conversa ficou por ali! O Padre sentou-se à mesa, mas parecia que tinha um nó na garganta e não conseguiu comer quase nada! A ti Maria ficou muito admirada e perguntou-lhe se a comida não estava boa? Está muito boa, eu é que não estou nada bem! Olhe vou-me deitar e não estou para ninguém! Respondeu o Padre! E retirou-se da mesa para a mesma cadeira onde tinha passado o resto da manhã! Continuou a pensar em tudo o que os pais adotivos lhe tinham contado e a fazer contas, sobre a data do seu nascimento, a idade da ti Rita de Jesus e tudo dava certo, cada vez tinha mais certeza que tinha encontrado os seus pais biológicos, a ti Rita de Jesus e o António Lopes do Monte da Talaveira! À noite pouco comeu e foi muito cedo para a cama, mas não fechou os olhos por um minuto a pensar o que ia fazer! Levantou-se de madrugada, juntou num saco alguns produtos, próprios para o tratamento de doentes, foi bater à porta do sacristão para lhe albardar a burra, disse-lhe que se demorava e pôs-se a caminho do Monte da Talaveira, com ideia de se dedicar o tempo que fosse preciso a tratar a sua mãe! Quando ia no alto do malhão, encontrou-se com um dos filhos da ti Rita! Cumprimentaram-se e o Padre perguntou-lhe como é que ela tinha passado a noite e se estava melhor? A resposta que ouviu, quase o atirou ao chão! O filho da ti Rita disse-lhe que ia mesmo falar com ele para tratar do enterro da mãe, porque tinha falecido ao início da noite anterior e que depois do Padre se ter ido embora ela ficou muito contente até parecia que estava melhor, mas piorou da cabeça, assim que me viu ao pé dela até se finar não parou de dizer que estava muito feliz porque tinha visto o filho! Se me via todos os dias, não sei o que meteu na cabeça! Enfim, foi a doença! O Padre percebeu o que se passou, mas ficou muito intrigado! Como é que a ti Rita soube que ele era o seu filho enjeitado! Não tinha dúvidas, que ela soube! A seguir disse ao filho da ti Rita para seguir para Santo António e dizer ao sacristão para abrir a sepultura na Igreja, preparar o Esquife para as quatro horas da tarde, que a essa hora estava lá um carro do Monte para o trazer e para ir ao quarto do Padre e tirar da arca que estava aos pés da cama, um lençol de seda e trazê-lo! E o Padre seguiu para o Monte da Talaveira! O sacristão cumpriu tudo o que o Padre pediu, mas ficou muito admirado por ele mandar levar aquele lençol de seda, uma preciosidade nunca , vista por ali! O Padre passou o dia no velório muito triste e, as pessoas interrogavam-se sobre o que ele faria ali, porque nunca o tinham visto em nenhum velório! À tardinha realizou-se o funeral para a Igreja de Santo António, foi funeral de carro e acompanhado por outros carros do Monte e pelos lavradores. O Padre fez todas as exéquias sobre grande constrangimento e, após o ato fúnebre recolheu-se na casa Paroquial sem querer ver ninguém! A atitude do Padre, a participação dos lavradores no funeral, os carros e o lençol de seda alimentaram muitas conversas durante vários meses nas terras de Capelins! O Padre, só passados alguns dias, aceitou conversar com o sacristão e com grande surpresa deste, contou-lhe a história da sua vida a partir do dia em que foi abandonado à porta do Monte da Talaveira! 

Após sepultar sua mãe o Padre Manoel Philipe dirigiu-se à Casa Paroquial e fechou-se no quarto! À noite dispensou a ceia (jantar) e passou muitas horas a pensar como teria sido a vida de sua mãe, por tudo o que ela passou e sentiu-se culpado pela sua infelicidade! Já tarde apagou a candeia e atirou-se para a cama, embora estivesse muito cansado, porque não tinha dormido nada na noite anterior, foi muito difícil adormecer! Na manhã seguinte, ao contrário do que fazia habitualmente, ficou na cama até tarde e, quando a mulher do sacristão lhe levou o almoço (pequeno almoço) ficou muito preocupada com a sua aparência! Disse-lhe que tinha ali a comida, mas ele nem respondeu e, ela foi contar ao marido que o Padre não estava bem, era melhor ele ir lá! O sacristão foi logo falar com o Padre:
Sacristão: Bom dia Padre! Como está hoje?
Padre: Bom dia João! Não estou muito bem! Nada bem! 
Sacristão: Pois! Vê-se logo! Veja lá se está doente, eu vou a Terena buscar algum tratamento, ou se quer que a minha mulher lhe faça algum chá ou outra coisa? 
Padre: Não João! Isto não vai lá com chás, não é preciso nada, já passa! 
Sacristão: Não leve a mal, mas vi que ficou assim, muito triste e comovido desde que foi dar os Sacramentos à ti Rita lá ao Monte da Talaveira e sei de tudo o que depois se passou, foi ao velório, deu-lhe aquele lençol de seda e o seu comportamento até parecia de família muito chegada! Toda a gente por aí fala nisso! E não me sai da cabeça que tem a ver com a ti Rita, mas não consigo perceber qual pode ser a ligação! 
Padre: Isso são coisas da tua cabeça João! Tu sabes que sou de Terena e mal conhecia a ti Rita, mas deu-me para isso homem, tive muita pena dela, como tenho de todos, tu bem sabes! 
Sacristão: Podem ser coisas da minha cabeça, mas eu já o conheço bem, sei que não foi nada normal e, como disse, o seu esmorecimento começou ontem! Se não quer falar é lá consigo! Mas se não falar comigo, já sei que não vai falar com mais ninguém e fica aqui a sofrer! Talvez eu não lhe possa valer de muito, mas os dois ficamos mais fortes para encontrarmos alguma solução! Sabe bem que pode ter confiança em mim, eu não conto nada a ninguém, posso jurar perante Deus! Se for preciso, alinhavo alguma coisa à minha mulher e tudo ficará esquecido! Acredite que era melhor falarmos! 
Padre: Tens toda a razão João! Mas neste momento ainda estou muito abalado, logo ou amanhã falamos! 
O sacristão saiu, o Padre ficou sozinho e continuaram a passar-lhe na mente as palavras da ti Rita! De repente lembrou-se do que ela lhe disse: "Nunca fui feliz, porque nunca amei o meu marido, amei sempre o outro, o pai do filho que enjeitei"! Como o Padre já sabia quem era o seu pai e tinha ideia de o ter sepultado na Igreja de Santo António, faltava identificar qual era exatamente o lugar da sepultura, foi apressadamente buscar o livro dos registos dos óbitos, abriu-o e foi folheando para trás até chegar ao assento que procurava, leu lugar em que estava a sepultura e foi à Igreja, entrou na porta mesmo ao lado e foi medir o soalho a partir do lado do ocidente, 2ª fila, 4ª sepultura, naquele momento, quase desfaleceu, certificou-se bem, por várias vezes e não havia engano, a sua mãe tinha sido sepultada mesmo ao lado do seu pai, do homem que ela sempre amou! Estava tão concentrado a olhar para o lugar das sepulturas dentro da Igreja e a pensar alto, exclamando: "Isto não é possível", nem reparou que o sacristão estava mesmo junto dele, porque como estava preocupado, quando o viu entrar na Igreja foi atrás! 
Sacristão: O que é disse Padre? 
Padre: Eu? Nada, o que havia de dizer! 
Sacristão: Eu ouvi muito bem o que disse, por isso não adianta disfarçar! 
Padre: Então já que ouviste, diz-me uma coisa João, tu não te enganas-te na sepultura que abriste ontem? 
Sacristão: Olhe que isso até me parece mal Padre! Alguma vez eu me podia enganar? Não senhor, era mesmo esta que tinha de abrir! Não me enganei! Não! Não!
Padre: Está bem João! Está bem! Depois falamos, depois falamos! Até logo!
O Padre saiu da Igreja e meteu-se novamente na Casa Paroquial! 
A partir dali, o sacristão ficou sem nenhuma dúvida que o estado em que se encontrava o Padre, tinha a ver com a ti Rita de Jesus! Faltava saber porquê! 
O Padre Manoel Phelipe esteve quatro dias fechado em casa, até que, ao quinto dia quando a mulher do sacristão lhe foi fazer o almoço (pequeno almoço) ele pediu-lhe para dizer ao marido para quando pudesse ir à Casa Paroquial porque queria falar com ele! Assim que recebeu o recado o sacristão foi imediatamente ter com o Padre e começaram a conversa:
Sacristão: Bom dia Padre! Está melhor? Hoje já não parece o mesmo! 
Padre: Sim, estou muito melhor! Senta-te João, senta-te! Preciso de falar contigo! 
Sacristão: Já sabe que pode falar! Estou aqui para isso! 
Padre: Sabes, João! Tu tens razão! O meu esmorecimento e tudo o que tem acontecido neste dias tem a ver com a ti Rita de Jesus! 
Sacristão: Eu já tinha a certeza, mas não consigo perceber, porque motivo ficou assim! Tantas pessoas que já morreram aqui e nunca o vi assim! 
Padre: É verdade João! É verdade! Nunca me viste assim, porque nenhuma das outras pessoas eram a minha mãe! 
O sacristão estava sentado, deu um salto e ficou em pé, com uma cara de grande surpresa e disse: Como é que isso pode ser? Então o Padre não é filho do lavrador Banazol de Terena? 
Padre: Não sou João! Não sou! 
Sacristão: Ora essa! Mas toda a gente diz que é! 
Padre: Pois dizem! Mas é porque não conhecem o meu passado! 
Sacristão: Custa-me acreditar no que estou a ouvir! Custa! Custa! Mas se o Padre diz, é porque é verdade! Mas como é que isso é possível? Como foi ter a Terena à casa do lavrador Banazol? 
Padre: Senta-te! Eu já conto como tudo se passou! 
O Padre Manoel contou a parte que já conhecemos, até ter aparecido na madrugada do dia 26 de Janeiro de 1726 à porta do Monte da Talaveira, sendo acolhido por estes lavradores! 
Padre: A partir do dia em que apareci à porta do Monte da Talaveira eu já sabia tudo, porque os meus pais adotivos não me esconderam nada! Mas não sabia o que tinha acontecido para trás, quem eram os meus pais e porque fui enjeitado! No dia em que fui dar os Sacramentos à ti Rita de Jesus, em confissão, contou-me tudo o que se passou até aquele dia! 
Sacristão: Então se sabia que tinha sido enjeitado e que apareceu no Monte da Talaveira, ainda não tinha tentado saber se os seus pais eram dali?
Padre: Sim! Tentei! Mas disseram-me que dali de certeza que não eram, porque nunca ninguém viu nenhuma mulher de esperanças que não tivesse ficado com o filho ou filha e, disseram-me que, o mais certo era eu ser de Espanha! 
Sacristão: Ora essa! Então e como foi parar a Terena? 
Padre: Eu fui a terceira criança a aparecer à porta do Monte da Talaveira, já lá tinham duas meninas e mais quatro filhos dos lavradores já homens e mulheres, o meu aparecimento deu muito que falar nas terras de Capelins, chegando a Terena e, aos ouvidos do lavrador Banazol que ainda era parente dos Lopes e não conseguiam ter filhos, então foram ao Monte da Talaveira fazer-lhe uma visita e a pedir-lhe para ficarem comigo! 
Sacristão: Pronto! Está tudo dito! Deram-no logo e lá marchou a caminho de Terena! 
Padre: Não foi assim tão fácil, porque como era rapaz, os lavradores da Talaveira estavam a contar em ficar comigo! 
Sacristão: Essa agora! Então como o levaram? 
Padre: Já lhe conto tudo! Como eram muito dados, não era fácil negarem-lhe o pedido, mas acharam que ficavam mal com as duas meninas e sem mim, então fizeram uma 
proposta aos parentes, ficavam comigo, mas também tinham de ficar com uma menina, um casalinho! Os Banazol nem pensaram duas vezes, aceitaram imediatamente! 
Sacristão: E lá foram os dois para Terena, logo nesse dia, com os lavradores Banazol? 
Padre: Não! Não podia se assim, tinham que ter o acordo do Pároco de Santo António e do Vigário de Terena! 
Sacristão: Mas se vocemecês eram dos lavradores Lopes, o que tinham os Padres a ver com isso? 
Padre: Eles, eram como é agora, as autoridades eclesiásticas ao nível da Paróquia e registavam, como hoje registamos, todos os atos que tenham a ver com os paroquianos, sendo impossível fazer isso sem a sua autorização! 
Sacristão: Mas autorizaram, não? 
Padre: Sim! Autorizaram! Os meus pais adotivos cumpriam todas as obrigações com a Igreja e não foi difícil, apenas exigiram que eu e a minha irmã (que na verdade, não é) frequentássemos sempre a Igreja! Depois, fui batizado aqui nesta Igreja, mas no assento que está aí, está escrito que sou filho de pais incógnitos, não ficou registado que era filho do lavrador Banazol, mas fomos sempre tratados como verdadeiros filhos e por onde andei ficou sempre registado os nomes deles como meus pais! 
Sacristão: Sim! Na verdade, não há ninguém em Terena e aqui nas terras de Capelins que pense o contrário! E depois? Como foi para Padre? E como veio para Santo António? Pediu para vir para cá porque sabia que era daqui e veio tentar descobrir o seu passado?
Padre: Já conto João! Já conto! 


O Padre Manoel Phelipe já estava cansado, mas o sacristão continuava ávido em saber a história da sua vida, pediu para esperar um pouco, levantou-se e foi à cozinha beber meio copo de água da fonte da Sina, que repousava numa cantarinha de barro que a refrescava e dava o sabor da argila cozida! Voltou a sentar-se na sua cadeira e a conversa continuou:
Padre: Como já te contei, a principal exigência do Pároco daqui, quando me levaram para Terena era eu e a minha irmã frequentarmos sempre a Igreja e conforme me contaram foi isso que aconteceu desde que lá cheguei! 
Sacristão: Quando o levaram, foi morar para a Vila ou para a herdade? 
Padre: Para Terena! Pouco tempo morei na herdade, tínhamos casa na Vila onde estavamos quase sempre! A herdade não me atraía quase nada, desde que me lembro a minha cabeça estava sempre na Igreja! Comecei a aprender a ler e a escrever com os Padres e cerca dos nove anos já sabia rezar uma missa, até já sabia latim! 
Sacristão: Com essa idade já rezava as missas lá em Terena? 
Padre: Não! Isso não podia ser! Não era Padre! Mas já ajudava nas missas e ia dizendo tudo ao mesmo tempo deles! 
Sacristão: Tinha mesmo de ser Padre! 
Padre: Não foi nada fácil! O meu pai contava comigo para ser lavrador! Não tive coragem para lhe dizer que queria ser Padre! Foi o Vigário que teve uma grande conversa com ele e o convenceu de que era o melhor para mim! 
Sacristão: E depois de convencerem o seu pai, teve de abalar de Terena ou fez-se Padre ali? 
Padre: Tive de ir estudar para o Seminário Maior de Évora, tinha cerca de doze anos de idade e estive lá até aos 26 anos! 
Sacristão: E com essa idade, quando voltou a Terena já era Padre? 
Padre: Sim! No último ano dos estudos esperei o Diaconato, sendo essa a ordenação final! A parir daí já era Padre, mas passei por muitas fases!
Sacristão: E quando veio para Terena, começou logo a dizer missas lá nas Igrejas? 
Padre: Sim! Comecei a dizer missas na companhia de outros sacerdotes que já lá estavam, pelas Igrejas todas!
Sacristão: E porque motivo veio aqui para a nossa Paróquia? Pediu ao senhor Vigário? 
Padre: Não! Não pedi nada! Um Padre serve no lugar para onde for chamado! 
Sacristão: Então, quem o chamou para cá? 
Padre: Deus! Foi Deus! Como sabes o Pároco daqui não estava bem de saúde, recolheu à Vigararia de Terena e era eu que estava nas melhores condições para vir para esta Paróquia! E vim!
Sacristão: Ainda bem que veio! Lembro-me tão bem do dia que fui a Terena para ajudar a trazer as suas coisas na burra! Sei que tinha lá muitos carros e charretes na herdade para trazer tudo, mas o padre não quis! E veio tudo na burra! 
Padre: Sim! Podia ter pedido ajuda, mas a herdade não é minha! É da minha irmã! Eu não tenho nada além das rendas da Paróquia e tenho tudo o que preciso, o Senhor não me deixa faltar nada! 
Sacristão: Compreendo Padre e obrigado por falar comigo!
Padre: Agora, já sabes a história da minha vida! 
Sacristão: Agora, já sei e olhe que até me falta o ar, devido à ansiedade e por saber tantas coisas que eu nem imaginava! 
Padre. Já viste como as aparências muitas vezes não são o que parecem? 
Sacristão: Já vi, já! Agora posso dizer-lhe o que penso sobre este seu sofrimento depois de saber quem era a sua verdadeira mãe?
Padre: Podes! Sim! Podes! Por isso é que te contei tudo!
Sacristão: Então, ouça-me bem! Depois faça o que achar melhor para si! 



Depois do Padre Manoel Phelipe desfiar as suas memórias, o sacristão endireitou-se na cadeira onde estava instalado, passou a mão pela cara e continuou:

Sacristão: Como sabe, sou uma pessoa pouco letrada, os meus conhecimentos ao nível literário são muito escassos, apenas sei o que tenho aprendido com os Padres que por aqui têm passado, mas tenho alguma experiência da vida, porque já vivi um bom par de anos, portanto se me permite dar a minha opinião, tenho a dizer-lhe que nunca esqueça a sua mãe, eu sei muito bem que não esquece! Foi ela a razão da sua existência, agora já não pode fazer mais nada por ela, mas pode fazer por outras pessoas, para que não passem o que ela passou! 

Padre: Oh João! Parece que estás a ler os meus pensamentos, estou a ouvir tudo o que me dizes e ao mesmo tempo estou comparar com o que estava a pensar em fazer!
Sacristão: Sim! Mas já agora deixe-me acabar! Como ia dizendo, em memória à sua mãezinha, podia ajudar muitas raparigas e mulheres que devido à sua inocência e à necessidade, caem nas garras dos filhos de lavradores e mesmo de alguns lavradores, abrindo-lhe os olhos, para não serem enganadas!
Padre: Claro! É isso que tenho pensado, mas é um assunto melindroso, que tem de ser tudo muito bem pensado e planeado! 
Sacristão: Não será muito difícil, porque os lavradores têm-lhe muito respeito, é um Banazol e, não se atrevem a contestar, pode falar com eles, com os filhos e com todos os paroquianos e paroquianas e dizer-lhes que essas ações são maléficas e que a Igreja está contra isso! A par disso pode alertar as raparigas para se defenderem, não se afastarem das mães ou outros familiares e para nunca terem esperança onde ela não existe! 
Padre: Estou de acordo contigo e acredita que vou fazer tudo isso! É um bom objetivo para nós, para a nossa Paróquia! Já sabes que também tens de ajudar! 
Sacristão: Sim! Ajudo! Mas ainda não disse tudo! Além do que já falamos, devia ajudar os seus irmãos, irmãs e sobrinhos, a sua família! 
Padre: Acredita que também já tinha pensado nisso! Mas há muitas coisas que não sei deles, não deu para falar nada no velório da minha mãe, como conheces todos os paroquianos tens de me ajudar! 
Sacristão: Como já sei quem era a sua mãe, agora também sei quem é a sua família toda! Não moram todos por cá, porque dois dos seus irmãos casaram fora, mas perto! Olhe, um deles em Terena e outro em Santiago! Mora mais um no Monte da Talaveira, assim como as suas duas irmãs! Sei tudo sobre eles! 
Padre: Daqui a algum tempo, sem alarido, vamos sabendo os que passam mais mal e depois falo com a minha irmã e se eles quiserem vão trabalhar lá para a herdade, para o Monte ou para a casa em Terena, sempre vão ter outro tratamento! 
Sacristão: Então, estou ao dispor para o que precisar! É só dizer e eu faço! Já agora, o que digo à minha Maria? Sim, que ela está à minha espera para saber o que foi a nossa conversa! 
Padre: Olha, João, conta-lhe a verdade, mas diz-lhe para agora, não contar por ai, já basta o que falam e se sabem mais, ainda mais acrescentam! Com o passar do tempo, aparecem outras novidades e depois já não vão ligar muito! 
Sacristão: Fique descansado! Eu abro-lhe bem os olhos! Até logo! 
E o sacristão dirigiu-se para sua casa, que ficava do outro lado da rua! 
A partir daquele dia, o Padre Manoel renasceu, porque tinha um projeto muito importante a desenvolver na sua Paróquia o qual, tinha presente a imagem da sua mãe, e foi graças a ela que o mesmo surgiu! Antes de o pôr em prática foi bem estudado e organizado de forma a não ferir o orgulho de ninguém e não ser entendido como um ataque aos lavradores! 
A ajuda do sacristão foi fundamental, conseguiu reunir os familiares do Padre, com os quais ele começou a conviver e ajudou os que precisaram, conforme tinha planeado! 
Enquanto o Padre Manoel Phelipe foi Pároco de Santo António, até cerca de 1790, não se conheceram abusos dos que detinham o poder, sobre as mulheres indefesas! 
Como o Padre previu, quando os paroquianos vieram a saber o seu passado, já havia outras novidades e pouco falaram, também, porque nessa época não era nenhum escândalo e existiam muitos casos semelhantes pelo Reino de Portugal! 
O Padre Manoel, em 1790 recolheu à Vigararia de Terena onde passou o resto dos seus dias! 
O Sacristão João Gonçalves, já tinha partido para o céu alguns anos antes, deixando bem marcada a sua bondade nesta Paróquia de Capelins!


Fim




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

326 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

Os mais velhos dizem que, esta lenda faz parte dos segredos de Capelins! 

A lenda da morte da lavradora do Monte do Roncão 

Assim que, a Casa do Infantado entregou as herdades das terras de Capelins em 1698, aos novos agricultores, quase todos de origem judaica, mas filhos de Terena, estes, começaram imediatamente a construir os seus Montes, os quais estão atualmente quase todos em ruínas ou já desapareceram. Porém, o Monte do Roncão, onde se passou esta ação teima em continuar firme e airoso, como quando albergava multidões de trabalhadores e famílias em todo o seu domínio! Este Monte era do lavrador Francisco Friz (Fernandez) e de sua mulher a lavradora Maria Miz (Martinez), a qual, no ano de 1717, com pouco mais de quarenta anos de idade, começou a apresentar sinais de demência, com atitudes impróprias e conversas sem sentido que, no início da doença, ninguém compreendia, ao ponto de fazerem chacota pelas terras de Capelins. O lavrador, assim que percebeu que a situação não era normal, correu aos médicos de toda a região, Estremoz, Elvas, Évora e outras, mas a sua mulher em vez de melhorar, estava cada vez pior! O lavrador já sem fé na cura pelos métodos convencionais dos médicos, em desespero e por influência de familiares procurou outras alternativas, baseadas na obscuridade, como exorcismos e bruxarias. Desde sempre, pairou desconfiança sobre os lavradores do Monte do Roncão, dizia-se que eram "marranos" (falsos Cristãos), mas não era verdade, no entanto, eram constantemente alertados para o perigo que corriam, porque, se chegasse aos ouvidos do Esquadrão da Inquisição, de Vila Viçosa, decerto eram assassinados ali, sem hipótese de defesa! O padre de Santo António, Miguel Gonçalves Galego, sabia dos boatos e várias vezes lhe disse para terem muito cuidado, porque a situação estava a ficar perigosa, mas eles negavam que nada se passava e compareciam em todos os ato s religiosos na Igreja de Santo António, deixando os paroquianos com dúvidas! Quando o lavrador começou a fazer as mesinhas à lavradora, logo surgiram mais conversas que afirmavam ser verdade do que há muito se dizia, os lavradores praticavam e descaradamente o judaísmo! A lavradora tinha inesperadamente, momentos de lucidez, até parecia que não estava doente, o que deixava o marido, os filhos e as criadas da casa muito confusos e foi num desses momentos que a criada mais velha da casa e muito amiga lhe contou o que se estava a passar! Disse-lhe que o lavrador e toda a família estavam a correr grande perigo, porque falava-se pelas terras de Capelins e, já em Terena, que ele praticava o judaísmo para a curar, mas não era verdade! A lavradora não queria acreditar que estava naquele estado de saúde e sentiu-se culpada por o marido estar em perigo iminente, por culpa dela! E, num momento de lucidez a meio da noite saiu do Monte do Roncão, passou propositadamente pelo lugar onde muitos anos antes tinham enterrado os objetos rituais da fé judaica, entre os quais: uma Tora, uma menorá, um talit, um shofar, um escudo de David, um kipá, uma mezuzá e outros, parou um pouco (soube-se pelo rasto deixado) e depois desceu a Ribeira do Lucefécit e suicidou-se no pego de Santa Catarina no rio Guadiana! Só ao fim de dois dias foi encontrada, sendo sepultada na Igreja de Santo António, como uma boa cristã e o seu marido e filhos deram provas de serem uns bons cristãos, comparecendo e rezando fervorosamente em todas as missas! 
A morte da lavradora do Monte do Roncão causou muita controvérsia que durou muitos anos, uns diziam que foi o dedo acusador do povo que a matou, outros diziam que já estava condenada devido à sua demência!
Tudo indica que, os objetos rituais judaicos ainda se encontram enterrados perto do Moinho do Roncão e, submersos pelas águas do Grande Lago de Alqueva! 



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