sábado, 26 de agosto de 2017

327 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 


História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do Pároco de Santo António que conheceu a mãe biológica quando lhe dava os Sacramentos 



Na sexta-feira dia 02 de Maio de 1766, às 6 horas da manhã, quando o Pároco de Santo António se levantou já um filho da Ti Rita de Jesus estava em frente à porta da Casa Paroquial para lhe pedir que fosse dar os Sacramentos à sua mãe que estava nas abaladas! O Padre Manoel Phelipe, disse-lhe que podia ir com a paz do Senhor que ele a seguir ao almoço (pequeno almoço) pedia ao sacristão para albardar a burra e depressa chegava ao Monte da Talaveira, onde a Ti Rita morava! E, pelas 09 horas já estava a cumprimentar os lavradores, filhos, os criados, as criadas e, logo de seguida dirigiu-se ao cabanão da Ti Rita. Depois de falar um pouco com os familiares que estavam presentes, pediu para os deixarem a sós, porque o ato era uma confissão! A ti Rita reuniu todas as forças que lhe restavam e não parecia que estava em estado terminal. O Padre aproximou-se o mais que pôde para não a obrigar a esforçar-se a falar, mas não era necessário, porque as palavras saiam-lhe sem grande esforço e começaram:

Padre: Bom dia ti Rita! Como está hoje? 
Ti Rita: Hoje parece-me que estou melhor, mas sinto que estou no fim!
Padre: Só Deus sabe quando é o fim ti Rita! Tem de ter esperança porque decerto vai melhorar!
Ti Rita; Eu sinto que não estou cá muito tempo, por isso pedi para vir cá confessar-me! 
Padre: Eu vim logo ti Rita, mas para lhe fazer uma visita! Agora que estou cá, pode confessar-se e podemos falar sobre alguma coisa que a atormente! 
Ti Rita: Está bem! Mas eu quero contar os meus pecados e pedir perdão a Deus! 
A ti Rita começou a contar ao Padre Manoel Phelipe alguns acontecimentos banais da sua vida até que ganhou coragem e chegou aos casos que mais a atormentavam!
Ti Rita: Eu tenho dois pecados muito grandes que não posso levar comigo, não podia morrer sem pedir perdão, destes, o pior foi ter enjeitado um filho e o outro foi ter jurado na Santa igreja que amava o meu marido, mas a verdade é que nunca o amei, porque amei sempre o outro, o pai desse filho!
Padre: Toda a gente cometeu pecados, agora o que é preciso é estar arrependida e pedir o perdão do Senhor! 
Ti Rita: Mas enjeitar um filho não tem perdão!
Padre: Já lhe disse que tudo tem perdão! 
Ti Rita: Agora, já não posso fazer nada e nem naquela altura pude fazer, fui enganada pelo pai daquele filho e, depois obrigaram-me a enjeitá-lo! Eu era muito nova, tinha vinte anos e o filho mais velho do lavrador começou a perseguir-me e a dizer-me que gostava muito de mim, em todo o lado me aparecia, até que me convenci que era verdade! Um dia esperou-me e puxou-me para dentro da seara, eu fechei os olhos e quando os abri já estava! Depois, já era eu que o procurava até descobrir que estava de esperanças! Fui contar-lhe e ele disse-me que não queria saber de mim, o mais certo era não ser ele o pai, porque eu era uma galdéria, ninguém ia acreditar em mim e o pai dele mandava toda a minha família daqui para fora, íamos morrer à fome porque nenhum lavrador nos queria nas suas herdades, que a culpa era toda minha, e outras ameaças! Foi grande sofrimento! Chorei, chorei, sem ter para onde me virar, até que a minha tia me chamou para a choça dela, o marido era o pastor do Monte, e obrigou-me a contar tudo o que se estava a passar! Ela pensou, pensou e depois disse-me que já tinha uma ideia, era só falarmos com a minha mãe e resolvia-se tudo! Eu fiquei na choça e ela foi ao Monte chamar a minha mãe, depois contou-lhe que eu estava de esperanças e ela ainda começou aos gritos, mas a minha tia disse-lhe para se calar porque assim não resolvia nada só podia piorar a situação! Depois disse-lhe o que tinha pensado, era só a minha mãe ajudar! Eu continuava como se nada tivesse acontecido, sempre com a barriga apertada e quando já não desse para esconder metia-me na choça fingindo que tinha nervos, que só queria estar com a minha tia, não saía à rua, nem queria ver ninguém e se tivesse alguma visita metia-me na cama bem tapada com uma manta, sem dizer uma palavra, e elas enchiam a choça de ervas para chás dos nervos, para convencer alguma desconfiada! Quando a criança nascesse a minha tia fazia-a desaparecer e acabava tudo! A minha mãe, ainda estava com algumas dúvidas, mas como não encontrava outra maneira, teve de aceitar, mas nunca me perdoou! Fizemos tudo como a minha tia pensou e correu bem! O menino nasceu na noite de sábado do dia 26 de Janeiro de 1726! Aqui o Padre Manoel deu um salto e pensou: "este foi o dia e ano que eu nasci e fui enjeitado, apareci de madrugada à porta deste Monte, meu Deus, não pode ser"! A ti Rita continuou: Nunca esqueci essa noite! Nem cheguei a ver o meu menino! Ainda perguntei à minha tia, antes dela falecer, o que lhe tinha acontecido, mas ela só me disse, que jurou de nunca me dizer, mas podia dizer-me que estava em Terena e muito bem e para não o procurar, devia lembrar-me do que se passou! A maior alegria que eu podia ter, era ver esse meu filho antes de morrer, mas sei que é impossível, já foi bom saber que ele estava bem! O Padre esteve quase a dizer-lhe que estava a olhar para esse filho, mas conteve-se porque tinha de ter a certeza do que ia dizer! Tinha que fazer melhor as contas e depois se fosse o caso, voltaria ali! A ti Rita, ainda continuou a falar mas já pouco se percebia e o Padre deu-lhe todos os Sacramentos, despediu-se da família e voltou para Santo António! 


O Padre Manoel Phelipe chegou a Santo António antes do meio dia, deixou a burra em frente da porta da casa Paroquial e recolheu-se, deixou-se cair na sua cadeira pensando na conversa que teve com a ti Rita de Jesus, passaram-lhe várias vezes pela cabeça cada palavra que ouviu da sua boca e estava a exclamar em voz alta: "a minha mãe! é a minha mãe", quando entrou a mulher do sacristão a chamá-lo para o jantar (almoço), não podendo deixar de ouvir essa frase e perguntou-lhe: O que se passa Padre? Estava falando sobre a sua mãezinha? O Padre Manoel ficou um pouco atrapalhado, mas respondeu: Ah sim! Era sobre um livro que li e tinha esta frase! A ti Maria acreditou e a conversa ficou por ali! O Padre sentou-se à mesa, mas parecia que tinha um nó na garganta e não conseguiu comer quase nada! A ti Maria ficou muito admirada e perguntou-lhe se a comida não estava boa? Está muito boa, eu é que não estou nada bem! Olhe vou-me deitar e não estou para ninguém! Respondeu o Padre! E retirou-se da mesa para a mesma cadeira onde tinha passado o resto da manhã! Continuou a pensar em tudo o que os pais adotivos lhe tinham contado e a fazer contas, sobre a data do seu nascimento, a idade da ti Rita de Jesus e tudo dava certo, cada vez tinha mais certeza que tinha encontrado os seus pais biológicos, a ti Rita de Jesus e o António Lopes do Monte da Talaveira! À noite pouco comeu e foi muito cedo para a cama, mas não fechou os olhos por um minuto a pensar o que ia fazer! Levantou-se de madrugada, juntou num saco alguns produtos, próprios para o tratamento de doentes, foi bater à porta do sacristão para lhe albardar a burra, disse-lhe que se demorava e pôs-se a caminho do Monte da Talaveira, com ideia de se dedicar o tempo que fosse preciso a tratar a sua mãe! Quando ia no alto do malhão, encontrou-se com um dos filhos da ti Rita! Cumprimentaram-se e o Padre perguntou-lhe como é que ela tinha passado a noite e se estava melhor? A resposta que ouviu, quase o atirou ao chão! O filho da ti Rita disse-lhe que ia mesmo falar com ele para tratar do enterro da mãe, porque tinha falecido ao início da noite anterior e que depois do Padre se ter ido embora ela ficou muito contente até parecia que estava melhor, mas piorou da cabeça, assim que me viu ao pé dela até se finar não parou de dizer que estava muito feliz porque tinha visto o filho! Se me via todos os dias, não sei o que meteu na cabeça! Enfim, foi a doença! O Padre percebeu o que se passou, mas ficou muito intrigado! Como é que a ti Rita soube que ele era o seu filho enjeitado! Não tinha dúvidas, que ela soube! A seguir disse ao filho da ti Rita para seguir para Santo António e dizer ao sacristão para abrir a sepultura na Igreja, preparar o Esquife para as quatro horas da tarde, que a essa hora estava lá um carro do Monte para o trazer e para ir ao quarto do Padre e tirar da arca que estava aos pés da cama, um lençol de seda e trazê-lo! E o Padre seguiu para o Monte da Talaveira! O sacristão cumpriu tudo o que o Padre pediu, mas ficou muito admirado por ele mandar levar aquele lençol de seda, uma preciosidade nunca , vista por ali! O Padre passou o dia no velório muito triste e, as pessoas interrogavam-se sobre o que ele faria ali, porque nunca o tinham visto em nenhum velório! À tardinha realizou-se o funeral para a Igreja de Santo António, foi funeral de carro e acompanhado por outros carros do Monte e pelos lavradores. O Padre fez todas as exéquias sobre grande constrangimento e, após o ato fúnebre recolheu-se na casa Paroquial sem querer ver ninguém! A atitude do Padre, a participação dos lavradores no funeral, os carros e o lençol de seda alimentaram muitas conversas durante vários meses nas terras de Capelins! O Padre, só passados alguns dias, aceitou conversar com o sacristão e com grande surpresa deste, contou-lhe a história da sua vida a partir do dia em que foi abandonado à porta do Monte da Talaveira! 

Após sepultar sua mãe o Padre Manoel Philipe dirigiu-se à Casa Paroquial e fechou-se no quarto! À noite dispensou a ceia (jantar) e passou muitas horas a pensar como teria sido a vida de sua mãe, por tudo o que ela passou e sentiu-se culpado pela sua infelicidade! Já tarde apagou a candeia e atirou-se para a cama, embora estivesse muito cansado, porque não tinha dormido nada na noite anterior, foi muito difícil adormecer! Na manhã seguinte, ao contrário do que fazia habitualmente, ficou na cama até tarde e, quando a mulher do sacristão lhe levou o almoço (pequeno almoço) ficou muito preocupada com a sua aparência! Disse-lhe que tinha ali a comida, mas ele nem respondeu e, ela foi contar ao marido que o Padre não estava bem, era melhor ele ir lá! O sacristão foi logo falar com o Padre:
Sacristão: Bom dia Padre! Como está hoje?
Padre: Bom dia João! Não estou muito bem! Nada bem! 
Sacristão: Pois! Vê-se logo! Veja lá se está doente, eu vou a Terena buscar algum tratamento, ou se quer que a minha mulher lhe faça algum chá ou outra coisa? 
Padre: Não João! Isto não vai lá com chás, não é preciso nada, já passa! 
Sacristão: Não leve a mal, mas vi que ficou assim, muito triste e comovido desde que foi dar os Sacramentos à ti Rita lá ao Monte da Talaveira e sei de tudo o que depois se passou, foi ao velório, deu-lhe aquele lençol de seda e o seu comportamento até parecia de família muito chegada! Toda a gente por aí fala nisso! E não me sai da cabeça que tem a ver com a ti Rita, mas não consigo perceber qual pode ser a ligação! 
Padre: Isso são coisas da tua cabeça João! Tu sabes que sou de Terena e mal conhecia a ti Rita, mas deu-me para isso homem, tive muita pena dela, como tenho de todos, tu bem sabes! 
Sacristão: Podem ser coisas da minha cabeça, mas eu já o conheço bem, sei que não foi nada normal e, como disse, o seu esmorecimento começou ontem! Se não quer falar é lá consigo! Mas se não falar comigo, já sei que não vai falar com mais ninguém e fica aqui a sofrer! Talvez eu não lhe possa valer de muito, mas os dois ficamos mais fortes para encontrarmos alguma solução! Sabe bem que pode ter confiança em mim, eu não conto nada a ninguém, posso jurar perante Deus! Se for preciso, alinhavo alguma coisa à minha mulher e tudo ficará esquecido! Acredite que era melhor falarmos! 
Padre: Tens toda a razão João! Mas neste momento ainda estou muito abalado, logo ou amanhã falamos! 
O sacristão saiu, o Padre ficou sozinho e continuaram a passar-lhe na mente as palavras da ti Rita! De repente lembrou-se do que ela lhe disse: "Nunca fui feliz, porque nunca amei o meu marido, amei sempre o outro, o pai do filho que enjeitei"! Como o Padre já sabia quem era o seu pai e tinha ideia de o ter sepultado na Igreja de Santo António, faltava identificar qual era exatamente o lugar da sepultura, foi apressadamente buscar o livro dos registos dos óbitos, abriu-o e foi folheando para trás até chegar ao assento que procurava, leu lugar em que estava a sepultura e foi à Igreja, entrou na porta mesmo ao lado e foi medir o soalho a partir do lado do ocidente, 2ª fila, 4ª sepultura, naquele momento, quase desfaleceu, certificou-se bem, por várias vezes e não havia engano, a sua mãe tinha sido sepultada mesmo ao lado do seu pai, do homem que ela sempre amou! Estava tão concentrado a olhar para o lugar das sepulturas dentro da Igreja e a pensar alto, exclamando: "Isto não é possível", nem reparou que o sacristão estava mesmo junto dele, porque como estava preocupado, quando o viu entrar na Igreja foi atrás! 
Sacristão: O que é disse Padre? 
Padre: Eu? Nada, o que havia de dizer! 
Sacristão: Eu ouvi muito bem o que disse, por isso não adianta disfarçar! 
Padre: Então já que ouviste, diz-me uma coisa João, tu não te enganas-te na sepultura que abriste ontem? 
Sacristão: Olhe que isso até me parece mal Padre! Alguma vez eu me podia enganar? Não senhor, era mesmo esta que tinha de abrir! Não me enganei! Não! Não!
Padre: Está bem João! Está bem! Depois falamos, depois falamos! Até logo!
O Padre saiu da Igreja e meteu-se novamente na Casa Paroquial! 
A partir dali, o sacristão ficou sem nenhuma dúvida que o estado em que se encontrava o Padre, tinha a ver com a ti Rita de Jesus! Faltava saber porquê! 
O Padre Manoel Phelipe esteve quatro dias fechado em casa, até que, ao quinto dia quando a mulher do sacristão lhe foi fazer o almoço (pequeno almoço) ele pediu-lhe para dizer ao marido para quando pudesse ir à Casa Paroquial porque queria falar com ele! Assim que recebeu o recado o sacristão foi imediatamente ter com o Padre e começaram a conversa:
Sacristão: Bom dia Padre! Está melhor? Hoje já não parece o mesmo! 
Padre: Sim, estou muito melhor! Senta-te João, senta-te! Preciso de falar contigo! 
Sacristão: Já sabe que pode falar! Estou aqui para isso! 
Padre: Sabes, João! Tu tens razão! O meu esmorecimento e tudo o que tem acontecido neste dias tem a ver com a ti Rita de Jesus! 
Sacristão: Eu já tinha a certeza, mas não consigo perceber, porque motivo ficou assim! Tantas pessoas que já morreram aqui e nunca o vi assim! 
Padre: É verdade João! É verdade! Nunca me viste assim, porque nenhuma das outras pessoas eram a minha mãe! 
O sacristão estava sentado, deu um salto e ficou em pé, com uma cara de grande surpresa e disse: Como é que isso pode ser? Então o Padre não é filho do lavrador Banazol de Terena? 
Padre: Não sou João! Não sou! 
Sacristão: Ora essa! Mas toda a gente diz que é! 
Padre: Pois dizem! Mas é porque não conhecem o meu passado! 
Sacristão: Custa-me acreditar no que estou a ouvir! Custa! Custa! Mas se o Padre diz, é porque é verdade! Mas como é que isso é possível? Como foi ter a Terena à casa do lavrador Banazol? 
Padre: Senta-te! Eu já conto como tudo se passou! 
O Padre Manoel contou a parte que já conhecemos, até ter aparecido na madrugada do dia 26 de Janeiro de 1726 à porta do Monte da Talaveira, sendo acolhido por estes lavradores! 
Padre: A partir do dia em que apareci à porta do Monte da Talaveira eu já sabia tudo, porque os meus pais adotivos não me esconderam nada! Mas não sabia o que tinha acontecido para trás, quem eram os meus pais e porque fui enjeitado! No dia em que fui dar os Sacramentos à ti Rita de Jesus, em confissão, contou-me tudo o que se passou até aquele dia! 
Sacristão: Então se sabia que tinha sido enjeitado e que apareceu no Monte da Talaveira, ainda não tinha tentado saber se os seus pais eram dali?
Padre: Sim! Tentei! Mas disseram-me que dali de certeza que não eram, porque nunca ninguém viu nenhuma mulher de esperanças que não tivesse ficado com o filho ou filha e, disseram-me que, o mais certo era eu ser de Espanha! 
Sacristão: Ora essa! Então e como foi parar a Terena? 
Padre: Eu fui a terceira criança a aparecer à porta do Monte da Talaveira, já lá tinham duas meninas e mais quatro filhos dos lavradores já homens e mulheres, o meu aparecimento deu muito que falar nas terras de Capelins, chegando a Terena e, aos ouvidos do lavrador Banazol que ainda era parente dos Lopes e não conseguiam ter filhos, então foram ao Monte da Talaveira fazer-lhe uma visita e a pedir-lhe para ficarem comigo! 
Sacristão: Pronto! Está tudo dito! Deram-no logo e lá marchou a caminho de Terena! 
Padre: Não foi assim tão fácil, porque como era rapaz, os lavradores da Talaveira estavam a contar em ficar comigo! 
Sacristão: Essa agora! Então como o levaram? 
Padre: Já lhe conto tudo! Como eram muito dados, não era fácil negarem-lhe o pedido, mas acharam que ficavam mal com as duas meninas e sem mim, então fizeram uma 
proposta aos parentes, ficavam comigo, mas também tinham de ficar com uma menina, um casalinho! Os Banazol nem pensaram duas vezes, aceitaram imediatamente! 
Sacristão: E lá foram os dois para Terena, logo nesse dia, com os lavradores Banazol? 
Padre: Não! Não podia se assim, tinham que ter o acordo do Pároco de Santo António e do Vigário de Terena! 
Sacristão: Mas se vocemecês eram dos lavradores Lopes, o que tinham os Padres a ver com isso? 
Padre: Eles, eram como é agora, as autoridades eclesiásticas ao nível da Paróquia e registavam, como hoje registamos, todos os atos que tenham a ver com os paroquianos, sendo impossível fazer isso sem a sua autorização! 
Sacristão: Mas autorizaram, não? 
Padre: Sim! Autorizaram! Os meus pais adotivos cumpriam todas as obrigações com a Igreja e não foi difícil, apenas exigiram que eu e a minha irmã (que na verdade, não é) frequentássemos sempre a Igreja! Depois, fui batizado aqui nesta Igreja, mas no assento que está aí, está escrito que sou filho de pais incógnitos, não ficou registado que era filho do lavrador Banazol, mas fomos sempre tratados como verdadeiros filhos e por onde andei ficou sempre registado os nomes deles como meus pais! 
Sacristão: Sim! Na verdade, não há ninguém em Terena e aqui nas terras de Capelins que pense o contrário! E depois? Como foi para Padre? E como veio para Santo António? Pediu para vir para cá porque sabia que era daqui e veio tentar descobrir o seu passado?
Padre: Já conto João! Já conto! 


O Padre Manoel Phelipe já estava cansado, mas o sacristão continuava ávido em saber a história da sua vida, pediu para esperar um pouco, levantou-se e foi à cozinha beber meio copo de água da fonte da Sina, que repousava numa cantarinha de barro que a refrescava e dava o sabor da argila cozida! Voltou a sentar-se na sua cadeira e a conversa continuou:
Padre: Como já te contei, a principal exigência do Pároco daqui, quando me levaram para Terena era eu e a minha irmã frequentarmos sempre a Igreja e conforme me contaram foi isso que aconteceu desde que lá cheguei! 
Sacristão: Quando o levaram, foi morar para a Vila ou para a herdade? 
Padre: Para Terena! Pouco tempo morei na herdade, tínhamos casa na Vila onde estavamos quase sempre! A herdade não me atraía quase nada, desde que me lembro a minha cabeça estava sempre na Igreja! Comecei a aprender a ler e a escrever com os Padres e cerca dos nove anos já sabia rezar uma missa, até já sabia latim! 
Sacristão: Com essa idade já rezava as missas lá em Terena? 
Padre: Não! Isso não podia ser! Não era Padre! Mas já ajudava nas missas e ia dizendo tudo ao mesmo tempo deles! 
Sacristão: Tinha mesmo de ser Padre! 
Padre: Não foi nada fácil! O meu pai contava comigo para ser lavrador! Não tive coragem para lhe dizer que queria ser Padre! Foi o Vigário que teve uma grande conversa com ele e o convenceu de que era o melhor para mim! 
Sacristão: E depois de convencerem o seu pai, teve de abalar de Terena ou fez-se Padre ali? 
Padre: Tive de ir estudar para o Seminário Maior de Évora, tinha cerca de doze anos de idade e estive lá até aos 26 anos! 
Sacristão: E com essa idade, quando voltou a Terena já era Padre? 
Padre: Sim! No último ano dos estudos esperei o Diaconato, sendo essa a ordenação final! A parir daí já era Padre, mas passei por muitas fases!
Sacristão: E quando veio para Terena, começou logo a dizer missas lá nas Igrejas? 
Padre: Sim! Comecei a dizer missas na companhia de outros sacerdotes que já lá estavam, pelas Igrejas todas!
Sacristão: E porque motivo veio aqui para a nossa Paróquia? Pediu ao senhor Vigário? 
Padre: Não! Não pedi nada! Um Padre serve no lugar para onde for chamado! 
Sacristão: Então, quem o chamou para cá? 
Padre: Deus! Foi Deus! Como sabes o Pároco daqui não estava bem de saúde, recolheu à Vigararia de Terena e era eu que estava nas melhores condições para vir para esta Paróquia! E vim!
Sacristão: Ainda bem que veio! Lembro-me tão bem do dia que fui a Terena para ajudar a trazer as suas coisas na burra! Sei que tinha lá muitos carros e charretes na herdade para trazer tudo, mas o padre não quis! E veio tudo na burra! 
Padre: Sim! Podia ter pedido ajuda, mas a herdade não é minha! É da minha irmã! Eu não tenho nada além das rendas da Paróquia e tenho tudo o que preciso, o Senhor não me deixa faltar nada! 
Sacristão: Compreendo Padre e obrigado por falar comigo!
Padre: Agora, já sabes a história da minha vida! 
Sacristão: Agora, já sei e olhe que até me falta o ar, devido à ansiedade e por saber tantas coisas que eu nem imaginava! 
Padre. Já viste como as aparências muitas vezes não são o que parecem? 
Sacristão: Já vi, já! Agora posso dizer-lhe o que penso sobre este seu sofrimento depois de saber quem era a sua verdadeira mãe?
Padre: Podes! Sim! Podes! Por isso é que te contei tudo!
Sacristão: Então, ouça-me bem! Depois faça o que achar melhor para si! 



Depois do Padre Manoel Phelipe desfiar as suas memórias, o sacristão endireitou-se na cadeira onde estava instalado, passou a mão pela cara e continuou:

Sacristão: Como sabe, sou uma pessoa pouco letrada, os meus conhecimentos ao nível literário são muito escassos, apenas sei o que tenho aprendido com os Padres que por aqui têm passado, mas tenho alguma experiência da vida, porque já vivi um bom par de anos, portanto se me permite dar a minha opinião, tenho a dizer-lhe que nunca esqueça a sua mãe, eu sei muito bem que não esquece! Foi ela a razão da sua existência, agora já não pode fazer mais nada por ela, mas pode fazer por outras pessoas, para que não passem o que ela passou! 

Padre: Oh João! Parece que estás a ler os meus pensamentos, estou a ouvir tudo o que me dizes e ao mesmo tempo estou comparar com o que estava a pensar em fazer!
Sacristão: Sim! Mas já agora deixe-me acabar! Como ia dizendo, em memória à sua mãezinha, podia ajudar muitas raparigas e mulheres que devido à sua inocência e à necessidade, caem nas garras dos filhos de lavradores e mesmo de alguns lavradores, abrindo-lhe os olhos, para não serem enganadas!
Padre: Claro! É isso que tenho pensado, mas é um assunto melindroso, que tem de ser tudo muito bem pensado e planeado! 
Sacristão: Não será muito difícil, porque os lavradores têm-lhe muito respeito, é um Banazol e, não se atrevem a contestar, pode falar com eles, com os filhos e com todos os paroquianos e paroquianas e dizer-lhes que essas ações são maléficas e que a Igreja está contra isso! A par disso pode alertar as raparigas para se defenderem, não se afastarem das mães ou outros familiares e para nunca terem esperança onde ela não existe! 
Padre: Estou de acordo contigo e acredita que vou fazer tudo isso! É um bom objetivo para nós, para a nossa Paróquia! Já sabes que também tens de ajudar! 
Sacristão: Sim! Ajudo! Mas ainda não disse tudo! Além do que já falamos, devia ajudar os seus irmãos, irmãs e sobrinhos, a sua família! 
Padre: Acredita que também já tinha pensado nisso! Mas há muitas coisas que não sei deles, não deu para falar nada no velório da minha mãe, como conheces todos os paroquianos tens de me ajudar! 
Sacristão: Como já sei quem era a sua mãe, agora também sei quem é a sua família toda! Não moram todos por cá, porque dois dos seus irmãos casaram fora, mas perto! Olhe, um deles em Terena e outro em Santiago! Mora mais um no Monte da Talaveira, assim como as suas duas irmãs! Sei tudo sobre eles! 
Padre: Daqui a algum tempo, sem alarido, vamos sabendo os que passam mais mal e depois falo com a minha irmã e se eles quiserem vão trabalhar lá para a herdade, para o Monte ou para a casa em Terena, sempre vão ter outro tratamento! 
Sacristão: Então, estou ao dispor para o que precisar! É só dizer e eu faço! Já agora, o que digo à minha Maria? Sim, que ela está à minha espera para saber o que foi a nossa conversa! 
Padre: Olha, João, conta-lhe a verdade, mas diz-lhe para agora, não contar por ai, já basta o que falam e se sabem mais, ainda mais acrescentam! Com o passar do tempo, aparecem outras novidades e depois já não vão ligar muito! 
Sacristão: Fique descansado! Eu abro-lhe bem os olhos! Até logo! 
E o sacristão dirigiu-se para sua casa, que ficava do outro lado da rua! 
A partir daquele dia, o Padre Manoel renasceu, porque tinha um projeto muito importante a desenvolver na sua Paróquia o qual, tinha presente a imagem da sua mãe, e foi graças a ela que o mesmo surgiu! Antes de o pôr em prática foi bem estudado e organizado de forma a não ferir o orgulho de ninguém e não ser entendido como um ataque aos lavradores! 
A ajuda do sacristão foi fundamental, conseguiu reunir os familiares do Padre, com os quais ele começou a conviver e ajudou os que precisaram, conforme tinha planeado! 
Enquanto o Padre Manoel Phelipe foi Pároco de Santo António, até cerca de 1790, não se conheceram abusos dos que detinham o poder, sobre as mulheres indefesas! 
Como o Padre previu, quando os paroquianos vieram a saber o seu passado, já havia outras novidades e pouco falaram, também, porque nessa época não era nenhum escândalo e existiam muitos casos semelhantes pelo Reino de Portugal! 
O Padre Manoel, em 1790 recolheu à Vigararia de Terena onde passou o resto dos seus dias! 
O Sacristão João Gonçalves, já tinha partido para o céu alguns anos antes, deixando bem marcada a sua bondade nesta Paróquia de Capelins!


Fim




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

326 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 

Os mais velhos dizem que, esta lenda faz parte dos segredos de Capelins! 

A lenda da morte da lavradora do Monte do Roncão 

Assim que, a Casa do Infantado entregou as herdades das terras de Capelins em 1698, aos novos agricultores, quase todos de origem judaica, mas filhos de Terena, estes, começaram imediatamente a construir os seus Montes, os quais estão atualmente quase todos em ruínas ou já desapareceram. Porém, o Monte do Roncão, onde se passou esta ação teima em continuar firme e airoso, como quando albergava multidões de trabalhadores e famílias em todo o seu domínio! Este Monte era do lavrador Francisco Friz (Fernandez) e de sua mulher a lavradora Maria Miz (Martinez), a qual, no ano de 1717, com pouco mais de quarenta anos de idade, começou a apresentar sinais de demência, com atitudes impróprias e conversas sem sentido que, no início da doença, ninguém compreendia, ao ponto de fazerem chacota pelas terras de Capelins. O lavrador, assim que percebeu que a situação não era normal, correu aos médicos de toda a região, Estremoz, Elvas, Évora e outras, mas a sua mulher em vez de melhorar, estava cada vez pior! O lavrador já sem fé na cura pelos métodos convencionais dos médicos, em desespero e por influência de familiares procurou outras alternativas, baseadas na obscuridade, como exorcismos e bruxarias. Desde sempre, pairou desconfiança sobre os lavradores do Monte do Roncão, dizia-se que eram "marranos" (falsos Cristãos), mas não era verdade, no entanto, eram constantemente alertados para o perigo que corriam, porque, se chegasse aos ouvidos do Esquadrão da Inquisição, de Vila Viçosa, decerto eram assassinados ali, sem hipótese de defesa! O padre de Santo António, Miguel Gonçalves Galego, sabia dos boatos e várias vezes lhe disse para terem muito cuidado, porque a situação estava a ficar perigosa, mas eles negavam que nada se passava e compareciam em todos os ato s religiosos na Igreja de Santo António, deixando os paroquianos com dúvidas! Quando o lavrador começou a fazer as mesinhas à lavradora, logo surgiram mais conversas que afirmavam ser verdade do que há muito se dizia, os lavradores praticavam e descaradamente o judaísmo! A lavradora tinha inesperadamente, momentos de lucidez, até parecia que não estava doente, o que deixava o marido, os filhos e as criadas da casa muito confusos e foi num desses momentos que a criada mais velha da casa e muito amiga lhe contou o que se estava a passar! Disse-lhe que o lavrador e toda a família estavam a correr grande perigo, porque falava-se pelas terras de Capelins e, já em Terena, que ele praticava o judaísmo para a curar, mas não era verdade! A lavradora não queria acreditar que estava naquele estado de saúde e sentiu-se culpada por o marido estar em perigo iminente, por culpa dela! E, num momento de lucidez a meio da noite saiu do Monte do Roncão, passou propositadamente pelo lugar onde muitos anos antes tinham enterrado os objetos rituais da fé judaica, entre os quais: uma Tora, uma menorá, um talit, um shofar, um escudo de David, um kipá, uma mezuzá e outros, parou um pouco (soube-se pelo rasto deixado) e depois desceu a Ribeira do Lucefécit e suicidou-se no pego de Santa Catarina no rio Guadiana! Só ao fim de dois dias foi encontrada, sendo sepultada na Igreja de Santo António, como uma boa cristã e o seu marido e filhos deram provas de serem uns bons cristãos, comparecendo e rezando fervorosamente em todas as missas! 
A morte da lavradora do Monte do Roncão causou muita controvérsia que durou muitos anos, uns diziam que foi o dedo acusador do povo que a matou, outros diziam que já estava condenada devido à sua demência!
Tudo indica que, os objetos rituais judaicos ainda se encontram enterrados perto do Moinho do Roncão e, submersos pelas águas do Grande Lago de Alqueva! 



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

325 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 


História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda da taberna da Ti Xica dos Potes 

A ti Xica dos Potes era uma mulher já dentro do meio século de idade, natural da Vila de Terena, onde ganhou o apelido porque vendia potes para azeite e outros fins. Porém, o negócio estava muito fraco, porque nessa época essas coisas eram tão boas que duravam vidas e além disso, existiam por lá outros concorrentes! Assim, a ti Xica convenceu o marido a deixarem a Vila de Terena e, com os cinco filhos, descerem até Capelins de Cima, onde abriram uma taberna para ela e ele foi trabalhar como jornaleiro na herdade da Defesa de Ferreira. A taberna depressa se tornou um sucesso, por ser novidade e pelo jeito que a taberneira tinha para o negócio. O lugar em Capelins de Cima também ajudava, porque estava ao lado do Monte Grande onde havia sempre muitos trabalhadores que frequentavam as tabernas da aldeia! Logo no início a ti Xica nunca bebia em frente dos clientes, mas todos sabiam que ela não lhe perdoava devido ao bafo que exalava cheiro a vinho e a aguardente, mas com o passar do tempo, já sem vergonha, a ti Xica encontrou uma maneira de beber o vinho a custo zero! Só tinha cinco copos, que nessa época eram objetos de luxo, então os primeiros a chegar bebiam pelo copo de vidro, muito pesados eram só quase vidro com uma pequena cavidade, que não levavam quase nada do precioso líquido, os outros clientes ou bebiam por um quartilho de lata ou por um cocho, (feito em cortiça) mas a quantidade era medida por um copo de vidro! Era esta a salvação da ti Xica, aos clientes já conhecidos, enchia o copo de vidro até acima e depois antes de o passar para o quartilho, para não entornar, dava-lhe um sorvo, ficando logo o copo quase em meio! Os clientes reclamavam: Então ti Xica? Isso é o quê? E ela respondia: É para não entornar! Tens nojo de mim? Eu não tenho nenhum mal que te pegue! Não é isso! É que assim não bebo vinho nenhum! E tenho de o pagar! Diziam os clientes! Deixa que um dia ainda te hás-de fartar! Dizia a ti Xica! E assim continuava até já estar tonta e cair numa cadeira a dormir atrás do balcão, que até ressonava! A partir daquele momento, começavam os clientes a aviar os copos de vinho, porque pediam-lhe um copo de vinho ou de aguardente e ela tonta e ensonada respondia: Enche tu o copo aí da chocolateira, mas não abuses! Como posso abusar, se o copo não leva mais! Diziam os clientes! Sim! Mas não é preciso pores de cagulo, senão o vinho entorna-se por aí! Dizia a ti Xica e continuava a ressonar! E ficava assim, até lhe passar a tonteira! A taberna da ti Xica ganhou fama pelas terras de Capelins e vizinhas, não só pelas suas façanhas de beber a meias com os clientes, mas, porque tinha petiscos para acompanhar o vinho, o peixe frito, do rio Guadiana, uma delícia! A ti Xica esteve à frente da taberna até ao fim da sua vida e foi longa, depois foi passando para as gerações seguintes, existindo no mesmo lugar até meados dos anos 1900! 
Muitos dos nossos antepassados, tiveram grandes alegrias na taberna da ti Xica dos Potes, em Capelins de Cima! 



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

324 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 


História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do Visionário das terras de Capelins 


No dia 18 de Abril de 1840, sábado de Aleluia, quando a ti Maria Caeira abriu a sua taberna ao romper da manhã, em Capelins de Cima, já estava um homem de manta às costas encostado a um pau que era indispensável nessa época para defesa contra ladrões e contra cães perigosos que guardavam os Montes, ou andavam perdidos e com raiva. Este homem, parecia um maltêz, mas com aspeto diferente dos que diariamente apareciam nas terras de Capelins, bem vestido, bem calçado, barba aparada e bem falante. Alguns maltezes, apenas passavam por aqui, outros ficavam uma temporada e depois desapareciam, mas houve os que ficaram definitivamente, organizando a sua vida familiar. A ti Maria Caeira era uma mulher carrancuda, não dava confiança aos clientes e, ao abrir a porta do cabanão onde funcionava a taberna, apenas disse bom dia ao desconhecido, que respondeu da mesma forma! Os trastes da taberna eram uns caixotes, um por cima do outro para fazer altura que servia de balcão onde enchia os copos de vinho ou de aguardente e alguns bancos talhados da madeira de azinheira já com pés incluídos, a que chamavam burros. O homem entrou na taberna e pediu um copo de aguardente que bebeu logo de seguida, ficou calado, apenas respondendo aos bons dias dos que vinham entrando e pediam um copinho de aguardente ou uma onça de tabaco e um livro de mortalhas, ou as três peças, pagavam e saiam apressados porque o trabalho já os esperava. O desconhecido parecia alheio às conversas, muito rápidas, entre os que entravam e os que saiam e entretanto ia estudando a reação da ti Maria, qual era a atenção que ela dava a essas conversas, porque sabia que ali podia estar a fonte das informação que ele precisava, concluindo que ela era raposa velha, disfarçadamente apanhava tudo! Pediu-lhe mais um copo de aguardente e meteu conversa com a ti Maria Caeira, como já tinha ouvido o seu nome aos clientes a situação estava a ficar mais favorável, então começou assim: 

Desconhecido: A ti Maria, tem aqui uma aguardente da melhor que tenho bebido por aí, e olhe que tenho bebido por muitos sítios!

Ti Maria: Ai sim! Então e vocemecê de onde é? 

Desconhecido: Olhe, eu sou de todo o lado, nasci perto de Estremoz, mas é onde tenho estado menos! 

Ti Maria: Eu vi logo! Então um maltez, havia de ser de algum lado! Então e como deu aqui com a minha taberna? Tão cedo! Foi o cheiro do vinho não?

Desconhecido: Não! Foi o cheiro da urina ali à esquina! E continuou: Pois! A vida obrigou-me a isso, o meu pai teve de trabalhar em muitos sítios, onde arranjava trabalho, e eu tinha de o acompanhar! 

Ti Maria: Então e agora? Vai de passagem ou vem trabalhar para aqui? 

Desconhecido: Quero ficar por aqui uma temporada, por isso, pedia-lhe ajuda se me podia indicar algum Monte aqui nas terras de Capelins onde eu possa trabalhar! 
Ti Maria: Eu até sei, mas como não o conheço, tenho medo de me meter em fezes! 
Desconhecido: Não tenha medo, eu garanto-lhe que sei fazer tudo e não a vou deixar ficar mal! 
Ti Maria: Não sei! Então ao menos tem nome? E o que sabe fazer? 
Desconhecido: O meu nome é Manoel Rodrigues e sei fazer todos os trabalhos na agricultura, pecuária, de alavão de abegão, ferreiro, alvanéu e curo pessoas e animais! 
Ti Maria: Eh lá! Sabe fazer tanta coisa, que no fim não sabe é fazer nada, quando os vejo assim, não dou nada por eles! Mas essa de curar pessoas e animais é que me está cá a dar voltas ao miolo! Então cura com o quê? Rezas ou bruxarias, não? 
Ti Manoel: Aplico nas pessoas os produtos em conformidade com a sua doença, uso as mãos, faço massagens e coloco os músculos e tendões no seu lugar, uso unguentos que faço de plantas e gorduras, chás de plantas e digo algumas orações, mas nada de bruxarias! 
Ti Maria: Hum! Não sei! E entrevadinhos e parvinhos, também os cura? 
Ti Manoel: Alguns curo e outros pelo menos decerto que melhoram! Porquê? Há alguém assim, por aqui? 
Ti Maria: Oh se há! Muitos!
Ti Manoel: Então, importava-se de me dizer quem são e onde moram, para eu os visitar? 
Ti Maria: Deus me livre! Eu não me meto na vida de ninguém! 
Ti Manoel: Se é assim, quanto lhe devo da aguardente? 
Ti Maria: Dez réis! 
O ti Manoel abriu a carteira para pagar e a ti Maria não conseguiu desviar os olhos e viu um grande número de moedas, muito dinheiro para a época, ficou logo de olhos arregalados e pensou que não podia espantar um cliente com tanto dinheiro e prosseguiu a conversa: Olhe, eu não sou pessoa de conversas, não diga nada a ninguém do que lhe vou contar e começou a nomear todas as pessoas que tinham alguma doença nas terras de Capelins. O ti Manoel pediu-lhe para esperar um pouco e deitou a mão ao bornal de onde tirou um papel e um lápis e começou a escrever. A ti Maria ainda exclamou: Ai valha-me Deus que o homem até sabe escrever, já vi que não é um maltêz como os outros! Não é não! 

O ti Manoel Rodrigues tomou nota de tudo o que a ti Maria Caeira lhe ditou, quem eram e onde moravam os doentes e as pessoas mais pobres das terras de Capelins. Agora, já podia começar a desempenhar a sua missão, despediu-se e foi cohecer as aldeias de Capelins de Cima de Capelins de Baixo e de Montes Juntos, cumprimentando todas as pessoas, e ao fim da tarde voltou à taberna da ti Maria, onde comeu alguma coisa e acabou por dormir num cabanão que ela tinha ao lado da taberna, o qual, por algum tempo passou a ser a sua casa! Na madrugada do dia seguinte foi à Vila de Terena comprar um saco de pão, toucinho, marmelada e produtos para usar nas suas mesinhas. Ao passar pelo Ribeiro do Alcaide, trouxe grande quantidade de folhas de árvores e arbustos para chás e para depois de fervidas dar banhos a partes corporais dos doentes. Assim que chegou, começou a fazer as visitas, com muita cautela, dizia que tinha ouvido falar na taberna da ti Maria que tinha um doente em casa e que há muito anos ajudava pessoas doentes, por isso se estivesse de acordo queria ajudar! A sua voz era pausada, muito segura e parecia vir do além, assim que a ouviam as pessoas sentiam muita paz, parecia que ficavam hipnotizadas e não conseguiam reagir negativamente. Depois de saber a história clínica dos doentes, quando, como tinha acontecido e se estavam a fazer algum tratamento, passava então à ação com as suas mesinhas. Falava com os doentes e transmitia-lhes boas energias e pedia-lhe para seguirem os tratamentos que lhe receitava, como referimos à base de chás, unguentos, massagens, mas também orações. No fim de cada visita deixava sempre pão e algum conduto em casa dos doentes e nunca aceitava nada pelo seu serviço e mesinhas. Ao fim de um mês os seus feitos já eram conhecidos nas terras de Capelins e em todo o lado se falava da bondade do ti Manoel Rodrigues. Alguns doentes estavam curados e os casos mais graves já faziam grande diferença para melhor! Entretanto, chegou o tempo das ceifas e era uma oportunidade do ti Manoel ganhar algum dinheiro, foi oferecer-se para ceifar ao feitor da herdade da defesa de Ferreira, que o aceitou com grande reserva, murmurando: Então, vocemecê sabe ceifar?

Ti Manoel: Sei! Sim senhor! Eu sei fazer tudo! 
Feitor: Vamos ver! Já sabe! Se não souber! Rua! E continuou: Começamos segunda-feira às cinco e meia da manhã, além nos ferragiais! Esteja lá ao pé do poço da cegonha a essa hora, senão nem precisa de lá pôr os pés! 
Ti Manoel: Sim senhor! Lá estarei!
O ti Manoel continuou a tratar os doentes e a dar instruções aos familiares de como deviam fazer os tratamentos na sua ausência e, na segunda-feira às cinco da manhã já estava no lugar marcado pelo feitor, com uma foice nova e todos os apetrechos necessários ao desempenho daquele trabalho! Começaram a ceifar ainda não viam quase nada à sua frente, mas isso não impedia de meter a foice pela seara dentro e puxar cortando tudo o que viesse à frente. Cada ceifeiro/a tinha uma largura definida pelo manageiro, dependendo se era homem ou mulher. Até à hora do almoço (pequeno almoço) não existiam diferenças significativas na parte que cabia a cada um, mas a partir dali o Ti Manoel parecia uma máquina a ceifar e cada vez se distanciava mais dos restantes trabalhadores, que não gostavam disso, mas admiravam aquela forma de ceifar, nunca ninguém tinha visto uma coisa assim, a foice do ti Manoel estava presa ao pulso com uma correia de cabedal, por isso nunca lhe caía das mãos e o cereal em vez de ser apanhado com a mão esquerda era com o braço, fazendo grandes braçadas. Dia adiante, o feitor foi saber junto do manageiro como estava a correr o trabalho e a perguntar se o ti Manoel sempre sabia ceifar, sendo informado que o homem era uma máquina! Então trata-o bem, porque temos de o manter cá, disse o feitor! Devido a este feito, o ti Manoel mais uma vez deu que falar nas terras de Capelins e todos os lavradores comentavam que precisavam de um trabalhador assim! Com grande espanto de todos e principalmente do feitor, ao fim de quinze dias pediu as contas e despediu-se! Assim que souberam do que tinha acontecido, vários lavradores e feitores foram ter com ele e ofereceram-lhe muito mais dinheiro do que por ali se pagava, mas ele não aceitou, foi antes oferecer-se para ceifar para um seareiro dos mais pobres de Capelins, sem posses para lhe pagar! O seareiro disse-lhe que era o que mais queria, mas não podia ser, porque não conseguia pagar-lhe! O ti Manoel respondeu-lhe que não queria dinheiro, ceifava pela comida e mais nada! E foi isso que fez com este seareiro e com outros dos mais pobres! Depois das ceifas o ti Manoel continuou a trabalhar, alguns dias nas herdades, onde todos o queriam e quando ganhava algum dinheiro ia trabalhar para os seareiros mais pobres apenas pela comida, sem nunca esquecer os doentes! 
Assim, chegou Outubro de 1840 e a época das sementeiras! 



Na madrugada do domingo, dia 4 de Outubro de 1840, já o Ti Manoel Rodrigues, ao qual nas terras de Capelins já chamavam o Santo, estava na rua do Monte da Talaveira, do Lavrador António Lopes, para falar com o feitor a fim de ali se empregar a fazer a sementeira. O feitor já conhecia os seus feitos, mas não se conteve em lhe perguntar se percebia daquele trabalho! O Ti Manoel, como sempre, respondeu que sabia fazer tudo! Então pode ficar já cá e amanhã começa a trabalhar, disse o feitor! O ti Manoel pediu-lhe para ser oito dias depois, porque tinha assuntos a tratar, mandar arranjar as botas e visitar alguns doentes! O feitor aceitou, porque ainda estavam a iniciar as sementeiras e remediava-se com os trabalhadores que tinha! O ti Manoel despediu-se e foi dali para o Bufo, desceu a Ribeira do Lucefécit colhendo ervas e folhas de árvores e arbustos para as suas mesinhas e por ali passou algum tempo, depois, em vez de seguir o caminho para Capelins de Cima, onde tinha o lugar no cabanão da ti Maria Caeira, foi pelo do Moinho do Roncão na direção de Montejuntos, para falar com o mestre sapateiro do Salgueiro sobre o arranjo das botas, quando estava a passar o Ribeiro do Carrão já ouvia gritos de um rapaz muito aflito a pedir socorro, perguntou aos transeuntes com quem se cruzava, o que era aquilo? É um parvinho, o Miguel, que está em cima de uma azinheira e ninguém o faz descer, diz que está lá um cão com grandes dentes afiados que o quer matar e que esse cão, que há muito tempo anda atrás dele para o matar! Mas não há cão nenhum, é ele que não anda bom da cabeça, tem nervos! Responderam algumas pessoas em coro! O ti Manoel foi-se aproximando da azinheira, começou a falar com o Miguel e a acalmá-lo!
Ti Manoel: Bom dia Miguel, estou aqui para te ajudar! Então o que se passa?
Miguel: O que se passa, é que esse cão não me larga, quer matar-me está aí de dentes afiados à minha espera para me matar! 
Ti Manoel: Estás a vê-lo agora? 
Miguel: Então não estou! Está aí mesmo ao seu lado, mas ele só me quer a mim! 
Ti Manoel: Olha! Pois está! Já o vi! Deixa-te estar aí quietinho que eu já o mato! O ti Manoel que também era mestre a usar o pau, começo a manobrá-lo em todas as direções e gritando contra o cão invisível, foi-se afastando como se fosse perseguindo o animal e quando já não estava na mira do Miguel começou a bater nuns feixes de lenha com muita força e acompanhando com palavras próprias ao ato, terminando assim: "Já está morto, mas deixa-te estar aí que vou atirá-lo ali para um buraco no Ribeiro do Carrão, depois já te ajudo a descer! Demorou alguns minutos e veio ter com o Miguel, dizendo: o cão está morto e bem morto, vamos lá descer, a sua voz era o bastante para o rapaz se sentir em paz e estava convencido que o suposto cão estava mesmo morto! Aos poucos foi descendo da azinheira, porque ainda colocou a hipótese: Não virá outro? O ti Manoel disse-lhe que não, que estivesse descansado! E transmitiu-lhe boas energias! Depois perguntou-lhe de onde vinha e para onde ia? O Miguel contou-lhe que trabalhava no Aguilhão e ia para o Salgueiro fazer a muda da roupa! Olha, então vamos os dois, eu também vou para o Salgueiro! Lá foram os dois sempre falando, para lhe ocupar a mente, e o ti Manoel foi fazendo o estudo do problema do Miguel e percebeu que levava ali no bornal o tratamento para ele, só um chá para os nervos, para se acalmar, um amuleto e uma oração seria o suficiente! Ao chegar ao Salgueiro foi dizer aos pais o que tinha acontecido e eles contaram-lhe, como e quando o Miguel tinha começado com os nervos, disse-lhe que o curava mas tinham de fazer as mesinhas que ele lhe ia ensinar, nunca podiam contrariar as suas visões e dar-lhe o chá que ele lhe ensinava, depois chamou o Miguel e disse-lhe que nunca mais lhe aparecia nenhum cão, nem outro animal para lhe fazer mal, deu-lhe uma cruz de Cristo, para trazer sempre com ele (uma pequena cruz de madeira, feitas pelo ti Manoel, que dava a todos os doentes como amuleto ou talismã), que faziam milagres, disse ao Miguel que aquela cruz o defendia de todos os males, e acrescentou: se alguma vez visse alguma ameaça era só mostrá-la ao ameaçador que seria logo repelido! A partir daquele dia o Miguel nunca mais teve visões, nem nervos e organizou a sua vida, como tinha 25 anos, um ano depois perdeu-se de amores por uma moça de Santiago, casaram-se lá, mas ficaram a morar no Salgueiro, tiveram vários filhos e uma vida normal! 
Naquele dia, o ti Manoel, depois de tratar o Miguel, dirigiu-se para a casa/oficina do sapateiro do Salgueiro para tratar das botas! 


O ti Manoel Rodrigues, por indicação de alguns moradores do Salgueiro chegou à casa/oficina do mestre sapateiro, pediu licença, tirou o chapéu e entrou, cumprimentou os presentes e dirigiu-se ao sapateiro:
Ti Manoel: Mestre, vinha ver se me pode arranjar as botas, umas gaspias, mas precisava que fosse hoje ou amanhã! 
Sapateiro: Pois é! Mas eu só consigo arranjar-lhe as botas daqui a oito dias, porque tenho o trabalho atrasado uma semana e já ando a dormir pouco, passo grande parte da noite a trabalhar à luz da candeia! Não sou pessoas para faltar a compromissos, mas agora isto está mau! 
Ti Manoel: Mas daqui a oito dias não posso! Na próxima semana vou começar a sementeira na herdade da Talaveira e, as botas não vão aguentar! 
Sapateiro: Ah vocemecê mora ali na Talaveira? 
Ti Manoel: Não moro! Agora é que vou começar a trabalhar lá, só duas ou três semanas, porque não posso lá ficar muito tempo, tenho que ajudar alguns mais pobres daqui e tratar alguns doentes! 
Sapateiro: Vocemecê não me diga que é o Santo! Tenho ouvido dizer que tem ajudado tanta gente! Agora está a precisar do arranjo das botas e uma destas! Não! Eu vou-lhe já arranjar as botas mesmo faltando à minha palavra com os outros clientes! 
Ti Manoel: Não, mestre! Eu não quero isso! Se estiver de acordo, eu arranjo as botas, empresta-me as ferramentas, uso os materiais e depois fazemos contas! Ainda lhe proponho outra alternativa! Em troca da comida eu fico aqui a trabalhar consigo dois ou três dias, até ter o trabalho em dia, pode ser?
Sapateiro: Então vocemecê percebe alguma coisa do ofício? 
Ti Manoel: Eu percebo de tudo! Já fui sapateiro muitos anos! Vai ver que não se arrepende! 
Sapateiro: Então vá! Depois fazemos contas, que eu não quero isso! Mas olhe que é fazer algumas botas novas e pôr gaspias e meias solas noutras e também em alguns sapatos aí das lavradoras! Se sabe e quiser pode começar já! E o mestre sapateiro mandou levantar um dos aprendizes para dar o lugar ao ti Manoel, o qual foi buscar para ele, um banco com assento em cortiça ao cabanão da burra! O ti Manoel descalçou logo as botas e calçou umas alpargatas que trazia no bornal e foi pôr as botas de molho em água para amolecer o cabedal e logo de seguida começou a cozer as peças do conjunto das botas já talhadas pelo mestre, sempre sob o olhar atento deste, para ver se o trabalho estava a ser bem feito! Foi um grande dia de trabalho que entrou pela noite, ficando já tudo organizado para o dia seguinte, que começou de madrugada! O ti Manoel jantou (ceou) com o sapateiro, a mulher e os cinco filhos e dormiu no cabanão da burra. De manhã quando o sapateiro abriu a porta já o ti Manoel estava em pé encostado à ombreira, comeram um naco de pão e queijo e começaram logo a trabalhar. O ti Manoel, arranjou as suas botas, a seguir foi ao bornal e tirou uma bola de sebo de uma lata passando-a várias vezes pelo cabedal, deixou duas horas a enxugar e depois passou-as novamente. O sapateiro ia deitando o olho para tudo o que o ti Manoel fazia e estava abismado com o que estava a acontecer, um trabalho melhor do que o dele! Quando as suas botas estavam prontas, ainda antes do meio dia já estava a trabalhar em peças do sapateiro, com tanta mestria que este já estava convencido que o ti Manoel era um grande mestre naquele ofício. Foi mais um grande dia de trabalho, não só acabaram alguns pares de botas que levaram gaspias e meias solas, como também ficaram prontas umas novas do lavrador do Monte do Azinhal Redondo de Baixo. O sapateiro deu ordens a um dos aprendizes, seu filho, para logo de madrugada ir entregar algumas botas e de ir dizer ao lavrador para vir buscar as botas novas, porque tinham de ser experimentadas na sua presença, podiam estar apertadas e assim teria de lhe meter as formas de madeira lá dentro para as obrigar a alargar! Quando o sapateiro se foi deitar o ti Manoel ainda ficou agarrado às botas novas a fazer-lhe o acabamento à maneira dele, passá-las com o sebo especial, para o cabedal ficar mais macio! No dia seguinte, terça-feira, ao romper da manhã já o ti Manoel estava pronto para continuar o trabalho, pediu ao sapateiro para talhar as botas novas e sapatos encomendados e ele ia juntando as peças, e fazendo as as solas, todos trabalhavam como nunca, o trabalho bem organizado e tudo muito bem feito! Pelo meio dia veio o lavrador buscar as botas, ficou um pouco desconfiado a olhar para elas, depois calçou uma, atou-a, depois fez o mesmo com a outra e começou a dar uns passos com o sapateiro a assistir para ver se estavam ao gosto do cliente! O lavrador andou, andou até que exclamou: Mas que botas são estas! O sapateiro ficou assustado e disse: Então? Não estão boas? Eu meto-lhe a forma para as alargar! Qual forma nem forma, isto que aqui está é um luxo, nunca na minha vida tive umas botas assim! Que maravilha! O que é que vocemecê lhe fez homem? Disse o lavrador! O sapateiro atarantado só respondeu: Eu? nada, nada! Mas qual nada! Disto não há em lado nenhum, umas luvas! Disse o lavrador! Pagou as botas, despediu-se e foi pelo Montes Juntos contando a toda a gente e mostrando o luxo daquelas botas! A partir daquele dia as encomendas de botas novas eram tantas que o sapateiro teve de se negar a aceitá-las! O ti Manoel continuou a trabalhar para o sapateiro durante a semana quase toda, fazendo exatamente o mesmo trabalho que tinha feito com as botas do lavrador do Azinhal! O segredo principal estava no acabamento, no tratamento do cabedal com o sebo especial feito pelo Ti Manoel, que acabou por dar o segredo ao sapateiro, para ele continuar a fazer igual! Na sexta-feira de madrugada seguiu para Capelins de Cima e não quis receber nada pelo seu trabalho! 
Chegou cedo à taberna da ti Maria Caeira e pediu um copo de aguardente! 

O ti Manoel Rodrigues bebeu a aguardente de um trago e encetou a conversa com a ti Maria Caeira, contando-lhe por onde tinha andado toda a semana e o que tinha feito, porque sabia que era o maior prazer que lhe podia dar, por fim, disse-lhe que ia ao cabanão buscar umas coisas, umas mesinhas e de seguida ia para Faleiros visitar os doentes e os pobres, por lá passaria o dia e despediu-se! O ti Manoel partiu para Faleiros e não passou muito tempo apareceu um homem a procurá-lo, possivelmente até se cruzaram, mas como não se conheciam veio ter à taberna da ti Maria. O homem cumprimentou os presentes, dirigiu-se à ti Maria e perguntou-lhe: 
- Sabe dizer-me onde posso estar com o homem a quem chamam o Santo? 
Ti Maria: Se tem vindo mais cedo tinha estado com ele aqui mesmo, mas agora abalou e não me lembro para onde foi! A minha cabeça já não é o que era! Estava aqui a fazer uma coisa quando ele abalou e ele disse-me para onde ia, porque ele diz-me sempre, mas não tomei bem atenção! Olhe se quiser esperar pode ser que eu daqui a bocadinho me lembre! E continuou: Então vocemecê é de onde? Não o conheço daqui! 
Desconhecido: Eu sou ali de Terena e chamo-me João, vinha aqui falar com o Santo para ver o que me ensinava para tratar uma desgraça que tenho lá em casa! Olhe, dê-me lá um copo de vinho preto! 
A ti Maria aviou o vinho e continuou a conversa: Então mas quem é a desgraça desgraçada que tem lá em casa? Está parvinha ou entrevadinha?
Ti João: As duas! É a minha mulher! Está muito mal, quase nem tuge nem muge, ali está! 
Ti Maria: Oh coitadinha! E ainda é nova, não? 
Ti João: Sim! Ainda! É para aí da minha idade!
Ti Maria: Então e vocemecê que idade tem? 
Ti João: Para lhe falar verdade, nem sei bem! Mas devo andar pelo meio século! 
Ti Maria: Ah pois! Eu vi logo! 
Ti João: Já não sei o que posso fazer mais! Olhe avie lá outro
copo de vinho! Ainda não se lembra para onde foi o Santo?
Ti Maria: Ainda não! Com a conversa! Mas está quase! Quase! 
A conversa continuou, com a ti Maria a perguntar tudo sobre a vida do Ti João, e ele com a ajuda do vinho contou-lhe tudo o que ela quis saber. Ao pedido do terceiro ou quarto copo de vinho a ti Maria deu um salto e exclamou: Já me lembrei! Ai a minha cabeça! Então ele disse-me que ia para Faleiros e passava lá o dia! 
Ti João: Olha! Se eu soubesse, não tinha perdido tempo em vir até aqui, vou-me lá já! E partiu para Faleiros! 
A ti Maria não se conteve e murmurou: Olha se eu lhe digo logo onde andava o Santo! Ele perdeu os passos, mas eu perdia este ganho do vinho, isso até nem tinha importância, mas o que soube da vida dele! Já sei da vida desta gente de Capelins e agora até já sei dos outros! Estou cada vez mais importante! 
O ti Manoel conseguiu fazer o que tinha pensado em Faleiros e à noitinha já estava na taberna da ti Maria, comeu alguma coisa, bebeu um copo de vinho e foi deitar-se no cabanão, onde tinha a tarimba , porque no dia seguinte sábado, tinha muitas voltas a dar por Capelins de Cima e por Capelins de Baixo a visitar os pobres e doentes, uma vez que, a partir de segunda-feira, se ia ausentar uma temporada, ou para sempre! 
A sua missão no sábado correu normal, foi pelos Montes do Meio, Figueira, Serranas, Monte Real, Calados, Monte Novo, Pinheiro e outros, além das duas aldeias, distribuiu ervas para mesinhas, orações e amuletos pelos doentes, algum dinheiro pelos mais pobres e transmitiu-lhe muita fé e esperança da sua vida melhorar! Andou nesta volta até ao fim do dia, depois, voltou à taberna da Ti Maria, esteve a falar com ela e com alguns clientes, ceou e deitou-se! No Domingo, levantou-se cedo, como sempre, asseou-se, comeu um naco de pão e queijo, bebeu um copo de aguardente e seguiu para Santo António, para assistir à missa, rezada pelo Padre Manoel de Santo Inácio, com o qual, veio ter grande conversa! 

No Domingo dia 11 de Outubro de 1840 a Igreja de Santo António estava cheia de paroquianos para assistir à missa e, como em quase todas as missas lá estava o ti Manoel Rodrigues, evidenciando bem a sua fé! Logo no início da missa foi abordado pelo sacristão que lhe segredou um recado do padre Manoel de Santo Inácio Pereira, para não se ir embora sem ter uma conversa com ele, assim, no final da missa o ti Manoel esperou um pouco e veio o padre, deu-lhe umas palmadinhas nas costas e foram para a casa paroquial, que ficava mesmo ao lado da Igreja e começou a conversa: 
Padre: Então como se tem dado aqui pelas terras de Capelins? 
Ti Manoel: Muito bem! Não me queixo de ninguém, é boa gente! 
Padre: Eu que o diga! Conheço bem os meus paroquianos! Diga-me lá, como veio ter aqui, homem? 
Ti Manoel: Foi igual ao que me aconteceu em todos os sítios por onde tenho passado! Não conhecia estas terras, mas se para aqui fui enviado é porque precisavam de mim! Quando dei por mim estava aqui! 
Padre: Essa agora! Mas quem é que o enviou para aqui? E para fazer o quê? 
Ti Manoel: Quem me envia para os lugares onde faço falta, não lhe sei dizer! É como uma espécie de sonambolismo, sigo estradas fora e parece que acordo no sítio certo! 
Padre: Peço-lhe desculpa, mas custa-me acreditar nessa do sonambolismo, mas seja lá o que for, sei que tem feito por aqui um bom trabalho, como nunca se viu em parte alguma! Eu estou bem a par de tudo o que tem feito, porque alguns paroquianos contam-me tudo! Mas compreenda, faz por aí algumas coisas que chocam com as minhas competências como Pároco destas terras! E era sobre isso que eu lhe queria falar! 
Ti Manoel: Agora peço-lhe eu desculpa, mas não estou a perceber o que ando a fazer de mal, na minha consciência tenho feito o melhor que posso e sempre a praticar o bem! Mas diga-me com o que não está contente e decerto nos vamos entender!
Padre: Vamos-nos entender, vamos! Sei que tem curado muita gente, até de doenças que julgavam não haver remédio, sei que usa mesinhas e orações! As mesinhas não me incomodam, mas quanto às orações, como sabe, são contas do meu rosário! É aí que eu entendo, anda a entrar nas minhas competências e também não gosto desse tipo visitas que faz aos meus paroquianos, porque estou a ver que eles já têm mais fé na sua palavra do que na minha e receio que isso me prejudique e à própria Igreja! 
Ti Manoel: Nunca tinha pensado nisso! E acredito que tenha alguma razão! Mas eu não posso deixar de cumprir a minha missão, sem prejudicar a sua, decerto encontramos alguma solução! Talvez o padre a partir de agora possa começar a visitar os doentes e pobres das terras de Capelins, para lhe dar uma palavra de esperança! 
Padre: Não sei se posso, esta Paróquia dá-me muito trabalho, cada vez tem mais paroquianos, e eu dou-lhe a palavra de esperança e tudo o que precisam para o espírito aqui na Igreja e nas missas! Quanto aos doentes, vou sempre lá a casa fazer os testamentos e dar-lhe todos os Sacramentos antes de se finarem! 
Ti Manoel: Sei que vai padre! Mas penso que era melhor se pudesse ir à casa de todos, porque alguns só precisam de apoio para virem acima! 
Padre: Pois! Tem razão, vou ver o que posso fazer! 
O ti Manoel logo no início da conversa percebeu que o padre Manoel de Santo Inácio irradiava ciúmes dele, porque os paroquianos já o procuravam mais a ele do que ao padre para ouvir a sua palavra, afastando-os da Igreja, porque sentiam muita paz junto dele e nas suas palavras! Não podia melindrar o padre, então disse-lhe:
ti Manoel: Padre, já estive em muitas Paróquias e conheço o trabalho desenvolvido pelos respetivos Párocos, mas acredite, são poucos os que igualam o seu trabalho! Esta Paróquia tem umas características muito especiais! É muito trabalhosa! Olhe, hoje vou trabalhar para o Monte da Talaveira, onde espero de ficar muitos meses, por isso, pedia-lhe para quando pudesse, fazer uma visita aos doentes que não possam vir aqui à Igreja ouvir a sua palavra! 
O padre já tinha sido tocado pelo elogio do ti Manoel e respondeu: Sim! Eu faço isso! Pode ir descansado! 
O ti Manoel despediu-se e ia embora para Capelins de Cima, mas o padre Santo Inácio, pediu-lhe para ficar para o jantar (almoço), porque a mulher do sacristão tinha feito um ensopado de galo, como só ela sabia fazer, já a contar com o convidado! O ti Manoel aceitou, falaram de tudo ao jantar, mais do que cada um já tinha passado nas suas vidas e despediram-se com um abraço de grande amizade! 
À tardinha, o ti Manoel despediu-se da ti Maria Caeira e partiu para o Monte da Talaveira! 

O ti Manoel Rodrigues seguiu pelo poço da estrada, malhão, herdade da Negra e, ainda com sol já estava no Monte da Talaveira. Assim que chegou foi procurar o feitor, como era domingo ele estava por perto e rapidamente se encontraram! O ti Manoel cumprimentou o feitor tirando o chapéu! Ele retribuiu o cumprimento e iniciou a conversa:
Feitor: Então veio tão cedo homem! É só para começar amanhã! Já sabe que hoje não tem direito a comida! 
Ti Manoel: Eu sei! Tenho aqui um naco de pão, queijo e umas azeitonas, só precisava de um lugar para dormir!
Feitor: Está bem! Venha comigo! 
O ti Manoel seguiu o feitor em direção a um cabanão que se destinava ao alojamento dos criados do Monte da Talaveira! O feitor empurrou a porta e entrou, o ti Manoel ia a entrar, mas deu dois passos atrás! O feitor que o esperava lá dentro, exclamou: Então! Não lhe agrada o cabanão? 
Ti Manoel: Agrada, sim patrão! Está muito bom! E entrou! 
O ti Manoel recuou ao entrar porque pensou que era o chiqueiro dos porcos, tal era o mau cheiro, mas já tinha dormido em sítios muito piores e decerto se habituava, mas aquilo cheirava muito mais mal do que a burra da Ti Maria Caeira! 
Feitor: Olhe! Fica com esta tarimba que agora está vaga, se vier mais alguém dorme nas sacas de palha, quem primeiro vem, primeiro se avia! 
Acertaram algumas coisas, como o salário incluindo a comida e as horas a que o ti Manoel tinha de estar na rua do Monte já pronto para o trabalho, pouco mais falaram e o feitor foi à sua vida! 
O ti Manoel guardou algumas coisas que trazia, debaixo da tarimba e foi à Ribeira do Lucefécit colher algumas ervas e arbustos que ele conhecia serem bons para apaziguar aquele cheiro, depois fez uns molhos e pendurou-os por cima da tarimba, saiu do cabanão e foi comer a merenda ao lado do Monte, a seguir foi à pipa, bebeu um cocho de água e como já estava a escurecer foi-se deitar! As ervas da Ribeira já deitavam um odor perfumado e foi fácil aconchegar-se ao colchão de palha que cobria a tarimba! Não demorou muito tempo, estava quase a dormir, ouviu muita conversa animada, era gente que se aproximava do cabanão, pensou logo que eram os restantes criados e eram! O que seguia na frente empurrou a porta e parou exclamando: Eh lá! Isto hoje cheira muito mal! Querem lá ver que andaram a limpar o nosso buraco! Mau, mau! Disseram os outros em coro! Assim, esta noite temos de vir à casa de banho cá fora! Eu não venho! E se apanho algum catarral! Uma pessoa está quente, pode lá vir a meio da noite aqui à rua! retorquiu um dos criados! Eu também não venho à rua, afirmaram os restantes! E entraram todos, acenderam a candeia e viram que estava alguém já deitado! Mas pouco comentaram! Olha, mais um de novo e já a dormir, deitou-se com as galinhas! Estavam enganados, porque o ti Manoel estava a ouvir a conversa e a pensar como ia convencer aqueles porcos a mudar a casa de banho para a rua! 
Depressa se deitaram porque pelas quatro da manhã começava um novo dia! 
Ao romper da manhã de segunda-feira dia 12 de Outubro de 1840, já o ti Manoel estava na rua do Monte preparado para fazer as tarefas que o feitor lhe tinha destinado! Logo a seguir, carregaram as carroças com a semente, pronta a semear, e dirigiram-se à folha (terreno) onde seria feita a sementeira! Todos os trabalhos, naquele dia e nos seguintes, que o feitor mandava fazer ao Ti Manoel, ele fazia com rapidez e perfeição, ganhando em pouco tempo a admiração e o respeito dos seus camaradas ao ponto de os convencer que só no caso de estar a chover podiam fazer a casa de banho a um canto do cabanão, porque as pulgas eram muitas e podiam transmitir doenças uns aos outros! Os homens ficaram convencidos e a partir daí mudaram alguns maus hábitos na higiene! 
O Ti Manoel, passou cerca de um mês no Monte da Talaveira e dali, como sempre fazia, foi ajudar os seareiros mais pobres, apenas em troca de comida e foi assim até Janeiro, quando começou no corte das azinheiras por todas as herdades das terras de Capelins! Quando acabou a poda das azinheiras estava no tempo de começar as lavouras, o alqueve, preparação das terras para a próxima sementeira, continuando o Ti Manoel a fazer esse trabalho até aos finais de Março de 1841! Como pressentia que a sua missão nas terras de Capelins estava a chegar ao fim, começou a preparar-se para a sua definitiva partida, então, na quinta-feira dia dia 1 de Abril de 1841, foi ter com o sapateiro do Salgueiro, para fazer umas botas novas! 

Na madrugada do dia 1 de Abril de 1841, quando o sapateiro do Monte do Salgueiro abriu a porta de sua casa/oficina já o ti Manoel Rodrigues estava na sua frente! Cumprimentaram-se como velhos amigos e o sapateiro pediu-lhe para entrar e para almoçar (pequeno almoço) com ele. O ti Manoel declinou o convite do almoço, dizendo que já tinha comido um naco de pão e queijo e estava bem assim, mas entrou, porque era ali o seu destino! O sapateiro estava almoçando e falando com o ti Manoel, sobre o que este tinha feito nos últimos tempos! Quando acabou o almoço, o ti Manoel disse-lhe que queria fazer umas botas novas, porque pressentia que a sua missão nas terras de Capelins estava no fim e, tinha alguma pressa, pelo que, propunha ao mestre, fazerem as botas entre os dois, ele pagava-lhe os materiais e ajudava-o nas encomendas, em troca da comida e da dormida no cabanão da burra! O sapateiro aceitou, mas disse-lhe que não queria dinheiro dos materiais usados nas botas, porque sabia muito bem a dívida que tinha, da outra vez que ele o ajudou, por isso, faziam as botas e ficava tudo certo! O ti Manoel apenas exclamou: Está bem! Depois logo se vê isso! E começaram imediatamente a trabalhar! O sapateiro tirou as medidas aos pés do ti Manoel, começou logo a talhar as peças das botas, meteu a sola de molho já com as medidas, para no dia seguinte, os dois e os aprendizes armarem as botas do ti Manoel! O sapateiro gostava muito do ti Manoel era uma benção tê-lo junto dele, não só pela ajuda que lhe dava, mas pela paz que sentia com as suas palavras, por isso, não perdia a oportunidade de o ouvir e, enquanto trabalhava não parava de falar, iniciando assim, nesse dia a conversa: 
Sapateiro: O ti Manoel já me contou como veio aqui parar, mas seria porquê? O que existe aqui de diferente dos outros sítios para precisar de si?
Ti Manoel: Não tem muito de diferente dos outros sítios! Mas se me enviaram para aqui, é porque fazia cá falta! 
Sapateiro: Mas quem é que o enviou? E fazia aqui falta para quê? Só para ajudar alguns desgraçados? Mas isso há em todo o lado! Até lá em Seia há tantos!
Ti Manoel: Já lhe contei da outra vez como tudo se passa! Não sou eu que escolho! Por isso não lhe sei explicar porque vim aqui parar! E já agora! Vocemecê ainda não me contou porque veio lá de Seia, aqui para o Salgueiro, também deve ser uma boa história! 
Sapateiro: Olhe que nem por isso, primeiro vieram dois irmãos meus, na transumância, gostaram tanto das terras de Capelins, que casaram aqui e ficaram, depois vieram os meus pais e a seguir vim eu com a minha Maria e já com três filhos! Ainda hoje não sei se fiz bem, mas parece-me que sim, lá na minha aldeia éramos três sapateiros, o trabalho era pouco, aqui não tenho mãos a medir! Cada vez tenho mais trabalho! Isto está a crescer muito, ali Montes Juntos cresce todos os dias, até de Cheles ali há gente e, até para lá faço botas!
Ti Manoel: Tem a sua história! Não duvide que fez muito bem em ter vindo para cá, não deixe de trabalhar assim e vai ter aqui uma vida muito boa, assim como os seus filhos, netos e até à quinta geração, depois têm de fugir daqui, porque estas terras deixam de dar de comer a tanta gente! 
Sapateiro: Essa agora! Como é que estas terras tão boas, das melhores do Reino, podem deixar de dar de comer a quem as trabalhar? 
Ti Manoel: Muito difícil de lhe explicar mestre! Mas vai ser mesmo assim! 
Sapateiro: Mas isso é quando ti Manoel? 
Ti Manoel: Daqui a mais ou menos um século, 100 anos! 
Sapateiro: Ah bom! Daqui até lá não me doa a mim a cabeça! E para onde vai esta gente, para não morrer aqui de fome? 
Ti Manoel: Para terras distantes, onde vão ter empregos para eles e para os filhos! Vocemecê não veio de Seia, aqui para tão longe? 
Sapateiro: Pois vim! Então e há lá terra para todos se governarem?
Ti Manoel: Qual terra? Os que tiverem de sair daqui não vão trabalhar na terra, são outros empregos! Antes vão existir aqui muitas escolas e as pessoas vão todas aprender a ler e a escrever, é essa a sorte delas!
Sapateiro: Aprender a ler e escrever para quê? Isso serve para alguma coisa? Custa-me acreditar nisso! Mas se o ti Manoel diz, alguma coisa vai acontecer! Então e isto aqui desaparece tudo? 
Ti Manoel: Olhe mestre, até parece mentira, mas depois das pessoas abalarem quase todas, há muitas coisa que desaparecem! Pode não acreditar, mas até o rio Guadiana vai desaparecer! 
Sapateiro: Oh valha-me Deus! Para debaixo da terra não? Esconde-se no pego de Santa Catarina?
Ti Manoel: Não! Não é para debaixo da terra! Ns minhas visões, parece que trazem uma parte do mar para o seu lugar, por isso, fica muita água em cima da terra, mas durante muito tempo não vai servir para nada aqui em Capelins! 
Sapateiro: Oh ti Manoel, essa é que me custa acreditar! Mudam o Mar para o lugar do rio Guadiana em Capelins, sem servir para nada? 
Ti Manoel. É muito difícil de explicar mestre! É muito difícil! Posso dizer-lhe que só quase um século depois de estar cá o Mar é que alguém acorda e percebe que está aqui umas das maiores riquezas do mundo, a água, e a partir daí começa a voltar para cá muita gente e muitos que nem são descendentes dos capelinenses!
Sapateiro: Olhe ti Manoel, muita coisa me contou e não sei como se passou o dia, com esta conversa toda, mas está na hora de ir-mos cear (jantar) e acabar o trabalho por hoje! 
Assim acabou o dia de trabalho e de conversa entre o ti Manoel Rodrigues e o sapateiro do Monte do Salgueiro. No dia seguinte, fizeram as botas do ti Manoel, que ficaram uma obra de arte, calçou-as logo para as amaciar, limpou as velhas, passou-lhe o sebo especial e ofereu-as ao sapateiro para ele usar, umas vez que calçavam o mesmo número. O sapateiro não teve palavras para lhe agradecer! Passaram o resto da semana a trabalhar nas encomendas de botas novas e de arranjos. O ti Manoel todos os dias relembrava o sapateiro de que poderia desaparecer numa qualquer madrugada e que estaria para breve, por isso todas as noites se despediam, como se fosse a última! No sábado de aleluia dia 10 de Abril de 1841, o sapateiro levantou-se e foi a correr abrir a porta, ficou muito triste, adivinhou imediatamente que o Santo tinha desaparecido, ainda foi ao cabanão da burra na esperança de se ter deixado dormir, mas estava tudo arrumado e nenhum sinal dele, foi para casa, engoliu um bocado de pão, sem vontade e, por não ter outro remédio começou a trabalhar! Daí a algumas horas começou a ouvir grande barulho de chocalhos a tocar à sua porta e, logo se lembrou que era sábado de aleluia! Quando os rapazes acabaram de tocar em uníssono, veio à porta e atirou-lhe uma mão cheia de passas de figos! Os rapazes maiores atiraram-se de barriga para cima das passas e nem deram lugar aos mais pequenos! Depois de as embolsarem gritaram ao sapateiro: Só isto? O sapateiro que já estava de costas viradas, voltou e disse-lhe: Então o que querem mais? Não é isso que é costume eu dar-lhe? Sim! É! Então e o Santo? Não nos dá nada? Gritaram os rapazes! 
Sapateiro: O Santo já cá não está! 
Rapazes: O quê? Ainda ontem aqui estava! 
Sapateiro: Pois estava! Mas ontem, foi ontem! E virou as costas! 
Rapazes: Mas sabe onde ele está? 
Sapateiro: Não sei! Mas até gostava de saber! Foi-se embora!
Os rapazes perderam o entusiasmo de tocar os chocalhos e abalaram tristes e cabisbaixos! 
Assim, conforme tinha aparecido na madrugada do sábado de aleluia no ano anterior, na taberna da ti Maria Caeira em Capelins de Cima, assim desapareceu na madrugada do sábado de aleluia no ano seguinte, do cabanão do sapateiro do Monte do Salgueiro! 
A ti Maria Caeira continuou a receitar as ervas e chás do Santo, em troca de copos de vinho e aguardente, porque se alguém aparecia a pedir ajuda, ela dizia sempre que não se lembrava da mesinha certa, se quisesse esperar, podia ser que se lembrasse e lembrava-se sempre, depois do cliente beber dois ou três copinhos de vinho ou aguardente! 
O padre Manoel de Santo Inácio Pereira, Pároco de Capelins, continuou a exigir a garrafinha de aguardente à ti Maria, para afinar a voz antes da missa, porque a Igreja de Santo António era muito grande! E o sapateiro do Monte do Salgueiro continuou a fazer as melhores botas das terras de Capelins! Quanto ao ti Manoel Rodrigues, o Santo de Capelins, após o seu desaparecimento naquela madrugada no sábado de aleluia, nunca mais ninguém soube novas dele! 
Houve muita tristeza nas terras de Capelins depois do desaparecimento do ti Manoel Rodrigues, o Santo, e falou-se dele até há poucos anos! 
É caso para dizer: Volte ti Manoel, todos gostávamos de o conhecer!


Fim




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