sábado, 15 de julho de 2017

293 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Lenda do Mistério da Comadre dos Pastores do Monte da Capeleira 

Decorria o sereníssimo ano de 1817 e, em Maio nasceu mais uma filha do Ti Manoel Frade e de sua legítima mulher Ti Leonor Gomes, pastores do Monte da Capeleira. Com o nascimento dessa menina ficaram com oito filhos, o que nessa época não era considerada uma Família numerosa. As madrinhas dos seus filhos eram todas moradoras neste Monte e, já estavam esgotadas. Dizia-se nas terras de Capelins que não era bom, dois irmãos terem a mesma madrinha, logo os pastores estavam perante um dilema, onde iam encontrar uma madrinha para a sua menina, tinha de ser uma pessoa com posses, para lhe dar uma boa prenda e, se necessário a poder amparar na sua vida. Um e outro falaram em nomes, mas não conseguiam acertar as ideias, a pessoa que um indicava, logo o outro dizia quem não podia ser, por isto e por aquilo e, assim passou o tempo limite para o batismo da menina. No dia do batismo os pastores tiveram grande discussão e o Ti Manoel jurou perante Deus que ia batizar a menina e a madrinha seria a primeira mulher que encontrasse entre o Monte da Capeleira e a Igreja de Santo António e saiu da choça todo alvoraçado. Foi pelo Monte de Calados, Monte Real, Portela e não encontrou nenhuma mulher frente a frente, mas sabia que moravam várias mulheres junto à Igreja e decerto lá encontraria a madrinha, mas quando avistou a Igreja de Santo António, junto ao primeiro cruzeiro, vinha uma velhinha encostada a um pau, com um bornal e um cobertor velho às costas, enrolada nuns trapos, cumprimentaram-se e encetaram conversa, ela falava muito bem, contou ao Ti Manoel que andava à pida, era uma pobre mendiga, morava em Santiago e que já lhe custava muito andar de terra em terra a pedir, mas tinha de ser, para poder comer. O Ti Manoel gostou dela e contou-lhe o que ia fazer e o que tinha prometido perante Deus. Então, a velhinha nem o deixou acabar a conversa, disse-lhe que seria ela a madrinha da menina, porque se Deus ali os juntou era porque queria que fosse ela a madrinha, ele hesitou e pensou, como podia aceitar uma mendiga como comadre e madrinha da filha, nem lhe podia dar prenda e muito menos algum amparo na sua vida e o que diria a sua mulher! A velhinha insistia, que tinha de ser ela a madrinha, era Deus que assim queria, dizia ela, e o Ti Manoel pôs-se a pensar, pensar! 
O Ti Manoel Frade depois de muito pensar não encontrou maneira de quebrar o juramento que tinha feito a Deus, porque se o quebrasse podia cair alguma desgraça sobre a menina, então aceitou e foram os dois bater à porta da casa Paroquial. O Pároco de Capelins Marcos Gomes Pouzão, veio abrir a porta, cumprimentaram-se e o Ti Manoel explicou-lhe ao que vinha. o Pároco, perguntou-lhe onde estava a menina, porque para a batizar e pôr os Santos Óleos ela tinha de estar ali. O Ti Manoel disse-lhe que a menina ainda não podia sair da choça, ainda era muito pequenina e, se o Pároco pudesse ficava já registada e dentro de um mês trazia a menina e a família toda e punha-lhe os Santos Óleos. Está bem! Disse o Pároco, e esta mulher o que quer daqui? Esta mulher é a madrinha da minha filha, mais a Nossa Senhora do Rosário, disse o Ti Manoel! Esta mulher? Inquiriu o Pároco! Sim, tem mesmo de ser, disse o Ti Manoel! Então está bem, disse o Pároco e mandou-os entrar. Começou a redigir o assento paroquial, foi escrevendo com muita calma, o nome dos pais o dia e hora do nascimento de um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de: Aqui perguntou ao Ti Manoel e à madrinha como era o nome da menina! O Ti Manoel ficou surpreendido e disse: Então, tem de ser o nome da madrinha, que nem ele sabia! Nessa época não podia ser outro! O Pároco virou-se para a madrinha e perguntou-lhe como se chama: Eu? Eu sou a Agapita de Jesus, disse a madrinha! É o quê? Gapita? Perguntou o Pároco! Não! A GA PI TA! disse a Ti Agapita! Está bem, eu percebi! Disse o Pároco! Nesse momento o Ti Manoel levou as mãos à cabeça e pensou: "Ai valha-me Deus, já não bastava uma comadre mendiga, ainda vou ter uma Agapita", como é que eu vou explicar isto à minha mulher! Mas não havia nada a fazer e a menina ficou com o nome da madrinha, Agapita! Findo o registo, o Pároco perguntou à Ti Agapita: Não sabe escrever o seu nome? Pois não? Sei, sim senhor Padre, oh se sei, disse a Ti Agapita! Sabe, ora essa? Então assine lá aqui, que eu tenho o dia todo, posso esperar! Disse o Pároco. A Ti Agapita pegou no aparo com tinta e escreveu o seu nome com uma rapidez e letra tão bonita, incomparável à do Pároco, que ficou pasmado! 
Depois do registo da Agapita, cada um foi à sua vida e o Ti Manoel, voltou à choça no Monte da Capeleira. 
A Ti Leonor e filhos já estavam à espera dele para saberem o nome da menina e tinha feito um almoço melhorado por ser o dia do batizado da sua menina, mas ele ia tão transtornado que nem queria conversa e foi difícil chegar à fala com ele, a Ti Leonor percebeu que ele estava muito triste, que alguma coisa não tinha corrido bem e com muita calma tornou a perguntar-lhe: 
Ti Leonor: Manoel, sempre batizaram a nossa filha? 
Ti Manoel: Sim, já está batizada! 
Ti Leonor: Então, quem é a madrinha e como se chama a nossa menina? 
Ti Manoel: Oh mulher eu nem te posso contar o que se passou, nem quem é a nossa comadre, nem o nome da nossa menina, isto foi uma grande desgraça! 
Ti Leonor. Oh homem, mas a desgraça é assim tão grande? 
Ti Manoel: É maior do que tu pensas!
Ti Leonor: Mas conta-me lá, tudo se há-de resolver, porque o que é preciso é saúde!
O Ti Manoel, respirou fundo, ganhou coragem e contou tudo o que se tinha passado. Todos choraram, alguns sem saberem porquê! A Ti Leonor não se cansava de repetir: "A minha filha é Gapita! E o Ti Manoel corrigia "Agapita"! É a mesma coisa, dizia a Ti Leonor! Aqui o Ti Manoel, disse à mulher e aos filhos: Olhem lá, a nossa menina chama-se Agapita Maria, então, podemos chamar-lhe simplesmente Maria, e a Agapita fica esquecida! Mas simplesmente porquê? Não lhe podemos chamar só Maria? Disse a Ti Leonor! Sim! Só Maria, disse o Ti Manoel! E todos ficaram contentes por essa ideia e do desaparecimento da Agapita, mas estavam enganados, porque nas terras de Capelins ao saberem o nome da menina dos pastores da Capeleira, começaram a chamar-lhe a Gapitinha e, assim ficou a menina Gapitinha! 
O Ti Manoel e a Tia Leonor, ficaram esperando que algum dia a comadre mendiga Agapita, aparecesse na choça, para ver a afilhada e, já tinham tudo falado, mostravam-lhe a Gapitinha, davam-lhe um pão e dois queijos e pediam-lhe para seguir o seu caminho, mas a Ti Agapita, nunca apareceu no Monte da Capeleira! 
A Gapitinha foi crescendo, entre a choça e o Monte da Capeleira, tinha uma infância normal para a época, como os pais eram pastores, era inevitável a sua ligação à vida da pastorícia. O Ti Manoel e a Ti Leonor, por curiosidade, iam pedindo informações a mendigos de Santiago Maior, que por ali apareciam, sobre a vida da sua comadre Agapita, mas depois de três quatro anos, já ninguém sabia da vida dela e eles pensaram que já Deus a tinha, mas ainda não tinha, só que já não conseguia fazer os caminhos de Capelins, à "pida", estava na sua pobre casa na Aldeia da Venda. 
No Domingo de Ramos de 1825, os lavradores do Monte da Capeleira foram à Missa a Santo António e, depois da cerimónia da dita e do benzer do alecrim, o Pároco Marcos Gomes Pouzão, na hora da despedida, pediu-lhe o favor de de dizerem ao Ti Manoel Frade que fosse falar com ele, porque tinha uma encomenda para lhe entregar, mas tinha de ser mesmo a ele. O lavrador do Monte da Capeleira, depois de almoçar foi dar o recado ao Ti Manoel, que não mostrou muito interesse! Ora que encomenda há-de ter o Padre Marcos para mim? Deve ser artimanha dele, para me pedir algum borrego! Um dia logo lá vou! Disse o Ti Manoel! Eu já dei o recado, agora é contigo, quando quiseres podes ir lá! Disse o lavrador! O Ti Manoel, contou à Ti Leonor o teor do recado do Pároco, mas ela também não ficou convencida que alguém enviasse uma encomenda ao Ti Manoel! Passou-se quase um mês e a ti Leonor lembrou o Ti Manoel que tinha de ir falar com o Pároco, fosse lá o que fosse, não podia fazer a desfeita de não aparecer lá. O Ti Manoel no dia seguinte, logo cedo, saiu do Monte da Capeleira, por Calados, Capelins de Baixo, Capelins de Cima e chegou à Igreja de Santo António, já o Pároco Marcos estava levantado há mais de duas horas! bateu à porta da casa Paroquial, veio o Pároco Marcos, deram os bons dias e o Ti Manoel Frade, disse-lhe o motivo porque estava ali. Ah sim! Tenho uma encomenda para ti, mas antes de a entregar, temos que falar! Disse o Pároco! Está bem, vamos embora! Disse o Ti Manoel! O Pároco disse-lhe para entrar e sentar-se! Iniciou a conversa contando que tinha estado em Terena com o seu colega o Pároco de Santiago, Anastácio Caetano Rosado, o qual lhe tinha pedido para cumprir o desejo de uma mulher chamada Agapita, que tinha falecido havia três meses e, antes de falecer o chamou para ele lhe dar todos os Sacramentos e, para fazer testamento, deixando a casa que tinha na Aldeia da Venda e os trastes (mobília), composta por uma mesa, duas cadeiras, uma cama e pouco mais, à mulher que tratou dela nos últimos anos da sua vida e pediu-lhe para te entregar uma encomenda, mas tinhas de jurar por Deus que tudo o que está dentro da caixa (caixote) de madeira será para a tua filha Agapita, afilhada da mendiga, Ti Agapita. Eu sei que és um homem muito honrado, mas tem de ser assim, está aqui a encomenda, agora tens de jurar que é tudo para a tua filha Agapita, disse o Pároco! O Ti Manoel Frade fez todas as juras exigidas pelo Pároco Marcos, e com a encomenda às costas, dentro de um saco de serapilheira, voltou para o Monte da Capeleira. 
Quando o Ti Manoel Frade chegou à choça, no Monte da Capeleira, com a caixa de madeira às costas, a Ti Leonor confirmou que ele sempre trazia uma encomenda, se já estava ansiosa, ainda mais ficou, e foi a correr ao seu encontro. 
Ti Leonor: Então homem! Tanto tempo! Afinal o que trazes aí? Quem nos deu a encomenda? 
Ti Manoel: Não sei o que trago, mulher! Só sei que tive de jurar ao Padre Marcos, que a encomenda é toda para a nossa Agapita, por isso, não podemos tocar em nada, seja lá o que aí estiver dentro da caixa. Foi a nossa comadre Agapita, que faleceu há três meses e a mandou pelo Padre Anastácio, de Santiago!
Ti Leonor: Tudo para a Gapita? E nem ao menos podemos ver o que está lá dentro?
Ti Manoel: Não sei, mas parece-me que isso podemos, não me lembro de ter jurado que não podíamos ver! 
Ti Leonor: Então vamos lá ver! 
Ti Manoel: Agora não, mulher! Vamos lá comer as sopas, já tenho muita fome, depois logo tratamos disso! 
A Ti Leonor não ficou muito contente, porque a curiosidade era muita, mas não teve outro remédio senão acatar a sugestão ou ordem do Ti Manoel! 
Depois do jantar (almoço), antes do Ti Manoel ir tomar conta das ovelhas, foi buscar uma torquês (alicate) e chamou a Ti Leonor para assistir à abertura da caixa de madeira, as tábuas estavam pregadas com uns pregos já com ferrugem e mal o Ti Manoel forçou a caixa, as tábuas de cima saltaram deixando ver um vestido preto muito velho, coçado e cheio de remendos. 
Ti Manoel: Mas o que é isto? 
Ti Leonor: Ai valha-me Deus, homem! Uma coisa destas para a nossa Gapita! A nossa comadre já devia estar boa da cabeça!
Ti Manoel: Espera lá mulher, debaixo do vestido pode estar alguma coisa, porque o peso que eu carreguei de Santo António até aqui, não pode ser só deste vestido! 
O Ti Manoel puxou o vestido para fora da caixa, espreitou para o fundo, mas não estava lá nada! 
Ti Manoel: Mau, mau! Não está cá mais nada! E uma destas! Mas continuou a cismar que aquele vestido, só por si, não podia pesar tanto. Pegou nele para lhe tomar o peso e, percebeu logo que, tinha de existir alguma coisa no seu interior, ao mesmo tempo deitou uma das mãos à cintura do vestido e sentiu um objeto rijo, meteu a mão ao bolso e tirou a navalha, que cortava à distância, virou o vestido e estava uma bainha, cortou os pontos com cuidado e viu um tecido diferente que envolvia o objeto, puxou e cortou o tecido envolvente ficando na frente dos seus olhos um grande cordão em ouro, ficaram ambos pasmados, sem palavras, até que o Ti Manoel disse: Ora aqui está a herança deixada pela madrinha da nossa Agapita, nada mau, quem havia de dizer, uma mulher tão pobre, que andava `"pida" e tinha este cordão em ouro! E não se esqueceu da afilhada! 
Ti Leonor: Olha lá Manoel, era um bom vestido, onde iria ela a um vestido destes? Ao mesmo tempo a Ti Leonor sentiu outro objeto ainda na cintura e o Ti Manoel,entrou logo com a navalha em ação, foi cortando com cuidado e depararam-se com um lindo medalhão que fazia parte do cordão. Já não pararam, começaram a apalpar o vestido de alto a baixo e, nos lugares onde o vestido tinha remendos, estava por dentro uma jóia de ouro, dentro de saquinhos feitos em tecido e cozidos entre os remendos e o tecido do vestido e, encontraram cinco anéis, sendo quatro de homem e, um de mulher. Estavam a ficar estonteados e quando pensavam que não existia mais nada, porque já não viam mais remendos, a Ti Leonor reparou que o vestido tinha uma bainha em baixo e apalpou dentro dela mais objetos, apressaram-se a cortar os pontos e saíram de lá vinte moedas de ouro, cada uma dentro de um saquinho à sua medida e cozida dentro da bainha do vestido, estavam na frente de uma fortuna. Agora o grande dilema era como a iam guardar na choça até a entregarem à Gapitinha! Não encontraram maneira de resolver a questão, então concordaram em contar tudo aos lavradores do Monte da Capeleira e pedir-lhe auxílio. Estes, ficaram abismados com a situação e o lavrador disse-lhe que não tinha condições para guardar aquele tesouro no Monte, como a situação política andava, o reino em revolução, podiam ser assaltados a qualquer momento, assim o melhor era ele enterrar o tesouro, bem fundo, dentro da choça, logo à entrada no lado esquerdo, que aí decerto estava a salvo, ninguém esperava que estivesse um tesouro dentro de uma choça! O Ti Manoel e a Ti Leonor, puseram tudo nos lugares de origem dentro do vestido, arranjaram a caixa de madeira, cavaram uma cova bem funda, depois colocaram umas lajes, pedras, por baixo, de lado e por cima da caixa, terra em cima e o tesouro ali ficou bem guardado para a Gapitinha. 
Mas como é que uma mendiga, era dona deste tesouro? 
Mistério! 

Assim que cearam (jantaram), o Ti Manoel Frade e a Ti Leonor, foram ter com os lavradores ao Monte, entraram para uma casa e passado pouco tempo estavam todos reunidos com a Gapitinha. Ao sinal do lavrador, o Ti Manoel começou a contar à filha o que se passou na vida dela, desde o dia do seu nascimento, passando, inevitavelmente, pelo episódio do seu batizado e, o motivo da madrinha ter sido a Ti Agapita, uma mendiga de Santiago. Aqui, a Gapitinha mostrou um semblante de surpresa, mas pareceu pouco incomodada. Disse que já sabia quase tudo o que o pai lhe estava a contar e, não achava nada de mal, só gostava de ter conhecido a madrinha, mesmo pobrezinha, mas agora, como já tinha falecido, não podia fazer nada! O pai interrompeu-a e continuou: Estamos arrependidos de não a termos procurado em Santiago, como ela nunca se aproximou de nós, pensamos que se tinha esquecido de ti, mas estávamos enganados, porque três meses depois de ela falecer, recebemos uma encomenda com umas coisas que ela te deixou e há pouco tempo soubemos que nunca te esqueceu, e que não veio aqui ver-te por ter receio de ser mal recebida! A Gapitinha ficou muito triste, quando ouviu esta parte da notícia, mas não disse nada! O Ti Manoel reparou, mas não interrompeu a conversa e continuou: É por causa dessa encomenda que a tua madrinha Agapita te mandou, que nós estamos aqui! 
Gapitinha: Mas o que tinha essa encomenda? Estou a ficar assustada! 
Ti Manoel: Não fiques assustada, deixa-te estar descansada, porque é uma boa prenda! A encomenda é um tesouro! 
Gapitinha: Um tesouro? Ai valha-me Deus! O pai está a brincar comigo? E eu que pensava que os tesouros só existiam em histórias! 
Ti Manoel: É mesmo verdade! E os presentes olharam para ela e abanaram a cabeça em sinal afirmativo! 
Gapitinha; E onde está esse tesouro? 
Ti Manoel: Está bem guardado, com a ajuda dos nossos patrões, até que tomes conta dele, agora, não lhe podemos tocar, porque é só teu! 
Gapitinha: Ai não! Isso é que não! É de todos!
Ti Manoel: Não é! Não! Tem que ser assim! Jurei a Deus, perante o Padre Marcos, que seria tudo teu, porque foi essa a vontade da tua madrinha, por isso, está dito! E queremos dizer-te porque vieste muito novinha aqui para o Monte, porque não foi só para aprenderes a fazer tudo, mas também para aprenderes boas maneiras e seres preparada para fazeres um bom casamento, porque como já sabes, és uma menina muito rica, mas não deixas de ser filha de um pastor! Gapitinha: Não consigo perceber, como é que a minha madrinha era uma mulher que andava à "pida" e deixou-me essa fortuna! 
Ti Manoel: Pois, também não sabemos, filha! É um grande mistério! Talvez um dia possas saber! 
Gapitinha: Acredite, pai! Um dia vou saber tudo sobre ela! 
A conversa estava no fim e, então o lavrador disse-lhe que a Gapitinha continuava no Monte até ao dia de se casar, que a tratariam como se fosse sua filha e que a partir de amanhã começava a sentar-se com eles à mesa! 
O Ti Manoel e a Ti Leonor agradeceram muito aos lavradores e voltaram para a choça! A Gapitinha foi deitar-se, mas ao chegar ao quarto tinha as criadas todas à espera de saberem o que se tinha ali passado! Ela apenas lhe disse que foi para lhe dizerem que era rica! As criadas riram, riram até adormecerem! 
No dia seguinte, ficaram muito surpreendidas ao verem a Gapitinha sentadinha à mesa com os lavradores e filhos, mas mesmo assim, não acreditaram no que ela lhe contou na noite anterior, porque não encontravam nenhuma maneira para que isso pudesse ser possível! 
A Gapitinha, como já vinha acontecendo, continuou a frequentar festas, fazer visitas e passeios, como se fosse filha dos lavradores do Monte da Capeleira! 
Os anos foram passando, a Gapitinha já estava moça e muitos rapazes rondavam o Monte da Capeleira por sua causa, mas nada acontecia porque os filhos dos lavradores das terras de Capelins, sabiam que ela era filha do pastor e, seria impensável algum casar com ela, apesar de existir o boato de ser rica e, os mais pobres, eram enxotados dali, por ordens muito rigorosas do lavrador. Porém, ainda neste ano, tudo mudou, em termos amorosos, na vida da Gapitinha. Os lavradores do Monte da Capeleira eram originários da Vila de Terena, onde tinham muitos familiares e compadres, por isso, ali passavam as Festas anuais, levando sempre, com eles, a Gapitinha e foi nestas Festas que a Gapitinha e um rapaz da sua idade, 23 anos, chamado Bento, filho do lavrador mais rico de Terena, dono de três herdades e com muitos outros rendimentos, compadre do lavrador do Monte da Capeleira, se perderam de amores um pelo outro. Nas Festas, todas as pessoas comentavam este caso que, também não passou despercebido ao pai de Bento, por isso chamou o filho e perguntou-lhe o que queria da rapariga do Monte da Capeleira, se era alguma brincadeira ou se estava a pensar numa coisa séria! O Bento disse ao pai que nunca tinha gostado de ninguém como gostava daquela rapariga e que faria tudo para casar com ela, mas para isso acontecer precisava da ajuda do pai para o apoiar e encaminhar nesse sentido. O lavrador de Terena teve a certeza que o filho estava a falar verdade e prometeu ajudá-lo, mas primeiro tinham de saber de que lavrador de Capelins ela era filha para poderem ir falar com ele a pedir autorização para namorarem e disse-lhe que falava com o compadre do Monte da Capeleira, para ele lhe dar essa informação. As Festas estavam no fim e o pai do Bento antes da partida da Gapitinha foi falar com o compadre para saber informações da família da rapariga. Depois de explicar o assunto que o levava ali, fez-lhe a pergunta fundamental e, o lavrador disse-lhe a verdade, que era filha do seu pastor. O homem ficou branco e cambaleou! 
Lavrador de Terena: Do pastor? Esta menina? Ai meu Deus! 
Lavrador do Mte da Capeleira: Sim! Mas existe um grande segredo que, decerto muda tudo!
Lavrador de Terena: Um segredo? Que segredo? Posso saber compadre? 
Lavrador do Mte da Capeleira: Sim! Pode! Ela é muito rica, uma madrinha misteriosa deixou-lhe uma grande fortuna! 
Lavrador de Terena: Está a brincar comigo compadre? 
Lavrador do Mte da Capeleira: Não estou a brincar, dou-lhe a minha palavra de honra que ela é tão rica como nós os dois juntos! Estou bem informado!
O lavrador de Terena ficou bem esclarecido sobre a vida da Gapitinha e da sua família, foi dali e contou ao filho Bento que continuou firme na sua paixão e não se importou nada com a origem familiar da sua futura mulher. No Domingo seguinte já estavam a falar com o pastor e pedir-lhe a devida autorização para poderem namorar, mas ele já estava ao corrente de tudo, antes informado pelo patrão.
O Bento e a Gapitinha começaram a namorar e entendiam-se tão bem que passados seis meses, em 6 de Março de 1841, o Pároco de Capelins, Manoel de Santo Inácio Pereira, realizou o seu casamento na Igreja de Santo António. A boda foi na Vila de Terena, onde ficaram a morar.
A Gapitinha recebeu o seu tesouro e, com o seu marido começaram imediatamente, a desenvolver e organizar a sua vida, tornaram-se grandes lavradores da Vila de Terena e das terras de Capelins. 
Os pais da Gapitinha foram para sua casa e os irmãos ficaram a trabalhar nas suas herdades em lugares privilegiados, de feitores. 
A Gapitinha não esquecia a madrinha Agapita de Jesus e, começou imediatamente a procurar na Vila de Terena, alguém com as devidas competências para investigar o mistério que a atormentava, sobre quem era a sua madrinha, mendiga de Santiago, que lhe deixou a fortuna! 
Com a ajuda da sua nova família, a lavradora Agapita depressa encontrou a pessoa mais competente na Vila de Terena, para investigar e descobrir tudo sobre o passado da sua madrinha Agapita. Era um sargento de ordenanças (guarda do reino), recentemente reformado, que aqui morava e tinha prestado serviço em Terena, era natural de Estremoz, o pai de Montemor-O- Novo e a mãe da cidade de Évora. O sargento ouviu a Agapita com muita atenção, tomou algumas notas e disse-lhe que não seria difícil ter as respetivas respostas, porque tinha muitos conhecimentos em Santiago, mas não sabia se conseguia desvendar ali o mistério, ou se teria de ir a outra localidade. A Agapita deu algum dinheiro ao sargento que, na madrugada do dia seguinte montou o seu cavalo e seguiu para a Aldeia da Venda, como tinha feito inúmeras vezes quando estava no ativo, ao nascer do sol já sabia onde morava a mulher que tinha tratado a mendiga Ti Agapita nos últimos anos da sua vida chamada Rosa e que tinha ficado com a sua casa e os trastes. Assim que Rosa abriu a porta, ensonada e esfregando os olhos, já ele estava encostado à ombreira, ela apanhou grande susto, porque o conhecia bem! Depois de darem os bons dias, ela aflita, disse-lhe que não tinha feito nada de mal! 
Sargento: Eu sei que não fez nada de mal! Não tenha medo, só quero saber umas informações! 
Rosa: Então, se eu souber responder, conto-lhe tudo! 
Sargento: Então diga-me lá, conheceu uma mulher chamada Agapita que era mendiga e morava nesta casa?
Rosa: Ai valha-me Deus! Conheci sim, senhor guarda, mas olhe que ela deu-me a casa, está tudo escrito no testamento feito pelo Padre Anastácio, está lá na Igreja! 
Sargento: Está tudo bem! Eu só quero saber de onde era a Ti Agapita e tudo o que souber sobre a sua vida! 
Rosa: Olhe, quem sabe tudo é o Padre Anastácio, mas já está muito velhinho, porque foi ele que veio fazer o testamento e dar-lhe os Sacramentos e ela teve de lhe contar tudo, para lhe perdoar os pecados! 
Sargento: Mas se eu quisesse falar com o Padre Anastácio, não vinha aqui falar consigo! 
Rosa: Eu sei algumas coisas que ela me contou nos últimos dias de vida, mas não é muito! 
Sargento: O que me contar é por uma boa causa e a pessoa que precisa de saber as informações manda-lhe isto, e deu-lhe alguns vinténs! 
A Rosa até saltou, recebeu os vinténs com as duas mãos e prontificou-se a contar tudo o que sabia!
Rosa: Então, se é por uma boa causa, diga lá o que quer saber?
Sargento: De onde era a Ti Agapita?
Rosa: Era de Montemor-O-Novo, não sabia? 
Sargento: Não! E porque se dedicou à mendicidade?
Rosa: Porque ficou sem nada! Teve um grande desgosto na vida, ficou sozinha no mundo, então deu tudo o que tinha aos pobres de Montemor e depois abalou sem destino, até que veio ter aqui a Santiago, gostou da aldeia e ficou aqui nesta casa até morrer!
Sargento: E sabe o que lhe aconteceu para ter o desgosto?
Rosa: Sei! Foi porque lhe morreram os três filhos e o marido!
Sargento: Nunca lhe ouviu falar no nome do marido, da Família? 
Rosa: Ouvi! Mas não me lembro, era qualquer coisa Atayde e parece que o nome dela não era Agapita! 
Sargento: Pois não! Bom dia, passe bem, já sei tudo o que precisava! 
O sargento picou as esporas ao cavalo e, em poucas horas pôs-se na Vila de Terena! Foi logo contar à lavradora a conversa que teve com a Rosa de Santiago e acrescentou que ouviu contar ao pai o que tinha acontecido a essa ilustre Família Atayde, uma grande desgraça, mas já não conseguia juntar as coisas, mas se a lavradora estivesse de acordo, podia escrever uma carta aos familiares que ainda tinha em Montemor e decerto esclareciam tudo. A lavradora agradeceu ao sargento e disse-lhe que isso ia demorar muito tempo e antes preferia que ele fosse pessoalmente a Montemor averiguar a situação, e ela pagava-lhe o que fosse preciso! O sargento prontificou-se imediatamente a servir a lavradora, recebeu mais dinheiro e, dois dias depois, partiu a cavalo para Montemor-O-Novo! 
O sargento saiu da Vila de Terena às quatro da manhã, dormiu em Évora, onde tinha familiares do lado da mãe e na madrugada do dia seguinte partiu para Montemor-O-Novo, chegando a esta Vila (hoje cidade) pelas quatro horas da tarde, foi ficar em casa de uns tios que o receberam com grande alegria, há muitos anos que não se encontravam e as notícias das famílias de parte a parte eram muito escassas. Depois de esgotarem as perguntas sobre a vida de cada familiar, o sargento contou-lhe o motivo porque estava ali e perguntou-lhe se conheciam aquela família. Os tios disseram-lhe que conheceram muito bem a família Atayde e sabiam tudo o que se tinha passado até ao desaparecimento da mulher do capitão, a qual não se chamava Agapita, havia ali algum engano, uma troca de nomes, porque ela chamava-se Maria Vicência de Carvalho Andrade, e quem se chamava Agapita de Jesus era a sua criada, que estava com ela desde o seu nascimento e foi a sua ama, quando casou foi com ela para a sua casa onde esteve até falecer em 1910, na mesma altura em que faleceram o marido e o filho, também militar! 
O sargento ia tomando nota de tudo o que os tios lhe ditavam e nem tinha oportunidade de fazer nenhuma pergunta, porque ia obtendo todas as respostas que precisava, porém, aqui contou-lhe que ela se fez passar por Agapita e outras coisas que já relatámos nos episódios anteriores, ficando os tios boquiabertos! E continuaram: Essa família era muito ilustre aqui em Montemor, o marido era militar de cavalos, por fim capitão e um filho também era militar com o pai, parece que era alferes de cavalos, mas depois de terem morrido dois filhos, tísicos, ainda moços, acabou-se a felicidade nessa casa. Em 1910, foi o fim, quando o general André Massena entrou em Portugal, na terceira invasão dos Franceses, como não voltaram a atac
ar aqui a Vila, mandaram seguir as nossas tropas para Torres Vedras, para as linhas de Torres, ficando aqui uma pequena guarnição, então alguém avisou os franceses sobre o lugar onde esta companhia ia passar o rio Tejo, parece que foi no pior lugar, como iam com muita pressa não podiam passar tudo nas barcas, a cavalaria, a infantaria e o trem militar (carros com material de guerra e víveres, puxados por Bois e por mulas), deram ordens para passar junto a Almourol, onde a cavalaria com o apoio das barcas como corta corrente passava a nadar, e foi ai que uma divisão das tropas do Massena os emboscou e acabou com a cavalaria, que ía à frente, morreram quase todos, entre eles o capitão Atayde e o único filho que tinham, nem os corpos apareceram, foram Tejo abaixo! Vê lá o desgosto da desgraçada da senhora, nessa altura ainda tinha a criada Agapita já velhinha, e ampararam-se uma à outra, por pouco tempo, a Agapita com o desgosto pouco viveu e a senhora viu-se sem ninguém, a partir daí só saía com outra criada às missas. Um dia ouvimos dizer que estava a tratar para dar tudo o que tinha aos pobres, mas nunca pensamos que fosse a casa, mobílias e tanta coisa valiosa que tinham em casa, porque era uma família rica! Não sabemos como essa parte se passou, foi tudo tratado com a Misericórdia e não demorou muito tempo desapareceu daqui. Passado um ano ou mais, ouvimos por aqui dizer que a tinham visto pelas ruas de Évora, a vaguear, alheia a tudo e a partir daí, só agora estamos a ouvir falar dela! Olha lá para onde ela foi acabar! Triste vida! Uma senhora daquelas! Exclamou o tio! 
Sargento: Era isto que eu precisava de saber, para dizer a uma afilhada que ela tinha e que só teve conhecimento da sua existência alguns anos depois de ela ter falecido! Nunca lhe contaram, devido a uma confusão e por se terem afastado, ela morava numa aldeia afastada e andava a pedir esmola para depois dar a outros e foi convidada para madrinha de uma menina, que não conheceu, mas deixou-lhe uma grande fortuna em ouro!
Tio: Sim, eles eram de famílias muito ricas, de altas linhagens, como te disse aqui em Montemor, deixou grande fortuna para os pobres! 
A conversa sobre esta família acabou por ali, o sargento já sabia tudo o que precisava, mas permaneceu em Montemor mais três dias, para cumprimentar outros familiares e estar com os tios. Depois voltou para a Vila de Terena, dormindo novamente em Évora, porque a viagem ainda era muito longa, ao chegar a casa descansou e só no dia seguinte foi contar tudo à lavradora Agapita, entregando-lhe um relatório assinado por ele, como garantia da verdade. Foi bem pago pelo seu trabalho e a Agapita sentiu-se mais confortada por ficar a saber quem era na verdade a sua madrinha e a origem da fortuna que lhe deixou! Tudo esclarecido!

Fim 





terça-feira, 4 de julho de 2017

292 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - 
Montejuntos 

Freguesia de Capelins

Enclave do Grande Lago de Alqueva

A Freguesia de Capelins (Santo António), é constituída pelas Aldeias de Faleiros, Ferreira de Capelins, Montes Juntos e por uma pequenina parte de Cabeça de Carneiro,  tem 527 habitantes, segundo os censos de 2011, situa-se no Concelho de Alandroal, Distrito de Évora.
As terras de Capelins são povoadas desde a Pré-História, existem restos arqueológicos de vários povoados no vale das Ribeiras de Lucefécit, Azevel e do rio Guadiana. Os Romanos deixaram aqui, muitos vestígios da sua permanência, desde as Minas nas herdades de Defesa de Ferreira, Negra e Amadoreira, a Villa de Ferreira Romana, Necrópoles e o Forte no Outeiro dos Castelinhos. Este Forte era semelhante ao Castelo da Lousa, no rio Guadiana, perto da Aldeia da Luz, Mourão, agora submerso pelas águas do Grande Lago de Alqueva.
Junto à atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, existe uma Necrópole da Idade Média, sepulturas escavadas na rocha, foram identificadas doze sepulturas, mas decerto existem mais. Pensamos que, estas sepulturas, estariam no interior da Igreja Matriz de Santa Maria, edificada neste lugar em 1314. No cabeço em frente, localiza-se o Monte de Ferreira, seria aqui a Vila Lugar de Ferreira Medieval, ainda podemos observar um silo comunitário fora das paredes que delimitam a propriedade do Monte de Ferreira, em 1800 ainda aqui existiam 32 casas.
No mapa geográfico do Alentejo, feito em 1777 pelo Sargento Mor Jozé Monteiro de Carvalho, oferecido à  Rainha Dª Maria I, regista a existência de um Forte Abaluartado na Vila Defesa de Ferreira. Este Forte, devido ao lugar assinalado no referido mapa, parece-nos ser o “Castro”, da Idade do Ferro, situado no Outeiro do Pombo, nas margens do rio Guadiana, na herdade da Defesa de Bobadela, acima da Cinza, do qual, ainda podemos observar algumas fortes paredes.
A Vila Defesa de Ferreira, que era o espaço geográfico da atual Freguesia de Capelins, exceto as herdades de Nabais e Sina, foi doada à Casa do Infantado no dia 21 de Abril de 1698, integrada na Casa de Bobadela, pelo Infante Francisco de Bragança, onde permaneceu até 18 de Março de 1834, quando aquela Casa foi extinta por D. Pedro IV, como evidência temos o Monte Grande, Monte de Ferreira, Monte do Escrivão e vários marcos de propriedade, nos quais ainda podemos observar o brazão do Estado do Infantado.
Nas Ribeiras de Lucefécit e Azevel, assim como no rio Guadiana existiam vários Moinhos de água, o mais velho situava-se junto à Vila de Ferreira Romana e tudo indica ser da época romana, mas estão todos submersos.
Também, no vale da Ribeira do Lucefécit e do rio Guadiana, devido às características da terra, da argila, existiram, pelo menos desde a época romana, fabrico de objetos de barro,  potes, telhas, tijolos e baldosas, até à década de 1960, existindo ainda ruínas de alguns fornos. 
A exploração do minério, iniciada pelos romanos, continuou até ao século XX, principalmente Ferro e Cobre, ainda podemos visitar a mina de ferro romana na herdade da Defesa de Ferreira.
A economia desta região baseou-se sempre na agro pecuária e, até 1976, no contrabando.
São muitos os segredos das terras de Capelins, alguns ainda por desvendar. Devido a ser Vila Defesa foi lugar de acolhimento de foragidos por delitos cometidos noutros lugares e que depois de entrarem aqui, não podiam ser presos para serem levados para outros lugares. Também foi lugar de acolhimento de judeus, de cristãos novos e de marranos, devendo-se a toponímia Capelins ao apelido ou profissão de uma Família Judaica, expulsa de Espanha em 1492, muito provavelmente de verdadeiro apelido Gomes (Gomez).
A Natureza destaca-se nestas terras, onde podemos observar muita fauna e flora que está quase extinta noutros lugares. Por todo a Freguesia de Capelins, mas principalmente nas imediações do Grande Lago, podemos observar muitas aves, como a rara Cegonha Preta (Ciconia nigra), das quais existem pouco mais de cem casais em Portugal e de rapina a planar em altitude moderada em frente aos nossos olhos. Facilmente se vislumbram, raposas cinzentas pertencentes à família Canidae e javalis (nome científico: Sus scrofa), também conhecido como javardo, porco-bravo, porco-monteiro e porco-montês (as fêmeas são conhecidas como javalina).

Na Primavera a paisagem é deslumbrante, os tapetes de flores de diversas cores, são um encanto. 
No Verão, durante a manhã, podemos passear, fazer caminhadas ou andar de bicicleta entre os montados de Sobreiros (Quercus suber) ou Azinheiras (Quercus ilex), ou ainda, visitar a sereníssima praia da liberdade, situada nas Portas D’ El – Rei, muito perto de Montes Juntos. 

Lugares arqueológicos acessíveis: 
1 - Mina Romana de Ferreira -Herdade da Defesa de Ferreira;
2 - Forte Romano no Outeiro dos Castelinhos - Herdade da Defesa de Ferreira;
3 - Pedreira de xisto romana, porto da Águas Frias de Baixo - Herdade da Defesa de Ferreira;
4 - Porto Romano da Águas Frias de Baixo (Submerso) - Via romana para Mérida, capital da Lusitânia - Herdade da Defesa de Ferreira;
5 - Lugar onde se situa o Moinho romano (Moinho Velho, submerso) - Herdade da Defesa de Ferreira;
6 - Lugar onde se encontra o Moinho das Neves (submerso) - Herdade da Defesa de Ferreira;
7 - Necrópole da Idade Média, 12 sepulturas escavadas na rocha - Herdade da Defesa de Ferreira;
8 - Ermida de Nossa Senhora das Neves, do século XVII - Herdade da Defesa de Ferreira; 
9 - Lugar da Vila de Ferreira Medieval e silo comunitário, Cabeço do Monte de Ferreira - Herdade da Defesa de Ferreira;
10 - Histórico Monte do Escrivão da Casa do Infantado, já antes habitado pelos romanos - Herdade da defesa de Ferreira;
11 - Necrópole na Herdade da Negra;
12 - Mina,  Necrópole e Forno no Roncão;
13 - Porta D' El - Rei - Praia da Liberdade;
14 - Mina e Sepultura na  Amadoreira;
15 - "Castro" da Idade do Ferro e lugares de povoados do período neo-calcolítico, na Defesa de Bobadela.


Capelins


segunda-feira, 3 de julho de 2017

291 - História da Vila de Alandroal, de Terena e de Capelins


O Alandroal é uma vila portuguesa pertencente ao Distrito de Évora, região do Alentejo e sub-região do Alentejo Central, com cerca de 1 900 habitantes. Ergue-se a 341 m de altitude.
O Alandroal foi elevado à categoria de vila em 1486, por uma Carta de Foral atribuída por D. João II. A vila inclui apenas a freguesia de Nossa Senhora da Conceição.

O Município

É sede de um município com 544,86 km² de área e 6 187 habitantes (2006), subdividido em 6 freguesias. O município é limitado a norte pelo município de Vila Viçosa, a leste por Espanha, a sul por Mourão e por Reguengos de Monsaraz e a oeste pelo Redondo. Ao concelho do Alandroal foram anexados, no século XIX, os territórios dos antigos municípios de Terena e Juromenha.
A povoação de Villarreal, situada no município de Olivença (Espanha), era uma povoação do antigo concelho de Juromenha.
O próprio Alandroal é uma das três vilas do concelho, sendo as outras Terena e Juromenha.

Alandroal















FOTO DE PORTUGUESE_EYES


Freguesias do Concelho de Alandroal:

Nossa Senhora da Conceição
Capelins (Santo António)
Juromenha (Nossa Senhora do Loreto)
São Brás dos Matos (Mina do Bugalho)
Santiago Maior (Alandroal)
Terena (São Pedro)



Nossa Senhora da Conceição

Orago Nossa Senhora da Conceição

Nossa Senhora da Conceição é uma freguesia portuguesa do concelho do Alandroal, com 156,60 km² de área e 1 938 habitantes (2001). Densidade: 12,4 hab/km². Tem o nome alternativo de Alandroal e inclui esta vila e a aldeia do Rosário.
Localizada no centro do concelho, a freguesia de Nossa Senhora da Conceição tem por vizinhos as freguesias de São Brás dos Matos (Mina do Bugalho) a nordeste, Capelins (Santo António) a sul e Terena (São Pedro) a sudoeste, o concelho de Vila Viçosa a norte e a Espanha a leste.
É a maior freguesia do concelho em área mas apenas a segunda em população e em densidade demográfica. 




Terena

CAPELA DA BOA NOVA OU CAPELA DE NOSSA SENHORA DA BOA NOVA OU SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO DA BOA NOVA EM TERENA


História

Trata-se de um santuário mariano bastante antigo, julgando-se que possa resultar da cristianização de cultos pagãos, visto que nas imediações da vila de Terena subsistem as ruínas do templo do Deus Endovélico. As referências históricas a este santuário remontam ao século XIII, uma vez que nas Cantigas de Santa Maria, do Rei Afonso X de Castela, existem algumas composições dedicadas a Santa Maria de Terena. O templo é obra do século XIV, possuindo a característica de ser um raro exemplar português de igreja-fortaleza que chegou praticamente intacto aos nossos dias. A origem da invocação Senhora da Boa Nova parece estar ligada à lenda da Formosíssima Maria (Dona Maria,Rainha de Castela), a filha do Rei D. Afonso IV de Portugal que se deslocou à corte portuguesa para solicitar a seu pai que auxiliasse o marido na Batalha do Salado. Reza a lenda que a Rainha se encontrava neste local, nas imediações de Terena, quando recebeu a boa notícia, daí tendo nascido a invocação Boa Nova. O culto mantém-se bastante vivo, sendo este santuário palco de uma grande romaria que se celebra no primeiro fim-de-semana posterior à Páscoa. A importância desta romaria na região é de tal importância que a Segunda-Feira de Pascoela (dia principal da festa) é o feriado municipal do concelho do Alandroal. O Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova foi classificado Monumento Nacional em 1910.


Exterior do templo

O Santuário é uma jóia da arquitectura religiosa do século XIV, templo-fortaleza de planta cruciforme, rara em Portugal, construído em forte cantaria granítica, coroado e ameias muçulmanas. Nas fachadas norte, sul e poente, abrem-se pórticos de arcos ogivais, góticos e estreitas frestas medievais, encimados por balcões defensivos, com matacães (por onde se jorravam líquidos a ferver, em caso de ataque), decorados com pedras de armas reais portuguesas. O conjunto da fachada principal é ainda enobrecido por singelo campanário, acrescentado no século XVIII. O templo era originalmente do padroado da Ordem de Avis, teve depois como donatários os Condes de Vila Nova (de Portimão).


CAPELA DE NOSSA SENHORA DA BOA NOVA



















Interior

Contrastando com o aspeto pesado exterior, o interior surpreende-nos pela singeleza das linhas góticas e pelo aspecto amplo da nave, de planta de cruz grega, coberta por abóbadas de arcos quebrados. Os alçados da nave foram decorados no século XIX por rodapé escaiolado e pinturas murais realizadas pelo pintor Silva Rato, de Borba, representando santos da devoção popular alentejana. O púlpito, de alvenaria, é da mesma época e levanta-se volumoso no transepto da igreja. Os altares colaterais, de São Brás e Santa Catarina, são de talha dourada do século XVIII.
Mais interessante é a decoração do presbitério, cuja abóbada está coberta de pinturas fresquistas representando os reis da primeira dinastia até D. Afonso IV e diversas cenas do Apocalipse de São João, obra mandada fazer pelos Condes de Vila Nova, Comendadores da Ordem de Avis. O retábulo, maneirista, do século XVI, conserva entalhados belíssimas tábuas de estilo maneirista flamenguizante representando a Anunciação e Assunção da Virgem, o Presépio, o Pentecostes e a Ressurreição de Cristo. Ao centro, em maquineta dourada expõe-se a venerada imagem de Nossa Senhora da Boa Nova, de roca, e com o Menino Jesus ao colo. Nesta capela se conservou acesa durante séculos a lâmpada votiva dos Duques de Bragança. Subsistem ainda no espaço algumas campas antigas e aras votivas do Deus Endonvélico, provenientes do templo de São Miguel da Mota, também na freguesia de Terena. 

Nossa Senhora da Boa Nova 
























Terena (São Pedro)

Terena é uma freguesia portuguesa do concelho do Alandroal, com 82,95 km² de área e 859 habitantes (2001). Densidade: 10,4 hab/km². A freguesia inclui esta localidade e Hortinhas. Tem o nome alternativo de São Pedro, sendo por vezes também conhecida como São Pedro de Terena.

Localizada no centro do concelho, a freguesia de Terena (São Pedro) tem por vizinhos as freguesias de Nossa Senhora da Conceição a nordeste, Capelins a sueste e Santiago Maior a sudoeste, e os concelhos do Redondo a oeste e de Vila Viçosa a norte.
É a 4ª freguesia do concelho em área, mas a 3ª em população e em densidade demográfica.
As origens da vila de Terena são muito antigas. O seu primeiro foral foi concedido no século XIII, sendo elaborado pelo Cavaleiro D. Gil Martins e sua mulher D. Maria João. Já no século XVI, em 10 de Outubro de 1514, o Rei D. Manuel I concedeu-lhe o Foral da leitura nova. A vila de Terena desempenhou um importante papel de defesa fronteiriça, através do seu castelo, que integrava a linha de defesa do Guadiana. No seu território desenvolveu-se desde tempos remotos o culto à Virgem Maria (possível fruto da cristianização de cultos pagãos), sendo o seu Santuário, hoje chamado da Boa Nova, já celebrado por Afonso X de Castela nas suas Cantigas de Santa Maria. O concelho de Terena, que abrangia as freguesias de Terena, Capelins e Santiago Maior, foi extinto em 1836, estando desde então integrado no concelho de Alandroal. O concelho tinha, de acordo com o recenseamento de 1801, 1 757 habitantes. Nos finais da década de 1970, foi construída nesta freguesia a Barragem do Lucefécit, que permitiu o desenvolvimento da agricultura de regadio nesta região. Nesta vila decorre anualmente, no Domingo e Segunda-Feira de Pascoela, a afamada e concorrida romaria de Nossa Senhora da Boa Nova.


Castelo de Terena
















FOTO DE PORTUGUESE_EYES



ANTIGOS PAÇOS DO CONCELHO DE TERENA


Os Antigos Paços do Concelho de Terena são um edifício histórico situados na vila de Terena, no concelho do Alandroal, distrito de Évora. Terena, que foi sede de concelho desde a Idade Média, possuíu certamente um anterior espaço destinado à sede do município, possivelmente no interior do castelo, mas o edifício actual data do século XVIII e fica situado na Rua Direita, junto à Igreja da Misericórdia e ao Pelourinho.
A fachada principal tem escada exterior (com corrimão e balaústre de mármore), com porta encimada pelo Escudo Real Português, também em mármore, do reinado de D. João V e duas janelas de sacada. No piso inferior funcionava o Celeiro Comum, estando o portão datado de 1882. Uma vez extinto o município de Terena (que era composto pelas freguesias de Terena, Santo António de Capelins e Santiago Maior), em 1836, o edifício (exceptuando o Celeiro Comum) foi cedido à irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Terena, que nele instalou o seu Hospital. No espaço de Celeiro Comum funcionaram, no século XX, a Junta de Freguesia de Terena e o Posto do Registo Civil da Freguesia. A Misericórdia (proprietária do imóvel) manteve o hospital aberto até à década de 1950, estando desde então o edifício encerrado, à espera de uma digna recuperação.

ANTIGOS PAÇOS DO CONCELHO DE TERENA




















A Torre do Relógio

A Torre do Relógio da vila de Terena, concelho de Alandroal, fica situada na Rua Direita, junto ao pelourinho e à Igreja da Misericórdia.
O primitivo relógio da vila ficava situado na torre de menagem do castelo, mas ficou danificado pelo terramoto de 1755, conforme narração do Pároco nas Memórias Paroquiais de 1758. Por esse motivo, em data incerta da segunda metade do século XVIII foi construída a actual torre destinada ao relógio mecânico que durante séculos marcou as horas da vila de Terena.
A torre, de cúpula hemisférica com pináculos nos acrotérios, eleva-se alterosa por entre o casario envolvente. Possui dois sinos antigos, o maior, destinado às horas, tem a seguinte inscrição:
"FOI. FEITO. A. 1773. SENDO. VEREAD. VELLADA.ROQVE.GALEGO. PROCVRADOR.VEDIGAL.ESCRIV.O BENAZOL".
O mostrador, voltado a poente, é de mármore e tem numeração romana.


Torre do Relógio





















FOTO DE ALENTEJANO




IGREJA MATRIZ DE SÃO PEDRO - TERENA



A Igreja Matriz de São Pedro, Paroquial de Terena fica situada num dos pontos mais elevados da vila, de cujo adro se desfruta amplo panorama. A igreja é muito antiga, já existia em 1394.
Segundo a tradição terá sido a segunda igreja paroquial da vila e sucedeu à primeira que era a igreja hoje conhecida por Santuário da Boa Nova.
Das origens, conservam-se as estátuas góticas do Padroeiro e de Santa Catarina Mártir, em mármore, expostas nos acrotérios da fachada principal. A Igreja Matriz foi depois alterada no século XVI, de cujo período são vestígios a ábside, de abóbada nervurada, coberta de azulejos do tipo maçaroca. No século XVIII foram executados o retábulo de talha dourada do altar-mor e o púlpito, em mármore. Neste período a igreja tinha quatro irmandades: Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora do Rosário, São Miguel e Ordem Terceira de São Francisco). O Prior era apresentado pela Coroa e tinha dois clérigos Beneficiados. Já no século XIX foram feitas outras obras da igreja, que deram à nave o aspecto actual, realizando-se as pinturas da abóbada e do arco da Capela-Mor, tendo sido acrescentado o coro e remodelados o Baptistério, que conserva a Pia antiga, a Capela do Santíssimo Sacramento e o Altar da Senhora do Rosário, entre outras modificações de menor importância.
Na Sacristia conserva-se o trípico de pintura do século XVI representando São Pedro, São Paulo e Santo André, que se crê ter sido o primitivo retábulo do altar-mor. 


IGREJA MATRIZ DE SÃO PEDRO - TERENA



















IGREJA DA MISERICÓRDIA - TERENA


A Igreja da Misericórdia, sede da irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Terena, fica situada na Rua Direita, no centro histórico da vila de Terena, concelho de Alandroal.
Embora não se conheça a data exacta da fundação da Misericórdia de Terena, sabe-se que deve ter ocorrido na segunda metade do século XVI, pois a abóbada da Capela-Mor da igreja é ainda do reinado de D.João III.
A fachada é muito simples, de empena triangular e portal marmóreo da segunda metade do século XVIII. O interior é de uma só nave, com coro lateral e púlpito de mármore. No alçado do lado do evangelho levantava-se a Galeria dos Mesários, de madeira entalhada. A capela-mor, de abóbada nervurada quinhentista, está revestida de pinturas murais do século XVIII, representando motivos florais. O retábulo é de talha dourada e marmoreada, decorada com as Armas Reais e os símbolos da Paixão de Cristo, expondo no Trono a imagem de roca do Senhor Jesus dos Passos.
Nos anexos da igreja situam-se as salas da Mesa e do consistório da Misericórdia. Presentemente a Misericórdia de Terena está sem actividade, encontrando-se a igreja muito arruinada e necessitando de restauro urgente. 

IGREJA DA MISERICÓRDIA - TERENA






















FOTO DE ALENTEJANO





PELOURINHO DE TERENA

O Pelourinho de Terena , símbolo do antigo poder municipal da vila, é uma obra do século XVI, reinado de D. João III.
É constituído por fuste e capitel de xisto, encimado por esfera marmórea. Fica situado na Rua Direita, junto à Torre do Relógio e à Igreja da Misericórdia.
Este pelourinho está classificado como Imóvel de Interesse Público, pelo IPPAR (Decreto 23122, DG 231 de 11 de Outubro de 1933). 


Pelourinho de Terena





























CAPELA DE SANTO ANTÓNIO - TERENA


A Capela de Santo António fica situada no Rossio da vila de Terena, concelho de Alandroal.
A ermida, de linhas arquitectónicas simples e do estilo popular alentejano, com fachada simples e característico telhado de linhas radiadas, assinalada no terreiro fronteiro por cruzeiro popular. A sua construção deveu-se à iniciativa de um grupo de fiéis encabeçado por João Nunes Ribeiro, Cavaleiro da Ordem de Cristo, no ano de 1657. A nave, pequena e em forma de rotunda copular tem púlpito de mármore e ferro forjado. O altar é de talha dourada do século XVII, albergando as imagens de Santo António, São Bento e São Vicente Ferrer. Presentemente serve de capela funerária da vila de Terena.

ERMIDA DE SÃO SEBASTIÃO - TERENA

A ermida de São Sebastião é um monumento religioso situado na freguesia de Terena (São Pedro), concelho de Alandroal, distrito de Évora. A ermida ergue-se à saída da vila, à beira do caminho que leva ao célebre Santuário da Boa Nova. São desconhecidas as origens desta ermida, mas sabe que já existia no século XVI, pois figura na vista panorâmica que Duarte de Armas desenhou do castelo de Terena. Ao que tudo indica terá sido construída por iniciativa da câmara da vila, a exemplo do que se passou com muitas das suas congéneres ermidas de concelhos vizinhos, e dedicada a São Sebastião, o santo protector contra a fome, a peste e a guerra. Este monumento é um bom exemplar da arquitectura popular religiosa rural alentejana, sendo a sua fachada unicamente decorada pelo singelo campanário. O interior, igualmente simples, de uma só nave, tem apenas um altar, onde se veneram as imagens do padroeiro, de São Pedro e de São Bartolomeu. Em 1870 o espaço envolvente desta ermida foi aproveitado para a construção do cemitério público, em cujo portão foi colocada a seguinte inscrição destinada à meditação dos transeuntes: Detem caminhante o Passo/A Humana condição chora/Olha-te bem neste espelho/Vê o que és e vai-te embora. 

Capela de Santo António - Terena




















FREGUESIA DE CAPELINS (SANTO ANTÓNIO)


Área
- Total 86,57 km2
População (2001)
- Total 673
- Densidade 7,8/km2 

Orago Santo António

Capelins é uma freguesia portuguesa do concelho do Alandroal, com 86,57 km² de área e 673 habitantes (2001). Densidade: 7,8 hab/km². Tem o nome alternativo de Santo António, sendo que o nome oficial da freguesia é Capelins (Santo António).
Localizada na extremidade sueste do concelho, a freguesia de Capelins tem por vizinhos as freguesias de Santiago Maior a oeste, Terena a noroeste e Nossa Senhora da Conceição a norte, os municípios de Mourão a sueste e Reguengos de Monsaraz a sudoeste e a Espanha a leste.
É a 3ª freguesia do concelho em área, a 4ª em população e também a 4ª em densidade demográfica.
Esta freguesia pertenceu, até 1836, ao extinto concelho de Terena. Fazem parte desta freguesia os aglomerados populacionais de Ferreira de Capelins e Montes Juntos. 


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domingo, 2 de julho de 2017

290 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
O Contrabando nas terras de Capelins, um passado esquecido 
Documentos antigos confirmam a existência secular do contrabando nas terras de Capelins, desde a formação da fronteira entre Portugal e Espanha e, na Idade Média era principalmente de gado e cereais. O contrabando, neste caso, caracterizava-se pela passagem clandestina de bens e mercadorias, entre Portugal e Espanha, para evitar o pagamento de taxas alfandegárias e foi entre 1935 e 1976, que o contrabando irrompeu aqui em larga escala.
A pobreza e o desemprego que afligiam portugueses e espanhóis foram decisivos para o envolvimento de muitas pessoas, principalmente desfavorecidos, no contrabando. Foi a miséria nestas terras de Capelins e a Guerra Civil espanhola que despoletaram um intenso vaivém dos dois lados da fronteira, em busca da sobrevivência. De cá para lá o que mais levavam era café camelo e por consequência da guerra, algumas outras mercadorias eram levadas para Espanha, enquanto a bombazina e mais tarde botas para homem eram trazidas para Portugal. Indivíduos de todas as idades contrabandeavam para sobreviverem.
A Guarda Fiscal e os carabineiros tinham por missão contrariar esta atividade, procedendo a perseguições, prisões e até a mortes, (em espanha). Ao longo da fronteira existiam postos da Guarda Fiscal em lugares altos e, toda a área nas proximidades do rio Guadiana era vigiada de noite e dia. Na Freguesia de Capelins existiam dois postos, sendo um em Montes Juntos, do qual os guardas saiam e vigiavam o espaço geográfico entre a foz da Ribeira do Lucefécit até cerca da Moinhola (Defesa de Bobadela) e outro no Azinhal Redondo de Baixo (Roncanito), denominado Miguéns, de onde vigiavam a restante linha de fronteira nesta Freguesia, da Moinhola ao Moinho do Gato, na foz da Ribeira do Azevel. Assim, e porque existiam contrabandistas, tinha de existir a Guarda Fiscal, logo sem o transporte ilegal de bens teriam a profissão ameaçada, ou seja, os guardas só existiam, porque existiam contrabandistas!
Fazer contrabando significava correr grandes riscos. O afogamento, na travessia do rio Guadiana, durante o transporte noturno em noites e madrugadas invernosas de chuva e frio, o risco de ser preso e havia os tiros, por vezes certeiros. 
Os riscos corridos eram o preço do desespero, mas também da audácia. A audácia, a ousadia, foram fundamentais no contrabando. Muitos homens arriscaram-se sozinhos, a maioria organizou-se em grupos. A organização do contrabando passava por entendimentos de segredo e solidariedade que contribuíam para desenvolver localmente comércios e estatutos sociais. 
Os principais aliados dos contrabandistas eram os moleiros, dos Moinhos do rio Guadiana, os quais, além de colaborarem em termos logísticos, com informações sobre o paradeiro da Guarda Fiscal, também eram eles que passavam os contrabandistas e as mercadorias, nos seus pequenos barcos, entre uma e a outra margem do rio.
O contrabando marca o património e a memória do povo das terras de Capelins e das localidades vizinhas de além Guadiana, como Cheles, Alconchel, São Benito, São Jorge de Alor, Almendra, Almendralejo, Olivença, Barcarota e outras! 
Muitos são os relatos e testemunhos de quem praticou o contrabando, muitas histórias do contrabando, algumas, ainda hoje contadas por contrabandistas das terras de Capelins!

Moinho no rio Guadiana, em Capelins 



sábado, 24 de junho de 2017

289 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos  
História, lendas, mitos e contos das Sereníssimas terras de Capelins 
A lenda da Ti Maria das Candeias e o Pão com Azeitonas do Ti Manoel Lopes 
No decénio de 1830, a Ti Maria das Candeias e o seu marido o Ti Manoel Lopes, moravam no Monte do Manantio, (depois Montejuntos), era uma família de seareiros, com vida normal na época e criaram cinco filhos que, entretanto já tinham debandado para casas próprias. A Ti Maria das Candeias, teve sempre fama de ser má, mas ninguém esperava que ela fizesse o que fez ao marido. O Ti Manoel Lopes, tinha uma courela no Carrão, mas também explorava outras, ao terço ou ao quarto (em que a terra era de um lavrador que permitia aos seareiros lá semearem e, depois na colheita, em cada três ou quatro partes, uma era para o dono da terra). O Ti Manoel todos os dias, de madrugada, atrelava a mula à carroça e partia a trabalhar nas courelas, levava o jantar (almoço) e só voltava ao Monte do Manantio já de noite, metia a mula no "cabanão" enchia a manjedoura de palha, para ela comer durante a noite e corria para casa onde a mesa já estava posta e as sopas de grão, de couve ou repolho, de feijão, ou uma açorda de favas, de feijão carêto, de beldroegas ou outra, estavam prontas a saltar para cima da mesa e o ti Manoel, já cheio de fome, depressa as comia e deitava-se, porque pelas quatro horas da manhã tinha de se levantar, comer e partir. Uma noite, o Ti Manoel, depois de arrumar o realejo, entrou em casa com os olhos postos na mesa, mas  não via nada para comer, então perguntou à Ti Maria o que era a ceia? E ela respondeu: Olha, come um bocadinho de pão com azeitonas! O Ti Manoel, não gostou, mas não teve outro remédio, comeu pão e azeitonas e deitou-se. Na madrugada seguinte, na hora de almoço (pequeno almoço) nada de açorda, nada de caldo, nada molhado para comer, voltou ao pão com azeitonas, chegou à hora do jantar (almoço) abriu a alcofa e ficou espantado, a Ti Maria tinha-lhe aviado pão com azeitonas, à noite a mesma coisa, o Ti Manoel já não se calou, zangou-se com a Ti Maria, disse-lhe que assim não podia ser, mas a Ti Maria, como era má, atirou-se a ele dizendo-lhe que havia por ali muita gente que nem pão com azeitonas tinham para comer e mais isto e mais aquilo e o Ti Manoel teve de se calar, mas no dia seguinte começou a contar aos vizinhos, filhos e amigos o que se estava passando, então todos falaram com ela e cada vez que entravam em casa ou estava refastelada numa cadeira ou comendo as sopas que habitualmente eram para os dois, depois dizia ao Ti Manoel que não comia nada, que já tinha comido qualquer coisa, mas afinal comia tudo ao homem, não podia estar boa da cabeça, era caso para ser resolvido pela bruxa, diziam os vizinhos e o Ti Manoel foi consultar a bruxa de Terena, contou-lhe o que se estava a passar e pediu-lhe ajuda. A bruxa depois de o ouvir disse-lhe que ia fazer umas mesinhas e que dentro de oito dias o Ti Manoel começava a comer bem. A Ti Maria continuo a fazer as sopas e antes do Ti Manoel chegar, comia tudo, mas um dia ao sentar-se à mesa começou a ouvir vozes que lhe diziam: "sua desenvergonhada como trata o marido", "sua gulosa, sua comilona" e outras palavras que lhe entoavam no cérebro, como não sabia de onde vinham as vozes saia de casa a correr à procura de quem assim falava, mas não via ninguém e, devido a isso perdia o apetite, deixando a comida para o Ti Manoel que já andava muito enfraquecido, ao contrário da Ti Maria das Candeias, que comia tudo e já tinha dificuldade em se movimentar, mas felizmente tudo  voltou ao normal e o Ti Manoel começou a encher a barriguinha de sopinhas! 
Nunca se soube se foi maldade da Ti Maria, ou se foi algum problema mental! 

Manantio - Montejuntos 



sexta-feira, 23 de junho de 2017

288 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

Com o devido respeito transcrevemos este artigo do Jornal publico de 2010, mas que continua muito atualizado

Faleiros a árvore seca sugere um destino

RITA RANHOLA 13/06/2010 - 00:00
Há quem aqui sempre tenha vivido, mas também há os que vieram ou regressaram para contrariar a "luta desigual" com o Estado, que quer acabar com as aldeias
Uma imponente árvore, apesar de já seca, ergue-se à entrada da pequena aldeia de Faleiros, "perdida" no interior alentejano, onde cerca de uma dúzia de pessoas ainda "teima" em viver, incluindo um casal luso-inglês que ali criou "raízes".
"Num raio de 35 quilómetros, tenho bancos, hospital, lojas, supermercado, advogados. Tudo o que preciso para viver está aqui, no Alentejo", diz Peter Bernthal, de 62 anos. Alto e esguio, como a árvore, e de barbas brancas, o inglês e a mulher, a portuguesa Fernanda, dois anos mais nova, são dos poucos moradores desta aldeia da freguesia de Capelins (Santo António), no concelho de Alandroal. O casal recuperou uma casa comprada em 2002 e até tem um turismo rural que recebe visitantes dos vários "confins" do mundo, mas não atrai nacionais: "Os únicos portugueses que cá vêm são amigos nossos".
"Uma vez, telefonou um português e a primeira coisa que perguntou foi se havia televisão no quarto. E outro queria saber se tínhamos televisão por cabo. Eu disse que não", relata Fernanda, que viveu em Angola e, no Alentejo, reencontrou a "imensidão" dessa sua outra pátria africana.
Os primeiros turistas foram americanos, "à procura de cultura e monumentos", mas já por ali passaram belgas, ingleses, holandeses e até "uma rapariga da Coreia do Sul".
Preferindo expressar-se na língua do país que o acolheu, depois de partir "sem destino" de Rochester, no Sul de Inglaterra, há mais de uma década, Peter gostava de ver um maior apoio ao turismo no Alandroal.
"A última fábrica que abriu no Alandroal foi há 24 anos... O turismo é muito importante e podia dar trabalho à gente nova", defende o inglês, apaixonado pela sua casa alentejana, com "tectos brancos com barrotes pretos de madeira" e "uma chaminé para nos sentarmos lá dentro", que lhe evocam as "casas dos ricos" da sua região natal.
Mas é com tristeza que Peter Bernthal diz assistir ao abandono do interior português: "Vai tudo para Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve. Até parece obrigatório, mas as pessoas, aí, não têm condições de vida".
Do lote dos muitos alentejanos que tentaram a sua sorte nos arredores de Lisboa, fizeram parte António João Almas Veva, de 61 anos, natural da sede de freguesia, Montejuntos, e a sua mulher, Isabel do Carmo, de 56 anos, "nascida e criada" em Faleiros.
Acabaram por regressar à aldeia de Isabel nos anos de 1980, desiludidos com o fecho da fábrica onde trabalhava António João, que é agora vendedor ambulante de fruta no concelho.
"Antes, isto estava tudo habitado. Agora, não devemos ser mais de uma dúzia", diz Isabel do Carmo, enquanto olha, atenta à oferta, para o interior da carrinha da vendedora ambulante de peixe que acaba de chegar à aldeia, como é hábito todas as semanas.
Do outro lado da estrada que "corta" a aldeia em duas partes, está a escola primária de que foi aluna, na altura acompanhada por "mais uns 17 ou 18 gaiatos". Há "mais de 20 anos" que foi desactivada e, numa terra onde as crianças são raras, é a actual sede de uma associação de caça e pesca. "Para vizinhos ruins, mais vale estar só", brinca Isabel, sem pensar em deixar a sua casa, enquanto António João traça o destino: "Nem que sejamos os últimos, ficamos cá até morrer".
O jovem Arlindo Dias, de 33 anos, está no primeiro mandato como presidente da junta de freguesia, eleito pelo movimento independente que "conquistou" o município de Alandroal, e quer contrariar a "estagnação" a que a sua terra foi votada. Mas, com um orçamento anual reduzido, o presidente sabe que é "muito difícil" atrair moradores, apostando antes em "pequenas melhorias" benéficas para os que restam.
"Tenho o cuidado de ir de monte em monte perguntar às pessoas quais as suas necessidades e, aqui, vi que a entrada da aldeia, com pasto seco, está desaproveitada. Se plantarmos uma ou duas árvores e pusermos flores e um banco de jardim, este espaço fica mais simpático", sugere.
No interior do país, sobretudo quando se fecham escolas e outros serviços públicos, critica o autarca, trava-se uma "luta desigual contra o Estado", que "quer acabar com as aldeias e concentrar as pessoas todas nas grandes cidades".
"O interior está esquecido, mas, para o país ser de excelência, não podemos deixar morrer estes lugares e aldeias. É como uma árvore, que nasce por ter raízes. Até pode estar muito bonita, mas são as raízes que a alimentam e, se estas secam, mais tarde ou mais cedo a árvore morre", sentencia.
Agência Lusa 



segunda-feira, 19 de junho de 2017

287 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Lenda da Procissão de 1720 e o Milagre de Nossa Senhora das Neves
Durante as Festas de Nossa Senhora das Neves, aqui acodiam devotos das terras de Capelins e das vizinhas, incluindo de Espanha, a maioria de São Bento da Contenda. Estas Festas, como todas, ao longo dos tempos, misturavam parte religiosa com  pagã, ou seja, havia uma parte de diversão, com cante, poesia, jogos populares, atuações de grupos e bailes e a parte religiosa com missas cantadas e rezadas/faladas, meditação e a procissão, considerado o momento mais importante da Festa e que mais devotos aqui atraía. 
Conta esta lenda que no ano de 1720, a Procissão de Nossa Senhora das Neves, saiu da sua Igreja para cumprir o circuito de sempre, em volta do Lugar de Ferreira, que se situava no alto em frente onde hoje se ergue a Ermida. Chegou a hora e verificaram a formação de grande trovoada a sul, gerando grande burburinho, os padres e outros responsáveis começaram a conferenciar para decidir se deviam, ou não, dar continuidade à Procissão, as opiniões eram muito diferentes, uns diziam que a trovoada estava longe e não podiam deixar de a fazer visto a maioria das pessoas terem vindo de tão longe e ninguém tinha a certeza se a trovoada passava por ali, já rezavam a Nossa Senhora das Neves e a Santa Bárbara para afastar a trovoada para bem longe dali. Por fim, decidiram que a procissão seria realizada e com a banda de música já a tocar, as imagens e pendões das Irmandades nos seus lugares, os devotos começaram a andar. A trovoada estava cada vez mais próxima, eram relâmpagos e trovões, uma tempestade, como nunca tinham visto, mas todos continuavam em frente rezando fervorosamente e com muita fé, sempre esperando chuva torrencial sobre eles, a qual nunca chegou. A procissão fez o mesmo percurso de sempre e quando chegaram à Igreja a tempestade tinha passado e o comentário era geral, todos diziam: "Foi uma trovoada seca", não choveu uma gota, mas estavam enganados e só souberam o que se tinha passado, após algumas pessoas se afastarem do lugar onde tinha decorrido a procissão e viram que por todo o lado havia água em abundância, toda a gente foi ver e acreditaram que foi um milagre de Nossa Senhora das Neves! 

Procissão de Nossa Senhora das Neves 1978


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...