sábado, 24 de junho de 2017

289 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos  
História, lendas, mitos e contos das Sereníssimas terras de Capelins 
A lenda da Ti Maria das Candeias e o Pão com Azeitonas do Ti Manoel Lopes 
No decénio de 1830, a Ti Maria das Candeias e o seu marido o Ti Manoel Lopes, moravam no Monte do Manantio, (depois Montejuntos), era uma família de seareiros, com vida normal na época e criaram cinco filhos que, entretanto já tinham debandado para casas próprias. A Ti Maria das Candeias, teve sempre fama de ser má, mas ninguém esperava que ela fizesse o que fez ao marido. O Ti Manoel Lopes, tinha uma courela no Carrão, mas também explorava outras, ao terço ou ao quarto (em que a terra era de um lavrador que permitia aos seareiros lá semearem e, depois na colheita, em cada três ou quatro partes, uma era para o dono da terra). O Ti Manoel todos os dias, de madrugada, atrelava a mula à carroça e partia a trabalhar nas courelas, levava o jantar (almoço) e só voltava ao Monte do Manantio já de noite, metia a mula no "cabanão" enchia a manjedoura de palha, para ela comer durante a noite e corria para casa onde a mesa já estava posta e as sopas de grão, de couve ou repolho, de feijão, ou uma açorda de favas, de feijão carêto, de beldroegas ou outra, estavam prontas a saltar para cima da mesa e o ti Manoel, já cheio de fome, depressa as comia e deitava-se, porque pelas quatro horas da manhã tinha de se levantar, comer e partir. Uma noite, o Ti Manoel, depois de arrumar o realejo, entrou em casa com os olhos postos na mesa, mas  não via nada para comer, então perguntou à Ti Maria o que era a ceia? E ela respondeu: Olha, come um bocadinho de pão com azeitonas! O Ti Manoel, não gostou, mas não teve outro remédio, comeu pão e azeitonas e deitou-se. Na madrugada seguinte, na hora de almoço (pequeno almoço) nada de açorda, nada de caldo, nada molhado para comer, voltou ao pão com azeitonas, chegou à hora do jantar (almoço) abriu a alcofa e ficou espantado, a Ti Maria tinha-lhe aviado pão com azeitonas, à noite a mesma coisa, o Ti Manoel já não se calou, zangou-se com a Ti Maria, disse-lhe que assim não podia ser, mas a Ti Maria, como era má, atirou-se a ele dizendo-lhe que havia por ali muita gente que nem pão com azeitonas tinham para comer e mais isto e mais aquilo e o Ti Manoel teve de se calar, mas no dia seguinte começou a contar aos vizinhos, filhos e amigos o que se estava passando, então todos falaram com ela e cada vez que entravam em casa ou estava refastelada numa cadeira ou comendo as sopas que habitualmente eram para os dois, depois dizia ao Ti Manoel que não comia nada, que já tinha comido qualquer coisa, mas afinal comia tudo ao homem, não podia estar boa da cabeça, era caso para ser resolvido pela bruxa, diziam os vizinhos e o Ti Manoel foi consultar a bruxa de Terena, contou-lhe o que se estava a passar e pediu-lhe ajuda. A bruxa depois de o ouvir disse-lhe que ia fazer umas mesinhas e que dentro de oito dias o Ti Manoel começava a comer bem. A Ti Maria continuo a fazer as sopas e antes do Ti Manoel chegar, comia tudo, mas um dia ao sentar-se à mesa começou a ouvir vozes que lhe diziam: "sua desenvergonhada como trata o marido", "sua gulosa, sua comilona" e outras palavras que lhe entoavam no cérebro, como não sabia de onde vinham as vozes saia de casa a correr à procura de quem assim falava, mas não via ninguém e, devido a isso perdia o apetite, deixando a comida para o Ti Manoel que já andava muito enfraquecido, ao contrário da Ti Maria das Candeias, que comia tudo e já tinha dificuldade em se movimentar, mas felizmente tudo  voltou ao normal e o Ti Manoel começou a encher a barriguinha de sopinhas! 
Nunca se soube se foi maldade da Ti Maria, ou se foi algum problema mental! 

Manantio - Montejuntos 



sexta-feira, 23 de junho de 2017

288 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

Com o devido respeito transcrevemos este artigo do Jornal publico de 2010, mas que continua muito atualizado

Faleiros a árvore seca sugere um destino

RITA RANHOLA 13/06/2010 - 00:00
Há quem aqui sempre tenha vivido, mas também há os que vieram ou regressaram para contrariar a "luta desigual" com o Estado, que quer acabar com as aldeias
Uma imponente árvore, apesar de já seca, ergue-se à entrada da pequena aldeia de Faleiros, "perdida" no interior alentejano, onde cerca de uma dúzia de pessoas ainda "teima" em viver, incluindo um casal luso-inglês que ali criou "raízes".
"Num raio de 35 quilómetros, tenho bancos, hospital, lojas, supermercado, advogados. Tudo o que preciso para viver está aqui, no Alentejo", diz Peter Bernthal, de 62 anos. Alto e esguio, como a árvore, e de barbas brancas, o inglês e a mulher, a portuguesa Fernanda, dois anos mais nova, são dos poucos moradores desta aldeia da freguesia de Capelins (Santo António), no concelho de Alandroal. O casal recuperou uma casa comprada em 2002 e até tem um turismo rural que recebe visitantes dos vários "confins" do mundo, mas não atrai nacionais: "Os únicos portugueses que cá vêm são amigos nossos".
"Uma vez, telefonou um português e a primeira coisa que perguntou foi se havia televisão no quarto. E outro queria saber se tínhamos televisão por cabo. Eu disse que não", relata Fernanda, que viveu em Angola e, no Alentejo, reencontrou a "imensidão" dessa sua outra pátria africana.
Os primeiros turistas foram americanos, "à procura de cultura e monumentos", mas já por ali passaram belgas, ingleses, holandeses e até "uma rapariga da Coreia do Sul".
Preferindo expressar-se na língua do país que o acolheu, depois de partir "sem destino" de Rochester, no Sul de Inglaterra, há mais de uma década, Peter gostava de ver um maior apoio ao turismo no Alandroal.
"A última fábrica que abriu no Alandroal foi há 24 anos... O turismo é muito importante e podia dar trabalho à gente nova", defende o inglês, apaixonado pela sua casa alentejana, com "tectos brancos com barrotes pretos de madeira" e "uma chaminé para nos sentarmos lá dentro", que lhe evocam as "casas dos ricos" da sua região natal.
Mas é com tristeza que Peter Bernthal diz assistir ao abandono do interior português: "Vai tudo para Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve. Até parece obrigatório, mas as pessoas, aí, não têm condições de vida".
Do lote dos muitos alentejanos que tentaram a sua sorte nos arredores de Lisboa, fizeram parte António João Almas Veva, de 61 anos, natural da sede de freguesia, Montejuntos, e a sua mulher, Isabel do Carmo, de 56 anos, "nascida e criada" em Faleiros.
Acabaram por regressar à aldeia de Isabel nos anos de 1980, desiludidos com o fecho da fábrica onde trabalhava António João, que é agora vendedor ambulante de fruta no concelho.
"Antes, isto estava tudo habitado. Agora, não devemos ser mais de uma dúzia", diz Isabel do Carmo, enquanto olha, atenta à oferta, para o interior da carrinha da vendedora ambulante de peixe que acaba de chegar à aldeia, como é hábito todas as semanas.
Do outro lado da estrada que "corta" a aldeia em duas partes, está a escola primária de que foi aluna, na altura acompanhada por "mais uns 17 ou 18 gaiatos". Há "mais de 20 anos" que foi desactivada e, numa terra onde as crianças são raras, é a actual sede de uma associação de caça e pesca. "Para vizinhos ruins, mais vale estar só", brinca Isabel, sem pensar em deixar a sua casa, enquanto António João traça o destino: "Nem que sejamos os últimos, ficamos cá até morrer".
O jovem Arlindo Dias, de 33 anos, está no primeiro mandato como presidente da junta de freguesia, eleito pelo movimento independente que "conquistou" o município de Alandroal, e quer contrariar a "estagnação" a que a sua terra foi votada. Mas, com um orçamento anual reduzido, o presidente sabe que é "muito difícil" atrair moradores, apostando antes em "pequenas melhorias" benéficas para os que restam.
"Tenho o cuidado de ir de monte em monte perguntar às pessoas quais as suas necessidades e, aqui, vi que a entrada da aldeia, com pasto seco, está desaproveitada. Se plantarmos uma ou duas árvores e pusermos flores e um banco de jardim, este espaço fica mais simpático", sugere.
No interior do país, sobretudo quando se fecham escolas e outros serviços públicos, critica o autarca, trava-se uma "luta desigual contra o Estado", que "quer acabar com as aldeias e concentrar as pessoas todas nas grandes cidades".
"O interior está esquecido, mas, para o país ser de excelência, não podemos deixar morrer estes lugares e aldeias. É como uma árvore, que nasce por ter raízes. Até pode estar muito bonita, mas são as raízes que a alimentam e, se estas secam, mais tarde ou mais cedo a árvore morre", sentencia.
Agência Lusa 



segunda-feira, 19 de junho de 2017

287 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Lenda da Procissão de 1720 e o Milagre de Nossa Senhora das Neves
Durante as Festas de Nossa Senhora das Neves, aqui acodiam devotos das terras de Capelins e das vizinhas, incluindo de Espanha, a maioria de São Bento da Contenda. Estas Festas, como todas, ao longo dos tempos, misturavam parte religiosa com  pagã, ou seja, havia uma parte de diversão, com cante, poesia, jogos populares, atuações de grupos e bailes e a parte religiosa com missas cantadas e rezadas/faladas, meditação e a procissão, considerado o momento mais importante da Festa e que mais devotos aqui atraía. 
Conta esta lenda que no ano de 1720, a Procissão de Nossa Senhora das Neves, saiu da sua Igreja para cumprir o circuito de sempre, em volta do Lugar de Ferreira, que se situava no alto em frente onde hoje se ergue a Ermida. Chegou a hora e verificaram a formação de grande trovoada a sul, gerando grande burburinho, os padres e outros responsáveis começaram a conferenciar para decidir se deviam, ou não, dar continuidade à Procissão, as opiniões eram muito diferentes, uns diziam que a trovoada estava longe e não podiam deixar de a fazer visto a maioria das pessoas terem vindo de tão longe e ninguém tinha a certeza se a trovoada passava por ali, já rezavam a Nossa Senhora das Neves e a Santa Bárbara para afastar a trovoada para bem longe dali. Por fim, decidiram que a procissão seria realizada e com a banda de música já a tocar, as imagens e pendões das Irmandades nos seus lugares, os devotos começaram a andar. A trovoada estava cada vez mais próxima, eram relâmpagos e trovões, uma tempestade, como nunca tinham visto, mas todos continuavam em frente rezando fervorosamente e com muita fé, sempre esperando chuva torrencial sobre eles, a qual nunca chegou. A procissão fez o mesmo percurso de sempre e quando chegaram à Igreja a tempestade tinha passado e o comentário era geral, todos diziam: "Foi uma trovoada seca", não choveu uma gota, mas estavam enganados e só souberam o que se tinha passado, após algumas pessoas se afastarem do lugar onde tinha decorrido a procissão e viram que por todo o lado havia água em abundância, toda a gente foi ver e acreditaram que foi um milagre de Nossa Senhora das Neves! 

Procissão de Nossa Senhora das Neves 1978


domingo, 18 de junho de 2017

286 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Lenda do Menino Lenhador, Encurralado em Santa Luzia e o Milagre de Nossa Senhora das Neves
Como sabemos, a Igreja Matriz de Santa Maria, foi erguida cerca do ano de 1314, ao lado do lugar onde se encontra a atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, esta veio substituir a primitiva, nos últimos decénios de 1600.
Foram muitos os milagres atribuídos a Nossa Senhora das Neves, cujos testemunhos de moradores das terras de Capelins e de terras vizinhas, se perderam no tempo.
Este caso, passou-se no final do mês de Abril do ano de 1696, e envolveu um menino de 9 anos de idade, chamado António, filho de uma família pobre, constituída pelos pais e cinco filhos que residiam num pequeno Monte no Roncão. Os filhos mais velhos trabalhavam de sol a sol, com os pais na agricultura por conta de lavradores e, os mais novos, ou andavam em ajudantes de ganadeiros ou, se ainda estavam em casa tinham uma missão a cumprir. O António enquanto esperava vaga para ajudante de pastor, tinha de carregar lenha para casa, das redondezas e por vezes de lugares mais distantes, como aconteceu numa tarde que teve de ir à lenha à herdade de Santa Luzia, onde havia muita, mas tinha de atravessar a Ribeira do Lucefécit num pequeno barco feito de tábuas velhas, mas que era usado muitas vezes para ligar as duas margens da Ribeira, quando esta tinha maior caudal, como aconteceu naquele dia, devido às grandes chuvadas verificadas nesse mês de Abril. O António, passou rapidamente no barco, do lado do Roncão para Santa Luzia, prendeu-o a uns arbustos e afastou-se a juntar lenha para fazer um bom feixe, andou algum tempo naquela azáfama e voltou com a lenha ao lugar onde tinha deixado o barco, mas quando chegou não o encontrou e pensou que talvez estivesse enganado no sitio, descarregou a lenha e percorreu várias vezes a margem da Ribeira para baixo e para cima até que ficou convencido que o barco tinha sido levado pela corrente e entrou em desespero, porque, embora soubesse nadar, a corrente estava muito forte e ele tão pequeno e franzino, assim não conseguia passar a nado, então começou a pedir ajuda, gritou, gritou, mas ninguém o ouviu e estava a começar a escurecer, o medo do António era dos lobos, porque havia muitos em Santa Luzia, ele não tinha nada para se defender e pressentia que não iam demorar em aparecer, passaram-lhe muitas ideias pela cabeça, podia subir a Ribeira até ao Bufo e encontrar aí um lugar onde pudesse passar a nado, mas havia muito mato e ficou com medo de sair dali, até que se lembrou de rezar e pedir ajuda a Nossa Senhora das Neves, para diminuir o caudal e ele poder passar a nadar, ou para aparecer alguém que o ajudasse, então rezou, rezou, com os olhos postos na corrente, mas esta não diminuía, até que apareceu levado pela corrente um grande feixe de lenha, mesmo igual ao dele, sem se afundar, desceu uns cinquenta metros e foi encalhar na outra margem e fez-se luz na cabeça do António, percebeu o sinal, pegou no feixe de lenha dele colocou-o na água, deitou-se por cima dele e verificou que não se afundava, começou a remar com as mãos e não demorou em entrar na corrente que imediatamente o arrastou em grande velocidade mais de cem metros, até que perdeu a velocidade e ficou quase parado num pego mais largo, antes da foz do Ribeiro do Carrão, o António começou novamente a remar com as mãos e aproximou-se da margem direita da Ribeira, num lugar onde estava encalhado o seu barco, saiu de cima da lenha, tirou-a da água, prendeu bem o barco e foi para casa, onde a família já estava preocupada por ele não aparecer. O António, não contou o que se tinha passado, apenas disse que tinha andado a apanhar lenha e que se tinha demorado mais do que esperava, mas não lhe saía da cabeça a visão do feixe de lenha na corrente, no momento em que rezava e que por isso se salvou de ser devorado pelos lobos, estava claro que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves!
A partir desse dia, a sua devoção por Nossa Senhora das Neves era tanta, que acabou por confessar à família o acontecimento daquela tarde, já mais para a noite, em que tinha ficado encurralado em Santa Luzia, todos o ouviram e reconheceram o milagre!





sábado, 17 de junho de 2017


285 - Terras de Capelins 

Primeira Travessia Pedestre, na Diagonal, em Passeio, da Freguesia de Capelins - De Santa Clara - Azenhas D' El - Rei, em 14 de Maio de 2017 
No dia 14 de Maio de 2017, conforme planeado, pelas 09:15 horas, demos início à primeira travessia pedestre, na diagonal, em passeio, da Freguesia de Capelins, com saída do cruzamento da estrada de Reguengos para Cabeça de Carneiro e Monsaraz, este lugar, noutros tempos, era designado por "curva", a partir daqui existia um caminho milenar, que permitia chegar de/a Ferreira de Capelins, passando a norte do Monte da Sina ou pela Igreja de Santo António e chegar mais rapidamente a Santiago Maior, Montoito, Reguengos e outras localidades, com as carroças, charretes, cavalos, burros ou a pé, mas parte desse caminho já desapareceu, assim, seguimos cerca de trezentos metros pela estrada para Cabeça de Carneiro e passámos junto ao lugar onde se juntam as três Freguesias: Capelins Santo António, Santiago Maior e São Pedro (Terena), logo a seguir, à esquerda surgiu uma porteira na cerca de arame farpado e outro, que nos permitiu seguir por um caminho milenar, pela propriedade designada por Fontanas e que intercetava o descrito anteriormente, junto à herdade da Sina. Através deste caminho, já com poucos troços visíveis demos entrada na Freguesia de Capelins e seguimos, observando tudo o que a vista alcançava, ao perto e ao longe, em direção à histórica Serra da Sina, antiga montaria do reino, desde D. João I, onde chegámos e atravessámos em menos de uma hora, ainda avistámos a Igreja de Santo António, mas seguimos pela herdade das Areias, pensando seguir em linha quase reta para Montejuntos, mas ao chegarmos aqui, deparamos com uma manada de vacas a pastar, onde existiam algumas de braveza duvidosa, senão bravas, que nos obrigaram a mudar o rumo para a esquerda e entrar na herdade do Terraço, foi uma volta mais longa, que nos atrasou pelo menos meia hora, até à herdade do Seixo e, daqui passamos para o Baldio, até à estrada de Cabeça de Carneiro - Montejuntos, que atravessamos cerca das 12:00 horas. Seguimos pela estrada pavimentada para as Azenhas D' El-Rei, mas após passarmos o Monte da Amadoreira Velha, virámos à direita na horta da Amadoreira (do Pisco), pelo antigo caminho do Bolas, onde chegamos cerca das 13:00 horas, dali subimos até à praia da liberdade, no entanto, fomos obrigados a saltar três cercas de arame, porque desapareceram os antigos caminhos, depois fomos o mais próximo que nos permitiram do nosso objetivo, ou seja, as Azenhas D' El-Rei onde, pelas 13:30 horas, finalizamos o nosso agreste passeio! 

Logo aqui, começa a Freguesia de Capelins Santo António



sábado, 10 de junho de 2017

284 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A Lenda da Partida do Ti Xico Charrua ao Ti Pedro Louceiro 

O Ti Xico Charrua era um taberneiro, dono de uma taberna que existiu em Capelins de Baixo, cerca do ano de 1836, que veio de Vila Viçosa com a sua família à procura das oportunidades anunciadas nas terras de Capelins, para onde vieram muitas famílias, devido à partilha das herdades em courelas, que foram vendidas ou arrendadas aos seareiros. O Ti Xico Charrua vendia vinho, aguardente e pouco mais, às vezes algum licor e não havia mais nada, porque, também ninguém comprava mais nada, também gostava de beber o seu copinho de vinho e dominava todas as conversas, sabia sempre mais do que os fregueses, como diziam, ficava sempre por cima, ninguém se atrevia a contrariá-lo, até ao dia em que chegou a Capelins de Baixo, o Ti Pedro Louceiro, natural do Redondo que vendia louça de barro, com o seu burro, pelos Montes e Aldeias, entre o Redondo e o rio Guadiana. Carregava o seu burro no Redondo, com panelas de vários tamanhos, tigelas de fogo, cântaros, cântarinhas, barris, barranhões, alguidares e algumas louças miúdas, dava essa volta e só voltava ao Redondo quando tivesse vendido tudo, carregava novamente e fazia sempre a mesma volta, algumas vezes ao contrário, se tivesse alguma encomenda de relevo, tarefas para as azeitonas ou azeite ou alguidares grandes. O primeiro embate de conversa entre o Ti Xico e o Ti Pedro, deu logo que falar na região, diziam que o Ti Xico não esteve à altura e teve de se calar, nem piava e mais isto e mais aquilo. Cada vez que o Ti Pedro entrava na taberna, o Ti Xico ficava irritado porque não se podia expandir e ficava retraído, os fregueses sabiam disso e alguns picavam, dizendo-lhe que o Ti Pedro sabia muito e sabia o que dizia e ele para não ficar envergonhado tinha de se calar. Aquela situação atormentava-o e começou a dar voltas à cabeça para encontrar uma maneira de o enrolar, mas o homem sabia mesmo muito e o caso estava difícil de resolver. Uma tarde, o Ti Pedro chegou com o burro carregado de louça e entrou na taberna, cumprimentou os presentes, puxou da sua bucha, um pão, azeitonas, toucinho, torresmos, uns figos secos, uma grande fartura para a época, era já a ceia (jantar), pediu um copo de vinho e comeu sem dizer nada. Entretanto começou a chover muito e fez-se de noite muito cedo, o Ti Pedro era para ir dormir ao Monte da Zorra, mas com tanta chuva começou com medo de se meter a caminho e pediu ao Ti Xico se podia dar-lhe guarida, no cabanão das burras, onde ele tinha uma tarimba com umas sacas de palha e servia para algum almocreve ou maltêz ali dormir. O Ti Xico não esperava aquele pedido, porque o Ti Pedro nunca ali tinha dormido, ficava sempre no Monte da Zorra ou da Negra, mas repentinamente viu a oportunidade da vingança e respondeu: Pode dormir ali, pode, e até pode dar palha da minha ao burro, mas em troca tem de me prometer uma coisa! 
- Ti Pedro: Então diga lá Ti Xico! 
- Ti Xico: Dorme ali na tarimba, no cabanão das minha burras, mas tem de me prometer que não se borra na cama! 
- Ti Pedro: Então, mas que conversa é essa, eu sou lá homem disso? 
- Ti Xico; Não sei, não era o primeiro, depois eu é que tenho de lavar as sacas da palha, por isso, é pegar ou largar, mas mais uma condição, no caso de se borrar na cama eu vou contar a toda a gente das terras de Capelins e arredores, está bem?
- Ti Pedro: Oh homem, se quer assim, está bem, já lhe disse que não sou pessoa para isso! 
- Ti Xico: Então vá, mas não esqueça o combinado, pode descarregar o burro, metê-lo no cabanão e se quiser pode deitar-se! 
- Ti Pedro: É Já mesmo agora, hoje estou muito cansado, abalei do Redondo de madrugada e ainda não parei, até amanhã e foi-se deitar! 
O Ti Xico, já tinha na ideia como seria a vingança e assim que fechou a taberna, foi a correr ao chiqueiro do porco, apanhou um pouco de cócó, para um caco, misturou-lhe água e farinha, misturou tudo bem, era um cheiro péssimo, empurrou muito devagarinho a porta do cabanão e logo à entrada já ouvia o Ti Pedro a ressonar, dormia profundamente, virado de lado. mesmo a jeito do Ti Xico lhe colocar o material por baixo das nádegas e saiu como entrou. Pela noite dentro, o Ti Pedro virou-se na tarimba e ficou todo envolvido na massa mal cheirosa, acordou muito aflito, cheirou-lhe logo muito mal, meteu lá a mão, levou ao nariz e exclamou alto: Ai minha mãe, já me borrei todo! E agora? Deixou-se ficar quietinho, a massa foi secando e logo de madrugada carregou o burro com a louça, meteu-se ao caminho, foi lavar-se ao ribeiro da estrada e seguiu de Monte em Monte a vender a sua louça. O Ti Xico, não contou nada a ninguém, mas os fregueses andavam desconfiados, por aquela mudança, nas conversas o Ti Pedro estava sempre ao lado do Ti Xico, que voltou a cantar de galo e quando o Ti Pedro o tentava contrariar ele olhava para ele e exclamava: Tarimba! Para o lembrar o que tinha acontecido na tarimba (cama), o outro mudava logo a conversa a seu favor. Anos mais tarde um compadre do Ti Xico perguntou-lhe o que se tinha passado, porque toda a gente sabia que ele tinha o Ti Pedro na mão e também queria saber o que queria dizer "Tarimba", que fazia corar o homem? Foi então que o Ti Xico contou tudo ao compadre e a partir daí soube-se pelas terras de Capelins, onde, ainda hoje, a palavra "Tarimba" significa, entre outras coisas, "cala-te", "põe-te a andar daqui"! 
O Ti Pedro louceiro, entretanto, deixou de aparecer a vender louça de barro, devido à sua idade e o Ti Xico Charrua continuou a cantar de galo na sua taberna em Capelins de Baixo!
Outros tempos! 



quinta-feira, 8 de junho de 2017

283 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da Perua do Rabo Alçado, Que Quase Acabou Num Assado 
Contam que, num sábado, nos finais do mês de Maio do ano de 1889, o Ti António Borralho, que morava em Capelins de Baixo, pelas 11 horas da noite vinha do Monte Santa Luzia, dormir a sua casa e fazer a mudança semanal da roupa. Como teve de deixar o gado tratado e de cear (jantar), acabou por se meter a caminho já tarde. Quando estava chegando ao alto do malhão começou a ouvir grande alarido de conversa de mulheres, ficou muito surpreendido, por andarem mulheres por ali àquela hora, ouvia as vozes cada vez mais perto mas não avistava ninguém e a curiosidade ia aumentando, quando lhe pareceu que já estavam muito perto, saiu da estrada e escondeu-se atrás de uma moita de arbustos e dali avistou três peruas a andar na sua direção e falavam como mulheres, ainda pensou que estava a sonhar e deu uma palmada na própria face para se certificar que estava acordado, em poucos minutos vieram-lhe muitas ideias à cabeça, talvez as vozes fossem de mulheres que viessem atrás das peruas e sem noção do que estava a fazer, meteu os dedos na boca e deu um forte assobio dobrado, as peruas assustaram-se e levantaram voo, duas passaram-lhe por cima, mas uma que tinha o rabo muito pesado foi-lhe cair mesmo em cima. O Ti António, apercebeu-se que era mesmo uma bela e gorda perua e meteu-a logo debaixo do braço, continuando o seu caminho para Capelins de Baixo, fazendo planos de como seria o bom almoço de ensopado ou assado de perua no dia seguinte. As peruas eram feiticeiras que moravam em Capelins de Cima e em Capelins de Baixo e que nessa noite tinham sido convocadas pelo mafarrico para o baile no pego da azinheira, na Ribeira do Lucefécit, um lugar ensombrado, onde tinham de estar à meia noite em ponto, quando iam a subir a estrada do malhão, uma alertou as restantes para o risco que estavam a correr, podiam ser vistas por alguém e o melhor seria transformarem-se em peruas, porque se fosse preciso, depressa se escondiam nas searas ou podiam voar e chegar mais depressa ao baile, logo todas concordaram que seria assim. A Ti Margarida, era gorda, tinha grande rabo, e ao transformar-se em perua ficou um pouco desequilibrada, com o rabo alçado e ia caminhando com dificuldade, foi por isso que falhou o voo e foi cair em cima do seu compadre o Ti António Borralho e agora estava metida num grande sarilho. As outras feiticeiras aperceberam-se do que tinha acontecido e voltaram para trás acompanhando a situação à distância para no caso da Ti Margarida conseguir fugir, se fosse necessário, fazerem algumas manobras de diversão para o despistar, mas nada, a Ti Margarida bem estrebuchava, mas ele não largava a presa. Quando ia passando o poço da estrada, já cansado com o peso e esperneamento da perua, desabafou em voz alta: - Vou-te já cortar a goela aqui, não me fujas tu, meteu a mão ao bolso para tirar a navalha e foi naquele momento que a Ti Margarida juntou as forças, deu um grande safanão e libertou-se, voando por cima da parede da horta e meteu-se pelo ribeiro abaixo e o Ti António, nunca mais lhe pôs a vista em cima! Seguiu para casa, triste por ter perdido um almoço tão generoso e as feiticeiras seguiram para o seu baile a correr e a voar e na hora marcada estavam aprumadas para entrar no baile sobre o olhar ameaçador do mafarrico que se apercebeu do que se tinha passado! O Ti António Borralho, no Domingo de manhã, correu a aldeia a contar a sua aventura da noite anterior, mas poucos acreditaram! 
Peripécias de outros tempos!

Alto do malhão 
Ferreira de Capelins 



584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...