segunda-feira, 29 de maio de 2017


279 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do salteador das terras de Capelins 

Como sabemos, apesar da justiça ter mão pesada, existiam muitos salteadores por todo o reino de Portugal ao longo dos tempos e, também as terras de Capelins tiveram o seu notável salteador nas últimas décadas de 1700. A criatura apareceu sem ninguém saber de onde, vivia escondido pelos matos em várias choças e assaltava os transeuntes mais descuidados e que viajavam sozinhos. Assustava mais do que roubava, porque pouco havia para roubar, a sua figura física deixava qualquer um a tremer de medo, era alto e bem encorpado e tinha um golpe de faca na face direita, que por não ter sido tratado deixava descair a face realçando o olho direito. Nos seus assaltos saltava sempre em frente do alvo munido de uma faca das "matanças" e gritando: "a bolsa ou a vida", poucos assaltados tinham bolsa e nunca tirou a vida a ninguém, levava alguma coisa para comer e pouco mais, mas isso ficava mal às gentes das terras de Capelins, que o apelidaram de Zé da faca. Um dia, como habitualmente, o Pároco Laurentino da Paróquia de Santo António, foi rezar a missa à Ermida de Nossa Senhora das Neves, porque ainda lá havia uma grande comunidade e devido a vários condicionalismos, convidaram-no para cear (jantar) que ele não podia recusar e voltou já à noitinha. Quando seguia pelo caminho do vale de enxofre acima, na Defesa de Ferreira, saltou-lhe o Zé da faca ao caminho gritando: "a bolsa ou a vida", o Pároco teve vontade de rir, mas ao ver a faca virada para ele, ficou sério e depois respondeu: Bolsa não tenho, mas a vida é tua, posso é dar-te a batina e o crucifixo que tenho ao peito! O Zé da faca ficou muito pensativo sem saber o que dizer, depois exclamou: Não quero nada disso, para que me serve? Ainda nunca me aconteceu uma coisas destas, que triste vida a minha e outras lamurias! Continuava com a faca apontada ao Pároco Laurentino, mas ele colocou-lhe a mão no ombro e pediu-lhe para se sentar. Sentaram-se os dois no chão a falar, ninguém soube o que o Pároco lhe disse, mas sabe-se que o Zé da faca arrependeu-se do que fazia, chorou e pediu a penitência ao Pároco, que lhe a concedeu, comprometendo-se ele, a partir daquele dia ficar pelas terras de Capelins, mas em vez de fazer o que fazia, começava a proteger e ajudar as pessoas que cruzavam aqueles caminhos e o Pároco ajudava-o. O Zé da faca aceitou logo e começou imediatamente a cumprir o que tinha prometido ao Pároco Laurentino! 
O Pároco, nas missas, informava os fregueses sobre a mudança que se tinha dado com o Zé da faca, mas poucas pessoas acreditavam, e assim ao inicio de uma noite de inverno o Ti Manoel Gomes regressava a sua casa em Capelins de Cima com a carroça carregada de lenha da Defesa de Ferreira, e deu-se um pequeno acidente, teve de descarregar a lenha, para meter a carroça no caminho, o Zé da faca andava por perto e ao ouvir a azáfama aproximou-se para ajudar, mas o Ti Manoel pensou que ele o ia assaltar, apanhou o machado e desferiu-lhe um golpe que lhe rachou a cabeça de alto a baixo, ficando o Zé da faca logo morto. O Pároco Laurentino soube do acontecimento e tendo a certeza que ele apenas queria ajudar o Ti Manoel Gomes, fez-lhe um funeral com todos os Sacramentos, como um bom cristão! 
O Ti Manoel não foi preso, porque supostamente, agiu em legitima defesa, ficou muito arrependido, mas não havia nada a fazer!
Muitos capelinenses diziam que, o Zé da faca morreu por querer ser bom! Mas foi um engano! 

Ribeiro das Neves


sábado, 27 de maio de 2017

278 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do Menino do Monte da Vinha e o Milagre de Nossa Senhora das Neves 
Contam que, na década de 1780, a lavradora do Monte da Vinha, nas terras de Capelins, não conseguia ter filhos, vivia muito infeliz, passava os dias a chorar, a lamentar-se, sentindo-se culpada pela situação. O lavrador assistia ao seu sofrimento que parecia aumentar de dia para dia, então começou a procurar solução em todos os lados, onde lhe diziam haver remédio, desde curandeiros e curandeiras, bruxas, santuários, eram mezinhas e mezinhas e não conseguiam nada. Um dia uma das criadas do Monte, sabendo do caso, pediu para falar com a lavradora e foi logo recebida, ouviu-a com atenção e como não tinha nada a perder aceitou fazer o que ela lhe disse, era acender uma vela todos os dias e fazer uma novena rezando uma oração que ela lhe ensinou dedicada a Nossa Senhora das Neves, depois ir à sua Igreja e fazer-lhe o pedido olhos nos olhos e decerto ia correr tudo bem! A lavradora contou ao marido, o qual não ficou convencido, mas disse-lhe que não se importava que ela fizesse mais essa tentativa, uma vez que já tinham feito tudo o que podiam. Como era a última esperança da lavradora de poder ter um filho, fez tudo muito certinho e com muita fé. No fim da novena, chamou a criada, mandou o carreiro prepara a charrete e foi à presença de Nossa Senhora das Neves, ajoelhou-se a seus pés olhando-a nos olhos, rezou muito, acendeu uma vela e fez-lhe o pedido, "que lhe desse um filho"! Quando chegou ao Monte da Vinha o lavrador falou com ela sobre o caso, perguntou-lhe se achava que daria certo? A lavradora disse-lhe que tinha muita fé e que sentia que agora dava certo! Passados cerca de três meses a lavradora começou a sentir-se diferente e descobriu que estava grávida, foi um dia de muita alegria para todos no Monte da Vinha. No fim da gestação nasceu um menino, bem constituído e cheio de saúde, um mês depois foi preparado o seu batismo, que se realizou na Igreja de Nossa Senhora das Neves, onde se deslocou o Pároco Fellipe de Santo Antonio, que lhe deu o nome de António e tocou com a perna na imagem de Nossa Senhora das Neves, ficando sua madrinha e protetora para a vida. Os lavradores do Monte da Vinha ficaram muito devotos e agradecidos a Nossa Senhora das Neves, porque sabiam que tinha sido um milagre!

Ermida de Nossa Senhora das Neves - Capelins 


quarta-feira, 24 de maio de 2017


277 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do pastor do Monte da Talaveira 

Contam que, na década de 1840 havia um pastor na herdade da Talaveira que era admirado por todos os outros pastores das terras de Capelins, porque tinha as ovelhas do seu rebanho tão bem educadas que lhe obedeciam através de assobios e simples palavras, dispensando os cães para as voltar ou para as juntar. Quando as queria juntar dava um assobio e gritava: "ovelhas dum cabrãum" e imediatamente o rebanho se juntava. Quando queria que as ovelhas voltassem da direção que levavam, dava dois assobios seguidos de: "ovelhas dum cabrãum" e, as ovelhas voltavam logo, quando queria soltar as ovelhas do ovil, dava três assobios e dizia as palavras mágicas e as ovelhas saiam a caminho da pastagem. Os cães serviam apenas para defender o rebanho dos lobos, mas foi com a sua ajuda que as ovelhas foram treinadas e, as mais novas, as borregas, iam aprendendo com as mais velhas e era um gosto ver aqueles animais tão obedientes! O lavrador do Monte da Talaveira, que era o seu proprietário, visitava temporariamente o pastor para se inteirar como estava o seu rebanho e, enquanto ele por ali andava, as palavras mágicas eram esquecidas, porque era impensável ofender um lavrador, o pastor ficava um pouco nervoso porque naquelas situações as ovelhas não lhe obedeciam, a sorte dele era que o lavrador nunca se demorava muito tempo. Mas uma madrugada estava a levantar-se da tarimba, chegou o lavrador e disse-lhe: Manoel, vai soltar as ovelhas e obriga-as a passar por esta porta, eu fico aqui e quero vê-las uma a uma, só assim sei como está o rebanho, lá no meio do pasto, não consigo ver bem os animais! Está bem patrão, é já mesmo agora, é só vestir o pelico! Disse o pastor! E logo de seguida dirigiu-se ao rebanho e começou a incitar as ovelhas para sairem do ovil, gritava, praguejava, mas elas metiam a cabeça umas por baixo das outras e não lhe obedeciam, o pastor empurrava-as, puxava-as, já caía de costas e nada! O lavrador estava abismado a assistir ao espetáculo, até que teve de intervir! Então Manoel, o que se passa com as ovelhas? Não sei patrão, nunca aconteceu uma coisa destas, isto parece bruxedo, tem que ser bruxedo! Disse o pastor! O lavrador, pediu o cajado ao pastor e disse-lhe para se afastar dali, porque as ovelhas deviam estar com medo dele! O lavrador foi na direção das ovelhas e começou a bater com o cajado no chão e a falar alto, mas as ovelhas não se mexiam, o lavrador já desesperado, gritou: "Fora, ovelhas dum cabrãum", naquele momento as ovelhas começaram a sair do ovil, ordeiramente, mostrando uma disciplina nunca vista! Acabaram de sair para o pasto, o lavrador entregou o cajado ao pastor e seguiu o seu caminho, sem dizer uma palavra! Nunca se soube o motivo desta atitude do lavrador, mas soube-se que nunca mais foi ver as ovelhas à saída do ovil! 




domingo, 21 de maio de 2017

276 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do lavrador da orelha rachada

Cerca do ano de 1800, havia um lavrador de uma herdade das terras de Capelins, que gostava de se armar em "cuco", ia pôr o ovo nos ninhos alheios e diziam que tinha cinco ou seis filhos de mulheres diferentes.
Nesta época morava um sapateiro no Monte do Salgueiro que tinha quatro filhas, todas muito bonitas, mas uma, chamada Joana, destacava a sua beleza das restantes e foi por ela que o lavrador se veio embeiçar. Começou a frequentar a oficina do mestre sapateiro a mandar fazer e arranjar botas, mas sempre insistindo para que o sapateiro deixasse ir a Joana trabalhar para o seu Monte. O sapateiro sabia qual era a sua ideia e dizia-lhe sempre que nem pensar, mas ele não desistia. Quando percebeu que não conseguia convencer o sapateiro começou a assediar e sair ao caminho à Joana, e dizia-lhe que se fosse para o Monte dele, ajudar na cozinha e nas limpezas, deixava de trabalhar no campo e depois casava-se lá da sua casa com o filho de um lavrador, ia ser uma senhora rica, que ele arranjava tudo. A conversa era sempre a mesma e a Joana já andava de cabeça perdida. Algumas pessoas contaram ao sapateiro que o lavrador andava a desorientar a rapariga e a sair-lhe ao caminho quando ela ia ao poço e ele começou a andar preocupado. Um dia, a Joana saiu de casa para ir ao poço e o sapateiro foi atrás, seguindo-a encoberto por oliveiras e uma parede, quando ela ia chegando ao poço esperava-a o lavrador, começou a falar com ela, pôs-lhe a mão em cima do ombro e ela nem o afastou, tal andava a sua cabeça, andaram um pouco e ele puxou-a para dentro de uma seara, onde desapareceram. O sapateiro, correu na sua direção, puxou o lavrador para trás e deu-lhe um grande murro, o lavrador baixou-se para apanhar o bordão para se defender, mas o sapateiro deu-lhe um pontapé na cara com as botas cardadas que o atirou ao chão, levou a Joana para casa e não disse uma palavra sobre o que tinha acontecido. O lavrador levantou-se, com a cara ensanguentada e bem marcada, jurando vingança, montou o seu cavalo e foi para o Monte. Ao chegar naquele estado, a mulher, os filhos e criados perguntaram-lhe o que lhe tinha acontecido e ele disse que tinha sido um coice do cavalo, mas algumas pessoas que vinham chegando ao poço assistiram ao sucedido e no dia seguinte já toda a gente sabia a verdade nas terras de Capelins e não se livrou da chacota. A partir daquele dia, o lavrador começou a imaginar a forma de matar o sapateiro do Salgueiro e começou a dizer que ele era um homem morto, o que não demorou a chegar aos ouvidos do sapateiro, que também começou a planear a forma de não ser morto. O lavrador continuava a dar voltas à cabeça, então lembrou-se que o sapateiro quando tinha pouco material ia a Vila Viçosa ou a Elvas na sua burra comprar o que lhe fazia falta, mas como não tinha um dia certo, e também algumas vezes não ia sozinho, precisava de saber em que dia o sapateiro ia sair e depois no caminho tirava-lhe a vida, encerrava o caso e ainda ficava com a Joana. Chamou um criado de confiança, contou-lhe a ideia e disse-lhe que lhe comprava umas botas novas e dispensava-o para passar algum tempo na oficina do sapateiro à conversa, para ele saber em que dia o sapateiro ia sair para ele concretizar o plano. O criado foi logo para o Salgueiro, entrou na oficina do sapateiro e este percebeu logo, o que ele vinha fazer, mas disfarçou, o criado cumprimentou os presentes e disse que vinha encomendar umas botas novas, tirou medidas e ficou muito tempo a conversar com o sapateiro, gabando o seu trabalho, que não havia um mestre como ele, até que lhe perguntou onde comprava aquele material tão bom? O sapateiro disse-lhe que era em Vila Viçosa! O criado perguntou-lhe em que dia ia a Vila Viçosa? O sapateiro percebendo tudo, disse-lhe que ia na segunda- feira! Então e vai muito cedo? Perguntou o criado! Vou levantar-me pelas três da manhã, mas tenho de arrumar algumas coisas, albardar a burra, vou sair um pouco antes das quatro da manhã! Disse o sapateiro! O criado despediu-se e foi dali a correr contar esta conversa ao patrão, que logo engendrou a forma e em que lugar ia matar o sapateiro! 
O sapateiro do Monte do Salgueiro, começou imediatamente a pensar como poderia evitar a sua morte marcada para a madrugada de segunda-feira. Durante a noite, não fechou os olhos, mas foi construindo o plano que ia levar em frente, contou à mulher tudo o que estava planeado e sossegou-a, garantindo-lhe que nada lhe aconteceria. No domingo à noite apanhou um molho de buinho (palha para o assento de cadeiras e para fazer esteiras) e dividiu-o em dois, atou cada um com cordéis e depois os dois molhos ao meio, desenhando uma cintura humana, fez uma cruz com dois paus, meteu-a por dentro do buinho, fazendo um boneco, que vestiu com a sua roupa, colocou-lhe um chapéu e na escuridão da noite parecia uma pessoa! Levantou-se de madrugada, albardou a burra, pôs-lhe um alforge, (duas bolsas ligadas), uma de cada lado da albarda e meteu as pernas do boneco dentro do alforge, sentado na burra, cortou uma saca de serapilheira em quatro partes para embrulhar os cascos da burra para não deixar marcas à saída da cabana e para ninguém o ouvir sair, (e foi a sua sorte), depois de se afastar de casa retirou os bocados da saca, das patas da burra e escondeu-as ao lado da estrada, para usar quando voltasse. Eram quase quatro horas da madrugada, e pôs-se supostamente a caminho de Vila Viçosa, quando estava a chegar ao ribeiro do quebra, onde ele tinha a certeza que o lavrador o esperava, mandou a burra andar e ficou um pouco para trás, escondeu-se entre os arbustos e quando a burra ia passando o ribeiro, um dos criados saltou-lhe à frente, segurou-a e obrigou-a a parar, ao mesmo tempo o lavrador já preparado descarregou o pau ferrado (com a ponta em ferro), no boneco que estava em cima da burra, o outro criado (o da encomenda das botas novas), ainda gritou ao patrão que aquele não era o sapateiro, mas já era tarde, o buinho cedeu e o pau foi cair na cabeça do criado que se tinha aproximado muito da burra, porque percebeu que a silhueta não era a do sapateiro, e caiu de costas sem sentidos. O lavrador, apesar da escuridão, sentiu logo que alguma coisa não estava a correr bem, naquele momento ouviu uns passos apressados atrás dele, virou-se, mas não teve tempo de se defender da pazada que vinha a caminho da sua cabeça e ficou prostrado e inerte no chão, soube-se mais tarde que a orelha direita ficou cortada ao meio e presa por poucas linhas, o criado que estava a segurar a burra, viu-se sozinho e fugiu a correr o mais que podia, só parou quando já não conseguia correr mais, então parou para pensar no que tinha acontecido e no que devia fazer, sentou-se no chão e depois de acalmar um pouco voltou para trás com muita cautela para tentar saber se os companheiros estariam mortos ou vivos. Já perto do lugar do acontecimento viu o outro criado sentado, agarrado à cabeça, começou a chamá-lo e, como não via nenhum vulto por perto, foi-se aproximando, falaram pouco e decidiram que tinham de levar o lavrador para casa, estivesse, ou não morto. Carregaram o lavrador até onde tinham as montadas, atravessaram-no em cima de uma das burras e seguiram para o Monte, chamaram a lavradora e contaram-lhe que o patrão tinha sido atacado por desconhecidos e estava morto. Houve grande alarido no Monte, mas deitaram-no na cama e concluíram que não estava morto, mas em coma, e as criadas começaram logo a tratá-lo, com paninhos, água quente e outras mesinhas, mas o homem estava numa lástima e a lavradora mandou chamar curandeiros e a patrulha de ordenanças de Terena (guarda do reino) para apanhar os malfeitores! 

O sapateiro, voltou dali para o Salgueiro, meteu a burra na cabana sem barulho, arrumou tudo e foi deitar-se, como se nada tivesse acontecido, quando os aprendizes chegaram e alguns clientes, apareceu à porta em ceroulas e esfregando os olhos, fingindo muito sono, e todos pensaram que estava a levantar-se naquele momento! 
A lei e a ordem nas terras de Capelins eram da responsabilidade da Casa do Infantado, mas em caso de intervenção militar era usado o Regimento da Casa Bragança. A este caso acudiu a patrulha de ordenanças de Terena, comandada por um tenente com fama de muito severo e esperto. Ao chegar ao Monte do lavrador, falou com a lavradora e inteirou-se do que se tinha passado, interrogou os criados que tinham acompanhado o patrão, e todas as provas indicavam que o atacante tinha sido o sapateiro do Monte do Salgueiro, o tenente ainda tentou falar com o lavrador, mas o homem não acertava a conversa. Assim, dirigiu-se ao lugar do crime, acompanhado dos criados, que lhe explicaram como tinham sido atacados, mas nada dava certo, cada um contava à sua maneira, o tenente mediu algumas pegadas, fixou sinais e dali foi a casa do sapateiro. Depois de se apresentar e dizer o que ia fazer disse ao sapateiro que queria falar com ele em privado e foram para um "cabanão" ao lado da casa, fez-lhe muitas perguntas sobre o seu anterior desentendimento com o lavrador e se tinha saído de casa com a burra na ultima madrugada! O sapateiro foi sempre muito seguro nas respostas e respondeu que não tinha posto o pé fora de casa, nem ele, nem a sua burra, neste caso as patas. O tenente andou de gatas a averiguar se existiam pegadas frescas da burra à saída da cabana, como nesses tempos o piso era térreo ficavam sempre pegadas, mas não encontrou nada, interrogou os vizinhos um a um e todos garantiram que o sapateiro não podia ter saído de casa, porque, pouco tinham dormido e ouvido até as patadas dos cães de madrugada, não era possível não ouvirem os cascos da burra e o tenente não conseguiu apurar nada, pediu ao sapateiro para descalçar as botas e mediu minuciosamente o tamanho e não encontrou as medidas que tinha tirado nas pegadas no ribeiro das cobras (quebra), porque o sapateiro calçou as botas de um cliente, dois números acima das dele, mas com uma palmilha ficavam-lhe boas. Quanto às pegadas da burra no lugar do crime, não chegou a nenhuma conclusão porque havia lá muitas do mesmo tamanho. O tenente não conseguiu incriminar o sapateiro do Salgueiro e, embora as averiguações continuassem mais algum tempo, o processo acabou por ficar esquecido. Os familiares não concretizaram nenhuma vingança contra o sapateiro, porque, como o lavrador tinha muitos inimigos, devido aos ataques que fazia às mulheres, ficava a dúvida se não teria sido outro o vingador.
O lavrador, fez curativos mais de três meses, a sua orelha direita sarou, mas ficou desligada, rachada, segura por poucos centímetros, por isso o lavrador começou a ser conhecido nas terras de Capelins e arredores pelo orelha rachada. Nunca mais ficou bom da cabeça, saía do Monte pelas estradas sem destino, diziam que estava parvinho e nunca mais foi a mesma pessoa. Doze anos depois, cerca de 1800, faleceu de doença não identificada. O Monte que já era conhecido "do orelha rachada" mais tarde, passou a ser o Monte da rachada, mas conforme podemos constatar nos Assentos Paroquiais de Santo António, como o Monte já era da lavradora, ficava mal, "Monte da Rachada" então, os Párocos registaram, nos Assentos de batismos, casamentos e óbitos, "Monte da Rexiada", que veio ser o nosso conhecido, "Monte da Recheada"!
O sapateiro ficou muitos anos calado, só a mulher sabia, mas no fim da sua vida, já livre de perigo, contou aos familiares e a alguns amigos como tudo se tinha passado, naquela fatídica madrugada de segunda-feira no ribeiro das cobras! 
A Joana casou com um dos aprendizes de sapateiro, depois mestre, ficaram a residir no Monte do Salgueiro, tiveram cinco filhos e uma vida muito feliz, ainda hoje, por aqui há descendentes.

Salgueiro 


sexta-feira, 19 de maio de 2017


275 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A Lenda do Ti Manoel do Monte da Vinha e os lobos das terras de Capelins 

O Ti Manoel Martins, carreiro no Monte da Vinha, nos finais do mês de Abril do ano de 1812, foi pai de mais um filho a quem foi dado o nome de Domingos. Na tarde do dia um de Maio desse ano, depois de jantar (almoçar), saiu do Monte e foi falar com o Pároco de Capelins, de nome Marcos Gomes Pouzão, a fim de marcar o batismo do Domingos, para dia oito seguinte. Depois de acertar tudo com o Pároco, como ainda era cedo e o Ti Manoel gostava muito de dar uma lerias acompanhadas com um copito de vinho, foi dali para a taberna em Capelins de Cima, foi falando, foi bebendo e o tempo foi passando e quando se apercebeu já era noite fechada. Despediu-se dos companheiros e meteu-se a caminho do Monte da Vinha, foi pelo Monte da Cruz, Portela e seguiu pela estrada que atravessava o Baldio pelas Areias. Quando ia a meio caminho surgiram dois grandes lobos na sua frente em prontidão de ataque, valeu-lhe o bordão (um Pau), para defesa contra maus encontros, fossem ladrões ou animais e quando os lobos se aproximaram já com os dentes de fora fez-lhe frente com o bordão em riste fazendo-os recuar um pouco, depois apanhou algumas pedras e com uma funda que trazia (que bem usada era uma boa arma), arremessou-lhe as pedras, que os fazia recuar, mas atacavam novamente. O Ti Manoel entrou em desespero porque os lobos não desistiam, cada vez atacavam com mais intensidade e, como estava ainda muito longe do Monte da Vinha, começou a perceber que estava perdido, gritava, gritava, mas sabia que não ia ter auxílio e o mais certo era surgirem mais lobos, então, num dos momentos em que conseguiu fazer recuar os lobos, subiu a um chaparro, que não era muito alto, mas os lobos não lhe chegavam, ficando a salvo, mas os lobos ficaram debaixo do chaparro. O Ti Manoel, já pela noite dentro começou a ter cada vez mais sono, mas não podia dormir não fosse cair e seria o jantar e a ceia dos lobos. No Monte da Vinha a sua mulher, a Ti Micaella de Jesus, não fechou os olhos, imaginando o pior, a ver-se já viúva e com três filhos para criar, logo que ouviu movimentos na rua do Monte foi a correr a chorar a contar que o Ti Manoel ainda não tinha aparecido e decerto que lhe tinha acontecido alguma desgraça. Os criados foram acordar o lavrador e a dizer-lhe o que se estava passando, o lavrador mandou logo preparar o cavalo e com alguns cães atrás, saiu a procurar o Ti Manoel e, mandou alguns criados por outras estradas do Monte Seco e do Baldio, fazer o mesmo. Assim que o lavrador chegou à entrada do Baldio, os cães farejaram os lobos e começaram a ladrar e a correr na sua direção, os lobos fugiram imediatamente, o Ti Manoel suspirou de alívio e começou a gritar, não demorou o lavrador estava junto dele, ajudou-o a descer do chaparro e foram para o Monte da Vinha, onde foi recebido como um herói, porque já toda a gente o imaginava no outro mundo. No domingo seguinte, dia 8 de Maio, realizou-se o batismo do Domingos, na Igreja de Santo António de Capelins. 
O Ti Manoel quase foi o jantar dos lobos! Devido a isso, nunca mais foi a mesma pessoa! 



sexta-feira, 12 de maio de 2017


274 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

Conforme podemos constatar neste mapa, a Freguesia de Capelins tem sofrido grandes variações na população residente ao longo da sua história, atingido o valor máximo na década de 1950/1960. Em analogia com o resto do Alentejo, foi nos anos de 1960 que se verificou a maior diminuição da população. Depois, quase estabilizou na década de 1970, principalmente, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, mas logo a seguir continuou em queda, estando atualmente ao nível de 1758/1800! 

Só com projetos agrícolas de novas culturas e de turismo, quando possível enquadrados, se poderá virar esta triste página!



quarta-feira, 10 de maio de 2017


273 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do Guardador de Perus de Capelins 

 No início da década de 1960 ainda havia casas agrícolas nas terras de Capelins que criavam grandes quantidades de perus, guardados por um homem ou um rapaz que os levava a pastar diariamente nas respetivas herdades. Esta situação passou-se nessa época num Monte e herdade muito próxima da Aldeia de Ferreira, na qual existia um grande rebanho (bando) de perus que tinham de estar disponíveis para vender antes do Natal de cada ano, assim, logo que faziam as ceifas, ou antes, os perus eram levados para os restolhos, ou seja, lugares onde tinham ceifado os cereais e ficavam muitas espigas no chão que eles descascavam e comiam o cereal, à noite recolhiam ao Monte e eram encerrados numa casa onde tinham armações feitas com paus, levantados do chão, tipo bancadas, chamados poleiros, onde dormiam, procurando sempre os mais altos. Os perus do Monte em questão eram guardados por um rapaz chamado Joaquim, muito amigo de todos os rapazes da aldeia e, como andava sozinho dava-lhe jeito que alguns fossem ter com ele para falar e para fazer brincadeiras que não fossem espalhafatosas para não espantar os perus, senão começavam a voar e já ninguém tinha mão neles durante algumas horas, cada um voava para seu lado causando grande arrelia ao amigo Joaquim, por isso estavam todos bem avisados para não saltar nem gritar perto do bando, mas nem sempre corria bem. Um dia o amigo Manuel, que era/é da mesma idade do Joaquim, sempre companheiros na escola de Ferreira, como habitualmente, foi ter com o Joaquim, mas esqueceu-se das recomendações e, quando ia chegando mandou um assobio dobrado e os perus começaram a voar por cima das azinheiras, o Manuel pegou numa pedra sem intenção de a usar, mas naquele momento passou um peru a voar pela sua frente, não conseguiu dominar o impulso e atirou-lhe com a pedra, fazendo-o aterrar imediatamente, foram a correr e ficaram muito assustados, porque a ave não reagia e, constataram que a pedra o tinha atingido na cabeça provocando-lhe morte imediata, e agora? Primeiro tinham de dominar o rebanho, (bando), depois logo pensariam o que fazer, porque era uma grande perda que podia ter consequências para o Joaquim e, possivelmente para o Manuel, porque não bastava pagá-lo ao dono, mas como justificaria a pedrada no peru ou a presença do Manuel por ali! Levaram o resto da tarde a pensar num plano! Não dizer nada, não podia ser, porque periodicamente o caseiro e a esposa contavam os perus e depois, decerto davam pela falta dele e ainda era pior! Dizer que foi uma raposa! Não podia ser, porque os perus dormiam bem fechados, onde nunca podia entrar uma raposa ou um cão! Tiveram muitas ideias, mas nenhuma tinha pernas para andar! Aproximava-se o final do dia, já estavam desesperados e o Joaquim teve uma ideia, a que foi posta em prática, encerrou os perus à noitinha, fechou a casa e foi despedir-se dos caseiros, já idosos e dizer-lhe que estava tudo em ordem, eles já estavam acabando o Gaspacho e já não demoravam em se deitar, o Joaquim sabia disso, então apanhou um saco de serapilheira e foi a correr ao campo buscar o peru que tinha sido assassinado pelo Manuel, chegou ao Monte com muita cautela, abriu a porta da casa e colocou a ave debaixo dos poleiros, para dar a ideia que tinha morrido de morte natural durante a noite. Na manhã seguinte, quando abriu a porta aos perus, deu continuidade ao plano e foi dizer ao caseiro que estava um peru morto debaixo dos poleiros, o caseiro veio observar, mas por sorte ou devido à idade não viu que o peru tinha levado uma traulitada na cabeça e pediu ao Joaquim para o levar e atirar no ribeiro. O Joaquim assim fez e livrou-se de um grande sarilho, o peru foi desperdiçado, mas não havia outra alternativa! 
Assim se perdeu um peru! 

Foto net


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