terça-feira, 9 de maio de 2017

272 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
 História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Lenda do Tesouro na Fonte da Sina 
A Fonte da Sina situa-se na encosta Este do planalto com a mesma designação, deu sempre água muita afamada e curava algumas maleitas, dava de beber aos capelinenses que residiam junto à Igreja de Santo António, aos que por ali passavam e aos que vinham propositadamente buscar água para beber e outros fins em suas casas. Conta-se que, a sua origem esteve no sonho de um homem, chamado João Gomes, que morava em Capelins de Cima e, todas as noites sonhava que, exatamente naquele lugar estava enterrado um tesouro, (sabemos que o planalto da Sina, era povoado desde o período do calcolítico, há mais de 5.000 anos, existindo mesmo uma necrópole nesta região), depois do sonho se repetir por várias noites, o Ti João, contou à mulher o que se passava, mas ela não acreditou, só podia ser uma parvoíce, isso podia lá ser e disse-lhe para tirar aquilo da cabeça. Porém, o sonho continuou e, uma noite, depois de um dia duro, de trabalho, o Ti João acabou de cear (jantar), pegou numa enxada e numa pá e foi direitinho àquele lugar, cavou, cavou, tirou terra, durante quatro ou cinco horas, até estar tão cansado e desanimado, já tarde, teve de parar e voltar para casa, e não pensava em voltar lá, mas nessa noite voltou a sonhar com o tesouro, que parecia ser uma panela cheia de moedas de ouro. O Ti João teve pouco tempo para dormir, porque de madrugada teve de se levantar e ir trabalhar na Defesa de Ferreira, até ao pôr do sol. Na noite seguinte, chegou a casa, ceou, pegou numa picareta e na pá e foi cavar no mesmo lugar, novamente, até não poder mais e, isto repetiu-se por mais de uma semana, estando a escavação com mais de dois metros de profundidade e não apareceu nenhum tesouro. O Ti João andava num estado lastimável, muito cansado, sem dormir o suficiente e sem resultados, mas continuava a sonhar com o tesouro, já não podia mais e desacreditado desistiu. Pouco tempo depois, começou a jorrar água daquele lugar, muito pura e cristalina, com as qualidades antes descritas, o que não deixou de ser um tesouro! 

Dois séculos mais tarde, o tesouro anunciado no sonho do Ti João, apareceu alguns metros mais abaixo da Fonte da Sina, era de verdade uma panela cheia de moedas, encontrada por um rapaz que armava armadilhas aos pássaros na lavoura que um grupo de trabalhadores estavam fazendo neste lugar e o Ti João, deixou-nos a Fonte da Sina!

Planalto da Sina - Capelins 



segunda-feira, 8 de maio de 2017


271 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

 História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do Menino "Ajuda" do Pastor e o Milagre de Nossa Senhora das Neves 

Esta lenda é sobre mais um milagre de Nossa Senhora das Neves que, numa tenebrosa noite guiou o "ajuda" de pastor até às ovelhas desaparecidas. 
No mês de Maio do ano de 1752, andava um pastor chamado António Pouzão a guardar o rebanho de ovelhas do seu patrão, na Defesa de Ferreira, entre o Monte de Ferreira e o Monte do Escrivão, num espaço geográfico hoje denominado chaparral onde existe o ovil desta mesma propriedade e, tinha um ajuda (ajudante), chamado José com apenas 12 anos de idade, (importa esclarecer que, nessa época e até muito mais tarde, os rapazes começavam a trabalhar como "ajudas" de pastores ou porqueiros com 5/6 anos de idade). O Ti Pouzão tinha aqui a choça, que era a habitação da família, mas devido a ter um filho pequenino, a sua mulher estava na casa que tinham em Capelins de Baixo, já havia alguns meses, onde ele ia dormir, uma ou duas vezes por semana, voltando antes do romper do dia, ficando o "ajuda" com as ovelhas, acompanhado por dois cães. 
Numa noite, aparentemente normal, assim que escureceu o pastor depois de dizer ao José para tomar muita atenção e abrir bem os olhos, foi-se embora para Capelins de Baixo, que ficava a pouco mais de meia hora de caminho, deixando as ovelhas encerradas dentro do bardo (curral feito de rede de cordel, segura com paus espetados no chão). Pela noite dentro armou-se uma trovoada nunca vista nas terras de Capelins, faziam relâmpagos, trovões muito fortes, caíram raios sobre algumas azinheiras e muita chuva, durante algumas horas. O José dormia dentro da choça e acordou sobressaltado, mas com tanto medo que não se atreveu a sair e só depois da trovoada se afastar foi tentar ver se estava tudo bem com as ovelhas, mas a noite estava tenebrosa, não conseguia ver um palmo à frente dos olhos, foi indo muito devagarinho na direção que julgava estarem as ovelhas mas não ouvia nada, nem chocalhos, nem o balir e começou a ficar assustado, chamou os cães e nada, continuou a andar e tropeçou no bardo das ovelhas e apalpando teve a certeza que nem as ovelhas nem os cães ali estavam, chamou, chamou, assobiou, até não poder mais e sem saber o que fazer, começou a chorar. Depois de imaginar muitas coisas que poderiam ter acontecido ás ovelhas, se as teriam roubado, se teriam fugido com medo da trovoada, se devia ir procurá-las, mas para que lado? Com aquela escuridão! Se devia esperar pelo pastor para ele decidir o que fazer, entrou em desespero e pôs-se de joelhos, então, começou a rezar e a pedir a Nossa senhora das Neves, para o ajudar a encontrar as ovelhas e prometeu dar três voltas à sua Igreja de joelhos. De repente o céu ficou limpo, deixando passar um luar que parecia dia, o José fechou os olhos em agradecimento e, ao levantar-se, sem perceber, começou a andar na direção do atual Monte de Ferreira e só parou junto da Ermida de Nossa Senhora das Neves, onde se encontravam as ovelhas guardadas pelos dois cães. O José, com a ajuda dos cães, levou as ovelhas de volta ao bardo, encerrou-as e foi-se deitar. De madrugada, chegou o pastor e estava tudo normal, acordou o José que dormia profundamente e, ao acordar pensou que tinha tido um sonho, mas o pastor recordou-lhe a grande trovoada, perguntou-lhe se tinha corrido tudo bem e se não tinha tido medo. O José, todo empertigado, disse-lhe, que estava tudo bem e que mal tinha ouvido a trovoada e não tinha tido medo de nada, mas assim que teve oportunidade foi a correr, pagar a promessa, porque não tinha dúvidas que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves! 



sexta-feira, 5 de maio de 2017

270 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
 História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Lenda da Casa do Fidalgo da Corte de D. João II, nas terras de Capelins 
O reinado de D. João II, (1481/1495), foi prospero em acontecimentos sinistros, desde a morte por acidente, ou não, do Principe herdeiro D. Afonso até ao assassinato praticado pelo próprio rei sobre os dois cunhados, em Évora, acusados de conspirar contra ele, o duque de Bragança D. Fernando, casado com a irmã da Rainha Dª Leonor, que foi julgado durante 22 dias por 21 Juízes e condenado à morte, sendo degolado no dia 20 de Junho de 1483 pelo rei e, do outro cunhado o Duque de Viseu, irmão da Rainha, que foi chamado a Évora e apunhalado pelo rei numa sala do castelo de Évora, no lugar hoje propriedade da Fundação Eugénio de Almeida, no Pátio de São Miguel, Paço dos Condes de Basto. Devido a isso, mais de 80 pessoas da nobreza, fidalgos e cavaleiros começaram a ser perseguidos, suspeitos de envolvimento na conspiração, uns fugiram para Espanha e outros continuaram no país, escondidos em diversos lugares. Conta-se que, um desses fidalgos viveu escondido, cerca de 10 anos, (até ao falecimento de D. João II, em 25 de Outubro de 1495 no Alvor), nas terras de Capelins. Este fidalgo, fugiu de Évora para Vila Viçosa, para a propriedade dos duques de Bragança, mas foi meter-se na boca do lobo, porque tinha sido o escrivão dessa propriedade a apresentar provas a D. João II do comprometimento do seu cunhado com os reis de Castela e, foi ajudado a fugir em direção a Terena, onde existia um ferrador amigo da família do duque de Bragança. Como a perseguição continuava, quando chegou a Terena foi ter com o ferrador e pediu-lhe ajuda, o ferrador disse-lhe que conhecia um bom lugar para ele se esconder, que era na Villa Defesa de Ferreira, (hoje Freguesia de Capelins) e, se alguma coisa corresse mal, depressa passava a fronteira para Castela, mas tinham de enganar os seus perseguidores, mas como? Então o ferrador lembrou-se de uma artimanha, meteu o cavalo do fidalgo para dentro do seu quintal, tirou-lhe as ferraduras, pregou-as novamente, mas ao contrário, o lado da frente para trás, assim, o cavalo ao andar para a frente deixava as marcas no caminho como se fosse em sentido contrário. Esperaram pela noitinha e puseram-se a caminho pela estrada para Monsaraz e foram entrar nas terras de Capelins pelo sudoeste e só aí começaram a deixar as marcas do cavalo do fidalgo, o do ferrador não deixava marcas porque iam sendo apagadas através de um molho de lenha que ia arrojando atrás do cavalo e vieram o mais próximo que puderam na direção de Terena que nesse tempo era junto do Ribeiro do Alcaide, perto de Nossa Senhora da Boa Nova, depois deram a volta pelo vale da Ribeira do Lucefécit, já sem deixar marcas e o fidalgo foi ficar junto do Ribeiro do Carrão, perto do Monte do Ladrilho, onde chegou a ter uma pequena casa. Os perseguidores foram dar a Terena, onde o procuraram em todas as casas e como não o encontraram, seguiram para sul e não demoraram a encontrar pegadas frescas de um cavalo, logo imaginaram que estavam na pista certa e foi só segui-las, mas como sabemos as pegadas vinham desde o Gato viradas ao contrário, ou seja, indicavam que o cavaleiro ia de Terena para Monsaraz, picaram os cavalos e seguiram naquela direção, como não o encontravam e devido a informações confusas, foram sempre para sul até ao Reino dos Algarves. O fidalgo ficou onde é hoje o Carrão, pescava, caçava, passeava pela Ribeira do Lucefécit e pelo rio Guadiana e nunca mais o procuraram por ali, o ferrador como tinha a facilidade de se movimentar por esta região, entregava-lhe os mantimentos que os familiares e amigos, debaixo de muita cautela, lhe enviavam e, por aqui viveu até ao dia 25 de Outubro de 1495, quando o seu amigo D. Manuel I subiu ao trono de Portugal, o qual era irmão do duque de Viseu, esfaqueado em Évora por D. João II. 
Existe o registo na DGPC de um Monte da Idade Média/Moderna no lugar que referimos, numa pequena elevação, 450 metros ao sul do Monte do Ladrilho!

Ladrilho
CNS: 21168
Tipo: Habitat
Distrito/Concelho/Freguesia: Évora/Alandroal/Capelins (Santo António)
Período: Idade Média e Moderno
Descrição: Habitat medieval, implantado numa pequena elevação na margem direita da Ribeira do Carrão, caracterizada pela presença de cerâmica de construção e comum.
Meio: Terrestre
Acesso: A 450m ao Sul do Monte do Ladrilho
Espólio: Cerâmica comum e de construção.
Depositários: -
Classificação: -
Conservação: -
Processos: 7.16.3/14-10(1)
Trabalhos (1)
Prospeção (1995)
Bibliografia (0)

Fotografias (0) 



quinta-feira, 4 de maio de 2017


269 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda da Rapariga com o Diabo no Corpo e o Milagre de Nossa Senhora das Neves 

Conta-se que, no ano de 1752, morava no Monte da Talaveira, uma rapariga muito bonita chamada Joanna, com o seu pai já idoso, era filha do segundo casamento de José Lopes, que estava novamente viúvo, por ambas as mulheres terem falecido de moléstia não identificada. A Joanna tinha muitos pretendentes, mas rapidamente se afastavam ao saberem que tinha o diabo no corpo, porque estava muito bem, mas inesperadamente atirava-se ao chão com brusquidão e rebolava-se por tempo indeterminado. Os familiares e vizinhos tinham muita pena dela, mas ninguém sabia o que fazer para a ajudar, tentavam segurá-la com receio de se magoar nas rochas e pedras, mas ainda era pior, muitas vezes nem quatro homens a conseguiam segurar. Passado algum tempo, uma irmã foi consultar uma bruxa, porque toda a gente dizia que só uma bruxa a podia curar. Depois de contar o que se passava com a Joanna, a bruxa disse-lhe que não era caso para ela, que não tinha poderes para tirar o que a Joanna tinha lá dentro e explicou-lhe que eram precisas muitas forças juntas dentro da Igreja de Nossa Senhora das Neves, com a presença do padre, que teria de a benzer no fim da missa e tinham de estar presentes pelo menos oito a dez pessoas, bem fortes, de mãos dadas e sem nunca largar as mãos, só assim a Joanna se curava. Após voltar ao Monte da Talaveira, a irmã contou à família e vizinhos o que a bruxa lhe tinha dito e, foram imediatamente falar com o padre que, mesmo sendo muito amigo da família não esteve de acordo com o que lhe pediram, dizendo que, aquilo era diabólico e não o podia fazer na Igreja e, contra a vontade do padre, não puderam fazer nada. A situação da Joanna piorava, tinha mais "ataques" mas como todos sabiam o que a bruxa tinha dito, começaram a pressionar o padre, que acabou por ceder. Porém, estavam perante outro grande problema, como fazer entrar a Joanna na Igreja, porque já sabiam que nem à porta a conseguiam levar desde que tinha começado com a doença, assim decidiram que a melhor maneira era enrolar uma manta em redor da Joanna atarem-na com cordas fortes e levarem-na numa carroça até à Igreja de Nossa Senhora das Neves. E, assim foi, um grupo de homens, com grande dificuldade fizeram-na entrar, estava tudo preparado, o padre rezou a missa e depois pediu para a chegarem junto dele e de Nossa Senhora das Neves, estrebuchava com muita energia, mas o padre benzeu-a e, assim que água benta caiu sobre ela, saiu das suas profundezas um grito assustador e ao mesmo tempo ouviu-se um grande estrondo e viram um relâmpago a sair pela porta da Igreja. As pessoas que estavam de mãos dadas sentiram-se desfalecer por alguns momentos, mas passou logo, a Joanna ficou desmaiada, mas passados uns minutos acordou e perguntou onde estava e o que tinha acontecido! Os familiares disseram-lhe que já estava curada dos ataques e que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves, depois dos agradecimentos ao padre e a todos que ajudaram, foram para o Monte da Talaveira.
A Joanna nunca mais teve ataques e, alguns anos mais tarde, casou-se, teve filhos e foi muito feliz no Monte da Talaveira! 



quarta-feira, 3 de maio de 2017


268 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A Lenda do Forno da Cal - Capelins

Conta-se que, no início de 1700, no Monte do Forno da Cal, na herdade da Defesa de Bobadela, já existia um forno de cozer cal, propriedade de um lavrador muito rico que morava no Monte da Defesa. Este lavrador, tinha muitos trabalhadores, (nesse tempo designados de criados) e um deles, o Manoel, nascido no Monte, começou ainda em criança a ser "escamel", fazia mandados e trabalhos mais leves dentro de casa, ganhando grande afeição por parte do lavrador, da lavradora e dos filhos, frequentando a casa, quase sem limites até comia na cozinha da mesma comida deles. Esta situação, deu origem a muita inveja lá no Monte, por parte de outros criados e, principalmente de um, chamado José, que desejava ter o mesmo tratamento, assim, começou a odiar o Manoel e a fazer tudo o que podia para acabar com ele, mas nada produzia efeito e, como ele andava, quase sempre, em companhia do lavrador, pensou numa mentira que acabasse com os privilégios do Manoel e um dia disse ao lavrador que tinha ouvido uma conversa que metia o Manoel e a lavradora, dizia-se que tinham ouvido ao Manoel que tinha tudo o que queria dela e que se não tinha tido já tudo era porque ele não queria, mas que não estava longe disso e mais isto e mais aquilo, que conseguiu o que queria. O lavrador começou a andar de olho no Manoel e cada vez tinha mais certeza que a relação dele com a lavradora não era normal. Nessa época a honra de um homem era tudo, então decidiu mandar o Manoel para o outro mundo, foi ao forno da cal, que era dele e disse ao mestre que no dia seguinte ia mandar para lá um homem e quando ele chegasse, mandá-lo deitar lenha no forno e dar-lhe um empurrãozito de forma a ele escorregar lá para dentro, porque era uma questão de honra. O mestre ainda perguntou quem era o homem e o lavrador disse-lhe que não interessava o nome, e que de manhã mandava o homem e ele fazia logo o trabalho sem mais explicações. No dia seguinte, o lavrador disse ao Manoel que tinha de ir ao forno da cal ajudar o mestre, só naquele dia porque havia muita cal para cozer e era preciso ajuda. O Manoel ia já a caminho e encontrou a mulher do pastor que ia a levar-lhe o almoço (pequeno almoço), depois de falarem o Manoel prontificou-se a levá-lo porque o pastor andava perto do Monte do forno da cal e não valia a pena ela ir lá, mas quando chegou, o pastor estava mais afastado e o Manoel teve que ir ao seu encontro, ficaram pouco tempo a falar, mas demorou-se mais do que esperava. O lavrador contou ao José o que se ia passar e mandou-o ir averiguar se o mestre fazia o trabalho encomendado, este saiu um pouco depois do Manoel e dirigiu-se ao forno da cal, não o viu por ali, aproximou-se do mestre que estava deitando mais lenha no forno, a tentar perceber se o trabalho tinha sido feito e se estava livre do Manoel para sempre. O mestre ao virar-se encarou com ele e pensou que era o homem mandado pelo lavrador e como não estava nenhum criado por perto, aproveitou e atirou com ele para dentro do forno, nem gritou, desapareceu logo no seio das enormes chamas. Daí a poucos minutos, chegou o Manoel dizendo ao mestre que o lavrador o tinha mandado para o ajudar no forno da cal naquele dia e estava ao seu dispor, foi quando o mestre percebeu que tinha aniquilado o homem errado. Chamou o Manoel de quem gostava muito, atrás de umas azinheiras, contou-lhe o que se tinha passado e que era ele que o lavrador queria eliminar, disse-lhe que tinha de fugir imediatamente, devia esconder-se no meio dos arbustos no rio Guadiana até à noitinha e depois partir para bem longe dali porque estavam os dois em risco de vida. O Manoel assim fez, à noite desceu o rio Guadiana e, ao fim de alguns dias, chegou às terras de Mértola onde se instalou, constituiu família e foi muito feliz o resto da sua vida. O mestre foi recompensado pelo suposto trabalho e continuou a cozer cal durante muitos anos e o maldoso do José ficou feito em cinza e ninguém se preocupou com o seu desaparecimento, porque a maldade bebe o veneno que produz! 



sexta-feira, 28 de abril de 2017

267 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins


A lenda do casamento por uma courela no Carrão

Nos tempos, não muito distantes, nas terras de Capelins e não só, eram os pais que decidiam com quem as suas filhas casavam, ou seja faziam a escolha dos respetivos maridos, cujos critérios eram em primeiro lugar os haveres ou perspetivas de heranças materiais que eles viessem a receber, o dote, aliado à linhagem, que primava por as famílias serem consideradas honradas. A fisionomia ou estrutura física estava em segundo lugar e se as filhas gostavam ou não do marido escolhido estava em último lugar. Esta peripécia que vamos contar, é sobre uma situação em que dois pais ajustaram o casamento dos filhos devido à estratégia de, no futuro, juntarem duas courelas muito boas, uma de cada um, que tinham no Carrão. 

O Ti Luís e o Ti José, eram seareiros e compadres, porque tinham afilhados em comum, um dia, andavam a lavrar nas suas courelas do Carrão e, no momento em que vieram voltar as parelhas de mulas ao topo das respetivas courelas, encontraram-se, cumprimentaram-se e começaram a falar do tempo, das searas, das suas vidas e a conversa foi por ali adiante, assim:
- Ti Luís: Eh compadre temos aqui umas boas courelas, as melhores que existem no Carrão e por aí! 
- Ti José: Pois temos, compadre, mas olhe que nós também as tratamos muito bem, vê-se aqui o resultado do nosso trabalho!
- Ti Luís: Oh compadre, as nossas duas courelas juntas, davam o governo de uma casa, dá-se aqui de tudo!
- Ti José: É mesmo isso que tenho pensado, compadre, e já agora, não leve a mal o que lhe vou dizer compadre! 
- Ti Luís: Ora essa compadre, parece-me lá mal alguma coisa, diga lá, faça favor! 
- Ti José: Então e se a minha filha Maria casasse com o seu filho o João, assim, já podíamos juntar as duas courelas e ficava só uma para eles!
- Ti Luís: Oh compadre, eu não tenho pensado noutra coisa, isso era o melhor que podíamos fazer! Mas oh compadre, ela "cararáu"? 
- Ti José: Oh compadre, mas desde quando é que ela tem de querer, ou deixar de querer? 
- Ti Luís: Desculpe, pois não compadre, pois não tem, mas há aquele problema com o meu João e assim, não sei! 
- Ti José: Mas qual problema compadre! Ele nem coxeia muito e, onde é que a minha Maria vai arranjar um rapaz com tantas terras como vai ter o seu João? E estas courelas! Está resolvido compadre! 
E ficou combinado entre os compadres que a Maria casava com o João, gostasse ou não dele! 
A situação foi comunicada às famílias e a Maria, mais tarde, casou com o João, que não amava, nem nuca amou, não por ser coxo ou feio, ele era muito boa pessoa e tratava-a muito bem, mas ela nunca foi feliz, porque quando o casamento foi ajustado, havia muitos anos que andava perdida de amores por um rapaz do Monte do Salgueiro, que nunca conseguiu esquecer, mas era assim nos anos de 1850, podiam casar por uma courela, mesmo sem amor! 
Hoje, já ninguém casa por courelas! 



terça-feira, 25 de abril de 2017

266 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins


A lenda do Baile das Feiticeiras com os Rapazes do Monte do Aguilhão que vinham da Festa das Cruzes de Capelins


Decorria o mês de Maio de 1870 e, como habitualmente, realizou-se a Festa da Santa Cruz nas aldeias de Capelins, além de muita diversão e da parte religiosa, à noite realizavam-se grandes bailes, pelo menos em duas noites, sendo o baile da noite mais forte abrilhantado por um conjunto de Jaz, designado pelo Jaz e Banda, tipo Orquestra ligeira e nas outras noites por um tocador de harmónio, (tipo concertina, com uma/duas palhetas) e que toda a noite tocava o "arroz com couve". Às Festas da Santa Cruz, vinham gentes de toda a Freguesia, de todos os Montes, e das terras vizinhas, porque já nessa época tinham grande fama! Nesse ano vieram à Santa Cruz de Capelins, dois rapazes do Monte do Aguilhão, que se divertiram o mais que puderam e quando chegou à sua hora de voltar a casa puseram-se a caminho pela estrada do Monte da Ramalha, Monte da Zorra, Ribeiro do Carrão, herdade do Roncão, onde passavam a Ribeira do Lucefécit e, era quase um reta até ao Monte do Aguilhão. Quando iam passando o Ribeiro do Carrão, quase às duas da manhã começaram a ouvir grande barulho de festa, gritos estridentes de mulheres e ficaram assustados. Diz um para o outro: Tu estás a ouvir o mesmo que eu? Então não estou! Disse o outro! Vamos ver o que se passa aí para baixo, (no Ribeiro do Carrão). Já tinham ouvido falar dos bailes de feiticeiras, onde elas dançavam nuas na presença do mafarrico, mas pensaram sempre que não passava de boatos do povo. Aquela noite, era Festa das Cruzes, suas inimigas, então, fugiram todas de Capelins. Os rapazes foram descendo o Ribeiro e não queriam acreditar no que estavam a ver, era um grande grupo de mulheres, algumas que eles conheciam e até de família que dançavam, pulavam nuas envolvidas num histerismo com mistura de loucura. Foram-se chegando cada vez mais, até ao ponto de, sem darem por isso, já andavam a dançar com as feiticeiras, na mesma loucura. Quando o sol já estava a raiar, acordaram sobressaltados a ouvir uma voz que lhe parecia que vinha do além e dizia: "Seus malandros, seus desenvergonhados, o que estão fazendo aqui? E uma destas hem!, Vai-te a eles piloto", e foi quando acordaram, com o piloto, o cão de guarda das ovelhas do Roncão quase a caçá-los. Ainda disseram ao pastor: Estávamos no baile! Um lindo baile, sim senhor, os dois nus e agarradinhos um ao outro, eu já lhe dou o baile! Disse o pastor! Os rapazes do Aguilhão, só tinham as botas calçadas, mais nada vestido, mas ao fugir ainda apanharam as ceroulas e não quiseram saber do resto da roupa, correram tanto, que só pararam quando iam quase a chegar ao Monte do Aguilhão, para combinar o que diziam quando os vissem chegar naquele estado. Depois de muito pensar, concluíram que a melhor versão era dizerem que tinham sido assaltados e que lhe tinham roubado a roupa! Assim, quando chegaram ao Monte do Aguilhão, ficaram todos admirados ao vê-los chegar só com as botas e as ceroulas e, eles apressaram-se a contar o que tinham combinado. Esta situação foi muito falada por toda a região, uns acreditaram, outros não, mas nessa altura ninguém soube a verdade, só contaram mais tarde, porque o pastor do Roncão era homem de pouca conversa e nunca abriu a sua a boca para contar o que tinha visto e, eles também não puderam contar nada sobre o baile das feiticeiras porque também tinham o rabinho preso! 





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