segunda-feira, 17 de abril de 2017

261 - História de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

As origens de Capelins 

Cada vez restam menos dúvidas de que a origem de Capelins, veio da família judaica "Gomez", Gomes e que esta Família, antes da expulsão de Espanha, eram chapeleiros em Granada, daí o apelido de Chapellins, que em português veio dar os Capellins. A verdade é que em Portugal existiu uma grande fábrica de chapéus da Família Gomez, Gomes, (de origem judia)!

Quanto à nossa Capelins, sabemos que, primeiro foi construído o Monte dos Capelins, (onde morava Maria Gomes), em Capelins de Cima e, logo de seguida surgiu o Monte dos Capellins de Baixo, que deram origem às duas aldeias de Capelins de Cima e Capelins de Baixo. Em 1712, já é mencionado pelo Pároco de Santo António, Miguel Gliz (Gonçalvez) Galego, no assento do óbito da Ti Maria Roíz (Rodriguez), que esta morava em Capelins de Cima, logo, já tinha de existir Capelins de Baixo, dentro da Defesa de Ferreira, nas terras da Casas do Infantado! 







260 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do burro ou vaca 


Conforme nos contaram as pessoas mais idosas das terras de Capelins, há cerca de 80/100 anos, existiam por aqui muitas feiticeiras e lobisomens e, este caso, atribuído aos ditos cujos, aconteceu num verão de um desses anos da primeira década de 1900.

Nos meses de verão, não só por ser mais fresco, mas também pela necessidade de guardar os animais que pastavam durante a noite, os seus proprietários ou trabalhadores das herdades ou propriedades, dormiam nos campos ao luar, assim como, durante a debulha, nas eiras, para guardar os cereais e, quando não os conseguiam separar da palha durante a tarde por falta de vento, se viesse pela noite fora, os homens tinham de se levantar e passar a noite a trabalhar. Este caso, que nos contaram com grande convicção de verdade, passou-se numa noites em que todos os homens, proprietários e trabalhadores das herdades das terras de Capelins, estavam a dormir nas eiras dos Montes, após a meia noite começaram a ouvir um grande tropel, que parecia de dezenas de cavalos, acordaram assustados e uma das pessoas que assistiu ao sucedido estava a dormir na eira do Monte da Talaveirinha e contou que acordou com grande barulho de cascos de animais, que faziam um estrondo medonho, como não dava para correr para dentro do Monte e tinha muita palha por perto, puxou-as para cima e ficou muito quietinho a observar o que se passava e viu apenas um pequeno burro (um borcalho) a correr que sozinho fazia todo aquele barulho, deu três voltas ao Monte, depois parou-se em frente e, em vez de zurrar como um burro, urrou como uma vaca e continuou a correr por todos os Montes da região. De manhã, as pessoas muito assustadas, juntaram-se para comentar o que tinha sucedido, porque em todas as eiras havia homens a dormir e ouviram exatamente o mesmo! 

Todas as pessoas,atribuíram este fenómeno, à ação de um lobisomem! Não havia outra explicação!
E como me disseram: "Que necessidade tinham as pessoas de mentir?" 
Tudo, ou quase tudo, tem explicação! Sabemos lá o que foi! Mas que alguma coisa anormal aconteceu, aconteceu! 






sexta-feira, 14 de abril de 2017

259 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda da Ti Maria Gomes e da mulher misteriosa no Vale de Enxofre

Nos finais do mês de Maio de 1712, a Ti Maria Gomes, que morava em Capelins de Cima, como habitualmente, levantou-se de madrugada, carregou o cesto da roupa à cabeça e seguiu a caminho da Ribeira do Lucefécit, para o lavadouro nas Neves. Foi pela estrada das colmeadas, desceu pelo vale de Enxofre e quando chegou ao poço das Neves, estavam a surgir os primeiros raios de sol e vê na sua frente uma mulher misteriosa sentada numa pedra perto do poço, ficou ansiosa com algum receio e na dúvida se devia, ou não, dar uma volta mais larga para não passar por perto e sentiu as pernas fraquejar, porque era muito estranho àquela hora da manhã estar ali uma mulher sentada à espera de nada. Antes de tomar alguma iniciativa a mulher dirigiu-se à Ti Maria e com muita delicadeza e voz muito fraca, pediu-lhe se lhe podia dar alguma coisa para comer, porque havia já três dias que não comia nada. A Ti Maria não resistiu à maneira como a mulher lhe fez o pedido e parou-se imediatamente, descarregou o cesto da roupa e abriu a alcofa onde levava o parco almoço, um bocadinho de pão, uns torresmos, um bocadinho de toucinho e umas azeitonas. Deu tudo à mulher misteriosa e disse-lhe:- Deixe-me só uma dentadinha de pão com umas azeitonas, porque vou passar aqui o dia todo a lavar e o resto pode comer tudo! A mulher aceitou, mas pouco comeu, entregou o resto do almoço à Ti Maria e disse-lhe que chegava o que tinha comido, agradeceu muito e como reconhecimento deu-lhe uma cestinha que trazia com alguma coisa debaixo de palha, pediu-lhe para ficar com a cestinha e para não ver o que estava debaixo da palha antes de entrar em casa. Foi difícil fazer a Ti Maria aceitar a cestinha, mas depois de tanta insistência lá a aceitou e seguiu até à Ribeira e a mulher desapareceu na direção das Águas Frias. À medida que o dia ia passando mais crescia a curiosidade da Ti Maria em ver o que estava debaixo da palha na cestinha e várias vezes tentou ver, mas lembrava-se do que a mulher misteriosa lhe tinha dito e com receio de alguma má surpresa recuava e continuava a lavar. No fim da tarde, acabou a lavagem e preparou-se para voltar para Capelins de Cima, mas naquele momento já não conseguiu resistir, tirou a palha e por baixo vê apenas algumas pedras, ficou zangada por ter sido enganada e atirou-as à Ribeira, mas guardou a cestinha de verga e levou-a para casa. Quando chegou atirou-a para um canto e nessa noite não lhe ligou mais. No dia seguinte, estava a arrumar a roupa e lembrou-se da cestinha, olhou para o lado e viu dois pontos muito brilhantes no fundo da cestinha, deu um salto e ficou com ela na mão e retirou dois pedacinhos muito pequeninos de ouro que estavam presos na verga e lembrou-se que tinha deitado à ribeira todo o ouro. A Ti Maria, já não acabou de arrumar a roupa, foi novamente à Ribeira, ao lugar onde tinha atirado as pedras e procurou, procurou, tempo sem fim, mas não encontrou nada. As mulheres que estavam a lavar roupa ficaram assustadas com a atitude da Ti Maria, parecia que não estava boa da cabeça e várias vezes lhe perguntaram o que estava fazendo, mas ela não lhe deu resposta, horas depois convenceu-se que não encontrava nada e voltou para casa muito triste, mas não contou nada a ninguém e só passados muitos anos, contou às filhas o que se tinha acontecido naquele dia no Vale de Enxofre e, mostrou-lhe a prova de que falava verdade, os dois pedacinhos de ouro que ficaram presos na verga da cestinha e, disse-lhe que estavam pobres, devido à sua curiosidade! 
Já no tempo da Ti Maria, a curiosidade fazia destas coisas!

Ribeiro das Neves 



quarta-feira, 12 de abril de 2017

258 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A lenda do lobo amestrado e o milagre de Nossa Senhora das Neves

A partir de 1850 verificou-se a afluência de muitas famílias às terras de Capelins, com maior concentração na parte sul, no Monte do Salgueiro, Montes Juntos e nas herdades limítrofes, sendo a maioria dos novos povoadores, guardadores de gado, designados por ganadeiros. A maioria desses ganadeiros vieram na transumância, por aqui casaram e ficaram, porque nessa época, todos os lavradores tinham grandes rebanhos de ovelhas e outro gado. A maioria dos ganadeiros, eram naturais do Distrito da Guarda, da Serra da Estrela e, quase todos, fizeram a sua casa nos referidos locais, porque era necessária para quando as mulheres tinham crianças aqui permanecerem durante algum tempo e, como tinham um filho/a por ano, pouco tempo estavam nas choças. 
O caso que vamos descrever passou-se com o Ti João Gomes, ganadeiro na herdade da Defesa de Bobadela, que se situava entre a herdade da Amadoreira e a herdade do Azinhal Redondo de Baixo. Esta herdade era muito boa, tinha terras férteis e muita água, uma vez que englobava grande extensão do rio Guadiana, mas existiam por lá muitos lobos, obrigando o Ti João a redobrar o trabalho.
Um dia o Ti João guardava as ovelhas perto da Cinza, ouviu os seus dois cães a ladrar, um rafeiro alentejano e um serra da Estrela pêlo curto, foi a correr a ver o que se passava e encontrou um lobito, muito pequenino, muito lindo, que parecia esfaimado e a tremer de frio. O Ti João não resistiu a apanhá-lo para dentro do bornal, foi procurar uma das duas cabras que trazia no rebanho e começou a ordenhar para a sua mão, fazendo uma cavidade que encheu de leite, e com muito carinho meteu a boca do lobito dentro do leite, foi muito difícil, e teve muita paciência, mas quando o lobito começou a provar o leite tudo se tornou mais fácil e no final do dia já conseguia beber umas gotas de leite. Quando chegou com as ovelhas à choça, estava lá a mulher, a Ti Margarida de Jesus, que ficou muito admirada por o marido arranjar mais um cão! O Ti João explicou-lhe que não era um cão, era um lobo! Ai valha-me Deus homem, então tu trazes um lobo para casa! E se aparece aí o pai e a mãe a procurá-lo! Vê bem o que vais fazer, deixa ver se esse lobo não vai ser a nossa desgraça! Disse a Ti Margarida! Cala-te mulher! Vamos criar o lobo e amançá-lo, vais ver o cão que vamos arranjar! Disse o Ti João! A seguir, foi ordenhar as cabras e pediu uma tigela velha à mulher para dar leite ao lobito, que começou a beber o leite das cabras, todos os dias, e a crescer sem apresentar braveza, tudo estava a correr como o Ti João tinha planeado. 
Cerca de um ano depois, o lobito começou a afastar-se da choça e do pastor, cada vez dava passeios mais largos a farejar os sítios onde tinham passado os da sua raça, mas voltava sempre à choça, até que uma noite não regressou e ficaram todos muito tristes, chamaram, chamaram e nada, pensaram que os outros lobos o tinham matado. No dia seguinte, o Ti João foi a um lugar mais alto e deu um assobio dobrado, não demorou muito apareceu o seu lobito amestrado, deu-lhe leite na sua tigela exclusiva, ele bebeu o leite, mas horas depois tornou a desaparecer, continuando esta situação a verificar-se por mais de um ano, o Ti João dava o assobio dobrado e o lobito voltava, bebia o leite e depois desaparecia. O lobo, com mais de dois anos de idade, estava muito grande e bonito, o pelo brilhante e já estava integrado na alcateia que não andava longe dali, mas nunca atacou o rebanho do Ti João, decerto, devido ao seu lobo amestrado, que desviava dali os outros lobos. 
Decorria o mês de Abril de 1862 e o Ti João estava a guardar as ovelhas muito perto da Amadoreira e apareceu um seu compadre, o Ti Francisco Valente, ganadeiro da Amadoreira e, também natural da mesma aldeia, da Póvoa Nova, Seia, ao ver o Ti João, veio ter com ele, cumprimentaram-se e a conversa não podia ser outra, senão sobre o gado que guardavam e o Ti Francisco perguntou ao compadre se os lobos não lhe andavam a dar muito trabalho? Porque ele não dava conta deles! O Ti João, disse-lhe que não! E contou-lhe que havia mais de dois anos, que não tinha problemas com os lobos, desde que tinha um lobo amestrado, nunca mais a alcateia se aproximou do rebanho! Um lobo amestrado? Oh compadre, está a brincar comigo, não? Disse o Ti Francisco! Não estou, não compadre e posso mostrar-lhe que estou a falar verdade, amanhã por esta hora vamos ali ao Ribeiro da Amadoreira, eu dou um assobio dobrado e vem ter comigo um lobo como o compadre nunca viu! Disse o Ti João! Com muitas dúvidas, o Ti Francisco aceitou a proposta do Ti João, no dia seguinte ia ver o lobo amestrado! 
No dia seguinte, conforme estava combinado, à tardinha lá estava o compadre do Ti João junto ao Ribeiro da Amadoreira, muito perto do rio Guadiana. O Ti João foi ter com ele, cumprimentaram-se e explicou-lhe como iam fazer, o compadre ficava num lugar mais alto atrás de umas rochas, para ver e não perturbar o lobo, depois de tudo certo o Ti João desceu uns sessenta metros, preparou a respiração e deu um assobio dobrado, ficaram à espera e em poucos minutos apareceu lá ao fundo um lindo lobo, o Ti João chamou-o: "vem cá lobito, vem cá". O lobo aproximou-se, mas parou as uns vinte ou trinta metros, demonstrando um comportamento anormal, farejou, farejou e repentinamente transformou-se numa autentica fera, eriçou o pêlo do dorso e lançou-se em voo sobre o Ti João, arreganhando os dentes que pareciam facas afiadas na direção da sua garganta. O Ti João ficou muito assustado, mas não virou costas, levantou o pau, que era ferrado, (com um ferro embutido à ponta) e gritou: "Socorro Nossa Senhora das Neves", o pau que ele tinha levantado disparou com tal intensidade contra a cabeça do lobo, que lhe caiu em cima dos pés, ficando inerte. O compadre, pastor da Amadoreira, assistiu a tudo, mas nada podia fazer, veio ter com o Ti João, mas nem conseguia falar, tremia todo dentro das botas e os poucos dentes que tinha batiam uns contra os outros que parecia estar a tocar castanholas, quando acalmou, disse: "Foi por pouco compadre, eu já ai vinha ajudá-lo, mas estava lá tão longe! Está morto, não está?" Agora está, depois venho enterrá-lo, mas como é que isto aconteceu! Ele conhecia-me tão bem! Disse o Ti João! O lobo conhecia o Ti João, mas noutras circunstâncias, faltava ali um objeto essencial ao lobo, era a tijela onde bebia o leite e comia, que substituiu a mãe que nunca conheceu, para ele, era um símbolo de respeito carinho e de amor, estando a tijela associada ao assobio dobrado do Ti João. Daí a pouco, já mais calmos, os pastores despediram-se, recolheram as ovelhas e foram para as respetivas choças. O Ti João assim que chegou, contou à mulher o que se tinha passado, ela chorou muito e recordou o que lhe tinha dito no dia em que ele levou o lobito para a choça: "Vamos ver se esse lobo não vai ser a nossa desgraça"! Não foi, mas esteve perto! O marido disse-lhe que ainda ia a correr enterrar o lobo, pegou numa enxada e dirigiu-se ao lugar onde o tinha deixado, supostamente morto, mas quando lá chegou, não existia qualquer sinal do lobo, procurou tudo em redor e nada, acabou por voltar à choça. A conversa com a Ti Margarida continuou e ele afirmou que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves que lhe salvou a vida! E agora o que fazemos para lhe agradecer? Disse o Ti João! Depois de discutirem várias ideias, concordaram em ir contar o que se passou ao Pároco de Santo António, que era o mesmo de Nossa Senhora das Neves, o Padre Jerónimo de Jesus Maria Granja. Dois dias depois, o Ti João albardou a burra e foi a Santo António contar tudo ao Pároco e pedir-lhe ajuda sobre o que deviam fazer. O padre, disse-lhe que deviam fazer uma procissão, mas também deviam oferecer um borrego ou um cabrito a Nossa Senhora das Neves, mas entregava-o a ele ali em Santo António, mas a sua família seria encomendada a Nossa Senhora das Neves para continuar protegida e, daí a quinze dias, no domingo, às três horas da tarde realizava-se lá a procissão e o Ti João entregava-lhe ali o borrego no sábado. Ficou tudo combinado e o Ti João voltou à Defesa de Bobadela. Ainda nesse dia, começaram a planear tudo, ficou assente que os três filhos mais novos iam vestidos de anjinhos e tinham de arranjar roupa a condizer com a cerimónia, porque eles seriam as estrelas da procissão e, logo no dia seguinte, começaram os preparativos, o Ti João foi encarregado de fazer a armação das asinhas dos anjinhos, em vime e em buinho e fez, depois a Ti Margarida forrou-as com pele de borrego e ficaram lindas. 
No dia 12 de Maio de 1862, realizou-se uma grande procissão na Ermida de Nossa Senhora das Neves, o Ti João e família foram agradecer a tão grande dádiva, que foi a salvação da sua vida! 

Nunca mais ninguém soube o que aconteceu ao lobo e, o Ti João não voltou a dar o assobio dobrado até ao fim da sua vida!


Foto net 


domingo, 9 de abril de 2017


257 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins


A lenda do sonho da Ti Maria Faleira, de Faleiros 


A aldeia de Faleiros teve origem no Monte dos Faleiro, ou seja no Monte construído nesse lugar pela família Faleiro, sobre a qual já se encontram registos na Paróquia de Santo António na década de 1630, mas também encontramos essa família na região de Borba e em Terena. O caso que descrevemos, passou-se no ano de 1850, um dia pela tardinha a Ti Maria Faleira estava sentada à soalheira à sua porta a cozer, cortando de um lado, pondo remendos e mais remendos na roupa já gasta do marido e dos filhos. Era primavera, mas o sol estava quente e a Ti Maria estava com tanto sono, que já mal via o que estava fazendo, quando ouve uma voz desconhecida: - Boa tarde vizinha! Abriu bem os dois olhos e viu à sua frente uma senhora desconhecida, muito bem vestida, uma boa figura! A senhora é minha vizinha? Não a conheço, nunca a vi aqui! Disse a Ti Maria! Sou sua vizinha, moro ali em baixo! Disse a desconhecida! Mas como pode morar ali em baixo, se não existe ali nenhuma casa! Disse a Ti Maria! Está ali a minha casa, venha lá vê-la! Disse a desconhecida! Mas o que vou eu ver, se sei que não há ali nenhuma casa, mas está bem, vamos lá! Disse a Ti Maria! Deram a volta ao Monte e seguiram o caminho do Monte Abaixo e a Ti Maria ficou abismada ao ver uma casa no sítio que todos os dias olhava e não estava lá nada! Ainda pensou que estava a sonhar, mas não, estava bem acordada. A desconhecida, no caminho pediu-lhe muito que dentro de casa nunca dissesse a palavra Deus, a Ti Maria ficou surpreendida, mas pensou que seria alguma família de origem Judia ou Muçulmana e prometeu que não dizia a palavra Deus. Chegaram à casa estranha, a desconhecida abriu a porta e convidou a Ti Maria a entrar, assim que entrou, não conseguia fechar a boca, nunca tinha visto uma casa assim, tudo brilhava, tinha mesa, cadeiras, arca de madeira, chão em laje polida, nem a casa do patrão do marido era como aquela. Quando a Ti Maria estava para voltar para sua casa, a desconhecida disse-lhe que ainda faltava ver o quarto. A Ti Maria nem hesitou, dirigiu-se com a desconhecida à porta do quarto e entraram, o quarto estava todo iluminado de vermelho, pareciam chamas e ao fundo um nevoeiro, também vermelho de onde saiu uma voz cavernosa que disse: "Bem vinda ao nosso reino", a Ti Maria ainda olhou para o lado e no lugar da desconhecida estava uma cabra virada para ela de olhos muito abertos, deu um grito: Ai valha-me Deus! e benzeu-se, naquele momento deu-se um estrondo no quarto e a Ti Maria desmaiou, quando acordou estava sentada na erva na berma do caminho, de mão dada à desconhecida e a casa tinha desaparecido, ficou sem palavras, a desconhecida puxou-a pela mão e levou-a de volta a sua casa, sentou-a e disse-lhe: Obrigada por me ter libertado do mafarico, não conte a ninguém o que aqui se passou e a partir de hoje a sua vida vai mudar para melhor. A Ti Maria abanou a cabeça a tentar sair daquele marasmo e quando olhou em frente a desconhecida tinha desaparecido. A Ti Maria pensou que tinha estado a sonhar, mas na dúvida não contou nada a ninguém e continuou o seu trabalho, até à hora de fazer a ceia (jantar) porque o marido, que era pastor na herdade da Boeira, vinha cear e dormir a casa, ficando os dois filhos mais velhos na choça, com as ovelhas. A Ti Maria estava a por a mesa quando entrou o marido aos pulos, parecia que vinha doido, pregando grande susto à mulher, gritando: - Maria, a partir de hoje, a nossa vida vai mudar! 
Quando o marido da Ti Maria Faleira entrou em casa repetiu as palavras da desconhecida: "A nossa vida a partir de hoje vai melhorar". A Ti Maria Faleira ainda pensou que era alguma brincadeira combinada entre o marido e a desconhecida, mas tirou logo isso da ideia devido ao que se tinha passado naquela casa e perguntou: - Então, como é que a nossa vida vai mudar? Só se for para pior! E o marido apressou-se a contou-lhe o que se tinha passado na Boeira naquele dia: - O patrão e o feitor, hoje foram lá ver as ovelhas e o patrão ficou tão satisfeito, por o rebanho estar tão bem tratado e com tantos borregos, que não se cansou de me dizer que eu era o melhor pastor que alguma vez teve, e olha, aumentou-me a jorna e deu ordem ao feitor para escolhermos duas borregas do ano passado para nós e, podemos comprar mais oito e uma cabra para ficarem lá no rebanho, são nossas e os borregos, o leite, a lã tudo nosso e sem pagarmos nada! Ninguém nessa época tinha um "povial" num rebanho do patrão! A Ti Maria ficou muito contente, mas pouco entusiasmada, porque não lhe saiam da cabeça as palavras da desconhecida, podia ser coincidência, mas a verdade é que a sua vida lhe parecia que ia mesmo melhorar! Passou algum tempo e tudo corria de feição, a sua vida melhorava dia a dia, os filhos mais novos, um menino e uma menina já estavam crescidos e mudaram-se todos para a choça na Boeira, onde havia muita largueza e tinham muitas galinhas, frangos e muita fartura de ovos, de leite das cabras, de tudo, muito raramente visitavam o seu Monte em Faleiros, até ao dia em que devido à idade e para darem o lugar na Boeira, aos filhos, a Ti Maria e o marido tiveram de voltar definitivamente para Faleiros. No derradeiro dia, carregaram as burras, a Ti Maria montou uma com a ajuda dos filhos e, em companhia da filha puseram-se a caminho, pelo Ai Ai e Monte Abaixo, quando estavam quase a chegar, a Ti Maria deu um safanão tão forte na burra, que o animal levantou as patas da frente quase a atirou abaixo e à carga que trazia, a filha e o marido ficaram surpreendidos sem perceberem o que se passava, ainda foram a correr para segurarem a burra, mas já ela estava quase em casa. Depois perguntaram-lhe o que se tinha passado, mas a Ti Maria, apenas respondeu, que não sabia, não sabia e não se falou mais no caso, mas ela a partir daquele dia nunca mais teve coragem de ir atrás do Monte, porque a razão da atitude da Ti Maria, para com a burra, no dia que chegou a Faleiros, foi porque no lugar da casa que ela tinha visitado com a desconhecida estava agora uma casa exatamente igual aquela e por muito que lhe explicassem de quem era e quem lá morava, não a conseguiram convencer, dois anos depois ficou acamada e antes de partir para a Igreja de Santo António, onde foi sepultada, um dia contou tudo à filha. A casa que estava naquele lugar e ainda está, é o Monte da Hortinha! (Que era dos meus bisavós paternos, João Nabais e Maria Francisca Correia)! 
Acredito que foi pura coincidência! 


Bem haja Ti Maria Faleira, da aldeia de Faleiros! 




sábado, 8 de abril de 2017


256 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins


A lenda do Ti Manuel Capum 


No ano de 1965, ainda a Escola Primária da aldeia de Ferreira estava bem afreguesada e, à hora da saída, partiam, quase sempre, em pequenos grupos em várias direções, uns para os lados de Capelins de Baixo, outros para os lados do Monte da Cruz, Pinheiro e Monte Novo e um grupo para norte, Capelins de Cima e Montes em volta. Entre a escola e as respetivas residências passavam-se muitas peripécias, desde agressões morais e físicas, até provocações a transeuntes que demonstrassem alguma diferença. Este caso que vamos contar passou-se com uma pessoa, que o grupo dos diabinhos achavam diferente. Todos os dias, durante alguns anos, o Ti Manuel (Coxo) que morava em Faleiros, passava a Ferreira, duas ou quatro vezes por dia, a caminho de Montejuntos e de regresso a Faleiros numa carroça com rodas de automóvel, puxada por uma burra e sempre num passo tão lento que nos irritava, decerto levava algumas horas a fazer este percurso, e o que teríamos nós a ver com isso? Mas tivemos, a carroça era diferente de todas as que existiam na região, já era um motivo para implicar com o homem, depois ele mostrava sempre uma cara carrancuda, talvez para não dar confiança a gaiatos, mas tudo isso ainda aguçava mais a nossa vontade de lhe arranjarmos algum problema. Um dia, por coincidência, o Ti Manuel vai a caminho de casa em Faleiros à mesmo hora da nossa saída da escola, o grupo de Capelins de Cima apanha-o mesmo em cheio e fomos caminhando umas vezes à frente da carroça, outras vezes atrás, sempre em poses de provocação, quanto mais ele nos mostrava cara de pouco amigo, mais nós picávamos: "atão Ti homenzinho, o automóvel não anda mais que isto?" Ele não dizia nada, até que ao ver provocações a mais, começou a dizer: "Capum" (capo um), foi o azar do Ti Manuel e o nosso, a partir daquele momento ganhou o apelido de "Ti Capum", chegamos ao Monte Grande e acabou a festa, porque ele seguiu para Faleiros e nós pela rua de Capelins de Cima. No dia seguinte, à hora do recreio vem o Ti Manuel na direção de Montejuntos, assim que o vimos fomos a correr e a gritar em coro "Capum, Capum, Capum", o resto da rapaziada que não tinham assistido à festa do dia anterior não percebiam nada, mas gostaram e foram logo informados sobre o que se tinha passado e convocados para a próxima vez que ele ali passasse, tinhamos todos de gritar "Capum". No dia seguinte, à mesma hora, aparece o Ti Manuel com a sua carroça automóvel e os diabinhos fomos a correr formamos lado a lado e quando ele ia passando em frente à escola, começamos todos a gritar "Capum", ele não nos ligou, mas quem nos ligou foi a professora, já o Ti Manuel ia ao poço do chorão e nós ainda a gritar em força, como ele nos ignorava, mais nós gritavamos. Ainda estavamos a gritar a palavra de ordem e já estava uma colega a dizer-nos para ir-mos à professora, alguns ainda tentaram escapar, mas não, nenhum escapou de levar uma dúzia de reguadas e, a palavra "Capum" foi proibida de pronunciar pelos alunos da escola de Ferreira! 

Mas foi uma bela festa, enquanto durou, que nos perdoe Ti Manuel, foram coisas de gaiatos! 

Escola de Instrução Primária de Ferreira 



255 - Terras de Capelins 



História, lendas e tradições das terras de Capelins



A lenda do cão piloto, rafeiro alentejano, que salvou o rebanho de ovelhas e o ajuda do pastor do Monte Seco 


O pastor do Monte Seco, o Ti Manoel Moreira, guardava mais de trezentas ovelhas, duas cabras, duas burras e uma borcalha, tendo como ajuda o afilhado de doze anos chamado João. No mês de Maio de 1870, realizava-se a feira de Reguengos e o Ti Manoel decidu ir à feira vender a borcalha e comprar uns chocalhos e outras coisas que estava a precisar. Organizou tudo com antecedência, o João ficava a guardar as ovelhas com a ajuda da Ti Joaquina, a mulher do pastor e à noite o ajuda dormia na choça e a Ti Joaquina ia dormir ao Monte, decerto não havia nenhum problema. No dia da feira, de madrugada, o Ti Manoel albardou a burra, prendeu a borcalha à albarda e partiu para Reguengos, ao nascer do sol estava a passar a aldeia de Mato e menos de uma hora depois, estava a entrar na feira. Depressa vendeu a borcalha na feira do gado, tinha boas medidas, muito semelhante à mãe, com tudo para sair uma linda burra. Entregou a burra onde tratavam e guardavam esse animais e foi dar uma volta com mais atenção à feira do gado, levando algumas horas a observar e a falar com conhecidos. Quando já tinha fome, chegou-se a uma barraca de vinhos, pediu meio litro de vinho, abriu a merenda composta de pão, toucinho, queijo e azeitonas e ficou bem almoçado e pronto para percorrer o resto da feira para procurar e apreciar os produtos que queria comprar, para ainda nesse dia fazer as compras e logo de madrugada partir para o Monte Seco. 
A choça do Ti Manoel e o bardo (curral) das ovelhas ficavam muito longe do Monte e nesses tempos existiam muitos lobos por toda a região de Capelins e terras vizinhas, mas nunca tinham atacado o rebanho da herdade do Monte Seco, porque o Ti Manoel não se descuidava nada durante a noite e com a ajuda do seu cão piloto de raça rafeiro alentejano, temidos pelos lobos, conseguia afastá-los dali. Porém, nessa noite, ninguém soube porquê, algumas pessoas diziam que os lobos conseguiam farejar e descobriram que o Ti Manoel não estava na choça, e fizeram grande ataque ao rebanho. O João acordou com o barulho da correria dos animais, com o berrar das ovelhas e com o ladrar do piloto, tinham outro cão de outra raça, o qual com medo dos lobos desapareceu, só aparecendo à choça no dia seguinte, o João saiu da choça apenas com o pau de guardar as ovelhas e foi fazer frente aos lobos, mas era uma grande alcateia e em pouco tempo estava cercado, já cansado e sem conseguir defender-se por todos os lados, os lobos, uns atacavam, outros recuavam, e apareciam ainda com mais força. Outro grupo de lobos tentavam chegar às ovelhas, mas eram impedidos pelo cão piloto, que para defender as ovelhas não conseguia ajudar o João, mas quando o João começou a gritar por socorro, o piloto fez grande investida contra os lobos para os afastar para o mais longe possível e correu a ajudar o João que já tinha os lobos a poucos metros, o piloto atirou-se aos lobos e os que apanhava pelo pescoço dava-lhe uma abanão e caiam mortos, mas os lobos eram tantos que o piloto já estava cheio de sangue, a faltarem-lhe as forças e todo mordido, mas com muita coragem corria a todos os lados matando cada vez mais lobos, até que estes já em menor número começaram a fugir e não voltaram mais. O piloto ficou muito ferido, o João levou-o para a choça, deitou-o na palha e com água lavou-lhe as feridas, o piloto estava a sofrer muito, tremia muito, mas o João não sabia o que fazer, passou o resto da noite agarrado a ele a dar-lhe carinhos, porque sabia que ele lhe tinha salvado a vida e que não tinha deixado os lobos chegar a uma única ovelha. Quando o Ti Manoel chegou, parecia-lhe tudo normal com o rebanho, mas ao aproximar-se da choça começou a ver tantos lobos mortos e logo adivinhou o que se tinha passado, ficou muito aflito por não ver o João, que estava dentro da choça ainda agarrado ao piloto, começou a chamá-lo e ele respondeu que estava ali. O Ti Manoel, entrou na choça a correr, viu o piloto muito ferido e o João a chorar contou-lhe tudo o que se tinha passado e como o piloto lhe tinha salvado a vida e todo o rebanho e choraram os dois, ainda mais com pena do piloto. O Ti Manoel, agarrou-o ao colo para cima da burra e levou-o para o Monte Seco, mas com pouca esperança de sobreviver. Nesse tempo, ainda não existiam veterinários, mas haviam pessoas que sabiam tratar os animais, o Ti Manoel foi a S. Tiago buscar um homem dos melhores tratadores e disse-lhe que, sem olhar a despesas, pagava o que fosse preciso, para ele salvar o piloto. O caso era muito grave e existiam poucas esperanças de o salvar, mas foi tão bem tratado que ao fim de três meses já estava junto do rebanho, onde ele gostava de estar, nunca mais foi o mesmo piloto em genica, mas tornou-se tão dócil e agradecido pelo que fizeram por ele que lambia as mãos a todas as pessoas que se aproximavam dele em sinal de reconhecimento. 
O piloto, nunca mais deixou o João, mas um dia partiu, morrendo aos pés do João. 
É também por isso, que cada vez mais admiramos esta raça de cães, rafeiro alentejano!


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