quinta-feira, 16 de março de 2017


236 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos


História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do maltez que foi feitor em Capelins 


Conta-se que, num dia no início do mês de Março de 1758, iniciavam-se as lavouras (alqueve) na herdade da Defesa de Ferreira, quando à tardinha chegou junto do ganhão (responsável pelos bois de trabalho), um homem com uma manta às costas e um pau, que lhe servia de defesa, e perguntou se não precisavam de um homem para lavrar com os bois. O ganhão olhou para ele desconfiado e respondeu-lhe com outra pergunta, se ele sabia fazer aquele trabalho, ao que ele respondeu: Dou um jeito! O ganhão repetiu a pergunta e o homem deu a mesma resposta! Sendo assim, como tenho dois ou três lugares podes ficar à experiência e depois logo vejo pelo resultado, se vais ficar ou se te dou um pontapé no traseiro, porque aparecem por aqui muitos maltezes como tu! Disse o ganhão! E já posso cear (jantar) na casa? Ainda hoje não comi nada! Disse o homem! Não devias, porque ainda não estás a trabalhar, mas está bem, depois logo acertamos isso! Disse o ganhão! E o homem nessa noite já ceou (jantou) no Monte Grande, umas sopas de grãos com toucinho rançoso. Ainda de madrugada, os trabalhadores (criados) levantaram-se, comeram uma bucha e foram para o malhão onde era a lavoura. Os bois já lá estavam e os criados começaram a emparelhar as suas juntas e ficaram preparados para começar a lavrar. O ganhão deu as ordens para começarem uns atrás dos outros e depois de entregar uma junta de bois ao novo trabalhador disse-lhe para se distanciar dos outros, porque precisava de saber se ele sabia lavrar com os bois. Ele perguntou-lhe o nome dos bois da sua junta, porque isso era muito importante para se entender com os animais. O ganhão riu-se e disse-lhe: "para o tempo que há-de ser" chama-lhe boi cá, boi lá. O novo trabalhador tornou a pedir-lhe para lhe dizer o nome dos bois e o ganhão repetia sempre a mesma coisa e disse-lhe se não te calas levas já um pontapé e desapareces daqui. O homem seguiu as instruções do ganhão e foi tirar um rego, antes marcou um ponto ao longe, de onde não tirou os olhos e sempre falando com os bois, estes colaboraram de tal maneira que o ganhão não queria acreditar no que via, em toda a sua vida nunca tinha visto um rego tão direito, ainda pensou que fosse por calhar e não disse nada. O homem continuou a lavrar e os regos sempre certinhos, fazendo uma lavoura nunca vista nas terras de Capelins. O ganhão coçava a cabeça, nunca tinha assistido a um trabalho tão bem feito. Quando pararam para o almoço (pequeno almoço), aproximou-se do homem com uma atitude amigável e perguntou-lhe: Então como te chamas? Maltez! Disse o homem! Então agora! Ninguém se chama maltez! Vá diz lá o nome! Disse o ganhão! "Para o tempo que há-de ser, sou maltez! Disse o homem! E não passou disso. Continuou a lavrar e antes do meio dia apareceu o feitor da herdade que estranhou ver um homem a lavrar afastado dos outros. Esteve a apreciar a lavoura e ficou abismado, nunca na sua vida tinha visto uma lavoura assim e foi ter com o ganhão a pedir explicações. Este disse-lhe o que se passava, que o homem estava à experiência. O feitor zangou-se, mas qual experiência, agora a seguir ao jantar (almoço), pões o homem aqui com os outros e já é criado da casa. Chegou a hora do jantar (almoço), parou o trabalho, foram todos jantar e o ganhão, sempre em volta do homem, deu-lhe a melhor comida, disse-lhe que já era criado da casa e boa conversa, mas o homem pouco falou. Acabou de comer, levantou-se, pôs a manta às costas, apanhou o pau e foi-se embora. O ganhão, não queria acreditar no que estava a ver, foi atrás dele até ao alto do malhão, pediu-lhe desculpa por o ter recebido tão mal, fez-lhe promessas, com medo do feitor, mas o homem não falava e continuava o seu caminho para sul e o ganhão teve de desistir e voltar para o trabalho. O homem, chamava-se Miguel e, à tardinha desse dia, com Monsaraz à vista, chegou à herdade do Azinhal Redondo de Baixo, dirigiu-se ao lavrador e depressa se ajustaram. O Miguel ficou aqui a trabalhar e devido à sua dedicação e à qualidade do seu trabalho, um ano depois já era o feitor da herdade do Azinhal Redondo de Baixo e a sua fama de bom feitor espalhou-se pelas terras de Capelins. O Miguel começou a namorar com a filha de um jornaleiro da herdade e, alguns meses depois casaram na Igreja de Santo António, no dia do seu casamento, estava lá o ganhão a batizar um filho, foi novamente pedir-lhe desculpa da forma como o tinha tratado e a desejar-lhe felicidades. O Miguel e a esposa, ficaram no Monte do Azinhal Redondo de Baixo até ao fim das suas vidas, tiveram seis filhos que casaram pelas terras de Capelins e de São Pedro do Corval. O Miguel era de São Miguel do Adaval, Redondo, um homem muito honesto e bom trabalhador. O ganhão do Monte Grande foi precipitado no julgamento, em relação ao Miguel, as aparências muitas vezes enganam! 



quarta-feira, 15 de março de 2017


235 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda da Maria Gomes e do Sapo do Monte Grande 


Conta-se que, há mais de 300 anos, existia um lavrador no Monte Grande, chamado José Savedra, que se perdeu de amores por uma donzela filha do lavrador do Monte de Capelins, chamada Maria Gomes e que teve o fim que a seguir descrevemos. 
O lavrador do Monte Grande, o mais poderoso das terras de Capelins, perdeu-se de amores pela filha mais nova de Manoel Gomes, lavrador do Monte de Capelins. O José era muito feio, alto, pernas fininhas, grande barriga, olhos salientes, pele de sapo, não lhe faltava nada para parecer um autêntico sapo, foi fácil ganhar esse apelido por aqui. A Maria Gomes era a donzela mais linda de Capelins e arredores, com tudo no seu lugar e era muito cobiçada por todos os rapazes em idade de casar. Mas a Maria era filha de lavrador e só podia casar com um filho de outro lavrador ou com um lavrador. O José Savedra não deixava a Maria por um momento, mas ela não só não gostava dele, como o odiava cada vez mais, até que um dia ele foi pedi-la em casamento ao seu pai, ao Manoel Gomes, mas quando este viu e ouviu o desgraçado daquele monstro, que além de ser muito feio, não tinha maneiras, estava vazio de princípios e não teve coragem de lhe entregar a mão de Maria, mas também não a podia negar, ele era o melhor partido que podia existir para a sua filha e tentou ganhar algum tempo, pediu desculpa, dizendo que queria ouvir a esposa e a filha e que ela ainda era muito nova e não estava preparada para se casar e mais isto e mais aquilo. O Sapo, percebeu que o lavrador Manoel não queria ser seu sogro, considerou uma grande desfeita e a partir daquele dia as suas atitudes mudaram completamente. O que o sapo ainda não sabia era que na vida da Maria já existia um grande amor, era o filho do lavrador do Monte da Capeleira, chamado António, mas não demorou muito a saber. O sapo não desistiu de casar com a Maria e se não conseguia a bem, foi tentar a mal. Um dia mandou atrelar um cavalo à sua charrete e foi procurar uma bruxa que morava nas imediações de Terena e que tinha muita fama de resolver estes assuntos através dos seus bruxedos. Contou-lhe o que se passava e o que queria que ela fizesse e perguntou-lhe se conseguia fazer a Maria gostar dele, respondendo a bruxa que sim, com a maior das facilidades, mas para isso dar certo tinha de se instalar no Monte Grande e ele tinha de lhe dar tudo o que ela pedisse, ao que ele acedeu e a bruxa instalou-se no Monte Grande, como uma rainha, tudo do melhor. Começou imediatamente a fazer os bruxedos para separar a Maria do António e para ela gostar do sapo, mas quantos mais bruxedos fazia, mais unidos eles estavam e o António pediu-a em casamento, sendo bem aceite pelo pai de Maria. Tudo corria do avesso ao sapo e à bruxa o que o levou ao desespero e um dia expulsou a bruxa do Monte Grande e foi-lhe dando pontapés até ao Monte de Nabais, quase a matou à pancada. A bruxa ficou um tempo pelo Ai Ai a recuperar e, assim que melhorou jurou vingar-se do sapo e foi instalar-se perto do Monte Grande, para os bruxedos, agora contra o sapo, terem mais força. O sapo, cada dia que passava estava mais definhado, comia, comia, chegava a comer uma galinha inteira com um pão e a sua barriga estava cada vez maior e as pernas cada vez mais fininhas, todo mirrado, só tinha olhos e barriga, um autêntico sapo, até que um dia caiu de cama e não se levantou mais. 
Chegou o dia do casamento da Maria e do António e no momento que estavam a celebrar o casamento na Igreja de Santo António, o sapo deu o último suspiro e faleceu no Monte Grande. Quando os noivos, já casados, deixaram a Igreja, cruzaram-se com a bruxa que regressava a casa e, ainda lhe acenou a desejar felicidades. 
No dia seguinte, fizeram o funeral do sapo na Igreja de Santo António e nunca mais se falou dele nas terras de Capelins.
A Maria e o António foram muito felizes, tiveram muitos filhos e os seus descendentes ainda hoje estão pelas terras de Capelins! 
Nem sempre, o poder vence! 



sexta-feira, 10 de março de 2017

234 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

 História, lendas e tradições das terras de Capelins


A lenda da Aldeia da Sinza em Capelins 

Parte 1

Conta-se que existia uma aldeia na Cinza, nas margens do rio Guadiana e, como viviam sempre em festa e não ligaram aos avisos, a tribo foi dizimada e a aldeia foi arrasada por outra tribo do norte de África!
Conforme as provas arqueológicas, há cerca de três mil anos existia um povoado, ou seja uma pequena aldeia, na Cinza, nas margens do rio Guadiana, habitada por uma tribo que vivia da pesca e da caça e, sempre em festa, os homens e mulheres pouco mais faziam, senão cantar e dançar. O trabalho era feito por rapazes e raparigas, como objetos necessários, as refeições e o abastecimento de água para beber e para a comida. A água era tirada de uma fonte que existia muito perto do rio Guadiana e que tinha água em abundância e muito cristalina! Um dia, como habitualmente, um rapaz da aldeia dirigiu-se a essa fonte e encheu uma vasilha de água para levar para a aldeia, porém, estava com sede e tentou beber água, mas não conseguiu, a água estava intragável, tão salgada, que não a conseguiu engolir. O rapaz ficou assustado e pensou que era um aviso de que alguma coisa de mal estava para acontecer à sua aldeia e consequentemente à sua tribo. pegou na vasilha e foi a correr até à aldeia, onde andavam todos a cantar e a dançar. O rapaz chegou muito aflito e gritou a contar o que se tinha passado, mas poucos lhe ligaram, beberam da água da vasilha e não estava salgada, por isso pensaram que o rapaz tinha apanhado sol na cabeça e não se encontrava bem! No dia seguinte, o rapaz pegou na vasilha e dirigiu-se novamente à fonte, mas quando caminhava junto ao rio Guadiana os peixes começaram a saltar da água e morriam imediatamente. O rapaz ficou com a certeza que alguma coisa muito má estava para acontecer à sua aldeia e à tribo e voltou a correr à aldeia a contar o que se estava a passar, alguns ainda foram ver, mas não havia nenhum peixe fora da água, logo confirmaram que o rapaz estava doido e continuaram a festa. Só o avô do rapaz acreditou que o neto falava verdade e decerto alguma coisa muito má estava para acontecer e ninguém ligava. Chamou o neto e disse-lhe que acreditava nele e a partir daquele momento já não ficaram descansados, nos dias seguintes nada aconteceu, mas eles nunca mais descansaram. Um dia, enquanto a tribo ficaram na festa, eles foram explorar a região e, ao nascer do sol começaram a subir rio Guadiana, quando chegaram à Ribeira do Lucefécit ouviram grande tropel de cavalos e de homens, ficaram muito assustados, esconderam-se e em poucas horas tudo ficou em silêncio, mas aqueles homens seguiram na direção da sua aldeia e logo pensaram o que estava para acontecer, mas só os dois, não podiam fazer nada, nem ao menos avisar a sua tribo para fugirem ou preparar a defesa. Ficaram tristes e amargurados, não dormiram e nesse dia já não voltaram à aldeia, mas no dia seguinte foram descendo o rio com muito cuidado e ao chegar, ficaram desolados, a sua tribo tinha sido dizimada, a aldeia pilhada e completamente arrasada! O avô e o neto, estiveram por ali alguns dias para enterrar os seus familiares e, depois partiram rio Guadiana acima e nunca mais voltaram às terras de Capelins! 
Este triste acontecimento deu-se, porque a tribo da aldeia ou povoado da Cinza estava sempre em festa e não ligaram aos avisos que lhe foram enviados!
A continuação da lenda, conta que, o rapaz chamado Allan e o avô Almiro subiram o rio Guadiana, passaram a Ribeira do Lucefécit e ao início da tarde, já com fome, chegaram aos Mocissos onde existia uma Tribo de Iberos. Foram bem recebidos pelos chefes e anciãos, aos quais o avô contou o que se tinha passado na sua aldeia e que só tinham sobrevivido os dois, os anciãos ficaram muito comovidos e decidiram imediatamente que ficariam na sua tribo para sempre. Allan e o avô agradeceram e disseram que a partir daquele dia aquela era a sua família e dedicaram-se de alma e coração a todas as causas em benefício da tribo. Como sabiam as razões que levaram ao desaparecimento da sua aldeia e da sua tribo, não descansaram enquanto não conseguiram construir defesas contra eventuais invasores, fizeram uma estacada, um fosso e formaram um grupo de homens com duplas funções de guerreiros e pastores, que treinavam nas horas de menos trabalho, formando, assim, uma tribo muito forte naquela região. Devido ao trabalho que fizeram e à sua dedicação, depressa ganharam admiração e respeito de todos, sendo convocados para reuniões dos chefes e dos anciãos, participando em decisões importantes sobre a vida da tribo. 
Um dia, o avô Almiro adoeceu e sentindo que teria pouco tempo de vida, chamou Allan e disse-lhe que estava na hora de partir e pediu-lhe para voltar para as terras de Capelins e fundar uma aldeia e uma forte tribo no lugar, ou o mais próxima possível da sua antiga aldeia. Allan prometeu imediatamente que voltaria e que faria tudo como ele lhe pediu e logo a seguir o avô Almiro faleceu. Foi um grande desgosto para Allan e só algumas semanas depois anunciou que tinha de partir para cumprir a vontade do avô e como era o chefe dos guerreiros da tribo, muito admirado e respeitado, quando participou que queria formar uma nova tribo, todos e todas queriam partir com ele, mas não era possível, porque a tribo que tão bem o tinha recebido não podia ser prejudicada e tinha de ficar forte e bem organizada, portanto tiveram de fazer uma seleção. Em poucos dias estavam todos preparados para seguir para as terras de Capelins e, embora fosse para muito perto a separação foi muito difícil.
A viagem demorou quase um dia, porque eram pessoas de todas as idades, animais, cereais e tudo o que era necessário para iniciar a vida na nova aldeia. Quando chegaram, Allan ficou muito triste e passou horas a chorar e a relembrar a sua infância, depois, ganhou coragem e começou a ajudar os companheiros a traçar a nova aldeia, mas em todo aquele espaço só encontravam cinza, ainda da antiga aldeia e não conseguiram encontrar terra, era cinza, muita cinza e todos gritavam, cinza e foi assim que, aquele lugar, ficou a designar-se “Cinza” até hoje. Por fim, decidiram que não podiam instalar-se ali, porque Allan começou a entender que era um aviso para não construir a aldeia naquele lugar e mandou parar os trabalhos. Convocou os chefes e anciãos que o acompanharam e disse-lhe que não podiam construir a sua aldeia naquele lugar. Alguns, ainda tentaram demovê-lo, mas ele tornou a contar-lhe o que tinha acontecido antes da destruição da sua tribo e da aldeia, dos avisos que tinha recebido e que os seus familiares não acreditaram, dando o resultado que deu. Assim, todos concordaram que deviam procurar outro lugar e no dia seguinte continuaram a viagem e, a cerca de 600 metros a norte do lugar onde muito mais tarde foram construídos os Moinhos Novos, no alto, dali dominavam o rio Guadiana e todo o planalto, foi nesse lugar que construíram a nova aldeia, bem organizada, com boas defesas e um forte grupo de guerreiros, a tribo tornou-se a mais forte da região e recuperou as férteis terras de Capelins, a qual durou até à chegada dos Romanos, há 2.000 anos. Allan, era o chefe da tribo, tal como um rei, teve muitos filhos e a história da sua vida, do passado da aldeia e da tribo da Cinza ficou sagrada e, foi sempre passando de geração em geração, ao longo de mais de um milénio, sendo o talismã desta tribo e a força da sua gente!
 Este povoado, denominava-se “aldeia de Allan”, a mesma que, os arqueólogos agora designaram de “Espinhaço de Cão”, conforme consta no presente documento!

Espinhaço de Cão 1
CNS: 16279
Tipo: Povoado
Distrito/Concelho/Freguesia: Évora/Alandroal/Capelins (Santo António)
Período: Idade do Ferro
Descrição: Sítio de habitat rural, implantado num esporão pouco pronunciado sobre o Guadiana. Estruturas habitacionais, correspondentes a várias fases de construção/reconstrução, com plantas ortogonais.
Meio: Terrestre
Acesso: A partir de Montes Juntos (Alandroal), caminho de terra batida.
Espólio: Cerâmica manual e de roda, mós, objectos de adorno, faunas e carvões.
Depositários: Manuel João do Maio Calado
Classificação: -
Conservação: Regular
Processos: S - 16279, 7.16.3/14-10(1) e 99/1(075)


Aldeia de Allan em Capelins

Veja-se o documento da DGPC sobre a existência da aldeia da Cinza!
Moinho da Cinza 1
CNS: 16273
Tipo: Povoado
Distrito/Concelho/Freguesia: Évora/Alandroal/Capelins (Santo António)
Período: Idade do Bronze - Final
Descrição: Sítio de habitat onde foi possível detectar um silo pouco profundo; uma fossa oblonga de pequenas dimensões e duas pequenas depressões, sem espólio, uma delas estruturada com pequenas pedras, que podem corresponder a buracos de poste.
Meio: Terrestre
Acesso: -
Espólio: Cerâmica manual e de roda e materias de indústrias languedocenses.
Depositários: Manuel João do Maio Calado
Classificação: -
Conservação: -
Processos: S - 16273, 7.16.3/14-10(1) e 99/1(075)

Foto da DGPC 



quinta-feira, 9 de março de 2017

233 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Escadinhas do Pinheiro
A Lenda do Pastor do Monte do Pinheiro e do Diabo 

A peripécia relatada nesta lenda passou-se nos tempos em que Deus e o Diabo andavam pela Terra a negociar almas e quando ambos se deslocaram às terras de Capelins. Deus tinha de andar sempre com o olho no Diabo porque ele negociava as almas através de enganos e da trafulhice. Quando o Diabo chegou às terras de Capelins escolheu as melhores almas que lá havia e começou imediatamente o seu trabalho. 
Este caso passou-se com um pastor que morava no Monte do Pinheiro, onde também tinha o curral das suas ovelhas e era dono de grande bondade e generosidade, ajudava todas as pessoas, principalmente os mais idosos que tinham dificuldades na mobilidade e as viúvas que não tinham filhos, partia a lenha, levava-a para casa, fazia-lhe o lume e tudo o que precisassem, uma boa alma, logo cobiçada pelo Diabo. Assim, foi ter com o pastor e pediu-lhe a alma, em troca, lá no Inferno dava-lhe um rebanho de ovelhas e podia ficar pastor até à eternidade. O pastor não aceitou a proposta, mas o Diabo não desistia e continuava a fazer-lhe ofertas irrecusáveis, mas o pastor recusava tudo. O Diabo estava já a ficar desesperado, porque não podia perder aquela alma, mas o pastor não cedia. Quando iniciava uma nova estratégia, já à noitinha, cantou um galo e o pastor disse-lhe: - Olha, cantou o galo, está na hora de encerrar as minhas ovelhas, por isso, vai-te embora daqui. O Diabo perguntou-lhe: O que tem a ver o canto do galo com o encerramento das tuas ovelhas? O pastor explicou-lhe que não usava relógio, fazia as suas tarefas conforme o cante dos galos. De manhã levantava-se cedo, assim que o galo cantava, ao meio dia jantava, (almoçava) quando o galo cantava, depois encerrava as ovelhas à noitinha quando o galo cantava, só ceava (Jantava) quando o galo cantava e deitava-se quando o galo cantava. O Diabo ficou muito intrigado e logo pensou em usar essa situação para ganhar a alma do pastor e disse-lhe: Então e se o galo não cantar já não fazes nada disso? Mas alguma vez o galo não cantou? Desde criança que me guio pelo canto do galo e nunca na minha vida falhou! Já o meu pai e meu avô o faziam! Disse o pastor! Nesse caso, queres apostar a tua alma em como ele hoje não canta até à meia-noite? Disse o Diabo! Não, eu nunca aposto, porque o meu pai disse-me sempre para teimar, mas nunca apostar! Disse o pastor! Mas se tens tanta certeza, se nunca falhou, que dúvida tens em aposta? Da minha parte se perder, prometo-te que nunca mais chego ao pé de ti e a tua alma fica para o Outro! Disse o Diabo! O pastor, pensou, pensou, e como estava cansado de tanto o ouvir, seria uma boa maneira de se livrar dele e, se nunca na vida dele, do pai e do avô o galo falhou em cantar, como é que agora podia falhar? E mesmo se falhar um galo, decerto há mais de cinquenta no Pinheiro e arredores! Aceito! Disse o pastor! Se até à meia-noite o galo não cantar, a minha alma é tua, mas basta cantar um galo e tu desapareces daqui para sempre! Aperta aqui as unhas, disse o Diabo e foi-se embora! Depois, o Diabo chamou os seus demónios e contou-lhe que a alma do pastor já era sua, mas os demónios tinham de fazer a sua parte sem falhar, deviam ir por todos os galinheiros das terras de Capelins e apertar os garganetes a todos os galos e frangotes, porque não podia cantar nenhum galo nas terras de Capelins e também não havia nenhum problema, porque as donas iam pensar que tinha sido moléstia! 
Estava um anjo, mandado por Deus, escondido atrás de uma oliveira no Pinheiro que assistiu e ouviu tudo e foi correr contar a Deus, que logo comentou: - Mais uma alma perdida e esta que é tão boa, temos de salvá-la, esteve a pensar, deu um ovo ao anjo para entregar ao pastor e explicou-lhe muito bem o que ele tinha de fazer com ovo, antes da meia-noite. 
Como o galo não cantou à noitinha, o pastor encerrou as ovelhas fora de horas, foi para casa para cear (jantar) e ficou à espera das ordens do galo, mas ele não cantou! Naquele momento bateram à porta, foi ver e era o anjo que lhe contou o que se estava a passar e disse-lhe que a alma dele já era do Diabo. O pastor não acreditou e o anjo perguntou-lhe se já tinha ouvido cantar algum galo naquela noite! Não, não ouvi! Por isso, não encerrei as ovelhas à hora certa e ainda nem ceei, (jantei) tenho aí umas sopinhas de grãos com toucinho e um taçalhinho de carne, estou cheio de fome, mas ainda não as comi à espera que o galo cante! Disse o pastor! Então não esperes mais, porque o galo não vai cantar! Disse o Anjo! O pastor já convencido, chorou, lamentou-se que não tinha feito o que o pai lhe dizia, para nunca apostar e agora estava desgraçado! Então o anjo disse-lhe que, se fizesse o que Deus mandou, ainda podia salvar a sua alma! O que tenho de fazer? Perguntou o pastor! E o anjo disse-lhe: Primeiro, deves continuar a ajudar as pessoas que precisam, mas vai lá buscar o relógio, que vai fazer-te muita falta, tens de lhe dar corda, acertá-lo, aprender a ver bem as horas e às cinco para a meia-noite, atiras este ovo a rolar pela vereda entre o Pinheiro e Capelins de Baixo, mas não podes falhar as horas, por isso não te podes deitar até à meia noite para não te deixares dormir! Disse o Anjo! O pastor comeu as sopinhas e foi sentar-se no alto do Pinheiro, junto à vereda, entretanto o Diabo andava por Montejuntos à procura de almas, mas às cinco para a meia-noite estava a chegar ao Pinheiro, veio pelo lado do Monte Novo e já com as unhas no ar para as pôr no ombro do pastor, este atirou o ovo que rolou pela chapada abaixo e quando chegou à pedra da primeira escadinha do Pinheiro partiu-se, saindo dele um grande galo, muito lindo com uma plumagem nunca vista, ficou nessa primeira escadinha, empertigou-se todo e cantou de tal maneira que se ouviu em todas as terras de Capelins! O Diabo deu dois pulos para trás e foi-se embora das terras de Capelins, para sempre, onde até hoje, nunca mais foi avistado! 
O pastor do Pinheiro continuou a ajudar as pessoas até ao fim da sua vida! 
Bem hajam os pastores do Pinheiro!

Fim



quarta-feira, 8 de março de 2017

232 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Rocha na Villa de Ferreira Romana

A Lenda da Fonte do Castelo 

A Fonte do Castelo, encontra-se hoje submersa pelas águas do Grande Lago de Alqueva e ficava situada na margem direita do Ribeiro do castelo, afluente da Ribeira do Lucefécit na Villa de Ferreira Romana, Defesa de Ferreira (Águas Frias). 
Na Vila de Ferreira Romana, existia um Forte acastelado (ainda hoje existem as paredes) onde vivia um senhor romano dono de todas as terras nas duas margens da Ribeira do Lucefécit e casou com uma donzela filha de um rico senhor Romano das redondezas. O seu marido era mais feio que um bode, mas isso não impediu o casamento porque quem o escolheu foi o pai dela e apenas era necessário ser um bom partido, ela tinha de o aceitar sem qualquer protesto e nunca podia contrariar o pai. 
A senhora não amava o marido, até o odiava, e depressa encontrou um amor impossível, era um escravo, rapaz bem afeiçoado e muito bondoso, a sua família era nobre de uma tribo dominada pelos Romanos. O marido começou a desconfiar que algo de anormal se passava, então designou uma aia para a esposa e disse-lhe para observar tudo o que a mulher fazia e nunca a perder de vista. A aia assim fez e, não demorou muito soube que a senhora andava perdida de amores pelo escravo, foi logo contar ao patrão, que o mandou buscar para o matar, porque a vida de um escravo não tinha nenhum valor. O escravo andava a trabalhar no outro lado da Ribeira do Lucefécit, no lugar onde era a Horta das Águas Frias. Outra aia, muito amiga da senhora mandou um escravinho avisar o escravo para fugir, porque o patrão ía matá-lo e para o pequeno atravessar a Ribeira a nado para chegar primeiro do que os homens que tinham de dar a volta ao Porto das Águas Frias de Baixo, porque a Ribeira levava muita água. O escravo fugiu imediatamente, nas Neves passou a Ribeira para o lado de Capelins e a correr o mais que podia depressa chegou ao rio Guadiana, com ideia de o atravessar, mas a cheia era tão grande que era impossível nadar naquela corrente. Os homens do senhor Romano foram avisá-lo do que se passava e soltaram os cães de caça e treinados para encontrar escravos fugitivos, montaram a cavalo e foram no seu encalço. O escravo, já desorientado, desceu o rio Guadiana e ainda antes do Porto da Cinza começou a ouvir os cães a ladrar, pensou que não escapava, mas continuou a correr, quando os cães já estavam mesmo a chegar junto dele atirou-se às águas do rio Guadiana e desapareceu para sempre, mas contam que conseguiu alcançar a outra margem. O senhor Romano voltou para o seu Forte e sua mulher percebeu que o seu amado tinha morrido e a partir daquele dia, nunca mais deixou de chorar até ao resto da sua vida. Nas margens do Ribeiro do castelo, começou a brotar água, que segundo a lenda, essa água eram as lágrimas que a senhora derramou em sua casa no Forte um pouco acima da Fonte do Castelo! 
E quem não bebeu aquela boa água?


Fim

terça-feira, 7 de março de 2017

231 - História, lendas e tradições das terras de Capelins 

Ribeira de Lucefécit - Neves

A lenda da Filha do Pastor de Santa Luzia 

Esta história passou-se no início do mês de Maio do ano de 1810, na Ribeira do Lucefécit, junto ao Moinho das Neves.

Havia um pastor na herdade de Santa Luzia e tinha cinco filhas, uma das suas filhas, a mais nova era rebelde, gostava muito de acompanhar o pai e ajudava-o a guardar as ovelhas pelos campos de Santa Luzia, trazia uma burra por companhia e para montar em terrenos mais agrestes. Um dia, já à tardinha afastou-se um pouco do pai e do rebanho e por curiosidade foi ver o que se passava para as bandas do Moinho das Neves, onde existia um lavadouro e se juntavam as mulheres que moravam no Lugar de Ferreira (Neves) e ali lavavam as roupas das suas casas. Quando chegou, esteve a observar e reparou que as mulheres já tinham abalado, exceto uma, que estava muito concentrada no seu trabalho, a lavadeira cantarolava algumas melodias, e o som da água a correr não a deixou ouvir a pastora a aproximar-se. Quando a lavadeira a viu perguntou-lhe o que fazia ali sozinha aquela hora e se não tinha medo, ao que a pastorinha respondeu, que se encontrava encantada por uma fada má e que só lhe era permitido aparecer naquele lugar sete dias por ano, por alturas do pôr-do-sol, na esperança de encontrar um rapaz que a quisesse namorar e só depois de quebrado o encanto é que lhe podia dizer quem era. Pouco depois de dizer isto, desapareceu nas sombras e nos ruídos da água corrente da Ribeira, a lavadeira acreditou no que ela lhe disse e foi dali a correr contar este acontecimento na Villa Defesa de Ferreira, muitos não acreditaram nela, mas outros acreditaram e muitos rapazes durante sucessivos pôr do sol, foram sentar-se nas margens da Ribeira do Lucefécit, na esperança de ver a moça encantada. No entanto, ela nunca mais apareceu e foi motivo de chacota por muito tempo, nas terras de Capelins!


Fim

segunda-feira, 6 de março de 2017


230 - História, lendas e tradições das terras de Capelins


Cuco

A lenda do canto do Cuco


O nome "cuco" deriva do facto de o canto do macho ser composto por uma sequência de duas notas, que soam como "cu-cu". 

Nas terras de Capelins, o canto do cuco faz-se ouvir sobretudo de finais de Março a meados de Junho e, durante a Primavera nas lindas manhãs solarengas e perfumadas pelo odor das flores silvestres, em todos os campos se ouve "cu-cu"! 
O canto do cuco é muito agradável, por isso, todos os capelinenses queriam ouvir cantar o cuco, porque, também significava ter ultrapassado mais um ano da sua vida. Quando falavam de alguém mais idoso, ou que se encontrava muito doente, em vez de dizerem que não devia ter muito tempo de vida, substituíam por: "Já não deve ouvir cantar o cuco", era uma previsão muito em voga, também utilizada para zombar de alguém que tinha mais dificuldade em fazer um serviço mais pesado, tinha de ouvir os outros dizer: Já não deves ouvir cantar o cuco", mas essa frase também era usada quando visitavam alguém doente, para motivar e dar força diziam: Vá, tem que melhorar, senão já não ouve cantar o cuco! 
Por enquanto, ainda vamos ouvindo cantar o cuco pelas terras de Capelins! 
O cuco canoro e, o cuco rabilongo! 

Fim

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