sábado, 4 de março de 2017


226 - História, lendas e tradições das terras de Capelins



A lenda das Galinhas Que Cantavam Como os Galos em Capelins


 Como sabemos, noutros tempos, nas terras de Capelins todas as famílias tinham as suas galinhas e um galo, consideradas propriedade das mulheres, algumas, tinham muito orgulho nas suas galinhas que eram muito bem tratadas e estavam sempre com olho nelas. Aparecia uma choca, metiam-lhe logo ovos debaixo e daí a 21 dias nasciam os pintaínhos. As galinhas abasteciam a casa de ovos e se alguém adoecia era logo abatida uma galinha para fazer uma canjinha, ou num dia de festa, só assim, havia direito a meter o dente numa galinha ou num franguinho com um ou mais anos, possivelmente já galo, fora disso, só para vender! Antes de atingirem o estatuto de galinha, passavam por frangas e, embora muito raramente, mas acontecia nessa transição, alguma começar a cantar como os galos. Quando isso acontecia, a sua dona tinha que se desfazer dela o mais depressa possível, porque estava sujeita a ter um azar na sua vida! 
Este caso, passou-se com a Ti Maria das Candeias, do Monte das Serranas, tinha 8 galinhas, 2 frangas e um galo, um dia uma franga começou a cantar como os galos! Em poucas horas, em toda a Aldeia e arredores sabiam que a Ti Maria das Candeias tinha uma galinha que cantava como os galos! E ainda não a vendeu? Era logo a pergunta de toda a gente! Ai filha, tens uma galinha que canta como os galos? Vende-a já! Não a podes matar e aventar! (deitar fora), muito menos comê-la, tens que a vender e já sabes, com o dinheiro dela tens que comprar uma cautela (fração de bilhete da lotaria)! Disse-lhe a Ti Mariana Gomes! Mas eu vendo-a e compro a cautela, mas não aparece por aqui a Chica do Barrolas! Só se for dizer à minha Joaquina, para se aparecer por lá a Chica, para a mandar cá! Disse a Ti Maria das Candeias! Faz já isso, porque a gente não gosta cá disto ao pé da porta, até nos arrepia, quando ela canta! Disse a Ti Mariana! 
Não demorou muito e apareceu a Chico dos ovos e o Barrolas que eram de Vila Viçosa e andavam a comprar galináceos e ovos porta a porta! (Ainda levei um sorvete dele, por lhe chamar Barrolas)! 
Nas terras de Capelins não se podia comer uma galinha que cantava como os galos, mas em Vila Viçosa não ligavam a isso, era galinha do campo, queriam lá saber o que a galinha cantava, se fado ou outra música! A Ti Chica chegou e perguntou: - É a patroa que tem uma galinha para vender? Sou sim senhor, graças a Deus que apareceu! Disse a Ti Maria das Candeias! A Ti Chica já estava mais que informada do que se passava com a galinha e já vinha esfregando as mãos de contente, seria um bom negócio para ela e disse: - A galinha canta como os galos, não? Sim, veja lá! Disse a Ti Maria! Então diga lá quanto quer pela galinha? Perguntou a Ti Chica! 25 tostões! Disse a Ti Maria! Qual 25 tostões, a galinha está muito magrinha, dou-lhe 2 mil réis e já fica muito bem! Disse a Ti Chica! Mas assim não me chega para a cautela, dê-me mais um tostão ou dois! Pediu a Ti Maria! Oh mulher, um tostão ou dois é o que eu posso ganhar na galinha, se quer é isto e mais nada! Disse a Ti Chica! Então está bem! Respondeu a Ti Maria! Vá Inácio agarra a galinha! Disse a Ti Chica! Deixe-a cá ver! Disse o Barrolas e engailou a galinha! Tem ovos para vender? Perguntou a Ti Chica! Tenho, então a como é que os paga? Perguntou a Ti Maria! A cinco tostões a dúzia! Disse a Ti Chica! Então vendo-lhe uma dúzia, sempre dá para a cautela! E, assim a Ti Maria das Candeias desfez-se da galinha e, na semana seguinte desfez-se do dinheiro da galinha, porque comprou a cautela (lotaria) que saíu branca, sem prémio, mas por sua vez desfez-se do azar que podia chegar a qualquer momento, por a galinha cantar como os galos! 

Fim



sexta-feira, 3 de março de 2017


225 - História, lendas e tradições das terras de Capelins



A Lenda do Clarão no Céu de Capelins no Dia de Corpo de Deus



Corpo de Cristo ou Corpo de Deus é um evento baseado em tradições católicas realizado na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes. 

A Festa do Dia de Corpo de Cristo, chegou a Portugal nos finais do século XII, com a designação de Corpo de Deus. Neste dia foi sempre feriado, à exceção de há uns anos atrás em que foi suspenso. 

Nas terras de Capelins esse feriado foi sempre muito respeitado, mas nos anos em que era já em Junho, em plena época das ceifas, um trabalho que devia ser feito o mais rapidamente possível, porque nunca se sabia se vinha algum contratempo, como trovoadas e podiam-se perder os cereais. Assim, alguns capelinenses arriscavam a trabalhar nesse dia. Porém, num dia de Corpo de Deus, já no mês de Junho, andava um rancho de ceifeiros/as a ceifar numa propriedade no Carrão, começaram de madrugada e nasceu um dia maravilhoso, sem nuvens e o sol radiante, mas antes do meio dia surgiu um nevoeiro que cobriu o sol e começou a escurecer, muito semelhante aos efeitos de um eclips astronómico, desenhando-se um ambiente como nunca tinham visto. Ninguém dizia nada, ceifavam, ceifavam, mas alguns estavam a ficar inquietos, senão com receio, o céu ficou medonho, carregado de vermelho e passados poucos minutos fez-se tão grande clarão que deu a sensação que estavam cercados por um grande fogo, ao mesmo tempo as foices caíram-lhe das mãos como se tivessem levado um choque eletrico e ficaram paralisados. Ao fim de alguns segundos olharam uns para os outros sem conseguirem falar e, daí a pouco ouviram então a voz do patrão: - Vamos embora daqui, nem mexam nas foices, isto não foi coisa boa! Foram todos/as para o Monte e passaram esse dia em choque sem conseguirem falar sobre o que tinha acontecido. Só alguns dias depois tiveram coragem de falar sobre aquele acontecimento e todos/as confessaram ter apanhado o maior susto das suas vidas! 
A notícia depressa se espalhou pelas terras de Capelins e, nunca mais ninguém trabalhou nos campos, no dia de Corpo de Deus!

Fim


quinta-feira, 2 de março de 2017


224 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Poejo da Ribeira
A lenda da planta milagrosa da Moinhola - Capelins


Há cerca de três mil anos instalou-se uma tribo Celta na Moinhola, junto ao rio Guadiana, (atual Defesa da Bobadela), a sua atividade principal era o pastoreio, a pesca e a caça, que era muito abundante nestas terras. A tribo que se seguiu conta-nos o que se passou através das pinturas rupestres, gravações em mais de 160 rochas, submersas pelas águas do grande lago de Alqueva! Devido à grande seca durante anos consecutivos, o rio Guadiana completamente seco, a tribo da Moinhola foi obrigada a partir a descer o rio em direção ao sul, onde havia mais água e pastagens para as suas cabras. Havia na tribo um ancião muito doente, sem forças, que vivia com a sua filha, uma jovem muito formosa, o ancião negou-se a sair dali porque não aguentaria a caminhada e porque gostava muito destas terras. Pediu à filha que seguisse com a tribo e o deixasse morrer ali, mas a filha recusou-se a partir e deixar o pai ali sozinho e como ninguém a conseguiu convencer, decidiram deixar-lhe duas cabras, um bode, três galinhas,um galo e um cão e partiram para sempre! A jovem tratava muito bem o pai e trabalhava muito para poder alimentar os animais, a seca continuava e não tinham quase nada para comer! Um dia chegou à Moinhola um velhinho, muito debilitado que lhe pediu uma esmola, porque tinha muita fome! A jovem, nem hesitou e repartiu com o velhinho o pouco que tinham, depois contou-lhe que estava ali porque o seu pai estava muito doente e nem tinha forças para se levantar. O velhinho tirou umas sementes do saco que trazia às costas e disse-lhe: Vai semear estas sementes perto da água e daqui a uns dias já podes colher uns raminhos, pões em água, deixas ferver um pouco e dás a beber ao teu pai durante nove dias, depois fica curado e cheio de força. O velhinho dormiu ali e na madrugada seguinte já não existia nenhum sinal da sua presença. A jovem plantou as sementes que nasceram logo e, as plantas cresciam de dia para dia, fez como o velhinho lhe ensinou e deu-se um milagre, ao fim dos nove dias o pai estava curado e cheio de força. O tempo mudou, vieram as chuvas e os campos da Moinhola encheram-se de boas pastagens, permitindo a multiplicação das cabras e muita prosperidade. Um dia apareceu um jovem explorador de outra tribo que ficou apaixonado pela jovem, ficou por ali e nunca mais partiu e deu-se início a uma nova tribo Celta. A planta milagrosa, que perfumava toda a região, espalhou-se pelo rio Guadiana e, durou até à submersão destas terras pelas águas da barragem de Alqueva, mas se a procurarmos ainda a podemos encontrar e designa-se por hortelã da Ribeira! 

Fim

quarta-feira, 1 de março de 2017


223 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Foto das Escadinhas do Pinheiro

A lenda dos bailes das Feiticeiras de Capelins 


Antigamente, nas terras de Capelins, tudo o que acontecia de mal na vida dos capelinenses, tinha sempre desculpa! Dizia-se: - Coitado/a não teve culpa nenhuma, foram as feiticeiras! Esse sentimento era transmitido de geração em geração e era impensável contrariar os crentes. Havia feiticeiras por todo o lado, era raro o clã que não tinha uma feiticeira e indicavam-se pessoas que as tinham visto e que foram bailarinos nos seus célebres bailes onde levaram coças até ficarem de cama no dia seguinte! Em Capelins, conta-se um caso que só poderia ser obra de uma feiticeira, embora fosse familiar muito chegada dos intervenientes. 

Num Domingo pelo meio dia, o Ti Manoel Caeiro, que trabalhava na herdade da Negra, foi a casa em Capelins de Baixo, para mudar a roupa da semana e deixar o dinheiro da jorna, voltando ao trabalho na madrugada seguinte. Quando entrou em casa, estava a mulher, a Ti Águeda, a fazer as migas para o almoço, o Ti Manoel descarregou a saca que trazia às costas, cumprimentou-a e disse-lhe: - Águeda, está aqui o dinheiro da jorna, guarda-o! E atirou 3 notas de 20 escudos muito enroladinhas para cima da mesa! Deixa aí o dinheiro, que eu agora não posso, depois o guardo! Disse a Ti Águeda! Como ainda era cedo, o Ti Manoel foi até à taberna do ti Chico! Logo a seguir entrou em casa a cunhada a Ti Maria Caeira a pedir uma pitadinha de sal, que o tinha deixado acabar! Olha está aí o saleiro em cima da mesa, tira o que quiseres! Disse a Ti Águeda! A Ti Maria Caeira aviou-se e foi-se embora. Estava na hora do almoço e veio o Ti Manoel a pensar nas migas. A mulher estava a pôr a mesa e lembrou-se do dinheiro da jorna e disse: Deixa lá guardar o dinheiro e já comemos! Olhou para toda a mesa e nada do dinheiro! Já guardas-te Manoel? Perguntou a Ti Águeda! Deixei aqui o dinheiro e nunca mais o vi! Disse o Ti Manoel! Ora essa! procuraram por todo o lado, agitaram a toalha da mesa, viraram tudo e nada do dinheiro! Mas não entrou aqui ninguém! Como o poderiam roubar? Disse ele! E a Ti Águeda contou-lhe que tinha estado ali a cunhada! Mas é impossível que ela o tenha roubado, nem pensar numa coisa dessas! Disseram os dois! Então vamos comer as migas e depois logo vimos o que fazer! Disse o Ti Manoel, que se dirigiu à saída da porta a lavar as mãos e a Ti Águeda foi à chaminé a buscar a tigela de fogo , de barro, com as migas e chegaram ambos ao mesmo tempo à mesa. Ficaram os dois paralisados, estás a ver o mesmo que eu Manoel? Estou! Respondeu o Ti Manoel! Estavam as 3 notas de vinte escudos a um canto da mesa tão esticadinhas, lisinhas, que só podiam ter sido passadas a ferro! Pensaram os dois o mesmo, mas não tiveram coragem de dizer nada! 
Só podia ser coisa de feiticeiras e, a feiticeira não podia ser outra, senão quem lá entrou em casa! 
E os capelinenses diziam: Não acredito em feiticeiras, mas que as há, há! 


Fim

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017


222 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Herdade da Negra - Capelins

A lenda da desgraça do Lavrador de Capelins 


Decorria o ano de 1373, o senhorio da Villa Defesa de Ferreira, (hoje Freguesia de Capelins) encontrava-se na posse da Infanta Beatriz de Castro, filha do rei D. Pedro I e de Dª Inês de Castro, por doação de sua avó a Rainha Dª Beatriz esposa do rei D. Afonso IV. Estas terras eram exploradas através de arrendamento de parcelas a diversos agricultores que, ao mesmo tempo, tinham a missão de as defender de eventuais invasores, por isso se designava Villa Defesa, criada pelo rei D. Dinis em 1314. No alto que existe por cima do Monte do Ladrilho, atual Carrão, na margem direita desse mesmo Ribeiro, existia nesse tempo um grande Monte de um Lavrador, chamado António Gomes, onde o mesmo residia com sua esposa, os seus cinco filhos e muitos criados, explorava as férteis terras em seu redor, criava muito gado e fazia grandes colheitas de cereais. Como tinha grande abundância de gado e cereais, ao ouvir contar que se fazia uma grande feira em Badajoz e muito bons negócios, uma vez que não ficava muito longe e existia uma boa estrada ainda do período dos Romano que facilitava o acesso, não hesitou em carregar algumas carroças com cereais e gado e foi à feira de Badajoz, com dois dos seus filhos, o João e o Manoel Gomes e seis criados. A feira durava quinze dias e enquanto não vendessem tudo o que levavam não voltariam a Capelins. No segundo dia de feira, o Manoel Gomes reparou numa linda rapariga como nunca tinha encontrado na sua vida, ficou pasmado a olhar para ela e embora tivesse os cabelos e parte do rosto tapado com um lenço de seda deixava transparecer uma beleza pouco vista. A rapariga estava acompanhada dos pais e de uma irmão e também reparou logo no Manoel, não lhe tirava os olhos de cima, mas rapidamente a rapariga e a família seguiram o seu caminho. O Manoel ficou muito triste, pensando que nunca mais a via, mas enganou-se! No dia seguinte, lá estava novamente a rapariga com a família fazendo o mesmo trajeto e os olhares foram ainda mais intensos, só faltou falar um com o outro. Nessa noite, o Manoel quase não dormiu a pensar naquela rapariga de Badajoz. O pai e o irmão notaram que ele não estava bem, tinha grandes olheiras porque pouco tinha dormido e perguntaram-lhe o que se estava a passar! Um pouco acanhado, o Manoel contou que estava apaixonado por uma rapariga muito linda que tinha visto ali na feira e tinha a certeza que ela sentia o mesmo por ele e que era a mulher da sua vida, só não sabia como chegar à fala com ela, uma vez que vinha acompanhada da família. O pai e o irmão não duvidaram da verdadeira paixão do Manoel por aquela rapariga e prometeram ajudá-lo se ela ali voltasse!
No dia seguinte, quase à mesma hora apareceu a rapariga com a família e como ela já tinha contado que estava apaixonada por um desconhecido da feira e que sabia ser ele o homem da sua vida e nem comia nem dormia, foram direitinho ao Manoel e ao pai. Apresentaram-se, disseram os seus nomes e o da rapariga que se chamava Azize, estranharam o nome e pareceu-lhe muçulmano, mas os pais continuaram a contar quem eram comerciantes em Badajoz e o que se estava a passar com ela! O pai do Manoel, contou-lhe quem eram, onde moravam, o que faziam e disse-lhe que passava-se exatamente o mesmo com o seu filho e que estava de acordo a que se conhecessem melhor e até ao fim da feira decidiriam o que fazer! O pai da Azize explicou que professavam a religião muçulmana, mas já tinha falado com a filha e ela estava disposta a aceitar a fé do Manoel, pelo que por aí não existia nenhum problema. O Manoel e a Azize começaram a encontrar-se todos os dias e no fim da feira, não restavam dúvidas de que tinham sido feitos um para o outro e de acordo com as famílias decidiram que a Azize vinha com eles para Capelins, que ficava logo ali mais abaixo junto ao rio Guadiana, pertinho de Badajoz e brevemente se realizaria o casamento entre eles, mas primeiro teriam de ser ultrapassados alguns problemas, a Azize teria de mudar o nome, aceitar a fé cristã e só depois poderiam casar, o que ela aceitou sem hesitar. 
Assim que chegaram a Capelins, a Azize foi muito bem recebida por todos os familiares do Manoel, mas ao saberem que era muçulmana, ficaram muito surpreendidos, uma moura cá em casa? Compraste-a na feira? Disseram os irmãos mais novos! Mas foram logo sossegados, o Manoel e o pai informaram que ela já era praticamente cristã e que era filha de boas famílias, comerciantes de Badajoz e assim que o padre da Igreja Matriz da Villa Defesa de Ferreira (da Igreja que ficava ao lado da atual Ermida de Nossa Senhora das Neves), pudesse, começava imediatamente a aprender tudo sobre a religião cristã. Logo a seguir, o Manoel foi falar com o padre que se mostrou disponível para ensinar tudo a Azize e combinaram que ela mudaria o nome para Francisca, que era o nome da avó paterna do Manoel e assim ficou tudo acertado. A Francisca (Azize) começou logo a aprender o necessário que os permitisse casar pela Igreja e, em poucos meses realizaram o seu casamento. Parecia que a sua paixão era cada vez mais forte e a Francisca (Azize) já adorava a nova religião, a sua fé era imensa e desejava aprender mais e mais, todos os dias a levavam à Igreja onde o padre lhe dava todas as explicações e algumas vezes era o padre que se deslocava ao seu Monte. O lavrador, seu marido, trabalhava de sol a sol e muitas vezes entrava pela noite dentro, não conseguia dar-lhe a atenção que ela merecia e a Francisca, além dos trabalhos que tinha a seu cargo cada vez mais se interessava pela fé Cristã. Um dia de Janeiro, o Manoel, cansado da vida que levava e consciente da pouca atenção que estava a dar a Francisca, decidiu em deixar o trabalho mais cedo, chegando ao Monte ao escurecer e deparou-se com a sua Francisca a falar com um homem que estava de costas, com um capote e parecia que estavam em em grande discussão, não percebia tudo o que o homem dizia, mas ouvia muito bem a Francisca a dizer-lhe que quanto mais o conhecia mais o amava, muito mais do que ao próprio marido. O Manoel não acreditava no que ouvia, amar e muito amor que não o incluía e na sua cabeça foi aumentando o ciúme e já tinha a certeza que a mulher o andava a traír, ficou cego de raiva, tirou a espada que trazia à cintura, porque nesses tempos os homens da Villa Defesa de Ferreira, tinham de andar armados, para no caso de ser necessário defender estas terras, avançou furioso na direção de Francisca e num só golpe decepou-lhe a cabeça. O homem que estava com ela, deu um grito, o que fizeste? E voltou-se! Era o padre e quem ela dizia que muito amava, era Cristo. Mas já era tarde para reparar o erro! O Manoel, nem entrou em casa, desceu o Ribeiro do Carrão na direção da Ribeira do Lucefécit e desapareceu para nunca mais ser visto nas terras de Capelins! Mais tarde, ouviram dizer que andava louco, por Ceuta, mas os capelinenses diziam que, como o desaparecimento foi no mês de Janeiro, nunca passou o rio Guadiana! 

É caso para dizer: "Nem sempre o que parece é"


Fim



221 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Igreja de Santo António de Capelins

A lenda do Escrivão de Capelins 


Como sabemos, a Villa de Ferreira tinha Câmara com Alcaide, Juiz, Vereadores, Procurador, Escrivão! Assim, no início dos anos de 1700, foi designado um Escrivão que foi morar para o Monte do Escrivão, foi sempre aí o lugar dos responsáveis por esta função, era um homem muito taciturno, medonho, uma figura sinistra e conforme era a sua aparência, assim eram os seus atos para com os capelinenses com os quais tinha de conviver devido ao seu trabalho. Tinha fama de ser muito mau e nunca saía do Monte do Escrivão, nem era visitado por nenhum familiar, uma situação muito estranha. O tempo foi passando e um dia o Escrivão adoeceu e temendo estar no fim da sua vida já de cama, mandou chamar o Pároco de Capelins para lhe ministrar todos os Sacramentos. O Pároco de Capelins, Miguel Gonçalves Galego, deslocou-se ao Monte do Escrivão, deu-lhe os Sacramentos, ele arrependeu-se de todos os seus pecados e do mal que fez às pessoas e para selar o juramento tomou a hóstia (que afinal não tomou, porque ficou-lhe atravessada na garganta), e após esse ato morreu imediatamente. Nestes tempos, os cristãos eram sepultados dentro das Igrejas e o Escrivão no dia seguinte foi sepultado na Igreja de Santo António. Nesse dia, já à noitinha, estava o Pároco Miguel Galego, na casa Paroquial, junta à Igreja, a preparar-se para se deitar, quando de repente bateram três pancadas na porta com tanta força que a porta quase saía dos cachimbos. O Pároco apanhou grande susto e gritou: - Quem é? E respondeu uma voz profunda e muito calma: Um seu criado, fazia favor! O Pároco veio à porta, que estava sempre aberta, só no trinco e vê na sua frente uma figura medonha, que o arrepiou todo! Boa noite, então diga lá, já me estava a deitar! Continuou o Pároco! Boa noite, sei que sepultou hoje na sua Igreja o Escrivão de Capelins, que era meu familiar, foi ele que me criou e queria despedir-me dele, desculpe chegar a esta hora, mas eu venho de muito longe e gostava de estar um bocadinho com ele, queria que me dissesse qual é a sepultura dele e depois pode deitar-se que eu quando abalar puxo a porta da Igreja, disse o estranho! O Pároco concordou e entrou com ele na Igreja de Santo António, indicando-lhe o lugar onde estava sepultado o Escrivão, com uma pesada laje de xisto por cima, e foi-se deitar!
Na manhã seguinte, como habitualmente, o Pároco Miguel Galego, dirigiu-se à sua Igreja, à porta mesmo ao lado da sua casa, que estava fechada e já nem se lembrava do visitante da noite anterior, ao empurrar a porta ficou estarrecido, estava a laje que fechava a sepultura do Escrivão no meio da Igreja, esta laje tinha de ser carregada por quatro homens, o visitante tirou-a sozinho, sem barulho, ninguém ouviu nada, e levou o corpo do Escrivão. O Pároco, começou a gritar em grande aflição e vieram o Sacristão, o Coveiro, e todos os moradores das casas junto à Igreja a correr e saber o que se passava. Ficaram todos abismados com o que viram, então o Pároco contou-lhe o que se tinha passado com o visitante, porque só podia ter sido ele a fazer aquele maléfico trabalho! Mas a grande surpresa ainda estava para acontecer! Os mais corajosos foram entrando na Igreja de Santo António, com receio e com muito cuidado até chegarem junto à sepultura que estava aberta e sem o corpo do Escrivão, começaram a observar tudo com muita atenção e ficaram atónitos com o que viram. Em volta da sepultura, havia muita terra e pó, mas não havia pisadas de gente, as pisadas eram de cascos, como os dos bodes, sem dúvida pisadas do Diabo e, ao lado da sepultura estava caída a hóstia que o Pároco lhe tinha ministrado no Monte do Escrivão. Todos concluíram que, a figura sinistra que veio à Igreja de Santo António, naquela noite de um dia de Janeiro de 1713 era o Diabo que veio buscar o corpo do Escrivão. O insólito caso foi participado ao Arcebispado de Évora para ser investigado, mas anos mais tarde foi arquivado e nunca mais se encontrou o corpo do Escrivão de Capelins. 

Fim


220 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Vale da Ribeira de Lucefécit - Capelins

A lenda dos lobos de Capelins

Existiram sempre lobos em abundância nas terras de Capelins, coexistindo, sem grandes problemas, com a população de então, até que numa noite de lua cheia, acabou essa paz.
Conta-se que, à cerca de 300 anos, nas noites das fases da lua cheia surgia uma alcateia composta por 10/12 lobos, comandados à cabeça por um lobo chefe, muito diferente de todos os outros, mais encorpado, de pelo muito escuro e de grandes olhos que iluminavam a noite. Esta alcateia, nessas noites uivava e corria em grande velocidade, desde a Ribeira do Azevel, pelas margens do rio Guadiana e da Ribeira do Lucefécit, sempre dentro das terras de capelins. Não faziam mal a ninguém, mas assustavam toda a gente e principalmente os animais domésticos e não se encontrava maneira de acabar com aquele terror, até que uma noite a alcateia ao passar na herdade da Amadoreira tresmalhou um rebanho de ovelhas, obrigando o seu pastor chamado João Glize a andar dois dias para as juntar, ficando tão zangado que jurou matar aquele lobo chefe e acabar com aquelas correrias. O pastor João Glize era muito afamado no uso do arco e flecha, dizia-se que, conseguia matar qualquer ave em voo e nunca falhava um alvo, mas neste caso, era muito diferente, por ser de noite e porque os lobos passavam em grande velocidade, seria correr grande risco de vida, porque se lobo ficasse ferido, decerto que se tornaria muito perigoso. O pastor não contou a ninguém, mas estava decidido e começou por escolher o melhor lugar para enfrentar a alcateia, encontrou um bom lugar atrás de um rochedo perto do rio Guadiana, começando a treinar intensamente para estar seguro na próxima lua cheia, daí a um mês. 
Era Março e chegou a fase da lua cheia, o pastor durante os primeiros seis dias observou e simulou como devia travar o lobo chefe, verificou que, na sua passagem à frente da alcateia tinha de se concentrar no centro dos dois pontos luminosos, os olhos e apontar aí a flecha em pouco mais de um segundo. assim ao sétimo dia e ultimo da fase da lua cheia, um pouco antes da meia noite, o pastor meteu-se atrás da rocha com o arco armado com uma flecha e não esperou muito tempo, apareceu a alcateia e, como sempre o poderoso guia a ulolar, o pastor deu um salto muito rápido e ficou mesmo à sua frente, mal apontou e disparou a flecha para o lugar que ele até em sonhos já via e, o lobo chefe deu um estridente e assustador uivo e um salto de mais dois metros na sua direção, saltou por cima do rochedo e desapareceu pela ravina e os outros lobos sumiram-se! O pastor João Glize ficou sem certeza se tinha atingido o lobo em lugar mortal ou se apenas estaria ferido, podia tirar a dúvida na manhã seguinte, mas pensou em se aproximar da berma da rocha, com muita cautela, só para escutar algum sinal e como não ouvia nada foi-se chegando cada vez mais para a frente, acabando por escorregar e cair no fundo do rochedo. Na queda, bateu com a cabeça nas rochas e ficou desmaiado. Ao romper do dia, acordou, olhou em em volta e estava deitado ao lado do lobo chefe que tinha a flecha espetada entre os olhos. Ficou muito assustado e deu um salto para trás, porque reparou que o lobo tinha os olhos abertos e aqueles olhos não eram de lobo, mas de gente. Ficou a olhar e disse: Olha, ainda não está morto! E o lobo disse-lhe: - Ainda não estou morto, porque estava à espera que acordasses para te agradecer teres-me matado, já não suportava estas correrias! - Mas o lobo fala! Ou estarei morto e no outro mundo! Disse o pastor! E o lobo continuou: - Eu não sou lobo, sou o Manoel Roíze, o sétimo filho do Joaquim Roíze, e porque o meu pai não acreditava neste feitiço, não mandou um dos meus irmãos para ser meu padrinho de batismo, assim, nas fases da lua cheia transformava-me em lobisomem e andava nesse penar a noite toda. Agora, como foste tu que me mataste, vais ficar tu no meu lugar e a seguir morreu. O pastor João Glize ficou aterrado mas não acreditou. Logo na lua cheia seguinte, as correrias dos lobos continuaram guiados por um lindo lobo chefe e não pararam até à sua extinção nas terras de Capelins.



Fim


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