quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

215 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

O rito e a rota dos sete poços na madrugada do dia de São João (24 de Junho)

As terras de Capelins tinham tradições centenárias que ninguém consegue explicar a sua origem, porém, sabemos que derivam de uma mistura de culturas e credos, do lado de cá e de lá do rio Guadiana, incluindo a forte influência Judaica (Cristãos novos), que por aqui viveram durante alguns séculos! 
Uma dessas tradições, que se encontra quase extinta, como outras, e na qual muitos/as capelinenses participavam, embora alguns contrariados, por terem de sair da caminha pelas cinco horas da manhã no dia 24 de Junho, era tomar banho antes do nascer do sol, nas águas de sete poços! 
Alguns dias antes, dos banhos do São João, as habituais participantes, geralmente mulheres e crianças, começavam por escolher os sete poços a visitar. Depois, na madrugada desse dia, partiam com um balde e uma bacia, que as acompanhavam em todo o trajeto. Ao chegarem ao poço, tiravam a água para a bacia e faziam a lavagem à gato/a, as mãos, cara, pés e pernas e pouco mais e partiam logo para outro poço, porque ao nascer do sol o ritual tinha de estar terminado, senão não servia para nada. A finalidade deste rito era para ficarem livres de doenças, uma garantia que passavam o ano sem adoecer!
Hoje, ainda há algumas resistentes, cada vez menos, porque a idade já é muita, mas a sua fé nestes banhos continua!

Poço do chorão, dos mais visitados nos banhos do São João


214 - História, lendas e tradições das terras de Capelins


Antigo caminho de Capelins para Terena

A Lenda do Candeeirol de Capelins 

Como sabemos, antigamente não existiam transportes rápidos para as pessoas de Capelins se deslocarem de suas casas para o trabalho no campo, ou para outras localidades, fosse para tratar de assuntos ou para assistirem a festas e bailes. Assim, conforme as distâncias que tinham de percorrer, os capelinenses começavam as viagens muito cedo, na escuridão da noite, em alguns casos, pelas três/quatro horas da manhã, por caminhos perigosos, pedregosos ou enlameados, de difícil circulação para pessoas e animais, mas não havia alternativas! 
Existiram sempre boatos sobre fantasmas, que apareciam com diversas formas, desde animais a objetos brilhantes e outros! 
 Este caso que vamos contar passou-se na estrada que ligava as terras de Capelins a Terena, vinha desde o Porto da Cinza, passava pelas Bispas, Calados, Serranas, Ferreira, Cebolal, Nabais, Ai Ai, Monte Branco, Ribeiro do Alcaide, Vila Velha, Terena. Havia um espaço nesta estrada, desde a entrada na herdade de Nabais, no cruzamento das duas estradas, até junto ao Monte de Nabais, onde por vezes aparecia um fantasma! Numa madrugada, muito cedo o meu tio foi desde Capelins de Cima para a casa do avô (meu bisavô), que morava no Monte da Hortinha, junto a Faleiros, quando chegou à referida encruzilhada, olhou à sua esquerda e vê um clarão de um candeeirol da altura de uma pessoa que o seguia, ficou muito assustado e, começou a andar mais rápido e depois a correr, mas o mesmo acontecia com o fantasma, seguia sempre a seu lado. Como o medo era tanto, pensou em pedir ajuda no Monte de Nabais, mas quando chegou perto deste Monte, o fantasma deu um estouro e desapareceu! 
 A partir desse dia, o meu tio, nunca mais foi para o Monte da Hortinha antes do raiar da aurora! 
Parece que, o fantasma, continua a andar naquele trajeto, mas já lá não passam pessoas!

Era mesmo neste sítio que surgia o fantasma! 

Fim

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017


213 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Foto net
A Lenda do bondoso pastor de Capelins

Antigamente existiam muitos pastores nas terras de Capelins, podemos constatar essa realidade nos registos Paroquias de Santo António. Entre eles, existia um rapaz dentro dos vinte anos que guardava as ovelhas na herdade da Talaveira e andava quase sempre perto da Ribeira do Lucefecit e do Moinho do Bufo. Um dia chegou à hora de almoço (jantar), pegou na alcofa da merenda e quando se preparava para comer apareceu uma velhinha muito feia a pedir-lhe que lhe desse alguma coisa para comer porque andava cheia de fome e já não aguentava mais! O pastor era tão bondoso que não hesitou em lhe entregar a merenda, pensando que ela comia um pouco e lhe deixava algum bocadinho de pão com toucinho e azeitonas para ele, mas a velha comeu-lhe tudo, nem uma única azeitona lhe deixou, ficando ele cheio de fome até à hora da ceia (jantar), mas no fundo estava muito satisfeito por ter matado a fome à velhinha, pobre e feia. 
No dia seguinte, quase no mesmo sítio, à mesma hora, quando o pastor se preparava para almoçar (jantar), apareceu novamente a velhinha com as mesmas lamurias e ele não conseguiu negar-lhe a sua merenda e passou mais um dia cheio de fome. Esta situação repetiu-se vários dias, mudava de sítio, escondia-se no meio das estevas, mas a velhinha encontrava-o todos os dias. O pastor andava já muito fraco, porque à noite no Monte da Talaveira a comida era por conto e, não podia comer mais do que lhe cabia. Até que um dia, estava ele a preparar-se para comer, à mesma hora, apareceu a velhinha e disse-lhe: És uma pessoa muito bondosa, das melhores de Capelins, por isso e pelo bem que fizeste a uma velha como eu, toma lá esta toalha e sempre que queiras comer estende-a em cima da ervinha, pensas em comidas que gostes, elas aparecem e podes comer tudo o que te apetecer e de seguida transformou-se numa linda mulher e desapareceu. A partir daquele dia, quando o pastor estendia a toalha e pensava em comidas boas e bebidas, apareciam imediatamente e foi comer do bom e do melhor o resto da sua vida! 
As pessoas bondosas, decerto não são esquecidas! 

Fim

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

212 - História, lendas e tradições das terras de Capelins


Foto: Manuel Correia

A Lenda da Menina na Ribeira do Lucefécit e o Milagre de Nossa Senhora das Neves, de Capelins 


Conta-se que, um dia estava uma senhora a lavar a roupa da família na Ribeira do Lucefécit, num lavadouro que existia junto à foz do Ribeiro das Neves e tinha por companhia a sua filha com cerca de 5 anos de idade. A senhora lavava a roupa e a pequenita brincava por ali e de repente diz: olha mãe! E mostra-lhe um lindo terço dourado que brilhava como o sol. A senhora ficou muito aflita e perguntou à filha onde o tinha encontrado! A menina disse à mãe que tinha sido uma senhora muito linda que lhe o tinha oferecido. Mas como é que isso aconteceu, se não dei por nada? diz a mãe! Estava a lavar e não viu! Respondeu a menina!
E onde está, ou para que lado foi a senhora? Continuou a mãe!
Foi-se embora por ali, e indicou o curto caminho entre a Ribeira do Lucefécit e o lugar onde está situada a Ermida de Nossa Senhora das Neves!
A mãe e a filha seguiram naquela direção e quando se aproximaram viram a linda imagem de Nossa Senhora das Neves, exatamente no lugar onde a sua Ermida foi construída, ou seja, ao lado e não no mesmo lugar da antiga Igreja Matriz de Santa Maria!


O dia de Nossa Senhora das Neves é 5 de Agosto, nesse dia, aqui acodiam romeiros de toda a região!

Nossa Senhora das Neves é uma das invocações pelas quais a Igreja Católica venera a Santíssima Virgem Maria segundo o culto de hiperdulia.

Nossa Senhora das Neves é também conhecida como Santa Maria!

Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins 

Fim

211 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Foto: Manuel Correia
A Lenda do Pastor do Monte do Escrivão e o Milagre de Nossa Senhora das Neves em Capelins


Ao lado da atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, em Capelins, no lugar onde está a necrópole, existia a Igreja Matriz de Santa Maria, mandada construir por D. Dinis em 1314. A Igreja Matriz de Santa Maria entrou em ruínas nos últimos decénios de 1600, não sendo possível recuperá-la, foi escolhida a opção de construir uma nova, com invocação a Nossa Senhora das Neves (o mesmo é dizer, Santa Maria, Nossa Senhora). A construção desta Ermida iniciou-se cerca de 1670/80 e quando já estava adiantada acabou-se o dinheiro que tinha sido angariado por toda a região. As obras pararam e começou o falatório que já não a acabavam e ficaria abandonada porque ninguém podia dar mais dinheiro! 
Um dia andava um ganadeiro a guardar as suas ovelhas perto do Monte do Escrivão e vinha um romeiro dos lados das Neves, cumprimentaram-se e o ganadeiro perguntou-lhe se tinha passado por Nossa Senhora das Neves e se as obras da Ermida já estavam quase prontas! O romeiro contou-lhe o que se passava! Então ninguém pode ajudar? Posso eu, disse o ganadeiro! E continuou! Vou já resolver o problema!
Foi saber quem era o mestre da obra e quanto dinheiro faltava para a acabar, incluindo tudo o que fosse necessário para a ficar pronta a rezar lá missas! 
Depois de saber quanto dinheiro era preciso, apartou 20 ovelhas das melhores que tinha e foi vendê-las, entregando todo o dinheiro, conforme tinha combinado com o mestre da obra! 
Soube-se logo por toda a região, deixando as gentes de Capelins muito sensibilizadas com aquele ato, ainda mais, por ser este ganadeiro dos que tinha menos ovelhas e dos mais pobres, no entanto foi ele que acabou de construir a Ermida de Nossa Senhora das Neves. 
Concluídas as obras, a Ermida foi benzida e inaugurada e na madrugada seguinte, como sempre, o ganadeiro foi soltar as suas ovelhas para as levar para a pastagem, mas ficou pasmado porque depois de as contar tinha as mesmas ovelhas de antes de as vender! Ainda pensou que fossem de outro rebanho e se tivessem juntado às suas, mas não! Foi um milagre de Nossa Senhora das Neves, pela sua bondade e pelo bem praticado! 
Neste caso, confirma-se que: "Faz mais quem quer do que quem pode".

Fim




210 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do lobisomem de Capelins

Conta-se que, há algumas centenas de anos, existia um lobisomem nas terras de Capelins e que era um rapaz ainda novo, com cerca de 20 anos de idade, que costumava transformar-se em diversos animais, mas essa transformação tinha de ser feita nos cruzamentos de estradas, ou seja no lugar onde duas estradas se cruzavam formando uma cruz. Assim, uma noite, transformou-se num chibo no cruzamento das estradas no Roncão, nesse momento, vinha um jornaleiro que trabalhava no Roncão e morava no Monte do Escrivão, viu o chibo ali perdido e pensou em o levar para casa, depois se aparecesse o dono logo o entregava ou então podia ficar com ele. O chibo não era pequeno, então tirou o cinto das calças, atou-lhe as patas e levou-o às costas, mas antes de chegar ao Monte do Escrivão o chibo pesava cada vez mais, até que, devido ao cansaço, o jornaleiro teve de o colocar no chão para descansar, mas mal chegou ao chão o animal deu-lhe um forte esticão que o fez cair de costas e fugiu. No dia seguinte, o jornaleiro foi logo cedo para o trabalho no Roncão e encontrou um rapaz que morava no Monte da Negra e que era seu amigo, fizeram um grande cumprimento, mas ao mesmo tempo o jornaleiro reparou que ele trazia à cintura o seu cinto, com o qual ele tinha atado as patas do chibo, o jornaleiro paralisou e apanhou o maior susto da sua vida. O rapaz lobisomem percebeu e seguiu caminho a rir e aos saltos como os chibos! 

Fim




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017


209 - História, lendas e tradições das terras de Capelins

Foto de margens do rio Guadiana, hoje Barragem - Castro de Capelins

A lenda do tesouro do Pego das Barcas 


Há cerca de 3.000 anos, instalou-se no Outeiro do Pombo (um pouco acima do lugar da Cinza), nas margens do rio Guadiana, uma tribo Celta vinda do norte da Europa, trazendo o seu gado e bons conhecimentos de agro-pecuária. Estas terras de Capelins eram as que procuravam, com água e muito férteis, assim, começaram imediatamente a construir um "Castro" pequeno Castelo, hoje em ruínas, a fim de se defenderem de eventuais invasores e dos animais ferozes que existiam nas redondezas. Foram juntando pedras, algumas de grandes dimensões, talhadas para assentarem umas sobre as outras formando paredes firmes e muito largas. Porém, um dia ao tentarem colocar uma grande pedra na parede, a mesma deslizou pela encosta muito íngreme, caindo no pego das barcas, o segundo mais fundo do rio Guadiana, depois daquele onde se afogou a noiva do Manoel Pastor, a Catarina (o pego de Santa Catarina). A pedra ficou tão bem colocada, parecia nivelada, no fundo do pego que seria difícil a mão humana fazer melhor e assim, lá ficou esquecida por muitos e muitos anos. 

Nos anos de grande seca, eram poucos os pegos do rio Guadiana que mantinham alguma água, mas estes dois que referimos, nunca secavam, embora ficassem muito mais baixos, forneciam água para pessoas e animais, mas também nos dias de grandes calores ali acudiam alguns banhistas. Os mais aventureiros conseguiam mergulhar até ao fundo, acabando por descobrir a pedra que aí jazia há cerca de 3.000 anos e que devido ao seu formato e como estava disposta despertou muita atenção, não demorando a ser tema de falatório e invenções sobre a descoberta. Depressa se espalhou a fama que debaixo dela estava um tesouro, constituído por muito ouro e prata trazida pela tribo Celta que construiu o "Castelo". Esta fama foi passando de boca em boca e de geração em geração, até ao dia em que foi desvendado, pelos três compadres, os lavradores da Negra, Talaveira e Amadoreira, João Gomes, Manoel Lopes e Joaquim Rosado!
Nos primeiros anos de 1700, nas Terras de Capelins, todas as conversas íam dar ao tesouro do pego do Castelo das Barcas (nas margens do rio Guadiana acima da Cinza). 
Um dia, os Lavradores dos Montes, da Talaveira, Negra e Amadoreira, encontraram-se por coincidência perto do Moinho das Azenhas Del-Rei e, depois de falarem sobre vários assuntos relacionados com a sua vida de agricultores, foram ter ao cobiçado tesouro. O Lavrador da Negra apresentou a ideia dos três tirarem o tesouro do fundo do pego, dividi-lo e saírem de Capelins, porque aquele tesouro era uma fortuna tão grande que daria para construir palácios e nunca mais faziam nada! Todos concordaram muito entusiasmados em tirar o tesouro e até prometeram dar tudo o que tinham em Capelins a familiares e vizinhos. Assim, combinaram como fazer, o lavrador da Talaveira banhava melhor que um peixe, então seria ele a mergulhar ao fundo do pego, atar as cordas à pedra que tapava o tesouro e depois a junta de bois do lavrador da Amadoreira que era a melhor e mais forte das Terras de Capelins, puxava a pedra para o lado e ele tornaria a mergulhar e trazia o tesouro para cima, tudo certo! 
Para enganar o povo e não terem de dividir o tesouro, ou na eventualidade do tesouro não existir, o que ninguém podia saber, porque fariam chacota deles e perdiam a sua honra e o respeito de toda a gente, pelo que, pensaram em fingir que faziam uma paródia no rio Guadiana, levavam um garrafão de vinho, um pão, umas chouriças e um bocado de toucinho para disfarçar!


Naquele noite de Agosto, foram muito cedo, estava um lindo luar que trespassava as águas do pego das barcas, ficaram pasmados, porque o que estavam a ver de certeza era o brilho do ouro e da prata, que se devia ter escapado do tesouro e transmitia aquela luz através das águas do rio Guadiana. era a prova de que o tesouro existia, estavam ricos! 
Como já foi referido, os lavradores dos Montes da Negra, Talaveira e Amadoreira, chegaram muito cedo ao rio Guadiana, que devido à seca e ser Agosto, apenas corria um fiozinho de água, sendo muito fácil chegar junto do pego das barcas com a carreta (carroça), puxada pela junta de bois do lavrador da Amadoreira, que carregava os instrumentos necessários ao trabalho que íam realizar, cordas, paus, madeiros para servirem de rolamentos para apoio das cordas, sacos e grandes panos para tapar o tesouro. 
Com muito cuidado, evitando fazer barulho e alertar alguém que por ali andasse, começaram logo a descarregar a carreta, para ao romper da aurora estar tudo pronto, mas naquela hora da madrugada no rio Guadiana até se ouviam respirar os peixes, logo, o som daquela azáfama depressa chegou aos ouvidos apurados de um ganadeiro que andava por perto, o qual, com receio não fossem invasores para roubar o gado, foi logo perguntar ao ajudante se tinha visto ou ouvido passar alguém para aquelas bandas? Não! Eu não vi nem ouvi nada! Respondeu o ajudante! Então, tenho que ir ver o que se passa! E lá foi encontrar o que já descrevemos. Esteve a observar, sem ser visto, e logo se apercebeu o que os lavradores estavam a fazer. Foi a correr até onde estava o ajudante e disse-lhe que fosse imediatamente, dizer a toda a gente das redondezas o que se estava a passar, porque achavam que o tesouro era de todos! E não demorou muito, havia gente de todo o lado, até de Cheles, a espreitar, em cima de azinheiras, detrás de moitas, de rochas e de estevas, muito pertinho dos lavradores que, com o entusiasmo, não deram por nada! 

Já se via bem, com um palmo de sol e tudo preparado, as cordas estendidas, passando por cima dos madeiros e com uma laçada para passar pelos lados da pedra que tapava o tesouro e a junta de bois em posição de a puxar e abrir o tesouro. O lavrador da Talaveira, bom banhista, mergulhou e levou as cordas por debaixo dos braços, chegou ao fundo do pego, ligou-as bem à pedra e veio à tona de água a dizer que a junta de bois já podia entrar em ação!
Estava tudo preparado, as cordas ligadas à canga da junta de bois e os lavradores dos Montes da Negra e da Amadoreira colocados em frente dos bois deram a ordem para os animais puxarem a pedra com quanta força tinham e era muita, mas eles pararam e a pedra não mexeu. Ficaram pasmados e decidiram picar os bois que avançaram imediatamente como se não estivessem em esforço e foi difícil de os parar! O arranque dos animais foi tão brusco que a pedra foi arrastada e ficou virada a alguns metros de distância do lugar onde se encontrava, até que, não era tão grande como parecia, devido ao efeito da água. A seguir, o lavrador do Monte da Talaveira mergulhou com muito medo, porque não imaginava o que ía encontrar, com cautela, olhando em sua volta foi-se aproximando do lugar onde antes estava a pedra a tapar o suposto tesouro, mas não viu nada, procurou até aguentar o fôlego, quando veio à tona de água deixou os outros perplexos porque não trazia nada! Então o tesouro compadre? Perguntaram os dois ao mesmo tempo! Não vejo lá nada, respondeu o lavrador da Talaveira! Não pode ser, deve estar metido na rocha, leva lá a enxada para tirares a areia e o lodo, que de certeza que está lá! Disseram-lhe os dois lavradores! O lavrador da Talaveira nadou para baixo, para cima, para cima, para baixo, usou as ferramentas todas, para escavar na areia, para bater nas rochas e tentar encontrar alguma saliência e ainda mergulhou com ele algumas vezes o lavrador da Negra, viram o fundo da pedra, podia ter alguma cavidade com o tesouro, mas nada! Andaram neste trabalho mais de duas horas até se convencerem que não existia nenhum tesouro no fundo do pego das barcas! 
A pouca distância, continuavam escondidos os observadores, que assistiram a tudo e, também já estavam convencidos que o tesouro não existia, mas estava prometido que não íam perdoar os lavradores pelo seu atrevimento de tentarem roubar o tesouro que era de todos, por isso, o pior ainda estava para vir!
Os lavradores dos Montes, da Negra, Talaveira e Amadoreira estavam convencidos de que não existia nenhum tesouro no fundo do pego das barcas e carregaram as cordas, os paus, madeiros e as ferramentas, na carreta (carroça) dos bois e partiram para os seus Montes muito tristes e amargurados que nem comeram, nem beberam o vinho que tinham levado. Os observadores voltaram ao seu trabalho, outros foram para os seus montes, mas jurando que não esqueceriam o que os ditos lavradores tinham feito, podiam ter ficado com o tesouro que se considerava ser do povo de Capelins. Os que assistiram ao trabalho dos lavradores encarregaram-se de espalhar por toda a região a novidade e sempre foram acrescentando mais alguns pontos, passaram uns dias e não se falava noutra coisa por todo o lado. Os lavradores começarem logo a desconfiar que as pessoas sabiam alguma coisa, porque quando passavam, ficavam a cochichar e a rir, e até os seus criados andavam diferentes. Alguns ganadeiros e jornaleiros, quando os cumprimentavam já nem lhe tiravam o chapéu, o mesmo é dizer que não lhe tinham respeito e começaram a surgir as piadas. Então compadre, já lá tem tesourinhos' Ou a "tesoura" ainda está a chocar os ovos no pego das barcas? E muitas outras! Foram uns tempos muito difíceis para estes lavradores, que durou, durou! 
Quanto ao tesouro, toda a gente continuou a dizer que está lá, muito perto do Castelo das barcas e que um dia há-de aparecer! há-de, há-de! E nesse dia, dá-se o esplendor nas terras de Capelins.




Fim




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