terça-feira, 31 de janeiro de 2017


201 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

O Sábado de Aleluia e o toque dos chocalhos


O sábado de Aleluia, véspera da Páscoa, é o dia seguinte à Sexta-Feira Santa e anterior à Páscoa. É o último dia da Semana Santa, na qual os cristãos se preparam para a celebração da Páscoa. 
Para alguns cristãos, particularmente os católicos, foi neste dia que a Virgem Maria, como Nossa Senhora das Dores, recebeu o título de "Nossa Senhora da Solidão", uma referência ao profundo sentimento de solidão associado ao seu luto e tristeza. 
Nas terras de Capelins, no sábado de Aleluia, logo de manhã havia a missa na Igreja de Santo António e a seguir o Pároco chegava à porta larga (a que olha a ocidente) e benzia a rapaziada que estava formada em frente com os chocalhos ao pescoço, prontos a tocar em conjunto. Cada um levava o chocalho que podia arranjar em casa ou que alguém lhe emprestava, mas quanto maior melhor, os dominantes eram os "raboleiros" muito grandes usados nas vacas ou bois bem encorpados e que nesse dia se estivessem disponíveis eram os mais desejados. Quem não tinha um "raboleiro" levava um chocalho das cabras, ovelhas, porcos, perus, todos serviam. Só depois do Pároco fazer as benzeduras é que era válido tocar os chocalhos e ao fim de uns minutos ao sinal de um participante mais velho, paravam repentinamente e gritavam todos: "Jesus ressuscitou", porque o fundamento de tocar os chocalhos era para anunciar que Jesus tinha ressuscitado. A maioria da rapaziada não ligava este ato com a Ressurreição de Jesus Cristo e perguntavam aos mais velhos: - O que temos de dizer no meio do toque dos chocalhos? - Atão, temos de dizer às pessoas que "Jaju ruchitou". E porquê? - Porque se não dissermos isso, não apanhamos nada. Era essa a explicação possível. Assim se passava o sábado de Aleluia tocando os chocalhos às portas das mercearias, tabernas, montes e ruas da Aldeia e gritando, (os mais novinhos) "Jaju ruchitou" (Jesus ressuscitou) em troca de rebuçados, ervelhanas (abelhanas), ou seja amendoins a vulso, e alguns tostões, que eram trocados por rebuçados de meio tostão para darem mais quantidade. No fim do dia fazia-se a divisão das guloseimas que tinham sido conquistadas pelo grupo. 
O toque dos chocalhos no sábado de Aleluia era feito por vários grupos e rapaziada de diversas idades, que não se misturavam, existindo por vezes rivalidades entre os grupos, sobre os lugares onde cada grupo devia ir tocar os chocalhos, porque havia montes onde eram muito bem recompensados e quantos menos lá fossem, melhor seria para eles. 
Jesus continua a ressuscitar, mas esta tradição já foi!

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

200 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

Domingo de Ramos

O Domingo de Ramos é uma festa móvel cristã celebrada no domingo antes da Páscoa. A festa comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, um evento da vida de Jesus mencionado nos quatro evangelhos canónicos.

Em Capelins, no Domingos de Ramos, muito cedo, os paroquianos juntavam-se junto à Igreja de Santo António, para assistir à missa de Ramos e para benzer o alecrim com o qual, ainda nesse dia seriam feitas cruzes. Eram escolhidas canas com cerca de um metro e meio de altura, abriam-se uns orifícios um palmo abaixo do extremo superior e enfiava-se alecrim benzido nos lados e por cima por dentro da cana formando uma cruz que durante a tarde desse Domingo eram "espetadas" no chão no meio das searas e nas hortas, sempre viradas para o lado da Igreja de Santo António, com a finalidade das searas serem abençoadas e darem muito pão. Como referimos, principalmente os rapazes juntavam-se muito cedo junto à Igreja para antes da missa se realizar um jogo de futebol naquele espaço entre a estrada que vem do lado do Monte de Igreja e a que vem de Ferreira pelos Foros, era um bom campo de futebol com alguns penedos pelo meio e o jogo era quase sempre entre solteiros e casados!! Após o jogo de futebol era rezada a missa e no fim o senhor Padre benzia o alecrim, que algumas pessoas levavam e os montes que o "Ti José Madorna" e a "Ti Caleça" lá tinham e que logo a seguir ofereciam aos paroquianos, não ficando ninguém sem alecrim!

E era assim, a festa do Domingo de Ramos em Capelins!



Entrada triunfal de Jesus em Jerusalém 

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domingo, 29 de janeiro de 2017


199 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins


O Baile da Pinha

O Baile da Pinha realizava-se entre o Carnaval e a Páscoa, na Quaresma, num espírito cristão litúrgico.
O salão (Casão) era esplendorosamente decorado. Repleto de gente, chegava o momento solene da abertura do baile, com a chegada da corte real, Rei e Rainha do baile, acompanhados pelos respetivos vassalos e aias ou damas de honra. A fantasia e riqueza dos trajes dependiam muito da imaginação, do brio e da bolsa dos eleitos do baile do ano anterior. Esta festa assemelhava-se nalguns aspetos a um casamento.
Depois da entrada da corte no salão, o rei e a rainha instalavam-se no trono, mas logo de seguida inauguravam o baile da pinha, dançando só os dois, ao som de aplausos da multidão, a primeira peça do baile, enquanto os restantes elementos faziam círculo à sua volta.
A dança seguinte era executada pelas aias e pelos vassalos. Seguidamente dançavam os vassalos com as respetivas aias e os reis. Só depois de todas as danças, começava o baile para toda a gente. Havia bolos e bebidas oferecidos pelos participantes no baile da pinha. Faziam-se leilões como em todos os bailes e dançava-se alegremente até altas horas da noite.
Por volta das 4 horas da manhã, era chegado o momento de maior expetativa, de grande emoção. Tratava-se da "dança da pinha" ou "dança da fita". A enorme pinha de madeira encontrava-se pendurada ao tecto no meio do salão, envolvida por dezenas de fitas que pendiam. A dança da pinha podia durar uma hora e tinha por finalidade abrir a pinha.
Os vassalos e aias também podiam participar nesta dança. Ao longo da dança, o animador do baile anunciava, por ordem, o número do par, a pinha era descida à altura de se puxar uma fita. A dança durava até que " a fita premiada" acciona um mecanismo de abertura da pinha.
Era o momento de maior emoção, em que havia gritos de alegria e se aplaudia o novo rei e nova rainha, que abriam a pinha. Era o fim de um reinado e o começo de outro. Depois os novos eleitos davam início a outra série de danças. Estes escolhiam novos vassalos e novas aias e recebiam a coroa que lhes dava “poderes reais" para o baile da pinha do ano seguinte. 
Os bailes da pinha não eram bem iguais nas terras de Capelins e nas terras vizinhas, mas tinham a mesma finalidade, que era celebrar a alegria da antevisão da Ressurreição de Jesus na Páscoa que se aproximava.






domingo, 22 de janeiro de 2017


198 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins


O corte da lenha para aquecimento e para cozinhar os alimentos


O corte da lenha que se destinava ao aquecimento das casas e à cozedura dos alimentos da família, começava logo a seguir à apanha da azeitona, dentro do mês de Janeiro e esses trabalhos até podiam coincidir em alguns dias. Era um trabalho feito quase todo, por homens treinados que passavam mais de um mês nos montados de azinheiras a cortar (podar) as árvores, algumas de grande porte, munidos apenas de um machado. Aqui não existiam escadas para subir às azinheiras, senão seria chacota, a subida era feita pelo tronco e depois saltavam de ramo (pernada) em ramo cortando toda a ramagem ficando a azinheira completamente despida, mas tinha de ser assim para dar força a ramagem nova, com outro vigor, senão a azinheira envelhecia e podia mesmo secar. A lenha cortada ficava debaixo da azinheira, mas a seguir tinha de ser "esgalhada" cortada em menores dimensões e separada, a mais grossa da mais fina (ramalhos), trabalho feito por homens com mais dificuldades em subir às azinheiras, então andavam mais atrás a fazer este trabalho, fazendo feixas (molhos) atadas com junça ou cordel e juntando, (empilhando), a lenha junto à respetiva azinheira ou chaparro, para mais tarde, quando estivesse seca ser transportada em carroças para perto do Monte ou outra habitação e daí, diariamente, aos feixes (molhos, ainda mais partida em cima de um madeiro com o machado) era levada então para casa, junto ao lume, feito num pequeno compartimento designado por chaminé. Era aqui que cumpria o seu papel de arder no lume onde cozinhavam os alimentos e ao mesmo tempo aquecia toda a casa, ou pelo menos a área da chaminé onde a família passava os serões, ao lume e a ouvir os mais velhos contar contos e peripécias passadas ao longo da sua vida. 

Montado de azinheiras

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sábado, 21 de janeiro de 2017


197 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins


O ciclo do mel - A cresta

As abelhas fazem o mel com o fim do mesmo ser para alimentação da colmeia, mas não têm limite, enquanto existirem flores continuam a recolher néctar e polén e as abelhas engenheiras a fabricar mel com esse néctar em conjunto com a produção de enzimas. Assim, o mel dá para a sua alimentação e para lhe ser retirado uma grande parte na cresta. 
Nos finais da Primavera, nos últimos dias do mês de Maio, ou primeiros dias do mês de Junho, já a principal flor dos campos de Capelins estava em decadência, a flor do rosmaninho e com as colmeias cheias de mel, estava no tempo de fazer a cresta, colheita do mel das colmeias. Alguns dias antes, o apicultor vestia a proteção contra as picadas das abelhas e no apiário (colmeal), abria duas ou três colmeias para confirmar se o mel estava maduro, em condições de fazer a cresta, se os alvéolos dos favos se encontrassem fechados, era o sinal que se podia fazer a cresta. No dia da cresta, muito cedo, o mínimo de pessoas possível, para não enfurecer as abelhas, abriam as colmeias, sempre com fumo para afugentar as abelhas e tiravam os favos para alguidares, deixando na colmeia (cortiços) algum mel, o suficiente para o enxame se alimentar durante o inverno! 
Os favos eram levados para um compartimento para se proceder à extração do mel, os quais eram colocados virados para baixo, suspensos em varas para o mel escorrer para os alguidares, por fim, eram espremidos à mão para sair o mel restante e a partir dos restos ainda faziam água mel e a respetiva cêra! 
O mel era acondicionado em potes ou panelas de barro e ficava em condições de ser consumido, sendo um alimento de muita qualidade devido aos seus componentes benéficos à saúde!

Mel
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


196 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 


História, lendas e tradições das terras de Capelins



O ciclo dos enchidos V 

A carne do porco ficava nos alguidares cerca de 4 a 5 dias, separada conforme o tipo de enchidos a que se destinava, sendo mexida e adicinada água e sal todos os dias. Ao quarto dia, começava a preparação para encher a carne, (fazer os enchidos), preparavam-se as tripas do porco e as de vaca, entretanto compradas na mercearia, misturava-se a farinha no alguidar das farinheiras, procuravam-se os embudes, (objetos em metal que eram colocados no início da tripa para, por eles, se empurrar a carne para dentro), linhas e junça para atar e ligar as pontas dos enchidos, agulhas para picar os enchidos e sair algum ar acumulado, tesouras e outros apetrechos necessários. Logo a seguir começavam por encher as cacholeiras (feitas do fígado do porco), depois as farinheiras e no dia seguinte várias mulheres enchiam as chouriças, morcelas e palaias (paios). À medida que faziam os enchidos, estes eram colocados (enfiados) em paus para no final serem pendurados dentro da chaminé à altura de dois metros para apanhar o fumo do lume que era feito por baixo e tanto dava para aquecer a família como o fumo secava os enchidos, ou seja, curava a carne, que só ficava em condições de ser consumida depois de passar algumas semanas no fumeiro. As cacholeiras eram as primeiras a consumir e a seguir as farinheiras. As chouriças, morcelas e palaias (paios) levavam mais tempo a secar e por consequência, as últimas a retirar do fumeiro.
Quando os enchidos já estavam curados, bem sequinhos, eram guardados em panelas de barro, muito bem acondicionados e sempre vigiados, para serem consumidos ao longo do ano! 



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

195 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

O ciclo do mel

O mel é um alimento, geralmente encontrado em estado líquido viscoso e açucarado, que é produzido pelas abelhas a partir do néctar recolhido de flores e processado pelas enzimas digestivas desses insetos, sendo armazenado em favos nas suas colmeias com a finalidade de lhe servir de alimento. 
O mel sempre foi utilizado como alimento pelo homem, obtido inicialmente de forma extrativa e, muitas vezes, de maneira danosa às colmeias. Com o passar dos séculos, o homem aprendeu a capturar enxames e instalá-los em "colmeias artificiais". 
Devido ao desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas de manejo, conseguiu-se aumentar a produção de mel e extraí-lo sem danificar a colmeia. Com a "domesticação" das abelhas para a produção de mel, temos então o início da apicultura. Atualmente, além do mel, podemos obter diversos produtos como o pólen apícola, a geleia real, a apitoxina e a cera. Além da produção e comercialização de rainhas e em alguns casos de enxames e crias.
O mel é o único produto doce que contém proteínas e diversos sais minerais e vitaminas essenciais à nossa saúde. Além do alto valor energético, possui conhecidas propriedades medicinais, sendo um alimento de reconhecida ação antibacteriana
Nas terras de Capelins, desde sempre, foi produzido mel de muita qualidade, devido ao meio ambiente amigável e à abundância de flor de rosmaninho! 

Mel 

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