quarta-feira, 11 de janeiro de 2017


186 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins




O ciclo do queijo III

Quando o leite já estava coalhado, tinham de se meter as mãos à obra, ou seja fazer os queijos. A "coalhada" tirada das panelas era despejada na queijeira, uma mesa retangular com resguardos laterais e um estreitamento acentuado numa das extremidades por onde escorria o "soro" do leite para dentro de um alguidar para seguidamente se fazer o almece. A "coalhada" era colocada com alguma pressão em pequenas quantidades dentro dos cinchos (formas), depois os queijos eram bem salgados e ficavam com o cincho até ao dia seguinte. Já no processo da cura (seca do queijo) a qual era uma tarefa muito exigente em trabalho e higiene, porque tinham de dar volta aos milhares de queijos todos os dias, virar, manualmente, o lado de cima para baixo e verificar se existia alguma anomalia causada pelos pequeninos mosquitos que podiam depositar ovos e estragar o queijo, por isso, tinham de estar bem limpos e salgados, continuando esse trabalho cerca de dois a três meses, ficando, então em boas condições para serem consumidos. 
Os queijos eram vendidos aos quarteirões, (quantidades de 25) e acondicionados de várias formas (debaixo de sal, em panelas com azeite e outros segredos) para abastecer a casa (fundamental nas merendas dos Capelinenses) durante todo o ano! 






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

185 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

O ciclo do queijo II

O Almece 

Almece é palavra de origem árabe, de almeiz ou al-meice ou ainda al-mîs, que significa "soro do leite". Trata-se de um regionalismo utilizado principalmente no Alentejo.

Depois da ordenha das ovelhas para o ferrado, o leite era transferido para cântaros de lata onde se fazia o seu transporte para a "Rouparia".
Na Rouparia, o leite passava para uma ou mais panelas, de preferência de barro, em cuja boca se preparava um coador constituído por um pano de linho, seguido de lã e por fim de linha. Deixando-se um abaulamento, os panos que constituíam um filtro eram atados e seguros à boca das panelas e ía-se deitando o leite a pouco e pouco ficando no coador as impurezas e interiormente o leite em condições de preparar o queijo. 
A flor do cardo, tinha sido colocada previamente de molho era bem pisada num almofariz de metal. Seguidamente a água em que o cardo tinha ficado de molho era coada misturando-se ao leite. 
Entre uma e duas horas depois o leite está coalhado formando assim a “coalhada” que vai ser espremida no cincho (forma) para fazer o queijo.
Durante esta tarefa escorria um líquido, o soro de leite ao qual se juntavam alguns pedacitos de coalhada e por vezes um pouco de leite. 
Depois de fervido, obtinha-se o almece onde se encontravam pequenas partículas de leite coalhado que se chamavam “borregos/as”.
O almece comia-se com pão migado e era muito apreciado pelos Capelinenses.


Almece






184 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins


O ciclo do queijo I


Desde sempre, Capelins foi terra de queijos, os quais, para além de serem muito bons, eram arte, vida, símbolos quase sagrados da cultura desta nossa Capelins.
Todo o trabalho era feito artesanalmente e começava muitos meses antes, logo em Setembro do ano anterior, tinham que apanhar o "cardo" (flor da alcachofra brava) passando um ou mais dias no campo a colher essa flor que depois colocavam a secar e era bem guardado para ser utilizado em Março, quando o leite de ovelha começava a estar disponível, depois dos borregos deixarem de mamar e serem separados das mães. 
A "Rouparia" era na maioria das vezes improvisada nas próprias casas de habitação, podendo empregar toda a Família, cada um com as suas tarefas. À noite tinham de pôr o "cardo" de molho em água em quantidade suficiente para fazer coalhar os litros de leite que recebiam na manhã seguinte e em alguns casos também à tarde. A partir das três/quatro da manhã começava a ordenha, (tirar o leite às ovelhas), e logo a seguir o leite era transportado para a "Rouparia" em cântaros de "lata" numa carroça ou numa burra, com muito cuidado para que não houvesse nenhum acidente, a matéria prima era rara, cara e não se podia desperdiçar. Ao chegar à "Rouparia" o leite era passado por "coadores" através de panos brancos sucessivos, muito bem lavados, que não deixavam passar nenhuma impureza para as panelas onde o leite se juntava com o "cardo". Depois nessas panelas era colocado junto ao lume de lenha (brando), para o calor ajudar o leite a coalhar, (engrossar, transformando-se numa pasta branca homogénea) e dela se faziam os queijos! (algumas pessoas coziam o leite ao lume e só depois, juntavam a água onde estava o "cardo" de molho, para começar a coalhar)!





segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


183 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

Os bolos da Páscoa

Quando a Páscoa se aproximava, era uma azáfama muito grande, para fazer os bolos dessa época! Todas as Famílias de Capelins, que não estivessem enlutadas faziam os bolos da Páscoa. O bolo principal que se fazia em maior quantidade, para casa, e para dar nos presentes às Famílias enlutadas, era a rosca (bolo finto). Este bolo, tinha uma receita especial guardada em cada casa, porque como os bolos só eram feitos de ano a ano, tinham que consultar a receita não fossem esquecer algum ingrediente importante! Também se faziam outros bolos, entre eles uns de amêndoa com metade de uma amêndoa no topo e alguns folares da mesma massa das roscas mas ornamentados com tiras de massa e com um ou mais ovos cozidos no topo do bolo/folar! 
Eram esses os bolos tradicionais que davam muito trabalho, principalmente às mulheres, que trabalhavam de noite e dia para os poderem fazer! A farinha, açúcar e outros ingredientes eram amassados como se fazia para o pão, depois a massa fintava (levedava) e a seguir faziam-se manualmente os delicados bolos e folares. Entretanto, acendiam o forno onde ardiam algumas "feixas" de lenha para o aquecer de forma a cozer os bolos! No caso de terem de usar os fornos comunitários, tinham de fazer a marcação do dia e horas! Às vezes existiam confusões nas marcações, mas tudo se resolvia!






182 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

O ciclo do pão VIII 


A cozedura do pão 


A farinha vinda do Moinho era guardada em casa, no melhor lugar que se podia arranjar, estava ali a base da alimentação da Família! A cozedura do pão exigia que o trabalho fosse iniciado na noite anterior. Primeiro, tinha de se garantir a existência do fermento, (levedura, parte de um pão em massa da cozedura anterior, ou trocado com outra Família, que continha os fungos necessários a desempenhar as suas funções). Ao serão, a farinha destinada à cozedura era peneirada (separava-se o farelo, a casca do trigo) e ficava assim até à madrugada seguinte. Pelas cinco da manhã, os homens começavam a amassar, misturando o fermento e aos poucos água, de preferência morna, na farinha e com as mãos fechadas calcavam na massa e davam voltas e mais voltas, levando mais de uma hora nesse difícil trabalho. Pelas seis horas da manhã estava amassado e ficava em repouso a fintar (levedar) durante duas ou mais horas. O trabalho não parava, tinham de ir buscar a lenha para junto do forno e a seguir puxar fogo a essa lenha dentro do forno para o aquecer! 
Depois de, a massa estar pelo menos duas horas a fintar (levedar) já se podia "tender", ou seja, fazer o pão que continuava mais uma hora a fintar no tabuleiro e de seguida entrava no forno que já tinha sido preparado. Após a lenha arder dentro do forno, o borralho (brasas e cinza) era encostado para um dos lados com uma pá em madeira com um cabo comprido, para o forneiro/a (quem tratava do forno) não se queimar, a mesma pá que depois servia para colocar o pão em massa dentro do forno e tirá-lo já cosido. O solo do forno ainda era bem passado com uma vassoura de piorno verde, para não arder, e tinha que ficar bem limpo de brasas e de cinza para não se colarem ao solo do pão. 
Como eram pães com cerca de dois quilogramas cada, tinham de estar dentro do forno quase duas horas para cozer e ao fim desse tempo eram retirados do forno e colocados num tabuleiro de madeira, mas faziam antes um ritual que consistia em pegar no pão com a mão esquerda e bater com a mão direita aberta, no solo do pão, para sair alguma cinza que existisse e por fé de que tinha ficado bom!
A partir desse momento, com o pão ainda quente, já se podia comer, (na tiborna com azeite e mel), no entanto, este pão para estar aqui, exigiu um ano e meio de duros trabalhos agrícolas!


Forno antigo de cozer o pão





181 - Terras de Capelins 

Ciclo do pão - VII 

Moinhos de Capelins

Como sabemos, quando temos um pão na mesa, este exigiu um ano e meio de trabalhos agrícolas! 
No mês de Setembro já podiam levar o trigo novo ao Moinho, para ser transformado em farinha, mas só a um Moinho do rio Guadiana, porque as Ribeiras do Luceféit e do Azevel nesse mês, ainda não tinham água que pudesse mover Moinhos. Depois de chover muito, a partir de Novembro ou Dezembro, o rio Guadiana passava meses com grandes cheias que submergiam os seus Moinhos e impediam o funcionamento durante muito tempo, era nessa altura que funcionavam os Moinhos destas Ribeiras. Os seareiros e os jornaleiros que trabalhavam para os lavradores levavam o trigo aos Moinhos, o qual era pesado pelo Moleiro (dono ou empregado no Moinho) e trocado por farinha. Se o seareiro não pudesse esperar, passando o dia entretido a pescar, a colher madeira para cabos de instrumentos agrícolas ou outro passatempo, podia trazer imediatamente a farinha a que tinha direito face aos quilogramas de trigo que levava, descontando a maquia, ou seja a parte cobrada pelo Moleiro pelo pagamento do seu trabalho e despesas com toda a engrenagem. No caso do seareiro querer a farinha feita do seu trigo do que levava, como referimos, esperava, ou podia lá voltar nos dias seguintes, mas a diferença na farinha não era nenhuma! 
O seareiro levava a farinha para sua casa. a qual ficava disponível para ser peneirada (separar o farelo, casca do trigo, da farinha, com uma peneira) e para fazer a cozedura do pão! 
Importa referir que, no decénio de 1960, ou talvez antes, já existia uma moagem em Montes Juntos, pertencente à Família Poeiras, movida a motores, que substituiu a maioria dos Moinhos movidos a água, existentes na Freguesia de Capelins! 







180 - Terras de Capelins 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

O ciclo do pão - VI 


No final do mês de Agosto a debulha dos cereais estava pronta, ou quase e a maior parte do trigo já tinha entrado nos celeiros. 
De manhã muito cedo pelas quatro horas da madrugada carregavam as carroças com 400/500/600 quilogramas de trigo, conforme elas eram puxadas por uma, ou duas muares (parelha) e seguiam a caminho de Alandroal ou Vila Viçosa, onde chegavam pelas 8/9 horas. Entregavam o trigo e voltavam às terras de Capelins, onde chegavam pelas 13/14 horas e com grande cansaço dos homens e animais. No entanto, durante a tarde ainda tinham de carregar a palha dos cereais, das eiras para a almiára, (monte retangular e bem delineado) a qual servia para alimentar as muares grande parte do ano. Na madrugada seguinte e enquanto tivessem trigo para vender no celeiro o trabalho repetia-se. Quando o trigo disponível para venda já se encontrava no celeiro, durante o mês de Setembro, antes da vinda das chuvas, tinham de tapar as almiáras com palha de centeio (tipo colmo) que era segura com agulhas feitas com duas varas de piorno atadas uma à outra pela rama e as pontas eram cravadas na palha de centeio obrigando-a a aderir à almiára, fazendo uma cobertura que não deixava entrar a água das chuvas durante o inverno, mantendo a palha em condições de alimentar as muares. Finalmente, aqui fecha-se o ciclo, do início do arranjo da terra para semear o trigo até à sua colheita, passando entretanto um ano e meio, de Fevereiro/Março do ano anterior (alqueve), até Setembro do ano seguinte, em que o trigo ficava disponível a ser feito em farinha e dela, o pão! 
Em 4 de Outubro, com algum dinheiro no bolso, os lavradores, seareiros e Famílias, íam à feira de São Francisco, na Villa de Redondo, fazer as compras de alguns produtos, roupas, (venda e compra de animais) e o que precisavam para quase todo o ano! Alguns lavradores e seareiros, não faltavam às Feiras de Santa Maria no dia 15 de Agosto em Reguengos de Monsaraz e à de Vila Viçosa no dia 29 de Agosto, porque também nestas feiras compravam e vendiam o gado (muares e outros animais), eram grandes feiras de gado!




584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...