domingo, 31 de julho de 2016

159 - Terras de Capelins 


A rota do contrabando de Ferreira de Capelins - Bispas - Amadoreira - Defesa da Bobadela - Moinhos Novos - Além Guadiana 

Parte de mais uma das conversas com alguns antigos contrabandistas que, carregavam às costas, café e outros produtos, entre Ferreira de Capelins e, várias localidades localizadas na vizinha Espanha, desde Olivença a Barcarrota.
Era uma vida muito dura e, se a viagem corria mal, no caso de serem roubados ou intercetados pela guarda civil,  podiam ficar sem nada, até mesmo sem a vida!
A rota mais comum dos homens de Ferreira de Capelins, embora existissem muitas outras, era pela Silveirinha, Bispas, Amadoreira, Defesa de Bobadela, até aos Moinhos Novos, onde passavam o rio Guadiana em barcos a remos durante a noite, quanto mais escuro e, até chuva, mais segurança tinham! Os contrabandistas, conheciam tão bem os caminhos que, não precisavam de luz, muitas vezes iam por veredas pedregosas e, pelo meio de matos, até  aos locais que, antecipadamente, os barqueiros lhes indicavam, pensando sempre na sua segurança e, nos lugares para onde se dirigiam em Espanha, podendo ser desde a guarita de Santa Luzia, acima da herdade do Aguilhão, até aos Moinhos Novos. A carga pesava cerca de 30 Kg, saíam de Ferreira de Capelins pelas 22/23 horas e, faziam rapidamente o caminho, em cerca de 1:15 horas, a pé, até ao rio Guadiana! Já em Espanha, o perigo era dobrado, mas tinham de continuar, porque era esta a atividade escolhida e, que podiam ganhar um pouco mais, com risco da própria vida, para governar a sua Família!

Contrabandistas




158 - Terras de Capelins 

A Genuína Rota do Contrabando de Ferreira de Capelins 


Foi junto ao Poço das Cobras que se deu um dos 


últimos episódios do contrabando de café. 


Numa noite escura pelas 22:00 horas, saíram de Ferreira de Capelins, do depósito de café, em Capelins de Baixo, dois contrabandistas o ti Manuel e o ti António, com 30 Kg de café às costas, a caminho das habituais localidades de Espanha, entre as quais, São Bento da Contenda, quando já tinham passado as últimas casas de Calados, diz o ti Manel para o ti António:

Ti Manuel: Eh António, esqueceu-me de uma encomenda muito importante lá em casa e tenho que a levar para Espanha, comprometi-me que a levava hoje, esperas aqui com as cargas que eu depressa lá vou! (O ti Manuel morava ali ao lado).

Ti António: Eh pá! Não esperava uma destas! Só tu! Assim, vamos atrasar a viagem! 
Ti Manuel: Deixa lá! Eu não demoro! Depois vamos mais depressa e recuperamos o tempo! Vá espera aqui! 
O ti Manuel arreou a carga e abalou a correr, ficando ali o ti António amagado e a escutar se ouvia alguns barulhos suspeitos! O ti Manuel, não se demorou nada, mas foi o suficiente para ser bispado pela Guarda Fiscal, que vieram no seu encalço sem se mostrarem. Chegou ao lugar onde tinham as cargas e, foram descendo o caminho para o poço das cobras, logo um pouco abaixo o ti António começou a ouvir passos de corrida, ficou alerta e disse ao ti Manuel:
Ti António: Tu não ouves uns passos de corrida? É mais de uma pessoa, de certeza que é a Guarda Fiscal, que te viram e vêm atrás de nós. 
Ti Manuel: Eu não ouço nada, não pode ser a Guarda Fiscal, tenho a certeza que ninguém me viu.
Os contrabandistas foram seguindo o seu caminho e, os passos cada vez se ouviam melhor, sinal de que estavam cada vez mais perto deles! O ti António, tornou a dizer ao ti Manuel que, era a Guarda Fiscal, mas já não dava para fugir, porque estavam mesmo muito perto! Estavam a chegar ao Ribeiro das Cobras e ouvem um grito: Alto aí, que é a Guarda! Caramba, já não nos safamos diz o ti António e, pararam logo, ainda carregados com o café. 
Guarda: Ah são vocês! Então o café é do amigo Tonico! 
Ti António: Sim, é dele!
 Guarda:  Pois é! Como é que agora fazemos isto? Não os podemos deixar abalar, é a nossa obrigação que está em causa! Por isso, vocês põem o café no chão e vão-se embora, nós levamos o café para o Posto (em Montes Juntos) e dizemos que deitaram a carga fora e fugiram e, fica tudo resolvido!
Ti António: Está bem, também andamos pouco! Vamos para casa deitar!
Descarregaram o café, voltaram para trás e ficou o assunto resolvido!
Contrabandistas: Boa noite, até amanhã!
Guardas: Até amanhã!
Os dois Guardas Fiscais carregaram com os 60 Kg de café até ao Posto de Montes Juntos com uma quase insignificante apreensão de café feita aos amigos contrabandistas de Ferreira de Capelins! No dia seguinte e todos os outros, passaram 3 camionetas Hanomag, carregadas de café até ao rio Guadiana pelo centro de Montes Juntos, nas barbas do plantão à porta do Posto! Parece ironia!...Mas é verdade, as camionetas levavam guia de transporte, os "burros" não! 


São Bento da Contenda 




157 - História das terras de Capelins

Segredos das terras de Capelins

Como sabemos, existem muitas necrópoles (cemitérios de antigamente) na Freguesia de Capelins. Quando nos anos 50/60 começaram a fazer lavouras com tratores, mais profundas, surgiram muitas sepulturas em várias zonas da Freguesia, todas muito semelhantes. Sendo uma região muito povoada por Cristãos novos de origem judaica, a partir de 1500, levou-nos a pensar que algumas, senão todas, as sepulturas pertenciam a "marranos" (Falsos cristãos) que, não desejavam ser sepultados em solo cristão (dentro da Igreja de Santa Maria, nas Neves ou Santo António). Há poucos dias, em conversa com um Capelinense que, em companhia de outros homens abriram muitas sepulturas na herdade da Defesa de Ferreira, afirmou-nos que, em quase todas as sepulturas que abriram, existia uma pequena vasilha de barro, todas tinham ossadas que, pela sua dimensão eram de pessoas muito altas! Fomos averiguar sobre quais os povos que por aqui habitaram, teriam esse ritual e, concluímos que, essas sepulturas seriam de romanos! 
Quando começaram a lavrar com tratores na herdade da Negra, surgiram muitas sepulturas e ossadas a sul, perto do caminho do Carrão, existindo, ainda hoje, uma dessas sepulturas junto ao dito caminho, também, nos parece, serem de romanos, não só, porque neste lugar existia uma mina romana, mas também pela classificação do IGESPAR! Muito perto do Monte da Sina, também existem várias sepulturas sem datação e, outras, no altinho, entre a malhada do Monte de Nabais e, o respetivo Monte! Ainda existem outras escavadas na rocha na descida do caminho do Monte de Calados para o Poço das Cobras, tudo indica que sejam romanas, estando, apenas uma violada. Assim, parece-nos que, essas sepulturas/necrópoles que existem em vários lugares da nossa Freguesia, pelos menos 8, são de romanos e, dessa forma, indicam-nos os lugares onde eles habitaram há cerca de 2.000 anos. 



156 - Terras de Capelins

Histórias de Vidas do contrabando,

Caminhos do Contrabando de Ferreira de Capelins - 


Além Guadiana 

Peripécias passadas nos caminhos do contrabando

Uma das localidades frequentada pelos contrabandistas de Ferreira de Capelins era São Jorge de Alôr, já na serra do mesmo nome. Ficava distante de Ferreira de Capelins, mas era muito segura e faziam-se boas vendas do dito café. A segurança era mantida pelo Ti Farinha, natural da aldeia do Outeiro e casado com uma senhora espanhola, dessa aldeia. O Ti Farinha tinha uma estratégia infalível que garantia a segurança a todos os contrabandistas face ao seu inimigo que era a guarda civil à qual chamavam os "carabineiros", que nesta àrea do Concelho de Olivença, eram muito perigosos, porque andavam a cavalo pelas aldeias e pelo campo. Porém, não faziam farinha, com o Ti Farinha, porque tinha sempre 3/4 homens de serviço, sentados em bancos, petiscando e bebendo alguns copitos e assim que os contrabandistas apareciam perto de São Jorge, no caso de a guarda lá estar ou por perto, levantavam os braços em sinal e eles logo se afastavam e escondiam, quando o caminho estava livre, os mesmos homens faziam sinal para os contrabandistas se aproximarem. 
O Ti Farinha até tinha uma choça (tipo cabana) para dar abrigo aos contrabandistas. 
Então, e o que ganhava o Ti Farinha com essa mordomia? 
Em breve lhe contamos!

São Jorge da Lor
São Jorge da Lor (em espanhol San Jorge de Alor) ou São Jorge de Olor é uma aldeia do município de Olivença. Até 1801 constituía uma freguesia deste concelho e tinha nesta data 404 habitantes.
Situada a 5 km de Olivença em direcção a SE, a aldeia constitui um núcleo urbano de muito interesse pela personalidade que lhe conferem as suas monumentais chunés (chaminés, no Português oliventino). Depois de São Bento da Contenda, é a maior das aldeias de Olivença.
Assentada no sopé da Serra da Lor, a 5 km. da Vila, constitui um conjunto marcadamente rural, com a fisionomia tradicional pouco alterada, destacando-se a sua arquitectura popular alentejana .
O centro do povoado e sua construção mais destacada é a igreja paroquial de S. Jorge, obra do século XVI. De pequenas proporções e endossada a outros edifícios, é em alvenaria caiada. O seu singelo portal é de desenho claramente popular, com triplo campanário. Interiormente, compõe-se de átrio de acesso, nave de três corpos, cruzeiro com abobado de aresta, cabeceira quadrangular e três grandes capelas anexas. Como sempre, a sua arquitectura espelha as formas populares alentejanas.



155 - História de Capelins 

Património Arqueológico das terras de Capelins


Em muitos lugares da atual Freguesia de Capelins, encontramos testemunhos arqueológicos deixados por povoadores que aqui passaram e ficaram, desde há cerca de 5000 anos. Alguns desses testemunhos encontram-se hoje submersos nas águas da barragem de Alqueva que ocupa grande área desta Freguesia. Foi o levantamento arqueológico nos vales do rio Guadiana e das Ribeiras de Lucefécit e Azevel efetuados pela empresa responsável pela construção da referida barragem que nos deu a conhecer alguns lugares que quase ninguém dava importância. As maiores evidências são da época romana, com cerca de 2.000 anos que se encontram por muitos lugares nesta Freguesia, com maior destaque para a Villa Romana de Ferreira, na Defesa de Ferreira, junto à Ribeira do Lucefécit, onde foram achados muitos artefactos pertencentes a esse povo.
Sabemos que os romanos fundaram e viveram na Vila de Ferreira, no Escrivão, Negra, Roncão, Amadoreira e Defesa da Bobadela, mas hoje concluímos que afinal habitaram em toda a Freguesia, mesmo em lugares onde não se encontram ruínas evidentes da sua passagem. Como já aqui referimos foram abertas muitas sepulturas que sempre pensamos serem de judeus, puro engano, são de romanos porque todas essas sepulturas tinham no seu interior uma vasilha de barro.

Na década de 1940/50, o ti António e o ti B. Busca (já falecido), trabalhavam na casa Dias, na Defesa de Ferreira e abriram muitas dessas sepulturas nos chamados ferragiais e outros lugares, sempre na esperança de encontrar algum tesouro dentro de alguma sepultura, porém todas tinham dentro os ossos bem conservados e a vasilha de barro. O ti B. Busca (homem alto), tinha sempre de saber qual a altura da pessoa ali sepultada, assim, media os ossos das pernas do esqueleto e comparava-os com os seus e quase todos lhe indicavam que a pessoa ali sepultada era mais alta do que ele, o que causava grande surpresa e ficava a dúvida: "quem seriam aquelas pessoas?". Hoje, tudo nos indica que aquelas pessoas foram romanos e romanas habitantes das terras de Capelins há 2.000 anos! 





154 - Terras de Capelins



Os caminhos do Contrabando, um passado esquecido!


De Ferreira de Capelins a São Jorge de Alôr


Alguns contrabandistas de Ferreira de Capelins, seguiam diretamente para as localidades o
Concelho de Olivença, não só, porque conseguiam vender o café mais rapidamente, por melhor preço, mas também, porque a área de Cheles e Alconchel estava no domínio de eterminadas pessoas e, não deviam entrar nesse território, pelo menos a vender café. Uma das localidades onde também se dirigiam era, São Jorge de Alôr, situada na serra da Lor ou Alôr, onde residia o Ti Farinha, português, natural da aldeia do Outeiro - Monsaraz e, casado com uma senhorita espanhola. O Ti Farinha tinha uma casa de comércio, onde vendia bebidas, petiscos e outros produtos à entrada da aldeia, lugar estratégico para controlar quem por ali entrava ou saía de S. Jorge, assim, havia sempre dois ou três homens, que além de beberem o seu copito, estavam de guarda à guarda civil Carabineiros) que apareciam a cavalo e estavam algum tempo pela aldeia, então esses homens tinham por missão avisar os contrabandistas da presença da guarda. Quando a guarda civil se afastava faziam sinal que já podiam entrar na aldeia e vender o seu café. Em contarpartida, os contrabandistas davam de quando em quando 1/2 Kg de café ao Ti Farinha, abancavam na sua Taberna a comer e beber alguma coisa e, ficava tudo pago, um bom negócio para todos! O Ti Farinha ainda dava abrigo aos contrabandistas, para descansarem em segurança, durante algumas horas, ou mesmo uma noite, numa choça junto à sua casa, que eles muito agradeciam, devido ao cansaço, era um hotel de cinco estrelas! O Ti Farinha ajudou muito os contrabandistas d' aquém Guadiana.
Bem Haja! 

São Jorge de Alôr - Espanha



153 - Terras de Capelins 


Os caminhos do contrabando

De Ferreira de Capelins São Bento da Contenda (San 

Benito de la Contienda) 

Numa noite muita escura do anos de 1970, saíram de Ferreira de Capelins os contrabandistas Ti António e Ti Manuel, levavam 30 Kg de café, cada um, ás costas, com destino direto à aldeia de São Bento da Contenda, no Concelho de Olivença. Quando chegaram, começaram a oferecer café e com grande surpresa ninguém queria comprar um único Kg. Vieram depois a saber que, antes da chegada deles, tinham andado uns contrabandistas da Mina do Bugalho a encher tudo de café. Assim, a solução seria seguir para outra aldeia mais afastada, mesmo que vendessem o café por um pouco mais, mas era muito doloroso fazer mais 10 ou 12 Km com a carga toda, mas tinha de ser! Quando iam de saída, apareceram dois senhores, um pouco estranhos, interessados em comprar o café todo! deu para desconfiar, um negócio assim tão bom! então está bem, combinaram o preço e dizem-lhe os compradores: - Comprarmos o café todo, mas só o podemos pagar amanhã. Pior ficaram, mas amanhã porquê? - Porque hoje não temos aqui o dinheiro e mais isto e mais aquilo. O Ti António pergunta ao Ti Manuel: - O que fazemos? - Não sei, mas podemos dormir por aí e amanhã se trouxeram o dinheiro, entregamos-lhe o café. Está bem, diz o Ti António aos compradores.
No dia seguinte, apareceram os compradores com um carro e fizeram sinal aos contrabandistas para descerem por uma estrada, afastando-se da aldeia. Eles desconfiados não se queriam afastar muito, mas com insistência dos compradores lá chegaram ao carro com o café. O Ti António foi entregar o café a um dos compradores e, quando levantou os olhos, estava o outro comprador com uma pistola apontada à cabeça do Ti Manuel e, logo de seguida deu dois tiros para o ar, deixando ao mesmo tempo o Ti Manuel que começou a correr o mais que podia, não querendo saber mais do café nem do companheiro. O Ti António sem medo, ainda insistiu para lhe pagarem o café, mas eles meteram o café no carro e fugiram a grande velocidade. O ti António voltou sozinho, até chegar a um lugar onde existia um Monte, ainda dentro de Espanha, no qual moravam uns idosos e, ainda longe começou a ouvir a voz muito alta do seu colega que não quis saber mais dele. Lá foi ter com ele, zangado, como não podia deixar de estar, porque, se eventualmente levasse um tiro, ali ficava sem ajuda ou morto. Tinha muita razão, por isso iam quase sempre dois a dois, se houvesse azar, o outro podia dar o alerta em Portugal. 
O Ti António esteve mais de oito dias sem ir a São Bento da Contenda (San Benito da la Contienda), mas como era uma pessoa muito audaciosa, lá voltou com outro companheiro, ao chegar, foi ao comércio de uma senhora idosa que vivia com uma neta, muito amiga dos contrabandistas portugueses, que faziam lá muitas compras de produtos para trazer de volta a Portugal e que já sabia o que se tinha passado, contado por outros contrabandistas que conheciam a situação, e perguntou-lhe: - António, já sabes quem te roubou o café? - Não, tu sabes? - Sei. - Foi um marroquino e um cabo da guarda civil, já reformado, roubaram-te e, foram-se embora daqui! Nada podemos fazer nada!

E, a vida dos contrabandistas de Ferreira de Capelins continuou como antes! Apenas houve troca de companheiro! 

São Bento da Contenda



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