26 - História de Capelins
Registos da Vila de Ferreira, em 1708
Como podemos verificar, no presente documento, extrato da Corografia portuguesa, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, apresenta-se uma descrição do então, Concelho de Terena, ao qual, a vila de Ferreira pertencia, embora, também fosse Concelho, com autonomia limitada, também, porque, dele faziam parte duas grandes herdades da Casa do Infantado, a herdade da Defesa de Ferreira e a herdade da Defesa de Bobadela, a qual, era administrada à parte do reino.
Consideramos este documento importante, não só, pela escassez de documentos desta época, mas também, pela forma como descreve a nossa região.
Podemos ler que nesta data, 1708, ainda não são referenciadas as aldeias de Capelins de Cima e Capelins de Baixo, fundadas pela Casa do Infantado, dentro da dita Vila e da Defesa de Ferreira. Estas aldeias aparecem um pouco mais tarde, noutro documento.
Veja-se que, em 1708 a Ermida de Nossa Senhora das Neves, já existia, prova que, de facto, foi construída nos finais do século XVII, início do século XVIII. Temos documentos, que provam a existência da Igreja Matriz de Santa Maria de Ferreira, ainda em 1664. Assim, a sua destruição, ou ruína natural, deu-se nos finais do século XVII, sendo, então, levantada no seu lugar, um pouco ao lado, esta Ermida de Nossa Senhora das Neves.
Da Vila de Terena e seu Termo (Concelho)
No Arcebispado de Évora, sete legoas ao Nascente desta Cidade, & duas
ao Poente da Villa do Redondo, em lugar alto está fundada a Villa de Terena,
cujo primeiro sítio foy entre o ribeiro de Alcayde, & a ribeira Lucefeci, a
qual tem seu nascimento em a serra d' Ossa, e correndo junto desta Villa pela
parte do Norte por uma fecunda varzea, se chama a ribeira de Terena, cujas
aguas entram no rio Guadiana, que divide o termo da Villa do Landroal dos de
Alconchel, & Chelles no Reino de Castella.
Mandou povoar esta Villa, & lhe deo
foral pelos annos de 1262, D. Gil Martins, pay do Conde D. Martim Gil, &
sua mulher D. Maria João, que deviam povoar a Villa de Viana, & por isso
forão do seu senhorio, & as teve o Conde seu filho, até que por morte delle
vagarão para a Coroa. El-Rey D. Manuel lhe deo foral em Lisboa aos 10 de
Outubro de 1514. He cercada de muros com seu Castello, de que eh Alcayde mór o
Conde da Ponte: tem 250 vizinhos com uma Igreja Parroquial de invocação a S.
Pedro com hum Prior, & dous Beneficiados, que apresenta a Coroa real, &
hum Vigario da Vara.
Tem mais a Igreja da Misericordia com
seu Hospital, huma Ermida de S. Antonio no Rocio, & outra de s. Sebastião,
& na descida da Villa em sitio baixo huma Igreja de N. Senhora da Boa Nova,
que fundou a Rainha D. Maria, mulher del Rey D. Affonso segundo de Castella,
filha del Rey D. Affonso o Quarto de Portugal. He esta Igreja muito forte,
& em forma de Castello, toda cercada de ameyas de pedraria, & pela
parte de dentro representa huma perfeita cruz: tem seu Capelão da Ordem de Aviz
com obrigaçando do meyo annal de Missas na Igreja Matriz, & conserva ainda
a pia de bautizar, por ser antigamente a primeira Freguesia desta Villa, a qual
se foy despovoando, por estar em lugar baixo, & pouco sadio, & se mudou
para o sitio, em que hoje está.
He esta Villa abundante de pão, gado
& caça: o seu termo tem seis legoas de Norte ao Sul, & duas de largo de
Nascente ao Poente, com duas Freguesias, Curados, a primeira eh de Sãto António,
tem 60 vizinhos, & duas Ermidas, huma de N. Senhora das Nrves na Villa de
Ferreira, que dista de Terena huma legoa para a parte do Sul, & outra de S.
Clara. (Esta Ermida devia pertencer à Freguesia de S. Pedro e não Santo
António).
A segunda Freguesia he dedicada a
Santiago, tem 100 vizinhos, & duas Ermidas, S. Amaro, & S. Francisco na
Rindeira.
Tem esta Villa treze defezas, que se
repartem por sortes aos moradores, de que pagam cada hum meyo tostão ao
Concelho, assistido à data das sortes o Corregedor da Comarca: & as defezas
da boleta, que ah nestas nomeadas, se dão em malhadas aos moradores da Villa,
& seu termo para as suas porcadas, de que paga cada hum de cada malhada o
que eh necessário para os gastos do Concelho.
Termina-se o termo desta Villa com a carreira de Machos, & a ribeira
Lucefeci abaixo até se meter no rio Guadiana abaixo até o moinho do Gato, &
dahí sahe o Azebel acima até a Atalaya do Ramo alto a dar ao Curral de Saro,
& dahí parte com a defeza de Pedra Alçada, que eh do termo de Monçaras,
& vem dar a Santo Aleixo, aguas vertentes para o Norte, até chegar ao pé da
Serra d'Ossa, que eh do termo da Villa do Redondo.
Tem dous Juizes ordinarios, tres
Vereadores, hum Procurador do Concelho, Escrivão da Camara, Juiz dos Orfãos com
seu Escrivão, hum Tabellião do Judicial, & Notas, hum Alcaide, & huma
companhia da ordenança, & outra no termo.
Extrato da:
Corografia Portuguesa e Descripçam
Topografica Do Famoso Reyno de Portugal, Tomo Segundo, offerecido ao
Sereníssimo Rey D. João V Nosso Senhor - Author:
O P. António Carvalho da Costa - Clérigo
do habito de S. Pedro, Mathematico,
natural de Lisboa, - páginas 536 &
537
Ano de MDCCVIII