quinta-feira, 26 de julho de 2018

286 - Terras de Capelins 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins
A lenda da Loja do ti Manoel Lagartixo 
Na segunda metade de 1700, a população da Vila de Ferreira (atual Freguesia de Capelins) aumentou significativamente, registando em 1758 mais de 350 pessoas, representando uma comunidade já com algumas exigências de bens de consumo que, era satisfeita através das feiras nas redondezas, ou no porta a porta por almocreves, mas nem sempre traziam o suficiente ou necessário, como: Sal, açucar, arroz, massa, utensílios domésticos e, sobretudo, peças de fazenda para fazerem o vestuário para homens, mulheres e crianças! 
Assim, surgiu a primeira loja de Capelins, na Aldeia de Capelins de Cima, a qual, era do ti Manoel Lagartixo, natural da Vila de Terena que, desceu com a família, até às terras de Capelins, incentivado pelos boatos sobre o seu crescimento e boa oportunidade de negócios, como também, devido aos privilégios concedidos aos moradores da Vila de Ferreira, os quais, estavam isentos do pagamento de alguns impostos reais.    
A abertura da dita loja em Capelins de Cima, foi uma grande novidade nas terras de Capelins, toda a gente queria ver como era, o que  vendia, não se falava noutra coisa! 
Começaram logo, as romarias à loja do ti Lagartixo que, tinha muito jeito para cativar e explicar o benefício dos produtos que vendia, para ele, eram quase todos mezinhas! O açucar curava todos os males respiratórios, tosse, constipações e resfriamentos, podiam fazer xarope, queimar o açúcar com uma brasa, depois adicionar água a ferver, estava o xarope feito! Era só beber bem quentinho! O arroz e massa com um bocadinho de toucinho, de galinha, ou mesmo sem ela, curavam todas as fraquesas! 
A toda a hora se oouvia: Ti Lagartixo, "quero meio arrate de massa, meio arrate de arroz, uma quarta de açucar, 5 Kg de farinha, dois metros daquele tecido" e, em cada dia aumentavam as vendas! Passados dois meses, o ti Lagartixo já não dava conta do trabalho sózinho, já tinham de ser a mulher e os filhos a ajudar! 
Bendita a hora em que vim para Capelins de Cima, repetia ele! Nunca pensei vender tanto! 
Devido à fama e, pela novidade, vinham clientes das terras de Capelins e das aldeias e montes das redondezas àloja do ti Lagartixo! Quando apareciam produtos novos, depressa se espalhava e, algumas mulheres acorriam à loja para admirar esses produtos, era a sua perdição, porque, já de lá não saiam sem os levar! 
O negócio corria tão bem ao ti Lagartixo que, começou a dar facilidades de pagamento às mulheres que tinham courelas ou alguma coisa de seu! Como já conhecia bem as clientes, fazia sempre a mesma conversa: "Leve, leve, porque depressa se acaba, depois logo paga!" 
Assim, passados poucos anos, já era dono de meia dúzia de courelas nas terras de Capelins! 
Uma das suas melhores clientes era a ti Maria das Candeias, moradora no Monte de Calados e, dona de uma boa courela junto ao Monte Real, logo, era das que podia levar tudo fiado! Quando hesitava, o ti Lagartixo empurrava:
Ti Lagartixo: Leve ti Maria, leve! Olhe que isto está-se a acabar e não sei quando vem mais! Isto tem muita procura, porque é muito bom! Muito bom!
Ti Maria: É só levar? Então, e depois quando pago? 
Ti Lagartixo: Isso vê-se depois! Vocemecês não têm uma courela? Então pode levar que eu aponto!
Ti Maria: Temos, uma boa courela! Mas não podemos ficar sem ela! Nem sei o que o meu Zé me fazia, se a empenhasse! Não levo, não!
Ti Lagartixo: Leve lá isso tudo, ti Maria! Olhe que não faço isto a toda a gente! Depois, logo paga!
Ti Maria: Não posso, não posso! Ai se eu pudesse!  
Ti Lagartixo: Então, se não leva, não demora nada, leva-as outra!
Ti Maria: Então, está bem! Eu levo isso tudo! Aponte aí!  
Ti Lagartixo: Aponto, aponto, já está apontado! 
A conta da ti Maria das Candeias na loja do ti Lagartixo não parava de aumentar, ele apontava, apontava e, ela levava, levava, nem queria saber quanto devia e, alguns réis que lhe entregava nem faziam mossa na conta! Até que um dia, o ti Lagartixo, começou com uma conversa pouco agradável com a ti Maria: "Eh ti Maria, a vida está muito má! Não sei onde isto vai chegar! Eu tenho de deixar de vender fiado, pelo menos a algumas pessoas que já aqui têm uma grande dívida! Olhe, nem a propósito, vocemecê já não pode levar mais nada fiado, já tem aqui uma grande dívida, veja lá se me podem pagar, nem que seja uma parte da conta!" 
Ti Maria: Oh ti Lagartixo, é muito má altura, agora não podemos pagar nada! Não pode esperar mais um tempo? Agora, não podemos, não! A vida está muito má!
Ti Lagartixo: A quem o diz! Já não sei o que fazer, isto está mau, muito mau! Não posso dar mais nada fiado e, sendo assim, diga lá ao seu Zé que venha cá falar comigo logo às nove horas da noite e, se não me pudererm pagar, traga a caderneta da courela! 
A ti Maria começou a chorar, mas sabia que não havia nada a fazer, foi para casa e, quando o marido chegou do trabalho estava a acabar de fazer a ceia (jantar) e, ainda soluçava! O ti Zé Lopes viu logo que alguma coisa má se passava, mas nunca pensou que ia ficar sem a sua courela que tanto estimava, por ser herança dos pais! 
Ti Zé: Então mulher, o que se passa?
Ti Maria: Não se passa nada, o que se havia de passar? 
Ti Zé: Se não se passa nada, diz-me lá porque estás a chorar? 
Ti Maria: São coisas da vida! Nada, nada!
Ti Zé: Nada, não! Se estás a chorar, diz lá porquê?
A ti Maria não teve outro remédio senão, contar ao marido que, o mais certo era ficarem sem a courela, a não ser que, alguém lhe emprestasse dinheiro para pagar a dívida na loja do ti Lagartixo! Mas quem? Nem a courela podiam empenhar, porque, a dívida já era maior do que o valor da courela! Pensaram, pensaram, mas não encontraram nenhuma saída! O ti Zé ainda a interrogou a mulher, queria saber como  tinham feito uma dívida tão grande e, a ti Maria exclamou: Olha, foi com o tempo, foi com o tempo, comprei algumas peças de fazenda para fazer roupa para vocês, as amassaduras da semana, (farinha para fazer o pão), massa, arroz, açucar e outras coisas que temos comido, sabes que, tens cinco filhos pequenos, tu ganhas pouco e eu sou uma mulher doente que nem sempre posso trabalhar! O ti Zé, apenas abanou a cabeça em sinal de negação e, antes das nove horas da noite já estava na casa do ti Lagartixo com a caderneta da courela, porque, não encontraram nenhuma solução e, a honra estava acima de tudo! 
Ti Zé: Boa noite ti Lagartixo, tome lá a caderneta da courela e trate de a pôr em seu nome!
Ti Lagartixo: Boa noite ti Zé, já sabe que depois tem de ir assinar! 
Ti Zé: Está bem, eu vou lá assinar! Então e fica tudo pago?  
Ti Lagartixo: Sim, sim, ainda era mais alguma coisa, mas fica assim, faço-lhe essa atenção! Já sabe, como estas coisas são! Quer ver as contas?
Ti Zé: Não, não! Eu sei que não nos engana! Até amanhã ti Lagartixo!
Ti Lagartixo: Até amanhã ti Zé!
O ti Lagartixo, com um sorriso malicioso, guardou a caderneta na gaveta do balcão para no dia seguinte ir ter com o Tabelião do Cartório Notarial de Terena e, passar a courela do ti Zé Lopes para seu nome! O ti Lagartixo seguiu este mesmo caminho mais algumas vezes, com o mesmo fim, ou seja, passar outras courelas para seu nome, conquistadas pela sua loja, ou pela sua astúcia em iludir as humildes moradoras das terras de Capelins! 

Fim 





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