sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

253 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -

Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 

A lenda do contrabandista de Capelins que, enganou os 

Guardas Barreiras

Nas terras de Capelins existiu sempre a atividade de contrabando desde a fixação da fronteira com a vizinha Espanha, por isso, foi aqui colocado um grupo de segurança da fronteira, os Guardas Barreiras, que antecederam a Guarda Fiscal criada em 17 de Setembro de 1885, porém, nunca conseguiram evitar o contrabando, verificando-se muitas vezes o jogo do gato e do rato, com estratégias incríveis na tentativa de se enganarem mutuamente, deixando, assim, em memória muitas peripécias, já lendas, devido aos feitos arriscados, quase heroicos, praticados por homens que trilharam estes caminhos para ganhar a vida!
Esta lenda, é sobre um contrabandista que morava em Capelins de Baixo, chamado António Borralho, que passou quase toda a sua vida a praticar essa atividade, sem nunca ser apanhado e, sem os guardas barreiras conseguirem saber o que ele transportava entre fronteiras!
Nas terras de Capelins, todos sabiam qual era o trabalho do ti António, mas não sabiam que produtos movimentava, porque não viam nada! Os guardas andavam intrigados e pressionados pelo comandante para desvendarem o mistério, o ti António andava debaixo de olho e, sempre a ser fiscalizado, mas nunca encontravam nada ilegal! Quase todos os dias saía de Capelins de Baixo para o rio Guadiana, pescava, ceifava junco ou junça, cortava piorno ou gestia, apanhava lenha, comprava farinha aos moleiros que legalizava sempre e voltava! No caminho lá estavam os guardas barreiras, davam volta a tudo e não encontravam nada! Isto passou-se durante vários anos até que o ti António, já idoso deixou o contrabando, mas ficou cheio de dinheiro, comprou seis courelas para os filhos, uma para cada um e, ainda ficou com grande folga económica!
Um dia, estava sentado ao sol em companhia de um seu compadre já aposentado da guarda barreiras, o ti Manoel António e, em conversa, este perguntou-lhe:
Ti Manoel: Oh compadre António, como é que tu com uma vida tão fraca que aí tinhas, conseguiste comprar seis courelas?
Ti António: Qual vida? Não estou a perceber!
Ti Manoel: A vida que tu tinhas, compravas e vendias uma cabra ou outra, alguma farinha, junça e buinho, como é que isso deu para tanto?
Ti António: Mas quem te disse, que eu comprei as courelas com o dinheiro que ganhei nisso? Isso era para disfarçar!
Ti Manoel: Para disfarçar? Não me digas que foi com o contrabando, como por aí dizem! Podes contar-me, porque eu já não quero saber nada disso!
Ti António: Foi com o contrabando, foi!
Ti Manoel: Olha que custa-me acreditar, mas se tu dizes, é porque é verdade! Então, e como é que nos enganaste estes anos todos? Como sabes, estivemos sempre com o olho em ti e nunca conseguimos apanhar-te! O que era o contrabando?
Ti António: Para te falar a verdade nunca transportei nada, o meu contrabando transportava-se a ele próprio!
Ti Manoel: Eh compadre, assim não percebo nada! Como é que o seu contrabando se transportava a ele próprio? E como é que nós não o víamos?
Ti António: Oh compadre, vocês viam-no e bem visto, mexiam-lhe e depois mandavam-me embora!
Ti Manoel: Nessa não acredito! Estás a brincar comigo?
Ti António: Não estou a brincar, não! Já te conto, e logo vês se não é verdade!
Ti Manoel: Então, conta lá! Uma coisa dessas tem muito que contar!
Ti António: Oh compadre, o meu contrabando foi sempre de burros, havia muita procura em Espanha, todos os que eu levasse não chegavam para as encomendas, muitas vezes ganhava o dobro do que pagava na compra!  
Ti Manoel: Essa está boa! Como é que fazias isso e nós não dávamos por nada?
Ti António: Trazia os burros, um ou dois, durante a noite, de Vila Viçosa onde tinha o fornecedor, ali para ao cabanão, onde não entrava ninguém e depois daqui até à fronteira levava só um, atado ao meu e umas vezes deixava-o logo lá, ou se desconfiava que vocês estava a seguir-me trazia-o para trás com farinha legalizada ou outras coisas lá do rio, mas a seguir voltava logo e deixava lá o burro, como tinha muita papelada no posto onde umas vezes dizia que era um burro, outras vezes dois, dava para os baralhar, nunca me perguntaram quantos burros estavam nos papéis porque vocês só pensavam em mercadorias e nem queriam saber de mais nada!
Ti Manoel: Sim senhor, compadre, bem enganados! É verdade, que pensámos sempre que trazias ou levavas mercadorias, nem reparávamos nos burros!
Ti António: Foi assim a minha vida compadre, arranjei muito dinheirinho, mas sofri muito e, nem imaginas o que passei e pensei para os enganar e chegar onde cheguei!

É caso para dizer: Ás vezes, o que está à vista, é o mais difícil de ver!

Fim 



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