segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

256 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins 

Montejuntos

A lenda da taberneira de Capelins de Baixo, que 

batizava o vinho

De entre as tabernas das terras de Capelins, existia a taberna da ti Maria das Candeias em Capelins de Baixo, herança dos seus pais que sempre dela se governaram, porém  a ti Maria, levada pela ganância, a pensar em ganhar mais, começou a batizar o vinho, ou seja, a misturar água! No princípio adicionava pequenas quantidades que poucos fregueses conseguiam notar, mas ao ver que era um bom negócio, vender água do seu poço ao preçodo vinho, aos poucos foi aumentando a quantidade, ao ponto da maioria dos clientes notarem e de a chamarem à atenção! A ti Maria negava sempre, desafiava-os a provarem que era ela quem adulterava o vinho, fazia grande escândalo e dizia que eles não percebiam nada de vinho ou que o vinho estava aberto porque o ano tinha sido muito chuvoso e a uva tinha apanhado muita água! Alguns, ainda a enfrentavam dizendo que o vinho das outras taberneiras vinha do mesmo sítio onde tinha chovido muito e não era aguado! A ti Maria zangava-se e enxotava-os para a rua com uma vassoura, mas como era muito brejeira e sabia cativar os homens, não demorava nada e já lá estavam a beber vinho com água e novamente a reclamar! O ti Manoel António que era sapateiro umas portas acima, também gostava de lá ir beber um copinho e a olhar para a ti Maria, mas todos os dias a chamava a atenção:
Ti Manoel: Oh Maria, isto não é nada, o vinho está aguado, isto é água com umas gotas de vinho! Um dia sais-te mal!
Ti Maria: Antes de me acusares de uma coisa dessas, tens de provar que eu meto água no vinho! Senão deixa-te estar calado!
Ti Manoel: Olha que eu um dia vou provar e sabes que vais perder muito com isso! Vai ser uma vergonha!
Ti Maria: Então prova! Já que és tão esperto, prova!
O ti Manoel sapateiro dava voltas à cabeça, na tentativa de encontrar uma maneira de desmascarar a ti Maria, todos sabiam que ela metia água no vinho, mas ela negava e ninguém tinha provas do contrário! O ti Manoel entrava na taberna e olhava para todos os pormenores na esperança de encontrar alguma ajuda, colocava-se no topo do balcão de onde podia ver as manobras da ti Maria, assim como os objetos que estavam atrás do mesmo e verificou que ela tinha uma cantarinha de barro mesmo ao lado dos jarros do vinho de onde enchia os copos, logo pensou que era ali que estava a água que ela adicionava ao vinho! O ti Manoel queria apanhar a ti Maria e quando estava na taberna, disfarçadamente, não tirava os olhos da “cantarinha de barro” até que, teve a certeza que era dela que saía a água para o vinho, mas como o podia provar? Passou, muitas horas sem dormir, até que se lembrou como o fazer, só precisava de uma oportunidade para chegar à cantarinha sem ser visto! Observou qual a melhor hora do dia para ir à taberna sem outros clientes à vista e que a ti Maria lhe aviasse o copo de vinho e fosse lá para dentro fazer alguma coisa que a prendesse alguns minutos, foi estudando o caso e viu que a melhor hora era antes do jantar (almoço), quase nunca aparecia ninguém e a ti Maria ia dar volta e temperar as sopas! Assim, um dia encheu os bolsos de sal e foi á taberna, ocupou o mesmo lugar no balcão e pediu um copo de vinho, a ti Maria encheu o copo e como estava só ele a beber o vinho muito devagar, ela viu que era para demorar e disse-lhe: Olha Manoel deixa-te estar que eu vou temperar as sopas não me demoro nada! Oh Maria, vai lá com vagar que eu fico aqui até voltares, disse o ti Manoel! Logo que a ti Maria virou costas o ti Manoel correu à cantarinha e despejou para lá o sal, abanou-a e meteu lá dentro uma pequena tábua para desfazer o sal, limpou tudo bem e foi para o mesmo sítio, a ti maria voltou ele pagou e foi-se embora doido de contente! À noitinha o ti Manoel e outros fregueses chegaram à taberna, mandaram encher os copos e começaram a beber, mas logo a fazer caretas e a dizerem: Mas que raio tem o vinho? Isto não é vinho, é veneno, ela quer matar-nos, isto é sal, já não bastava a água, agora meteu sal no vinho, vamos chamar a Guarda que ela é presa! Armou-se grande confusão, até que a ti Maria já em grande pranto e vendo o caso muito sério, confessou que metia água no vinho, mas jurou por tudo que o sal não tinha sido ela, para não chamarem a Guarda, ela ia já buscar outro vinho e, nem pagavam e mais isto e mais aquilo! Começaram a beber um bom vinho, à conta da ti Maria e, tudo ficou por ali!
Ficou provado que a ti Maria das Candeias batizava o vinho e, a sua ganância levou-a longe de mais! A partir daquele dia passou a ser alvo de chacota por quase todos os fregueses e tinha de ficar calada, porque estava provada a fraude! Um dia ainda disse ao sapateiro: “Malandro, foste tu, que puseste o sal no vinho, o sapateiro negou e só lhe disse: “Então prova”!
A ti Maria começou a vender o vinho puro, como o comprava, mas ouvia sempre a gracinha: “Será que não está batizado?”
É caso para dizer: “A mulher/homem cobre e Deus descobre”.

Fim  



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