segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

244 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -

Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins

Mistérios das terras de Capelins

O lobisomem de Capelins de Cima

Desde sempre, nas terras de Capelins, quando não existia explicação coerente para qualquer acontecimento menos agradável, o mesmo era atribuído à ação das feiticeiras ou de lobisomens! Se adoecia ou morria um porco no chiqueiro de alguém, era obra de feiticeiras, tinham que fazer as respetivas mesinhas! Se morriam as galinhas da ti Maria, toda a gente dizia que tinham sido as feiticeiras e faziam-se mais mesinhas! Se aparecia algum cão sem vida, logo diziam que tinha sido um lobisomem! Tudo isto, era o terror da rapaziada!
Numa noite do mês de Março de 1962, o ti Lourenço, seareiro, chegou a casa e, depois de meter a mula na cabana, deu-lhe a ração, alguma palha, entrou em casa e disse à ti Margarida: “Lava a cara aos gaiatos, que depois da ceia (jantar) vamos falar à minha madrinha, que veio hoje na carreira!
A madrinha do ti Lourenço, tinha emigrado para o sul do Tejo no final dos anos 50, mas gostava muito de voltar a Ferreira de Capelins, passar uns dias de férias com o marido que, era jardineiro nos jardins de Almada!
A conversa continuou entre o ti Lourenço e a ti Margarida!
Ti Margarida: Ah, a tua madrinha está cá?
Ti Lourenço: Está! Disseram-me ali no caminho que veio hoje! Se não estivesse cá como é que lá querias ir?
Ti Margarida: Eu não disse que queria lá ir! Tu é que disseste! Então! Não sabia!
Ti Lourenço: Pronto! Agora já sabes! Põe a mesa para cearmos e depois prepara os gaiatos!
Ti Margarida: Está bem! É preciso grande preparo! Coitadinhos!
 A ti Margarida pôs a mesa, o ti Lourenço começou logo a migar o pão para dentro da tijela de barro e, não demoraram em comer as sopas de grãos, com carne e toucinho!
A ti Margarida lavou a cara dos gaiatos e puseram-se a caminho da casa da madrinha do ti Lourenço, já era noite e quando iam entrar na Rua principal de Capelins de Cima, junto ao Monte Grande, só tiveram tempo de dar um salto para trás, porque a poucos metros deles, passou um homem alto com outro mais baixo às costas, (às cavalitas) a correr com tanta velocidade que parecia um cavalo! Os gaiatos deram um grito, agarraram-se ao pai e em coro gritaram: Um lobisomem! O pai e a mãe tentaram acalmá-los, dizendo que não era nenhum lobisomem, mas também não estavam muito convencidos, porque, mesmo eles, estavam com dúvidas se seria ou não um lobisomem! E agora? Se ele volta! Diziam os gaiatos em pânico! Agente já não vai à da madrinha! Ai, não, não! Os pais lá os foram acalmando e afirmando que não era nenhum lobisomem, que era alguém a brincar! Mas o que viram não tinha explicação, muito menos para crianças! Foram subindo a rua e quando chegaram ao Largo de Capelins de Cima estava um homem a sair da taberna do ti Zé Francisco, com a pouca luz do candeeiro a petróleo o ti Lourenço viu que era um contrabandista muito conhecido, o ti António Marim!
Ti Lourenço: Boa noite ti António! Então houve por aqui alguma coisa esquisita?
Ti António: Boa noite! Eu não dei por nada esquisito! Então porquê?
Ti Lourenço: É que mesmo agora, vinhamos além em baixo e passou um homem muito grande com outro às costas, parecia mesmo um cavalo a galope! Nunca vimos uma coisa assim!
Ti António: Ah, isso! Então não os conheceste?
Ti Lourenço: Eu não! Como é que havia de os conhecer, já escuro e aquela cavalhada!
Ti António: Então! Um, era o teu tio Chico e o outro o Zé do Carrão!
Ti Lourenço: Essa agora! Então e porque é que o Zé do Carrão levava o meu tio às cavalitas e naquela correria?
Ti António: Até parece que não os conheces! Qual deles é o mais teimoso? Estavamos aqui a beber uns copitos de vinho e eles começaram a apostar, o teu tio dizia que a família do Soares era da serra da Estrela para cima e o Zé do Carrão dizia que era da serra da Estrela para baixo, o que perdesse a aposta tinha de levar o outro às cavalitas até casa! Ainda bem que ganhou o teu tio que mora no Monte Meio! E se tem perdido? Tinha que levar o Zé do Carrão às cavalitas até ao Monte! Não se aguentava! Não os conseguimos impedir de apostar! Depois, chegou aqui o Soares e confirmou que a sua família era da serra da Estrela para cima, já sabes o resto do que se passou! A correria era efeito do vinho!
Ti Lourenço: Olhe, também não sabia! Ouvi sempre dizer que os Soares eram do norte, mas pensava que a serra da Estrela era no norte e que já não havia mais nada do norte para cima!
Ti António: Olha! Boa noite e até amanhã! Eu não quero apostar nada! Eu sou do sul, de Castro Marim!
Ti Lourenço: Boa noite ti António! Até amanhã!
Ti Lourenço: Ouviram a conversa do ti António? Não era nenhum lobisomem!
Gaiatos em coro: E se ele estiver a enganar a gente?
Ti Lourenço: Mas qual enganar! Nem enganar! Já ouviram o que se passou, agora acabou a conversa do lobisomem! Ouviram?
Gaiatos: Está bem! Pronto!
Dali, depressa chegaram à casa da madrinha, fizeram os cumprimentos e instalaram-se nas cadeiras de buinho, porque tinham muitas peripécias para ouvir sobre casos cómicos que o padrinho assistia no dia a dia, nos jardins de Almada, o que implicava passar o serão a rir! Conte lá mais uma padrinho! E logo surgia outra! Também foi contado o episódio passado ali na rua na última hora, que originou risos dos mais velhos, mas que deu pouca graça aos gaiatos que, continuavam convencidos ser mesmo um lobisomem!
No dia seguinte, os gaiatos andaram de casa em casa dos vizinhos a contar que tinham visto um lobisomem na noite anterior e, ao mesmo tempo criavam um grande mistério! Os mais novos ficavam apreensivos, mas os mais velhos perguntavam sempre: “E vocês benzeram-se?”
Gaiatos: Não! Não benzemos! Ninguém nos disse que tínhamos que benzer!
Vizinhos: Então, não se benzam, não!
 Os gaiatos passaram aquele dia e os seguintes, a fazer o sinal da cruz, para espantar o lobisomem de Capelins de Cima!
Assim, nasciam os boatos que se transformavam em mistérios, nas terras de Capelins. 




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