terça-feira, 16 de janeiro de 2018

247 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A rapariga de Capelins, que queria ser feiticeira 
O rancho das azeitoneiras da Defesa da Bobadela de Cima, como estava na véspera da acabada e, como faziam todos os anos, nessa noite, reuniram-se no serão para fazer a despedida! Nesse serão, contavam histórias, lendas, contos e mitos que passavam de geração em geração e eram quase sempre contadas pelas pessoas mais velhas! A mais convincente era a ti Laura, a mulher do pastor da herdade e residente no Monte, ninguém se distraía quando era a vez dela a contar as lendas, quase todas, sobre feiticeiras das terras de Capelins! 
Do rancho das azeitoneiras, fazia parte uma rapariga que morava em Capelins de Baixo, com cerca de dezoito anos, que estava ao cuidado de uma tia, já viúva e, assim faziam companhia uma à outra! A rapariga, era muito ambiciosa, já nesse tempo sonhava alto e nunca estava satisfeita com o que tinha! 
No serão da despedida das azeitoneiras, quando a ti Laura, estava contado as lenda sobre feiticeiras, ficavam todos calados, com muita atenção e verificava-se um silêncio profundo na casa onde estavam! A ti Laura contava como eram os bailes das feiticeiras às quintas-feiras, dizia que elas chegavam, tiravam a roupa, cumprimentavam o mafarrico se lá estivesse, porque nem sempre podia estar, eram muitos bailes, mas havia outros diabinhos por ele enviados e, logo a seguir começavam a dançar, dançavam como loucas e davam gritos estridentes e assustadores! Por vezes apanhavam homens que se descuidavam e vinham do trabalho para casa, já pela noite dentro, ou vinham das tabernas já com o grão na asa, metiam-nos no baile e dançavam tanto, que eles ficavam desancados e ninguém os livrava de pelo menos três dias de cama! 
Cada vez que a ti Laura fazia uma pausa, a rapariga desabafava: Ai quem me dera ser feiticeira! A tia já estava envergonhada e dava-lhe um safanão no braço! A ti Laura continuava: Uma vez a minha avó e o meu avô andavam a com as ovelhas na herdade do Roncão e numa noite de quinta-feira ouviram grande alarido, foram ver o que era e deram com um baile de feiticeiras, logo abaixo do Moinho do Bufo mesmo à roda da Ribeira do Lucefécit que levava grande cheia, ninguém a conseguia passar para o lado de Santa Luzia, mas as feiticeiras deram por eles e passaram a Ribeira para o outro lado! E sabem como? Algumas responderam: A voar! A nadar! A ti Laura disse-lhe: Não foi nada disso, porque as feiticeiras só voam montadas em vassouras, mas lá no baile não tinham vassouras e, a cheia era muito grande para poderem nadar! Passaram dentro de uns alguidares e uma delas até passou numa bacia e foram fazer o baile lá para Santa Luzia! E a rapariga repetia: Ai quem me dera ser feiticeira! Este desabafo durou a noite toda, as pessoas já estavam agastadas de a ouvir! 
Quando acabou o serão, que demorou bem mais tempo do que o esperado, foram para onde tinham as enxergas para dormir, que era na malhada, um pouco afastada do Monte, logo que saíram, na escuridão, uma mulher encostou-se à rapariga e disse-lhe baixinho:
Mulher: Olha lá rapariga, é mesmo verdade que queres ser feiticeira? 
Rapariga: É, sim! Mas não sei como se faz, senão já tinha tratado disso! 
Mulher: Mas tu tens mesmo a certeza? Olha que isso não é nenhuma brincadeira! É uma coisa muito séria! Tens de cumprir tudo o que o mestre te disser!
Rapariga: Isso, já está mais que pensado! Eu sei que só dessa maneira posso mudar a minha vida! Quem é o mestre?
Mulher: Acredita que, a tua vida vai mudar e muito! Mas também vais sofrer e até podes perder a vida! O mestre é o mafarrico! Tens que obedecer a tudo o que ele quiser de ti! 
Rapariga: Eu obedeço e faço tudo o que for preciso! Como é que sabe isso tudo? Não me diga que é feiticeira? 
Mulher: Isso agora não te interessa! Se queres mesmo ser feiticeira tem de ser hoje! Agora aí à frente onde está o mato, baixas-te para não nos verem, depois dizes à tua tia que te perdeste! 
A vontade da rapariga em ser feiticeira era tanta, que nem pensou duas vezes, escondeu-se no mato com a mulher até passarem as outras! Quando chegaram à malhada a tia achou a falta da rapariga, mas pensou que tinha ido à retrete no mato e as outras mulheres acalmaram-na, disseram-lhe para se deitar que ela decerto estava a chegar! A tia deitou-se e, como estava muito cansada, depressa adormeceu! 
A rapariga e a mulher seguiram na direção do Ribeiro da Amadoreira e quando chegaram à parte mais funda perto do rio Guadiana era aí o baile, as feiticeiras estavam a chegar e nessa noite estava lá um bode que era o Lucifer, elas tiravam a roupa, dirigiam-se a ele beijavam-lhe o rabo e começavam a dançar! Quando chegou a vez da rapariga e da mulher, ela disse-lhe para tirar a roupa e fazer tudo o que as outras faziam! A rapariga assim fez, ficou nua e sem hesitar dirigiu-se ao bode, mas quando o foi beijar no rabo exclamou: Ai, meu Deus, o que vou eu fazer? A mulher explicou-lhe quase tudo, sobre o que tinha de fazer, mas esqueceu-se de lhe dizer que nunca podia dizer uma palavra sagrada! Estragou tudo, deu-se um estrondo muito violento, acabou imediatamente o baile, a rapariga foi atirada para o meio de um silvado e o mafarrico e as feiticeiras desapareceram! 
A tia assim que acordou, ainda de madrugada, viu que a sobrinha ainda não estava ali, começou a gritar, as outras mulheres vieram acudir e quando se informaram o que era, pediram aos homens que fossem procurar a rapariga, uns pelo rio Guadiana abaixo, outros pelo rio Guadiana acima e, lá foram chamando por ela! Quando dois desses homens chegaram ao Ribeiro da Amadoreira ouviram um gemido, foram a correr para o lado de onde ele vinha e depararam-se com a rapariga nua, no meio das silvas, toda arranhada e cheia de sangue, estava com a vida por um fio, também devido ao frio da noite! Com muita dificuldade tiraram-na do silvado, abafaram-na o melhor que puderam com os pelicos e levaram-na para o Monte, onde as mulheres se dedicaram a tratá-la com muito cuidado, aplicando-lhe muitas mesinhas e, foi assim que a devolveram à vida! 
A rapariga levou muito tempo a recuperar, já em casa em Capelins de Baixo, teve de contar à família o que se tinha passado naquela noite e, nunca mais quis ser feiticeira! 
É caso para dizer: Perdeu-se uma feiticeira, nas terras de Capelins. 


Foi por aqui, o baile das feiticeiras 





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