domingo, 14 de janeiro de 2018

246 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da Feiticeira mais poderosa de Capelins, em 1850
Antigamente, as terras de Capelins, estavam povoadas de feiticeiras, assim se pensava e, eram as culpadas por todos os males que aqui aconteciam! De entre elas, havia sempre uma mais poderosa, a que tinha herdado mais novelos, da avó, mãe, tia, de quantas mais pessoas herdasse os novelos, mais poderes tinha, os novelos eram o poder de uma feiticeira, a qual não morria enquanto alguém não se prontificasse a recebê-los, podia estar a sofrer vários dias e a gritar “quem quer os novelos”, enquanto alguém não dissesse quero-os eu, a feiticeira não morria! Acontecia que, uma familiar, filha, ou neta, ou mesmo outra pessoa ao vê-la muitos dias em sofrimento, aceitava os novelos e a feiticeira morria em paz, quem os aceitasse ficava sendo feiticeira!
Na década de 1850 a feiticeira apontada como sendo a mais poderosa de Capelins era a ti Maria Inverna, nunca se soube de onde herdou este apelido, mas já devia vir de família! A ti Maria morava numa pequena casa a Oeste de Capelins de Cima, mas passou quase toda a sua vida ao serviço de um padre na Paróquia de Santo António, era a sua criada, lavava a roupa, passava a ferro, fazia a comida e asseava a casa, ou seja, era mulher para todo o serviço do senhor padre, mas quando ele faleceu foi enxotada lá da Igreja e alguém lhe arranjou esta pequena casa! A ti Maria inverna foi sempre acusada de feiticeira, mas era intocável, porque tinha a proteção do padre que tinha fama de lobisomem! Não tinha ninguém de família e, poucas pessoas lhe dirigiam a palavra, porque tinham medo dela, diziam que a ouviam berrar como as cabras e algumas noites que viam grandes lumes em frente à sua porta e ela a dançar com um grande bode preto com um chapéu mesmo igual ao que conheciam do padre!
Uma tarde iam passando à sua porta dois rapazes filhos de lavradores de Capelins, o Manoel Soares e o João Silvério e o Manoel interrogou o João:
Manoel: Olha lá, não é aqui que mora a tal feiticeira que toda a gente tem medo?
João: É aqui mesmo, nessa casa aí á frente! Não a conheces?
Manoel: Eu não! Acho que nunca a vi, tenho ouvido falar muito nela, dizem que é muito poderosa, mas como sabes, eu não acredito em feiticeiras!
João: Nem a propósito, aí te a apresento!
A ti Maria Inverna estava curvada, em frente à sua casa, a fazer um feixe de lenha para levar para dentro!
O Manoel que era muito velhaco, estava sempre a dizer que não acreditava em feiticeiras e que não tinha medo delas nem de ninguém, chegou junto da ti Maria e gritou:
Manoel: Então ti Velha, é verdade que é feiticeira?
A ti Maria estava juntando a lenha e não disse uma palavra!
Manoel: Não ouve? É ou não é feiticeira?
A ti Maria não respondeu, pegou no feixe de lenha, muito trôpega e curvada seguiu o caminho de casa e o Manoel continuou aos berros: “Vá diga lá, é ou não é feiticeira”? A ti Maria parou, olhou para trás dirigiu-lhe os olhos baços, sem brilho, arregaçou os lábios mostrando o único dente que tinha, já todo negro, uma figura aterradora que os fez estremecer, emitiu um gemido e seguiu! O Manoel ficou com medo, mas ao mesmo tempo quis mostrar a sua valentia como sempre fazia, ou seja, não quis dar parte de fraco e avançou na direção da casa da ti Maria, dizendo:
Manoel: Agora, vou entrar aí na sua casa e já vejo se é ou não feiticeira, pensa que tenho medo? Já vai ver!
O João, ainda tentou agarrá-lo, mas já era tarde, a ti Maria atirou com a lenha, ergueu o seu corpo que ficou firme e hirto, abriu os braços na sua frente, mas o Manoel passou por ela sem dificuldade! Entrou na casa de fora, olhou, olhou, mas não achou nada de anormal, procurou outros compartimentos e reparou numa porta disfarçada com um cortinado feito de sacos de serapilheira, nesse momento, já a ti Maria estava junto dele e, ao vê-lo a dirigir-se para aquela porta meteu-se novamente na sua frente, com muito mais energia a tentar impedi-lo de entrar no quarto, mas o Manoel já estava de cabeça perdida e deu-lhe um safanão tão forte que a ti Maria voou, mesmo sem vassoura, e foi cair à porta da rua batendo com a cabeça na ombreira, mas voltou de gatas arrancando terra e pedras com as unhas e dando urros que parecia um animal, entretanto já o Manoel estava dentro do quarto onde estava um altar iluminado com velas e em cima alguns ossos que pareciam humanos! O Manoel deduziu logo que eram do padre, estava pasmado a olhar aquele cenário, mas apercebeu-se que a ti Maria estava a chegar junto dele, virou-se e ficou aterrado, ela continuava a emitir urros, mostrava grandes unhas e, dos seus olhos saiam raios de luz na sua direção! O Manuel que dizia não acreditar em feiticeiras, gritou: “Jesus Maria” e foi a sua sorte, a ti Maria dobrou as pernas e caiu! O Manoel saiu a correr e não quis saber do João, que não sabia o que se tinha passado lá dentro da casa da ti Maria, corria atrás dele a chamá-lo, mas ele não abrandava, só o apanhou em Capelins de Baixo, porque já cansado! O Manoel contou-lhe o que se tinha passado e, o João apenas lhe disse que nunca devia ter entrado na casa da ti Maria!
Uma semana mais tarde, repentinamente os dois rapazes adoeceram, não comiam nada e começaram a definhar de dia para dia, depois de saberem o que se tinha passado com a ti Maria, os seus pais foram a uma bruxa na então Vila de Montoito, que lhe disse, não poder fazer nada por eles, porque já era tarde, se tivessem ido oito dias antes, estavam salvos! Ainda foram a outras bruxas, mas disseram-lhe todas o mesmo, que era um feitiço muito forte, de uma feiticeira muito poderosa e que já era tarde! Tudo apontava a ti Maria Inverna! Ao fim de três meses, faleceram os dois, no mesmo dia! No dia seguinte ao seu falecimento, foi o funeral! Nesse dia, a ti Maria Inverna, estava a lavar roupa junto a um poço e apareceu sem vida, parece que, foi assassinada pelo método do saquinho de areia, bater, bater até à morte!
Talvez a ti Maria Inverna, tivesse sido injustamente assassinada!
Talvez nem fosse feiticeira!
Talvez as ossadas que tinha no quarto fossem as do padre, amor da sua vida, mas cedidas pelo coveiro, que era seu amigo!
Talvez os raios de luz nos seus olhos, fossem reflexos da luz das velas!
Talvez o Manoel e o João tenham falecido com tuberculose, ou outra peste muito comum naquela época e, por coincidência no mesmo dia!
Descrevemos este acontecimento, como sendo uma lenda, mas de verdade uma parte foi realidade!
Que a verdadeira ti Maria, descanse em paz!




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