sábado, 6 de janeiro de 2018


241 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - 
Montejuntos 

História, lendas e tradições das terras de Capelins

A lenda do lavrador do Monte da Zorra
No mês de Janeiro do ano de 1697, o lavrador do Monte da Zorra, o ti Manoel Nunes, estava sentado à chaminé, ao lume, acompanhado da mulher e dos filhos, quando bateram três pancadas fortes na porta que, com o susto, os fez dar um salto nas cadeiras de buinho. O lavrador tinha fama de não gostar de dar esmola aos pedintes, era raro dar-lhe uma côdea de pão, dizia sempre que não tinha para ele e, além disso, era mau para os seus criados, um homem pouco cordial para com o próximo! Levantou-se com muita calma e foi abrir a porta, pensando ser algum criado a pedir-lhe alguma coisa, porém, deparou-se com um homem baixo, franzino e todo molhado da cabeça aos pés, porque estava uma noite invernosa com muito vento e aguaceiros! O homem pediu desculpa por estar ali e pediu pelas almas que o deixasse passar a noite num cabanão ou numa almiara de palha e, algum resto de sopas, porque já havia dois dias que não comia quase nada! A mulher e os filhos ouviram a conversa e esperavam que o lavrador o mandasse embora, como fazia sempre, mas foi com grande surpresa que ouviram o lavrador mandá-lo entrar e dizer-lhe para se sentar a um canto da grande chaminé do Monte, para a roupa enxugar! Não perceberam o que passou na cabeça do lavrador! A seguir, pediu à mulher para lhe dar o resto das sopas da ceia (jantar)! A mulher respondeu que não tinham sobrado sopas, mas que podia dar-lhe um naco de pão duro! Antes do lavrador confirmar, o pedinte pediu licença e disse-lhe que não conseguia comer o pão duro e, se o autorizassem ele mesmo fazia uma açorda de alho, porque a água já estava quente ao lume, era só pisar uns poejos, um dente de alho, uma pitada de sal, juntar uma colher de azeite e estaria a açorda feita! A mulher do lavrador, a ti Maria da Zorra esperava que o marido negasse, mas mais uma vez ficou surpreendida, o lavrador disse logo que sim e, o pedinte começou a fazer a açorda debaixo do olhar de toda a família que aproveitaram para fazer perguntas:
Ti Manoel: Então, vossemecê é de onde? E o que anda a fazer para estes lados?
Pedinte: Eu nasci em Montemor, mas tenho passado a minha vida por aí, sou um servo de Deus, passei por aqui, porque ando a ver se existe algum lugar para me instalar, perto do rio Guadiana!
Ti Manoel: Ah sim! Para se instalar como? Para fazer alguma casa para morar?
Pedinte: Não, qualquer abrigo me serve, uma gruta, uma choupana, sou frade eremita, venho para meditar!
Ti Manoel: Olhe, se é para isso, vem para o sítio certo! O pior é a comidinha! Há pouca por aqui, pouca! Não deve cá estar muito tempo! O que há muito, são lobos por aí!
A açorda já estava feita, o frade começou a comer e não respondeu, acabou, migou mais, acabou, migou mais, até haver uma pinga de caldo não parou de migar e de comer! A fome era muita!
Quando acabou de comer, já a mulher do lavrador e os filhos se tinham deitado, agradeceu a ceia e perguntou onde se podia deitar, dirigindo-se na direção da porta da rua! Aqui mesmo, disse o lavrador, acenando para o canto da chaminé! Espere um pouco! O lavrador abriu uma porta que dava para a cabana das mulas e foi buscar um saco de serapilheira com alguma palha para servir de cama e atirou-a para o canto da chaminé! Dorme aí, porque vocemecê ainda está molhado! O frade não queria acreditar no que estava a ouvir, mas o lavrador afastou-se e não lhe deu oportunidade de falar, apenas disse: “Boa noite, Deus o salve, até amanhã” e foi deitar-se!
Na madrugada seguinte, o lavrador levantou-se cedo e já estava o lume a arder e a água quente, mas não havia sinais do frade! O lavrador ficou admirado por ele já ali não se encontrar, olhou e viu um papel escrito em cima do saco da palha ao canto da chaminé! Como não tinha luz suficiente para o ler, guardou-o no bolso e mais tarde com a luz do dia leu: “Deus não se esquece do bem que me fizeste”! O lavrador ficou surpreendido e foi contar à mulher que lhe deu pouca importância! Guardou o papel na gaveta da mesa onde tinha alguns papéis importantes das rendas e continuou a sua vida!
Quando recebiam alguma visita, o lavrador contava sempre o que se tinha passado naquela noite e mostrava o escrito com muito orgulho, estava muito bem escrito! O tempo foi passando e a vida do lavrador da Zorra melhorava de dia para dia! Aumentava o gado, fazia boas colheitas, não tinham doenças, tudo corria bem! O escrito estava bem guardado na gaveta da mesa grande, era um tesouro, um amuleto de fé para o lavrador e sua família, que acreditavam ser ele que lhe proporcionava todo aquele bem, mas o lavrador não mudava a forma do tratamento para com os criados e pedintes que se aproximavam do Monte da Zorra, chegando essa notícia aos ouvidos do frade eremita que, continuava a andar pelas terras de Capelins!
Um dia, o lavrador estava falando com um compadre e a conversa foi ter ao escrito do frade, o compadre disse-lhe que ouvia falar nesse escrito, mas nunca o tinha visto! Oh compadre, não há-de ser por isso, mesmo agora o vou buscar! O lavrador voltou com o escrito e entregou-o ao compadre que começou a ler alto: “Deus já te pagou pelo bem que me fizeste”! Alto lá compadre! Não é isso que o escrito diz! Disse o lavrador!
Compadre: Ora essa! É isso,  é compadre! Eu sei ler!
Ti Manoel: Mostre lá o papel!
O lavrador começou a ler, exatamente as mesmas palavras!
Ti Manoel: Esta agora! Não era isto que o escrito dizia! Sei que não era! Li-o tantas vezes! Não estou a gosta nada disto!
Compadre: Será que alguém lhe roubou o verdadeiro e deixou lá esse!
Ti Manoel: Até podia ser, mas a letra, a letra é mesmo igual!
Compadre: Sim, mas podem tê-la copiado!
Ti Manoel: Uma destas, é que eu não esperava! Oh Maria, anda cá!
A ti Maria veio a correr e o lavrador perguntou-lhe:
Ti Manoel: Oh mulher! Tu não sabes se alguém teria entrado aqui na nossa casa e nos roubou o escrito do frade?
Ti Maria: Oh Manoel, como é que nos roubaram o escrito do frade, se tu o tens aí na mão!
Ti Manoel; Não tenho, não! Este, não é o verdadeiro! Alguém os trocou e este já não diz a mesma coisa do outro!
Ti Maria: Essa agora! O que é que esse diz?
Ti Manoel: Este diz que Deus já me pagou o bem que fiz ao frade! Tu não mostraste o escrito a ninguém?
Ti Maria: Eu não! Só lhe o mostrei a ele no dia da feira de Terena! Ele veio cá pedir esmola e eu disse-lhe que só lhe dava, devido ao bem que temos recebido desde o dia que ele cá tinha deixado o escrito! E vê lá tu que ele disse-me que não se lembrava de ter cá deixado escrito nenhum, então eu fui busca-lo à gaveta e preguei-lhe com ele na frente dos olhos!
Ti Manoel: Ah mulher! Foste tu! E ele meteu-lhe a mão?
Ti Maria: Meteu, mas na minha frente!
Ti Manoel: Já sei o que aconteceu! Ele já trazia este escrito e trocou-os sem tu te aperceberes!
Ti Maria: Eu não tirei os olhos do escrito! Só se foi enquanto eu disse à criada para meter o sal nas sopas!
Ti Manoel: Ah! Pois foi, foi! Então, está explicado! Foi ele que trocou os escritos! Isto quer dizer que acabou a nossa proteção, daqui para a frente estamos por nossa conta! 
Como o lavrador da herdade da Zorra não tinha mudado, continuava a ser mau para os pedintes e para os seus criados, o frade soube que ele estava na feira de Terena a vender e comprar gado, foi ao Monte da Zorra e foi fácil enganar a ti Maria, trocando os escritos!
Devido à falta do amuleto, do escrito, que lhe dava muita força, o lavrador da Zorra ficou afetado psicologicamente e, a partir daquele dia muitas coisas começaram a correr mal na sua vida!  
É caso para dizer: A força de um amuleto, pode mover montanhas. 





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