384 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins -
Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A
lenda do lavrador do Monte da Zorra
No mês de Janeiro do ano
de 1697, o lavrador do Monte da Zorra, o ti Manoel Nunes, estava sentado à
chaminé, ao lume, acompanhado da mulher e dos filhos, quando bateram três
pancadas fortes na porta que, com o susto, os fez dar um salto nas cadeiras de
buinho. O lavrador tinha fama de não gostar de dar esmola aos pedintes, era
raro dar-lhe uma côdea de pão, dizia sempre que não tinha para ele e, além
disso, era mau para os seus criados, um homem pouco cordial para com o próximo!
Levantou-se com muita calma e foi abrir a porta, pensando ser algum criado a
pedir-lhe alguma coisa, porém, deparou-se com um homem baixo, franzino e todo
molhado da cabeça aos pés, porque estava uma noite invernosa com muito vento e
aguaceiros! O homem pediu desculpa por estar ali e pediu pelas almas que o
deixasse passar a noite num cabanão ou numa almiara de palha e, algum resto de
sopas, porque já havia dois dias que não comia quase nada! A mulher e os filhos
ouviram a conversa e esperavam que o lavrador o mandasse embora, como fazia
sempre, mas foi com grande surpresa que ouviram o lavrador mandá-lo entrar e dizer-lhe
para se sentar a um canto da grande chaminé do Monte, para a roupa enxugar! Não
perceberam o que passou na cabeça do lavrador! A seguir, pediu à mulher para lhe
dar o resto das sopas da ceia (jantar)! A mulher respondeu que não tinham sobrado
sopas, mas que podia dar-lhe um naco de pão duro! Antes do lavrador confirmar,
o pedinte pediu licença e disse-lhe que não conseguia comer o pão duro e, se o
autorizassem ele mesmo fazia uma açorda de alho, porque a água já estava quente
ao lume, era só pisar uns poejos, um dente de alho, uma pitada de sal, juntar
uma colher de azeite e estaria a açorda feita! A mulher do lavrador, a ti Maria
da Zorra esperava que o marido negasse, mas mais uma vez ficou surpreendida, o
lavrador disse logo que sim e, o pedinte começou a fazer a açorda debaixo do
olhar de toda a família que aproveitaram para fazer perguntas:
Ti Manoel: Então,
vossemecê é de onde? E o que anda a fazer para estes lados?
Pedinte: Eu nasci em
Montemor, mas tenho passado a minha vida por aí, sou um servo de Deus, passei
por aqui, porque ando a ver se existe algum lugar para me instalar, perto do
rio Guadiana!
Ti Manoel: Ah sim! Para se
instalar como? Para fazer alguma casa para morar?
Pedinte: Não, qualquer
abrigo me serve, uma gruta, uma choupana, sou frade eremita, venho para meditar!
Ti Manoel: Olhe, se é
para isso, vem para o sítio certo! O pior é a comidinha! Há pouca por aqui,
pouca! Não deve cá estar muito tempo! O que há muito, são lobos por aí!
A açorda já estava feita,
o frade começou a comer e não respondeu, acabou, migou mais, acabou, migou mais,
até haver uma pinga de caldo não parou de migar e de comer! A fome era muita!
Quando acabou de comer,
já a mulher do lavrador e os filhos se tinham deitado, agradeceu a ceia e
perguntou onde se podia deitar, dirigindo-se na direção da porta da rua! Aqui
mesmo, disse o lavrador, acenando para o canto da chaminé! Espere um pouco! O
lavrador abriu uma porta que dava para a cabana das mulas e foi buscar um saco de
serapilheira com alguma palha para servir de cama e atirou-a para o canto da
chaminé! Dorme aí, porque vocemecê ainda está molhado! O frade não queria
acreditar no que estava a ouvir, mas o lavrador afastou-se e não lhe deu
oportunidade de falar, apenas disse: “Boa noite, Deus o salve, até amanhã” e
foi deitar-se!
Na madrugada seguinte, o
lavrador levantou-se cedo e já estava o lume a arder e a água quente, mas não
havia sinais do frade! O lavrador ficou admirado por ele já ali não se
encontrar, olhou e viu um papel escrito em cima do saco da palha ao canto da
chaminé! Como não tinha luz suficiente para o ler, guardou-o no bolso e mais
tarde com a luz do dia leu: “Deus não se esquece do bem que me fizeste”! O
lavrador ficou surpreendido e foi contar à mulher que lhe deu pouca importância!
Guardou o papel na gaveta da mesa onde tinha alguns papéis importantes das
rendas e continuou a sua vida!
Quando recebiam alguma visita,
o lavrador contava sempre o que se tinha passado naquela noite e mostrava o
escrito com muito orgulho, estava muito bem escrito! O tempo foi passando e a
vida do lavrador da Zorra melhorava de dia para dia! Aumentava o gado, fazia
boas colheitas, não tinham doenças, tudo corria bem! O escrito estava bem
guardado na gaveta da mesa grande, era um tesouro, um amuleto de fé para o
lavrador e sua família, que acreditavam ser ele que lhe proporcionava todo
aquele bem, mas o lavrador não mudava a forma do tratamento para com os criados
e pedintes que se aproximavam do Monte da Zorra, chegando essa notícia aos
ouvidos do frade eremita que, continuava a andar pelas terras de Capelins!
Um dia, o lavrador estava
falando com um compadre e a conversa foi ter ao escrito do frade, o compadre disse-lhe
que ouvia falar nesse escrito, mas nunca o tinha visto! Oh compadre, não há-de
ser por isso, mesmo agora o vou buscar! O lavrador voltou com o escrito e
entregou-o ao compadre que começou a ler alto: “Deus já te pagou pelo bem que
me fizeste”! Alto lá compadre! Não é isso que o escrito diz! Disse o lavrador!
Compadre: Ora essa! É isso,
é compadre! Eu sei ler!
Ti Manoel: Mostre lá o
papel!
O lavrador começou a ler,
exatamente as mesmas palavras!
Ti Manoel: Esta agora!
Não era isto que o escrito dizia! Sei que não era! Li-o tantas vezes! Não estou
a gosta nada disto!
Compadre: Será que alguém
lhe roubou o verdadeiro e deixou lá esse!
Ti Manoel: Até podia ser,
mas a letra, a letra é mesmo igual!
Compadre: Sim, mas podem
tê-la copiado!
Ti Manoel: Uma destas, é
que eu não esperava! Oh Maria, anda cá!
A ti Maria veio a correr
e o lavrador perguntou-lhe:
Ti Manoel: Oh mulher! Tu
não sabes se alguém teria entrado aqui na nossa casa e nos roubou o escrito do
frade?
Ti Maria: Oh Manoel, como
é que nos roubaram o escrito do frade, se tu o tens aí na mão!
Ti Manoel; Não tenho,
não! Este, não é o verdadeiro! Alguém os trocou e este já não diz a mesma coisa
do outro!
Ti Maria: Essa agora! O
que é que esse diz?
Ti Manoel: Este diz que
Deus já me pagou o bem que fiz ao frade! Tu não mostraste o escrito a ninguém?
Ti Maria: Eu não! Só lhe
o mostrei a ele no dia da feira de Terena! Ele veio cá pedir esmola e eu
disse-lhe que só lhe dava, devido ao bem que temos recebido desde o dia que ele
cá tinha deixado o escrito! E vê lá tu que ele disse-me que não se lembrava de
ter cá deixado escrito nenhum, então eu fui busca-lo à gaveta e preguei-lhe com
ele na frente dos olhos!
Ti Manoel: Ah mulher!
Foste tu! E ele meteu-lhe a mão?
Ti Maria: Meteu, mas na
minha frente!
Ti Manoel: Já sei o que
aconteceu! Ele já trazia este escrito e trocou-os sem tu te aperceberes!
Ti Maria: Eu não tirei os
olhos do escrito! Só se foi enquanto eu disse à criada para meter o sal nas
sopas!
Ti Manoel: Ah! Pois foi,
foi! Então, está explicado! Foi ele que trocou os escritos! Isto quer dizer que
acabou a nossa proteção, daqui para a frente estamos por nossa conta!
Como o lavrador da
herdade da Zorra não tinha mudado, continuava a ser mau para os pedintes e para
os seus criados, o frade soube que ele estava na feira de Terena a vender e
comprar gado, foi ao Monte da Zorra e foi fácil enganar a ti Maria, trocando os
escritos!
Devido à falta do amuleto,
do escrito, que lhe dava muita força, o lavrador da Zorra ficou afetado
psicologicamente e, a partir daquele dia muitas coisas começaram a correr mal
na sua vida!
É caso para dizer: A
força de um amuleto, pode mover montanhas.
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