quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

382 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A mulher de branco sentada no açude do Moinho das Neves 
O ti Manoel António, morava junto à Igreja de Santo António de Capelins e trabalhava na herdade de Santa Luzia, indo a casa fazer a mudança da roupa e ver a mulher e os filhos aos domingos à tarde, voltando a Santa Luzia logo à noitinha ou na segunda-feira de madrugada! 
Num sábado do mês de Abril de 1890, depois da saída do trabalho, o feitor deu ordens que podiam ir dormir a casa, assim, depois da ceia (jantar) o ti Manoel pôs-se a caminho de casa, como habitualmente, foi passar a Ribeira de Lucefécit por cima do açude do Moinho das Neves! A noite estava escura, mas não era problema para o ti Manoel, que conhecia muito bem todo o terreno que pisava, entrou no açude muito devagarinho, porque não deixava de ser perigoso, podia tropeçar ou escorregar em alguma pedra, foi avançando e quando estava a meio, levantou um pouco os olhos e viu na sua frente uma mulher sentada no açude com as pernas pendentes para a corrente, de cabelos soltos e toda vestida de branco! O ti Manoel assustou-se, sentiu um calafrio e parou imediatamente, sem saber o que fazer, mas não se conteve e gritou bem alto: " O que está a fazer aqui? Posso passar?" A mulher nem se mexeu e respondeu pausadamente: "Quem vai, vai, e quem está, está"! O ti Manoel esteve uns minutos sem reação, por fim decidiu avançar passando por ela a rasar sem lhe tocar, assim que chegou mais à frente começou a ouvir a mó do Moinho a fazer farinha e ficou mais calmo por saber que o moleiro estava por perto! Passou por detrás do Moinho, pôs o pé em terra firme e foi a correr dizer ao moleiro que estava uma mulher vestida de branco sentada no meio do açude! O moleiro ouviu o ti Manoel e no fim disse: "Isso não pode ser"! Tem de haver alguma confusão!" Não há confusão nenhuma! Até falei com ela! Venha lá ver! Disse o ti Manoel! O moleiro andava em ceroulas, vestiu as calças, calçou umas alpargatas e foram os dois, passaram o açude até Santa Luzia, voltaram ao ponto de partida e nada, não viram mulher nenhuma! Está a ver, como lhe disse foi confusão sua! Disse o moleiro! Não foi confusão nenhuma, foi porque ela fugiu ou foi levada pela corrente! Disse o ti Manoel! Olhe, se foi na corrente, logo vai aparecer aí para baixo, eu tenho mais que fazer! Disse o moleiro e entrou para o Moinho! 
O ti Manoel despediu-se e seguiu pelo Vale de enxofre acima, chegando rapidamente a Capelins de Cima, sempre com o cenário na cabeça e falando sozinho! Entrou na taberna, pediu um copo de aguardente e começou logo a contar aos presentes o que tinha acabado de lhe acontecer no açude do Moinho das Neves! Alguns dos presentes já tinham bebido uns copinhos de vinho e de aguardente nem disfarçaram e começaram a dizer baboseiras e a fazer versos, acompanhados de grandes risadas, claramente a fazer pouco do ti Manoel que, ficou muito aborrecido, pagou o copo de aguardente e seguiu para sua casa! O ti Manoel, nunca mais falou daquele assunto com ninguém, no entanto, o mesmo foi motivo de chacota nas terras de Capelins, durante muito tempo! 
Quando o ti Manoel ia chegando ao largo de Capelins de Cima, ainda ouviu os atabernados cantar uma cantiga em coro:  
O ti Manoel diz que viu
Uma noiva na Ribeira
E que teve um calafrio
Era uma feiticeira!
Quanto à mulher de branco, mais ninguém a viu pela Ribeira de Lucefécit, mas toda a gente dizia que, só podia ser obra do Lucifer, senhor desta Ribeira. 

Neves


Sem comentários:

Enviar um comentário

460 - Terras de Capelins  Os Moinhos do rio Guadiana nas Terras de Capelins  Em Montes Juntos, aldeia que serviu de residência a di...