domingo, 17 de dezembro de 2017

236 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Lenda do Moleiro das Neves e do Lucifer, senhor da Ribeira de Lucefécit 
O Moinho das Neves, submerso pelas águas do Grande Lago de Alqueva, situa-se na Ribeira de Lucefécit um pouco acima da foz do Ribeiro das Neves! Era o Moinho da Vila Defesa de Ferreira e, por ali passaram muitos moleiros e, com as suas famílias ali permaneciam cerca de seis meses, instalados no moinho, na casa de apoio e, em cabanões junto à mesma! 
Um dos moleiros que lá esteve nos anos de 1800, foi o ti José Martins, da aldeia de Cabeça de Carneiro, casado com a ti Mariana da Conceição, a qual, além de tratar dos filhos, da comida, da roupa, da burra, ainda o ajudava na sua tarefa no moinho! 
Um dia, chegou lá um parente com um saco de trigo para moer, fazer em farinha e, a dizer à ti Mariana que a mãe estava muito doente, se a quisesse ver viva que fosse ainda nesse dia porque ela estava mesmo nas abaladas! A ti Mariana acabou de fazer a açorda, comeram mais cedo, organizou as coisa com o ti José, carregou a burra com meio saco de farinha, montou os gaiatos e seguiu pela estrada do vale de enxofre acima, Capelins de Cima, Portela, Terraço, Areias, Monte da Vinha e Cabeça de Carneiro! Foi a correr ver a mãe que já nem falava, mas teve a certeza que ainda a ouviu, mas a mulher depressa entrou em agonia, parecia estar só à espera da filha para se despedir e partir!
O ti José estava no moinho, a noite a escurecer, ele deixou as coisas orientadas e foi à casa que ficava 30 ou 40 metros  mais acima, em frente à porta juntou um feixe de lenha e fez lume para assar um bocado de toucinho para a sua ceia (jantar) com um quarto de bom pão, cozido no forno das Neves! Estava com o toucinho no espeto junto ao lume, quando ouviu uma voz assustadora que, parecia vir dos fundos da terra:
- Boa noite moleiro!
Naquele lugar, quando a Ribeira ia cheia, passavam muitas pessoas para a Aldeia do Rosário ou para Santa Luzia, por cima do açude, uma parede que ligava as margens entre a Defesa de Ferreira e a herdade de Santa Luzia, para estancar e canalizar a água para fazer mover o moinho e, os passantes para um e o outro lado, sempre tinham uma palavra para com o ti José! Naquela noite ficou muito assustado, porque não ouviu a aproximação e deu um salto, ficando imediatamente virado para o desconhecido! Ainda ficou mais assustado quando, com a luz do lume viu a figura que estava na sua frente, muito alta, fisionomia medonha e, ainda ficou pior quando lhe olhou para os pés, formados por cascos, pensou logo que era o Lucifér, mas disfarçou e disse-lhe! 
Moleiro: Boa noite, quem és tu? E o que queres daqui?   
Lucifer: Eu sou o Lucifer, o senhor desta Ribeira! Andam por aí a mudar-lhe o hidrónimo, mas esta é a Ribeira do Lucifer e será sempre a minha Ribeira! Deixas-me assar a minha ceia (jantar) aí no teu lume? 
O ti José olhou e, ficou aterrorizado quando viu o espeto do Lucifer cheio de cobras de água, ainda vivas a debaterem-se na tentativa de fuga impossível! 
Moleiro: A tua ceia são essas cobras de água? 
Lucifer: A minha e a tua, chegam para ti, se quiseres posso dar-te algumas, decerto nunca comeste coisa tão boa! Não têm espinhas, como os peixes que comes! 
O Lucifer, chegou imediatamente as cobras ao lume do ti José e, depressa deixaram de se debater porque já estavam a pingar para cima do toucinho! 
Moleiro: Alto lá! Deixa-me lá assar o meu toucinho e, depois já assa as tuas cobras! Para mim, não quero nada disso! 
Lucifer: Não posso esperar, porque estou com muita pressa! 
Moleiro: Vamos lá ver se nos entendemos, o lume é meu e eu não quero cá isso em cima do meu toucinho! Mas que pressa é essa, que não podes esperar uns minutos? 
Lucifer: Tenho de ir já para Cabeça de Carneiro, porque a tua sogra está mesmo a acabar e eu tenho de lhe catar a alma! 
Moleira: Não acredito nisso! A minha sogra é das melhores pessoas de Cabeça de Carneiro, não merece ir para o inferno, a alma dela, decerto que não é para ti! 
Lucifer: Seja, ou não, tenho que lá estar, porque às vezes há surpresas! Vamos ver! 
O moleiro não estava a gostar da conversa, mas como tinha desvantagem física em relação ao Lucifer, sabia que a única salvação era mostrar-lhe uma cruz, mas onde é que a tinha? Deu voltas à cabeça, enquanto iam falando sobre a vida do moleiro e do moinho, que moía com a água da sua Ribeira, até que o Lucifer lhe perguntou:
- Oh moleiro, já vi que sabes muito de moinhos, mas sabes dizer-me qual a dimensão ali do teu moinho? 
De repente, fez-se luz na cabeça do ti José e, pensou que era a sua oportunidade de se desfazer do Lucifer, meteu mais lenha no lume para dar boa luz e disse-lhe: 
Moleiro: Sei, sim Lucifer! Mas tenho de te fazer um desenho aqui no chão, ao pé do lume para perceberes bem!
Lucifer: Então faz lá o desenho e explica-me, bem explicado!
Moleiro: Então, para veres bem chega lá aqui ao pé do lume! 
O ti José alisou bem o terreno arrojando as botas para um e outro lado e, o Lucifer, muito curioso chegou a cabeça quase ao pé do lume, o moleiro, pegou no espeto do toucinho que era de ferro e disse-lhe:
- Olha Lucifer, o meu moinho é daqui, fez um risco bem fundo na terra, até aqui, e fez outro risco muito fundo a cortar o anterior, fazendo uma cruz! O Lucufer, viu a cruz mesmo na frente dos seus olhos, deu um grito estridente e esfumou-se! 
O ti José já não comeu o toucinho com pingo das cobras, enterrou-o, entrou em casa e comeu um pedaço de pão com queijo e, foi trabalhar para o moinho toda a noite, pouco passou pelas brasas! 
Ao nascer do sol, foi a correr ao lugar onde tudo se tinha passado para confirmar se tinha sido mesmo real ou se tinha sonhado em algum momento que adormeceu e, lá estavam as marcas das patas do Lucifer e, a cruz bem saliente no chão! 
Pouco depois, chegou um parente que morava na aldeia de Cabeça de Carneiro a informá-lo que a sogra tinha falecido durante a noite! Foi à Vila de Ferreira - Neves, ali ao lado,  chamar um homem que por vezes o ajudava, para ficar no moinho naquele dia e foi ao funeral da sogra!
Quando o ti José voltou ao moinho, contou tudo à ti Mariana e, foram a correr fazer cruzes bem visíveis, com cal branca, no moinho, na casa e nas rochas em redor, sendo até motivo de chacota por parte de alguns clientes que, inventavam o que lhes convinha, faziam décimas  e, alguns começaram a chamar-lhe o moinho das cruzes, pensavam que tinha a ver com feitiçaria! 
O ti José e a ti Mariana ficaram convencidos que, foram as cruzes a afastar o Lucifer daquele lugar e, acreditaram que a Ribeira era mesmo dele! 
As pessoas chamavam-lhe Ribeira do Lucefece (Lucefécit) para não pronunciarem a palavra Lucifer, porque, todos estavam convencidos que, se o pronunciassem ele aparecia! (Ainda hoje dizem: "Fala-se no diabo e ele aparece!"). 








  



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