terça-feira, 5 de dezembro de 2017

226 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A benzedura do  entorse do Manoel da ti Rosa 
O Manoel da ti Rosa, morador em Capelins de Baixo, trabalhava na herdade da Zorra e, naturalmente, fazia parte do rancho da ceifa! Num dia do mês de Junho, ao fim da tarde, depois da merenda, o manageiro, como habitualmente, mandou os mais novos, por serem mais ágeis a enrelheirar, (juntar os molhos de trigo em montes com as espigas todas para um lado, colocados na terra que se acabou de ceifar e com o mesmo número), para os rapazes e raparigas era uma brincadeira, uma disputa na rapidez, levavam um molho de trigo em cada mão ou debaixo do braço até ao lugar onde um homem fazia o relheiro! O Manoel era dos mais rápidos, enquanto não ficava estafado corria, corria! Nesse dia, assim que começou  a transportar os molhos de trigo colocou um pé na margem de um rego e quase caiu desamparado, sentiu grande dor no tornozelo do lado direito, mas equilibrou-se e continuou em frente, porém a dor continuava cada vez mais insuportável, mas não queria parar e dar parte de fraco, até que, já não se conseguia apoiar no pé e foi dizer ao manageiro o que se tinha passado! O tornozelo estava muito inchado, era impossível continuar a trabalhar! O mangeiro não gostou do que viu, chamou logo um rapaz e disse-lhe para ir ao Monte da Zorra buscar uma burra e para levar o Manoel a Capelins de Baixo. Assim que chegou a casa, a ti Rosa depois de se inteirar da situação, aqueceu água e começou a colocar panos com água quente no tornozelo do Manoel e, depois foi chamar a sua comadre Gertrudes para ela ver qual a benzedura apropriada ao caso! A comadre Gertrudes opinou que, antes das benzeduras era bom ir a um endireita e, depois logo se via o que ele dizia! 
Decidiram ir na madrugada seguinte ao endireita a Montoito, era longe, mas ele era dos melhores e, a ti Rosa foi logo pedir a burra à comadre Jacinta! O endireita aplicou a sua sabedoria e garantiu-lhe que não era partido, mas tinha muito a sofrer, porque era um entorse muito mau, ensinou-lhe umas mesinhas e, ainda com sol, já estavam em Capelins de Baixo! A comadre Gertrudes foi logo saber o que o endireita tinha dito e depois de saber que era entorse prontificou-se a iniciar a respetiva benzedura, mas o Manoel disse-lhe que não era preciso, porque tinha as mesinhas do endireita e depressa se curava! A ti Gertrudes não gostou da recusa do Manoel, virou-lhe as costas dizendo: Curas, curas, deixa estar que depressa vais ter comigo! 
O Manoel aplicava as mesinhas do endireita, mas passados três dias, não se encontrava nada melhor, a mãe dizia-lhe que já tinha eripsela e, tinha de ser benzido pela comadre Gertrudes, mas ele ainda se aguentou mais um dia, até que, não teve outro remédio senão aceitar as benzeduras da comadre Gertrudes! 
Passaram poucos dias e já se verificavam grandes melhoras! O Manoel, passou duas semanas em casa e, muito devagarinho voltou à ceifa, sem poder enrelheirar!
Mais uma vez, o Manoel da ti Rosa, teve de acreditar nas benzeduras da comadre Gertrudes!

Benzedura do Entorse
O nervo torcido corresponde às entorses e luxações, também designados por ossos desmanchados. Para as tratar, faz-se a benzedura do nervo torcido que, repetidas nove vezes, alivia as dores. E dizia a comadre Gertrudes:
Jesus que é o Santo nome de Jesus,
Onde está o Santo nome de Jesus,
Não entra mal nenhum.
Cosia com uma agulha e um novelo de linhas, ao mesmo tempo que dizia:
- Eu coso.

O Manoel respondia:
Carne quebrada linha torcida e nervo torto! 
É mesmo isso que eu coso,
Cose a Virgem melhor que eu coso.
A Virgem cose pelo são e eu coso pelo vão.
Em louvor de Deus e da Virgem Maria.
Padre Nosso... Avé Maria...
Depois de fazer a benzedura, molhou os dedos em azeite e esfregou a parte dorida e rezou um Padre Nosso e uma Avé Maria a Santo Amaro, advogado das pernas e braços, e ofereceu à Sagrada Morte e Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Ferreira de Capelins (Capelins de Baixo)





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