segunda-feira, 20 de novembro de 2017

223 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do cavaleiro fantasma em Capelins 
Nos mês de Abril do ano de 1710, tudo decorria serenamente nas terras de Capelins, até ao dia em que, estava o cozinheiro do Monte da Amadoreira, o Ti Manoel Gomes, a encher os tarros (marmitas feitas em cortiça), com as sopas do jantar (almoço) para levarem aos criados que andavam a trabalhar nas terras desta herdade e, entrou um homem alto, vestido de negro, com a cara tapada por um lenço seguro pelo chapéu, pegou em dois tarros  e pediu ao ti Manoel  para meter dois pães e uns queijos dentro de um saco, ao mesmo tempo que lhe mostrava uma grande faca de dois gumes e, lhe fazia sinal para não gritar, senão era o seu fim, fazendo o gesto que o degolava! O ti Manoel, cumpriu as ordens rapidamente e, o homem saiu da cozinha sem ser visto por mais ninguém! Assim que o ladrão se afastou, o ti Manoel começou a gritar por socorro que o tinham roubado, alguns criados e, os lavradores entraram logo na cozinha para saber o que se tinha passado e, logo a seguir correram por todos os lados em volta do Monte, mas não avistaram ninguém! A partir desse dia, surgiu um grande mistério, não só pela ousadia do ladrão, ao fazer o roubo em pleno dia, mas também por ninguém o conseguir avistar, além do cozinheiro! A notícia depressa se espalhou pelas redondezas, causando muitos comentários, cada um dizia a sua opinião sobre o acontecimento, sempre com ironia! Porém, quando o assunto estava quase esquecido, repetiu-se outro roubo tal e qual como tinha acontecido no anterior, mas no Monte do Roncão, onde igualmente, só o cozinheiro deste Monte viu e ouviu o ladrão! Durante três meses todas as semanas se repetia o roubo, variando pelos Montes, da Amadoreira, Roncão, Talaveira, Negra e Zorra! Os lavradores, os filhos, alguns criados, com cães tentavam perseguir o ladrão, que deixava sempre o cavalo escondido nos matos próximos, seguiam-lhe o rasto, mas nunca o conseguiam avistar, entao mandaram chamar o melhor matador de lobos das terras de Capelins, o ti Miguel Afonço, que morava num cabanão no Bolas, convencidos que o ladrão não lhe escapava, fizeram-lhe o ponto da situação e o que tinham feito, onde tinham encontrado o rasto do cavalo e prometeram-lhe o obro que lhe pagavam por cada lobo, 100 reais brancos, se ele o apanhasse, morto ou vivo! O ti Miguel aceitou o trabalho e só disse: "Amanhã já aqui o têm"! Foi imediatamente com os seus cães farejar o rasto do cavalo e seguiu pelos matos na direção da Ribeira de Lucefécit! Já tinham passado mais de oito dias e, não havia notícias do ti Miguel, mas o ladrão continuava a fazer a sua colheita de comida, até que o ti Miguel matador de lobos apareceu, mas a desistir do trabalho, porque não podia ser uma coisa normal, até os cães dele lhe perdiam o rasto, parecia que o cavaleiro desaparecia da face da terra, não era coisa boa e, o melhor era desistir, dava-se melhor a caçar os lobos! Os lavradores ainda lhe ofereceram o dobro, 200 reais brancos, mas ele negou, porque já tinha batido toda a região palmo a palmo e não tinha encontrado nada! 
Quando, nas terras de Capelins, as pessoas souberam da desistência do ti Miguel, ficaram assustadas e, começaram a inventar coisas maléficas, uns diziam que era o diabo em pessoa, uma alma penada, um lobisomem e outras coisas, mas não percebiam como é que  só os cozinheiros o conseguiam ver?  As mulheres diziam orações e faziam mesinhas para o afastar dali! Os homens armados com paus ferrados, machados e forquilhas, cercavam os Montes nas horas do jantar e da ceia, andava tudo em alvoroço! 
Ao fim de alguns dias, o ladrão desapareceu das terras de Capelins e, os homens diziam que tinha sido com medo deles e não tinham dúvidas que era um homem, porque uma alma do outro mundo ou o diabo não precisavam de comida, mas as mulheres afirmavam que tinham sido as orações e as mesinhas delas a afastá-lo dali! 

Um mês depois, chegaram dois fidalgos às terras de Capelins, fazendo perguntas sobre o paradeiro de um homem, do qual davam os sinais descritos pelos cozinheiros! Foram seguindo as indicações e, chegaram à fala com os respetivos lavradores roubados pelo  cavaleiro fantasma e, sob compromisso de lhes contarem quem ele era e desvendarem o segredo de como os enganava, conseguindo escapar-lhes, juntaram os ofendidos no Monte da Talaveira! 
Os fidalgos ouviram os lavradores e, não conseguiram aguentar sem rir, o que não agradou aos lavradores! Isso é mesmo dele, comentavam os fidalgos! Mas ele quem? O fantasma? Perguntaram os lavradores! 
Fidalgos: Não, não é nenhum fantasma, é considerado o melhor mestre ferreiro e ferrador do reino, é o João de Resende de Évora! 
Lavradores: Mas os senhores fidalgos vêm aqui fazer pouco da gente? 
Fidalgos: Não, não, viemos com todo o respeito e, pelo que nos contaram temos a certeza que é o mestre João! 
Lavradores: Então, e como é que esse João ferrador nos enganou a todos? Como conseguia fugir e desaparecer no fim do rasto? Nunca ninguém o viu, a não ser os cozinheiros e, nem o melhor matador de lobos o conseguiu apanhar! 
Fidalgos: Sim! O mestre João tem grande passado, foi militar muito novo é muito experiente em artes militares, os senhores e, esse matador de lobos que falam, seguiam-lhe o rasto ao contrário! 
Lavradores: Ao contrário? Como assim? Estão outra vez a fazer pouco da gente! 
Fidalgos: Não estamos a fazer pouco de ninguém, já lhes dissemos que ele é considerado o melhor ferrador do reino, então, o que ele fez para despistar quem o perseguia foi ferrar o cavalo ao contrário, pregou as ferraduras das patas de trás, nas da frente e, as da frente nas de trás, com tal perfeição que não atrapalhavam o animal e, quando o cavalo seguia numa direção, deixava o rasto em sentido contrário, dando uma pista falsa! Assim, os senhores eram enganados, seguiam o rasto do cavalo quando ele vinha em direção dos Montes e,  nunca seguiam o verdadeiro, quando ele fugia!  
Lavradores: Essa agora! Grande malandro! Ainda o vamos pendurar num chaparro! Fidalgos: Pedimos desculpa, nós pagamos tudo o que ele lhes levou! 
Lavradores: Até podem pagar tudo, mas a nossa honra não a compram, porque não a vendemos! 
Fidalgos: Sabemos que, têm razão, por isso, lhes pedimos desculpa, queremos chegar a um entendimento, viemos procurá-lo, com a benção do senhor nosso rei D. João o quinto e, ele não vai gostar da vossa ameaça, não foi bem feito, mas o mestre fez isso por sobrevivência! 
Lavradores: Mas, porque motivo teve ele de vir sobreviver para aqui? 
Fidalgos: Ele veio até aqui, porque teve de fugir de Évora e o destino era Espanha, mas nós pedimos-lhe para esperar aqui uns dias, até o senhor nosso rei decidir se lhe dava ou não o perdão!
Lavradores: O perdão de quê? E porque motivo fugiu de Évora? 
Fidalgos: Porque, houve lá uma zaragata, fizeram-nos uma emboscada e, um fidalgo quase nos matou, foi o mestre João que nos salvou a vida, mas para nos defender matou o fidalgo sem querer e, quem matar um fidalgo não se livra da forca, por isso, teve de fugir e deixou lá a mulher e os filhos, nós pedimos justiça ao nosso rei, fizemos prova de que ele não foi culpado e, pedimos o perdão, o rei não o pode perdoar para não desonrar a nobreza, mas deu autorização para ele voltar para o nosso reino, mas tem de ficar a viver na Vila de Arronches com a família e, continuar lá o seu trabalho sem ser incomodado! 
Quando os lavradores ouviram os fidalgos e se aperceberam da valentia do mestre João, mudaram logo a conversa, começaram a dizer que não queriam receber nada da comida e, o que se tinha passado estava tudo esquecido, alguns ainda adiantaram que, tinham pena de não terem sabido isso, senão tinham recebido o ilustre João de Resende em sua casa! 

Depois de se entenderem e, como os lavradores não tinham ideia para onde o mestre João se teria sumido, só sabiam que, na Vila de Cheles decerto não estava, os fidalgos agradeceram e foram pelo rio Guadiana acima, pelo Aguilhão até ao porto da Estacada, onde passaram para o outro lado do rio e, a partir dali foram por São Bento da Contenda (San Benito) na esperança de saberem notícias do mestre João! Os fidalgos chegaram à dita aldeia, mas não conseguiram saber nada, continuaram por  São Domingos de Gusmão e São Jorge de Alôr, aqui encontraram um taberneiro natural de São Pedro do Corval, mas lá residente que, os informou ter estado ali o mestre João e, até lhe tinha dado guarida numa choça no quintal, mas tinha seguido para a Vila espanhola de Almendralejo, onde estava instalado com uma oficina de ferrador! Os fidalgos agradeceram a informação e, logo que lá chegaram foi fácil encontrar o mestre João! 
Depois de grandes cumprimentos, deram-lhe notícias da mulher e dos filhos, disseram-lhe que estavam bem, não lhes faltava nada e, comunicaram-lhe que, podia voltar, mas para a Vila de Arronches, onde teria de ficar uns tempos, até o caso da morte do fidalgo ficar esquecido, juntava-se lá a família, instalava a oficina e, eles com a graça do rei, garantiam-lhe que, não seria incomodado! O mestre aceitou e ficou muito contente, no dia seguinte voltou com os fidalgos ao reino de Portugal, a mulher e os filhos foram logo ter com ele à Vila de Arronches e, o mestre João deu-se tão bem, que nunca mais voltou a Évora! 
Alguns lavradores de Capelins, mais tarde, foram visitá-lo à Vila de Arronches, só para o conhecerem pessoalmente! Ele recebeu-os muito bem e pediu-lhes desculpa pelo sucedido, relembraram as peripécias passadas em Capelins, riram muito devido aos boatos que então se armaram, ferraram os cavalos sem ele querer qualquer pagamento, ficou em troca da comida que ele lhes tinha levado, comeram, beberam e ficaram muito amigos! O cavaleiro fantasma e a mulher, foram convidados pelos lavradores a voltar às terras de Capelins, em visita às suas casas e passar ali uns dias, mas isso nunca se concretizou. 
Assim, foi desvendado mais um segredo das terras de Capelins!     




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