quinta-feira, 2 de novembro de 2017

212 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas, contos e tradições das terras de Capelins 
A lenda da falsidade do lobo de Santa Luzia 
A herdade de Santa Luzia, situa-se no lado Este da Freguesia de Capelins, com a Ribeira de Lucefécit a impor a sua separação. Devido ás suas características geográficas, com muito mato, chaparros, depressões, como o entalão da moura e, também ao seu afastamento das aldeias, era uma região paradisíaca para os lobos, antes da sua extinção por aqui, os quais, invadiam constantemente o território de outros lobos residentes no lado de cá da dita Ribeira. 
No início do mês de Maio, do ano de mil oitocentos e noventa, o pastor da herdade do Roncão, o ti António Gomes, andava a guardar as ovelhas nesta mesma herdade, muito próximo da Ribeira e reparou que, do outro lado, estava um lobo muito bonito, diferente dos outros, nos olhos e pelagem! Pela sua experiência, deduziu que aquele lobo era chefe de uma alcateia, mas era estranho estar ali sozinho em pleno dia, tão perto dele e dos seus cães! Não deu ordem de ataque aos cães, porque o lobo parecia querer dizer-lhe alguma coisa, com os olhos fixos, em sinal de submissão e, assim ficaram ambos a fixarem-se durante alguns minutos, até que o lobo deu meia volta e desapareceu no mato! O pastor durante o resto do dia não pensou mais no lobo, mas passou a noite a sonhar com ele, um animal muito submisso, grande amigo, brincavam juntos, guardava e defendia as ovelhas dos outros lobos, muita amizade entre eles! No dia seguinte, estava no mesmo sitio a guardar as ovelhas e não tirava os olhos do lugar onde tinha visto o lobo no dia anterior e não demorou nada, lá estava ele, ainda mais perto com o mesmo olhar para o pastor e, este para ele! A partir daí, esta situação repetiu-se todos os dias, mais de um mês, o lobo estava sempre sozinho, cada vez mais tempo e, quando outros lobos se aproximavam já à noitinha, não era necessário atiçar os cães, era ele que não os deixava aproximar das ovelhas, muito do que tinha visto no sonho estava mesmo a acontecer! O pastor, andava cada vez mais descansado com o rebanho, já nem ligava à presença do lobo e esperava que um dia viesse a fazer-lhe festas e passar a mão  naquele pelo tão sedoso, já tinha estado a pouca distância e mostrava sempre submissão, não tinha dúvidas que o animal já estava amestrado!
Como tinha a choça em frente ao Monte do Roncão e sabia que os lobos nunca atacavam durante o dia, agora ainda com mais confiança por ter por ali o lobo, deixava os cães a guardar as ovelhas e ia lá jantar (almoçar) com a mulher e os filhos, mas não se demorava, ia dormir a sesta debaixo de um chaparro junto ao rebanho! Cada vez sentia mais segurança e um dia depois do jantar (almoço), pensou em dormir a sesta na choça, mas acordou sobressaltado, porque sonhava que uma alcateia de lobos atacava o rebanho, levantou-se e foi a correr, mas estava tudo calmo! Nos dias seguintes continuou a dormir a sesta na choça, cada vez mais descansado, até que, um dia, quando chegou junto dos chaparros onde as ovelhas acarravam, ficou aterrado, os cães estavam mortos e, o rebanho dizimado, muitas ovelhas mortas, outras feridas, um cenário aterrador, não conseguia perceber o que tinha acontecido! Caiu de joelhos e ficou a chorar, quando ganhou coragem foi ao Monte pedir ajuda! O lavrador e alguns criados foram com ele e encontraram uma situação muito triste, ninguém percebia o que tinha acontecido, como é que os lobos tinham atacado durante o dia, repararam que não tinha sido por fome, porque não tinham comido nenhuma ovelha, foi pelo prazer de matar! Enquanto andavam a tratar os animais, a enterrar outros, o pastor andou sempre a chorar e a exclamar: "Juro que vais pagar, vais, vais, grande falso, que bem me enganas-te"! Os criados não entendiam e pensaram que o pastor não estava bom da cabeça, devido ao que tinha acontecido! 
O lobo, nunca mais voltou, tinha enganado o pastor, ganhou a sua confiança e, assim que teve oportunidade, foi com a sua alcateia e dizimou-lhe o rebanho! 
Todos os anos eram feitas batidas aos lobos, porque matavam por aqui muito gado, assim, o pastor começou a participar nessas batidas porque sabia qual era o território da sua alcateia, na área do entalão da moura até ao Aguilhão, por isso, fazia questão de bater bem todo esse espaço geográfico, mas nada, o lobo era muito inteligente e conseguia escapar, ou tinha mudado de território! O pastor já andava sem esperança e com ideia de desistir de ir ás batidas, mas decidiu ir pela última vez, foi passando tudo a pente fino e, quando chegou ao entalão da moura deu de frente com ele a fixá-lo, gritou, gritou e levantou o pau ferrado na sua direção! O lobo fugiu à sua frente, o pastor foi a correr e a gritar para avisar os caçadores da presença do lobo e, ele foi meter-se mesmo na boca do lobo, ou seja nas portas de espera e, quando o pastor lá chegou o lobo estava tombado, ainda vivo, de olhos muito abertos, esperando a chegada do pastor, depois olho-o fixamente, como a pedir-lhe perdão pela sua falsidade e morreu! 
O pastor voltou imediatamente para junto do seu rebanho, a sua missão estava cumprida, mas nunca mais esqueceu aquele lobo! Continuou a pensar que, ele queria ser seu amigo e, só não foi, por ter sido traído pelo seu instinto, de matar! 
É caso para dizer: "Cuidado com esses lobos!"

Santa Luzia




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