terça-feira, 31 de outubro de 2017

211 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da sobrinha do Pároco de Capelins 
Nas últimas décadas de 1800, chegou ao fim da sua missão, mais um Pároco de Capelins, esperando a todo o momento a sua substituição e, era o tema das conversas em toda a Paróquia! Os paroquianos tentavam  adivinhar como seria o novo padre, porque desta vez era diferente, a vaga seria preenchida por um Cura que vinha da Paróquia de Redondo e não de Terena, por onde tinham passado todos os anteriores que, mais tarde passavam a Curas das respetivas Paróquias, por isso, era um mistério! 
Finalmente, o Cura José Fernandes chegou a Santo António, esteve alguns dias com o seu antecessor para este lhe explicar em que pontos se encontrava a Paróquia e quais os seus direitos e deveres perante os paroquianos! A primeira missa no Domingo, foi muito bonita, rezada pelos dois padres, um para fazer as despedidas e o outro para se apresentar! Foi um dia de festa em Santo António, nem um terço dos paroquianos tinham lugar dentro da Igreja de Santo António, todos queriam despedir-se do velho padre e, ao mesmo tempo conhecer o novo, porque decerto continuava a ser o tema das conversas na semana que se seguia! O padre José Fernandes já tinha quarenta anos e, com muita experiência em presença de multidões, por isso, sabia o que fazer para agradar aos fregueses e, de verdade foi fácil cativar os seus paroquianos que, no entanto, continuavam apreensivos sobre o motivo do padre querer vir meter-se nesta paróquia tão isolada! 
O novo padre instalou-se na casa paroquial e, começou a trabalhar imediatamente, com a ajuda do sacristão, foi conhecendo e sabendo quantos eram, quem eram e como eram os paroquianos, assim como, os mais e menos complicados, os mais beatos e beatas! O padre adaptou-se facilmente ao novo lugar e ao fim de três meses estava a par de todos os assuntos da Paróquia! 
Um dia começou a dizer ao sacristão, às beatas e aos vizinhos que moravam junto à igreja que tinha uma sobrinha a viver sozinha no Redondo e queria que ela viesse para junto dele, porque, embora ele não estivesse mal, a sobrinha estava sozinha e, assim, fazia-lhe a comida, lavava e passava a roupa a ferro e ficava melhor ali com ele! Em poucos dias esta novidade espalhou-se pelas terras de Capelins, havia grande curiosidade, como seria a sobrinha do padre, nova, bonita, feia, velha, cada qual imaginava-a à sua maneira! 
Passou menos de um mês, numa manhã, chegou à Igreja de Santo António uma carroça carregada com arcas de madeira cheias de roupas, louças e outros utensílios e, também vinha uma senhora muito bonita, bem vestida, bem penteada que, era a suposta sobrinha do padre, cumprimentaram-se efusivamente, à frente da comissão de boas vindas, formada pela vizinhança, beatas, e outros curiosos, o padre apresentou-a e, disse que se chamava Rosalina! Depois, alguns ajudaram a meter tudo em casa e, só ao fim do dia conseguiram ficar sozinhos, então, abraçaram-se beijaram-se e reiniciaram o que já se passava no Redondo, ou seja, a sua ligação amorosa, porque a Rosalina não era sobrinha do padre, mas sua amante, por isso, tiveram de sair do Redondo, porque a sua relação amorosa estava a dar que falar! Em Santo António, estavam mais resguardados dos olhos da censura, porque o lugar era isolado e, isso permitia-lhe viver a coberto da mentira! O tempo foi passando, a sobrinha do padre como era conhecida, era muito cobiçada por todos os rapazes em idade casadoira, passavam em ranchos em frente à casa paroquial, mas não conseguiam por-lhe a vista em cima, a não ser na presença do padre, mas por respeito, não se atreviam a olhá-la de frente! A Rosalina nunca saía sozinha, raramente ia a casa das vizinhas e pouco se demorava para não dar aso a conversas que a comprometessem! Tudo isso, intrigava os fregueses das terras de Capelins que, tentavam por todos os meios, saber da vida da Rosalina! 
Quando o padre chegou a Santo António, pediu ao sacristão para lhe indicar um barbeiro que fosse todos os sábados, de manhã, cortar-lhe a barba e aparar o cabelo, caindo essa escolha no mestre Manoel Carocho, homem de sessenta anos, já viúvo e, morador no Monte do Pinheiro o qual, pelas 11 horas de sábado estava sempre ao serviço do senhor padre!
 No primeiro sábado em que a Rosalina já estava na casa paroquial, o padre apresentou-a ao mestre Manoel como sendo sua sobrinha que vinha viver com ele para Santo António e depois do serviço de barbeiro feito, perguntou-lhe se tinha jantar (almoço)!
Ti Manoel: Tenho, sim senhor padre, nos sábados antes de vir deixo sempre as sopinhas cozidas, depois ao chegar é logo jantar (almoçar)!
Padre: Hoje, não vai comer as suas sopas ao meio dia, ti Manoel, come-as à noite, agora come aqui com a gente, a minha sobrinha cozinha muito bem e contou consigo para o jantar (almoço)!
Ti Manoel: Não, agradeço-lhe mas não quero incomodar, fica para outra vez! Vou-me já embora!
Padre: Não, ti Manoel, é como eu disse, ponha aí o estojo e logo vai depois de jantar!
O ti Manoel não teve como dizer que não e, ficou para o jantar!
A Rosalina sabia cozinhar muito bem e o ti Manoel nunca tinha comido um jantar tão bom! No sábado seguinte repetiu-se  a mesma situação, o ti Manoel não queria, mas o padre insistiu e teve de ficar para jantar e partir daquele sábado nunca mais deixou de jantar (almoçar) com o padre e com a Rosalina, crescendo cada vez mais a amizade entre o três! 
O padre e a Rosalina faziam vida de marido e mulher, sem darem nas vistas, pensavam eles, viviam em grande felicidade! Os anos foram passando, sem nenhum problema, até ao dia em que a Rosalina descobriu que estava grávida, esse dia e os que se seguiram,  foram um pesadelo para ambos, não comiam, não dormiam sempre a pensar como poderiam resolver a situação! As hipóteses não eram muitas, ou o padre despia a batina e sobre grande vergonha saíam de Santo António defraudando os paroquianos, mas depois como iam viver? Que vida podiam dar ao filho ou filha que vinha a caminho? A Rosalina propôs-lhe ir ela embora para o Redondo ou para Évora, teria a criança longe dali e, à noite abandoná-la na roda da Misericórdia! O padre disse-lhe que nem pensar, era um crime moral e não podia abandonar um filho! Pensavam, pensavam e não encontravam uma solução com sentido! Numa noite em que não fecharam os olhos, pelas cinco da manhã, o padre chamou a Rosalina, estás a dormir? 
Rosalina: Não, até agora ainda não fechei os olhos! 
Padre: Nem eu! Olha, acho que encontrei a solução para o nosso problema, se tu aceitares! 
Rosalina: Então diz lá, decerto que aceito! 
Padre: Como sabes, o ti Manoel Carocho, o meu barbeiro, é viúvo, nada o impede de casar! Tu és solteira, nada te impede de casar! Eu sou padre, posso fazer o assento do casamento! Sei que o ti Manoel nos vai ajudar, é um casamento só no papel, mas depois tem de assinar como pai do nosso filho, custa-me muito isso, mas não encontro outro caminho! Tenho de lhe contar tudo, mas sei que mesmo que ele não aceite, não abre a boca! Mas tenho de lhe oferecer em troca que tratamos dele até ao fim da vida! Estás de acordo? 
Rosalina: Não sei! Custa-me muito fazer parte dessa mentira, mas aos olhos de Deus já estamos perdidos, por isso para viver contigo, não me importo e também não encontro nada melhor! Mas temos outro problema, quando o nosso filho ou filha nascer, ainda não há nove meses de casados! 
Padre: Pois não! Mas já pensei em tudo! Vou dizer às beatas que tu já andavas com ele há muito tempo e que eu os apanhei juntos, assim explica-se a diferença desse tempo! Agora só falta o ti Manoel aceitar! 
Rosalina: Pois! Não te esqueças que eu tenho trinta e uma anos e o ti Manoel tem sessenta, isso vai dar falatório! 
Padre: Não te preocupes! Deixa lá isso, há por aí muitos casos desses de viúvos casados com mulheres muito mais novas! Eu remedeio isso! 
Rosalina: Então, sendo assim, trata disso com o ti Manoel, eu só quero é ficar contigo aqui em Santo António!
Padre: Está bem, é no sábado, fazes um bom jantar (almoço), para o deixares impressionado e depois do jantar eu falo com ele! 
Conforme estava planeado, depois do jantar, a Rosalina meteu-se no quarto e o padre disse ao ti Manoel que queria falar com ele para lhe fazer um pedido, ele nem o deixou falar, disse-lhe que sabia o que o padre lhe queria pedir, não valia a pena muitas explicações! O padre ficou surpreendido e o ti Manoel disse-lhe que ele e a Rosalina habituaram-se à sua presença e esqueciam-se de disfarçar, já havia muito tempo que sabia do seu envolvimento, como também sabia que a Rosalina estava grávida, pela mudança do seu corpo e estava disposto ajudá-los! O padre ainda insistiu em querer contar os pormenores da proposta, mas o ti Manoel repetiu que não valia a pena dizer mais nada, era só ele falar com os filhos e o padre podia tratar logo do casamento, no papel, claro! 
Quando nas terras de Capelins e arredores as pessoas souberam do casamento, ninguém queria acreditar, como é que uma rapariga como a Rosalina, tão nova, tão linda, com tantos rapazes, alguns ricos que queriam casar com ela foi escolher o ti Manoel! Houve muitos comentários: Isto são os tempos, anda tudo ao contrário! Outros diziam: Foi ele que enganou a rapariga, sempre metido lá em casa apanhou-a sem ela dar por isso e o padre nem via nada! 
O casamento foi registado e, sete meses depois, o ti Manoel foi pai de um menino! Para convencer os fregueses o ti Manoel ficou lá uns dias em casa e começou a frequentar ainda mais vezes a casa do padre, dormia lá uns dias pelos outros ou ia de madrugada para depois sair e fingir que tinha lá dormido! O tempo foi passando sem nenhum comentário de relevo e, três anos depois o ti Manoel foi novamente pai de outro menino, houve mais comentários mas nada que desse muito que falar! 
O aparente trio amoroso continuava, sem nada de anormal, mas cinco anos depois o ti Manoel adoeceu com uma pneumonia e ficou em casa do padre, mas estava cada vez pior e passados quinze dias fizeram-lhe o funeral, ficando a Rosalina viúva e com trinta e nove anos! A morte do ti Manoel não deixou de ser um alívio, mas só até ao momento em que a Rosalina descobriu que estava grávida, o problema era que engravidou um mês depois do falecimento do marido, logo a gestação seria de dez meses! Não havia nada a fazer! Quando a criança nasceu, uma filha, o padre recuou quinze dias no nascimento e os outros quinze passaram despercebidos, porque ainda havia quem dissesse que o ti Manoel ainda fez uma filha depois de receber a estrema unção! 
Passados mais cinco anos a Rosalina ainda teve outra filha, mas o padre encarregou as beatas de dizerem que era filha de um lavrador que não queria dar a cara e então foi registada como filha de pai incógnito e o problema ficou resolvido! 
Era uma família baseada na mentira, mas muito feliz, os filhos nasceram e cresceram em Santo António, aprenderam a ler e escrever com os pais e os rapazes quando chegaram à idade própria foram estudar para o Seminário de Évora, mas não seguiram para padres, ao fazerem os seus estudos foram admitidos como funcionários do reino, casaram e organizaram família em Évora, as suas irmãs foram para sua casa de onde saíram para casar com rapazes de boas famílias! O padre José Fernando e a Rosalina também acabaram as suas vidas em Évora, perto dos seus filhos e netos!
Nas terras de Capelins, toda a gente soube a verdade! Os filhos não eram do ti Manoel, mas do padre José Fernandes e a Rosalina não era sua sobrinha, mas mulher! Este insólito acontecimento, foi sendo contado de geração em geração, chegando aos nosso dias e todos os capelinenses o conhecem.

Lenda inspirada na vida do padre Passarinho da Paróquia de Capelins

Santo António - Capelins


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